Pacifismo feminista ou passivismo?

Protesta polo #BlackLivesMatter em Nova York o 13 de fevereiro de 2017. Créditos: Erik McGregor / PA Images

Por Dilar Dirik

Quando algumhas mulheres brancas louvam a nom-violência das marchas de mulheres contra Trump e depois posam em fotografias com policias enquanto a violência policial atinge especificamente a pessoas de cor, quando os anti-nazis som acusados de nom ser diferentes dos fascistas, quando feministas em relativa segurança acusam a mulheres militantes no Oriente Médio que enfrentam escravidude sexual sob o ISIS de militarismo, devemos perguntarmos pola noçom liberal da nom-violência que ignoram a interseçom dos sistemas de poder e os mecanismos de violência estrutural. Aderindo-se dogmaticamente a um pacifismo (ou passivismo?) que tem um caráter de classe e racial, e demonizando a raiva violenta anti-sistema, as feministas excluem-se de um tam necessário debate sobre formas alternativas de autodefesa cujo objetivo e estética servem a políticas liberadoras. Em umha era global de feminicídio, violência sexual e violaçons, quem se pode dar ao luxo de nom pensar na auto-defesa das mulheres?

O feminismo desempenhou um papel importante nos movimentos anti-guerra e alcançou vitórias políticas na construçom da paz. A crítica feminista ao militarismo como instrumento patriarcal torna compreensível a rejeiçom da participaçom das mulheres nos exércitos estatais em quanto  “empoderamento”. Mas a rejeiçom generalizada das feministas liberais à violência feminina, sem importar o objetivo, nom distingue qualitativamente entre o militarismo estatista, colonialista, imperialista, intervencionista e a necessária legítima defesa.

A polícia dispara para dispersar manifestantes da Black Lives Matter o 9 de julho de 2016 em Saint Paul para protestar contra o assassinato policial de Philando Castile. Créditos: Annabelle Marcovici / PA Imagens

O monopólio da violência como umha característica fundamental do Estado protege a este das acusaçons de injustiça, enquanto que criminaliza as tentativas básicas das pessoas pola auto-preservaçom. Dependendo das estratégias e políticas, atores nom-estatais som rotulados como “perturbadores da ordem pública” na melhor das hipóteses, ou “terroristas” na pior. A tendência de defender exemplos como Mahatma Gandhi ou Martin Luther King para defender a resistência nom-violenta muitas vezes desdibuja feitos históricos ao ponto de satanizar os elementos radicais e às vezes violentos de umha resistência legítima anticolonial ou anti-racista.

Simultaneamente, a tradicional associaçom da violência com a masculinidade e a exclusom sistemática das mulheres da política, da economia, da guerra e da paz reproduzem o patriarcado através de umha divisom sexual dos papéis no domínio do poder. A crítica feminista à violência baseia-se no bem-intencionado, mas profundamente essencialista, discurso de umha moralidade baseada no gênero, que também pode reproduzir a imagem das mulheres como passivas, inerentemente apolíticas e com necessidade de proteçom. Tal reduçom do gênero nom consegue entender que a inclinaçom à violência nom é inerentemente específica do gênero, mas determinada por sistemas interconectados de hierarquia e poder como demonstra o caso das mulheres brancas americanas que torturom homens iraquianos na prisom de Abu Ghraib.

As mulheres curdas tenhem umha tradiçom de resistência; a sua filosofia da autodefesa varia desde exércitos autônomos de guerrilhas femininas ao desenvolvimento de cooperativas autogeridas de mulheres. Nos últimos anos, as vitórias das Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ) em Rojava-Norte da Síria e das YJA Star do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) contra o ISIS tenhem sido inspiradoras. As mulheres curdas, junto com as suas irmás cristians, árabes e siríacas, libertarom milheiros de quilômetros quadrados do ISIS, criando fermosas imagem de mulheres liberando mulheres. Ao mesmo tempo, elas também estavam construindo os alicerces da revoluçom da mulher dentro da sociedade. No entanto, algumhas feministas ocidentais questionavam a sua legitimidade e a descartarom como militarismo ou cooptaçom por grupos políticos. As narrativas dos meios ocidentais retratarom essa luita de umha maneira despolitizada, exótica, ou fazendo suposiçons generalizadas sobre o desinteresse “natural” das mulheres à violência.  Se a reportagem da mídia era dominada por um olhar masculino, isso se devia em parte à recusa das feministas em se envolver com esse relevante tema. Umha nom pode deixar de pensar que as mulheres militantes que tomam as coisas nas suas maos prejudicam a capacidade das feministas ocidentais de falar em nome das mulheres no Oriente Médio, projetadas como vítimas indefesas, pode ser umha das razons para essa hostilidade.

Credito: YPJ Media Team

A luita das mulheres curdas desenvolveu umha filosofia centrada na mulher de autodefesa e situa-se numha análise interseccional do colonialismo, do racismo, do estatismo-naçom, do capitalismo e do patriarcado. A Teoria das Rosas é umha parte do pensamento político liberador do líder do PKK, Abdullah Öcalan. El sugere que, a fim de chegar a formas nom-estatistas de auto-defesa, precisamos nom olhar mais longe do que a própria natureza. Cada organismo vivo, umha rosa, umha abelha, tem os seus mecanismos de autodefesa para proteger-se e expressar a sua existência – com espinhos, picadas, dentes, garras, etc. nom para dominar, explorar ou destruir desnecessariamente outra criatura, mas para preservar-se e satisfazer as suas necessidades vitais. Entre os seres humanos, sistemas inteiros de exploraçom e dominaçom perpetuam a violência além da sobrevivência física necessária. Contra este abuso de poder, a legítima defesa deve basear-se na justiça social e na ética comunitária, com particular respeito à autonomia das mulheres. Se deixarmos de lado as noçons sociais darwinistas de sobrevivência e competiçom que, sob a modernidade capitalista, atingiram dimensons mortais e concentrarmos-nos na interaçom da vida dentro dos sistemas ecológicos, podemos aprender com os modos de resistência da natureza e formular umha filosofia de autodefesa. Para luitar contra o sistema, a autodefesa deve abraçar a açom direta, a democracia radical participativa e as estruturas sociais, políticas e econômicas autogeridas.

Encostado ao Confederalismo Democrático que lidera o movimento da liberdade curdo, um sistema confederal autônomo das Mulheres Democratas foi construído através de milheiros de comunas, conselhos, cooperativas, academias e unidades de defesa no Curdistam e além. Através da criaçom de umha comuna de mulheres autônoma em umha aldeia rural, a identidade, a existência e a vontade das suas membros encontram a sua expressom na prática e desafiam a autoridade do estado patriarcal e capitalista. Além disso, a autonomia econômica e a economia comunitária baseada na solidariedade através do estabelecimento de cooperativas som cruciais para a auto-defesa da sociedade, garantindo o auto-sustento através do mutualismo e da responsabilidade compartilhada, rejeitando a dependência dos Estados e dos homens. O cuidado com a água, as terras, as florestas, o património histórico e natural som partes vitais da auto-defesa contra o Estado-naçom e a destruiçom ambiental orientada ao lucro.

Defender-se também significa ser e conhecer-se a si mesma. Isso implica a superaçom da produçom de conhecimento sexista e racista que a modernidade capitalista defende e que exclui os oprimidos da história. A consciência política constitui umha luita contra a assimilaçom, a alienaçom da natureza e as políticas de Estado genocidas. A resposta à literatura histórica e socialista positivista, colonialista e centrada no homem é, portanto, o estabelecimento de academias de mulheres de base que promovam epistemologias liberacionistas.

Umha luita sem ética nom pode proteger a sociedade. Aos olhos das mulheres curdas, o ISIS nom pode ser derrotado so polas armas, mas por umha revoluçom social. É por isso que as mulheres Jazidis, depois de sofrerem um genocídio traumático sob o ISIS, formarom um conselho de mulheres autônomo por primeira vez na sua história com o lema “A organizaçom das mulheres Jazidi será a resposta a todas as massacres”, ao lado das organizaçons militares femininas. Em Rojava, ao lado das YPJ, até mesmo as avoas aprendem a lidar com o AK47 e rotam entre si a responsabilidade de proteger as suas comunidades dentro das Forças de Autodefesa (HPC), enquanto milheiros de centros de mulheres, cooperativas, comunas e academias visam desmantelar a dominaçom masculina. Contra a guerra hiper-masculina do Estado turco, as mulheres curdas constituem um dos principais desafios para o governo de Erdogan através da sua mobilizaçom autônoma. Crucialmente, mulheres de diferentes comunidades juntaram-se a elas na construçom de alternativas femininas à dominaçom masculina em todas as esferas da vida. Um conceito de autodefesa alternativo que nom reproduza o militarismo estatista deve ser, naturalmente, anti-nacionalista.

YJÊ é umha milícia de mulheres formada no Iraque em 2015 para proteger a comunidade Jazidi no Iraque e no Curdistam iraquiano. Créditos: Wikicommons

Ao contrário da violência que procura subjugar o “outro”, a auto-defesa é umha completa dedicaçom e responsabilidade para a vida. Existir significa resistir. E para existir de forma significativa e livre, é preciso ser politicamente autônoma. Dito sem rodeios, num sistema internacional de violência sexual e racial, legitimado polos Estados-naçom capitalistas, o grito de nom-violência é um luxo para aqueles em posiçons privilegiadas de relativa segurança, que acreditam que nunca acabaram numha situaçom em que a violência será necessária para sobreviver. Embora teoricamente sólido, o pacifismo nom fala à realidade das massas de mulheres e, assim, assume um caráter do primeiro mundo bastante elitista.

Se as nossas reivindicaçons de justiça social som genuínas, num sistema mundial de interseçom de formas de violência, nos temos que luitar.

Publicado em Opendemocracy

Dilar Dirik é do norte do Curdistam (Administrativamente Turquia). Ela é umha ativista do movimento de mulheres curdas e escreve sobre a luita pola liberdade curda para um público internacional. Está atualmente trabalhando no seu doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.

“Toda mulher livre é um país livre”: Declaraçom das YPJ polo Dia Internacional da Mulher

O Comando Geral das Unidades de Proteçom da Mulher de Rojava (YPJ) divulgou umha declaraçom polo 8 de março, Dia Internacional da Mulher. A declaraçom foi feita na presença de dúzias de combatentes e comandantes das YPJ em Serêkaniyê este luns.

A declaraçom do Comando Geral das YPJ rendeu homenagem à história da luita das mulheres e começou por comemorar as mulheres que a iniciarom.

“O 8 de março de 1857, 129 trabalhadoras textis [de New York] forom queimadas vivas por causa da sua reaçom às condiçons de trabalho desumanas. Enquanto a mentalidade que queima mulheres está persistindo em algumhas áreas do mundo de hoje, a resistência que as mulheres tenhem iniciado contra el continuam a luitar para destruir essa mentalidade “, di a declaraçom.

