O rigor da Libertaçom de Afrin

Família ferida polos ataques turcos em Afrin. Foto: efrinnews.com

Por Kevin T. Mason

Afrin foi libertado. O 18 de março do 2018, depois de umha operaçom de paz espontánea, santa, sagrada e pacificadora de 50 dias, na que Ancara di ter provocado um total de zero baixas civis, Afrin foi finalmente libertada..

Como predizendo a  Operaçom Ponla de Oliveira quase um ano antes, mais de 2.700 oliveiras tinham sido libertadad na fronteira do Afrin com a Turquia. Nas fases iniciais da operaçom, a moral dos libertadores era realmente elevada. Cantarom cançons de luitas passadas – de Grozny e Daguestam e Tora Bora. Afrin seria o próximo, cantavam. Antes da cidade de Afrin, no entanto, seria Jindires. Ao Sudoeste da cidade de Afrin, Jindires viu os telhados e alicerces dos seus edifícios libertados.

Durante toda a operaçom, cabras, galinhas e *pavos de Afrin forom libertados. Os pavos da regiom, em particular, forom libertados da servidume e retornarom à sua (presunta) pátria. Mas nem todos os animais se mostrarom merecedores de libertaçom. Algumhas das cabras de Afrin devem ter sido colaboradoras, porque foram baleadas polos libertadores de Afrin e deixadas nos campos onde caíram. Algumhas das galinhas de Afrin também devem ter sido traidoras, porque forom atingidas por ataques aéreos ao lado das suas conspiratórias famílias.

As granjas de Afrin agora som livres, tendo sido libertadas dos seus rebanhos e labregos, muitos dos quais som tam completamente livres que forom libertados das suas vidas. Até as portas das vila foram liberadas das suas bisagras. Os tratores e carros de Afrin foram liberados. Viu-se um vídeo deles desfilando polas ruas de Afrin, orgulhosamente sobrecarregados com os seus libertadores e o estoque recentemente libertado das lojas de Afrin.

As casas da comunidade Yazidi de Afrin, o último reduto dos Yazidis que permanecia imperturbável, talvez em toda a Síria, forom libertadas das famílias que viviam nelas. Os Yazidis de Afrin, como os Yazidis de Sinjar em 2014, achando difícil a libertaçom, marcharom para as montanhas.

As mulheres de Afrin forom libertadas da sua libertaçom, bem como suas irmás na Turquia. Após a tentativa de golpe no verao do 2016, o Estado turco confiscou – e fechou – centros femininos em todo o sudeste da Turquia, libertando às mulheres da carga de escolha e orientando-as para umha vida “completa”. Os centros de mulheres que permaneceram abertos tiverom todos os serviços cancelados, exceto o jardim-de-infância, que foi substituído por cursos do Corám. As ruas de Afrin forom totalmente liberadas. Tanto que nem umha alma permaneceu sobre eles para receber os seus libertadores, exceto aqueles que vagam pola cidade, libertados dos seus corpos polos ataques aéreos e bombardeios turcos. As poucas padarias deixadas em pé agora som liberadas das fileiras de pessoas esperando polo pam em umha cidade sitiada. A única instalaçom de tratamento de água na regiom foi liberada da sua obriga de fornecer água potável às comunidades de Afrin, tendo sido destruída semanas atrás. Com precisom laser, a Força Aérea Turca libertou a Afrin da sua história e cultura de 3.000 anos.

Afrin foi libertado da segurança a que foi submetido ao longo da Guerra Civil Síria. Foi liberado dos centos de milheiros de sírios deslocados internos que atoparom abrigo. Foi libertado da coexistência cultural e religiosa. As maes forom libertadas dos seus filhos e as crianças libertadas dos seus pais. O povo de Afrin deve aos seus libertadores umha dívida interminável pola sua situaçom atual.

A apropriadamente chamada “Operaçom Ponla de Oliveira” continuará a semear a paz em todo o norte da Síria, deslocando ou silenciando todos aqueles que ousassem resistir a ela. A Europa e os Estados Unidos acelerarom a libertaçom de Afrin através do seu poderoso uso das “preocupaçons” e “condenaçons”. E, claro, a venda de arma. Nem mesmo umha resoluçom do Conselho de Segurança da ONU poderia deter a marcha forçada da libertaçom imposta a Afrin pola Turquia.

Após a Operaçom Ponla de Oliveira, Afrin se viu libertado do seu povo e o seu povo libertado de anos de relativa estabilidade e prosperidade. A única coisa que a operaçom nom conseguiu libertar o povo de Afrin é o seu espírito indominável. E enquanto umha única Afrini viva, continua a haver um espectro no horizonte: esperança.

Talvez essa esperança se espalhe para a Europa e os Estados Unidos, libertando-os da inaçom. E todos nós esperamos que Manbij, Kobanî e Qamişlo sejam indignos da “libertaçom turca”, e que Afrin, a tempo, também se mostre.

Originalmente publicado polo Washington Kurdish Institute  e traduzido com a sua autorizaçom.

O Sr. Mason é membro do Gabinete de Representaçom da Federaçom Democrática do Norte da Síria no Benelux. O contato com a oficina é ext.relations@rojavabenelux.nl.

 * Jogo de palavras em inglês onde turkey significa pavo e Turquia

 

 

Transformemos o século XXI na era da liberdade das mulheres!

Declaraçom do Movimento das Mulheres do Curdistam (Komalên Jinên Kurdistan – KJK) polo 8 de Março

O Movimento das Mulheres do Curdistão (Komalên Jinên Kurdistan – KJK) emitiu uma declaração no âmbito do Dia Internacional da Mulher. Aqui, nós a reproduzimos na íntegra.

Nas montanhas do Curdistão, nas terras onde a sociedade se desenvolveu com a liderança das mulheres, cumprimentamo-las com nossa grande liberdade, paixão, ambição e luta inquebrável. Dos distritos de Rojava às florestas da América do Sul, das ruas da Europa às planícies da África, dos vales do Oriente Médio às praças da América do Norte, das montanhas da Ásia aos planaltos da Austrália; Com o nosso amor que não conhece fronteiras e com os nossos sentimentos mais revolucionários, abraçamos todas as mulheres que lutam pela liberdade e igualdade.

No quadro do dia 8 de março de 2018, Dia Internacional da Luta pelas Mulheres, comemoramos todas as mulheres que deram suas vidas na busca da liberdade, na resistência contra a escravidão, a exploração e a ocupação. De Rosa Luxemburg à Sakine Cansiz de Kittur Rani Chennamma à Berta Caceres, de Ella Baker à Henan Raqqa, de Djamila Bouhired da Palestina Sana’a Mehaidli à Nadia Anjuman, estamos sempre gratas as guerreiras imortais da luta de libertação das mulheres. Sua luz rompe a escuridão que nos impuseram; no caminho que elas iluminaram diante de nós, marchamos para a liberdade. Juntamente com elas, comemoramos todas as mulheres que foram assassinadas no decurso da ordem patriarcal de cinco mil anos, através de todos os tipos de violência masculina, guerras, terror do estado, ocupações colonialistas, poderes mascarados religiosamente, gangues masculinas, maridos e os chamados amantes. É a sua memória que aumenta a nossa determinação inabalável de acabar com o feminicídio, que é a guerra mais longa do mundo.

Caras Mulheres, Camaradas, Irmãs,

Estamos no meio de um processo histórico. O sistema patriarcal como um par contemporâneo da civilização estatista atravessa uma profunda crise estrutural. Como mulheres, devemos diagnosticar esta crise sistêmica com suas causas e consequências, estabelecer análises sólidas e desenvolver perspectivas que acelerem nossa luta. Porque, assim como a crise estrutural do sistema constitui uma grande ameaça para as mulheres em todo o mundo, esta situação também oferece oportunidades para garantir a liberdade das mulheres, oportunidades que só podem vir uma vez em um século. Nós até dizemos: podemos transformar o século XXI na era da libertação das mulheres! Isso não é um sonho ou uma utopia. É uma realidade, mas para torná-la real, devemos criar um programa para a libertação das mulheres para o século XXI.

Para isso, primeiro devemos entender completamente as contradições e os atributos fundamentais da época em que vivemos. Quais são as possibilidades e os riscos dessas contradições e atributos na perspectiva da libertação das mulheres? Que tipo de responsabilidades devemos assumir a este respeito, como organizações de mulheres e movimentos globais?

O sistema mundial entrou no século 21 em uma crise profunda usando termos como o “Nova Ordem Mundial”.

Na busca de se reorganizar como alternativa para sair da crise, a modernidade capitalista primeiro tentou aplicar esta nova ordem no Oriente Médio sob o nome de “Grande Projeto do Oriente Médio”. Recordamos o processo que começou com intervenções no Afeganistão e no Iraque, continuou com a Primavera árabe no norte da África e se intensificou nos últimos anos na Síria, no Iraque e na “Terceira Guerra Mundial” no Curdistão. Enquanto os regimes do Estado-nação no Oriente Médio, criados pelos estados ocidentais há cem anos para reproduzir permanentemente o caos e a crise tentam proteger o status quo, as potências estrangeiras tentam dividir a região entre eles de novo.

Chamar o período atual que o Oriente Médio vive como “Terceira Guerra Mundial” não é apenas uma tentativa de enfatizar a participação de poderes internacionais. Mais do que isso, é claro que a reconstrução da modernidade capitalista no Oriente Médio terá consequências a uma escala global. De fato, o sistema mundial contemporâneo ou a modernidade capitalista não é um fenômeno dos últimos 500 anos, já que, de fato, sua semente se enraizou na forma do primeiro estado há 5000 anos na Mesopotâmia e, desde então, sofreu diferentes transformações para se manter até hoje.

Por esta razão defender o Confederalismo Democrática como a “Terceira Via” contra disputas sobre manutenção do status-quo de estados regionais e intervencionismo redesenhados por potências estrangeiras, é uma responsabilidade fundamental para todas nós e ultrapassa as fronteiras da Síria e o Oriente Médio. O sistema de autonomia democrática que atualmente está sendo construído com a liderança das mulheres em Rojava, no norte da Síria, em condições de guerra e resistência é o único modelo de solução que tem o potencial de pôr fim à crise, ao caos, contradições e conflitos que foram reproduzidos sistematicamente na região durante o século passado. Os estados-nação criados com as fronteiras traçadas artificialmente após a Primeira Guerra Mundial não só não refletiram a composição étnica, cultural, religiosa e social da região, mas também visavam arruinar nossa cultura milenar de vida comunitária. Hoje, no norte da Síria, pela primeira vez, está sendo construído um sistema baseado na participação igual e livre das mulheres, no pluralismo étnico e religioso com democracia participativa. Como alternativa democrática, esse modelo representa uma solução para os problemas obsoletos do Oriente Médio, contra os regimes machistas, sexistas, nacionalistas e sectários, alimentados pelo sistema global há décadas.

