“Cobertura da mídia sobre mulheres na revolução curda é superficial”, diz militante

Movimento das Mulheres no Curdistão tem se firmado como uma das mais belas iniciativas de empoderamento feminino

José Eduardo Bernardes

Brasil de Fato | São Paulo (SP), 21 de Setembro de 2016
Militantes da União de Proteção das Mulheres na frente de batalha do exército curdo / Wikicommons
Militantes da União de Proteção das Mulheres na frente de batalha do exército curdo / Wikicommons

O Curdistão é a maior nação sem um Estado do mundo. Sua população está espalhada pelo Iraque, Síria, Turquia e Irã, mas, na verdade, é como se não pertencessem a nenhum desses lugares. Enquanto lutam para serem reconhecidos de fato, os curdos resistem às tentativas de extermínio de seu povo pelo governo turco e pelo Estado Islâmico.

Na frente de batalha dessa revolução está o Movimento de Libertação das Mulheres no Curdistão, que tem se firmado como uma das mais belas iniciativas de empoderamento feminino. Tanto como parte integrante do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta pela independência curda, quanto na linha de frente armada que combate os turcos e o grupo extremista radical, as mulheres são pilares da revolução. Em 2015, elas estavam no fronte de batalha que expulsou o Estado Islâmico da cidade síria de Kobani.

Em setembro deste ano, a morte da combatente curda Asia Ramazan Antar, de 19 anos, que também era militante da União de Proteção das Mulheres (YPJ), brigada feminina do exército do PKK, foi transformada pela imprensa mundial em um espetáculo de objetificação da mulher curda, deixando de lado a importância da luta que elas travam por autodeterminação.

Para *Jinda Nurhak, integrante do Movimento das Mulheres do Curdistão, essa é uma clara tentativa de “esvaziar o contexto ideológico da real luta dessas mulheres”, afirma.

“Para nós, a beleza vem de dentro e, por isso, essas mulheres estão sempre sorrindo: porque a ideia de que a beleza vem de dentro as torna mais felizes”, completou Jinda.

A militante do PKK, que falou com exclusividade ao Brasil de Fato, destaca a abordagem negativa da mídia ocidental durante a cobertura dos acontecimentos no fronte de batalha contra o Estado Islâmico.

“A ideologia por trás da cobertura da mídia sobre a presença feminina na revolução é sempre superficial. A CNN [canal de notícias norte-americano] inclusive fez uma reportagem questionando porque elas não se maquiam”, diz.

Jinda também comentou sobre a questão feminina no Curdistão e como ela mesma ingressou na revolução curda. Confira alguns trechos da entrevista:

Brasil de Fato: Como nasceu a Unidade de Proteção das Mulheres?

Jinda Nurhak: O que aconteceu em Rojava, no Curdistão da Síria, mostrou que os curdos devem ter seu próprio sistema de defesa. A Unidade de Proteção das Mulheres veio de um contexto de mulheres que já lutavam no PKK. É uma rica história de mulheres tomando poder na Revolução Curda, nos últimos quatro anos.

Como as mulheres têm lutado para garantir seus direitos no Curdistão? 

A sociedade curda, na verdade, é diferente das outras na região, e as mulheres sempre ocuparam um lugar significativo. Enquanto as outras sociedades foram atingidas pelas leis islâmicas, na sociedade curda, muitas tribos são conhecidas por terem uma mulher como liderança. Mas, assim como os curdos são oprimidos por países estrangeiros, as mulheres também o são.

Assim que o movimento de revolução começou, desde o primeiro dia, as mulheres tomaram lugar nesse processo. Mas, antes disso, não havia conhecimento o bastante dos direitos das mulheres. Então, não existiam movimentos autônomos feministas e forças militares. Isso tudo veio somente depois.

Desde o início do PKK, o líder do partido, Abdullah Ocalan, dizia que o papel das mulheres nessa revolução não é apenas por questões nacionais, somente pela independência curda, mas sim para debater seus problemas como mulheres. Então, a partir daí, o nosso papel ficou cada vez mais relevante na revolução curda.

O caso da morte da jovem combatente Asia Ramazan Antar mostrou como a mídia tem reagido às mulheres que estão na linha de frente de batalha na Síria e no Iraque. Como o movimento vê essa abordagem e os questionamentos sobre a União de Proteção das Mulheres?

Desde o início, a mídia ocidental, especialmente, tem abordado a União de Proteção das Mulheres de uma maneira muito popularesco, de um jeito consumista. A ideologia por trás da cobertura da mídia sobre a presença feminina na revolução é sempre superficial. A CNN, inclusive, fez uma reportagem questionando porque elas não se maquiam e fazendo outras perguntas desse gênero.

Até mesmo a cultura ocidental consumista tentou alcançar as mulheres curdas, quando uma marca de roupas chamada H&M lançou uma linha de roupas utilizadas pelas curdas. As vendas só foram interrompidas pela quantidade de protestos que geraram.

O que eles querem fazer é esvaziar o contexto ideológico da luta dessas mulheres. Para nós, a beleza vem de dentro, e por isso essas mulheres estão sempre sorrindo: porque a ideia de que a beleza vem de dentro as torna mais felizes. Então, nós criticamos a maneira que o Ocidente aborda as nossas mulheres revolucionárias.

Como você ingressou na revolução curda, mais precisamente na União de Proteção das Mulheres?

Eu venho de uma família patriótica. Quando era mais jovem, eu não tinha ideia do que representava ser uma mulher e da luta das mulheres. Era movida por um sentimento nacionalista. Mas um livro que eu li que explicava como as mulheres curdas eram torturadas quando eram capturadas pelo governo turco me afetou bastante.

Depois de entrar no movimento e ver os treinamentos políticos da organização, para mim, os aspectos nacionais da luta passaram a segundo plano e deram lugar à luta ideológica das mulheres.

*A pedido da fonte, seu nome foi alterado.

Edição: Camila Rodrigues da Silva

Publicado em Brasil de Fato.

Analisando as YPG: Operaçons e estratégias como Defensores de Rojava

analissando-as-ypgpor Wladimir van Wilgenburg

As YPG (Unidades de Protecçom do Povo curdas) é a força mais eficaz no terreno na Síria luitando o ISIS (Estado Islâmico). Seu sucesso contra o ISIS significa que o “califado” está lentamente entrando em colapso. Apesar do enorme papel que as YPG jogam, pouco se sabe sobre a estrutura e as capacidades do grupo que em 2012 capturou a maioria dos territórios curdos no norte da Síria.

As YPG conseguirom ganhar o apoio da coalizom liderada polos EUA contra o ISIS durante a sua defesa da cidade curda de Kobane em 2014-2015. Desde o assédio de Kobane, os curdos sírios ganharom ainda mais simpatia e apoio do Ocidente como um dos poucos grupos dispostos e aptos para derrotar o ISIS.

Ao contrário dos rebeldes árabes sírios, as YPG nom estám dispostas a trabalhar com islâmistos que som apoiados por Estados sunitas da regiom. As YPG seguem a chamada terceira linha: nom apoiar a oposiçom nem o regime sírio, já que ambos rejeitam qualquer forma de direitos dos curdos. Como resultado, chocam tanto com o regime, como também com os rebeldes sírios.

Contexto

Os três a quatro milhons de curdos sírios nom tinha nengumha experiência da insurgência armada na Síria contra o regime Ba’ath até a guerra civil. Eles nom tinham um partido curdo independente sírio forte e, como resultado, eram dependentes tanto do KDP (Partido Democrático do Curdistam) que focava a luita contra o Estado iraquiano ou o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistam) que luita em Turquia.

Como resultado, muitos curdos sírios juntarom à luita como forças Peshmerga em 1960 e 1970 no Iraque, ou com o PKK contra o Estado turco desde a década de 1980. O regime de Assad por alguns anos concedeu refúgio ao PKK na década de 1990 até que Assad restaurou os seus laços com a Turquia. O uso das bases sírias e libaneses do PKK ajudou a construir o apoio entre os curdos na Síria. O PYD (Partido da Uniom Democrática), ligado ao PKK, foi criada na Síria no 2003.

Portanto, tanto o KDP e o PKK tinham umha base de apoio no norte da Síria e ambos começarom a desempenhar um papel através dos seus representantes e partidos curdos mais pequenos quando o regime Baath sírio perdeu o control sobre grandes partes do norte da Síria em 2012.

A ideia inicial do PKK para formar as YPG iniciou-se no 2004, após o regime sírio reprimiu a revolta curda naquel ano. Grupos de auto-defesa das YPG forom formados mais adiante no 2011 e começou a organizar-se clandestinamente nas cidades curdas.

Primeira Fase

Quando a sede da segurança nacional do regime sírio em Damasco foi bombardeada o 18 de Julho de 2012, matando muitos agentes importantes de segurança, o PYD / YPG viu umha oportunidade e, o 19 de julho, iníciou o que eles descrevem como a “revoluçom de Rojava”. Primeiro tomarom o control de Kobane desde que era umha “fortaleza” do PKK sem presença de forças do regime. A cidade de Afrin foi igualmente tomada rapidamente, mas a província de Hasakah foi mais difícil devido à presença de forças do regime.