“Como YPJ, celebramos o 107º Dia Mundial das Mulheres Trabalhadoras com todas as mulheres do mundo e do Oriente Médio, as maes dos mártires e combatentes da liberdade.

“Quando deixamos para trás o 107º ano, as mulheres estam levando a resistência do 8 de março com muita coragem na liderança de Roza Luxemburgo, Clara Zetkin, Zarif, Besê, Leyla Qasim, Beritán, Sîlan, Zilan, Sara, Arîn Mîrkan, Özgür Efrîn , Jiyan Rojhilat e Destina Başûr.  Neste momento em que a resistência das mulheres está a crescer, como YPJ, repetimos a promessa no aniversário deste ano e expressamos respeito a todas as mártires que caírom nesta luta. A luita vai crescer ainda mais. ”

“Hoje continuamos vendo que a mentalidade masculina e os governos vem às mulheres como propriedades em todo o mundo, especialmente no Oriente Médio, onde os governos consideram as mulheres como despojos de guerra. Essa mentalidade está tentando tornar permanente o sistema patriarcal, impondo-o às mulheres;  o que significa que sempre temos que estar prontas para a luita”.

“As YPJ, com a sua mentalidade libertária, tem luitado incansavelmente na Revoluçom de Rojava por sete anos. As YPJ tomamos passos históricos e fixo progressos significativos.Ganhamos vontade política e está a dar vida à mentalidade de naçom democrática [anti-nacionalista, anti-capitalista e da libertaçom das mulheres], ao mesmo tempo em que cria as bases para umha vida livre e igualitária, as YPJ continuam a criar na revoluçom novas táticas e abordagens na esfera militar, tornando-se em umha força importante.”

“A consciência de que “Toda mulher livre é um país livre “é o princípio e a tarefa mais fundamental das YPJ. As YPJ conseguirom salvar milheiros de mulheres árabes, curdas, siríacas e jazidis da ocupaçom e do fascismo do Daeh (Estado Islâmico). também celebramos o 8 de março com o objetivo de libertar às mulheres e crianças de Raqqa da opressom do Daesh. Agasalhamos esta conquista às mártires do 8 de março e a todas as mulheres.

“É muito melhor entendida agora que a mulher mais forte é a mulher que se organiza e defende. Com a experiência adquirida durante os 7 anos da revoluçom de Rojava e da herdança histórica na que está baseada, as YPJ som capazes de espalhar esse conhecimento a todas as mulheres.”

As YPJ apelarom a todas as mulheres a que unam as suas luitas pola liberdade e digerom que determinaram os princípios desta luita em 7 pontos.

1) Abdullah Öcalan, que tem um papel nacional e histórico na luita polo desenvolvimento da liberdade das mulheres, está a ser mantido cautivo por umha conspiraçom internacional e está sob tortura desumana e isolamento desde há 18 anos [em umha prisom turca]. [Apelamos às mulheres] a levantar a voz contra esta tortura e isolamento e abordar esta questom como umha prioridade.

2) As mulheres no Oriente Médio hoje enfrentam-se a massacres nas esferas existencial, cultural e de segurança. Deve ser estabelecido um mecanismo comum de segurança e de defesa, bem como umha resistência eficaz contra este perigo. Cada mulher deve travar umha luita ideológica contra todos os tipos de soberania e domínio, especialmente contra o Daesh, e deveriam ter o direito de aumentar a defesa das mulheres.

3) As YPJ estam prontas para compartilhar as suas experiências com todas as mulheres que tenhem a coragem de resistir.

4) Mulheres e crianças som as maiores vítimas de todas as guerras e conflitos. Som afetadas nas esferas da migraçom, economia, defesa e vida social. A fim de defender os direitos das mulheres e das crianças, toda mulher deve luitar e opor-se a esta vitimizaçom.

5) As YPJ nom som só a força de defesa das mulheres curdas, mas de todas as mulheres em Rojava. Muitas luitadoras de diferentes naçons e grupos de crenças luitam nas fileiras das YPJ e muitas delas foram martirizadas. A essência das YPJ é umha força de defesa internacionalista e isso precisa ser ampliado e fortalecido.

6) Como mulheres que conseguirom muito nós enfrentamos ameaças sérias e graves. Apelamos a todas as mulheres para que reforcem a sua luita pola criaçom de umha naçom democrática eliminando estas ameaças. Cada mulher pode contribuir e alcançar um grande parte.

7) Acreditamos que podemos destruir essa mentalidade masculina dominante apenas luitando juntas e que podemos criar umha mentalidade democrática, cultura moral e vida livre como nós o derrotamos. Celebramos com todas as mulheres o 8 de março.

Traducido de kurdisquestion.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre Aleppo e os “esquerdistas” ocidentais

Resultado dos bombardeios dos “rebeldes” do leste de Aleppo nas últimas semanas.

Por Dilar Dirik

A verdade é sempre a primeira vítima da guerra, dizem. Como é verdade, especialmente olhando para a propaganda vindo de todos os lados, após a queda de Aleppo, que é mais um episódio do calvário da guerra na Síria desde há anos.

Estou enojada com a simplicidade das posiçons, o dogmatismo das idéias e, em alguns casos, a completa falta de decência moral nas análises e pseudo-análises do que está acontecendo em Aleppo e na Síria, na verdade, no Oriente Médio em geral. É certo que toda guerra está cheia de propaganda, mentiras e verdades inventadas, mas o que algumhas pessoas sem qualquer conexo com a regiom estam botando para fora das suas poltronas pseudo-revolucionárias é grotesco e desprezível. Alguns estam criando fantasias intervencionistas imperialistas, alguns estam abraçando abertamente o sanguinário regime de Assad e negando os seus crimes de guerra, algum agem como se os rebeldes foram um exército de anjos que merecem o apoio entusiástico e estúpido, alguns dizem nunca e abandonam toda esperança para os milhons de civis afectados por esta guerra. Eu nom estou falando sobre o mainstream, mas os esquerdistas de aqui! Demasiadas afirmaçons imorais forom feitas, mas neste momento particular, é especialmente violento ver como tantos “iluminados”, “progressistas” pessoas veementes “negam” o banho de sangue causado por Assad eo exército sírio e retratá-no como um mal menor, como se fossem os que perderom famílias inteiras a mans deste ditador fascista. Da mesma forma, onde estavam todas as pessoas que se levantam por Aleppo agora, quando os rebeldes estavam usando armas proibidas internacionalmente contra civis no bairro maioritariamente curdo de Sheikh Maqsoud? Essas pessoas vivem em um mundo de fantasia ou nom tenhem respeito pola humanidade.

E se alguém nos digesse que É POSSÍVEL ter umha visom complexa, moralmente sustentável e realista sobre as cousas, por ser umha pessoa aberta, honesta, genuína, preocupada e ativa, cujo objetivo nom é “estar certo”, mas a justiça e liberdade para esta cidade/Pais em guerra  e por realmente respeitando as vozes provenientes da própria Síria? Nom precisas ter umha posiçom absolutamente perfeita, porque isso simplesmente nom é umha escolha realista nesta guerra, a menos que decidas nunca ficar com as maos sujas, inclinar-se para trás e desfrutar do derramamento de sangue.

Isso significa que podes realmente ser anti-Assad sem ser um apologista doutras formas de fascismo, estado ou nom-estado. Podes ser pró-revoluçom sem fingir que todos os rebeldes som inocentes defensores dos direitos humanos. Podes entender que o ambiente revolucionário inicial foi seqüestrado mais tarde por jihadistas, poderes regionais e dinâmicas internacionais sem cair na narrativa de Assad de que umha verdadeira oposiçom nunca existiu. Podes reconhecer que o antiimperialismo significa estar contra todos os imperialistas, nom só com o seu mas odiado imperialista.

Podes apoiar Rojava sem odiar os revolucionários sírios e negar a sua existência. Podes apoiar os revolucionários sírios verdadeiramente democráticos, mesmo se eles nom tenhem um projeto sistematizado como em Rojava ou sem a participaçom significativa das mulheres ou idéias de esquerda radical nas suas estruturas. Podes simpatizar com o cepticismo árabe de Rojava, ao mesmo tempo em que se lembra do legado histórico do racismo sistemático e do chauvinismo contra os curdos na Síria. Podes apoiar os refugiados sem ignorar as dimensons sócio-econômicas e as condiçons que permitem a alguns sair, mas nom a outros. Podes avogar contra a guerra, a intervençom e o comércio de armas e ainda reconhecer que a auto-defesa e luta armada pola sobrevivência som realidades inegáveis – ver Kobane. Podes odiar ate as entranhas ao ISIS sem ser um racista ou Islamofóbico. Podes combater a islamofobia sem silenciar as pessoas do Oriente Médio, especialmente os nom-muçulmanos, que criticam ou até mesmo luitam contra o Islam. E assim por diante.

Mas a pior coisa que você pode ser é um comentador on-line desorientado, confuso, auto-justificativo, que nom tem nada a perder ao fabricar porcaria para incitar ainda mais divisons e hostilidades! Para baixo com as suas análises políticas que estam privadas da ética e da decência humana! Pessoas como você som a razom deste mundo se transformar em um inferno na terra!

Liberdade para Rojava

Liberdade para umha Síria livre, democrática, multi-cultural!

Dilar Dirik, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. O seu trabalho analisa o papel da luita das mulheres na articulaçom e construçom da liberdade no Curdistam. Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

Turquia e o caminho ao genocídio

Cizre, Curdistam sob administraçom turca em março de 2016. IPPNW Alemanha

Por Djene Bajalan

Há paralelos assustadores entre o genocídio armênio e a situaçom dos curdos na Turquia hoje.

No domingo, 24 de abril do 1915, o ministro Otomano do Interior, Talat Pasha, ordenou a prisom e detençom dos líderes da comunidade armênia que residiam dentro do império. Na primeira noite, mais de duzentas pessoas foram apanhadas polas forças governamentais; com o passar dos dias o número cresceu a mais de dois mil. O ataque de Talat Pasha contra os armênios otomanos fazia parte de umha campanha mais ampla e sistemática de genocídio dirigida à comunidade armênia do império – umha campanha que deixou entre 800.000 e 1.5 milhons de mortos.

Nom é necessário aqui re-litigar a questom de se ou nom os eventos de 1915 – descritos eufemisticamente em fontes turcas oficiais como as “deslocalizaçons (tehcir)” – constituírom genocídio. Em vez disso, ao lembrar o genocídio armênio e, mais especificamente, as detençons do “Domingo Vermelho”, torna-se possível situar as políticas dos líderes atuais da Turquia em relaçom aos representantes do movimento curdo – em particular, a detençom dos líderes de pró-curdo  Partido Democrático do  Povo (HDP), Selahattin Demirtaş e Figen Yuksekdağ, o 4 de novembro – em um contexto histórico mais amplo.