Esta é a razão pela qual o Estado turco, que tem o segundo maior exército da OTAN, lançou uma operação contra o cantão Afrin em Rojava, no norte da Síria, em 20 de janeiro de 2018, com toda a força. Esta é também a razão pela qual as potências estrangeiras, como os Estados Unidos, a Rússia e a UE, não estão obstruindo os ataques militares contra Afrin. Isso ocorre porque Afrin está construindo um modelo de sociedade democrática com um núcleo de libertação das mulheres. A resistência é a ascensão das mulheres contra a vida capitalista moderna. A cidade e as aldeias vizinhas de Afrin resistem ao fascismo, à misoginia, ao afastamento da natureza e dos valores culturais e à animosidade entre os povos. É claro que não é apenas o estado turco e seus recrutados de gangues islâmicas, que estão enfrentando as Unidades de Defesa de Mulheres e as pessoas de Afrin. Em essência, em um pequeno território como Afrin, dois sistemas mundiais, duas ideologias, dois projetos futuros colidem em um nível colossal. Enquanto um se baseia na libertação, na ecologia e no pluralismo das mulheres, o outro é formado por misoginia, poder masculino, monismo, dominação e exploração. Um brilha com todas as cores da vida, enquanto o outro representa a escuridão. Portanto, é de vital importância para as mulheres do mundo reivindicar e defender a crescente resistência contra o fascismo em Afrin. Porque o que é atacado e o que é defendido são valores universais da liberdade das mulheres. Nesta ocasião, como KJK (Comunidade das Mulheres do Curdistão) damos as boas-vindas e felicitamos as combatentes da liberdade que assumem a liderança da resistência Afrin, bem como a cidade de Afrin, que heroicamente defende suas terras contra os invasores. As mulheres e a unidade ganharão. O fascismo perderá!

O processo de revolução em andamento em Rojava no norte da Síria demonstra esta verdade para todas nós: as revoluções reais devem ser as revoluções das mulheres. As tentativas revolucionárias que não se baseiam na libertação das mulheres não têm chance de sucesso. A razão fundamental para a incapacidade dos movimentos socialistas e revolucionárias do século XX alcançarem seus objetivos, apesar de seus inúmeros sacrifícios, dedicação e programas fortes, é o fato de não colocarem a libertação de mulheres no centro das suas batalhas. A questão da libertação das mulheres não é uma preocupação secundária, mas é a base de todas as outras questões. As mulheres são a primeira classe oprimida, escravizada, explorada, colonizada e dominada. Todas as outras formas de exploração começam após a exploração das mulheres. Por esta razão, liderar uma luta efetiva contra o sistema hegemônico só será possível no âmbito de um forte programa de ideologia e libertação, no qual as mulheres se organizem de forma independente e desempenhem um papel ativo separadamente. Nossa experiência de 30 anos de luta ideológica e prática como Movimento Pela Liberdade de Mulheres do Curdistão, nos mostra isto.

Queridas mulheres, queridas camaradas,

Uma vez que a semente do sistema global que deu base a modernidade capitalista reside no Oriente Médio, especificamente na Mesopotâmia, a atual crise sistêmica também é mostrada de forma mais clara e mais direta nesta região. Mas, como a crise vivida pelo sistema mundial capitalista patriarcal é global, não há terra que esteja livre dessa crise, nenhum lago, montanha ou rio que não tenha sido tocado, nenhuma sociedade que não tenha sido afetada pelas tentativas de dominação. No entanto, as mulheres são as mais afetadas pela crise. Isso, por sua vez, está diretamente relacionado ao caráter sexista da modernidade capitalista. O sistema está tentando superar sua crise explorando e abusando das mulheres ideologicamente e materialmente de uma maneira ainda mais enérgica.
Na verdade, é assim que tenta garantir sua existência.

Contra as reivindicações comuns, o liberalismo, como uma das ideologias fundamentais do Estado-nação, não contribuiu positivamente para a libertação e a igualdade das mulheres. Pelo contrário, especialmente na era do liberalismo, o sexismo foi desenvolvido e usado como um elemento ideológico. É uma grande mentira que o liberalismo liberta as mulheres. De fato, a mercantilização das mulheres em termos de seu corpo, personalidade e alma constitui a forma mais perigosa de escravização.

A libertação das mulheres é o poder opositor fundamental ao sistema mundial capitalista patriarcal. Todas as formas de poder, hegemonia, exploração, saque, escravidão, violência e opressão que o sistema cria, depende do domínio sobre a mulher. A escravidão e a propriedade impostas às mulheres, passo a passo, se espalham pela sociedade como um todo. Essa é a razão pela qual a luta de libertação das mulheres, de todas as lutas anti-sistema, tem o maior poder para sacudir os alicerces do sistema hegemônico masculino. E, na verdade, é essa dinâmica que revela a crise que o sistema experimenta. Como mulheres, devemos ver claramente o poder que possuímos e o efeito que criamos.

Nesse sentido, o aumento maciço de violência e ataques contra mulheres em todo o mundo está diretamente relacionado a esta situação de crise e a relação entre o sistema mundial capitalista patriarcal e a libertação das mulheres. O sistema sexista, baseado na exploração, ataca a mulher, que representa o maior desafio e o perigo para seu poder. Na verdade, estamos falando de uma guerra sistemática de agressão. A forma desta guerra de agressão pode diferir no nível local, mas estamos essencialmente diante de um fenômeno universal. Devemos ver as conexões entre estupros de gangues na Ásia e violência de gênero nos EUA. De forma holística, devemos examinar os assassinatos de mulheres na América Latina, que atingiram o nível de massacres, bem como o sequestro e a escravização de mulheres e meninas por gangues mascaras religiosas na África e no Oriente Médio. Juntas, devemos analisar o surgimento dos regimes fascistas e misóginos e o ataque aos avanços alcançados pelas mulheres, como resultado do avanço de suas lutas. E temos que estar plenamente conscientes do fato de que esta guerra, liderada pelo sistema patriarcal em escala global, está tentando sufocar a busca e a luta da libertação das mulheres.

Porque talvez, o sistema dominado pelos homens, nunca tenha sido tão pressionado na história da civilização. Suas bases nunca foram abaladas em tal grau. Da mesma forma, da perspectiva das mulheres, as condições para assegurar a libertação nunca foram tão maduras. As possibilidades de realizar a segunda grande revolução das mulheres nunca chegaram a esta etapa. É por isso que estamos passando por um período histórico. Grandes oportunidades estão disponíveis, mas os perigos são de igual tamanho.

Se for esse o caso, o que devemos fazer, se quisermos enfrentar esses perigos e avaliar efetivamente as possibilidades de garantir a libertação das mulheres e, por meio disso, a libertação de toda a sociedade? Como podemos nos defender contra os ataques crescentes do sistema? Nesse sentido, a autodefesa não deve ser entendida como passiva. É necessária uma autodefesa ativa. A maior e mais efetiva forma de autodefesa é criar vida livre e restringir as veias do sistema dominado pelos homens. Devemos tornar a vida insuportável para o sistema e não o contrário. Mas para que isso aconteça, devemos levar nossa luta a um nível mais alto. Numa escala global, a luta de libertação das mulheres criou uma base sólida em termos teóricos e práticos. Mas agora é a hora de fazer um movimento.

Como Movimento para a Libertação da Mulher do Curdistão, estamos envolvidos em uma grande luta por mais de 30 anos para aprofundar a Ideologia da Libertação da Mulher, para revelar o poder e a consciência da autodefesa das mulheres, para garantir a participação igualitária e livre das mulheres na esfera política, superar o sexismo em todas as esferas da vida e acelerar a liberdade das mulheres. Neste caminho, sempre entendemos a grande importância e o significado de compartilhar nossos resultados e conclusões com todas as mulheres do mundo. E agora, com grande entusiasmo, alegria e determinação, para transformar o século XXI na era da mulher libertada, a fim de promover a segunda grande revolução das mulheres, buscamos cumprir nossa missão como Movimento de Libertação da Mulher a nível internacional.

Queridas mulheres.

É absolutamente essencial que nós organizemos a nível universal para criar um sistema global livre e igual de mulheres contra o sistema mundial machista, patriarcal e capitalista. Uma tática crucial do sistema hegemônico é a divisão. Nosso poder, no entanto, deriva da unidade. Sem rejeitar as diferenças entre nós, ao mesmo tempo em que protegemos nossas particularidades e cores, não há nada que uma luta de liberdade global de mulheres, não possa alcançar. Para que isso aconteça, devemos desenvolver alianças democráticas das mulheres. Devemos desenvolver formas, métodos e perspectivas adequadas às condições, características e necessidades do século XXI. Essencialmente, todas devemos desenvolver o programa de libertação das mulheres do século XXI.

Como Movimento de Liberdade das Mulheres do Curdistão, devemos o desenvolvimento da nossa revolução, como uma revolução feminista, ao nosso líder, Abdullah Öcalan, que, há 19 anos foi sequestrado pela conspiração da organização da gangue de estado chamada OTAN e ainda hoje é refém, em termos historicamente sem precedentes, e em condições de total isolamento na Turquia. São as análises do sistema de Öcalan, suas perspectivas de libertação, sua transformação pessoal, seus esforços intermináveis para o desenvolvimento do movimento de liberdade das mulheres que compõem o poder por trás dessa dinâmica que agora inspira pessoas em todo o mundo. Seu confinamento em uma ilha prisão nos últimos 19 anos e seu isolamento completo do mundo exterior nos últimos 3 anos, são devido a influência de suas ideias. Mas os pensamentos não podem ser isolados; Espíritos livres não podem ser reféns.

O seguinte trecho das perspectivas de Öcalan, desenvolvido em condições de isolamento na prisão, é esclarecedor da perspectiva da universalidade da luta de libertação das mulheres: “Sem dúvida, a consideração da situação das mulheres é uma dimensão da questão. Mas o que é mais importante diz respeito à questão da libertação. Em outras palavras, a solução do problema é de grande importância. Costuma-se dizer que o nível de liberdade geral da sociedade pode ser medido pela liberdade das mulheres. O que é certo e importante de considerar é como esta afirmação pode ser completada. A libertação e a igualdade das mulheres não somente determinam a liberdade e a igualdade da sociedade. Para isso, a necessária teoria, programa, organização e planos de ação são necessários. Mais importante ainda, mostra que não pode haver políticas democráticas sem mulheres e, além disso, de fato, a política de classes permanecerá inadequada para o desenvolvimento e proteção da paz e da natureza.”