A libertaçom progrediu em três etapas: em primeiro lugar, tendo como objetivo o regime nas aldeas que actuavam como bases avançadas das YPG; segundo, confiscando as instituiçons de serviço do regime, tais como centros de electricidade, água e juventude; e terceiro, assumindo as sedes militares, espalhrom-se sobre toda a província, exceto a cidade curda de Qamishli, onde as forças do regime permanecem até hoje.

Como resultado de umha posiçom dominante no chao polas YPG, outros grupos curdos sírios alinhados com o KDP de Massoud Barzani forom marginalizados. Barzani apoiou a criaçom das forças ” Peshmerga de Rojava ‘no Curdistam iraquiano em 2012, que agora luitam na província de Mosul contra o ISIS, mas as YPG nom lhes permitirom entrar em Rojava ao temer umha guerra civil semelhante ao do Iraque curdo na década de 1990 e nom querem a concorrência dos curdos de Barzani.

Segunda Fase

Após a YPG assumiu o control da maior parte dos três enclaves curdos de Kobane, Afrin e Jazira (Hasakah), e assegurou a cidade de Serekaniye (Ras al-Ayn) em 2013, as auto-administraçons locais forom criadas para organizar a administraçom em três cantons separados em janeiro de 2014. Após isso, o principal objetivo das YPG era unir esses cantons em um território contíguo no norte da Síria.

As YPG também moveu-se para recrutar nom-curdos e trabalhar com tribos árabes locais e grupos cristians. Isto resultou, em setembro de 2014, em uma sala de coordenaçom conjunta com o FSA (Exército Livre Sírio) em Kobane. Receando essa coordenaçom receberiam apoio dos EUA, o ISIS assediava Kobane em setembro de 2014, mas foi derrotado lá em Março de 2015. Em Junho de 2015, as YPG empurrado mais e uniu os cantons de Kobane e Jazira, com o apoio dos Estados Unidos, através da captura de Tel Abyad. A avançar este movimento, as YPG criou a multi-étnica SDF (Forças Democráticas da Síria) em outubro 2015.

O objetivo das YPG agora é unir todos os cantons com as SDF, e configurar umha regiom federal no norte da Síria e Rojava, num prazo de três meses. Em maio de 2016, as SDF lançarom umha nova operaçom, com o apoio dos EUA a tomar a cidade estrategicamente crítica de Manbij. Com esta operaçom que foi concluída o 12 de agosto, as YPG esperavam unir as suas administraçons através de Manbij e al-Bab cara Afrin.

Consideraçons Finais

Parece que a Turquia fixo acordos com o Iram e Assad para parar a criaçom de umha regiom federal no norte da Síria.

O PYD conseguiu ganhar umha posiçom dominante no norte da Síria através das YPG, enquanto os partidos ligados ao KDP estam marginalizados no chao. As YPG conseguirom dominar rapidamente, devido ao planejamento cedo, Rojava, enquanto os partidos apoiados por Barzani nom estavam preparados, e inicialmente apoiarom ‘a revoluçom síria pacífica “. As YPG forom formadas antes dos Peshmerga de Rojava, e já se tornarom em autoridade de facto no terreno. Foi também mais arriscado para Barzani envolver-se na guerra civil síria, tendo que proteger a regiom autônoma do Curdistam no Iraque.

As forças das SDF acabam de derrotar o ISIS em Manbij, mas a questom é se a coalizom liderada polos EUA permitirá que as SDF marchem sobre mais cara Afrin, ou se vam empurrá-los para se concentrar em Raqqah, onde os curdos som relutantes a ir. Além disso, a intervençom da Turquia, na cidade de Jarabulus no último mes visa prevenir a unificaçom das auto-administraçons locais no norte da Síria. Parece que a Turquia fixo acordos com o Iram e Assad para parar a criaçom de umha regiom federal no norte da Síria e apoia os rebeldes sírios a tomar Jarabulus. Isto poderia criar mais desafios para as YPG. No entanto, é evidente que as SDF seram um parceiro fundamental de Ocidente, atee que a ameaça do ISIS exista na Síria.

 

Wladimir van Wilgenburg é um analista da política curda para Jamestown Foundation e jornalista freelance. Está atualmente em Qamishli, Rojava, norte da Síria, realizando um projecto de investigaçom sobre os curdos sírios para o Instituto Iraquiano de Estudos Estratégicos (IIST), financiado polo International Development Research Centre (IDRC). He tweets at @vvanwilgenburg.

 

Publicado em The London School of Economics and Political Sciences.

 

 

A KRG continua a ocultar a cumplicidade de Comandantes Peshmerga no genocídio jazedi 2 anos mais tarde

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3 de agosto do 2014: As forças Peshmerga fugem de Shingal, deixando os civis nas maos do ISIS (Ronahi TV)

“Imos morrer, todos imos morrer”, dixo um Jazidi a câmera enquanto milheiros de soldados do Governo Regional do Curdistam (KRG) estavam fugindo do campo de batalha. Era o 3 de agosto de 2014, o dia em que o Estado Islâmico invadiu a área de assentamento autoctono da minoria Jazidi de Shingal e cometeu um genocídio. Os comandantes Peshmerga, juntamente com os seus 11.000 soldados a cargo da regiom fugiram no meio da noite e as primeiras horas da manhaá, deixando os civis para os executores do ISIS. Nom teria havido nengum genocídio se os Peshmerga do Partido Democrático do Curdistam (KDP) cumpriram o seu dever e responsabilidade. Poucas horas de resistência teria sido suficiente para salvar milheiros de pessoas da morte e outras milheiras de mulheres e crianças da escravitude. Inicialmente dixo-see que houvera um “recuo tático” ou que as forças Peshmerga nom possuiam acesso a suficientes armas para a defesa da regiom. Ambas as alegaçons provarom-se falsas.

O presidente curdo e comandante supremo dos Peshmerga, Massoud Barzani, anunciou a sua intençom de levar os comandantes responsáveis à justiça e puni-los. Os membros do Comité Central do KDP anunciarom, além disso, abrir umha investigaçom sobre a fuga dos Peshmerga de Shingal, incluindo a Ali Awni: “Os Peshmerga deixarum os seus deveres e abandonarom as suas posiçons quando nom deviam”. Palavras claras, que nunca forom seguidas por açons. Logo Barzani elogiou os seus Peshmerga e sua coragem em Shingal – a coragem daqueles que tinham anteriormente abandonado mulheres e crianças.

Um suposto comitê de investigaçom aprovado por Barzani interrogarom, de acordo com o KDP, 200 comandantes Peshmerga que tinham estado destacados em Shingal o 3 de agosto e fugirom da área quando o Estado Islâmico lançou a sua ofensiva. Nom houvo nengum resultado nem consequências.

Os comandantes que tinham sido implantados em torno a Shingal ainda estam livres – fiéis membros do KDP que podem contar com o governo para evitar os processos. Quando os Peshmerga, a maioria dos quais estavam filiados ao Partido Democrático do Curdistam, abandonarom as suas posiçons, combatentes Peshmerga que se dirigiam a Duhok abrirom fogo e assassinarom vários membros Jazidis Peshmerga que tinham parado o seu comboio e pedirom-lhes que luitaram ou deixaram polo menos armas para trás a fim ser capaz de se defender. Antes disso, os Jazidis tinha sido desarmados polos Peshmerga do KDP que lhes prometeram cuidar da sua segurança.

O governo curdo, no entanto, nom abordou a questom e comprometeu-se a tentativa de reabilitar a Aziz Waysi, comandante superior da Brigada Peshmerga Zerevani que fugiu de Zumar e abriu a porta para o ISIS, no leste de Shingal, em novembro do 2015, com a ajuda de “jornalistas” que cobriam a libertaçom da cidade de Shingal. Waysi foi teatralmente retratado por VICE News como um comandante sem medo, como se el nunca fora responsável pola queda da region. El nom enfrentou umha condena pola infraçom voluntária ou negligente do seu dever, nem umha investigaçom séria.

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Aziz Waysi (VICE News)

Hoje, dois anos após o genocídio, o Governo Regional do Curdistam dirigido polo KDP (KRG) está tentando tudo para esconder a cumplicidade dos seus Peshmerga. Apesar de apoiar abertamente os esforços para o reconhecimento do genocídio contra os Jazidis, a KRG estivo, ao mesmo tempo tentando pôr o seu selo pessoal sobre a narrativa do que aconteceu em Shingal.

