Turquia e o caminho ao genocídio

Cizre, Curdistam sob administraçom turca em março de 2016. IPPNW Alemanha

Por Djene Bajalan

Há paralelos assustadores entre o genocídio armênio e a situaçom dos curdos na Turquia hoje.

No domingo, 24 de abril do 1915, o ministro Otomano do Interior, Talat Pasha, ordenou a prisom e detençom dos líderes da comunidade armênia que residiam dentro do império. Na primeira noite, mais de duzentas pessoas foram apanhadas polas forças governamentais; com o passar dos dias o número cresceu a mais de dois mil. O ataque de Talat Pasha contra os armênios otomanos fazia parte de umha campanha mais ampla e sistemática de genocídio dirigida à comunidade armênia do império – umha campanha que deixou entre 800.000 e 1.5 milhons de mortos.

Nom é necessário aqui re-litigar a questom de se ou nom os eventos de 1915 – descritos eufemisticamente em fontes turcas oficiais como as “deslocalizaçons (tehcir)” – constituírom genocídio. Em vez disso, ao lembrar o genocídio armênio e, mais especificamente, as detençons do “Domingo Vermelho”, torna-se possível situar as políticas dos líderes atuais da Turquia em relaçom aos representantes do movimento curdo – em particular, a detençom dos líderes de pró-curdo  Partido Democrático do  Povo (HDP), Selahattin Demirtaş e Figen Yuksekdağ, o 4 de novembro – em um contexto histórico mais amplo.

Enquanto isso seria hiperbólico afirmar que os níveis de violência actualmente a ser dirigida a povoaçom curda da Turquia hoje tenham chegado à mesma magnitude que a dirigida contra os armênios pouco mais de um século atrás, inegáveis e assustadores paralelos podem, contudo, elaborar-se.

Erdogan e os curdos

Nom foi há muito tempo que o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan foi elogiado pola sua (relativamente) posiçom progressista em relaçom aos direitos curdos na Turquia. Desde a fundaçom da República da Turquia em 1923, a “questom curda” – o conflito entre as elites nacionalistas turcas em Ancara e aqueles que alegam representar a autêntica vontade nacional dos curdos da Turquia – constituiu umha das principais fontes de instabilidade política do país.

Nas décadas de 1920 e 1930, a jovem república enfrentou umha série de rebelions curdas de inspiraçom nacionalista, principalmente a Rebeliom do Sheikh Said de 1925 e a Revolta Hoybûn de 1929-1931. A postura tomada pola administraçom do pai fundador da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, era de supressom e negaçom. O governo republicano foi enorme para esmagar a resistência curda; por exemplo, em 1925, um terço do orçamento do governo estava direcionado para a supressom militar da insurgência do xeque Said.

No entanto, apesar da intensidade da violência empregada polo Estado durante as décadas de 1920 e 1930, a questom curda nunca foi verdadeiramente resolvida. Começando nas décadas de 1940 e 1950, umha nova geraçom de intelectuais e ativistas curdos começou a mobilizar-se em um processo que culminou com a fundaçom do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (mais conhecido polo seu acrónimo curdo PKK) em 1978, umha organizaçom dedicada à libertaçom nacional nom só dos curdos da Turquia, mas dos curdos em todo o Oriente Médio.

Posteriormente, o Sudeste maioritariamente curdo da Turquia foi mergulhado num estado de guerra civil. Entre 1978 e a prisom do fundador do PKK Abdullah Öcalan em 1999, trinta mil vidas foram perdidas e cerca de quatro mil aldeias curdas destruídas. Ao longo destes anos de conflito, o governo turco sustentou que nom havia “questom curda”; ao invés funcionários do governo enquadram o conflito em termos da luita contra o terrorismo (e, se pressionado, desenvolvimento económico). Como dixo o primeiro-ministro Tansu Çiller durante uma entrevista concedida em 1995 a Daniel Pipes: “Nom há insurreiçom curda na Turquia. Os terroristas do PKK estam a atacar civis inocentes na parte sudeste do meu país sem poupar mulheres, crianças ou idosos.”

No entanto, o sucesso eleitoral do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) em 2002 e a ascensom de Erdoğan ao cargo de primeiro-ministro (umha posiçom que ocupou até a sua eleiçom como presidente em 2014) marcarom umha mudança sutil mas distinta na política oficial para os curdos. No Verao de 2005, o primeiro-ministro Erdoğan viajou para Diyarbakir, um bastiom do nacionalismo curdo, e proclamou que a questom curda era a sua questom e um problema colectivo para a Turquia, confessando que, no passado, ” foram cometidos erros.”

Estas declaraçons foram seguidas por umha série de medidas que facilitarom a fim as restriçons à expressom da cultura curda. Provisons forom feitas para permitir que o curdo fosse ensinado em escolas de idiomas e universidades, a televisom estatal abriu um canal de transmissom em curdo e, em 2009, o governo anunciou a chamada “abertura curda”, processo que o ministro do Interior, Beşir Atalay, Hakan Fidan, chefe da poderosa Agência Nacional de Inteligência da Turquia, estava até em negociaçons com o líder preso do PKK, Abdullah Öcalan, com vista a acabar com o período mais longo de insurgência curda.

É claro que muitas das reformas prometidas permaneceram em grande parte na teoria e o ativismo curdo continuou sendo um negócio arriscado. Em dezembro de 2009, o Partido Democrático da Sociedade (DTP), o antecessor do HDP, foi ilegalizado polo tribunal constitucional da Turquia, alegando que era umha frente para o “terrorismo”. Além disso, os contatos do governo com Abdullah Öcalan nom possuíam umha posiçom legal clara Ou um objectivo definido. No entanto, no início de 2010, parecia que a Turquia estava a avançar lentamente para algum tipo de resoluçom da “questom curda do país.”

Em retrospectiva, parece evidente que a abertura de Erdoğan para com os curdos nasceu nom de qualquer convicçom forte de que a povoaçom curda do país tinha sido vítima de umha injustiça histórica, mas um desejo básico de ganhar votos curdos. No curto prazo, este provou ser bem sucedido, com o AKP aumentando a sua parte do voto no sudeste curdo nas eleiçons gerais de 2007. Entretanto, nas eleiçons locais de 2009 muitos curdos, frustrados com o ritmo lento das reforma, abandonou o AKP, levando ao fracasso do partido para assumir o control do governo municipal de Diyarbakir do DTP pro-curdo.

As reformas lentas também impulsionaram a popularidade da ala parlamentar do movimento curdo, que, em 2014, se fundiu em um novo partido, o HDP. O HDP foi capaz de capitalizar sobre a repulsa sentida por muitos curdos (incluindo os elementos mais conservadores da sociedade curda que geralmente tinham sido solidários com o AKP) em direçom a visom de Erdoğan do movimento curdo sírio, que tinha chegado a proeminência política após a eclosom da Guerra Civil Síria em 2011.

No outono de 2014, quando os combatentes curdos sírios tentaram defender a cidade síria curda de Kobanê das forças do Estado Islâmico, as autoridades turcas se recusaram a permitir que os curdos da Turquia cruzassem a fronteira para ajudar os defensores de Kobanê, apesar de que essas mesmas autoridades tinham sido mais do que dispostas a fechar os olhos para um fluxo constante de jihadistas na Síria desde o território turco. As paixons foram ainda mais inflamadas quando Erdoğan (agora presidente) proclamou, com aparente indiferença fria, que Kobanê estava “à beira da queda”. Umha onda de protestos espalhou-se por toda a Turquia e foi brutalmente reprimida polas autoridades turcas.

A popularidade do HDP também aumentou como resultado da sua postura relativamente progressista em relaçom à economia, aos direitos LGBT e ao meio ambiente. Tais posiçons o ajudarom a construir apoio entre os turcos liberais e esquerdistas, muitos dos quais tinham participado ou simpatizado com os protestos do Parque Gezi em 2013. Assim, sob a co-liderança de Demirtaş, um curdo étnico de Elazığ e Figen Yüksekdağ, umha turca étnico de Adana, o partido conseguiu construir umha coalizom eleitoral que incluía nom apenas curdos, mas liberais turcos, esquerdistas, ambientalistas e ativistas de direitos LGBT. Concedido, a base do partido permaneceu esmagadoramente curda, mas nas eleiçons parlamentares de junho de 2015, esta coalizom pôde impulsionar o HDP após o limiar eleitoral do 10 por cento, umha barreira que em eleiçons precedentes negou-lhe aos partidos pro-Curdo representaçom parlamentar adequada (HDP ganhou o 13,1 por cento).

O sucesso eleitoral do HDP, que veio principalmente à custa do AKP, foi um desafio direto ao crescente poder de Erdoğan, e aparentemente pôs fim às suas ambiçons de reescrever a Constituiçom turca de 1982 e estabelecer umha presidência executiva forte (a Turquia é um sistema parlamentar ). Quase assim que os resultados das eleiçons foram em umha nova ofensiva militar foi lançado contra o PKK.

O estopim para a renovaçom da violência foi o atentadoo, provavelmente orquestrado polo Estado Islâmico, de um grupo de estudantes que se reuniram em Suruç, na fronteira turco-síria, para apoiar os combatentes curdos na Síria. Logo depois, forças de segurança turcas entraram em confronto com militantes curdos em Adiyaman e Ceylanpinar, deixando três soldados mortos. Embora o PKK tenha negado estar envolvido nos combates, essas mortes abriram um espaço para um novo ataque do governo contra o PKK. Sob a capa de perseguir o Estado Islâmico, a força aérea turca atacou posiçons do PKK no Iraque.

Enquanto isso, dentro das fronteiras da Turquia, as autoridades se enfrentaram com militantes curdos em cidades do sudeste. Na primavera de 2016, esta nova rodada de violência custou, segundo as autoridades turcas, 4,571 combatentes curdos, 450 soldados e policiais e polo menos 338 civis. As perdas materiais foram igualmente grandes, com muitas cidades curdas reduzidas a escombros e ruínas, adornadas com bandeiras turcas.

Apesar de alimentar o sentimento nacionalista entre os turcos, estes confrontos nom significarom o fim do HDP. Umha segunda eleiçom realizada em novembro de 2015 viu a queda do voto da HDP, mas nom abaixo do limiar eleitoral do 10%. Na verdade, em termos de assentos parlamentares, o HDP ultrapassou o Partido de Açom Nacional de extrema-direita (MHP), tornando-se o terceiro maior partido parlamentar.

No entanto, após o fracasso golpe de Estado do 15 de julho, a paisagem política na Turquia está mudando rapidamente. Erdoğan usou o caos político para consolidar ainda mais o seu poder, atacando os bastions da oposiçom remanescentes nos meios de comunicaçom, na burocracia, na educaçom e, naturalmente, no movimento curdo.

As fontes de mídia curdas, incluindo a Agência de Notícias Dicle, Azadiya Welat (Naçom Livre) e Evrensel Kültür (Cultura Universal), forom fechadas. Líderes do HDP de governos locais também forom arredondados, incluindo os co-presidentes de câmara de Diyarbakir, Gültan Kışanak e Fırat Anli. Talvez um dos movimentos mais significativos do governo tenha sido o assalto legal à delegaçom parlamentar do HDP.

Em maio de 2016, dois meses antes do golpe de Estado, o parlamento turco votou para remover a imunidade parlamentar dos membros do HDP, umha medida apoiada nom só polo AKP, mas também polo maior partido da oposiçom da Turquia, o Partido Popular Kemalista (CHP) . Na noite do 4 de novembro, as autoridades turcas figeram uso desse novo poder para, de feito, “decapitar” o movimento curdo; um movimento que lembra misteriosamente o ataque de Talat Pasha contra a intelligentsia armênia 101 anos antes.

Assim como os “jovens turcos” usaram a capa da Primeira Guerra Mundial para “resolver” a questom armênia, Erdoğan parece estar usando o pós-golpe para “limpar” a oposiçom curda.