Como Movimento de Liberdade da Mulher do Curdistão, por ocasião do 8 de março de 2018, pedimos às mulheres do mundo: vamos nos juntar e desenvolver conjuntamente a teoria, o programa, a organização e os planos de ação necessários para a libertação das mulheres. Com a consciência de que apenas uma luta organizada pode trazer resultados, aumentemos nossa organização em todas as esferas da vida. Vamos coletivizar nossa consciência, poder de análise, experiências de luta e perspectivas para criar nossas alianças democráticas. Não nos separemos umas das outras – vamos nos esforçar juntas. E no curso, vamos transformar o século XXI na era da libertação das mulheres! Porque este é exatamente o momento certo! É hora da revolução feminista!

Em todo lugar é Afrin, em todos os lugares é resistência!

Viva a luta universal da liberdade das mulheres!

Jin, Jiyan, Azadî!

8 de março de 2018
Komalên Jinên Kurdistan (KJK)

Em The Region e traduzido polas companheiras do Comitê Solidário aos povos do Curdistão-RS 

 

À opinión Publica

À opiniom pública!

O Exército de ocupaçom turco atacou o canton de Afrin e a área vizinha com avions de guerra o 20 de Janeiro do 2018.

Durante o intenso ataque que começou às 16 h e está a passar até este momento, polo menos 100 pontos foram alvos, incluindo áreas civis, posiçons das YPG-YPJ e outras forças revolucionárias. O Exército de ocupaçom continua a atacar áreas civis com 72 caças. O centro da cidade de Afrin, o campo de refugiados de Rubar e algumhas instituiçons civis em Afrin também forom aatacadas. Polo menos 13 civis forom feridos, um combatente das YPG e duas das YPJ e 6 Civis forom martirizados nestes ataques. Simultaneamente com o intenso ataque aéreo, as tropas do exército de ocupação e os terroristas controlados por eles tentaram atravessar a fronteira para Afrin nas aldeias de Kurdo e Balia, no distrito de Bilbil.. Os e as combatentes das YPG e YPJ repelirom os ataques imediatamente, e os soldados retirarom-se.

O exército de ocupaçom turco e os seus terroristas, depois de nom ter entrado em Afrin, atacando no chao, tentam assustar as pessoas de Afrin e que se movam para as áreas controladas pola FSA. O ataque da Turquia diretamente contra civis de todos os distritos de Afrin demostra claramente o seu desespero contra as forças das YPG e YPJ.

Sabemos que, sem a autorizaçom das forças globais e principalmente da Rússia, quem tem tropas localizadas em Afrin, a Turquia nom pode atacar civis usando o espaço aéreo de Afrin. Por conseguinte, a Rússia é responsável como a Turquia e sublinhamos que a Rússia é o parceiro do crime da Turquia em massacrar os civis da regiom.

Nós, como comando geral das YPG em Afrin, afirmamos que a Turquia nom pode derrotar a nossa livre vontade e resistência com os seus avions de guerra. É visto que, até este momento, ninguém fugiu de Afrin e abandonou a sua pátria. Nesta base, estamos mais uma vez a afirmar a nossa determinaçom em proteger as nossas terras e o nosso povo. As Unidades de Defesa do Povo e as Unidades de Defesa da Mulher vam defender Afrin sob qualquer circunstância contra o fascismo turco. Chamamos o nosso povo para se juntar às fileiras da defesa.

Comando Geral das YPG em afrin

20 de Janeiro de 2018

Artigo Original

 

 

Pacifismo feminista ou passivismo?

Protesta polo #BlackLivesMatter em Nova York o 13 de fevereiro de 2017. Créditos: Erik McGregor / PA Images

Por Dilar Dirik

Quando algumhas mulheres brancas louvam a nom-violência das marchas de mulheres contra Trump e depois posam em fotografias com policias enquanto a violência policial atinge especificamente a pessoas de cor, quando os anti-nazis som acusados de nom ser diferentes dos fascistas, quando feministas em relativa segurança acusam a mulheres militantes no Oriente Médio que enfrentam escravidude sexual sob o ISIS de militarismo, devemos perguntarmos pola noçom liberal da nom-violência que ignoram a interseçom dos sistemas de poder e os mecanismos de violência estrutural. Aderindo-se dogmaticamente a um pacifismo (ou passivismo?) que tem um caráter de classe e racial, e demonizando a raiva violenta anti-sistema, as feministas excluem-se de um tam necessário debate sobre formas alternativas de autodefesa cujo objetivo e estética servem a políticas liberadoras. Em umha era global de feminicídio, violência sexual e violaçons, quem se pode dar ao luxo de nom pensar na auto-defesa das mulheres?

O feminismo desempenhou um papel importante nos movimentos anti-guerra e alcançou vitórias políticas na construçom da paz. A crítica feminista ao militarismo como instrumento patriarcal torna compreensível a rejeiçom da participaçom das mulheres nos exércitos estatais em quanto  “empoderamento”. Mas a rejeiçom generalizada das feministas liberais à violência feminina, sem importar o objetivo, nom distingue qualitativamente entre o militarismo estatista, colonialista, imperialista, intervencionista e a necessária legítima defesa.

A polícia dispara para dispersar manifestantes da Black Lives Matter o 9 de julho de 2016 em Saint Paul para protestar contra o assassinato policial de Philando Castile. Créditos: Annabelle Marcovici / PA Imagens

O monopólio da violência como umha característica fundamental do Estado protege a este das acusaçons de injustiça, enquanto que criminaliza as tentativas básicas das pessoas pola auto-preservaçom. Dependendo das estratégias e políticas, atores nom-estatais som rotulados como “perturbadores da ordem pública” na melhor das hipóteses, ou “terroristas” na pior. A tendência de defender exemplos como Mahatma Gandhi ou Martin Luther King para defender a resistência nom-violenta muitas vezes desdibuja feitos históricos ao ponto de satanizar os elementos radicais e às vezes violentos de umha resistência legítima anticolonial ou anti-racista.

Simultaneamente, a tradicional associaçom da violência com a masculinidade e a exclusom sistemática das mulheres da política, da economia, da guerra e da paz reproduzem o patriarcado através de umha divisom sexual dos papéis no domínio do poder. A crítica feminista à violência baseia-se no bem-intencionado, mas profundamente essencialista, discurso de umha moralidade baseada no gênero, que também pode reproduzir a imagem das mulheres como passivas, inerentemente apolíticas e com necessidade de proteçom. Tal reduçom do gênero nom consegue entender que a inclinaçom à violência nom é inerentemente específica do gênero, mas determinada por sistemas interconectados de hierarquia e poder como demonstra o caso das mulheres brancas americanas que torturom homens iraquianos na prisom de Abu Ghraib.

As mulheres curdas tenhem umha tradiçom de resistência; a sua filosofia da autodefesa varia desde exércitos autônomos de guerrilhas femininas ao desenvolvimento de cooperativas autogeridas de mulheres. Nos últimos anos, as vitórias das Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ) em Rojava-Norte da Síria e das YJA Star do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) contra o ISIS tenhem sido inspiradoras. As mulheres curdas, junto com as suas irmás cristians, árabes e siríacas, libertarom milheiros de quilômetros quadrados do ISIS, criando fermosas imagem de mulheres liberando mulheres. Ao mesmo tempo, elas também estavam construindo os alicerces da revoluçom da mulher dentro da sociedade. No entanto, algumhas feministas ocidentais questionavam a sua legitimidade e a descartarom como militarismo ou cooptaçom por grupos políticos. As narrativas dos meios ocidentais retratarom essa luita de umha maneira despolitizada, exótica, ou fazendo suposiçons generalizadas sobre o desinteresse “natural” das mulheres à violência.  Se a reportagem da mídia era dominada por um olhar masculino, isso se devia em parte à recusa das feministas em se envolver com esse relevante tema. Umha nom pode deixar de pensar que as mulheres militantes que tomam as coisas nas suas maos prejudicam a capacidade das feministas ocidentais de falar em nome das mulheres no Oriente Médio, projetadas como vítimas indefesas, pode ser umha das razons para essa hostilidade.

Credito: YPJ Media Team

A luita das mulheres curdas desenvolveu umha filosofia centrada na mulher de autodefesa e situa-se numha análise interseccional do colonialismo, do racismo, do estatismo-naçom, do capitalismo e do patriarcado. A Teoria das Rosas é umha parte do pensamento político liberador do líder do PKK, Abdullah Öcalan. El sugere que, a fim de chegar a formas nom-estatistas de auto-defesa, precisamos nom olhar mais longe do que a própria natureza. Cada organismo vivo, umha rosa, umha abelha, tem os seus mecanismos de autodefesa para proteger-se e expressar a sua existência – com espinhos, picadas, dentes, garras, etc. nom para dominar, explorar ou destruir desnecessariamente outra criatura, mas para preservar-se e satisfazer as suas necessidades vitais. Entre os seres humanos, sistemas inteiros de exploraçom e dominaçom perpetuam a violência além da sobrevivência física necessária. Contra este abuso de poder, a legítima defesa deve basear-se na justiça social e na ética comunitária, com particular respeito à autonomia das mulheres. Se deixarmos de lado as noçons sociais darwinistas de sobrevivência e competiçom que, sob a modernidade capitalista, atingiram dimensons mortais e concentrarmos-nos na interaçom da vida dentro dos sistemas ecológicos, podemos aprender com os modos de resistência da natureza e formular umha filosofia de autodefesa. Para luitar contra o sistema, a autodefesa deve abraçar a açom direta, a democracia radical participativa e as estruturas sociais, políticas e econômicas autogeridas.

Encostado ao Confederalismo Democrático que lidera o movimento da liberdade curdo, um sistema confederal autônomo das Mulheres Democratas foi construído através de milheiros de comunas, conselhos, cooperativas, academias e unidades de defesa no Curdistam e além. Através da criaçom de umha comuna de mulheres autônoma em umha aldeia rural, a identidade, a existência e a vontade das suas membros encontram a sua expressom na prática e desafiam a autoridade do estado patriarcal e capitalista. Além disso, a autonomia econômica e a economia comunitária baseada na solidariedade através do estabelecimento de cooperativas som cruciais para a auto-defesa da sociedade, garantindo o auto-sustento através do mutualismo e da responsabilidade compartilhada, rejeitando a dependência dos Estados e dos homens. O cuidado com a água, as terras, as florestas, o património histórico e natural som partes vitais da auto-defesa contra o Estado-naçom e a destruiçom ambiental orientada ao lucro.

Defender-se também significa ser e conhecer-se a si mesma. Isso implica a superaçom da produçom de conhecimento sexista e racista que a modernidade capitalista defende e que exclui os oprimidos da história. A consciência política constitui umha luita contra a assimilaçom, a alienaçom da natureza e as políticas de Estado genocidas. A resposta à literatura histórica e socialista positivista, colonialista e centrada no homem é, portanto, o estabelecimento de academias de mulheres de base que promovam epistemologias liberacionistas.