O Ministro de Relaçons Exteriores curdo Falah Mustafa, que por um acaso é membro do KDP, apresentou um relatório sobre Shingal ao escritório do Tribunal Penal Internacional, em Den Haag. O relatório foi elaborado polas organizaçons Jazidis Yazda e FYF que figerom um incrível trabalho para a comunidade Jazidi. O relatório que Falah Mustafa apresentou ao TPI, no entanto, nom menciona umha soa vez a debandada das forças Peshmerga diante o ISIS, sublinhando a pressom que o KDP tem buscado colocar em Jazidis. Em um novo relatório, detalhado e escrito de forma independente, no entanto, Yazda chamou a atençom da debandada das forças Peshmerga diante o ISIS que levou à queda de Shingal e permitiu ao ISIS realizar um genocídio. Pedindo justiça para os Jazidis, como Falah Mustafa fai, enquanto cobrendo aos responsáveis deve ser visto como umha absoluta paródia.

Umha comissom nomeada polo Conselho dos Direitos Humanos da ONU sob Paulo Pinheiro para investigar os crimes do ISIS classificam as atrocidades da organizaçom terroristas contra os Jazidis como genocídio e divulgou um relatório salientando o papel central dos Peshmergas para que caira a regiom e, finalmente, o genocídio. Os Peshmerga, que eram a única força de segurança na regiom, fugirom, sem advertir os civis, deixando a regiom e o seu povo aos jihadistas do Estado islâmico que enfrentarom pouca ou nengumha resistência, como di o relatório.

Assim, a Comissom solicita ao Conselho de Segurança da ONU de tomar medidas apropriadas: “Umha preocupaçom especial e um exame das circunstâncias da retirada dos Peshmerga da regiom de Sinjar quando o ataque do ISIS começou. […] Realizar umha investigaçom pública e transparente sobre as circunstâncias da retirada das forças Peshmerga da regiom de Sinjar a começos de agosto de 2014, e assegurar que a comunidade Jazidi está envolvida e assim mantida regularmente informada dos trabalhos de investigaçom “, afirma o relatório.

Muhammed Yusuf Sadik, presidente do parlamento curdo e membro do Movimento para a Mudança (Gorran), tem, juntamente com outros partidos, constantemente apelado para castigar aos comandantes Peshmerga que forom os responsáveis do genocídio.

Nechirvan Barzani, o primeiro-ministro da KRG, dixo a umha delegaçom de membros do Congresso dos Estados Unidos que o reconhecimento do genocídio contra os Jazidis e cristians era “um dos esforços mais importantes do Governo Regional Curdo” – umha farsa. Os partidos da oposiçom e pessoas independentes, por outro lado, continuam a abordar a cumplicidade dos Peshmerga, pedindo umha condena dos responsáveis.

Como sabera o governo do KDP, o reconhecimento do genocídio pola ONU também levaria à puniçom dos responsáveis e a umha investigaçom sobre os acontecimentos de Agosto do 2014. Os membros do KDP responsáveis teriam assim de prestar contas das suas atividades diante do Tribunal Penal Internacional. Iraque, da que a regiom curda é parte, no entanto, nom ratificou o Estatuto de Roma. Isso vai-lhe bem ao KDP e diminue as possibilidades de estabelecer um Tribunal Especial.

Mentres o governo KDP continua defendendo o reconhecimento do genocídio, os seus funcionários devem primeiro cumprir o seu dever e chamar aos seus comandantes responsáveis a prestar contas. O governo curdo nom será capaz de recuperar a confiança, mas deveriam conhecer melhor o que é o valor da justiça depois de décadas de pedir justiça por Halabja. A questom continua porque as forças Peshmerga correrom diante do ataque do ISIS e – como o vídeo mostra – aparentemente tomarom umha estratégia coordenada.

Além Aziz Waisi, os seguintes comandantes e políticos forom diretamente responsáveis do genocídio em Shingal:

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Seid Kestayi

Seid Kestayi, comandante do Peshmerga (Zerevani) do KDP em Shingal, fugiu da regiom e abriu a frente de Shingal ocidental para os terroristas do ISIS. A sua fugida permitiu ao ISIS sitiar aos Jazidis que tinham procurado refúgio nas montanhas, onde centos de pessoas morrerom de sede. Kestayi e os seus soldados tinham fugido para o norte, sem advertir os civis. El, também, nem enfrentou umha condena pola infraçom voluntária ou negligente do dever, nem umha investigaçom séria. Kestayi continua a estar livre e desfrutar da sua vida.

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Serbest Bapiri

Serbest Bapiri, chefe da seçom 17do KDP em Shingal, deliberadamente nom respondeu a chamadas telefônicas de civis Jazidi armados que tinham pedido ajuda e reforços durante a noite do 3 de Agosto de 2014. Enquanto os Jazidis estavam pedindo ajuda aos Peshmerga no sul da regiom, Bapiri estava fugindo para as montanhas antes deque os  terroristas do ISIS chegaram à cidade. A sua recusa em responder os telefonemas permitiu ao ISIS avançar desde o sul e acabar com os poucos defensores Jazidi que figeram resistência. O comandante do KDP foi finalmente libertado depois de passar alguns dias em prisom domiciliar. Até agora nom há mais investigaçons. Bapiri tem estado a viver na Alemanha desde entom e vai e vem entre a Alemanha e o Iraque.

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Shewkat Duski

Shewkat Duski, responsável das forças de segurança (Asayesh) do KDP em Shingal, também fugiram durante a noite do 3 de agosto de 2014 da cidade Shingal. El foi supostamente informado por Bapiri. As forças de segurança que fugiram com o seu comandante provocarom um vazio de segurança que os vizinhos sunitas aproveitarom para atacar e escravizar Jazidis antes de que o ISIS chegasse à cidade. Duski, quem assim como Bapiri foi chamado por ajuda, nom reagiu. O ISIS foi, assim, capaz de capturar as estradas que levam para as montanhas e atacar civis inocentes. El também, foi libertado depois de passar alguns dias em prisom domiciliar e nom precisa a recear de consequências judiciais.

Outros comandantes do KDP como Tariq Sileman Herni e Musa Gerdi que fugirom do norte da regiom em Rabia e permitirom ao ISIS atacar e cercar cidades Jazidis como Khanasor e Sinune no norte, também continuam livres.

Publicado em Azidi Press

 

 

Amigos ou inimigos? Um olhar atento sobre as relaçons entre as YPG e o Regime de Assad.

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Milícias das YPG libertando completamente o Complejo Habitacional da Juventude e partes de Ashrafieh e Bani Zaid em Aleppo.

Por @shellshocked

O 9 de agosto, o comandante major Yasser Abd ar-Rahim do Centro de Operaçons de Fatah Halab em Aleppo fixo umha declaraçons. Incluiu algumhas mensagens drásticas para as Unidades de Proteçom do Pvo (YPG) curdas, que controlam o bairro de Sheikh Maqsood, no norte da cidade. Abd ar-Rahim afirmou que as milícias da oposiçom síria teriam a sua “vingança” e que os curdos “nom iam ter um lugar para enterrar os seus mortos em Aleppo.” Nom só acusou às YPG de matar combatentes rebeldes, mas também de colaborar com as forças de Assad durante a batalha em torno a Aleppo desde o final de junho.

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Bairro de Sheikh Maqsoud
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Vista de Sheikh Maqsood com a Estrada Castello no fundo.

As suas alegaçons referem-se especificamente aos incidentes que ocorrerom durante a primeira fase da batalha de Junho/Julho do 2016. Quando as forças de Assad abrirom caminho cara o sul da estrada de Castello – até entom a única rota para fornecer a parte leste de Aleppo em mans dos rebeldes. As YPG e os rebeldes entrarom em confronto diversas vezes.

O 8 de julho as YPG figerom um primeiro impulso em direçom ao Complexo da Juventude, vizinho da estrada Castello. Capturar esta área teria, polo menos em parte, dado o control aos curdos ao longo das rotas de abastecimento controladas polos rebeldes no Leste de Aleppo. Por causa da posiçom elevada de Sheikh Maqsood, há anos que já tinham umha boa visom da estrada e o tráfego. Os combates entre as YPG e diferentes grupos rebeldes continuarom durante vários dias, levando as YPG a direcionar fogo de morteiro cara a estrada. O complexo da Juventude acabou por ser conquistado polas forças curdas o 30 de Julho.

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Operaçons do SAA e as YPG, ao norte e sul da Estrada Castello
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Mapa da Situaçom de Aleppo a 28 de JUlho do 2016

Como se esta luita nom fôsse para alimentar as alegaçons de umha aliança entre as YPG com as tropas do regime contra as forças rebeldes, no final de julho umha imagem apareceu no Twitter. Originalmente publicada em umha conta pró-regime, um grupo de homens supostamente servindo nas unidades de Assad posavam com um homem vestindo um uniforme das YPG. Já maciçamente criticado e recebendo um tratamento de hostil por levantar armas contra as forças rebeldes, a imagem, embora non seja totalmente verificavel, tornou a situaçom ainda pior.

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Foto dum suposto membro das YPG com forças pró-Assad

No entanto, o cenário da batalha Aleppo nom é a primeira a produzir tais acusaçons. As primeiras escaramuças relatadas ocorrerom em 2012, e também envolveu os grupos que luitam polo control de Sheikh Maqsood em outubro, embora as tropas do regime nom estavam directamente na cena.