Racializaçom do Conflito Curdo

Um aspecto significativo, mas muitas vezes ignorado, dos desenvolvimentos relacionados com a “questom curda” da Turquia é a mudança gradual na última década para a institucionalizaçom da identidade curda na Turquia. À primeira vista, isso pode parecer um desenvolvimento positivo. No entanto, à medida que a República Turca avançou para o reconhecimento, embora apenas implicitamente, de que os curdos constituem umha comunidade distinta, a comunidade curda, paradoxalmente, tornou-se mais vulnerável à violência dirigida.

A este respeito, a comparaçom com o caso arménio é particularmente relevante. Apesar dos esforços das sucessivas geraçons de reformadores otomanos no século XIX e início do XX para forjar umha “naçom” otomana através do estabelecimento de um conjunto comum de direitos e responsabilidades para todos os sujeitos otomanos, independentemente das suas afiliaçons étnicas ou religiosas, característica persistente da política otomana tardia. Isto foi particularmente verdade em comunidades predominantemente nom-muçulmanas como os armênios que gozavam de um tipo de reconhecimento oficial devido à existência do chamado sistema de milheto, umha estrutura administrativa que proporcionava às minorias religiosas umha forma de autonomia legal.

Na segunda metade do século XIX, essa autonomia institucional foi reforçada polo surgimento de um animado movimento político armênio que impulsionou (às vezes através de umha atividade revolucionária violenta) o reconhecimento dos direitos nacionais armênios (embora nom necessariamente a independência nacional). As elites políticas otomanas consideravam cada vez mais a comunidade armênia nom como “cidadaos” otomanos em potencia, mas como umha ameaça existencial à unidade imperial – umha quinta coluna trabalhando ativamente para minar a ordem política otomana.

Essa tendência foi exacerbada pola proliferaçom de idéias social-darwinistas entre a liderança do Comitê de Uniom e Progresso (mais conhecido no Ocidente como os Jovens Turcos), umha cabala secreta de funcionarios e militares que lideraram o Império Otomano durante a I Guerra Mundial. Esta tendência serviu para racializar umha comunidade que, historicamente, tinha sido compreendida principalmente em termos religiosos. Como dixo o Dr. Nazim, membro da Organizaçom Especial da CUP (Teşkilât-ı Mahsusat), umha organizaçom semi-oficial de inteligência diretamente responsável polas brutalidades contra os armênios, declarou em umha reuniom da CUP em 1915:

Se permanecermos satisfeitos. . . Com massacres locais. . . Se esta purga nom é geral e final, inevitavelmente levará a problemas. Portanto, é absolutamente necessário eliminar o povo armênio na sua totalidade, de modo que nom haja mais armênios nesta terra e o próprio conceito da Armênia seja extinto. . .

Assim, mesmo a conversom ao Islã (um movimento que salvara a muitos armênios da morte durante um conjunto anterior de pogroms em meados da década de 1890), nom era suficiente para salvar os infelizes moradores arménios da deportaçom para o deserto sírio ou o assassinato.

Como poderíamos entom comparar a situaçom dos armênios há um século com a situaçom dos curdos hoje?

A atitude das elites políticas na Turquia republicana em relaçom aos curdos tem sido, historicamente, um pouco diferente da atitude mostrada para os armênios polos arquitetos do genocídio. Isso nom quer sugerir que as noçons racializadas de identidade étnica nom tenham sido significativas na Turquia republicana. A lei das indemnizaçons de 1934, desde que os mecanismos legais para a deportaçom daqueles de “cultura”  nom-turca das suas casas; Umha lei usada com grande efeito para deportar curdos e outros “indesejáveis”, como os judeus da Trácia.

Ao mesmo tempo, o governo de Mustafa Kemal Atatürk estava mais do que disposto a tolerar as atividades dos supremacistas raciais turcos como Nihal Atsiz, um indivíduo que recuperou a propaganda nazista para o consumo turco e descreveu a nacionalidade turca como “umha questom de sangue”. A nível popular, os curdos forom muitas vezes considerados polos turcos como sendo um povo bestial, de pel escura, suja.

No entanto, o discurso “kemalista” oficial nom reconheceu os curdos como um povo distinto. Eles foram descritos como “turcos da montanha”; um povo que era de origem turca, mas que vinhera falar umha forma de “persa quebrado” (curdo, como o persa, é umha língua indo-iraniana). Assim, a política da Turquia para os curdos foi muitas vezes ditadas pola noçom de que a Curdicidade era umha forma de falsa consciência e que qualquer manifestaçom de descontentamento político curdo era o resultado da agitaçom externa.

Assim, os kurdos foram considerados polas elites kemalistas como sendo, para tomar um termo do estudioso Mesut Yegen “turcos prospectivos”; umha comunidade que poderia, por meio da educaçom, ser atraída para o círculo da “civilizaçom” turca moderna. Na verdade, os nacionalistas kemalistas, com a quase obsessom patológica de usar as palavras de Mustafa Kemal, muitas vezes tentavam negar a exclusividade étnica do nacionalismo turco, feita polo fundador da Turquia: “Feliz é aquel que se chama turco”, nom “Feliz é aquel que é turco”; um ponto usado para demonstrar a aparente inclusividade da identidade turca.

É claro que os “nacionalismos cívicos” assimilacionistas, como variedade do nacionalismo turco exposta polos kemalistas seculares, som muitas vezes menos perniciosos do que o chamado nacionalismo étnico (se de feito umha divisom firme entre essas duas categorias pode mesmo ser feita). A missom civilizadora kemalista, apropriadamente descrita por Welat Zeydanoğlu como “o fardo do homem branco turco”, resultou na repressom da língua curda, na prisom de ativistas curdos e em políticas como o rapto em massa de crianças curdas e o seu internamento forçado polo governo em Internatos.

No entanto, a negaçom do estado turco da existência curda também isolou os curdos de um ataque genocida. Embora a violência contra determinadas comunidades de curdos tenha, às vezes, atingido proporçons genocidas – principalmente durante a campanha de Dersim de 1937 e 1938 – enquanto os curdos fossem considerados “turcos em potencia”, ficava fora da agenda a erradicaçom física total da comunidade curda. Afinal, como se pode destruir umha naçom que o Estado se recusa a aceitar que existe?

A situaçom evoluiu no âmbito do AKP. O reconhecimento oficial parcial e imperfeito dos curdos como umha comunidade distinta ao longo da última década criou ironicamente condiçons nas quais o genocídio contra os curdos da Turquia é agora, se nom necessariamente, provável,.

Escrevendo em 2009, Mesut Yeğen observou que “o status dos curdos em relaçom à turquia está à beira de umha grande mudança”. O ponto de Yeğen era que a crença popular de que os curdos poderiam se tornar turcos estava em declínio; no seu lugar, surgiu umha nova narrativa emanando tanto das Forças Armadas turcas como da imprensa nacionalista, que retratava os curdos como pseudo-cidadaos (sözde vatandaşlar) e muitas vezes os ligava a comunidades há muito consideradas fora do círculo turco através do uso de termos como judeus-curdos ou armênios-curdos.

A tendência para ver os curdos como o “outro” claramente definido para o turco tem sido inadvertidamente reforçada por concessons oficiais (por mais escandalosas e superficiais) à identidade curda. É agora impossível para os líderes políticos turcos voltar à política de negaçom que, durante grande parte da história moderna da Turquia, definiu a atitude oficial em relaçom aos curdos. Em vez disso, os curdos som agora considerados polos círculos governamentais e por grandes setores do público turco, como ingratos que, apesar dos esforços do governo, continuam empenhados em destruir o país.

Assim, o castigo coletivo do tipo dos armênios há um século é – talvez por primeira vez na história da Turquia moderna – agora possível. Como os armênios em 1915, os curdos emergiram como um novo “outro” – um grupo distinguível da maioria turca.

A este respeito, a prisom dos co-líderes do HDP, bem como centenas de outros intelectuais e ativistas curdos, parece notavelmente semelhante aos esforços de Talat Pasha para “decapitar” a comunidade armênia. Os apologistas de Erdoğan podem muito bem tentar enquadrar essas prisons em termos da “guerra contra o terrorismo”; especialmente ao justificar as suas açons para os Estados Unidos e Europa.

No entanto, as declaraçons do ministro da Economia Nihat Zeybekçi, em que el comparou os membros do HDP a “ratos”, sugere as atitudes racistas e desumanizantes mantidas pola elite governante da Turquia. Tais declaraçons, feitas num momento em que o conflito militar entre o PKK e o exército turco estam aumentando, servem apenas para endurecer as fronteiras ideológicas que separam os curdos dos turcos e, ao fazê-lo, podem muito bem estar lançando as bases de umha campanha até entom sem precedentes Violência contra a povoaçom curda da Turquia.

Isso resultará em genocídio? Talvez seja cedo demais para dizer. Mas este é 2016, um ano em que muitas coisas que umha vez pensou impossível tornaram-se muito reais.

Djene Bajalan é professor assistente no Departamento de História da Universidade Estadual de Missouri.A sua pesquisa centra-se sobre assuntos do Oriente Médio e ensinou e estudou no Reino Unido, na Turquia e no Curdistam iraquiano.

Publicado em Jacobinmag.

 

 

 

 

 

 

 

A questom turca

a-questom-turcaPor Ozkan Kocakaya

A questom de como resolver a crise causada pola deterioraçom das relaçons entre a UE ea Turquia está a ganhar intensidade cada dia. O venres, o presidente da Turquia Erdogan ameaçou com abrir as portas da fronteira para permitir que milhons de refugiados viajem para a UE em resposta ao voto nom vinculativo do jôves dos deputados europeus no Parlamento Europeu para congelar as negociaçons de adesom da Turquia. Foi o último (que nm derradeiro) capítulo que sublinhou a queda da Turquia em umha ditadura.

As negociaçons de adesom da Turquia à Comunidade Económica Europeia, antecessora da UE, começaram em 1987, com a ideia de que, ao mesmo tempo que serviam os interesses estratégicos e económicos da Europa, a Turquia poderia também ser modernizada através da adesom aos valores europeus. Embora o som principal, desta estratégia requer umha naçom que se esforça para umha evoluçom progressiva; e a Turquia nom se enquadra nesta categoria ainda.

A revelaçom de Erdogan do fascismo profundamente arraigado em todos os níveis da sociedade em Turquia é prova disso e os aliados internacionais de Turquia, pretendendo proteger os interesses acima mencionados na regiom, permitirom que a Turquia mantivesse umha fachada de democracia ao negar-se a fazer exame estrutural e social das reformas. A sua incapacidade de resolver a questom curda resultou, consequentemente, em que o membro da OTAN recorresse à extorsom e à supressom militar brutal do movimento curdo, juntamente com a propaganda sistemática sancionada polo Estado, tanto nacional como internacionalmente, por quase um século.

Os comprimentos a que a Turquia tem estado a negar o estatus curdo de qualquer tipo na regiom pode ser sintetizado polos acontecimentos dos últimos dous meses sozinho. É a insistência, e falha subseqüente, para ser-lhe permitido participar em operaçons para libertar Mosul e Raqqa foi destinado a travar o progresso dos curdos. Para distrair as suas políticas sírias e iraquianas, Erdogan acelerou as prisons contra os curdos em casa, prendendo deputados curdos. A natureza sinistra da mentalidade que resultou no feito de o Estado tome efetivamente prisioneiros deputados curdos eleitos foi revelada por Huseyin Kocabiyik, o deputado do AKP para Izmir, dizendo: “No caso de tentativas de assassinato de líderes estaduais, as pessoas iram invadir as prisons e ficarem presas os terroristas do FETO [Gulenistas] e do PKK “umha semana após essas prisons. É umha admissom categórica do desespero que toma a preensom entre círculos do AKP assim como umha derrota política.