Umha luita sem ética nom pode proteger a sociedade. Aos olhos das mulheres curdas, o ISIS nom pode ser derrotado so polas armas, mas por umha revoluçom social. É por isso que as mulheres Jazidis, depois de sofrerem um genocídio traumático sob o ISIS, formarom um conselho de mulheres autônomo por primeira vez na sua história com o lema “A organizaçom das mulheres Jazidi será a resposta a todas as massacres”, ao lado das organizaçons militares femininas. Em Rojava, ao lado das YPJ, até mesmo as avoas aprendem a lidar com o AK47 e rotam entre si a responsabilidade de proteger as suas comunidades dentro das Forças de Autodefesa (HPC), enquanto milheiros de centros de mulheres, cooperativas, comunas e academias visam desmantelar a dominaçom masculina. Contra a guerra hiper-masculina do Estado turco, as mulheres curdas constituem um dos principais desafios para o governo de Erdogan através da sua mobilizaçom autônoma. Crucialmente, mulheres de diferentes comunidades juntaram-se a elas na construçom de alternativas femininas à dominaçom masculina em todas as esferas da vida. Um conceito de autodefesa alternativo que nom reproduza o militarismo estatista deve ser, naturalmente, anti-nacionalista.

YJÊ é umha milícia de mulheres formada no Iraque em 2015 para proteger a comunidade Jazidi no Iraque e no Curdistam iraquiano. Créditos: Wikicommons

Ao contrário da violência que procura subjugar o “outro”, a auto-defesa é umha completa dedicaçom e responsabilidade para a vida. Existir significa resistir. E para existir de forma significativa e livre, é preciso ser politicamente autônoma. Dito sem rodeios, num sistema internacional de violência sexual e racial, legitimado polos Estados-naçom capitalistas, o grito de nom-violência é um luxo para aqueles em posiçons privilegiadas de relativa segurança, que acreditam que nunca acabaram numha situaçom em que a violência será necessária para sobreviver. Embora teoricamente sólido, o pacifismo nom fala à realidade das massas de mulheres e, assim, assume um caráter do primeiro mundo bastante elitista.

Se as nossas reivindicaçons de justiça social som genuínas, num sistema mundial de interseçom de formas de violência, nos temos que luitar.

Publicado em Opendemocracy

Dilar Dirik é do norte do Curdistam (Administrativamente Turquia). Ela é umha ativista do movimento de mulheres curdas e escreve sobre a luita pola liberdade curda para um público internacional. Está atualmente trabalhando no seu doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.

“Toda mulher livre é um país livre”: Declaraçom das YPJ polo Dia Internacional da Mulher

O Comando Geral das Unidades de Proteçom da Mulher de Rojava (YPJ) divulgou umha declaraçom polo 8 de março, Dia Internacional da Mulher. A declaraçom foi feita na presença de dúzias de combatentes e comandantes das YPJ em Serêkaniyê este luns.

A declaraçom do Comando Geral das YPJ rendeu homenagem à história da luita das mulheres e começou por comemorar as mulheres que a iniciarom.

“O 8 de março de 1857, 129 trabalhadoras textis [de New York] forom queimadas vivas por causa da sua reaçom às condiçons de trabalho desumanas. Enquanto a mentalidade que queima mulheres está persistindo em algumhas áreas do mundo de hoje, a resistência que as mulheres tenhem iniciado contra el continuam a luitar para destruir essa mentalidade “, di a declaraçom.

“Como YPJ, celebramos o 107º Dia Mundial das Mulheres Trabalhadoras com todas as mulheres do mundo e do Oriente Médio, as maes dos mártires e combatentes da liberdade.

“Quando deixamos para trás o 107º ano, as mulheres estam levando a resistência do 8 de março com muita coragem na liderança de Roza Luxemburgo, Clara Zetkin, Zarif, Besê, Leyla Qasim, Beritán, Sîlan, Zilan, Sara, Arîn Mîrkan, Özgür Efrîn , Jiyan Rojhilat e Destina Başûr.  Neste momento em que a resistência das mulheres está a crescer, como YPJ, repetimos a promessa no aniversário deste ano e expressamos respeito a todas as mártires que caírom nesta luta. A luita vai crescer ainda mais. ”

“Hoje continuamos vendo que a mentalidade masculina e os governos vem às mulheres como propriedades em todo o mundo, especialmente no Oriente Médio, onde os governos consideram as mulheres como despojos de guerra. Essa mentalidade está tentando tornar permanente o sistema patriarcal, impondo-o às mulheres;  o que significa que sempre temos que estar prontas para a luita”.

“As YPJ, com a sua mentalidade libertária, tem luitado incansavelmente na Revoluçom de Rojava por sete anos. As YPJ tomamos passos históricos e fixo progressos significativos.Ganhamos vontade política e está a dar vida à mentalidade de naçom democrática [anti-nacionalista, anti-capitalista e da libertaçom das mulheres], ao mesmo tempo em que cria as bases para umha vida livre e igualitária, as YPJ continuam a criar na revoluçom novas táticas e abordagens na esfera militar, tornando-se em umha força importante.”

“A consciência de que “Toda mulher livre é um país livre “é o princípio e a tarefa mais fundamental das YPJ. As YPJ conseguirom salvar milheiros de mulheres árabes, curdas, siríacas e jazidis da ocupaçom e do fascismo do Daeh (Estado Islâmico). também celebramos o 8 de março com o objetivo de libertar às mulheres e crianças de Raqqa da opressom do Daesh. Agasalhamos esta conquista às mártires do 8 de março e a todas as mulheres.

“É muito melhor entendida agora que a mulher mais forte é a mulher que se organiza e defende. Com a experiência adquirida durante os 7 anos da revoluçom de Rojava e da herdança histórica na que está baseada, as YPJ som capazes de espalhar esse conhecimento a todas as mulheres.”

As YPJ apelarom a todas as mulheres a que unam as suas luitas pola liberdade e digerom que determinaram os princípios desta luita em 7 pontos.

1) Abdullah Öcalan, que tem um papel nacional e histórico na luita polo desenvolvimento da liberdade das mulheres, está a ser mantido cautivo por umha conspiraçom internacional e está sob tortura desumana e isolamento desde há 18 anos [em umha prisom turca]. [Apelamos às mulheres] a levantar a voz contra esta tortura e isolamento e abordar esta questom como umha prioridade.

2) As mulheres no Oriente Médio hoje enfrentam-se a massacres nas esferas existencial, cultural e de segurança. Deve ser estabelecido um mecanismo comum de segurança e de defesa, bem como umha resistência eficaz contra este perigo. Cada mulher deve travar umha luita ideológica contra todos os tipos de soberania e domínio, especialmente contra o Daesh, e deveriam ter o direito de aumentar a defesa das mulheres.

3) As YPJ estam prontas para compartilhar as suas experiências com todas as mulheres que tenhem a coragem de resistir.

4) Mulheres e crianças som as maiores vítimas de todas as guerras e conflitos. Som afetadas nas esferas da migraçom, economia, defesa e vida social. A fim de defender os direitos das mulheres e das crianças, toda mulher deve luitar e opor-se a esta vitimizaçom.

5) As YPJ nom som só a força de defesa das mulheres curdas, mas de todas as mulheres em Rojava. Muitas luitadoras de diferentes naçons e grupos de crenças luitam nas fileiras das YPJ e muitas delas foram martirizadas. A essência das YPJ é umha força de defesa internacionalista e isso precisa ser ampliado e fortalecido.

6) Como mulheres que conseguirom muito nós enfrentamos ameaças sérias e graves. Apelamos a todas as mulheres para que reforcem a sua luita pola criaçom de umha naçom democrática eliminando estas ameaças. Cada mulher pode contribuir e alcançar um grande parte.

7) Acreditamos que podemos destruir essa mentalidade masculina dominante apenas luitando juntas e que podemos criar umha mentalidade democrática, cultura moral e vida livre como nós o derrotamos. Celebramos com todas as mulheres o 8 de março.

Traducido de kurdisquestion.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre Aleppo e os “esquerdistas” ocidentais

Resultado dos bombardeios dos “rebeldes” do leste de Aleppo nas últimas semanas.

Por Dilar Dirik

A verdade é sempre a primeira vítima da guerra, dizem. Como é verdade, especialmente olhando para a propaganda vindo de todos os lados, após a queda de Aleppo, que é mais um episódio do calvário da guerra na Síria desde há anos.

Estou enojada com a simplicidade das posiçons, o dogmatismo das idéias e, em alguns casos, a completa falta de decência moral nas análises e pseudo-análises do que está acontecendo em Aleppo e na Síria, na verdade, no Oriente Médio em geral. É certo que toda guerra está cheia de propaganda, mentiras e verdades inventadas, mas o que algumhas pessoas sem qualquer conexo com a regiom estam botando para fora das suas poltronas pseudo-revolucionárias é grotesco e desprezível. Alguns estam criando fantasias intervencionistas imperialistas, alguns estam abraçando abertamente o sanguinário regime de Assad e negando os seus crimes de guerra, algum agem como se os rebeldes foram um exército de anjos que merecem o apoio entusiástico e estúpido, alguns dizem nunca e abandonam toda esperança para os milhons de civis afectados por esta guerra. Eu nom estou falando sobre o mainstream, mas os esquerdistas de aqui! Demasiadas afirmaçons imorais forom feitas, mas neste momento particular, é especialmente violento ver como tantos “iluminados”, “progressistas” pessoas veementes “negam” o banho de sangue causado por Assad eo exército sírio e retratá-no como um mal menor, como se fossem os que perderom famílias inteiras a mans deste ditador fascista. Da mesma forma, onde estavam todas as pessoas que se levantam por Aleppo agora, quando os rebeldes estavam usando armas proibidas internacionalmente contra civis no bairro maioritariamente curdo de Sheikh Maqsoud? Essas pessoas vivem em um mundo de fantasia ou nom tenhem respeito pola humanidade.

E se alguém nos digesse que É POSSÍVEL ter umha visom complexa, moralmente sustentável e realista sobre as cousas, por ser umha pessoa aberta, honesta, genuína, preocupada e ativa, cujo objetivo nom é “estar certo”, mas a justiça e liberdade para esta cidade/Pais em guerra  e por realmente respeitando as vozes provenientes da própria Síria? Nom precisas ter umha posiçom absolutamente perfeita, porque isso simplesmente nom é umha escolha realista nesta guerra, a menos que decidas nunca ficar com as maos sujas, inclinar-se para trás e desfrutar do derramamento de sangue.

Isso significa que podes realmente ser anti-Assad sem ser um apologista doutras formas de fascismo, estado ou nom-estado. Podes ser pró-revoluçom sem fingir que todos os rebeldes som inocentes defensores dos direitos humanos. Podes entender que o ambiente revolucionário inicial foi seqüestrado mais tarde por jihadistas, poderes regionais e dinâmicas internacionais sem cair na narrativa de Assad de que umha verdadeira oposiçom nunca existiu. Podes reconhecer que o antiimperialismo significa estar contra todos os imperialistas, nom só com o seu mas odiado imperialista.