Em outubro do mesmo ano as três partes estavam envolvidas na batalha de Ras al-Ayn. Posiçons de regime dentro da cidade, localizada na  governadoria de Hasakah [a 100 km ao aoeste de Qamishlo, 100 ao leste de Girê Spî e 75 ao noroeste de Hesekê] diretamente na fronteira sírio-turca, foram atacados por combatentes do Exército Livre Sírio (FSA) – logo apoiados por jihadistas de Jabhat al-Nusra e Ghuraba ash-Sham. Conseguiram fazer fugir às forças do regime, mas também estavam envolvidos em tiroteios com militantes das YPG. Isto foi seguido por umha série de confrontos e de cessar-fogo que eventualmente resultou em que os curdos assumirom todo Ras al-Ayn no Verao do 2013.

Os rumores de que tropas das YPG podem ter estado de apoio aéreo da Força Aérea Árabe (SyAAF) durante a batalha de Tal Tamer em março do 2015 som difíceis de verificar. No entanto, parece bastante improvável esta história, é inconsistente e nom tem referências a maior escala, por nom mencionar as histórias de 100 combatentes de Hezbollah ajudando às YPG.

Sem dúvida o maior evento para desencadear as acusaçons de cooperaçom entre as YPG e o regime de Assad ocorreu por volta do final do 2015 / começos do 2016. Em primeiro lugar, umha disputa irrompeu entre vários grupos rebeldes (nom todos eles ligados ao FSA) e as YPG sobre se este último tinha um acordo com o regime de fornecimento de Sheikh Maqsood por terra. Essas acusaçons forom apresentadas por Yasser Abd ar-Rahim entre outros. O comandante já mencionado no início do artigo. Ironicamente, todo isso aconteceu depois que as Forças Democráticas da Síria (SDF) forom fundadas: umha coligaçom das YPG curdas, unidades de antigos grupos afiliados ao FSA com homens em sua maioria árabes sunitas nas suas fileiras, homens das tribos sunitas e algumhas milícias cristians.

Enquanto isso, tanto as YPG como os rebeldes trocavam ocasionalmente fogo perto do isolado Canton de Afrin até que começarom em fevereiro do 2016. O 1 de fevereiro umha coalizom de tropas pró-regime constituidas polo Exército Árabe Sírio (SAA), as Forças de Defesa Nacional (FDN), os libaneses de Hezbollah, xiitas iraquianos e milícias afegans, assim como tropas iranianas começarom o ataque para liberar às cidades sitiadas de Nubl e az-Zahraa.

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Mapa que mostra a evoluo do Norte 2016 Alepo ofensivo. Linha pontilhada mostra linha de frente governo vermelho antes da linha laranja ofensivo, pontilhada mostra Linha de frente das YPG antes da ofensiva (Ofensiva começou o 1 de fevereiro de 2016; Mapa criado por MrPenguin20, Wikimedia Commons, Creative Commons Attribution-Share Alike Licença Internacional 4.0).

Este ataque constituía umha ameaça real para os rebeldes, porque, eventualmente, cortaria a rota de abastecimento vital desde Turquia a Aleppo. Assim como as forças rebeldes precisavam tanta força quanto for possível para lidar com os atacantes, as SDF / YPG lançarom o seu próprio ataque cara o leste, finalmente, alcançarom e capturarom a cidade de Tel Rifaat e a Base Aérea de Menagh. Isso efetivamente cortou a rota de abastecimento dos rebeldes e em um segundo momento levou a críticas generalizadas das empresas de informaçom e observadores ocidentais.

A Anistia Internacional afirma que, entre fevereiro e abril do 2016 nada menos que 83 civis, 30 deles crianças, morrerom em ataques de retaliaçom indiscriminados contra Sheikh Maqsood. A organizaçom acusa a vários grupos da facçom de Fatah Halab por isso. Além disso, novas armas foram usadas contra o bairro curdo. Por exemplo, em abril 2016 a Brigada dos Falcons das Montanhas financiada polos EUA atacarom várias posiçons das  SDF / YPG nos arredores de Sheikh Maqsood.

No entanto, a situaçom é muito mais complicada do que se poderia pensar que é. As acçons referidas nom devem distrair do feito de que as forças das SDF / YPG e o regime de Assad também tenhem umha história de ataques os uns contra os outros.

Disputas em Aleppo datam de setembro do 2012, quando Sheikh Maqsood ficou sob fogo. Ativistas curdos culparom o governo sírio e afirmarom que este foi um ataque de retaliaçom por hospedar membros da oposiçom que levou à morte de 21 civis. Um ataque semelhante aconteceu novamente o 26 de fevereiro de 2013, mais umha vez, causando danos e matando civis.

Por mais de dous anos, a situaçom manteve-se bastante calma até que as SDF assinarom umha trégua com as facçons rebeldes islamistas de Fatah Halab o 19 de Dezembro do 2015. Alguns dias mais tarde, as tropas das SDF e do regime de Assas entrarom em confrontos, e o mesmo Sheikh Maqsood tornou-se objetivo dos ataques da SyAAF.

Desde entom, nengumha luita importante tem ocorrido entre as duas partes na área da cidade de Aleppo. Mas, na verdade, ambos os lados luitarom entre si em outras ocasions, especialmente na governadoria nordeste de Hasakah. O governo de Assad mantém exclaves em duas grandes cidades lá: Hasakah e Qamishli. Ambos repetidamente tornou-se a definiçom de engajamentos mortais de intensidade diferente, a última sendo iniciada o 16 de agosto do 2016, envolvendo a milicianos das NDF de um lado e as tropas Asayish e YPG curdas do outro. Após umha semana de luita, o regime tivo de reconhecer umha amarga derrota: forçado a um acordo, onde todas as NDF dentro da cidade forom dissolvidas ou levadas a bases fora sem autorizaçom para entrar na cidade novamente. As únicas unidades do régime de Assad som forças policiais, que podem agir dentro do chamado quadrado de segurança, umha área que abrange nom mais do 5% da própria cidade.

Visto como um todo, as avaliaçons absolutas som impossíveis de ser feitas. O campo de batalha sírio deve ser visto como um acúmulo de muitos campos de batalha menores que nom estam necessariamente ligados uns com os outros de umha forma direta. Dous partes que estam ferozmente luitando entre si em um cenário nom é improvável que vivam lado a lado em um outro. Na sua essência, é umha forma de combater na guerra que se caracteriza por umha escassez de homens em todos os lados. As batalhas som luitas quando parecem inevitaveis. Razons para escaramuças começando ativamente podem variar, mas muitas vezes incluem determinar umha certa fraqueza do lado do adversário ou contra algum tipo de provocaçom. Embora difícil de verificar, os confrontos anteriores pareciam estar desencadeados por eventos como a detençom de rivais, ignorando checkpoints e fortalecendo as suas próprias posiçons. Ao invés de ter a vontade de expulsar aos grupos rivais umha vez por todas, esses confrontos som sobre estabelecer limites e apontar os limites que umha das partes está disposta a aceitar: umha prova de força.

Na verdade, quando se trata de levar suprimentos, ambos os lados som um tanto dependentes do outro. Polo menos desde abril de 2016, Sheikh Maqsood tem estado sob cerco do lado dos rebeldes em Aleppo. Ainda nom está claro que bens e em que cantidade podem ser contrabandeados para o distrito curdo através da linha de frente. Medicina e géneros alimentícios estam, principalmente, entrando polos corredores que ligam as áreas curdas e seguras do regime mas nom som suficientes para satisfazer as necessidades. Considerando os grupos rebeldes, como Fastaqim Kama Umirt,  isso como sinal dum pacto YPG-regime, os curdos dim que estes corredores forom abertos por curdos e sírios da Crescente Vermelha.

A SDF e o regime de Assad tenhem ambos outros inimigos principais: Considerando que o regime está luitando principalmente contra grupos rebeldes diversos desde o ponto de vista político e religioso, tentando construir um estado sírio truncado, as SDF têm os olhos sobre a ligaçom doa três cantons auto-declarado no norte da Síria. Ambos os objetivos realmente nom os fam entrar em caminho um do outro. Assad abandonou as áreas curdas no início do levante sírio, resultando no SAA fora das principais áreas e quando menos nom mostra muito interesse em recapturar issas áreas anteriormente perdidas. É por isso que territórios detidos polas SDF ou Assad e os seus aliados só compartilham quatro fronteiras: A regiom de  Qamishli (1), regiom de Hasakah (2), campo de Aleppo / Canton Afrin (3), o Oeste da cidade de Aleppo / Sheikh Maqsood (4).

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Regiom de Qamishli (1), Regiom Hasakah (2), Rural de Aleppo / Canton Afrin (3), cidade ocidental de Aleppo / Sheikh Maqsood (4).

Politicamente e ainda mais militarmente a respectiva situaçom nessas quatro linhas de frente nunca foi o mesma. Quando houvo confrontos em Sheikh Maqsood, o estado de cousas na governadoria de Hasakah normalmente permaneceu bastante calma e vice-versa. Por uma questom de feito, as tensons e brigas ocasionais entre as forças curdas e as forças pró-Assad de Gozarto em Qamishli durante janeiro do 2016 aconteceu apenas duas semanas antes do duplo corte de linhas de abastecimento dos rebeldes na regiom norte de Aleppo.