Enquanto isso seria hiperbólico afirmar que os níveis de violência actualmente a ser dirigida a povoaçom curda da Turquia hoje tenham chegado à mesma magnitude que a dirigida contra os armênios pouco mais de um século atrás, inegáveis e assustadores paralelos podem, contudo, elaborar-se.

Erdogan e os curdos

Nom foi há muito tempo que o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan foi elogiado pola sua (relativamente) posiçom progressista em relaçom aos direitos curdos na Turquia. Desde a fundaçom da República da Turquia em 1923, a “questom curda” – o conflito entre as elites nacionalistas turcas em Ancara e aqueles que alegam representar a autêntica vontade nacional dos curdos da Turquia – constituiu umha das principais fontes de instabilidade política do país.

Nas décadas de 1920 e 1930, a jovem república enfrentou umha série de rebelions curdas de inspiraçom nacionalista, principalmente a Rebeliom do Sheikh Said de 1925 e a Revolta Hoybûn de 1929-1931. A postura tomada pola administraçom do pai fundador da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, era de supressom e negaçom. O governo republicano foi enorme para esmagar a resistência curda; por exemplo, em 1925, um terço do orçamento do governo estava direcionado para a supressom militar da insurgência do xeque Said.

No entanto, apesar da intensidade da violência empregada polo Estado durante as décadas de 1920 e 1930, a questom curda nunca foi verdadeiramente resolvida. Começando nas décadas de 1940 e 1950, umha nova geraçom de intelectuais e ativistas curdos começou a mobilizar-se em um processo que culminou com a fundaçom do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (mais conhecido polo seu acrónimo curdo PKK) em 1978, umha organizaçom dedicada à libertaçom nacional nom só dos curdos da Turquia, mas dos curdos em todo o Oriente Médio.

Posteriormente, o Sudeste maioritariamente curdo da Turquia foi mergulhado num estado de guerra civil. Entre 1978 e a prisom do fundador do PKK Abdullah Öcalan em 1999, trinta mil vidas foram perdidas e cerca de quatro mil aldeias curdas destruídas. Ao longo destes anos de conflito, o governo turco sustentou que nom havia “questom curda”; ao invés funcionários do governo enquadram o conflito em termos da luita contra o terrorismo (e, se pressionado, desenvolvimento económico). Como dixo o primeiro-ministro Tansu Çiller durante uma entrevista concedida em 1995 a Daniel Pipes: “Nom há insurreiçom curda na Turquia. Os terroristas do PKK estam a atacar civis inocentes na parte sudeste do meu país sem poupar mulheres, crianças ou idosos.”

No entanto, o sucesso eleitoral do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) em 2002 e a ascensom de Erdoğan ao cargo de primeiro-ministro (umha posiçom que ocupou até a sua eleiçom como presidente em 2014) marcarom umha mudança sutil mas distinta na política oficial para os curdos. No Verao de 2005, o primeiro-ministro Erdoğan viajou para Diyarbakir, um bastiom do nacionalismo curdo, e proclamou que a questom curda era a sua questom e um problema colectivo para a Turquia, confessando que, no passado, ” foram cometidos erros.”

Estas declaraçons foram seguidas por umha série de medidas que facilitarom a fim as restriçons à expressom da cultura curda. Provisons forom feitas para permitir que o curdo fosse ensinado em escolas de idiomas e universidades, a televisom estatal abriu um canal de transmissom em curdo e, em 2009, o governo anunciou a chamada “abertura curda”, processo que o ministro do Interior, Beşir Atalay, Hakan Fidan, chefe da poderosa Agência Nacional de Inteligência da Turquia, estava até em negociaçons com o líder preso do PKK, Abdullah Öcalan, com vista a acabar com o período mais longo de insurgência curda.

É claro que muitas das reformas prometidas permaneceram em grande parte na teoria e o ativismo curdo continuou sendo um negócio arriscado. Em dezembro de 2009, o Partido Democrático da Sociedade (DTP), o antecessor do HDP, foi ilegalizado polo tribunal constitucional da Turquia, alegando que era umha frente para o “terrorismo”. Além disso, os contatos do governo com Abdullah Öcalan nom possuíam umha posiçom legal clara Ou um objectivo definido. No entanto, no início de 2010, parecia que a Turquia estava a avançar lentamente para algum tipo de resoluçom da “questom curda do país.”

Em retrospectiva, parece evidente que a abertura de Erdoğan para com os curdos nasceu nom de qualquer convicçom forte de que a povoaçom curda do país tinha sido vítima de umha injustiça histórica, mas um desejo básico de ganhar votos curdos. No curto prazo, este provou ser bem sucedido, com o AKP aumentando a sua parte do voto no sudeste curdo nas eleiçons gerais de 2007. Entretanto, nas eleiçons locais de 2009 muitos curdos, frustrados com o ritmo lento das reforma, abandonou o AKP, levando ao fracasso do partido para assumir o control do governo municipal de Diyarbakir do DTP pro-curdo.

As reformas lentas também impulsionaram a popularidade da ala parlamentar do movimento curdo, que, em 2014, se fundiu em um novo partido, o HDP. O HDP foi capaz de capitalizar sobre a repulsa sentida por muitos curdos (incluindo os elementos mais conservadores da sociedade curda que geralmente tinham sido solidários com o AKP) em direçom a visom de Erdoğan do movimento curdo sírio, que tinha chegado a proeminência política após a eclosom da Guerra Civil Síria em 2011.

No outono de 2014, quando os combatentes curdos sírios tentaram defender a cidade síria curda de Kobanê das forças do Estado Islâmico, as autoridades turcas se recusaram a permitir que os curdos da Turquia cruzassem a fronteira para ajudar os defensores de Kobanê, apesar de que essas mesmas autoridades tinham sido mais do que dispostas a fechar os olhos para um fluxo constante de jihadistas na Síria desde o território turco. As paixons foram ainda mais inflamadas quando Erdoğan (agora presidente) proclamou, com aparente indiferença fria, que Kobanê estava “à beira da queda”. Umha onda de protestos espalhou-se por toda a Turquia e foi brutalmente reprimida polas autoridades turcas.

A popularidade do HDP também aumentou como resultado da sua postura relativamente progressista em relaçom à economia, aos direitos LGBT e ao meio ambiente. Tais posiçons o ajudarom a construir apoio entre os turcos liberais e esquerdistas, muitos dos quais tinham participado ou simpatizado com os protestos do Parque Gezi em 2013. Assim, sob a co-liderança de Demirtaş, um curdo étnico de Elazığ e Figen Yüksekdağ, umha turca étnico de Adana, o partido conseguiu construir umha coalizom eleitoral que incluía nom apenas curdos, mas liberais turcos, esquerdistas, ambientalistas e ativistas de direitos LGBT. Concedido, a base do partido permaneceu esmagadoramente curda, mas nas eleiçons parlamentares de junho de 2015, esta coalizom pôde impulsionar o HDP após o limiar eleitoral do 10 por cento, umha barreira que em eleiçons precedentes negou-lhe aos partidos pro-Curdo representaçom parlamentar adequada (HDP ganhou o 13,1 por cento).

O sucesso eleitoral do HDP, que veio principalmente à custa do AKP, foi um desafio direto ao crescente poder de Erdoğan, e aparentemente pôs fim às suas ambiçons de reescrever a Constituiçom turca de 1982 e estabelecer umha presidência executiva forte (a Turquia é um sistema parlamentar ). Quase assim que os resultados das eleiçons foram em umha nova ofensiva militar foi lançado contra o PKK.

O estopim para a renovaçom da violência foi o atentadoo, provavelmente orquestrado polo Estado Islâmico, de um grupo de estudantes que se reuniram em Suruç, na fronteira turco-síria, para apoiar os combatentes curdos na Síria. Logo depois, forças de segurança turcas entraram em confronto com militantes curdos em Adiyaman e Ceylanpinar, deixando três soldados mortos. Embora o PKK tenha negado estar envolvido nos combates, essas mortes abriram um espaço para um novo ataque do governo contra o PKK. Sob a capa de perseguir o Estado Islâmico, a força aérea turca atacou posiçons do PKK no Iraque.

Enquanto isso, dentro das fronteiras da Turquia, as autoridades se enfrentaram com militantes curdos em cidades do sudeste. Na primavera de 2016, esta nova rodada de violência custou, segundo as autoridades turcas, 4,571 combatentes curdos, 450 soldados e policiais e polo menos 338 civis. As perdas materiais foram igualmente grandes, com muitas cidades curdas reduzidas a escombros e ruínas, adornadas com bandeiras turcas.

Apesar de alimentar o sentimento nacionalista entre os turcos, estes confrontos nom significarom o fim do HDP. Umha segunda eleiçom realizada em novembro de 2015 viu a queda do voto da HDP, mas nom abaixo do limiar eleitoral do 10%. Na verdade, em termos de assentos parlamentares, o HDP ultrapassou o Partido de Açom Nacional de extrema-direita (MHP), tornando-se o terceiro maior partido parlamentar.

No entanto, após o fracasso golpe de Estado do 15 de julho, a paisagem política na Turquia está mudando rapidamente. Erdoğan usou o caos político para consolidar ainda mais o seu poder, atacando os bastions da oposiçom remanescentes nos meios de comunicaçom, na burocracia, na educaçom e, naturalmente, no movimento curdo.

As fontes de mídia curdas, incluindo a Agência de Notícias Dicle, Azadiya Welat (Naçom Livre) e Evrensel Kültür (Cultura Universal), forom fechadas. Líderes do HDP de governos locais também forom arredondados, incluindo os co-presidentes de câmara de Diyarbakir, Gültan Kışanak e Fırat Anli. Talvez um dos movimentos mais significativos do governo tenha sido o assalto legal à delegaçom parlamentar do HDP.

Em maio de 2016, dois meses antes do golpe de Estado, o parlamento turco votou para remover a imunidade parlamentar dos membros do HDP, umha medida apoiada nom só polo AKP, mas também polo maior partido da oposiçom da Turquia, o Partido Popular Kemalista (CHP) . Na noite do 4 de novembro, as autoridades turcas figeram uso desse novo poder para, de feito, “decapitar” o movimento curdo; um movimento que lembra misteriosamente o ataque de Talat Pasha contra a intelligentsia armênia 101 anos antes.

Assim como os “jovens turcos” usaram a capa da Primeira Guerra Mundial para “resolver” a questom armênia, Erdoğan parece estar usando o pós-golpe para “limpar” a oposiçom curda.

Racializaçom do Conflito Curdo

Um aspecto significativo, mas muitas vezes ignorado, dos desenvolvimentos relacionados com a “questom curda” da Turquia é a mudança gradual na última década para a institucionalizaçom da identidade curda na Turquia. À primeira vista, isso pode parecer um desenvolvimento positivo. No entanto, à medida que a República Turca avançou para o reconhecimento, embora apenas implicitamente, de que os curdos constituem umha comunidade distinta, a comunidade curda, paradoxalmente, tornou-se mais vulnerável à violência dirigida.