Podes apoiar Rojava sem odiar os revolucionários sírios e negar a sua existência. Podes apoiar os revolucionários sírios verdadeiramente democráticos, mesmo se eles nom tenhem um projeto sistematizado como em Rojava ou sem a participaçom significativa das mulheres ou idéias de esquerda radical nas suas estruturas. Podes simpatizar com o cepticismo árabe de Rojava, ao mesmo tempo em que se lembra do legado histórico do racismo sistemático e do chauvinismo contra os curdos na Síria. Podes apoiar os refugiados sem ignorar as dimensons sócio-econômicas e as condiçons que permitem a alguns sair, mas nom a outros. Podes avogar contra a guerra, a intervençom e o comércio de armas e ainda reconhecer que a auto-defesa e luta armada pola sobrevivência som realidades inegáveis – ver Kobane. Podes odiar ate as entranhas ao ISIS sem ser um racista ou Islamofóbico. Podes combater a islamofobia sem silenciar as pessoas do Oriente Médio, especialmente os nom-muçulmanos, que criticam ou até mesmo luitam contra o Islam. E assim por diante.

Mas a pior coisa que você pode ser é um comentador on-line desorientado, confuso, auto-justificativo, que nom tem nada a perder ao fabricar porcaria para incitar ainda mais divisons e hostilidades! Para baixo com as suas análises políticas que estam privadas da ética e da decência humana! Pessoas como você som a razom deste mundo se transformar em um inferno na terra!

Liberdade para Rojava

Liberdade para umha Síria livre, democrática, multi-cultural!

Dilar Dirik, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. O seu trabalho analisa o papel da luita das mulheres na articulaçom e construçom da liberdade no Curdistam. Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

Turquia e o caminho ao genocídio

Cizre, Curdistam sob administraçom turca em março de 2016. IPPNW Alemanha

Por Djene Bajalan

Há paralelos assustadores entre o genocídio armênio e a situaçom dos curdos na Turquia hoje.

No domingo, 24 de abril do 1915, o ministro Otomano do Interior, Talat Pasha, ordenou a prisom e detençom dos líderes da comunidade armênia que residiam dentro do império. Na primeira noite, mais de duzentas pessoas foram apanhadas polas forças governamentais; com o passar dos dias o número cresceu a mais de dois mil. O ataque de Talat Pasha contra os armênios otomanos fazia parte de umha campanha mais ampla e sistemática de genocídio dirigida à comunidade armênia do império – umha campanha que deixou entre 800.000 e 1.5 milhons de mortos.

Nom é necessário aqui re-litigar a questom de se ou nom os eventos de 1915 – descritos eufemisticamente em fontes turcas oficiais como as “deslocalizaçons (tehcir)” – constituírom genocídio. Em vez disso, ao lembrar o genocídio armênio e, mais especificamente, as detençons do “Domingo Vermelho”, torna-se possível situar as políticas dos líderes atuais da Turquia em relaçom aos representantes do movimento curdo – em particular, a detençom dos líderes de pró-curdo  Partido Democrático do  Povo (HDP), Selahattin Demirtaş e Figen Yuksekdağ, o 4 de novembro – em um contexto histórico mais amplo.

Enquanto isso seria hiperbólico afirmar que os níveis de violência actualmente a ser dirigida a povoaçom curda da Turquia hoje tenham chegado à mesma magnitude que a dirigida contra os armênios pouco mais de um século atrás, inegáveis e assustadores paralelos podem, contudo, elaborar-se.

Erdogan e os curdos

Nom foi há muito tempo que o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan foi elogiado pola sua (relativamente) posiçom progressista em relaçom aos direitos curdos na Turquia. Desde a fundaçom da República da Turquia em 1923, a “questom curda” – o conflito entre as elites nacionalistas turcas em Ancara e aqueles que alegam representar a autêntica vontade nacional dos curdos da Turquia – constituiu umha das principais fontes de instabilidade política do país.

Nas décadas de 1920 e 1930, a jovem república enfrentou umha série de rebelions curdas de inspiraçom nacionalista, principalmente a Rebeliom do Sheikh Said de 1925 e a Revolta Hoybûn de 1929-1931. A postura tomada pola administraçom do pai fundador da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, era de supressom e negaçom. O governo republicano foi enorme para esmagar a resistência curda; por exemplo, em 1925, um terço do orçamento do governo estava direcionado para a supressom militar da insurgência do xeque Said.

No entanto, apesar da intensidade da violência empregada polo Estado durante as décadas de 1920 e 1930, a questom curda nunca foi verdadeiramente resolvida. Começando nas décadas de 1940 e 1950, umha nova geraçom de intelectuais e ativistas curdos começou a mobilizar-se em um processo que culminou com a fundaçom do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (mais conhecido polo seu acrónimo curdo PKK) em 1978, umha organizaçom dedicada à libertaçom nacional nom só dos curdos da Turquia, mas dos curdos em todo o Oriente Médio.

Posteriormente, o Sudeste maioritariamente curdo da Turquia foi mergulhado num estado de guerra civil. Entre 1978 e a prisom do fundador do PKK Abdullah Öcalan em 1999, trinta mil vidas foram perdidas e cerca de quatro mil aldeias curdas destruídas. Ao longo destes anos de conflito, o governo turco sustentou que nom havia “questom curda”; ao invés funcionários do governo enquadram o conflito em termos da luita contra o terrorismo (e, se pressionado, desenvolvimento económico). Como dixo o primeiro-ministro Tansu Çiller durante uma entrevista concedida em 1995 a Daniel Pipes: “Nom há insurreiçom curda na Turquia. Os terroristas do PKK estam a atacar civis inocentes na parte sudeste do meu país sem poupar mulheres, crianças ou idosos.”

No entanto, o sucesso eleitoral do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) em 2002 e a ascensom de Erdoğan ao cargo de primeiro-ministro (umha posiçom que ocupou até a sua eleiçom como presidente em 2014) marcarom umha mudança sutil mas distinta na política oficial para os curdos. No Verao de 2005, o primeiro-ministro Erdoğan viajou para Diyarbakir, um bastiom do nacionalismo curdo, e proclamou que a questom curda era a sua questom e um problema colectivo para a Turquia, confessando que, no passado, ” foram cometidos erros.”

Estas declaraçons foram seguidas por umha série de medidas que facilitarom a fim as restriçons à expressom da cultura curda. Provisons forom feitas para permitir que o curdo fosse ensinado em escolas de idiomas e universidades, a televisom estatal abriu um canal de transmissom em curdo e, em 2009, o governo anunciou a chamada “abertura curda”, processo que o ministro do Interior, Beşir Atalay, Hakan Fidan, chefe da poderosa Agência Nacional de Inteligência da Turquia, estava até em negociaçons com o líder preso do PKK, Abdullah Öcalan, com vista a acabar com o período mais longo de insurgência curda.

É claro que muitas das reformas prometidas permaneceram em grande parte na teoria e o ativismo curdo continuou sendo um negócio arriscado. Em dezembro de 2009, o Partido Democrático da Sociedade (DTP), o antecessor do HDP, foi ilegalizado polo tribunal constitucional da Turquia, alegando que era umha frente para o “terrorismo”. Além disso, os contatos do governo com Abdullah Öcalan nom possuíam umha posiçom legal clara Ou um objectivo definido. No entanto, no início de 2010, parecia que a Turquia estava a avançar lentamente para algum tipo de resoluçom da “questom curda do país.”

Em retrospectiva, parece evidente que a abertura de Erdoğan para com os curdos nasceu nom de qualquer convicçom forte de que a povoaçom curda do país tinha sido vítima de umha injustiça histórica, mas um desejo básico de ganhar votos curdos. No curto prazo, este provou ser bem sucedido, com o AKP aumentando a sua parte do voto no sudeste curdo nas eleiçons gerais de 2007. Entretanto, nas eleiçons locais de 2009 muitos curdos, frustrados com o ritmo lento das reforma, abandonou o AKP, levando ao fracasso do partido para assumir o control do governo municipal de Diyarbakir do DTP pro-curdo.

As reformas lentas também impulsionaram a popularidade da ala parlamentar do movimento curdo, que, em 2014, se fundiu em um novo partido, o HDP. O HDP foi capaz de capitalizar sobre a repulsa sentida por muitos curdos (incluindo os elementos mais conservadores da sociedade curda que geralmente tinham sido solidários com o AKP) em direçom a visom de Erdoğan do movimento curdo sírio, que tinha chegado a proeminência política após a eclosom da Guerra Civil Síria em 2011.

No outono de 2014, quando os combatentes curdos sírios tentaram defender a cidade síria curda de Kobanê das forças do Estado Islâmico, as autoridades turcas se recusaram a permitir que os curdos da Turquia cruzassem a fronteira para ajudar os defensores de Kobanê, apesar de que essas mesmas autoridades tinham sido mais do que dispostas a fechar os olhos para um fluxo constante de jihadistas na Síria desde o território turco. As paixons foram ainda mais inflamadas quando Erdoğan (agora presidente) proclamou, com aparente indiferença fria, que Kobanê estava “à beira da queda”. Umha onda de protestos espalhou-se por toda a Turquia e foi brutalmente reprimida polas autoridades turcas.

A popularidade do HDP também aumentou como resultado da sua postura relativamente progressista em relaçom à economia, aos direitos LGBT e ao meio ambiente. Tais posiçons o ajudarom a construir apoio entre os turcos liberais e esquerdistas, muitos dos quais tinham participado ou simpatizado com os protestos do Parque Gezi em 2013. Assim, sob a co-liderança de Demirtaş, um curdo étnico de Elazığ e Figen Yüksekdağ, umha turca étnico de Adana, o partido conseguiu construir umha coalizom eleitoral que incluía nom apenas curdos, mas liberais turcos, esquerdistas, ambientalistas e ativistas de direitos LGBT. Concedido, a base do partido permaneceu esmagadoramente curda, mas nas eleiçons parlamentares de junho de 2015, esta coalizom pôde impulsionar o HDP após o limiar eleitoral do 10 por cento, umha barreira que em eleiçons precedentes negou-lhe aos partidos pro-Curdo representaçom parlamentar adequada (HDP ganhou o 13,1 por cento).

O sucesso eleitoral do HDP, que veio principalmente à custa do AKP, foi um desafio direto ao crescente poder de Erdoğan, e aparentemente pôs fim às suas ambiçons de reescrever a Constituiçom turca de 1982 e estabelecer umha presidência executiva forte (a Turquia é um sistema parlamentar ). Quase assim que os resultados das eleiçons foram em umha nova ofensiva militar foi lançado contra o PKK.