Todo isso leva à conclusom de que, em termos gerais nom há um pacto das SDF e o regime de Assad. Ambos os lados podem, por vezes, agir de umha maneira que os benefíce tanto durante determinadas operaçons, no entanto, ainda nom está claro até que ponto isso é planejado ou arranjado. Algum tipo de plano mestre de Assad e SDF / YPG  nom existe em umha escala mais ampla. O sistema de ambos os lados é que som especialistas em ser oportunistas. Sempre que serve os seus objectivos eles vam manter o cessar-fogo e aceitar a presença um do outro. No entanto, se um competidor se está tornando demasiado fraco ou muito forte, um ataque é provável que siga. Ainda assim, especialmente com a Turquia e a Rússia aproximando-se novamente, nom fica claro se os curdos e o regime sírio seram capazes e estaram dispostos a defender as suas respectivas estratégias.

Especial agradecemento a @SerioSito e @QalaatAlMudiq

Este artigo apareceu em  Offiziere.ch e logo em bellingcat.

“A Paz e umha soluçom da Questom Curda só é possível através da luita”

a-paz-e-a-solucom-da-questom-curdaReproducimos o artigo publicado nos jornais curdos Azadiya Welat e Yeni Özgür Politika, e  traduzido ao inglês por ANF English do co-presidente do Conselho Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK), Cemil Bayık sobre a posiçom da KCK (organizaçom garda-chuva que inclue ao PKK) da última mensagem do lider do PKK, Abdullah Öcalan e a apreensom de municípios curdos.

Cemil Bayik escribiu:

“Nom lembro de outro líder fascista na história do mundo que admita abertamente a sua crueldade como o Presidente da Turquia Erdoğan. Erdoğan agora di que vai eliminar o povo curdo, sem necessidade de oculta-lo. Alguns dos adeptos curdos de Erdogan tentam encobrir a sua mentalidade fascista, mas Erdoğan rasga através dessas tampas. El di que vai eliminar os curdos. Di que nom pode haver naçom, vontade política, nem nengumha administraçom na regiom [curda] com exceçom da turca. A repetiçom constante de que existe so umha naçom, umha bandeira, um estado e um pvo todos os dias, Erdoğan desnuda a sua mentalidade monolítica e rejeita os curdos, a sua vontade política e o seu país; o Curdistam. Todos as autoridades turcas estam a dizer agora que eles vam continuar a guerra até que eliminar a todos os guerrilheiro curdos.

Ninguém deve esperar umha soluçom para a questom curda do governo do Partido da Justiça e o Desenvolvimento (AKP). Aqueles que esperam quaisquer passo do AKP seguem esse discurso e essas práticas seram enganandos. Quando o AKP e os seus aliados fascistas [MHP, CHP, Ergenekon], dim que vam destruir e exterminar os curdos, nom se pode cair presa ao descuido ou baixar a guarda. A democratizaçom da Turquia e umha soluçom para a questom curda nom é possível sem dificuldades. A resposta [negativa] do governo aos esforços de Öcalan para a paz estám aí para todos as  verem. Atualmente, a vontade do povo curdo está sob um ataque mais direto. Eles querem completar o genocídio quebrando essa vontade. Nom há dúvida sobre isso. Esta é a decisom, abordagem objetiva, e a prática da política colonialista genocida [do Estado turco].

O que é importante, porém, é a posiçom do povo curdo e as forças democráticas contra esta política. Umha cousa deve ser considerada: A questom curda só pode ser resolvida através de umha luita pola democracia e a administraçom democrática. A mentalidade dominante na Turquia nega os curdos e quer eliminá-los; esta é a política do estado e do governo, portanto, é impossível resolver a questom curda com os partidos políticos e governos atuais. O problema nom é que as reivindicaçons políticas [dos curdos] sejam muito grandes ou pequenas; o problema é a política em curso do Estado turco de negaçom e genocídio. Assim, somente através do estabelecimento de umha administraçom democrática na Turquia, através de umha luita pola democracia e a liberdade, pode a questom curda ser resolvida. Caso contrário, com a mentalidade anti-democrâtica e de governo, esse problema nom pode ser resolvido. Umha abordagem racional nom se pode esperar com esses governos. Neste sentido, é apenas possível aumentar a luita contra eles. Nada se pode fazer pola democracia, a liberdade e a paz antes de compreender este feito e agir em conformidade. Qualquer pessoa com qualquer expectativa fora deste quadro estará enganando a si mesmo e ao povo. E isso permitirá ao colonialismo genocida a implementarem das suas políticas, sem qualquer resistência.

Durante a mais recente visita a Imrali [o 11 de setembro do 2016], Öcalan dixo novamente que, se o estado quisesse, a questom curda poderia ser resolvida em seis meses. Isto é um feito. Öcalan procura resolver a questom curda sem problematizar fronteiras estatais e manifestar essa autonomia democrática no âmbito da democratizaçom da Turquia. Isso é a atribuçom da democracia. Mas a mentalidade na Turquia nom aceita a libertaçom, existência, língua ou cultura dos curdos e, portanto, nom permite a autonomia democrática; e utiliza todas as armas de guerra ao extremo para quebrar a vontade do povo pola liberdade e a democracia.

Há duas maneiras de soluçom para a questom curda e ambas estam interligadas. Umha  é democratizar Turquia em umha luita conjunta com as forças democráticas do país e a outra é que o povo curdo crie a sua própria soluçom democrática e a defenda. Se esta dupla luita é realizado, em seguida, a Turquia irá democratizar e a questom curda será resolvida. Nom podemos esperar na expectativa de que quem está no poder dea os passos.

Sem dúvida, todos querem umha soluçom sem dificuldades, sem conflito e guerra. O Movimento de Libertaçom Curdo tentou esse caminho com paciência, mas nom foi possível. Nós mostramos as abordagens mais razoáveis, mas nom funcionou. Nas condiçons actuais, quem pensa que a liberdade e da paz pode ser alcançada sem resistência, está enganando a si mesmos e colocando o seu pescoço para fora sob a lâmina do colonialismo genocida. A paz e a umha vida livre e democrática nom pode ser conquistada sem resistência.

A paz e umha soluçom só som possíveis através da luita. Tayyip Erdoğan dixo que a opressom e ataques até agora forom so o começo; eles nom estám parando, estám em marcha e vam fazer mais. Assim, todo aquel que fale de outra cousa senom a luita, está a servir os objectivos do colonialismo genocida. Neste sentido, qualquer discurso de paz que nom exija do desenvolvimento da luita ou nom se está esforçando ativamente para desenvolver a luita nom deve ser atendido. Neste sentido, o único pensamento na mente de quem quer a paz e umha soluçom deve ser luita, luita, luita.”

 

 

A incursom em Síria significa a Guerra perpétua da Turquia contra os Curdos

vinheta01Por Hawzhin Azeez

Nas últimas horas informaçons emergerom que o exército turco está bombardeando a aldeia de  Til-Emarne (al-Amarne) de Jarablus com fogo de artilharia e avions e também ataca às SDF em Ain Diwar (leste de Rojava) e Afrin (oeste Rojava). Fontes curdas relatarom que dúzias de civis foram feridos e mortos. A incursom da Turquia na Síria já confirmou o que muitos pensavam que era, umha agressom contra os curdos.

A propaganda pro-turcaa é abundante, afirmando que Jarablus foi “libertada” polo exército turco sem derramamento de sangue, em oposiçom às “YPG” – o que implica que as YPG som um exército invasor e selvagem que mata e assassina pessoas inocentes desnecessariamente, em oposiçom ao mais “legítimo” exército turco. Mas a realidade é que nom houvo “luita” para libertar Jarablus porque claramente havia um acordo entre o ISIS eTurquia. A relativa facilidade com que a Turquia tomou Jarablus suscitou importantes questons estratégicas e políticas. Por que combateu o ISIS tanto para manter Kobane ou Manbij mas nom Jarablus? Por que atravancarom-se, pugerom centos de minas e armadilhas em toda Kobanê e Manbij, perderom milheiros dos seus combatentes envolvidos em umha guerra de guerrilha e luitarom pola território casa por casa, rua por rua, mas nom há sinais das suas estratégias em Jarablus? Por que abandonarom tam facilmente e sem derramamento de sangue Jarablus?

Talvez a resposta pode ser encontrada em que os combatentes do ISIS forom vistos simplesmente trocando as suas roupas polos ‘uniformes’  dos geupos que apoia Turquia?