Embora estes sejam indicativos da vontade da Turquia de recorrer a medidas tam desesperadas como a extorsom dirigida à UE e aos curdos, o que está a ficar claro é que a Turquia nunca tivo um problema curdo, mas a regiom sempre tivo um problema turco. Afinal, a Turquia tem legitimado os crimes que cometeu contra os curdos apontando o dedo para o PKK por quase quatro décadas. A questom curda é um sintoma do maior problema que está ligado a el, e a Turquia tem estado habilmente desviando a atençom dos seus próprios fracassos a nível estadual, despejando vastos recursos para apresentá-los como umha questom curda.

A decisom da Áustria de impor um embargo de armas à Turquia, o reconhecimento por parte dos tribunais alemaes do apoio da Turquia ao terrorismo e o reconhecimento de um tribunal belga da luita armada num caso histórico contra políticos curdos acusados de serem membros do PKK. O que deve seguir é o reconhecimento de que a UE e o Médio Oriente tenhem um problema turco. Até que este seja amplamente reconhecido e abertamente debatido a nível internacional, juntamente com umha forte liderança do Ocidente para negar a Turquia as plataformas de censura e propaganda no exterior, a Turquia nom vai mudar. Isto pode muito bem envolver sançons económicas e militares, mas considerando que foi necessária umha guerra mundial para combater o fascismo na Europa, será um preço menor a pagar.

A Turquia está empregando toda a força das suas capacidades militares e políticas para impedir que os curdos ganhem status em qualquer lugar, é indicativo o papel importante dos curdos em trazer estabilidade e reformas democráticas para o Oriente Médio. É também um reconhecimento da última batalha ideológica para a sobrevivência, apresentando-o como umha guerra contra os curdos, onde na verdade sempre foi uma guerra entre o fascismo e a democracia dentro da Turquia. Derrotar essa ideologia nom só serve os curdos, mas os próprios turcos.

Quando Hilary Benn deu o seu discurso apaixonado no parlamento do Reino Unido na sequência dos atentados de Paris em novembro passado, el estava-se referindo à ameaça crescente do Islamofascismo apresentado pola ISIS. No contexto do reconhecimento generalizado da cumplicidade da Turquia no surgimento do ISIS e dos paralelos na ideologia do AKP com o grupo terrorista mais vilipendiado da história, esse discurso é mais relevante para a crescente ameaça à segurança global proveniente da última casa remanescente do fascismo que é a Turquia. Assim, a questom curda da Turquia sempre foi umha cortina de fumaça para a verdadeira questom turca.

ozkan-kocakayaOzkan Kocakaya é originária da Turquia, de origem curda. Depois de ganhar umha licenciatura e um mestrado da Universidade de Liverpool em IT e assuntos relacionados com o mercado, el começou umha carreira na indústria financeira, onde ainda ganha a vida. Tendo um grande interesse na literatura e umha paixom polo Curdistam,  dedicao  seu tempo livre a escrever ficçom para promover a história e os valores curdos, bem como blogs sobre assuntos atuais no seu país de origem.

Publicado em Kurdish Question.

 

 

Turquia: caminho à ditadura e a responsabilidade de Ocidente

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Thanassis Stavrakis AP / Press Association Images

Por Mehmet Ugur

As recentes detençons dos co-presidentes e deputados do HDP som outro episódio perigoso no caminho turco rumo a umha ditadura absoluta.

Imos parar de fingir o contrário: a Turquia está agora sob um regime ditatorial estabelecido passo a passo sob o olhar e com o apoio tácito dos governos e instituiçons ocidentais. As forças curdas e democráticas dentro do país estam pagando um preço muito alto, nom só por causa da brutalidade da governante AKP por umha combinaçom de políticas econômicas neoliberais e islamismo político, mas também polo fracasso dos governos e instituiçons ocidentais para ler corretamente o roteiro e desenvolver umha resposta de princípio. A falha de hoje do Ocidente é semelhante ao apaziguamento de Hitler na década de 1930.

No momento da redaçom, polo menos 11 deputados do Partido Democrático do Povo (HDP), incluindo os co-presidentes Figen Yuksekdag e Selahattin Demirtas, forom detidos e a sede do partido invadida. Estas atrocidades seguiram-se de longas interrupçons da Internet na regiom curda. Trata-se de umha puniçom coletiva em grande escala com o objetivo de espalhar o medo entre a povoaçom em geral. Pode-se apenas imaginar como um membro da OTAN e um candidato a UE podem interromper comunicaçons, transaçons comerciais e serviços públicos, incluindo provisons de saúde sem qualquer desafio dos governos ocidentais.

Seguindo o Autoritarismo crescente do AKP

O sistema multipartidário turco tinha sido um verniz para um regime essencialmente centralizado e autoritário desde 1947. O regime sempre oscilou entre eleiçons parlamentares e golpes militares. A vitória eleitoral do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) em 2002 foi apresentada como um avanço. No entanto, o AKP logo se tornou um arquiteto do autoritarismo crescente e atuou recentemente como parteira de um golpe frustrado. Esta trajetória tem estado sustentado por uma crença islamo-calvinista na economia de mercado que ressoa com os dogmas econômicos neoliberais. Exige a adesom a umha ordem política islâmica em que as eleiçons som dispositivos para confirmar aqueles que estam no poder, e nom meios de responsabilizá-los e garantir os direitos das minorias.

De feito, a transiçom para o atual regime ditatorial começou em 2005, logo depois que a elite do AKP sentiu-se confiante de que tinham apoio suficiente para a concepçom de democracia de Recep Tayyip Erdogan. Em março de 2005, menos de seis meses depois de umha vitória eleitoral municipal, Erdogan marcou manifestaçons contra a brutalidade policial contra as mulheres em Istambul como “euro-informadores” – isto é, traidores cuja lealdade é para as potências estrangeiras e nom para o Estado turco. Esta declaraçom iniciou um processo de 10 anos de consolidaçom autoritária, durante o qual toda dissidência política foi equiparada a traiçom e conspiraçom.

A primeira vítima desse processo de consolidaçom forom as instituiçons de boa gestom de governança. Entre 2005 e 2015, a Turquia permaneceu no 50% dos Indicadores de Governança do Banco Mundial. A qualidade da governança caiu ao 48%  e ao 35% no que se refere à informaçom e à responsabilidade; E do 28% ao 10% em relaçom à estabilidade política. A sua classificaçom quando se trata do Estado de direito estagnou em torno do 57% e eventualmente caiu para cerca do 50% até 2016. Escândalos de corrupçom em grande escala envolvendo funcionários do governo e os seus apoiadores políticos forom encobertos e aqueles que os expuseram forom silenciados.

A liberdade de imprensa foi reduzida ano após ano. De acordo com dados da Freedom House, a Turquia era “parcialmente livre” em relaçom à liberdade de imprensa em 2005. Em 2015, tornou-se “nom livre”. Em 2016, o ambiente legal e político da liberdade de imprensa na Turquia foi do 10-15%, um dos piores do mundo.

A Turquia nunca foi conhecida pola liberdade acadêmica. A tutela estatal sobre o sistema de ensino superior foi consagrada tanto na Constituiçom como na Lei do Ensino Superior. Os acadêmicos sempre forom forçados a seguir a linha do governo sob sucessivos governos do AKP; E aqueles que assinarom umha carta pedindo paz e monitoramento internacional da violência do Estado nas cidades curdas foram perseguidos desde o final de 2015.

Após o fracassado golpe de julho de 2016, dezenas de milhares de acadêmicos e educadores forom demitidos e o presidente recebeu o poder de escolher todos os vice-reptores das universidades públicas, levando a umha atmosfera de medo sem precedentes no sistema. De acordo com o relatório de 2016 da Scholars at Risk, as açons do governo turco “prejudicaram a reputaçom do setor de educaçom superior da Turquia como um parceiro confiável para projetos de pesquisa, intercâmbios de ensino e estudo e conferências e reunions internacionais.”

Apesar das pressons políticas internas e das recomendaçons dos advogados internacionais de direitos humanos desde 2005, sucessivos governos do AKP evitaram negociaçons de paz significativas com os curdos. Por fim, entre junho e a segunda volta das eleiçons de novembro de 2015, o governo do AKP usou a violência orquestrada polo Estado para silenciar o Partido Democrático do Povo ( HDP). Após as eleiçons de novembro, o AKP desencadeou um ataque militar sem precedentes contra os curdos, destruindo povos e cidades, matando civis inocentes e provocando uma onda maciça de deslocamento interno. O uso ilícito e desproporcionado da violência estatal foi documentado num relatório da Human Rights Watch e reconhecido polo Comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa.

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11 deputados do HDP foram detidos o 4 de novembro de 2016, incluindo os co-presidentes Demirtas e Yuksekdag. Imagem de Lefteris Pitarakis AP / Press Association Images.

Mais recentemente, o governo do AKP prendeu e emprissionou os co-alcaldes de Diyarbakir (Amed), a maior cidade curda, alegando que eles eram membros de umha organizaçom terrorista. As provas contra eles consistem em discursos que figeram a favor da autonomia local democrática e da prestaçom de serviços municipais para o enterro de combatentes do PKK mortos em confrontos armados com as forças de segurança. Isto é, apesar do feito de que os serviços de enterro estam entre os deveres e responsabilidades dos municípios em toda a Turquia. Os co-alcaldes foram detidos e enviados para a cadeia na prisom de Kandira Tipo F, na província de Izmit – a mais de 800 milhas [ quase 1.300 km] de Diyarbakir!

Além de dezenas de meios de comunicaçom ser encerrados nas últimas duas semanas de outubro de 2016, o governo do AKP ordenou a invasom do principal jornal da oposiçom Cumhuriyet e as casas dos seus jornalistas, editores e administradores. Atualmente, 15 jornalistas e altos executivos do jornal estam sob custódia policial sem acesso a avogados.

A repressom geral após o golpe fracassado é implementada através de decretos sob o estado de emergência. Embora o artigo 15.º da Convençom Europeia dos Direitos Humanos (CEDH) prevê derrogaçons à Convençom nos estados de emergência, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos continua a ser a autoridade final para determinar se as medidas tomadas durante o estado de emergência estam em conformidade com a Convençom. Esta última prevê claramente que as derrogaçons sejam estritamente necessárias e proporcionadas. Mesmo no início do estado de emergência, o Comissário para os Direitos Humanos declarou que o primeiro decreto suscitava questons muito graves de compatibilidade com a CEDH e com os princípios do Estado de direito, mesmo tendo em conta a derrogaçom em vigor.

Desde entom, o alcance, a modalidade e a arbitrariedade das açons do governo e o estado de decretos de emergência pioraram além de qualquer cousa que os últimos governos turcos figeram.

Este estado de terror nom pode ser justificado invocando derrogaçons da CEDH sob o estado de emergência. Em França, foi introduzido um estado de emergência, mas os controlos e contrapesos necessários foram instituídos polo poder judicial, polo Parlamento francês, pola Instituiçom Nacional dos Direitos Humanos e polo Valedor do Povo. Além disso, as medidas adoptadas polo Governo francês forom muito mais limitadas do que as da Turquia. Neste último, o Parlamento é totalmente disfuncional, o judiciário sob o control total do governo, que já tinha introduzido legislaçom que garante a imunidade das forças de segurança para as suas açons na repressom contra os curdos.