O estopim para a renovaçom da violência foi o atentadoo, provavelmente orquestrado polo Estado Islâmico, de um grupo de estudantes que se reuniram em Suruç, na fronteira turco-síria, para apoiar os combatentes curdos na Síria. Logo depois, forças de segurança turcas entraram em confronto com militantes curdos em Adiyaman e Ceylanpinar, deixando três soldados mortos. Embora o PKK tenha negado estar envolvido nos combates, essas mortes abriram um espaço para um novo ataque do governo contra o PKK. Sob a capa de perseguir o Estado Islâmico, a força aérea turca atacou posiçons do PKK no Iraque.

Enquanto isso, dentro das fronteiras da Turquia, as autoridades se enfrentaram com militantes curdos em cidades do sudeste. Na primavera de 2016, esta nova rodada de violência custou, segundo as autoridades turcas, 4,571 combatentes curdos, 450 soldados e policiais e polo menos 338 civis. As perdas materiais foram igualmente grandes, com muitas cidades curdas reduzidas a escombros e ruínas, adornadas com bandeiras turcas.

Apesar de alimentar o sentimento nacionalista entre os turcos, estes confrontos nom significarom o fim do HDP. Umha segunda eleiçom realizada em novembro de 2015 viu a queda do voto da HDP, mas nom abaixo do limiar eleitoral do 10%. Na verdade, em termos de assentos parlamentares, o HDP ultrapassou o Partido de Açom Nacional de extrema-direita (MHP), tornando-se o terceiro maior partido parlamentar.

No entanto, após o fracasso golpe de Estado do 15 de julho, a paisagem política na Turquia está mudando rapidamente. Erdoğan usou o caos político para consolidar ainda mais o seu poder, atacando os bastions da oposiçom remanescentes nos meios de comunicaçom, na burocracia, na educaçom e, naturalmente, no movimento curdo.

As fontes de mídia curdas, incluindo a Agência de Notícias Dicle, Azadiya Welat (Naçom Livre) e Evrensel Kültür (Cultura Universal), forom fechadas. Líderes do HDP de governos locais também forom arredondados, incluindo os co-presidentes de câmara de Diyarbakir, Gültan Kışanak e Fırat Anli. Talvez um dos movimentos mais significativos do governo tenha sido o assalto legal à delegaçom parlamentar do HDP.

Em maio de 2016, dois meses antes do golpe de Estado, o parlamento turco votou para remover a imunidade parlamentar dos membros do HDP, umha medida apoiada nom só polo AKP, mas também polo maior partido da oposiçom da Turquia, o Partido Popular Kemalista (CHP) . Na noite do 4 de novembro, as autoridades turcas figeram uso desse novo poder para, de feito, “decapitar” o movimento curdo; um movimento que lembra misteriosamente o ataque de Talat Pasha contra a intelligentsia armênia 101 anos antes.

Assim como os “jovens turcos” usaram a capa da Primeira Guerra Mundial para “resolver” a questom armênia, Erdoğan parece estar usando o pós-golpe para “limpar” a oposiçom curda.

Racializaçom do Conflito Curdo

Um aspecto significativo, mas muitas vezes ignorado, dos desenvolvimentos relacionados com a “questom curda” da Turquia é a mudança gradual na última década para a institucionalizaçom da identidade curda na Turquia. À primeira vista, isso pode parecer um desenvolvimento positivo. No entanto, à medida que a República Turca avançou para o reconhecimento, embora apenas implicitamente, de que os curdos constituem umha comunidade distinta, a comunidade curda, paradoxalmente, tornou-se mais vulnerável à violência dirigida.

A este respeito, a comparaçom com o caso arménio é particularmente relevante. Apesar dos esforços das sucessivas geraçons de reformadores otomanos no século XIX e início do XX para forjar umha “naçom” otomana através do estabelecimento de um conjunto comum de direitos e responsabilidades para todos os sujeitos otomanos, independentemente das suas afiliaçons étnicas ou religiosas, característica persistente da política otomana tardia. Isto foi particularmente verdade em comunidades predominantemente nom-muçulmanas como os armênios que gozavam de um tipo de reconhecimento oficial devido à existência do chamado sistema de milheto, umha estrutura administrativa que proporcionava às minorias religiosas umha forma de autonomia legal.

Na segunda metade do século XIX, essa autonomia institucional foi reforçada polo surgimento de um animado movimento político armênio que impulsionou (às vezes através de umha atividade revolucionária violenta) o reconhecimento dos direitos nacionais armênios (embora nom necessariamente a independência nacional). As elites políticas otomanas consideravam cada vez mais a comunidade armênia nom como “cidadaos” otomanos em potencia, mas como umha ameaça existencial à unidade imperial – umha quinta coluna trabalhando ativamente para minar a ordem política otomana.

Essa tendência foi exacerbada pola proliferaçom de idéias social-darwinistas entre a liderança do Comitê de Uniom e Progresso (mais conhecido no Ocidente como os Jovens Turcos), umha cabala secreta de funcionarios e militares que lideraram o Império Otomano durante a I Guerra Mundial. Esta tendência serviu para racializar umha comunidade que, historicamente, tinha sido compreendida principalmente em termos religiosos. Como dixo o Dr. Nazim, membro da Organizaçom Especial da CUP (Teşkilât-ı Mahsusat), umha organizaçom semi-oficial de inteligência diretamente responsável polas brutalidades contra os armênios, declarou em umha reuniom da CUP em 1915:

Se permanecermos satisfeitos. . . Com massacres locais. . . Se esta purga nom é geral e final, inevitavelmente levará a problemas. Portanto, é absolutamente necessário eliminar o povo armênio na sua totalidade, de modo que nom haja mais armênios nesta terra e o próprio conceito da Armênia seja extinto. . .

Assim, mesmo a conversom ao Islã (um movimento que salvara a muitos armênios da morte durante um conjunto anterior de pogroms em meados da década de 1890), nom era suficiente para salvar os infelizes moradores arménios da deportaçom para o deserto sírio ou o assassinato.

Como poderíamos entom comparar a situaçom dos armênios há um século com a situaçom dos curdos hoje?

A atitude das elites políticas na Turquia republicana em relaçom aos curdos tem sido, historicamente, um pouco diferente da atitude mostrada para os armênios polos arquitetos do genocídio. Isso nom quer sugerir que as noçons racializadas de identidade étnica nom tenham sido significativas na Turquia republicana. A lei das indemnizaçons de 1934, desde que os mecanismos legais para a deportaçom daqueles de “cultura”  nom-turca das suas casas; Umha lei usada com grande efeito para deportar curdos e outros “indesejáveis”, como os judeus da Trácia.

Ao mesmo tempo, o governo de Mustafa Kemal Atatürk estava mais do que disposto a tolerar as atividades dos supremacistas raciais turcos como Nihal Atsiz, um indivíduo que recuperou a propaganda nazista para o consumo turco e descreveu a nacionalidade turca como “umha questom de sangue”. A nível popular, os curdos forom muitas vezes considerados polos turcos como sendo um povo bestial, de pel escura, suja.

No entanto, o discurso “kemalista” oficial nom reconheceu os curdos como um povo distinto. Eles foram descritos como “turcos da montanha”; um povo que era de origem turca, mas que vinhera falar umha forma de “persa quebrado” (curdo, como o persa, é umha língua indo-iraniana). Assim, a política da Turquia para os curdos foi muitas vezes ditadas pola noçom de que a Curdicidade era umha forma de falsa consciência e que qualquer manifestaçom de descontentamento político curdo era o resultado da agitaçom externa.

Assim, os kurdos foram considerados polas elites kemalistas como sendo, para tomar um termo do estudioso Mesut Yegen “turcos prospectivos”; umha comunidade que poderia, por meio da educaçom, ser atraída para o círculo da “civilizaçom” turca moderna. Na verdade, os nacionalistas kemalistas, com a quase obsessom patológica de usar as palavras de Mustafa Kemal, muitas vezes tentavam negar a exclusividade étnica do nacionalismo turco, feita polo fundador da Turquia: “Feliz é aquel que se chama turco”, nom “Feliz é aquel que é turco”; um ponto usado para demonstrar a aparente inclusividade da identidade turca.

É claro que os “nacionalismos cívicos” assimilacionistas, como variedade do nacionalismo turco exposta polos kemalistas seculares, som muitas vezes menos perniciosos do que o chamado nacionalismo étnico (se de feito umha divisom firme entre essas duas categorias pode mesmo ser feita). A missom civilizadora kemalista, apropriadamente descrita por Welat Zeydanoğlu como “o fardo do homem branco turco”, resultou na repressom da língua curda, na prisom de ativistas curdos e em políticas como o rapto em massa de crianças curdas e o seu internamento forçado polo governo em Internatos.

No entanto, a negaçom do estado turco da existência curda também isolou os curdos de um ataque genocida. Embora a violência contra determinadas comunidades de curdos tenha, às vezes, atingido proporçons genocidas – principalmente durante a campanha de Dersim de 1937 e 1938 – enquanto os curdos fossem considerados “turcos em potencia”, ficava fora da agenda a erradicaçom física total da comunidade curda. Afinal, como se pode destruir umha naçom que o Estado se recusa a aceitar que existe?

A situaçom evoluiu no âmbito do AKP. O reconhecimento oficial parcial e imperfeito dos curdos como umha comunidade distinta ao longo da última década criou ironicamente condiçons nas quais o genocídio contra os curdos da Turquia é agora, se nom necessariamente, provável,.

Escrevendo em 2009, Mesut Yeğen observou que “o status dos curdos em relaçom à turquia está à beira de umha grande mudança”. O ponto de Yeğen era que a crença popular de que os curdos poderiam se tornar turcos estava em declínio; no seu lugar, surgiu umha nova narrativa emanando tanto das Forças Armadas turcas como da imprensa nacionalista, que retratava os curdos como pseudo-cidadaos (sözde vatandaşlar) e muitas vezes os ligava a comunidades há muito consideradas fora do círculo turco através do uso de termos como judeus-curdos ou armênios-curdos.

A tendência para ver os curdos como o “outro” claramente definido para o turco tem sido inadvertidamente reforçada por concessons oficiais (por mais escandalosas e superficiais) à identidade curda. É agora impossível para os líderes políticos turcos voltar à política de negaçom que, durante grande parte da história moderna da Turquia, definiu a atitude oficial em relaçom aos curdos. Em vez disso, os curdos som agora considerados polos círculos governamentais e por grandes setores do público turco, como ingratos que, apesar dos esforços do governo, continuam empenhados em destruir o país.

Assim, o castigo coletivo do tipo dos armênios há um século é – talvez por primeira vez na história da Turquia moderna – agora possível. Como os armênios em 1915, os curdos emergiram como um novo “outro” – um grupo distinguível da maioria turca.