Seja qual for a verdade, a este respeito, a realidade é, o cerne do acordo ISIS eTurquia foi que após a perda espetacular de Manbij,  estrategicamente era melhor permitir que Turquia controlara Jarablus, o que efetivamente cortaria a possibilidade de uniom entre os cantons de Kobane e Cezire com o cantom de Afrin e estabelecer a “zona tampom” que a Turquia levava tempo procurando. Deixando nesse processo que o ISIS se recupere e contine os seus ataques em Afrin, no leste e sul do cantom de Kobane e em Cezire, o sudoeste de Rojava, norte da Síria. Esta estratégia também envolve o aumento de ataques suicidas e carros-bomba em Cezire, enquanto a inexistência de um corredor humanitário imposto pola Turquia e apoiado polo governo de Barzani na KRG (norte do Iraque) assegura um ambiente de pressom para as zonas autônomas assediadas.

Agora, existem sugestons de que a Turquia e os seus co-conspiradores estam decididos a “libertar” Manbij utilizando a presença das YPG como um pretexto para a guerra -quando é bem sabido que as YPG deixarom a cidade, so os conselhos locais das Forças Democrâticas da Síria e o Conselho Militar de Manbij, composto por luitadores locais quedarom lá. Este processo descarrila eficazmente o argumento de que os curdos estam “apropriando terras”, por nom mencionar que as Forças Democráticas da Síria (SDF) tenhem um grande número de árabes e outros grupos etno-religioso que se juntarom na libertaçom das cidades sob o control do ISIS, e os quais forom os responsáveis da libertaçom de Manbij.

Mas a história se repete novamente, entom pretensa guerra da Turquia sobre o ISIS na Síria com o nome de “Escudo do Eufrates”, é simplesmente umha tentativa mal disfarçada para atacar os curdos, como foi o caso no ano passado, quando em vez de atacar o ISIS atacou o PKK nas montanhas de Qandil no Curdistam do Sul. Naquela época, também os EUA tinham combinado com os curdos para o acesso à base militar de Incirlik (Adana). Mas agora as implicaçons geoestratégicas desta incursom na Síria som muito maiores do que o conflito turco-curdo. Aludindo a isto, o primeiro-ministro da Turquia, Binali Yildirim, afirmou que a invasom da Síria basea-se em “defender a integridade territorial da Síria” – mas o governo de Assad condenou fortemente a incursom como umha clara violaçom da sua soberania; pois reflete as aspiraçons crescentes da Turquia para a liderança e hegemonia regional.

A ascensom do neo-otonomanismo da Turquia foi apoiado pola absoluta incapacidade da Europa em lidar com o fluxo de pessoas na Europa, resultando, paradoxalmente, no fluxo de milheiros de milhons de euros cara Turquia para “parar os refugiados”. À vez, a Turquia respondeu transportando os refugiados de volta a território sírio, atirando, matando, e batendo nos refugiados na fronteira com a Síria. Ainda mais paradoxalmente, os EUA ajudarom e incitarom a Turquia na sua invasom e violaçom da integridade territorial da Síria e a entrada em Jarablus com apoio aéreo, apesar do feito de que a Turquia tem sido aliada com a filial de Al-Qaeda, Jabhat Fatah al-Sham (antes Al Nusra) e o ISIS na Síria e Turquia. A recente visita de Joe Biden e as declaraçons de começos desta semana em apoio da Turquia aludiu à presença da Turquia na Síria sendo umha idéia a longo prazo. A consequência resultante era umha invasom apoiada polos EUA de Jarablus, quando menos de umha semana antes os EUA estavam a fornecer apoio aéreo para a libertaçom de Manbij às SDF. Enquanto isso pode ser visto como umha mensagem clara dos EUA aos curdos, esta mudança de aliança também deve ser vista como um lembrete oportuno para que os curdos mantenham a integridade ideológica e militar e continuem nom alinhados com qualquer umha das partes em conflito.

A invasão do Jarablus é também um reflexo da recente reforço do poder político de Erdogan e o seu controle do país após a recente tentativa fracassada de golpe. Os EUA tem recompensado a Erdogan pola enorme purga de militares e civis que ocorreu e reafirmou o férreo control sobre o país, fornecendo cobertura aérea para a sua invasom da Síria. Os EUA estam alinhando-se claramente com a autocracia de Erdogan, talvez em umha tentativa equivocada de controlar a situaçom na Síria, evitando “soldados em território inimigo”, um erro que fjá cometeu na invasom do Iraque em 2003 e que lhe custou muito em diversas maneiras .

Mas os EUA está muito enganado se acredita que pode manter umha guerra delegada na Síria e controlar o regime cada vez mais inestável de Erdogan. O visível envolvimento de Iram, Arábia Saudita e os seus estados aliados menores complica mais a situaçom geopolítica. Do mesmo modo, a UE permanece completamente paralisada desenrolar umha abordagem coerente e concisa em relaçom à Turquia, nom só à luz da recente invasom, o tratamento cada vez mais abusivo dos refugiados na Turquia, mas também as violaçons dos direitos humanos contra as minorias, como os curdos, alevitas e outros, que estam ocorrendo na Turquia.

Em vez de conter a Turquia e apoiar continuamente aos curdos e as Forças Democráticas da Síria (SFD , nas suas siglas em inglês, umha combinaçom de árabes, curdos, armênios, assírios e outros grupos étnico-religiosos), na luita e rejeiçom do ISIS – algo que tenhem feito com sucesso- os EUA ea UE continuam a mostrar fraca vontade, escolhendo o que parece ser a  realpolitik sobre a política ética e democrática. No entanto, esta abordagem é questionável, considerando a ampla opiniom pública global e o feito inegável que, até à data, forom as forças mais bem sucedidas na eliminaçom do ISIS, mas também na criaçom de regions pacíficas, inclusivas e democráticas.

O que está claro é que os curdos estaram em um estado de guerra perpétua para os tempos vindouros, tanto se o conflito inclui a Turquia, o ISIS ou as suas outras filiais, a Assad, ou a todos simultaneamente. Parece que a situaçom de paz para os curdos passou a significar um estado perpétuo de resistência e auto-defesa. Mas se há umha cousa que o último ano tem demonstrado, é que os curdos som muito bons na arte da guerra e na auto-defesa. Sem mencionar que nos últimos anos o terrorismo de Estado e os abusos contra os curdos já nom podem permanecer ocultos, o que levou a umha condena crescente do terrorismo de Estado da Turquia e o apoio ao regime polos EUA e a UE. Isto, combinado com o suporte global visível para as forças curdas e as SDF na sua heróica resistência contra o ISIS asseguram um interesse internacional contínuo e a visibilidade da questom.

O que está claro é o próximo movimento na Turquia: a invasom e desestabilizaçom de Rojava com ataques contra o três cantons e “recuperar” o território para os seus aliados islamistas. A açom militar e estratégica mais difícil dos curdos ainda está por vir.

Hawzhin AzeezHawzhin Azeez tem um doutorado em Ciência Política e Relaçons Internacionais. Ela é defensora dos direitos das mulheres e dos refugiados. Está atualmente trabalhando na reconstruçom de Kobane através do Conselhode  Reconstruçom de  Kobane.

Publicado originalmente por Kurdish Question.

 

 

Por que a Turquia invade a Síria agora?

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Mapa da Situaçom da Síria a Junho do 2016

Por Mark Campbell

O objetivo da Turquia som os curdos nom o ISIS.

A drástica invasom das forças turcas em Jarablus é apenas a mais recente reviravolta dramática na guerra já complicada na Síria, mas por que a Turquia escolheu agora para fazer este calculado movimento?

Turquia di que o seu objetivo é atacar o ISIS e as forças curdas das YPG mas nom há provas suficientes de ataques ao ISIS.

O movimento vem curiosamente semanas depois da libertaçom da importante cidade estratégica de Manbij, ao sul de Jarablus do ISIS. As forças das SDF (Forças Democráticas Sírias) que incluem árabes sírios, luitarom fortes batalhas intensas com o ISIS pola cidade. Batalhas que virom as SDF perder mais de 400 luitadores.

A libertaçom de Manbij foi a última gota para a Turquia que vêem às forças curdas liberando faixas de território do ISIS e estabelecendo a sua própria forma de autonomia em conjunto com tribos árabes e comunidades étnicas do norte da Síria ao longo da fronteira da Turquia.

Umha rápida olhada no mapa acima mostra por que a Turquia está determinada a parar isso. Os curdos estam tentando juntar as duas áreas povoadas curdas marcadas em amarelo. (Ambos, Manbij e Jarablus estam na zona cinzenta, perto da fronteira com a Turquia entre as duas áreas curdas amarelas.) A Turquia quer parar com isso. Os curdos acreditam que a Turquia tem estado a apoiar o ISIS nos últimos 4 anos e juntando os cantons de Rojava interromperia o abastecimento do ISIS e a passagem dos seus combatentes provenientes da Turquia.

Por que a Turquia se importa tanto que os curdos liberem a sua própria terra do ISIS?

Um deles, como já foi dito, porque deteria o abastecimento do ISIS que os curdos acreditam que têm sido apoiado pola Turquia apesar dos desmentidos oficiais da Turquia.