A este respeito, a comparaçom com o caso arménio é particularmente relevante. Apesar dos esforços das sucessivas geraçons de reformadores otomanos no século XIX e início do XX para forjar umha “naçom” otomana através do estabelecimento de um conjunto comum de direitos e responsabilidades para todos os sujeitos otomanos, independentemente das suas afiliaçons étnicas ou religiosas, característica persistente da política otomana tardia. Isto foi particularmente verdade em comunidades predominantemente nom-muçulmanas como os armênios que gozavam de um tipo de reconhecimento oficial devido à existência do chamado sistema de milheto, umha estrutura administrativa que proporcionava às minorias religiosas umha forma de autonomia legal.

Na segunda metade do século XIX, essa autonomia institucional foi reforçada polo surgimento de um animado movimento político armênio que impulsionou (às vezes através de umha atividade revolucionária violenta) o reconhecimento dos direitos nacionais armênios (embora nom necessariamente a independência nacional). As elites políticas otomanas consideravam cada vez mais a comunidade armênia nom como “cidadaos” otomanos em potencia, mas como umha ameaça existencial à unidade imperial – umha quinta coluna trabalhando ativamente para minar a ordem política otomana.

Essa tendência foi exacerbada pola proliferaçom de idéias social-darwinistas entre a liderança do Comitê de Uniom e Progresso (mais conhecido no Ocidente como os Jovens Turcos), umha cabala secreta de funcionarios e militares que lideraram o Império Otomano durante a I Guerra Mundial. Esta tendência serviu para racializar umha comunidade que, historicamente, tinha sido compreendida principalmente em termos religiosos. Como dixo o Dr. Nazim, membro da Organizaçom Especial da CUP (Teşkilât-ı Mahsusat), umha organizaçom semi-oficial de inteligência diretamente responsável polas brutalidades contra os armênios, declarou em umha reuniom da CUP em 1915:

Se permanecermos satisfeitos. . . Com massacres locais. . . Se esta purga nom é geral e final, inevitavelmente levará a problemas. Portanto, é absolutamente necessário eliminar o povo armênio na sua totalidade, de modo que nom haja mais armênios nesta terra e o próprio conceito da Armênia seja extinto. . .

Assim, mesmo a conversom ao Islã (um movimento que salvara a muitos armênios da morte durante um conjunto anterior de pogroms em meados da década de 1890), nom era suficiente para salvar os infelizes moradores arménios da deportaçom para o deserto sírio ou o assassinato.

Como poderíamos entom comparar a situaçom dos armênios há um século com a situaçom dos curdos hoje?

A atitude das elites políticas na Turquia republicana em relaçom aos curdos tem sido, historicamente, um pouco diferente da atitude mostrada para os armênios polos arquitetos do genocídio. Isso nom quer sugerir que as noçons racializadas de identidade étnica nom tenham sido significativas na Turquia republicana. A lei das indemnizaçons de 1934, desde que os mecanismos legais para a deportaçom daqueles de “cultura”  nom-turca das suas casas; Umha lei usada com grande efeito para deportar curdos e outros “indesejáveis”, como os judeus da Trácia.

Ao mesmo tempo, o governo de Mustafa Kemal Atatürk estava mais do que disposto a tolerar as atividades dos supremacistas raciais turcos como Nihal Atsiz, um indivíduo que recuperou a propaganda nazista para o consumo turco e descreveu a nacionalidade turca como “umha questom de sangue”. A nível popular, os curdos forom muitas vezes considerados polos turcos como sendo um povo bestial, de pel escura, suja.

No entanto, o discurso “kemalista” oficial nom reconheceu os curdos como um povo distinto. Eles foram descritos como “turcos da montanha”; um povo que era de origem turca, mas que vinhera falar umha forma de “persa quebrado” (curdo, como o persa, é umha língua indo-iraniana). Assim, a política da Turquia para os curdos foi muitas vezes ditadas pola noçom de que a Curdicidade era umha forma de falsa consciência e que qualquer manifestaçom de descontentamento político curdo era o resultado da agitaçom externa.

Assim, os kurdos foram considerados polas elites kemalistas como sendo, para tomar um termo do estudioso Mesut Yegen “turcos prospectivos”; umha comunidade que poderia, por meio da educaçom, ser atraída para o círculo da “civilizaçom” turca moderna. Na verdade, os nacionalistas kemalistas, com a quase obsessom patológica de usar as palavras de Mustafa Kemal, muitas vezes tentavam negar a exclusividade étnica do nacionalismo turco, feita polo fundador da Turquia: “Feliz é aquel que se chama turco”, nom “Feliz é aquel que é turco”; um ponto usado para demonstrar a aparente inclusividade da identidade turca.

É claro que os “nacionalismos cívicos” assimilacionistas, como variedade do nacionalismo turco exposta polos kemalistas seculares, som muitas vezes menos perniciosos do que o chamado nacionalismo étnico (se de feito umha divisom firme entre essas duas categorias pode mesmo ser feita). A missom civilizadora kemalista, apropriadamente descrita por Welat Zeydanoğlu como “o fardo do homem branco turco”, resultou na repressom da língua curda, na prisom de ativistas curdos e em políticas como o rapto em massa de crianças curdas e o seu internamento forçado polo governo em Internatos.

No entanto, a negaçom do estado turco da existência curda também isolou os curdos de um ataque genocida. Embora a violência contra determinadas comunidades de curdos tenha, às vezes, atingido proporçons genocidas – principalmente durante a campanha de Dersim de 1937 e 1938 – enquanto os curdos fossem considerados “turcos em potencia”, ficava fora da agenda a erradicaçom física total da comunidade curda. Afinal, como se pode destruir umha naçom que o Estado se recusa a aceitar que existe?

A situaçom evoluiu no âmbito do AKP. O reconhecimento oficial parcial e imperfeito dos curdos como umha comunidade distinta ao longo da última década criou ironicamente condiçons nas quais o genocídio contra os curdos da Turquia é agora, se nom necessariamente, provável,.

Escrevendo em 2009, Mesut Yeğen observou que “o status dos curdos em relaçom à turquia está à beira de umha grande mudança”. O ponto de Yeğen era que a crença popular de que os curdos poderiam se tornar turcos estava em declínio; no seu lugar, surgiu umha nova narrativa emanando tanto das Forças Armadas turcas como da imprensa nacionalista, que retratava os curdos como pseudo-cidadaos (sözde vatandaşlar) e muitas vezes os ligava a comunidades há muito consideradas fora do círculo turco através do uso de termos como judeus-curdos ou armênios-curdos.

A tendência para ver os curdos como o “outro” claramente definido para o turco tem sido inadvertidamente reforçada por concessons oficiais (por mais escandalosas e superficiais) à identidade curda. É agora impossível para os líderes políticos turcos voltar à política de negaçom que, durante grande parte da história moderna da Turquia, definiu a atitude oficial em relaçom aos curdos. Em vez disso, os curdos som agora considerados polos círculos governamentais e por grandes setores do público turco, como ingratos que, apesar dos esforços do governo, continuam empenhados em destruir o país.

Assim, o castigo coletivo do tipo dos armênios há um século é – talvez por primeira vez na história da Turquia moderna – agora possível. Como os armênios em 1915, os curdos emergiram como um novo “outro” – um grupo distinguível da maioria turca.

A este respeito, a prisom dos co-líderes do HDP, bem como centenas de outros intelectuais e ativistas curdos, parece notavelmente semelhante aos esforços de Talat Pasha para “decapitar” a comunidade armênia. Os apologistas de Erdoğan podem muito bem tentar enquadrar essas prisons em termos da “guerra contra o terrorismo”; especialmente ao justificar as suas açons para os Estados Unidos e Europa.

No entanto, as declaraçons do ministro da Economia Nihat Zeybekçi, em que el comparou os membros do HDP a “ratos”, sugere as atitudes racistas e desumanizantes mantidas pola elite governante da Turquia. Tais declaraçons, feitas num momento em que o conflito militar entre o PKK e o exército turco estam aumentando, servem apenas para endurecer as fronteiras ideológicas que separam os curdos dos turcos e, ao fazê-lo, podem muito bem estar lançando as bases de umha campanha até entom sem precedentes Violência contra a povoaçom curda da Turquia.

Isso resultará em genocídio? Talvez seja cedo demais para dizer. Mas este é 2016, um ano em que muitas coisas que umha vez pensou impossível tornaram-se muito reais.

Djene Bajalan é professor assistente no Departamento de História da Universidade Estadual de Missouri.A sua pesquisa centra-se sobre assuntos do Oriente Médio e ensinou e estudou no Reino Unido, na Turquia e no Curdistam iraquiano.

Publicado em Jacobinmag.

 

 

 

 

 

 

 

Balanço do Estado de Emergência nos Meios de Comunicaçom na Turquia

12 Decretos Legislativos (KHK) foram emitidos durante o estado de emergência que foi declarado em 20 de julho de 2016. No total, 177 meios de comunicaçom foram fechados por três dos 12 KHK, dos que 11 forom reabertos.

A Associaçom de Jornalistas da Turquia (TGC) e a Uniom de Jornalistas da Turquia (TGS) declararom que 2.500 jornalistas e trabalhadores dos mídia foram deixados desempregados devido ao encerramento de 121 órgaos de comunicaçom da comunidade Gülen e círculos curdos desde que o estado de emergência foi declarado.

Cinco agências de notícias, 28 canais de televisom e 34 de rádio, 62 jornais, 19 revistas e 29 editoras forom fechadas.

Meios de comunicaçom fechados:

Agências

Cihan Haber Agency, Muhabir Haber Agency, SEM Haber Agency. Dicle Haber Agency, Jin Haber Agency.

Canais de televisom

Barış TV, Bugün TV, Can Erzincan TV, Dünya TV, Hira TV, Irmak TV, Kanal 124, Kanaltürk, MC TV, Mehtap TV, Merkür TV, Samanyolu Haber, Samanyolu TV, SRT Televizyonu, Tuna Shopping TV, Yumurcak TV, İMC TV, Hayatın Sesi, Azadi TV, Jiyan TV, Van TV, TV10, Denge TV, Zarok TV, Birlik Medya TV, Özgür Gün TV, Van Genç TV, Mezopotamya TV.

Canais de rádio

Aksaray Mavi Radyo, Aktüel Radyo, Berfin FM, Burç FM, Cihan Radyo, Dünya Radyo, Esra Radyo, Haber Radyo Ege, Herkül FM, Jest FM, Kanaltürk Radyo, Radyo 59, Radyo Aile Rehberi, Radyo Bamteli, Radyo Cihan, Radyo Fıkıh, Radyo Küre, Radyo Mehtap, Radyo Nur, Radyo Şimşek, Samanyolu Haber Radyosu, Umut FM, Yağmur FM, Batman FM, YÖN Radyo (İstanbul), Özgür Radyo, Radyo Ses (Mersin), Radyo Dünya (Adana), Özgür Güneş Radyosu (Malatya), Radyo Karacadağ (Urfa), Radyo Rengin, Gün Radyo, Patnos FM, Doğu Radyo (Van).