A este respeito, a prisom dos co-líderes do HDP, bem como centenas de outros intelectuais e ativistas curdos, parece notavelmente semelhante aos esforços de Talat Pasha para “decapitar” a comunidade armênia. Os apologistas de Erdoğan podem muito bem tentar enquadrar essas prisons em termos da “guerra contra o terrorismo”; especialmente ao justificar as suas açons para os Estados Unidos e Europa.

No entanto, as declaraçons do ministro da Economia Nihat Zeybekçi, em que el comparou os membros do HDP a “ratos”, sugere as atitudes racistas e desumanizantes mantidas pola elite governante da Turquia. Tais declaraçons, feitas num momento em que o conflito militar entre o PKK e o exército turco estam aumentando, servem apenas para endurecer as fronteiras ideológicas que separam os curdos dos turcos e, ao fazê-lo, podem muito bem estar lançando as bases de umha campanha até entom sem precedentes Violência contra a povoaçom curda da Turquia.

Isso resultará em genocídio? Talvez seja cedo demais para dizer. Mas este é 2016, um ano em que muitas coisas que umha vez pensou impossível tornaram-se muito reais.

Djene Bajalan é professor assistente no Departamento de História da Universidade Estadual de Missouri.A sua pesquisa centra-se sobre assuntos do Oriente Médio e ensinou e estudou no Reino Unido, na Turquia e no Curdistam iraquiano.

Publicado em Jacobinmag.

 

 

 

 

 

 

 

Balanço do Estado de Emergência nos Meios de Comunicaçom na Turquia

12 Decretos Legislativos (KHK) foram emitidos durante o estado de emergência que foi declarado em 20 de julho de 2016. No total, 177 meios de comunicaçom foram fechados por três dos 12 KHK, dos que 11 forom reabertos.

A Associaçom de Jornalistas da Turquia (TGC) e a Uniom de Jornalistas da Turquia (TGS) declararom que 2.500 jornalistas e trabalhadores dos mídia foram deixados desempregados devido ao encerramento de 121 órgaos de comunicaçom da comunidade Gülen e círculos curdos desde que o estado de emergência foi declarado.

Cinco agências de notícias, 28 canais de televisom e 34 de rádio, 62 jornais, 19 revistas e 29 editoras forom fechadas.

Meios de comunicaçom fechados:

Agências

Cihan Haber Agency, Muhabir Haber Agency, SEM Haber Agency. Dicle Haber Agency, Jin Haber Agency.

Canais de televisom

Barış TV, Bugün TV, Can Erzincan TV, Dünya TV, Hira TV, Irmak TV, Kanal 124, Kanaltürk, MC TV, Mehtap TV, Merkür TV, Samanyolu Haber, Samanyolu TV, SRT Televizyonu, Tuna Shopping TV, Yumurcak TV, İMC TV, Hayatın Sesi, Azadi TV, Jiyan TV, Van TV, TV10, Denge TV, Zarok TV, Birlik Medya TV, Özgür Gün TV, Van Genç TV, Mezopotamya TV.

Canais de rádio

Aksaray Mavi Radyo, Aktüel Radyo, Berfin FM, Burç FM, Cihan Radyo, Dünya Radyo, Esra Radyo, Haber Radyo Ege, Herkül FM, Jest FM, Kanaltürk Radyo, Radyo 59, Radyo Aile Rehberi, Radyo Bamteli, Radyo Cihan, Radyo Fıkıh, Radyo Küre, Radyo Mehtap, Radyo Nur, Radyo Şimşek, Samanyolu Haber Radyosu, Umut FM, Yağmur FM, Batman FM, YÖN Radyo (İstanbul), Özgür Radyo, Radyo Ses (Mersin), Radyo Dünya (Adana), Özgür Güneş Radyosu (Malatya), Radyo Karacadağ (Urfa), Radyo Rengin, Gün Radyo, Patnos FM, Doğu Radyo (Van).

Jornais

Adana Haber Gazetesi (Adana), Adana Medya Gazetesi (Adana), Akdeniz Türk (Adana), Şuhut’un Sesi Gazetesi (Afyon), Kurtuluş Gazetesi (Afyon), Lider Gazetesi (Afyon), İşçehisar Durum Gazetesi (Afyon), Türkeli Gazetesi (Afyon), Antalya Gazetesi (Antalya), Yerel Bakış Gazetesi (Aydın), Nazar (Aydın), Batman Gazetesi (Batman), Batman Postası Gazetesi (Batman), Batman Doğuş Gazetesi (Batman), Bingöl Olay Gazetesi (Bingöl), İrade Gazetesi (Hatay), İskenderun Olay Gazetesi (Hatay), Ekonomi (İstanbul), Ege’de Son Söz gazetesi (İzmir), Demokrat Gebze (Kocaeli), Kocaeli Manşet (Kocaeli), Bizim Kocaeli (Kocaeli), Haber Kütahya Gazetesi (Kütahya), Gediz Gazetesi (Kütahya), Zafer Gazetesi (Kütahya), Hisar Gazetesi (Kütahya), Turgutlu Havadis Gazetesi (Manisa), Milas Feza Gazetesi (Muğla), Türkiye’de Yeni Yıldız Gazetesi (Niğde), Hakikat Gazetesi (Sivas), Urfa Haber Agency Gazetesi (Urfa), Ajans 11 Gazetesi (Urfa), Yeni Emek (Tekirdağ), Banaz Postası Gazetesi (Uşak), Son Nokta Gazetesi (Uşak), Merkür Haber Gazetesi (Van), Millet Gazetesi, Bugün Gazetesi, Meydan Gazetesi, Özgür Düşünce Gazetesi, Taraf, Yarına Bakış, Yeni Hayat, Zaman Gazetesi, Today’s Zaman, Özgür Gündem Gazetesi (İstanbul), Azadiya Welat Gazetesi (Diyarbakır), Yüksekova Haber Gazetesi (Hakkari), Batman Çağdaş Gazetesi (Batman), Cizre Postası Gazetesi (Şırnak), İdil Haber Gazetesi (Şırnak), Güney Expres Gazetesi (Şırnak), Prestij Haber Gazetesi (Van), Urfanatik Gazetesi (Urfa), Kızıltepe’nin Sesi Gazetesi (Mardin), Ekspres Gazetesi (Adana), Türkiye Manşet Gazetesi (Çorum), Dağyeli Gazetesi (Hatay), Akis Gazetesi (Kütahya), İpekyolu Gazetesi (Ordu), Son Dakika Gazetesi (İzmir), Yedigün Gazetesi (Ankara).

Revistas

Akademik Araştırmalar Dergisi, Aksiyon, Asya Pasifik (PASİAD) Dergisi, Bisiklet Çocuk Dergisi, Diyalog Avrasya Dergisi, Ekolife Dergisi, Ekoloji Dergisi, Fountain Dergisi, Gonca Dergisi, Gül Yaprağı Dergisi, Nokta, Sızıntı, Yağmur Dergisi, Yeni Ümit, Zirve Dergisi, Tiroj Dergisi, Evrensel Kültür Dergisi, Özgürlük Dünyası Dergisi, Haberexen Dergisi.

Editoras e distribuidoras

Altın Burç Yayınları, Burak Basın Yayın Dağıtım, Define Yayınları, Dolunay Eğitim Yayın Dağıtım, Giresun Basın Yayın Dağıtım, Gonca Yayınları, Gülyurdu Yayınları, GYV Yayınları, Işık Akademi, Işık Özel Eğitim Yayınları, Işık Yayınları, İklim Basın Yayın Pazarlama, Kaydırak Yayınları, Kaynak Yayınları, Kervan Yayınları, Kuşak Yayınları, Muştu Yayınları, Nil Yayınları, Rehber Yayınları, Sürat Basım Yayın Reklamcılık ve Eğitim Araçları, Sütun Yayınları, Şahdamar Yayınları, Ufuk Basın Yayın Haber Ajans Pazarlama, Ufuk Yayınları, Waşanxaneya Nil, Yay Basın Dağıtım PAZ, Reklamcılık, Yeni Akademi Yayınları, Yitik Hazine Yayınları, Zambak Basım Yayın Eğitim Turizm.

As reabertas

Kurtuluş Gazetesi (Afyon), Lider Gazetesi (Afyon), İşçehisar Durum Gazetesi (Afyon), Bingöl Olay Gazetesi (Bingöl), Ege’de Son Söz Gazetesi (İzmir), Hakikat Gazetesi (Sivas) , SRT Televizyonu, Umut FM, Yağmur FM, Yön Radyo and Zarok TV. (EA/TK)

Publicado em Bianet.

 

 

“Turquia quere formar um Estado sunita na Síria”

Ebdo Ibrahim, Presidente do Conselho de Defesa de Afrin / ANHA

O presidente do Conselho de Defesa do Cantom de Afrin da Federaçom Rojava-Norte da Síria, Ebdo Ibrahim, falou com a ANHA e dixo que a Turquia pretende dividir as terras sírias para criar um estado sunita entre Jarablus, al-Bab e Aleppo.

Na entrevista publicada abaixo Ibrahim fai avaliaçons sobre os recentes desenvolvimentos na regiom de Aleppo e Shahba.

Como avalia os desenvolvimentos militares em Afrin, Shahba e Aleppo?

As contradiçons continuam entre os grupos armados no sexto ano da crise síria, levando ao crescimento da crise. As potências internacionais que dim que estam tentando resolver a crise na Síria estam aprofundando ainda mais a crise. Esta situaçom é especialmente válida para a regiom de Shahba.

No início da Campanha de Libertaçom Martir Faysal Abu Leyla de Manbij, os grupos Jabhat al-Nusra, Ahrar al-Sham, Nour al-Din al-Zenki e Fatah Halab posicionados em torno de Aleppo dirigiram-se a Shahba para apoiar ao ISIS e intensificar os ataques a Rojava.

Quando os planos do Estado turco falharom, a regiom foi diretamente intervida. Depois que os combatentes do Conselho Militar de Manbij libertaram Manbij, o estado turco ocupou Jarablus. Agora [estado turco] continuam ocupando al-Bab e Aleppo. Alguns grupos em Azaz estam cumprindo as ordens do estado turco.

A Turquia ocupou Jarablus em duas horas, eles levaram a cabo a travessia das gangues do ISIS vestindo-as com as roupas de al-Nusra. Neste ponto, a OTAN em particular e as potências internacionais precisam perguntar-se: Como a Turquia persuadiu as gangues de al-Nusra a se retirarem de Aleppo? Pesados combates onde civis estam sendo objetivo estám ocorrendo em distritos de Aleppo leste. Por que há umha luita pesada nessas áreas em particular? Qual é o valor geopolítico dessas áreas?