Mas em segundo lugar, porque, desde o estabelecimento do Estado turco, a Turquia tem estado constantemente tentando assimilar à força os curdos e pacificar os seus sonhos de autogoverno. Umha regiom autônoma curda de Rojava, di Turquia, poderia motivar aos curdos no sudeste da Turquia para empurrar para a autonomia também. Mas curdos no sudeste da Turquia já estam empurrando para a autonomia e a Turquia está a realizar umha brutal guerra que inclue crimes de guerra contra civis. A incursom da Turquia em Jarablus só vai desestabilizar ainda mais a zona.

No dia depois da incursom de Jarablus, forças curdas na cidade curda de Cizre, no sudeste da Turquia, explodiu umha base do exército matando dúzias de soldados. Os confrontos armados entre o exército turco e combatentes curdos levam desde meados dos anos 90 meados e é notória a ‘Guerra Suja’ contra os curdos.

Assim, a incursom da Turquia em Jarablus e no Norte da Síria para atacar os curdos vai ter consequências graves e destabilizara a própria Turquia.

Nom há soluçom militar para aquilo que se tornou conhecido como “questom curda” mais guerra e sofrimento para os curdos nom é a resposta nem vai trazer a paz.

A pressom internacional sobre a Turquia é necessária urgentemente para suspender as operações militares contra os curdos e iniciar negociações políticas com os curdos para umha soluçom pacífica para a questom curda começando com um cessar-fogo em ambos os lados e umha retomada das negociaçons com o  lider curdo Abdullah Ocalan e o comando do PKK nas montanhas de Qandil.

No entanto, se a Turquia som autorizados a continuar a sua invasom de terras curdas na Síria a guerra está prestes a explodir e saltar sobre a fronteira para a Turquia.

E se isso acontecer, o ISIS seria o vencedor final.

As suas linhas de abastecimento permanecerám abertas e militantes do ISIS seram livres de viajar ao longo da fronteira da Turquia e daí para a Europa.

A aposta dificilmente poderia ser mais alta.

Publicado em Kurdish Question.

 

 

 

Por que nom devemos abandonar os curdos

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Celebraçom do Dia Internacional da Mulher, Qamishli, Rojava / Joey L (c)

Por Will TG Miller

Os curdos do norte da Síria sofrerom imensamente ao longo da história. Autóctonos da regiom nunca tiverom concedido qualquer nível significativo de autonomia ou auto-governo. Durante toda a existência da República Árabe da Síria, mantiverom o status de um dos grupos mais marginalizados, de acordo com Minority Rights International, e também forom sujeitas a níveis de detençom chocantes arbitrários, e tortura aprovados polo governo, e a apropriaçom ilegal dos seus bens.

Esta foi a pior sob o pan-arabismo durante o regime de Hafez al-Assad. Um relatório da Chatham House detalha a gravidade da situaçom; a língua curda foi proibida em público, e o seu uso, bem como a música e publicaçons curdas, eram estritamente ilegais. No entanto, pouco mudou, mesmo depois de que Assad herdasse o trono no 2000, em detrimento da minoria curda.

Isso fai que o recente ressurgimento dos curdos no quadro da mesma Síria, que reprimiu qualquer expressom de identidade curda, muito incrível. A regiom autônoma de Rojava veu a existir em 2013 conforme as milícias curdas regionais formadas após o Exército Árabe da Síria evacuaara rapidamente vastas áreas de território em face das bandas de terroristas islâmicos, bem como outras organizaçons mais importantes, como a FSA, Jabbhat Al Nursa, e o ISIS. As milícias curdas assumirom a infra-estrutura governamental e militar deixadas para trás quando os Assadistas evacuarom.

Rojava tivo pouco tempo para se alegrar na sua independência nominal da Síria, umha vez que foi imediatamente atacada de todas as direcçons. Os ataques de grupos terroristas dentro da Síria continuou, e as pessoas de Rojava encontrarom a sua determinaçom testada na longa e sangrenta batalha de Kobanî. A vitória improvável adquirida pola ala militar do governo de Rojava, as YPG, foi à custa de muitas vidas de civis mortos por carro-bomba e bombardeios indiscriminados polo ISIS. Apesar das perdas, a derrota do ISIS sublinhou a determinaçom dos curdos de Rojava para o mundo e mostrou que eles nom iam renunciar à sua independência há muito desejada tam facilmente.

Desde entom, no entanto, parece que, embora a situaçom tem a concluir só que a pior. Apesar do feito de que Salih Muslim, co-presidente do PYD, tem declarado repetidamente que o governo de Rojava nom busca a independência da Síria, e em vez disso procura manter o seu estatuto de umha regiom autónoma semelhante ao Curdistam iraquiano, o governo sírio tem efetivamente cortado os laços com a regiom e recusa a conceder-lhe ajuda militar, econômica ou qualquer outra. Isto é apesar das repetidas aberturas de Muslim para o governo sírio e declaraçons de apoio contra os grupos islâmicos que fazem umha guerra terrorista contra as duas entidades.

A partir da sua fronteira norte com a Turquia, Rojava está sob ataque constante. O governo turco afirmou a sua intençom de nom aceitar qualquer tipo de entidade autônoma curda dentro Síria, independente ou nom, e levarom a cabo ataques regulares de bombardeio contra alvos civis a fim de enfraquecer a vontade do povo curdo. Estes ataques intensificarom no início deste ano, à frente da força oficial de invasom, que entrou no Curdistam sírio em agosto.

Assim, o incipiente governo regional de Rojava encontrou-se luitando umha guerra em três frentes; contra o o ISIS, contra a Turquia, e às vezes até mesmo contra o governo sírio. Apesar das repetidas tentativas de umha paz significativa, este estado de hostilidades diretas tem visto pouca mudança nos últimos anos. Enquanto os EUA se envolveu em lançamentos aéreos esporádicos para ajudar a Rojava nos últimos dous anos, a sua assistência (e promessas de ajuda) tem sido evasiva e indecisa. A Rússia, por outro lado, tem-se revelado um aliado muito mais eficaz, permitindo às YPG chamar por ataques aéreos identificando posiçons, dando-lhe algumha superioridade aérea muito necessária na luita contra o ISIS e outros grupos terroristas.

No entanto, qualquer apoio dado pola Rússia – em outras palavras, qualquer apoio substancial -tem sido constantemente prejudicado por Ocidente em cada turno. O ex-secretário de Relaçons Exteriores britânico Philip Hammond dixo no início deste ano que estava “perturbado” com os relatos de ajuda russo para as forças curdas no norte da Síria, pouco antes dos britânicos juntaram-se aos americanos em chamar os russos para ‘sair’ da Síria. No entanto, eles nom fornecem nengumha alternativa eficaz, condenando a Rojava à extinçom nas maos de Turquia e o ISIS.

O comportamento dos Estados Unidos tem sido particularmente perturbador. Após a tentativa separatista de Kosovo nos Balcás, os EUA enviaram a sua força aérea para deixar cair umha quantidade surpreendente de bombas sobre a Sérvia, a fim de garantir a independência do estado incipiente. Assegurar os direitos humanos do povo do Kosovo e impedir o genocídio estavam entre as razons usadas para legitimar esta campanha. Diante disso, as açons norte-americanas na Síria som difíceis de racionalizar. Elas som inconsistentes, nom só com as suas decisons anteriores ao enfrentar circunstâncias similares, mas também com a ideia da América como umha naçom em busca de manter a ordem internacional, evitar o genocídio e os crimes contra a humanidade, e garantir a paz no mundo.

Os Estados Unidos e a Gram-Bretanha optarom por ver Rojava e de feito o povo curdo nom como qualquer outra naçom ou merecedor das liberdades fundamentais, os direitos humanos, e direito às normas mínimas de dignidade, mas em vez disso como peons em umha espécie retorcida de Grande Jogo que está sendo jogado por políticos de Washington contra a Rússia de Putin. Como peons, os curdos estam a ser utilizados quando é conveniente e descartados quando se tornam um inconveniente. E dada a resposta silenciosa dos EUA à invasom turca de Rojava no mês passado, parece ser o caso que o ‘inconveniente’ está aumentando.

Cada vez mais, as vozes de políticos ocidentais, grupos de reflexom e os chamados “analistas políticos” parecem estar a aumentar. A condenaçom das instituiçons de Rojava polos ocidentais é cada vez mais dura. Eles criticam a regiom autónoma por nom ser plenamente democrática, apesar do fato de que está envolvida em umha guerra com os adversários genocidas cujo objetivo é nom só a destruiçom da estrutura administrativa, mas também do povo curdo como um todo. Eles exigem que o governo cesse a sua política de recrutamento, ignorando o conflito existencial, e ao mesmo tempo nom oferecendo absolutamente nada em termos de umha alternativa.

Claro, algumhas críticas sobre o governo e as forças armadas de Rojava som legítimas. Há algumhas evidências que sugerem que aconteceu em algumha ocasioom o recrutamento de menores de 18 anos, apesar de ser ilegal sob as leis de Rojava. Há também razons para criticar a estrutura do governo e o domínio total do PYD à custa de outros partidos.