Jornais

Adana Haber Gazetesi (Adana), Adana Medya Gazetesi (Adana), Akdeniz Türk (Adana), Şuhut’un Sesi Gazetesi (Afyon), Kurtuluş Gazetesi (Afyon), Lider Gazetesi (Afyon), İşçehisar Durum Gazetesi (Afyon), Türkeli Gazetesi (Afyon), Antalya Gazetesi (Antalya), Yerel Bakış Gazetesi (Aydın), Nazar (Aydın), Batman Gazetesi (Batman), Batman Postası Gazetesi (Batman), Batman Doğuş Gazetesi (Batman), Bingöl Olay Gazetesi (Bingöl), İrade Gazetesi (Hatay), İskenderun Olay Gazetesi (Hatay), Ekonomi (İstanbul), Ege’de Son Söz gazetesi (İzmir), Demokrat Gebze (Kocaeli), Kocaeli Manşet (Kocaeli), Bizim Kocaeli (Kocaeli), Haber Kütahya Gazetesi (Kütahya), Gediz Gazetesi (Kütahya), Zafer Gazetesi (Kütahya), Hisar Gazetesi (Kütahya), Turgutlu Havadis Gazetesi (Manisa), Milas Feza Gazetesi (Muğla), Türkiye’de Yeni Yıldız Gazetesi (Niğde), Hakikat Gazetesi (Sivas), Urfa Haber Agency Gazetesi (Urfa), Ajans 11 Gazetesi (Urfa), Yeni Emek (Tekirdağ), Banaz Postası Gazetesi (Uşak), Son Nokta Gazetesi (Uşak), Merkür Haber Gazetesi (Van), Millet Gazetesi, Bugün Gazetesi, Meydan Gazetesi, Özgür Düşünce Gazetesi, Taraf, Yarına Bakış, Yeni Hayat, Zaman Gazetesi, Today’s Zaman, Özgür Gündem Gazetesi (İstanbul), Azadiya Welat Gazetesi (Diyarbakır), Yüksekova Haber Gazetesi (Hakkari), Batman Çağdaş Gazetesi (Batman), Cizre Postası Gazetesi (Şırnak), İdil Haber Gazetesi (Şırnak), Güney Expres Gazetesi (Şırnak), Prestij Haber Gazetesi (Van), Urfanatik Gazetesi (Urfa), Kızıltepe’nin Sesi Gazetesi (Mardin), Ekspres Gazetesi (Adana), Türkiye Manşet Gazetesi (Çorum), Dağyeli Gazetesi (Hatay), Akis Gazetesi (Kütahya), İpekyolu Gazetesi (Ordu), Son Dakika Gazetesi (İzmir), Yedigün Gazetesi (Ankara).

Revistas

Akademik Araştırmalar Dergisi, Aksiyon, Asya Pasifik (PASİAD) Dergisi, Bisiklet Çocuk Dergisi, Diyalog Avrasya Dergisi, Ekolife Dergisi, Ekoloji Dergisi, Fountain Dergisi, Gonca Dergisi, Gül Yaprağı Dergisi, Nokta, Sızıntı, Yağmur Dergisi, Yeni Ümit, Zirve Dergisi, Tiroj Dergisi, Evrensel Kültür Dergisi, Özgürlük Dünyası Dergisi, Haberexen Dergisi.

Editoras e distribuidoras

Altın Burç Yayınları, Burak Basın Yayın Dağıtım, Define Yayınları, Dolunay Eğitim Yayın Dağıtım, Giresun Basın Yayın Dağıtım, Gonca Yayınları, Gülyurdu Yayınları, GYV Yayınları, Işık Akademi, Işık Özel Eğitim Yayınları, Işık Yayınları, İklim Basın Yayın Pazarlama, Kaydırak Yayınları, Kaynak Yayınları, Kervan Yayınları, Kuşak Yayınları, Muştu Yayınları, Nil Yayınları, Rehber Yayınları, Sürat Basım Yayın Reklamcılık ve Eğitim Araçları, Sütun Yayınları, Şahdamar Yayınları, Ufuk Basın Yayın Haber Ajans Pazarlama, Ufuk Yayınları, Waşanxaneya Nil, Yay Basın Dağıtım PAZ, Reklamcılık, Yeni Akademi Yayınları, Yitik Hazine Yayınları, Zambak Basım Yayın Eğitim Turizm.

As reabertas

Kurtuluş Gazetesi (Afyon), Lider Gazetesi (Afyon), İşçehisar Durum Gazetesi (Afyon), Bingöl Olay Gazetesi (Bingöl), Ege’de Son Söz Gazetesi (İzmir), Hakikat Gazetesi (Sivas) , SRT Televizyonu, Umut FM, Yağmur FM, Yön Radyo and Zarok TV. (EA/TK)

Publicado em Bianet.

 

 

Iram e Turquia enfrontam-se por Tal Afar

Members of the Shi'ite Badr Organisation fighters ride on military vehicles during a battle with Islamic State militants at the airport of Tal Afar west of Mosul, Iraq November 18, 2016. REUTERS/Thaier Al-Sudani - RTX2UAJW
Membros das milícias xiitas da Organizaçom Badr em veículos militares durante a batalha com o ISIS no aeroporto de Tal Afar, ao oeste de Mosul o 18 de Novembro do 2016 (Foto de REUTERS / Thaier Al-Sudani)

Resumo: Com a mobilizaçom das unidades predominantemente xiitas das PMU, com o apoio do Iram, expandem o seu control sobre a área recentemente libertada de Tal Afar, que tem umha maioria turcomana, a tensom entre as PMU e a Turquia aumentou.

BAGHDAD — “Tal Afar será o cemitério dos soldados turcos se a Turquia tenta participar da batalha “, dixo Hadi al-Amiri, chefe da Organizaçom Badr e líder das Unidades de Mobilizaçom Popular (PMU), em umha mensagem para o vizinho do norte do Iraque, em caso de que as tropas turcas implantadas em Bashiqa tentem participar na libertaçom de Tal Afar.

O 16 de novembro, Tal Afar foi libertado [Foi-lhe curtada as possibilidades de retirar-se cara Síria]. Trata-se de umha área estratégica para as PMU, umha vez que lhes dá acesso à fronteira síria e permite-lhes cortar as rotas aos luitadores do Estado Islâmico (IS) para escapar para a Síria. Após a libertaçom de Tal Afar, Amiri dixo que o presidente sírio convidou as PMU a luitar contra a oposiçom síria dentro do território sírio.

A declaraçom de Amiri contra a Turquia, que está próxima do Iram, veu em resposta a declaraçons anteriores do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, sobre a cidade de Tal Afar, em que advertiu às PMU de nom cometer “violaçons” contra os civis da cidade.

Durante umha declaraçom de imprensa o 29 de outubro, Erdogan dixo: “A cidade turcomana de Tal Afar é umha questom de grande sensibilidade para nós. No caso que as PMU cometeram atos terroristas na cidade, a nossa resposta será diferente.”

Erdogan acrescentou que recebeu informaçons que confirmam os atos terroristas das PMU na cidade, sem dar mais detalhes sobre o número de reforços ou como a retaliaçom da Turquia seria diferente.

Na mesma linha, o primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, respondeu ao presidente turco o 1 de novembro, dizendo que o governo iraquiano é mais ágil que qualquer outro parte em Tal Afar. Abadi nom escondeu as suas preocupaçons sobre quaisquer ameaças turcas, afirmando: “A ameaça de umha intervençom turca ainda existe.”

Tal Afar é um distrito administrativamente da governaçom de Ninevah e localizado a 63 quilômetros ao oeste de Mosul, perto da fronteira entre o Iraque e a Síria, com umha área de aproximadamente 28 quilômetros quadrados.

Abu Alaa al-Afri, que era adjunto de Abu Bakr al-Baghdadi, era de Tal Afar e foi morto na cidade em um ataque iraquiano no ano passado.

A cidade de Tal Afar, com a sua povoaçom diversa, tornou-se um polêmico campo de batalha para as partes além das fronteiras iraquianas, o que confirma a sua importância geográfica – especialmente para o Iram que busca chegar à Síria através do canal terrestre iraquiano e para a Turquia que busca reavivar a Glória da expansom otomana.

A cidade é o lar de diferentes etnias e tem umha maioria xiita turcomana, que está na base do conflito iraniano-turco (o Iram apoia os xiitas, enquanto a Turquia apóia os turcomanos).

É importante notar o conflito xiita-sunita entre a povoaçom turcomana, o que poderia desencadear umha guerra furiosa dentro do distrito, tornando mais fácil para o Iram e a Turquia obter um apoio na cidade que poderia envolver presença militar.

Para acrescentar combustível ao fogo, houvo conversas de que a libertaçom de Tal Afar, que ainda está sob o controle do IS, estará sob a supervisom do chefe das Força Quds do Iram, Qasem Soleimani. Esta seria umha grande provocaçom para os sunitas lá.

O envolvimento das PMU em Tal Afar também é controverso e é visto como umha reaçom à presença turca em Bashiqa.

O objetivo das PMU é libertar a cidade de Tal Afar e chegar à periferia de Mosul, sem entrar na cidade, a menos que o ordene o comandante em chefe das forças armadas “, dixo Faleh al-Fayad, chefe da PMU e assessor de segurança nacional no Iraque.”

O 30 de outubro, a Frente Turcomana no parlamento da Regiom do Curdistam advertiu contra qualquer mudança demográfica no distrito de Tal Afar como resultado da interferência das PMU na batalha lá e, portanto, recusou a participaçom desta última na libertaçom da cidade.

Harakat Hezbollah al-Nujaba, umha das facçons das PMU afiliadas ao Velayat-e faqih iraniano, espera que a batalha para libertar Tal Afar seja “feroz”, negando que as PMU estejam tentando provocar umha mudança demográfica no distrito, E acusando a Turquia de “manter o nariz nos asuntos dos outros”.”

É muito provável que as PMU e as tropas turcas colidem na cidade, já que estas estam estacionadas a 12 quilômetros de Tal Afar.

A Turquia acredita que a presença das PMU em Tal Afar dá-lhe terreno para entrar na cidade, especialmente após a advertência de Erdogan para interferir “se as PMU espalham o medo entre os cidadaos.”

O que é mais, a Turquia nom deseja que o Iram tenha influência em Tal Afar, que fica ao lado da fronteira com a Síria; e tornaria mais fácil para o Iram transferir armas através da rota terrestre que está procurando estabelecer de leste a oeste do Iraque. Isso também é visto como umha das razons por trás da disputa sobre Tal Afar.