Em geral, o regime atual na Turquia tem as características de um regime ditatorial. Erdogan e a AKP, juntamente com os militares, estam construindo defesas que faram com que o regime seja totalmente inexplicável e talvez irreversível. Umha dessas defesas é a prestaçom de umha cultura de turbas civis nos meios de comunicaçom, mesquitas, bairros, universidades, etc. Esta cultura da multitude consiste em: (i) demonizar e criminalizar todos os adversários políticos; (ii) incentivos centrados no estado de linchamento político através de vários meios, incluindo prisons, ataques de negócios, campanhas de hostilidade cibernética e mediática, ódio étnico e religioso contra os curdos, alevis e outras minorias, incluindo a comunidade LGBTQ; (iii) as exigências da reintroduçom da pena de morte, para as quais Erdogan declarou apoio várias vezes após o fracassado golpe; E (iv) as teorias de conspiraçom que apresentam a Ocidente como o inimigo da Turquia.

O outro nível de defesa é a transiçom para um “sistema presidencial unitário” no qual o presidente nomearia o Judiciário, os reitores universitários, e estaria no control do aparelho de segurança. É muito provável que seja adotado em breve, com o apoio dos deputados do AKP e do Partido de Açom Nacional (MHP).

A implosom do sistema mundial unipolar como fator explicativo

Dado que as evidências acima som de conhecimento comum, é seguro assumir que os governos e instituiçons ocidentais também tenhem conhecimento da deriva ditatorial na Turquia. Isso levanta duas questons: (i) por que a sua resposta foi silenciada; E (ii) teriam sido capazes de responder de forma diferente?

A resposta a ambas as perguntas reside na crise do sistema mundial unipolar que os Estados Unidos, com a Europa, estam tentando estabelecer desde o colapso da Uniom Soviética. Com exceçom da década de transiçom na década de 1990, os EUA foram totalmente infrutíferos em se estabelecer como um poder de monopólio. Por outro lado, os políticos europeus tiveram que andar na linha, sem quaisquer benefícios visíveis, com exceçom da falsa sensaçom de poder que no Reino Unido levou ao Brexit. Esse triste resultado tem sido associado ao custo humano e à ruína econômica no Iraque, na Líbia e na Síria; E com percepçons contínuas de insegurança apesar da expansom oriental da OTAN.

A falha foi devida a três fatores: (i) a ascensom da China e da Rússia como sérios candidatos para o estatus de potência mundial; (ii) o alto preço que as potências regionais, como a Turquia, a Arábia Saudita, a Índia, etc., exigiram o seu papel como subcontratas no projeto; E (iii) o surgimento de grupos terroristas islâmicos transnacionais das cinzas da destruiçom causada por intervençons ocidentais visando a mudança de regime. A combinaçom destes factores levou a dous resultados. Primeiro, o projeto do sistema mundial unipolar provou ser a experiência de vida mais curta da política mundial. Em segundo lugar, as incertezas atuais sobre como passar a um sistema multipolar forom associadas a custos, que podem ser esperados ser ainda mais altos a menos que os eleitorados desafiem os dogmas políticos prevalecentes no Ocidente.

Visto desta perspectiva, o silêncio do Ocidente contra o autoritarismo crescente na Turquia nom pode ser explicado polo medo dos refugiados sírios ou como um preço para garantir a luita da Turquia contra o ISIS. Estas som apenas manifestaçons de um mal-estar mais profundo – isto é, a obsessom com a idéia de um sistema unipolar – que se baseou em duas falácias: (i) crença na supremacia dos sistemas econômicos e de segurança ocidentais; E (ii) a crença na capacidade deste último de escolher seus aliados de um conjunto de atores secundários, como a Turquia, para alcançar os objetivos regionais.

Hoje, ambas as crenças provaram ser infundadas: o sistema econômico ocidental tem entregue altos níveis de desigualdades de renda e riqueza dentro do país, e mais fragilidade; O sistema de segurança, por outro lado, tem beneficiado apenas a indústria de armamento para um aumento do apetite para gastos militares sem reduzir os riscos de segurança percebidos. Em suma, o investimento no projeto do sistema mundial unipolar tem sido verdadeiramente desastroso para o público ocidental, que financiou o projeto quer por meio de baixos salários para a maioria ou por aumento de encargos fiscais sobre os assalariados de renda média.

A incapacidade dos governos ocidentais de reagir eficazmente ao autoritarismo crescente na Turquia pode e deve ser lida a partir desta anomalia subjacente. Os EUA e a Europa nom tiveram influência sobre a Turquia porque esta última (como outras potências regionais emergentes) estava disposta a apoiar as ambiçons de um sistema unipolar apenas em troca de aumentar a sua influência no Oriente Médio. Os EUA e a Europa concordaram com este acordo, preparado clandestinamente junto com “especialistas” embutidos de academicismo.

Parte do acordo tem sido apresentar a Turquia como um modelo para o Oriente Médio, apesar da crescente evidência de autoritarismo e degradaçom institucional. Quando o argumento ‘modelo’ perdeu a sua credibilidade após o fracasso do golpe, o oeste começou a medir o “valor” da Turquia com umha nova moeda: a estabilidade do regime. É por isso que tanto o Secretário-Geral do Conselho da Europa, Thorbjørn Jagland, como o ex-comandante supremo da OTAN, James Stavridis, apelaram a um apoio ocidental mais forte ao governo turco – com pouca ou nengumha atençom ao risco de violaçons dos direitos humanos. O estado de emergência. Este foi um indicador nauseabundo de até que ponto o poder superou o justiça na formaçom da política externa no Ocidente.

Consciente deste arranjo, o governo turco tem: (i) reforçado a sua política externa sectária e intervencionista em relaçom à Síria e ao Iraque; (ii) forneceu armas a organizaçons terroristas como Al-Nusra, fechando os olhos às atividades do ISIS dentro e fora de suas fronteiras; iii) adoptou umha abordagem hostil ao movimento político curdo na Turquia e na Síria; E (iv) suprimiu todas as fontes potenciais de dissidência doméstica.

Ao fazê-lo, a elite do AKP desfrutou de umha mistura de apoio tácito e explícito dos governos e instituiçons ocidentais, que criticaram mutavelmente e seguiram umha sólida confirmaçom da importância estratégica da Turquia como aliada.

A política de apaziguamento, no entanto, foi um tiro pola culatra. A Turquia é agora um passivo e nom um ativo para a segurança ocidental. As suas açons no Iraque e Síria foram além do apoio ou cumplicidade com grupos terroristas e começaram a sinalizar ambiçons irredentista que complicam os objetivos de Ocidente na regiom. A Turquia também está jogando a carta russa para empurrar os EUA e os decisores políticos europeus para apoiar a sua ambiçom de destruir a realidade curda emergente na Turquia e além. A próxima fase pode muito bem ser uma situaçom em que a Turquia “aumenta” a responsabilidade da ameaça à segurança europeia – principalmente devido a níveis mais elevados de instabilidade política sob um regime ditatorial.

Já é tempo de que os governos e instituiçons ocidentais confessarem ao seu público e admitir que a política de apaziguar a Turquia em troca do seu apoio à idéia do sistema unipolar implodiu. Também é altura de admitir que o Ocidente perdeu o argumento moral contra a Rússia. Nom é preciso subscrever umha concepçom benigna do regime russo para ver que é a Rússia quem defende a adesom ao direito internacional no combate ao terrorismo. Além disso, é a Rússia quem defende das intervençons unilaterais que visam a mudança de regime, cujas consequências foram: (i) a proliferaçom de redes terroristas transnacionais; (ii) perda de vidas e ruína econômica nos países afetados; E (iii) a imposiçom de contas de guerra ao público ocidental cujas inseguranças percebidas apenas aumentaram.

Assim, é necessário e racional para o eleitorado ocidental parar de legitimar e financiar as falácias sobre um sistema mundial unipolar, que só levaram a níveis mais elevados de insegurança econômica e existencial. Em vez disso, devemos forçar os nossos governos e instituiçons a participar de um debate genuíno, nacional e internacional, sobre como avançar para um sistema mundial multipolar no qual as pessoas – e nom os estados estrangeiros com os seus próprios interesses e agendas – estam capacitadas para combater tendências e práticas autoritárias nos seus próprios países.

O novo regime exige regras mais rígidas contra as intervençons unilaterais, um mandato mais forte para as Naçons Unidas e um regime de direitos humanos mais eficaz que nom seja esvaziado polo excepcionalismo regional / cultural. Em resumo, precisamos de umha transformaçom semelhante em escala à experiência pós-guerra de construçom de instituiçons internacionais. Devemos empurrar para este cálculo nom só para mostrar solidariedade com os luitadores contra o regime ditatorial na Turquia, mas também para aumentar a chance de um sistema democrático, secular, igualdade de gênero e justo na Turquia e em outros lugares.

Mehmet Ugur é professor de Economia e Instituiçons e membro do Greenwich Political Economy Research Center (GPERC) no Departamento de Negócios Internacionais e Economia , da Universidade de Greenwich.

Publicado em Opendemocracy.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como reagem os alevitas da Turquia ao gambito da Síria?

Turkish Alevis make v-signs, hold national flags and portraits of Mustafa Kemal Ataturk and Hadrat Ali Ibn Abu Talib, son-in-law of Prophet Mohammed, during a rally in Ankara November 9, 2008. Thousands of Turkish Alevis marched in Ankara on Sunday in their first massive demonstration to call for an end to discrimination by the government and compulsory religious classes. REUTERS/Umit Bektas (TURKEY) - RTXAF2X
Alevis turcos fam sinais de “Vitória” e portam bandeiras e retratos de Mustafa Kemal Ataturk e Hadrat Ali Ibn Abu Talib, durante um encontro em Ancara, o 9 de novembro do 2008. (Foto de REUTERS / Umit Bektas)

Resumo: Depois de anos de enfrentar a pressom do estado e da maioria sunita do país, o envolvimento militar turco na Síria provocou na minoria Alevi da Turquia mais problemas nas suas relaçons com o governo do AKP.

Por Pinar Tremblay

Na noite da tentativa de golpe de estado do 15 de julho, umha amiga chamou-me desde Nurtepe, um bairro Alevi de Istambul. Ela estava preocupada com os centos de homes marchando na sua rua com paus nas maos cantando Allahu akbar (Deus é Grande). O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan tinha chamado ao povo para sair às ruas e alguns o virom como umha oportunidade para intimidar os bairros alevitas.

Os alevis tiverom relaçons notavelmente azedas com o movimento Gulen, que muitos turcos suspeitam de orquestrar a tentativa de golpe, entom nom havia nengumha razom para suspeitar o envolvimento alevi no golpe de estado. De feito, a finais de agosto, o governo anunciara que Dersim, umha província de maioria Alevi, era a província menos infiltrada polos Gulenistas entre as 81 províncias da Turquia. Minha amiga, que estudara as massacres alevitas na Turquia moderna, estava com medo pola sua vida. Ter umha vida como Alevi ficou muito mais difícil na Turquia após da tentativa de golpe?

Al-Monitor entrevistou mais de 100 alevitas de diferentes partes do país para falar esta questom, que os meios de comunicaçom da Turquia nom cobrem.

Erdal Dogan, um proeminente avogado dos direitos humanos, dixo a Al-Monitor, “Qualquer tipo de golpe ou intervençom militar é umha situaçom política que quase todos os alevitas recusariam e resistiriam; essa foi a primeira reaçom da comunidade Alevi o 15 de julho No entanto, as tentativas de linchamento coordenadas em bairros alevitas confirmou os medos alevitas sobre a segurança “. De feito, as observaçons da minha amiga em Nurtepe nom eram isoladas, vários outros distritos alevitas forom atacados em Hatay, Istambul, Ancara e particularmente em Malatya.

Dogan dixo: “Os alevis estavam preocupados com os golpistas, tanto quanto eles estam preocupados com o tom jihadista que as manifestaçons pola democracia assumirom.”