Mas essas críticas estam ultrapassando nas suas conclusons. Sugerem que, desde que existem problemas como esses, o Ocidente deveria abandonar os curdos sírios aos lobos.

A fazer isso seria desastroso. Nom só seria fortalecer o Estado Islâmico, a posiçom totalitária do governo Assad, mas também umha Turquia cada vez mais islâmista e autocrática. Isso representaria umha grave traiçom das promessas anteriores de apoio feita aos curdos, e, assim, fazer que os EUA a sofrer um golpe enorme ao seu prestígio internacional. Mas o mais importante, constituiria umha traiçom dos princípios que nos som tam caros; os dos direitos humanos universais, o direito internacional e o princípio da auto-determinaçom, conforme descrito na Carta da ONU.

Abandonando os curdos nom imos ganhar nada e reforçariamos os nossos inimigos. Devemos apoiá-los contra os nossos inimigos mútuos como a única pedra de estabilidade no turbulento Oriente Médio.

Will TG Miller é um analista político e ativista da causa curda. O seu trabalho incide sobre o Oriente Médio, Islamismo, e os direitos humanos.

Publicado em Kurdish Question.

 

Abordagem do Estado turco e Por que o Isolamento de Öcalan é motivo de preocupaçom

ypj-com-foto-ocalanPor Amed Dicle

O jornal pró-curdo Özgür Gündem publicou umha entrevista muito importante sobre a situaçom na Ilha Prisom de Imrali e a abordagem do estado sobre Öcalan, vários dias antes de ser fechado (por um tribunal turco). A entrevista datada o 22 de agosto com Çetin Arkas e Nasrullah Kuran, (que estiveram ambos presos em outra seçom da prisom antes de serem forçosamente trasladados) som bastante surpreendentes e informativas em termos da compreensom das condiçons atuais sobre Imrali e a ameaça contra Öcalan.

Outro artigo de Çetin Arkas, publicado por Özgür Gündem antes desta entrevista, o 22 de Julho, mencionou umha carta anônima enviada a Öcalan, que o ameaçava.

Çetin Arkas e Nasrullah Kuran estiverom presos na Ilha de Imrali, até o 25 de Dezembro de 2015, o que torna as suas declaraçons sobre a situaçom lá importantes.

A evoluçom ao longo dos últimos anos e algumhas informaçons trazidas à luz por Arkas e Kuran oferece-nos umha visom sobre os perigos que enfrentamos hoje.

29 de novembro de 2014. À medida que as fortes luitas estavam ocorrendo em Kobanê, um grupo de membros do ISIS tentou entrar dentro do centro da cidade depois de cruzar a fronteira entre Suruç-Kobanê através do passo fornteiriço de Mürşitpınar. Este grupo foi repelido depois de confrontos pesados. Mais tarde, eles refugiaram-se nos celeiros de trigo do governo turco na fronteira. As primeiras imagens em tempo real desde o começo do ataque foram divulgadas pola agência nacional de notícias da Turquia AA (Agência Anadolu).

Logo verificou-se que umha delegaçom do Estado visitara Imrali no mesmo dia e durante as mesmas horas para manter conversaçons com Öcalan. Eles foram para dar-lhe a mensagem, ‘Kobanê caiu’.

No entanto, Kobanê foi salva e as conversas com Öcalan continuarom até o 5 de abril de 2015.

As negociaçons entre a Delegaçom de Imrali do Partido Democrático do Povo (HDP) e Öcalan foram impedidas após esta data.

A entrevista acima mencionada dá detalhes importantes sobre o período posterior ao 5 de abril, quando o isolamento agravado de Öcalan começou. Por tanto;

Umha Delegaçom do Estado encontra-se com Öcalan na Ilha de Imrali o 25 de Junho de 2015, após as eleiçons gerais do 7 de junho.

No mesmo dia (25 de Junho), militantes do ISIS entrar no centro da cidade Kobanê desde a fronteira turca e massacram 243 civis, a maioria delas crianças.

Durante esta reuniom, a delegaçom do Estado pede a Öcalan de escrever umha carta para a Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK) para ” diminuir as tensons’. Öcalan dixo-lhes que ia avaliar a sua proposta e depois dixo-lhe a um funcionário, “Quanto tempo mais quere que escreva a Qandil (KCK / PKK)? Pergunte a delegaçom para vir aqui a umha reuniom, se o Estado tem um projeto destinado a umha resoluçom da questom curda. Se o estado quer recorrer ao envio de cartas ou qualquer outra cousa para adiar a questom mais umha vez, eles nom precisam de vir, eu nom me vou reunir com eles “.

Cerca de 4 meses depois desta reuniom, em Outubro de 2015, umha “carta anônima ‘ chega-lhe a Öcalan.

Normalmente, todas as cartas enviadas a Öcalan passam porumha  inspeçom e a maioria nom lhe som entregadas, no entanto, este “carta” foi-no. Está escrito por alguém de Berlim que a introduz como um “oráculo”. A carta di: ‘Erdoğan era de feito umha boa oportunidade [de resoluçom] vocé deveria ter aceitado. Vocé vai morrer de “causas naturais” este ano “.

Çetin Arkas resume a atitude Ocalan como segue;

“Öcalan compartilhou o conteúdo da carta connosco, e pediu a nossa opiniom. Nós [seis presos] digemos que criamos que era umha ameaça. Quando Öcalan pediu informaçom à administraçom da prisom sobre a carta, eles digerom:” Escapou à nossa atençom. Foi um erro porque nom cha teriamos dado umha carta com este tipo de conteúdo “. No entanto, sabemos que nom é possível que algumha cousa escape à atençom no Sistema Penitenciário de Imrali. Todo foi desenhado em conformidade. A carta devia chegar a Öcalan.

A resposta de Öcalan foi: “Seria simplista a tomar essas cousas a sério Somos revolucionários eu já tenho jogado o meu papel até agora e vou continuar a desempenhar o meu papel após a morte, bem como dixo Che Guevera, eu digo. “Onde quer que a morte poda-nos surpreender, bem-vinda seja ‘. Eu sei que eles estam ouvindo a nossa conversa, e eu estou a dizer isto em voz alta para ter certeza de que eles me ouvem.”

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Öcalan e a entrada Prisão de máxima Segurança de Imrali

Vários dias após esta carta o 10 de outubro de 2015, o dia em que a KCK se preparava para declarar um cessar-fogo, polas eleiçons do 1 de novembro, a massacre de Ancara matando 102 pessoas tivo lugar. A declaraçom foi adiada para o dia seguinte.

Vários dias antes das eleiçons do 1 de novembro, a delegaçom do Estado fixo outra visita a Imrali.

A delegaçom estava chefiada polo vice-secretário de Segurança Pública do Estado turco, que fixo a seguinte ameaça a Öcalan:

” Vocé está exagerando a questom de Rojava. Podemos ter 300 avions bombardeando-a  e destrui-la ate o cham, se quigermos “.

Nom é segredo que a Turquia queria sufocar as demandas dos curdos de Rojava ‘ de direitos e liberdades desde o início da guerra na Síria. As massacres em Kobanê e o suporte ao ISIS tinham como objetivo isso. As recentes operaçons de Jarablus e Al-Rai iniciados de acordo com o ISIS estam sendo realizadas como extensons da política mencionada polo Secretário Adjunto.

Claro, nom há nada estranho na política do Estado que ameaçava Öcalan com o esmagamento de Rojava.

O que causa grande preocupaçom entre os curdos agora, porém, é a forma como esta política está sendo implementada em Imrali, especialmente após a tentativa de golpe do 15 de junho de 2016.

Membros do HDP digerom que um helicóptero controlado por golpistas atacou a Ilha de  Imrali e confrontos eclodiram entre eles e os soldados leais ao governo em torno da prisom na noite da tentativa de golpe.

Foi igualmente declarado que os soldados golpistas, em seguida, fugiram para Grécia.

O governo turco nom fixo nengumha declaraçom satisfatória sobre este incidente.

Conforme 50 políticos e ativistas curdos estam em umha greve de fome por tempo indeterminado em Diyarbakir (Amed) com umha única demanda: Um encontro direto com Öcalan, o ministro da Justiça da Turquia Bekir Bozdağ declarou: “Nom há nengum problema com relaçom à segurança de Öcalan”.

El contudo, di que os soldados que fugirom para a Grécia, nom atacarom Imrali.

Quando um estado que envia assassinos do ISIS a Kobanê e, ao mesmo tempo tem umha reuniom com Öcalan; um estado que “permitiu” o envio de umha carta de ameaças anônimas e ameaçou Rojava com 300 avions di: “Nom há nengum problema com a segurança de Öcalan”, isso é um motivo de grande preocupaçom, nom de alívio.

Apesar das exigências básicas dos Curdos sobre Öcalan, o Estado turco vê-o so como um “prisioneiro”. Esta mentalidade, que recentemente declarou que há umha “guerra total, e nengumha soluçom”, vai fazer todo o que poida contra Öcalan em Imrali, em Rojava e em qualquer outro lugar onde poidam.

Publicado por Kurdishquestion.com