Erdogan teme que Tal Afar, que fica a 60 quilômetros da fronteira turca, tornaria-se um paraíso para as facçons xiitas próximas ao Iraque. O presidente turco também tem preocupaçons sobre umha possível aliança entre as PMU e o Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) no que diz respeito a ataques que poderiam ser lançados na Turquia ou umha possível facilitaçom pelas PMU transferindo armas ao PKK que luita contra o exército turco.

Parece que haverá umha nova escalada turco-iraquiana que se pode transformar em um impasse militar, especialmente porque Abadi afirmou anteriormente: “[o Iraque] nom quer ir à guerra com a Turquia, mas se a Turquia insistir em umha guerra, nós estaremos prontos.”

No entanto, no caso de um confronto militar acontecera entre a Turquia e o Iraque, este último nom envolveria as suas tropas regulares, mas sim as PMU que vem as tropas turcas no Iraque como umha “força de ocupaçom.

Tal Afar tornou-se umha área internacional disputada entre a Turquia e o Iraque, o que está causando umha maior instabilidade em termos de segurança e abre a porta a conflitos civis, pavimentando assim o caminho a qualquer intervençom militar iraniana ou turca.

mustafa_saadoun-bwMustafa Saadoun é um jornalista iraquiano que cobre os direitos humanos e também fundador e diretor do Observatório Iraquiano dos Direitos Humanos. Anteriormente trabalhou como jornalista  do Conselho de Representantes do Iraque.

Publicado em Al-monitor.

 

A questom turca

a-questom-turcaPor Ozkan Kocakaya

A questom de como resolver a crise causada pola deterioraçom das relaçons entre a UE ea Turquia está a ganhar intensidade cada dia. O venres, o presidente da Turquia Erdogan ameaçou com abrir as portas da fronteira para permitir que milhons de refugiados viajem para a UE em resposta ao voto nom vinculativo do jôves dos deputados europeus no Parlamento Europeu para congelar as negociaçons de adesom da Turquia. Foi o último (que nm derradeiro) capítulo que sublinhou a queda da Turquia em umha ditadura.

As negociaçons de adesom da Turquia à Comunidade Económica Europeia, antecessora da UE, começaram em 1987, com a ideia de que, ao mesmo tempo que serviam os interesses estratégicos e económicos da Europa, a Turquia poderia também ser modernizada através da adesom aos valores europeus. Embora o som principal, desta estratégia requer umha naçom que se esforça para umha evoluçom progressiva; e a Turquia nom se enquadra nesta categoria ainda.

A revelaçom de Erdogan do fascismo profundamente arraigado em todos os níveis da sociedade em Turquia é prova disso e os aliados internacionais de Turquia, pretendendo proteger os interesses acima mencionados na regiom, permitirom que a Turquia mantivesse umha fachada de democracia ao negar-se a fazer exame estrutural e social das reformas. A sua incapacidade de resolver a questom curda resultou, consequentemente, em que o membro da OTAN recorresse à extorsom e à supressom militar brutal do movimento curdo, juntamente com a propaganda sistemática sancionada polo Estado, tanto nacional como internacionalmente, por quase um século.

Os comprimentos a que a Turquia tem estado a negar o estatus curdo de qualquer tipo na regiom pode ser sintetizado polos acontecimentos dos últimos dous meses sozinho. É a insistência, e falha subseqüente, para ser-lhe permitido participar em operaçons para libertar Mosul e Raqqa foi destinado a travar o progresso dos curdos. Para distrair as suas políticas sírias e iraquianas, Erdogan acelerou as prisons contra os curdos em casa, prendendo deputados curdos. A natureza sinistra da mentalidade que resultou no feito de o Estado tome efetivamente prisioneiros deputados curdos eleitos foi revelada por Huseyin Kocabiyik, o deputado do AKP para Izmir, dizendo: “No caso de tentativas de assassinato de líderes estaduais, as pessoas iram invadir as prisons e ficarem presas os terroristas do FETO [Gulenistas] e do PKK “umha semana após essas prisons. É umha admissom categórica do desespero que toma a preensom entre círculos do AKP assim como umha derrota política.

Embora estes sejam indicativos da vontade da Turquia de recorrer a medidas tam desesperadas como a extorsom dirigida à UE e aos curdos, o que está a ficar claro é que a Turquia nunca tivo um problema curdo, mas a regiom sempre tivo um problema turco. Afinal, a Turquia tem legitimado os crimes que cometeu contra os curdos apontando o dedo para o PKK por quase quatro décadas. A questom curda é um sintoma do maior problema que está ligado a el, e a Turquia tem estado habilmente desviando a atençom dos seus próprios fracassos a nível estadual, despejando vastos recursos para apresentá-los como umha questom curda.

A decisom da Áustria de impor um embargo de armas à Turquia, o reconhecimento por parte dos tribunais alemaes do apoio da Turquia ao terrorismo e o reconhecimento de um tribunal belga da luita armada num caso histórico contra políticos curdos acusados de serem membros do PKK. O que deve seguir é o reconhecimento de que a UE e o Médio Oriente tenhem um problema turco. Até que este seja amplamente reconhecido e abertamente debatido a nível internacional, juntamente com umha forte liderança do Ocidente para negar a Turquia as plataformas de censura e propaganda no exterior, a Turquia nom vai mudar. Isto pode muito bem envolver sançons económicas e militares, mas considerando que foi necessária umha guerra mundial para combater o fascismo na Europa, será um preço menor a pagar.

A Turquia está empregando toda a força das suas capacidades militares e políticas para impedir que os curdos ganhem status em qualquer lugar, é indicativo o papel importante dos curdos em trazer estabilidade e reformas democráticas para o Oriente Médio. É também um reconhecimento da última batalha ideológica para a sobrevivência, apresentando-o como umha guerra contra os curdos, onde na verdade sempre foi uma guerra entre o fascismo e a democracia dentro da Turquia. Derrotar essa ideologia nom só serve os curdos, mas os próprios turcos.

Quando Hilary Benn deu o seu discurso apaixonado no parlamento do Reino Unido na sequência dos atentados de Paris em novembro passado, el estava-se referindo à ameaça crescente do Islamofascismo apresentado pola ISIS. No contexto do reconhecimento generalizado da cumplicidade da Turquia no surgimento do ISIS e dos paralelos na ideologia do AKP com o grupo terrorista mais vilipendiado da história, esse discurso é mais relevante para a crescente ameaça à segurança global proveniente da última casa remanescente do fascismo que é a Turquia. Assim, a questom curda da Turquia sempre foi umha cortina de fumaça para a verdadeira questom turca.

ozkan-kocakayaOzkan Kocakaya é originária da Turquia, de origem curda. Depois de ganhar umha licenciatura e um mestrado da Universidade de Liverpool em IT e assuntos relacionados com o mercado, el começou umha carreira na indústria financeira, onde ainda ganha a vida. Tendo um grande interesse na literatura e umha paixom polo Curdistam,  dedicao  seu tempo livre a escrever ficçom para promover a história e os valores curdos, bem como blogs sobre assuntos atuais no seu país de origem.

Publicado em Kurdish Question.

 

 

Iram e Turquia estam arrastando os curdos na sua guerra fria no Oriente Médio

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O presidente iraniano, Hassan Rouhani, com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. EPA

Por Abdul-Qahar Mustafa

A rivalidade entre a Turquia e o Iram por dominar o Oriente Médio nom é algo novo. É de feito o legado do conflito histórico entre dous impérios, os persas e os turcos que dominarom o Oriente Médio por várias vezes e sob diferentes nomes e ideologias na história. No entanto, essas duas etnias tenhem desenvolvido os seus impérios e expandido os seus interesses ao custo de violar os direitos humanos de outros grupos étnicos minoritários como curdos, baloches, árabes, assírios, armênios, alavis, jazidis e gregos.

Hoje, vejo que o governo turco e iraniano, as fontes e os herdeiros dos impérios otomano e Safávida estam realizando a mesma missom dos seus antepassados. Eles estam tentando usar a povoaçom curda repetidas vezes como umha ferramenta para minar o poder e a influência de uns e os outros e expandir os seus interesses no Oriente Médio.

Assim como nos séculos passados, esses dous regimes antidemocráticos estam usando todos os meios possíveis, desde as suas capacidades militares e econômicas superiores, a religiom islâmica até o uso da força, ameaça, coaçom, abuso, intimidaçom, prisons ilegais, agressom e exploraçom de grupos de minorias étnicas, como os curdos, para desafiar uns aos outros política, económica e militarmente no Médio Oriente.

Olhando para as suas políticas no Oriente Médio, podedes facilmente notar que ambos os regimes fascistas, Turquia e Iram estam luitando umha guerra fria com o outro. A primeira grande batalha está sendo travada no Iraque e na Síria, onde as suas tradicionais rivalidades e interesses conflitem pode ser visto em pleno vigor. No entanto, o problema aqui é, tanto a Turquia como o Iram estam tentando levar os curdos no seu conflito de interesses. Eles estam arrastando os curdos para os seus conflitos usando a cenoura e a vara com as minorias curdas do Iraque, Síria, Iram e Turquia e conseguindo que eles cooperem e tomem partido nos seus conflitos.

Há momentos em que usam promessas enganosas de recompensar a proteçom dos curdos, incentivos econômicos, independência, autonomia e liberdade se cooperarem. No entanto, quando os curdos se recusam a cooperar com qualquer das partes, eles tomam medidas punitivas contra os curdos, como sançons econômicas, agressons militares, prisons arbitrárias, tortura e até mesmo assassinatos.

Obviamente, há muitas razons para a rivalidade e a guerra fria entre turcos e persas no Oriente Médio. Primeiro, o Iram considera a Turquia como um aliado de Israel e EUA, porque a Turquia já reconheceu Israel como um Estado e tem todo tipo de relaçons com Israel. Portanto, o Iram percebe a Turquia como umha ameaça à sua segurança e interesses econômicos no Oriente Médio, enquanto a Turquia pensa do Iram como um estado que pode ser bom e ruim para a Turquia porque quando os interesses da Turquia entram em conflito com EUA, UE, a Turquia muda o seu curso de imediato e estende as suas maos para países como o Iram, que estam enfrontados com Israel, EUA e países da UE.

Turquia encontra o Iram como umha peza eficaz para negociar alguns acordos com Israel e Arábia Saudita. A Turquia oferece acordos para trabalhar com Israel e Arábia Saudita e ajudá-los a desafiar o poder político e a influência do Iram no Oriente Médio, e possivelmente atrair os sunitas, curdos e turcomanos para unificar a sua voz no Iraque, no futuro parlamento sírio e votar polo reconhecimento do Estado de Israel. Mas, em troca, a Turquia aceita que os EUA, a UE, os sauditas e os israelitas cumpram as suas próprias exigências e expectativas.