Mesmo se os alevis som as maiores vítimas e um dos grupos mais distantes aos presupostos do movimento Gulen, os meios de comunicaçom pró-governo publicarom tentando gerar teorias da conspiraçom sobre alevis colaborando com os golpistas. Por exemplo, o diário Turkiye publicou na sua primeira página que ” o muhtar alevi [chefe eleito de umha aldeia ou bairro] ordenara massacrar os sunitas”. As acusaçons nom tinha provas concretas, nom há nomes dos muhtar, cidades ou outros dados – so que foi na província de Hatay, na fronteira com a Síria. Os líderes alevitas em todo o país prontamente emitirom umha mensagem de solidariedade contra a tentativa de golpe antes que as tensons aumentassem mais longe.

Um sociólogo proeminente de Istambul, que investiga em Dersim dixo sob a condiçom de anonimato, “Desde a tentativa de golpe, o povo de Dersim tem todo o direitos de se gabar e brincar entre si e [recordar] estranhos, ‘Será que nós nom o digemos ja [sobre Gulen]? ‘ Em 2011, Dersim realizou umha manifestaçom de 10.000 pessoas contra o movimento Gulen. Em Dersim, os Gulenistas estavam limitados à burocracia, sobre a qual as autoridades locais nom tinham control.”

O sociólogo, no entanto, está preocupado com o impacto da lei de emergência do estado nas comunidades alevitas da Turquia oriental. “Um dos meus colegas em Dersim, um Alevi de cerca de 60 anos, dixo-me:”Para as pessoas de Istambul ou Izmir nom sei o que significa a lei de emergência, mas para nós, toda a nossa vida vai ser alterada. ‘ Agora a cidade enfrenta umha espada de dous fios com múltiplas áreas declaradas «zonas especiais”, onde a liberdade de movimento está significativamente reduzida. Particularmente as pessoas que estam envolvidas na agricultura ou criando animais estam bastante amargosos, porque os seus meios de subsistência estám diretamente afetados por estes regulamentos. Estam com raiva contra o governo,. … também temem os ataques do Islâmico [ISIS]. Há rumores de que os sírios que instalara o  Estado em áreas próximas som realmente apoiantes do ISIS e que o seu primeiro objetivo é atacar Dersim . As ruas estam desertas, as pessoas tenhem medo de realizar reunions.”

Há várias questons que preocupam profundamente à comunidade alevi. Os alevitas nom som um grupo homogêneo. Enquanto a maioria som turco e alguns som bastante nacionalistas, hai-nos que som curdos. Mas todos som laicos, de modo que a intensificaçom da retórica islâmica desde o 15 de julho assusta os alevis.

Tanto no dia do golpe e, posteriormente, a primeira reaçom de Erdogan e outras autoridades do governo “para os ataques terroristas tem sido” que a chamada à oraçom nom vai parar.” Tam reconfortante como isso pode ser para alguns moradores da Turquia, os alevitas sofrerom décadas de Sunificaçom. A construçom de mesquitas e enviando imás para as cidades alevitas é umha antiga tradiçom do governo turco.

Agora, Dersim sofre com esse esforço de umha outra maneira, como um residente de Dersim dixo: “Eles colocaram alto-falantes para o mescit [lugar de oraçom] da universidade, e agora toda a cidade tem a ouvir a chamada para a oraçom cinco vezes por dia. É uma tortura para nós. Nom podemos manter as nossas festas ou visitar os nossos santo lugares devido às preocupaçons pola segurança. é como se eles gostariam que deixaramos a nossa cidade. Mas se marchamos, seremos forçados a assimilar-nos por isso ficamos onde podemos praticar a nossa fé “.

Além disso, em todos os noticiários apareceu que diferentes ordens religiosas sunitas foram autorizadas a realizar cerimônias do dhikr (canto devoto sufi) no Palácio Presidencial, em Ancara, assim como abertamente as realizarom nas manifestaçons pola democracia desde o 15 de julho . Estas performances podem ser fascinantes para os crentes de umha ordem religiosa, mas preocupantes para outros. Considerando que os membros dessas ordens religiosas gabam-se abertamente sobre o nome da nova ponte, em Istambul, que abriu o dia 26 de agosto, como Sultan Selim, o Severo, que foi famoso polas suas massacres de alevitas na Anatólia, a insistência do governante Partido da Justiça e o Desenvolvimento [AKP] sobre este nome o distanciarom mais umha vez dos alevis. Enquanto isso, qualquer conversa sobre as demandas alevitas, tais como um estatuto legal dos seus lugares de oraçom e excepçons à educaçom religiosa obrigatória para os seus filhos, som silenciadas sob a lei de emergência.

Todos os alevitas entrevistados estavam preocupados com a recente incursom do exército turco na Síria. Hayri Tunc, um jornalista e escritor que proporciona assídua cobertura dos bairros alevitas de Istambul, dixo: “Há muito poucos ou nengum alevi que nom questionem a abordagem turca com a guerra civil na síria. Especialmente na duvidosa relaçom da Turquia com o ISIS e outros militantes jihadistas é bastante preocupante para os alevitas da Turquia. Agora que a incursom do exército turco começou, os alevitas temem novos ataques do ISIS dentro de Turquia. Existem alguns alevis que estam contra o PKK porque o vêem como sunita. Há também aqueles que apoiam a luita curda mas nom a guerra. Os alevis curdos nem apoiam o governo sírio nem às organizaçons islâmicas na Síria.”

O 4 de setembro, várias associaçons alevitas juntarom com grupos curdos em greve de fome exigindo a ter um encontro com o líder em cativeiro do PKK, Abdullah Ocalan, para reiniciar as negociaçons de paz.

Enquanto os alevis estam tentando encontrar sentido a vida sob a lei de emergência, eles nom som os únicos confusos. O 29 de agosto, o experiente político do AKP e vozeiro do parlamento Ismail Kahraman dixo-lhe à imprensa que o líder cubano Che Guevara (que é bastante popular entre os esquerdistas turcos) era um “bandido” e “assassino” e que a juventude turca nom deve vestir camisetas ou brochuras com a sua imagem. Isso levou a um boom nas vendas de itens com a imagem do Che. Um jovem estudante universitário alevi de Kadikoy dixo, “Eu nom estava usando símbolos da minha fé por medo dos ataques, mas agora vejo que mesmo umha camiseta do Che poderia ser razom para o ódio. Eu acho que o país está em um ponto crítico.”

A contínua intervençom do AKP nos direitos e liberdades individuais, e invadindo as violaçons do secularismo preocupa aos alevitas. Isso, no entanto, nom é exclusivamente umha questom alevi na Turquia, e é provável que se torne em um grande problema no futuro próximo.
pinar-tremblayPinar Tremblay é umha colunista da Turquia para Al-Monitor e professora visitante de ciência política na Universidade Estadual Politécnica da Califórnia, Pomona. Ela é colunista do canal de notícias turca T24. Os seus artigos tenhem aparecido em Time, New America, Hurriyet Daily News, Todau´s Zaman, Star e Salom

Publicado em Al-Monitor.

 

O Perigroso jogo da Turquia na Síria ameaça todo Oriente Médio

Turkey DangerousPor Cihad Hammy

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan e Vladimir Putin reunirom-se recentemente para abrir um novo capítulo nas relaçons turco-russas, normalizar laços até entom tensos entre os seus países. Esta tensom começou no ano passado, quando a Turquia derrubou um aviom russo que estava violando o espaço aéreo turco. Este novo capítulo muda drasticamente toda a cena do conflito Sírio.

No centro deste novo desenvolvimento encontra-se o antagonismo profundamente arraigado de Ancara em relaçom os curdos, tanto na Síria como em Turquia. A fim de antecipar os planos curdos para conectar os três cantons de Afrin, Kobane e Jazeera, Ankara adotou medidas para normalizar as relaçons com a Rússia, o Iram e a Síria, e ganhar o seu apoio a umha intervençom militar no norte da Síria.

 Tensons de Washington e Ancara sobre os Curdos Sírios

Washington tem um sucesso notável na melhoria da sua coordenaçom com os curdos sírios para destruir o ISIS, que é agora a prioridade de Washington no conflito Sírio. A coalizom internacional liderada polos EUA estabelecerom umha parceria bem sucedida e eficaz com as Forças Democráticas da Síria (SDF). Esta força, liderada polas YPG curdas, inclui diversos povos da regiom do norte da Síria, ou seja, árabes, assírios, armênios, Turcomanos, e facçons circassianas e grande número das Unidades de Proteçom das Mulheres (YPJ).

As forças das SDF e das YPJ som eficazes em derrotar e tomar cidades do Estado Islâmico no leste e norte da Síria. Por isso, ganharom a confiança das instâncias de decisom dos EUA e agora som apoiados por ataques aéreos dos EUA e forças especiais. Sob este modelo, a cidade mais recentemente libertada foi Manbij, umha cidade altamente estratégica, que serviu como centro nas principais rotas de abastecimento do ISIS. O sucesso de Manbij cortou o ISIS com o exterior e agora os impede de mover aos seus combatentes da Síria para realizar ataques terroristas na Turquia e na Europa.

No entanto, o governo de Erdogan está extremamente descontente com o apoio que Washington fornece às SDF porque fortalece ao Partido da Uniom Democrática (PYD), um grupo curdo ideologicamente vinculado ao Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), o odiado inimigo interno da Turquia. Ancara rejeita qualquer entidade que ostente a aparência de auto-governo curdo, tanto em Ancara ou ao longo da sua fronteira sul, e considera o PYD como parte do PKK. Em fevereiro passado, umha delegaçom, incluindo o enviado dos EUA para a coalizom internacional contra o ISIS, Brett McGurk, reuniu-se com as YPG. Isto levou a Erdogan a exigir furiosamente que Washington optara entre el ou os curdos sírios. “A quem quere de parceiro, a mim ou os terroristas de Kobane?” dixo Erdogan a jornalistas no seu aviom quando regressava de umha viagem à América Latina e o Senegal.

Nom muito tempo depois do ultimato de Erdogan, Washington respondeu declarando que o PYD nom era umha organizaçom terrorista e os combatentes curdos eram os mais bem sucedidos no combate contra o ISIS dentro da Síria. Além disso, a coalizom liderada polos Estados Unidos enviou autoridades militares e conselheiros para o norte da Síria, a fim de apoiar as forças terrestres curdas na destruiçom do ISIS. De qualquer modo recentemente Washington mudou a sua postura por apaziguar a Ankara e pedindo as forças das YPG “recuar para o leste do Eufrates”. Embora esta seja umha vitória diplomática que Ankara ganhou mudando a sua política externa e buscando apoio de Moscou, o Iram e a Síria, isso nom significa que os laços entre os curdos sírios e os EUA foram completamente cortados.

Novas aproximaçons de Ancara e as suas reflexons sobre os curdos

Durante quase um século, os estados-naçom do Oriente Médio se unirom no combate e repressom dos curdos. Hoje, a aproximaçom de Ancara com a Rússia renova esta dinâmica, abordando nom só a sua própria agenda anticurda, mas também a de Síria e Iram.

Para Assad, a aproximaçom ajuda a manter o seu regime centralizado porque o projeto político que os curdos na Síria estam realizando tem como objectivo desmantelar o poder do Estado-naçom centralizado e em vez disso tenta capacitar as pessoas em torno de instituiçons de base. O regime também pode encontrar a oportunidade para retomar territórios no leste da Síria agora sob control curdo. Na verdade, a última luita entre o Exército sírio e as YPG em Hesekê pode ser interpretado como um gesto de boa vontade por parte do regime em relaçom a aproximaçom de Moscou com Ancara. Em troca, Ancara pode cortar o apoio de grupos islâmicos autoritários em luita contra Assad em Aleppo e direcionar estes grupos-islâmica -authoritários contra os curdos no norte da Síria. (Algo que está acontecendo agora em Jarablus.)

Teeram como Ancara, teme que os curdos sírios vaiam incentivar aos curdos iranianos a se revoltar e exigir os seus direitos cívicos e culturais. Umha revolta curda no Iram ameaça o seu regime islâmico e a segurança nacional. Iram pode deixar de lado velhas tensons com Ancara e cooperar na luita contra a maior “ameaça perigosa”, os curdos. Quanto a Moscou, a nova aproximaçom ajuda a manter no poder a Assad.