Quem ganhar em Aleppo vai ganhar na Síria em geral. Entom, se o regime ganha em Aleppo, eles seram os únicos a vencer na crise síria. Houvo assentamentos entre o regime e grupos armados em muitas áreas da Síria, como Damasco, Daraa e al-Waer, por que nom deveria acontecer em Aleppo também?

Aleppo tem importância estratégica para a Turquia também. Ao mesmo tempo tem a especialidade de ser um centro econômico e financeiro. Por esta razom, a Turquia quer reviver o seu período otomano ocupando esta regiom. Turquia usa os cidadaos da Síria como material de negociaçom como umha ameaça contra a UE. No entanto, infelizmente, o povo da Síria vive desconhecendo a verdade da Turquia.

O regime e a Turquia reunirom-se em Damasco com a coordenaçom do Iram. O regime tomaria Aleppo, Turquia ocuparia Jarablus, portanto, os acordos entre as duas partes forom encerrados. Isto porque a Turquia temia que as Forças Democráticas da Síria libertassem a regiom de al-Bab e assim conduzindo à libertaçom de umha rota Afrin e Kobane.

As forças das YPG tornaram possível atravessar mais de seis mil civis do leste de Aleppo até o distrito de Sheikh Maqsoud. Que impacto esse número poderia ter sobre as questons sociais e de segurança de Sheikh Maqsoud, já que o bairro ainda está sob cerco?

Umha situaçom como esta também aconteceu em Afrin. O cantom de Afrin recebira milheiros de migrantes sírios e um campo foi feito para os migrantes devido a medidas de segurança. Mas apesar da densidade presente em Sheikh Maqsoud, o aumento da povoaçom criará efeitos negativos. Isso ocorre porque o bairro ainda está sob cerco. Por outro lado os ataques contra o bairro continua. Apesar disso, os moradores do bairro e as forças de defesa receberam os migrantes.

Algumhas fontes de notícias dim que há divisom entre as milícias no leste de Aleppo, que achas que há de certo nisso?

Os ataques intensos do regime e o avanço nos distritos em Aleppo leste e o distanciamento de Turquia das suas próprias bandas conduziram à divisom entre eles. Muitos membros das milícias desertarom e fugirom entre a povoaçom civil. As milícias optam por este método, porque sabem que seriam presos se fugiram a Turquia.

Como avalias a visita ao Iram do subsecretário do MIT (Inteligência Turca), Hakan Fidan, e do ministro turco de Relaçons Exteriores, Mevlut Cavusoglu?

Esta nom é umha situaçom nova. Depois do derrube do aviom de guerra russo, a Turquia já se desculpou com a Rússia. A Turquia dá apoio ao governo no sul do Curdistam. A visita ao Iram ocorre em um momento em que os ataques contra Rojava estam aumentando. Recentemente, a Turquia pediu ajuda contra os ataques às Posiçons de Defesa Medya [áreas controladas polo PKK].

Hoje, o Conselho Militar de al-Bab está realizando umha grande resistência contra as bandas da  SNC [Coaliçom Nacional Síria]. A SNC retirou as suas milícias em Jarablus e entregou-nas ao exército ocupante turco. O Conselho Militar de al-Bab nom permitiu que a Turquia ocupasse a regiom de Shahba. A resistência do Conselho Militar de al-Bab mostra que se os povos da regiom estam unidos, entom eles podem se opor à ocupaçom turca.

A Turquia quere dividir o norte da Síria e formar um estado sunita desde Jarablus, al-Bab e Aleppo-Idlib. No entanto, as forças SDF nom permitiram que isso ocorra.

Esta entrevista foi feita por: Seydo Ibo, Cafer Cafo, Aylina Kilic.

Publicado em Hawarnews e Kurdishquestion.

 

Iram e Turquia enfrontam-se por Tal Afar

Members of the Shi'ite Badr Organisation fighters ride on military vehicles during a battle with Islamic State militants at the airport of Tal Afar west of Mosul, Iraq November 18, 2016. REUTERS/Thaier Al-Sudani - RTX2UAJW
Membros das milícias xiitas da Organizaçom Badr em veículos militares durante a batalha com o ISIS no aeroporto de Tal Afar, ao oeste de Mosul o 18 de Novembro do 2016 (Foto de REUTERS / Thaier Al-Sudani)

Resumo: Com a mobilizaçom das unidades predominantemente xiitas das PMU, com o apoio do Iram, expandem o seu control sobre a área recentemente libertada de Tal Afar, que tem umha maioria turcomana, a tensom entre as PMU e a Turquia aumentou.

BAGHDAD — “Tal Afar será o cemitério dos soldados turcos se a Turquia tenta participar da batalha “, dixo Hadi al-Amiri, chefe da Organizaçom Badr e líder das Unidades de Mobilizaçom Popular (PMU), em umha mensagem para o vizinho do norte do Iraque, em caso de que as tropas turcas implantadas em Bashiqa tentem participar na libertaçom de Tal Afar.

O 16 de novembro, Tal Afar foi libertado [Foi-lhe curtada as possibilidades de retirar-se cara Síria]. Trata-se de umha área estratégica para as PMU, umha vez que lhes dá acesso à fronteira síria e permite-lhes cortar as rotas aos luitadores do Estado Islâmico (IS) para escapar para a Síria. Após a libertaçom de Tal Afar, Amiri dixo que o presidente sírio convidou as PMU a luitar contra a oposiçom síria dentro do território sírio.

A declaraçom de Amiri contra a Turquia, que está próxima do Iram, veu em resposta a declaraçons anteriores do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, sobre a cidade de Tal Afar, em que advertiu às PMU de nom cometer “violaçons” contra os civis da cidade.

Durante umha declaraçom de imprensa o 29 de outubro, Erdogan dixo: “A cidade turcomana de Tal Afar é umha questom de grande sensibilidade para nós. No caso que as PMU cometeram atos terroristas na cidade, a nossa resposta será diferente.”

Erdogan acrescentou que recebeu informaçons que confirmam os atos terroristas das PMU na cidade, sem dar mais detalhes sobre o número de reforços ou como a retaliaçom da Turquia seria diferente.

Na mesma linha, o primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, respondeu ao presidente turco o 1 de novembro, dizendo que o governo iraquiano é mais ágil que qualquer outro parte em Tal Afar. Abadi nom escondeu as suas preocupaçons sobre quaisquer ameaças turcas, afirmando: “A ameaça de umha intervençom turca ainda existe.”

Tal Afar é um distrito administrativamente da governaçom de Ninevah e localizado a 63 quilômetros ao oeste de Mosul, perto da fronteira entre o Iraque e a Síria, com umha área de aproximadamente 28 quilômetros quadrados.

Abu Alaa al-Afri, que era adjunto de Abu Bakr al-Baghdadi, era de Tal Afar e foi morto na cidade em um ataque iraquiano no ano passado.

A cidade de Tal Afar, com a sua povoaçom diversa, tornou-se um polêmico campo de batalha para as partes além das fronteiras iraquianas, o que confirma a sua importância geográfica – especialmente para o Iram que busca chegar à Síria através do canal terrestre iraquiano e para a Turquia que busca reavivar a Glória da expansom otomana.

A cidade é o lar de diferentes etnias e tem umha maioria xiita turcomana, que está na base do conflito iraniano-turco (o Iram apoia os xiitas, enquanto a Turquia apóia os turcomanos).

É importante notar o conflito xiita-sunita entre a povoaçom turcomana, o que poderia desencadear umha guerra furiosa dentro do distrito, tornando mais fácil para o Iram e a Turquia obter um apoio na cidade que poderia envolver presença militar.

Para acrescentar combustível ao fogo, houvo conversas de que a libertaçom de Tal Afar, que ainda está sob o controle do IS, estará sob a supervisom do chefe das Força Quds do Iram, Qasem Soleimani. Esta seria umha grande provocaçom para os sunitas lá.

O envolvimento das PMU em Tal Afar também é controverso e é visto como umha reaçom à presença turca em Bashiqa.

O objetivo das PMU é libertar a cidade de Tal Afar e chegar à periferia de Mosul, sem entrar na cidade, a menos que o ordene o comandante em chefe das forças armadas “, dixo Faleh al-Fayad, chefe da PMU e assessor de segurança nacional no Iraque.”

O 30 de outubro, a Frente Turcomana no parlamento da Regiom do Curdistam advertiu contra qualquer mudança demográfica no distrito de Tal Afar como resultado da interferência das PMU na batalha lá e, portanto, recusou a participaçom desta última na libertaçom da cidade.

Harakat Hezbollah al-Nujaba, umha das facçons das PMU afiliadas ao Velayat-e faqih iraniano, espera que a batalha para libertar Tal Afar seja “feroz”, negando que as PMU estejam tentando provocar umha mudança demográfica no distrito, E acusando a Turquia de “manter o nariz nos asuntos dos outros”.”

É muito provável que as PMU e as tropas turcas colidem na cidade, já que estas estam estacionadas a 12 quilômetros de Tal Afar.

A Turquia acredita que a presença das PMU em Tal Afar dá-lhe terreno para entrar na cidade, especialmente após a advertência de Erdogan para interferir “se as PMU espalham o medo entre os cidadaos.”

O que é mais, a Turquia nom deseja que o Iram tenha influência em Tal Afar, que fica ao lado da fronteira com a Síria; e tornaria mais fácil para o Iram transferir armas através da rota terrestre que está procurando estabelecer de leste a oeste do Iraque. Isso também é visto como umha das razons por trás da disputa sobre Tal Afar.

Erdogan teme que Tal Afar, que fica a 60 quilômetros da fronteira turca, tornaria-se um paraíso para as facçons xiitas próximas ao Iraque. O presidente turco também tem preocupaçons sobre umha possível aliança entre as PMU e o Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) no que diz respeito a ataques que poderiam ser lançados na Turquia ou umha possível facilitaçom pelas PMU transferindo armas ao PKK que luita contra o exército turco.

Parece que haverá umha nova escalada turco-iraquiana que se pode transformar em um impasse militar, especialmente porque Abadi afirmou anteriormente: “[o Iraque] nom quer ir à guerra com a Turquia, mas se a Turquia insistir em umha guerra, nós estaremos prontos.”

No entanto, no caso de um confronto militar acontecera entre a Turquia e o Iraque, este último nom envolveria as suas tropas regulares, mas sim as PMU que vem as tropas turcas no Iraque como umha “força de ocupaçom.

Tal Afar tornou-se umha área internacional disputada entre a Turquia e o Iraque, o que está causando umha maior instabilidade em termos de segurança e abre a porta a conflitos civis, pavimentando assim o caminho a qualquer intervençom militar iraniana ou turca.

mustafa_saadoun-bwMustafa Saadoun é um jornalista iraquiano que cobre os direitos humanos e também fundador e diretor do Observatório Iraquiano dos Direitos Humanos. Anteriormente trabalhou como jornalista  do Conselho de Representantes do Iraque.

Publicado em Al-monitor.