Além disso, a Turquia quer que os EUA e a UE desistam dos seus supostos apoios políticos, militares e econômicos com os curdos no Iraque, na Síria e na Turquia e, segundo, pressionem os cipriotas gregos o suficiente para compartilhar a sua riqueza de recursos naturais com a povoaçom cipriota turca. Terceiro para permitir que a Turquia tenha acesso aos benefícios do maior mercado do mundo da Europa e quarto para conceder aos cidadaos turcos a visa para viajar para a Europa. A Turquia promete aos EUA e à UE distanciar-se da Rússia e do Iram se concordam com as exigências políticas e económicas da Turquia na Europa e no Médio Oriente.

Para alcançar o sucesso no seu plano, a Turquia precisa do apoio dos curdos e outras povoaçons sunitas e turcomanas para fazer qoe os seus planos se tornem realidade. A Turquia está pressionando os curdos iraquianos a abandonar o seu apoio ao governo xiita em Bagdá e, em vez disso, fazer umha frente política unida com turcos e o bloco sunita para mudar o equilíbrio do poder político em Bagdá a favor dos sunitas. No entanto, os curdos querem permanecer neutros nesses conflitos. Mas a Turquia está arrastando os curdos a apoiar o seu plano. Está usando a aproximaçom da puniçom e das recompensas com os curdos no Iraque, Turquia e Siria a fim de ajudar a Turquia e suportar o seu negócio político, econômico e de segurança com Israel e Arábia Saudita no Médio Oriente.

Por exemplo, a Turquia recentemente prendeu vários políticos curdos do HDP e os enviou para a cadeia. Também emitiu um mandado de prisom para o líder sírio curdo Saleh Muslin. Mais as forças militares turcas foram desprazadas para distritos do sudeste perto da fronteira iraquiana, em cima de outras bases militares que já existem no norte do Iraque desde 1997.

Além disso, na recente visita da delegaçom da KRG à Turquia, o primeiro-ministro turco dixo ao primeiro-ministro Nechirvan Barzani, do governo regional do Curdistam, que a Turquia ajudaria financeiramente aos curdos no futuro, enquanto continua bombardeando a zona da fronteira da regiom do Curdistam iraquiano. Centos de aldeans e agricultores curdos abandonarom as suas casas e fazendas e fugirom para as vilas e cidades no norte do Iraque. É claro que a Turquia está usando a abordagem de recompensa e puniçom para conseguir que os curdos abandonem as suas ambiçons e esforços para obter independência, autonomia ou o seu apoio ao bloco xiita. Em vez disso, a Turquia quer que os curdos ouçam e cooperem com a Turquia para alcançar os seus planos estratégicos no Oriente Médio.

Creio que a agenda oculta da Turquia é, querem nom só trazer os curdos da Turquia, Síria e Iraque sob o seu control, e usá-los para atingir o seu objetivo no Oriente Médio. Os turcos em geral nom querem ver nengum tipo de área autônoma curda ou curdistam independente. Eles querem que os curdos sejam subservientes a eles. Eles querem usar os curdos para luitar polos seus interesses contra os seus países rivais no Oriente Médio. Eles tentarom todo para impedir que o governo dos EUA e o Iraque, nom permitiram que os curdos tivessem autonomia no norte do Iraque, e estam fazendo agora também para impedir que os curdos obtenham umha área autônoma no território sírio.

A Turquia também tenta explorar a questom da hegemonia do Iram no Oriente Médio como umha oportunidade para fazer um acordo com os EUA, Israel e a UE e obter concessons a partir deles. O que isto significa na minha opiniom é que a Turquia quer se tornar um  país independente poderoso no mundo livre da influência e ordens de fora. Significa também que a Turquia quer alimentar a sua povoaçom turca às custas dos curdos e dos iranianos. No entanto, o Iram está desafiando a Turquia nesse sentido. O Iram está jogando o mesmo jogo com a Turquia.

O Iram também quer que os curdos trabalhem com todas as forças xiitas no Iraque, na Síria e no Iram, para negar à Turquia a chance de desafiar o poder dos blocos de xaque no Oriente Médio ou obter quaisquer concessons de Israel e da Arábia Saudita às custas de ferir os interesses do Iram no Oriente Médio. Na verdade, o Iram já está lidando com as ameaças à segurança da Arábia Saudita, Israel e ISIS, por isso quer fazer tantos aliados quanto puder no Oriente Médio para se fortalecer contra essas ameaças e garantir que o regime islâmico sobreviva.

O Iram prometeu aos curdos da Síria e Iram proteçom, ajuda financeira e autonomia, desde que nom combatam o regime de Assad ou se rebelem contra o regime islâmico em Teeram e os seus aliados no Líbano e no Iraque. O Iram prometeu aos curdos da Síria e Iram proteçom, ajuda financeira e autonomia, desde que nom combatam o regime de Assad ou se rebelem contra o regime islâmico em Teeram e os seus aliados no Líbano e no Iraque. O Iram também exigiu que os curdos continuem aliados na luita contra o ISIS. Prometeu aos iraquianos e sírios ajuda econômica e apoio político se os curdos nom iam contra os seus interesses no Oriente Médio. No entanto, advertiu os curdos a se absterem de mostrar qualquer apoio ou estabelecer qualquer tipo de relaçom com Israel, ou entom eles (os curdos) enfrentariam umha dura puniçom polo Iram.

O Iram quer fazer negócios com os curdos iraquianos, mas sob a mesma condiçom de os curdos tomarem partido em um conflito com a Turquia. Na verdade, o Governo Regional do Curdistam (KRG) teria concordado com um plano para construir dous oleodutos de petróleo de Kirkuk para o Iram para que a KRG se tornasse menos dependente da Turquia. No entanto, tanto a Turquia como Israel nom estam felizes com tal porque em primeiro lugar, Israel é um comprador do petróleo da KRG que é enviado através do porto turco de Ceyhan e, em segundo lugar, a Turquia rendimentos do oleoduto que atravessa o seu solo, e terceiro Israel nom quer que o Iram benefice do petróleo da KRG , e a quarta, Turquia sabe que os curdos som mais dependentes economicamente da Turquia, quanto mais control a Turquia pode ter sobre eles em todas as formas possíveis.

Quando os curdos permanecem neutros nos seus conflitos de interesses ou quando fazem negócios com os opositores do Iram, como Turquia e Israel, o Iram rebela-se contra os interesses dos curdos e usa a sua força militar e econômica superior e a sua influência no Iraque e na Síria e persegue os curdos bombardeando as zonas curdas da fronteira com o Iram, ou ordena que as forças de Assad bombardearem as áreas civis curdas na Síria ou congela o orçamento anual dos curdos do iraque, para tipicamente fazer que os curdos se movam na sua linha de ditados.

Estes dous regimes fascistas sabem muito bem que os curdos nom tenem capacidade económica e militar suficientemente fortes para resistir à sua pressom política e económica, e que nom se podem defender contra as agressons militares da Turquia ou do Iram, aproveitando os pontos fracos dos curdos e chantageá-los até que eles os obrigam a ceder às suas demandas e trabalham para eles. Eles vêem os curdos como umha raça inferior que nom serve para nada, exceto para servir os interesses dos persas e dos turcos, como se os seus milhons de povoaçom persa e turca, e o seu poder econômico e militar superior nom fosse suficiente para realizar as suas missons por si mesmos, sem vitimizar os curdos nos seus conflitos de interesses e luitas no Oriente Médio.

Nom há dúvida de que os curdos nom querem ser chantageados ou intimidados para trabalhar de um lado contra o outro. Os curdos iraquianos tenhemm tentado todos os meios possíveis para permanecer neutrais na rivalidade e guerra fria entre xiitas e sunitas no Oriente Médio. Os curdos já pagarom um alto preço, perdendo milheiros de vidas na luita contra o ISIS e a sua povoaçom sofrendo a crise econômica. Eles certamente nom precisam ser arrastados para outro conflito no Oriente Médio.

As políticas dos curdos parecem ser claras e justas em relaçom aos seus vizinhos. Pode-se dizer que tenhem umha atitude amigável e açons razoáveis que tomam ao lidar com os seus vizinhos. Acredito firmemente que os curdos nom querem tomar partido ou favorecer aos xiitas sobre os sunitas ou vice-versa. Eles preferem ter boas relaçons com a Turquia e o Iram sem discriminaçom.

Os curdos da Turquia e da Síria também querem permanecer neutros no conflito e nos confrontos entre o exército de Assad e o exército sírio livre. Na verdade, todos os partidos curdos, do Iraque, da Turquia, do Iram e da Síria tenhem a mesma opiniom de nom tomar um ou outro lado na guerra fria entre xiitas e sunitas ou entre o Iram e a Turquia. Os curdos estam bastante focados em ter uma coexistência pacífica com árabes, turcos e persas igualmente.

Nom acho razoável se os curdos tomam partido por algum de ambos os regimes, a Turquia ou o Iram, especialmente quando se sabe que esses dous regimes nom só som  antidemocráticos, mas também tenhem um alto registro histórico de violaçom dos direitos humanos dos curdos?

Se a Europa e os Estados Unidos realmente defendem a democracia, os direitos humanos e nom os interesses partculares, nom devem permitir que a Turquia ou o Iram devorem os curdos polos seus próprios ilegítimos interesses políticos e econômicos no Oriente Médio. E se realmente acreditam na justiça, devem aplicar duras sançons econômicas e um boicote ao turismo tanto no Iram quanto na Turquia imediatamente, encerrar as negociaçons de adesom à UE e congelar participaçom da Turquia da OTAN até que volte a democracia.

Abdul-Qahar Mustafa é um estudante graduado da High School de Saint Louis em Canadá. Ele é defensor da justiça, democracia e direitos humanos. Atualmente vive em Sarsang / Duhok, no Curdistam iraquiano.

Publicado em ekurd.

http://ekurd.net/iran-turkey-dragging-kurds-2016-11-28

O fracasso contínuo do sistema internacional na questom curda

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Cidade curda destruída por artilharia militar turca

Por Hawzhin Azeez

Na semana passada, o estado turco, liderado polo presidente Erdogan e o seu governo do AKP, envolveu-se em umha das repressons mais preocupantes sobre os membros eleitos curdos do parlamento. O processo que começou com a prisom dos co-alcaldes de Diyarbakir continuou com a prisom dos co-presidentes do Partido Democrático do Povo (HDP) Selahattin Demirtas, Figen Yuksekdag e 7 deputados.

Esta última repressom ocorre em linha com os acontecimentos do fracassado golpe militar de julho. Desde entom, milheiros de funcionários públicos, professores, trabalhadores municipais, jornalistas e acadêmicos e também soldados forom presos ou demitidos. Esta repressom realça as preocupantes tendências políticas em curso na Turquia. A chamada democracia na Turquia está em sérios problemas e em rápido declínio.

A única marca da democracia da Turquia é a vergonhenta e transparente prisom de deputados, detençom de ativistas e tortura e assassinato de manifestantes.