Para evitar mais autonomia dos curdos, Ancara enviou as suas tropas de terra no norte da Síria, a fim de antecipar-se a ligaçom dos cantons curdos de Kobane, Jazeera, e Afrin. No entanto, a fim de intervir no norte da Síria a esta escala, eles deveram ter tido a aprovaçom de Moscou e Teeram. Tendo feito isso, eles agora estam usando tropas e grupos islâmicos autoritários como Faylaq al-Sham, Ahrar Alsham, Sultan Murad, e o batalhom Nour al-Din al-Zenki para tomar o control de Jarablus e Al Bab.

É óbvio que a chamada guerra de Ancara contra o Estado Islâmico (ISIS), em Jarablus foi apenas umha substituiçom de combatentes do ISIS por outros grupos islâmicos autoritários que som cópias dos jihadistas. A “luita” contra o ISIS em Jarablus testemunhou que nom há armadilhas, nom há franco atiradores do ISIS, nom há lutadores à espreita do ISIS usando escudos humanos, nom houvo ataques a bomba, sem nom houvo resistência do ISIS. Nom houvo luita em Jarablus, mas sim ordes dadas polo governo turco e a realizaçom dessas ordens polos seus “soldados”. Isso ficou claro para os meios de comunicaçom internacionais e a opiniom pública e nom puido ter escapado à atençom dos governos ocidentais.

 Apoio dos Jihadistas da Turquia Mostra as Aspiraçons Neo-otomanas Estam Bem Vivas

Nom é umha coincidência que o 24 de agosto, o mesmo dia em que Ankara invadiu a Síria, é o mesmo dia da Batalha de Marj Dabiq. A batalha tivo lugar em 1516-1517 entre o Império Otomano e o Sultanato Mamluk e terminou em umha vitória otomana e a conquista de grande parte do Oriente Médio. O simbolismo da batalha de 500 anos atrás foi muito usado na Turquia antes da operaçom e é um sinal da continuaçom da mentalidade expansionista do governo turco. Embora o governo afirma que nom está na Síria permanentemente, a tentativa é colocar umha regiom sob control islâmico e a mentalidade que ocupava o Oriente Médio há 500 anos. O movimento é também umha mensagem ao mundo inteiro de que a Turquia ainda é um jogador no jogo da Síria e nom pode ser ignorada.

No entanto, a intervençom de Ancara nom será um piquenique turístico, mas sim um pesadelo carregado com perdas militares e humanas. Já vários tanques turcos forom destruídas e um soldado foi morto no sul de Jarablus. Turquia lançou ataques aéreos em Afrin (sudoeste) e Ain Diwar (sudeste) e dirigiu os seus tanques para a fronteira de Kobane para erigir um muro. Mas el está sendo recebido com resistência em todos os lugares, e nom só dos curdos, mas de árabes -quem Turquia alega estar liberando dos curdos- e outros grupos etno-religiosos.

Mapa Jarablus Manbij Al BabA Intervençom da Turquia vai aumentar a violência na Síria e na Turquia

Os governos ocidentais e dos Estados Unidos som forças pragmáticas; eles só ajudam movimentos ou estados quando se trata de proteger os seus próprios interesses. A este respeito, os EUA ao que parece, está contente com a intervençom turca na Síria porque a sua principal preocupaçom é degradar o ISIS. Como tal os EUA nom se preocupam com os resultados desta intervençom, o que provavelmente vai levar a anos de violência entre o governo turco e os curdos na Síria, e alimentar a violência, guerra e instabilidade na Turquia. A ‘Sirianizaçom’ da Turquia, neste sentido, é cada vez mais provável. Na verdade, cousas tais como democracia, paz e a estabilidade, que som necessários para os povos do Oriente Médio, como o pam e água som de importância secundária ou nem sequer existem na política externa dos EUA.

Nom é necessário ler volumes de saber quem está a favor e tem um projeto para a paz e a democracia na Turquia e no Oriente Médio e quem pode iniciar um fim à confusom atual. Lendo apenas umha página escrita por Abdullah Öcalan – líder curdo e pensador que inspirou o Modelo de Rojava – iria esclarecer quem quer a paz, a liberdade, a democracia, a estabilidade, a convivência, fraternidade, igualdade de gênero, e umha sociedade ecológica e ética na Turquia e o Curdistam . Todos esses valores e princípios estam agora sob sete chaves em umha prisom turca. O governo turco nom quer um fim para o conflito; se o figesse, teriam acabado com o isolamento de Öcalan para lhe permitir desempenhar um papel eficaz no fortalecimento do estagnado processo de paz. Em vez disso, optou por prosseguir a sua política de isolamento de Öcalan e dos políticos curdos em geral, mesmo após a recente tentativa de golpe.

Isso deixa apenas umha coisa para os curdos: a resistência. Porque a resistência é a única cousa que pode trazer o Estado turco de volta a qualquer tipo de mesa de negociaçom. Como o co-presidente do PYD, Saleh Moslem, dixo após a intervençom de Ancara na Síria, “A Turquia vai perder muito no lamaçal da Síria, e seram derrotados como o Daesh (ISIS).” Agora, apenas umha derrota turca rápida pode salvar a regiom. A alternativa é que todos os envolvidos perdam.

Jihad Hammy é um curdo de Kobanê. Ele era um estudante de literatura de Inglês da Universidade de Damasco antes de fugir devido à guerra civil na Síria.

Artigo publicado em Kurdish Question.

 

 

 

 

 

Duas visons da política na Turquia: Autoritária e revolucionária

Erdogan DermitasPor Cihad Hammy

A finais de dezembro passado, ao retornar de umha viagem a Arábia Saudita, o presidente turco, Erdogan foi perguntado por jornalistas turcos se um sistema presidencial era possível, mantendo “a estrutura unitária do Estado”. El respondeu: “Já existem exemplos no mundo. Pode ver isso quando olha para a Alemanha de Hitler”. “Depois da tentativa de golpe de Estado de julho, quando Erdogan começou excluindo e prendendo adversários políticos, assentando as bases para o control autoritário, alguns críticos começarom a tomar a comparaçom mais a sério.

Na verdade, Erdogan baseia-se na mesma concepçom da política, desenhado sobre o pensamento de Carl Schmitt, jurista e teórico político alemao que era um apaixonado defensor do regime de Hitler. De acordo com Schmitt, a política baseia-se em nada mais que a distinçom entre “amigo” e “inimigo”. Este conceito de política nom está determinada pola economia e categorias éticas. Em vez disso, o estado precisa criar inimigos a constituir-se e assegurar a sua própria sobrevivência. A política de Erdogan tem muito em comum com esta premissa central, como el explicou:

“A democracia, a liberdade e o Estado de direito … Para nós, estas palavras nom tenhem absolutamente nengum valor. Aqueles que estam do nosso lado na luita contra o terrorismo som os nossos amigos. Aqueles do lado oposto som os nossos inimigos”, 16 de julho de 2016

Quaisquer opiniom ou política fora dos limites da ideologia dominante do Estado turco som considerados umha ameaça à unidade e à segurança do Estado. O  binário amigo/inimigo nom é um conceito rígido. Um amigo pode-se tornar um inimigo e um inimigo pode-se tornar no melhor amigo de repente. Esta política nom está estruturada em torno de princípios éticos. O inimigo, para Erdogan, é quem está contra el no seu caminho para a construçom de um Estado autoritário, em quando el implementa a declaraçom de estado de emergência, prisons, guerra e massacres contra os seus rivais políticos.

Erdogan chamou a fracassada tentativa de golpe de “um dom de Deus”, umha vez que ajudaria a esmagar aos seus rivais dentro do estado. El “provou” a existência de um inimigo que el retoricamente construiu nos últimos anos. Consequentemente, vai abrir o caminho para consolidar o seu poder em todo o estado, o que lhe permite instalar um novo sistema hiper-presidencialista autoritário. Agora todos na Turquia – o exército, acadêmicos, jornalistas, juízes e oponentes políticos – podem ser o inimigo aos olhos de Erdogan. O presente de Deus desempenha o seu papel sempre que seja necessário para permitir que todos os “inimigos” do Estado ou rivais políticos sejam arbitrariamente embalados a prisom.

O presente de Deus é o momento do “estado de exceçom” que Carl Schmidt descriviu no seu livro Teologia política, que começa por definir como “soberano … quem decide a exceçom”. O soberano é um líder carismático que salva o seu povo do “perigo”, agindo fora da lei, se é necessário. El é soberano em sentido absoluto; em outras palavras, um ditador.

O que Erdogan está tentando alcançar através deste tipo de política é a construçom de um Estado autoritário luitando contra a diversidade e pluralidade dentro do corpo do Estado, em primeiro lugar, ao excluir as diferentes partes que nom som compatíveis com a ideologia do partido no poder, como a do Partido Democrático dos Povos (HDP) – cujos representantes eleitos forom recentemente despojados da sua imunidade por suposta “cumplicidade com o terrorismo”.  As aspiraçons democráticas do HDP eram um obstáculo para o sonho de Erdoğan de estabelecer um sistema hiper-presidencialista. A outra ameaça a Erdogan foi Fethullah Gulen – o proeminente clérigo muçulmano atualmente vivendo no exílio nos EUA acusado polo governo turco de conspirar para o golpe – e as células Gulenistas dentro do aparato estatal. Depois disso, por meio da penetraçom da esfera social com a sua política, Erdogan tem como objectivo reduzir as massas turcos à passividade.

Política revolucionária como um ha alternativa

A binária política de amigo-inimigo, de feito, limita o âmbito da diversidade e pluralidade na administraçom do campo social. Esse dualismo cru nom pode abranger a complexidade e riqueza da vida, e nem pode, em última instância desfazer o rico significado da política, o significado original grego como a autogestom da comunidade. Esta auto-gestom está enraizada no povo e com base na sua capacitaçom nas instituiçons democráticas participativas. A política nom é umha mera escolha entre branco e preto, mas sim umha forma criativa das pessoas correndo as suas vidas diárias em toda a sua riqueza colorida. Theodor W. Adorno, filósofo e sociólogo alemao, no seu livro Minima Moralia: Reflexons sobre a vida danificada rebateu esse conceito central da política de Carl Schmitt, com ênfase na liberdade, escrevendo:

“Carl Schmitt definiu a própria essência da política polas categorias de amigo e inimigo … A liberdade seria nom escolher entre preto e branco, mas renunciar a tais escolhas estabelecidas”.

Na Turquia de hoje, vemos estas duas visons na contestaçom. Por um lado, Erdogan está perseguindo a trajetória política de Carl Schmitt: por outro lado, muitos som atraídos pola política radical que está totalmente em desacordo com a política de Erdogan. Apesar das duras condiçons de estar em confinamento solitário na ilha-prisom Imrali na Turquia desde 1999, Ocalan, pensador e pai ideológico do Partido dos Trabalhadores do Curdistoam(PKK), desenvolveu o seu conceito de política revolucionária baseando-se no pensamento de filósofos como Hanna Arendt e Murray Bookchin. Este tipo de política é a praticada polo Movimento da Liberdade Curdo no norte do Curdistam (sudeste da Turquia) e Rojava. A sua política revolucionária pretende criar um duplo poder para desafiar o Estado-naçom: umha esfera pública nom-estatal com o poder nas assembléias de base, combinado com umha confederaçom de municípios democratizados, eleitos polo povo através da democracia directa cara a cara.