A única certeza no sistema internacional com as suas leis farsas e falsas instituiçons é o contínuo silêncio cúmplice em vista das graves violaçons dos direitos humanos contra os curdos, grupos de esquerda e outras minorias na Turquia e as invasons inspiradas no neo-otomanismo imperialistas do AKP do Curdistam da Síria e o Iraque. A única liberdade que a imprensa internacional expressa é a sua escolha coletiva contínua de permanecer em grande parte silenciosa sobre essas violaçons. Enquanto a esquerda global permanece negligentemente subjugada, paralisada pola inaçom e indecisom.

Este pesadelo orwelliano representa o fracasso de toda a fundaçom da Nova Ordem Mundial. As suas instituiçons neoliberais, imperialistas e estatistas, outrora símbolo do argumento xenófobo da “Fim da História”, definido como o epítome da sua essência imperial, representam agora a realidade que sempre foi para os oprimidos e colonizados: violentas instituiçons indiferente e de empatia seletiva que determinam o destino das naçons, agora nom com canetas em mapas, mas com o clique de alguns botons em smartphones todo o direito das pessoas de existir ou perecer. E todo isso diante de um público global insaciável que consome com avidez o sofrimento dos oprimidos e exigem imagens cada vez mais violentas das nossas opressons para cumprir  o seu mórbido canibalismo.

Nom se engane, a resoluçom da “Questom Curda” pode ser o maior caminho rumo à estabilidade coletiva coletiva e à paz imediata, ou, se as tendências continuarem, pode implodir em outro conflito prolongado sem fim à vista. A única diferença é que agora a nossa opressom e a violência associada nom será mais contida nitidamente em nossos lares e eiras, como tem sido por décadas e séculos. Mas ela se vai espalhar na sua eira também.

Nom se esqueça que a responsabilidade nom deve ser sobre os oprimidos para provar a sua humanidade e, portanto, o seu direito à existência. Eles já estam carregados com o fardo insuportável da resistência desesperada pola sua própria sobrevivência. Mas em vez disso, a responsabilidade deve ser sempre à elite informada, privilegiada para reafirmar e recuperar a sua humanidade, fazendo algo sobre isso.

E assim imos esperar.

Enquanto permanecemos, coletivamente, no precipício de umha era perigosa.

Hawzhin AzeezHawzhin Azeez tem um doutorado em Ciência Política e Relaçons Internacionais. Ela é defensora dos direitos das mulheres e dos refugiados. Está atualmente trabalhando na reconstruçom de Kobane através do Conselhode  Reconstruçom de  Kobane.

Publicado em kurdish question.

 

O último cravo no caixom do processo de paz na Turquia

Democratic Society Party (DTP) leader Ahmet Turk, who was banned from politics for five years, attends a news conference in AnkaraResumo: Após a detençom do alcalde de Mardin, reviver o processo de paz entre militantes curdos e o governo turco nom é mais que um sonho.

Por Cengiz Çandar

Ahmet Turk é um homem com pose. Semelha a personificaçom da nobreza e a dignidade. A sua personalidade nobre vem com seu passado feudal; é o descendente de um senhorio curdo e chefes tribais em umha vasta terra ao longo da fronteira da Turquia. Enquanto a sua dignidade dá a impressom de que vem de dentro, em vez de ser parte da sua ascendência aristocrática curda, a combinaçom de ambas cria um líder muito carismático.

Mesmo o seu apelido, em certo sentido, o torna único e um centro de atraçom. Turk é um apelido irónico para um curdo que dedicou a sua vida polos direitos curdos na sua luita contra o Estado turco. Ainda assim, sugere também que o destino dos curdos é inseparável do dos turcos na Turquia.

Com a sua crescente idade – tem 75 anos – e o seu cabelo, bigode e sobrancelhas cada vez mais grisalhos, Turk ganhou a imagem de um homem sábio. No entanto, el nom cuidou do seu corpo tam bem quanto podia; é um fumante muito pesado e incurável apesar de ter problemas de saúde que incluírom cirurgia. Para el, acender cigarros um após o outro é umha forma de conforto. É umha espécie de alívio necessário da tensom permanente que tem sido o seu destino durante toda a sua vida.

El é o político curdo mais velho e o mais velho do parlamento turco. Foi eleito por primeira vez em 1973, por um partido turco de centro-direita. Foi eleito por Mardin seis vezes, estivo envolvido na política social-democrata turca e desde meados da década de 1990 el surgiu como a figura paterna na cena política curda. Foi o presidente de vários partidos políticos curdos – que forom banidos um após o outro – até 2011. Essa foi a última vez que el foi eleito para o parlamento. Em 2015, deixou a política de Ankara para servir a Mardin como o seu alcalde.

Foi removido do cargo há umha semana polo governo nacional como parte da repressom que começou após a tentativa fracassada de golpe em julho. O 21 de novembro, foi detido e nom se lhe permitiu atender aos seus avogados durante cinco dias.

Durante umha longa conversa em Mardin, em 2009, no terraço de um hotel com vistas para as aparentemente infinitamente extensas planícies do norte da Mesopotâmia em direçom à Síria, el lembrou as suas memórias da intensa tortura a que foi submetido na notória prisom de Diyarbakir durante o governo militar. Estava tam sereno como sempre. Eu nom me conseguim controlar e interrompim, gritando-lhe, “Vostede está fora de si? Que está fazendo agora? “El olhou para mim com olhos intrigados,” Que quer dizer? “Eu dixem-lhe,” Escuitando a sua história de quase 30 anos atrás, eu nom consigo entender. Para umha pessoa como vostede, que passou por essas coisas, ou tem que marchar às montanhas ou tem que deixar a política para sempre e optar por se tornar uma nom-pessoa obediente. Mas vostede ainda está ativo na política, apesar das pressons, insultos e ameaças. “El só baixou os olhos e continuou as suas histórias sobre a prisom de Diyarbakir com a sua voz calma característica.

El tem sido um nome muito conhecido na Turquia – participando na esfera política legítima e instituiçons políticas legais como umha voz da razom para acabar com a violência em relaçom à questom curda – a sua detençom chocou a segmentos muito amplos da sociedade.

O colunista de Hurriyet, Ahmet Hakan, descreveu Turk como a figura mais pacífica, mais inclusiva, mais anti-violenta, mais moderada e mais sábia do movimento político curdo, e a mais propensa a comprometer-se. “A sua detençom nom vai ajudar, mas que para aumentar a nossa desesperança e pessimismo ainda mais”, Hakan acrescentou.

“Desesperança e pessimismo “em relaçom ao quê?

A resposta é em relaçom à resoluçom do conflito curdo por meios pacíficos e políticos; Ou seja, através de negociaçons. Umha jornalista conservadora considerada islâmica não podia deixar de pedir em um site recém-lançado: “Ahmet Turk está detido. Bem. Mas com quem se vai falar para resolver o problema curdo?” O artigo foi acompanhado por uma foto do presidente Recep Tayyip Erdogan com Turk do ano de 2009; Esse encontro simbolizara a “abertura curda” quando o governo de Erdogan tinha iniciado umha iniciativa para resolver a questom curda.

A detençom de uma figura tam importante como Turk, é precisamente a manifestaçom da escolha de Erdogan e a o seu governo de que a Turquia nom está mais interessada em resolver a sua questom curda por meio de negociaçons com o movimento político curdo.

A detençom de Turk é umha ligaçom dramática na cadeia de movimentos que começou com as prisons dos co-prefeitos do centro político e cultural curdo de Diyarbakir e alcançou magnitudes muito perigosas com a prisom do co-presidentete do Partido Democrático dos Povos (HDP) Selahattin Demirtas e 10 deputados do partido que constitui o terceiro maior bloco no parlamento turco. Os quase 50 deputados restantes forom removidos do parlamento e nom estam envolvidos em atividades legislativas. O deputado por Mardin do HDP Mithat Sancar alegou que a vida de Demirtas está em perigo. Demirtas foi transferido para a prisom de Edirne, na cidade mais ocidental da Turquia, na fronteira com a Bulgária. Esta também é onde a maioria dos suspeitos do Estado islâmico estam presos.

A detençom de Turk nom é apenas um elo final da cadeia da repressom sobre os valores políticos curdos, é mais um insulto à injúria para os curdos.

Umha ativista dos direitos civis curdos de Diyarbakir, Nurcan Baysal, escreveu que Turk representa muitas cousas simultaneamente para os curdos. Acima de tudo, el representa a memória dos curdos da história das suas luitas. “Dete-lo é deter a longa história do povo curdo [luitando] polos seus direitos”, concluiu.

O simbolismo da detençom de Turk é a exibiçom da determinaçom do regime de Erdogan na Turquia para acabar com as demandas representadas polo movimento político curdo, umha vez por todas. O movimento político curdo é umha rubrica usada para definir o espectro político que vai desde a insurgência curda representada polo Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) até os representantes eleitos dos curdos na política turca.

Um exemplo disto é a detençom de Demirtas, indiscutivelmente a figura política mais brilhante e popular na Turquia, que competiu contra Erdogan nas eleiçons presidenciais de 2014 e que liderou um partido pró-curdo acima do limiar de 10% que lhe permitia entrar no parlamento nas eleiçons gerais de 2015. A detençom de Turk, a figura política curda mais veterana e amante da paz, equivale – se se pode fazer umha comparaçom com a questom irlandesa – de aniquilar totalmente o Sinn Fein em termos de negociaçons e só enfrentar com o PKK (ou, como era no caso irlandês, enfrentando so o Exército Republicano Irlandês).

Isto tem umha dimensom relacionada com a Síria também. Há alguns dias, um deputado do Partido da Justiça e do Desenvolvimento, que queria permanecer anónimo, dixo-me que há um forte empenho em ver o Partido da Uniom Democrática Curda (PYD) e as Unidades de Protecçom do Povo (YPG) destruidas na fronteira com a Turquia.

O movimento político curdo da Turquia está intimamente relacionado com o PYD e as YPG na Síria. Eles interagem. E enquanto o governo da Turquia está reprimindo os seus próprios curdos, el também está buscando esmagar o PYD, que o governo vê como umha extensom síria do movimento curdo da Turquia.

Especialmente agora, na sequência da detençom de Turk, reviver o processo de paz com os curdos na Turquia nom é mais que um sonho.

A detençom de Turk talvez mesmo significa que a questom curda da Turquia entrou no episódio mais grave na sua longa história.

 

cengiz-candarCengiz Candar é um dos colunistas da Al-Monitor para Turquia. Jornalista desde 1976, é autor de sete livros em língua turca, principalmente em assuntos do Oriente Médio, incluindo o best-seller Mesopotâmia Express: Uma viagem na história. Atualmente, é um Distinguished Visiting Scholar no Instituto de Estudos Turcos da Universidade de Estocolmo (SUITS).

Publicado em Al-Monitor.