Umha das principais características desta política revolucionária é a sua forte fusom com a ética racional na sociedade. Enquanto a ética tenta determinar moralmente boas açons, a política tenta criar a melhor açom. Qualquer açom ou política é empurrada por necessidades éticas, e esta política é a manifestaçom de umha ética que procura alcançar umha auto-realizaçom criativa através da participaçom numha sociedade nom-hierárquica e livre. No seu quinto volume, Ocalan analisa a maneira pola qual esta ética desempenha o mesmo papel que a política na gestom da sociedade. El argumenta, “enquanto a política desempenha um rotina criativa, protetora e um papel na alimentaçom, a ética fai o mesmo serviço na sociedade, através da institucionalizaçom e baseado em regras da tradiçom. Pode-se julgar a ética como a memória política da sociedade.”

A política de Erdogan e a política de Ocalan chocarom quando o HDP, abraçando umha política revolucionária e democrática, tivo umha grande vitória nas eleiçons de junho, superando o limiar do 10% do Parlamento turco. Este desempenho impressionante parou temporariamente as ambiçons de Erdogan, daí a escalada subsequente do conflito e da repressom brutal sobre o movimento curdo desde entom. Erdogan encerrou o processo de paz e lançou umha guerra contra a base popular do HDP. Em reacçom a esta guerra as pessoas organizarom assembléias locais e declararom o auto-governo em todo o norte do Curdistam. Desde entom, o governo turco escolheu políticas coercitivas e de engenharia social, promulgadas por meio da guerra como a sua abordagem para desarraigar as sementes da política revolucionária no Curdistam do Norte. A guerra no Curdistam do Norte é umha guerra contra a vontade do povo curdo a seguir umha política revolucionária dedicada à liberdade, democracia, diversidade e pluralidade.

Daqui resulta que o primeiro passo para resolver a questom curda no Curdistam do Norte é a fim ao militarismo em ambos os lados, umha vez que o militarismo também só pode sufocar o verdadeiro papel da política, e umha participaçom mais ativa na construçom de um processo de paz entre o Estado turco e os curdos.

Quando Erdogan, ajudado polo CHP e MHP – dous partidos que tenhem umha mentalidade semelhante à do AKP – despojou da imunidade parlamentar ao HPD, Selahattin Demirtas, co-presidente do HDP, expressou a sua visom de umha política revolucionária arraigada nas pessoas:

“As povos formam parlamentos, e nom os partidos, e os povos podem formar vários parlamentos, se desejam fazê-lo … As pessoas, o povo sera capaz de fazer o que deseja fazer e nós nom iriamos ficar no caminho do nosso povo.”

Turquia está dirigindo-se cara um futuro sombrio sob a sombra de umha política do AKP com base na exclusom e a negaçom de todas as formas de democracia e diversidade na Turquia. Para evitar o abismo, as pessoas precisam de umha nova política revolucionária destinadas a absorver o poder do Estado e dar-lhe a volta para que as pessoas levem as suas próprias vidas de umha forma livre, democrática e ética.

Este artigo foi publicado em Open Democracy.

Jihad Hammy é um curdo de Kobanê. Era estudante de literatura Inglesa da Universidade de Damasco antes de fugir devido à guerra civil na Síria.

 

 

 

Entrevista com o Responsável de Relaçons Exteriores do PKK: Riza Altun

Pro-Kurdish demonstrators dance and hold a flag showing Abdullah Ocalan, the jailed leader of the Kurdistan Workers' Party (PKK) during a protest in Frankfurt, Germany April 10, 2016. A 'Peace March for Turkey and the EU', organized by "Avrupa Yeni Turkler Komitesi" (AYTK, European New Turks Committee) was held in Frankfurt and other German cities on Sunday. Counter-demonstrations by Kurdish and leftist groups were simultaneously held to demonstrate against what they say are the nationalist-Islamist policies of  Erdogan.     REUTERS/Ralph Orlowski - RTX29BHQ
Protesto em Frankfurt, Alemanha, 10 de abril de 2016. (Foto de REUTERS / Ralph Orlowski)

Os curdos som o povo mais oprimido da regiom nos últimos 100 anos. Embora eles tenhem umha presença forte, antiga e bem estabelecida na regiom, que entanto, caiu vítima dos conflitos nacionalistas dos impérios que os dominarom e governarom, bem como dos interesses das potências coloniais na regiom.

A entidade federal estabelecida no norte do Iraque foi a mais importante “realizaçom” até à data, conforme os curdos olham com grande otimismo repetir o mesma experiência no norte da Síria na regiom que chamam Rojava.

Mas essa experiência continua pendente, com a Síria envolvida em umha guerra geral infinitamente complexa. Na Turquia, por outro lado, os curdos enfrentam a mais desprezível das perseguiçons étnicas, apesar de serem o maior grupo dos povos com a história mais longa de luita armada, pola que pagou um preço muito alto cheio de sacrifícios incalculáveis.

Os curdos som agora um jogador de destaque na arena de Oriente Médio, particularmente desde a eclosom da chamada Primavera Árabe. O Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) surgiu como um influente criador de cenários, especialmente na Síria e na Turquia, e a sua presença no Iraque aumentou consideravelmente, especialmente na guerra contra o Estado islâmico (IS), onde tropas curdas fam parte ao longo das várias frentes de batalha.

Para entender melhor as aspiraçons do PKK, nom há nada melhor do que entrevistar um dos seus líderes mais destacados e fundadores, que ocupou vários cargos importantes, o mais recente responsável de relaçons exteriores do Partido.

Em outras palavras, el é ministro de Relaçons Exteriores do partido, um trabalho muito sensível nestes tempos de interesses regionais e internacionais cruzados. Seu nome é Riza Altun, bem conhecido no Líbano e na Síria desde os tempos de residência de Abdullah Ocalan em ambos os países.

Na Turquia, por outro lado, é umha das pessoas mais queridas. Os líderes do PKK nom ficam em um lugar por muito tempo, como eles estam constantemente em movimento, entrar em contato com Altun nom foi fácil, mesmo através de meios tecnológicos modernos.

Contudo no final, e graças a esses mesmos meios de comunicaçom, As-Safir conseguiu a realizaçom desta entrevista com el, na qual expressou o ponto de vista do partido neste momento crítico na história da regiom, incluindo a Turquia, em particular , após a última tentativa de golpe militar lá.

As-Safir: Imos começar com uma questom clássica: Ainda luitam por um estado curdo independente na Turquia?

Altun: Nós nom vemos a causa curda como baseada sobre as aspiraçons nacionalistas ou étnicas específicas. Acreditamos que é a base para alcançar a liberdade de todos os povos do Oriente Médio e a pedra angular da relaçom simbiótica entre todos os componentes da regiom.

Em termos gerais, a nossa postura está ligada aos laços históricos e sociais que existem entre todos os povos do Oriente Médio. Uma revisom da história da regiom revela que sempre as aspiraçons nacionalistas forom a base para o estabelecimento de uma entidade separada, ditos anseios invariavelmente levarom a conflitos étnicos, nacionalistas, religiosos ou até mesmo sectários com outros componentes da sociedade. Portanto, estamos a tentar evitar cometer os mesmos erros. Se fôssemos seguir o mesmo caminho, encontrariamos-nos imersos no mesmo lamaçal que actualmente aflige o Oriente Médio, e isso acrescentaria às outras questons controversas da regiom. Estamos à procura de umha soluçom para o status quo vigente, conforme o nosso objetivo é encontrar umha resposta baseada na “democratizaçom” dos países que respeitem a sua própria pluralidade étnica, religiosa e sectária.

Em vez de um estado independente e apelar a separaçom, partiçom e similares, devemos-nos concentrar em conseguir a liberdade social para todos os habitantes da regiom. Antes da Primeira Guerra Mundial, nom havia estados [árabes], mas sim umha naçom árabe composta de clas e tribos, que fazia a essas comunidades mais interdependentes do que atualmente. Mas depois da guerra, a naçom [árabe] foi dividida em muitos estados, levando a um aumento dos problemas e incongruências entre os componentes da referida naçom.

As-Safir: Isso significa que as chamadas anteriores do PKK por um estado independente estavam erradas?

 Altun: Prefiro nom caracterizá-las como certas ou erradas. Naquela época, chamamos polo estabelecimento de um Estado independente, mas se esse estado fosse atingido em seguida, teríamos-nos focado na democratizaçom e incutir liberdades nela. Isso nom aconteceu. Com o tempo, o termo “independência” foi substituído polo de ‘liberdade’, porque este último é fundamental para nós e outros como nós. Por definiçom, a palavra “independência” nom inclue a noçom de liberdade, mas a “liberdade” sim inclue o da independência.

Após a I Guerra Mundial, a divisom do Oriente Médio em estados nacionais só criou mais problemas. Portanto centrar-se na criaçom de um Estado curdo nacional iria exacerbar os problemas existentes, mantendo o foco na liberdade é a chave para alcançar o sucesso.

A chamada Primavera Árabe rejeitou os regimes do Oriente Médio que surgirom após a Primeira Guerra Mundial. Isses regimes nunca poderiam levar à liberdade, felicidade e bem-estar.

O movimento takfiri Salafista representado polo ISIS surgiu em paralelo com a revolta da Primavera Árabe.

Assim, o foco deve ser sobre a forma de enfrentar esse movimento e os ideais defendidos polo IS e o movimento salafista visto que a soluçom nom pode vir através deles, e a sua metodologia nom poderia mesmo levar ao estabelecimento de um califado.

Por outro lado, as potências capitalistas e imperialistas também querem que as suas políticas avanzem através das suas intervençons. Esses poderes causarom a divisom do Oriente Médio em estados que eles voltarom umm contra o outro. Esta mentalidade orientalista que confere um caráter ao contrário sobre o Oriente nom é uma receita para o sucesso. Onde está indo o Oriente Médio? Que podemos fazer em meio dessa turbulência? As entidades nacionalistas surgirom, assim como os problemas. Nom temos nengum problema no surgimento de entidades nacionalistas que reflectem identidades nacionais, mas o problema reside no fanatismo nacional dentro dessas entidades. Como resultado, nom devemos esforçarmos de separar a nossa liberdade da dos que nos rodeiam.

As variâncias étnicas e a diversidade som importantes. Mas se chegamos a umha encruzilhada, seja para unir ou separar, entom a nossa posiçom favorece a unidade na diversidade. Vou-me referir, neste caso, aos curdos, árabes e persas, mas excluo aos turcos, que se instalarom mais tarde na regiom e nom som indígenas como as outras três civilizaçons que mantiverom as suas identidades étnicas, enquanto davam forma coletivamente a cultura da regiom.

Nossas respectivas culturas, costumes, cozinhas e assim por diante som semelhantes e representam umha unidade integrada. Como se pode chamar à separaçom da referida unidade? Nós afirmamos que somos todos muçulmanos e o Islám prega o direito de todas as religions para expressar as suas crenças. No entanto, vemos que o abate sectário está sendo perpetrado em nome do Islam, como as comunidades som postas umha contra a outra. Como é isso representativo do Islám, e como pode levar a umha soluçom? É a antítese dos princípios mais básicos do Islám. O plano proposto por Ocalan baseia-se na democratizaçom de todo o Oriente Médio, com todas as entidades a oportunidade de expressar-se como parte desta federaçom regional.

 As-Safir: A sua proposta é umha soluçom perfeita para os crescentes problemas da regiom. Mas, no caso da Turquia, existem outros grupos da sociedade turca, como os nacionalistas e os secularistas fervorosos, bem como extremistas islâmicos. A sua proposta angaria aceitaçom dentro desses grupos? Por que o problema curdo nom foi resolvido ainda? Que outras opçons tenhem os curdos na ausência de umha resposta positiva: confrontaçom pacífica através do parlamento ou umha continuaçom do conflito armado?

 Altun: O que eu digem sobre umha mudança de mentalidade será difícil de alcançar durante umha noite. Mas quando existe a estrutura apropriada para tal mudança, entom acreditamos que todos as povos do Oriente Médio vam abraçar esta mentalidade, com exceçom de povos com más intençons. Todos os povos que forom vítimas da opressom, exploraçom e destruiçom da guerra, que viverom em desespero, estam agora em busca de esperança. Acreditamos que esta proposta representa a esperança que as pessoas aspiram a alcançar.

O que dis sobre a realidade turca é verdade, a situaçom é complicada, mas temos vindo a resistir durante os últimos 40 anos.

O movimento kemalista tradicional insiste em permanecer no poder, mas el está em um situaçom de declínio. Mesmo os movimentos nacionalistas começarom a perder o seu brilho na sociedade.

[Recep Tayyip] Erdogan e a mentalidade do seu partido é sectária e explora as contrariedades do Oriente Médio para fazer avançar as suas políticas. Mas, ultimamente, o referido movimento diminuiu a um estado terrível.

A nossa proposta nom é perfeita, e será traduzida em acçom assim que surgir a oportunidade. Por exemplo, as partes que surgiram de confrontar o estado vinherom como resultado do tipo de mentalidade que nos chamamos de adoptar. As eleiçons do 7 de Junho forom muito importantes a esse respeito, pois impedirom a realizaçom do sonho de Erdogan de ter umha maioria parlamentar. O Partido Republicano do Povo [MHP] e o Partido [de Açom] Nacionalista [MHP] nom conseguirom formar umha verdadeira oposiçom ao Partido da Justiça e o Desenvolvimento [AKP]. A verdadeira oposiçom foi liderada polo Partido Democrático dos Povos [HDP], graças à mentalidade que defendida no chao e a inclusom de esquerdistas, alauítas, étnicas, comunistas, cristians e outras minorias. Essa mentalidade está baseada na democracia e no feito de que ela permite que essas minorias sabem que eles estariam autorizados a expressar-se livremente.

Outro exemplo dessa mentalidade é a revoluçom de Rojava na Síria. Em al-Qamishli, por exemplo, árabes, curdos, armênios, circassianos e turcomanos, entre outros, todos vivem na cidade. Nós nunca sequera defendimos que era umha cidade curda. Nós nom exigimos a sua expulsom, mesmo quando os árabes foram levados aló como parte de umha política de arabizaçom. Nós nom usamos o termo “Estado” em Rojava, porque o seu uso significa que está sendo imbuída umha identidade nacionalista, com umha etnia particular, representando a maioria, enquanto que outras etnias som excluídas. Propusemos umha alternativa que é o cantom, onde cada grupo étnico pode representar-se a si mesmo e administrar os seus próprios assuntos, através de umha autoridade maior [central], como é o caso agora.

Nós fazemos isto um ponto que os curdos nom se intrometem nos  assuntos dos siríacos ou outros povos “, na condiçom de que nengum outro povo deve constituir umha séria ameaça para o bem-estar dos outros.

As-Safir: Mas a experiência de Rojava é atualmente insustentável na Turquia, e o Partido Democrático dos Povos recebeu o 13% dos votos na Turquia, alterando assim a equaçom política pós-07 de junho, embora nom o suficiente para instigar a mudança. Vam manter a sua presença no parlamento, apesar da aparente falta de progresso ou é a confrontaçom armada a única saída? Em outras palavras, que papel desempenhara a força militar nesta fase?

 Altun: A nossa luita é multifacetada e inclui frentes de açom social, intelectual, diplomática, meios de comunicaçom e até mesmo militares, com o método utilizado, dependendo da atitude do Estado, enquanto tentamos explorar as oportunidades que nós achamos que tenhem alguma possibilidade de sucesso. Quando o Estado usa o poder militar para ameaçar a sua própria existência, encontra-se forçado a usar a violência para defender-se, como ocorreu recentemente. Qualquer avanço na frente militar será usado para efetuar umha mudança democrática.

Temos estado recentemente submetidos a grande pressom e fomos assim forçados a recorrer à resistência armada. Partidos e meios de comunicaçom estavam fechados, a imunidade parlamentar levantada e detençons, deixando-nos, mas umha via disponível; ou seja, o uso de força.

 As-Safir: De volta para a Turquia. Quem executou e estava atrás do último golpe de Estado? Que efeito terá isso sobre a guerra contra os curdos e a causa curda, em geral, particularmente após o exército turco fosse humilhado durante o golpe? Isso afetará a motivaçom do exército na sua guerra contra os curdos?

Altun: A situaçom na Turquia é altamente complexa, tornando difícil qualquer prognóstico futuro. Erdogan está a promover a ideia de que Gulen organizou o golpe. O que é falso e qualquer papel por este teria seria extremamente restrito.

Na Turquia, o poder tradicional kemalista está sendo confirmado através de umha tutela militar com umha mentalidade anti-curda, anti-Islam e anti-socialista. A ascensom de Erdogan ao poder foi através do apoio ocidental devido à falta de perspectivas disponíveis ao regime, como resultado das suas tradiçons kemalistas, entre elas a opressom dos curdos. Durante o reinado de Erdogan, o caminho foi extremamente irregular, mas no final, a tradiçom kemalista foi quebrada. Dous desses movimentos kemalistas existiam entre os militares – os que estavam tentando de se adaptar às políticas de Erdogan e outro que é mais tradicional, que considero que foi o responsável do golpe. Contudo, ao mesmo tempo, o mesmo movimento encontrou apoio entre outras facçons do exército insatisfeitas com o governo de Erdogan. O golpe fracassou, e atualmente estamos testemunhando um contra-golpe imbuído de um carácter civil. Estamos diante de um homem, chamado Erdogan, que nom reconhece a ordem constitucional. Mais de 50.000 pessoas foram presas até agora. Todos os professores universitários perderom os seus empregos, e 17.000 professores presos, com o número subindo cada dia.

O verdadeiro golpe é o que Erdogan está actualmente a realizar. Mesmo se nós assumimos que a tentativa de golpe fôsse bem-sucedida, o regime conseqüente nom teria sido democrático, mas anti-curdo. Nengum deles é melhor do que o outro: nem Erdogan nem o exército. Após as eleiçons do 7 de Junho, Erdogan rebelou-se contra os resultados, em um movimento que representou o golpe inicial, quando o regime se transformou em presidencial como outras instituiçons forom marginalizados, entre eles o Judiciário. O mais recente golpe militar foi um contra-golpe contra o golpe inicial de Erdogan, mas falhou, levando ainda um novo golpe.

Em suma, Erdogan é umha ameaça para os curdos e a regiom como um todo. As cousas que el fai nom passam de um prelúdio para futuras acçons seguindo as suas alianças com o IS, Jabhat al-Nusra, Ahrar al-Sham e outros movimentos reaccionários que el quixo explorar para se tornar o líder da regiom.

As-Safir: Vai aumentar a repressom interna e anti-curda após o golpe?

 Altun: Erdogan nom conseguiu atingir o seu aspirado papel, e el agora está tentando normalizar as relaçons com alguns, como Israel e Rússia. El só tem a Qatar e Arábia Saudita do lado del. Até tinha umha linha com os Estados Unidos, e o seu declínio levou-no a reavaliar as suas políticas. Internamente, os acontecimentos mudarom a situaçom no terreno, incluindo o seu monopólio da estrutura de poder. El até abandona os seus companheiros dentro do partido, e só um cortejo aquiescênte permanece ao seu lado, levando-o a cooperar com outras forças, a fim de atingir os seus objetivos. Todos estes desenvolvimentos prepararam o terreno para a última tentativa de golpe.

Erdogan nunca vai reavaliar as suas políticas passadas, mas vai continuar a aplicá-las. Chegou a umha bifurcaçom no caminho: quer permanecer no poder e matar todos os que se oponhem a el, ou ser morto. Nom há outra opçom. Se fosse a ser responsabilizado polas suas açons, el seria considerado culpavel de assassinato, corrupçom e dos subornos que recebe. Além disso, as suas açons nom conseguirom pôr fim a futuras tentativas de golpe. El vai tentar governar a Turquia, apesar do caos, mas vai embarcar Turquia em um caminho ainda mais caótico. As suas açons som claras, e el vai manter este curso e manter a mesma política contra os curdos da Síria. A questom curda é a chave para os problemas que a Turquia enfrenta, e é a chave que abre a porta para a salvaçom. Ou umha soluçom é atingida, ou a crise continua.

As-Safir: Entom el vai continuar a apoiar a oposiçom síria, apesar do golpe e a sua preocupaçom com questons internas?

Altun: Quando o Partido da Justiça e o Desenvolvimento chegou ao poder, Erdogan reconheceu a causa curda e comprometeu-se a apoiar umha retórica democrática. El dixo que iria resolver a questom curda; afirmaçons que o 80% das pessoas deu-lhes a bem-vinda, quando as conversas começarom a encontrar umha soluçom para o problema curdo. Mas voltou atrás na sua palavra e retomou as políticas adotadas anteriormente. Porque el nom conseguiu resolver a questom curda, abriu a porta para umha recorrência de futuros golpes militares. Esta onda de golpes de Estado nom vai ser interrompida até que a estabilidade seja restaurada na Turquia em breve, ou no futuro. Rejeitamos a política de Erdogan, assim como rejeitamos o golpe militar. Nós temos umha terceira linha de pensamento, segundo a qual a questom curda deve ser resolvida democraticamente.

As-Safir: Será que Erdogan perdurara devido à necessidade dos Estados Unidos del?

 Altun: A relaçom da Turquia com o Ocidente é estratégica. O Ocidente abraçou a [Mustafa Kemal] Ataturk porque este último tinha inclinaçons ocidentais. O problema reside no feito de que os turcos tenhem a sua própria cultura, mas abraçam e vivem um estilo de vida ocidental. O Ocidente utiliza os turcos como umha ferramenta contra os seus adversários. Eles aspiram a umha Turquia na OTAN e na Uniom Europeia, embora a Turquia nom concordara com as fantasias ocidentais durante a Guerra do Iraque. Por primeira vez, os kemalistas abandonarom as políticas dos EUA, levando à decisom de permitir a chegada de Erdogan e os islamitas ao poder, com os americanos jogando o papel preeminente nesse plano de matar dous pássaros com umha pedra, em que as tradiçons kemalistas decrépitas seriam superadas por novas políticas de Erdogan.

Erdogan nom é um líder nascido da vontade do povo. Os Estados Unidos preparou e trouxo-o ao poder. A estrela de Erdogan brilhou de um dia para o outro apesar de que el desprovida de qualquer estatuto oficial, exceto polo feito de que visitou os EUA, onde passou algum tempo e foi tratado como um líder. Posteriormente a isso, a fractura aumentou entre Erdogan e os EUA, devido às suas políticas contraditórias a Síria, Iraque, Líbia, Israel, Egito e outras questons. América nom podia mais tolerar as suas políticas que causarom problemas incalculáveis. Embora o Ocidente proclamou ser contra o último golpe, permanecerom em silêncio durante as primeiras horas, até que se tornou claro que o golpe tinha falhado. As declaraçons teriam sido diferentes se o golpe tivera sucesso.

As-Safir: Isso significa que os EUA desempenharom um papel no golpe?

Altun: Talvez. Guardou silêncio conforme desenrolavam-se os acontecimentos.

 As-Safir: Mas por que os EUA se envolveriam em um golpe destinado ao fracasso?

Altun: O papel da América, se houver, nom pode ser verificada. Mas Erdogan acusa a Gulen de orquestrar-lo, e este último vive nos EUA, onde nunca poderia ter organizado um golpe de Estado sem o conhecimento dos Estados Unidos.

A abordagem dos EUA ‘para a Turquia é diferente da sua abordagem para outros países. Nom importa o quam irritada pode tornar-se com a Turquia, nom deixa de ser na necessidade dos seus serviços. Existem problemas entre a Turquia e o Ocidente, mas isso nom significa que nom necessitem a Turquia, que tem um papel designado para desempenhar na regiom.

 As-Safir: Dige-ches que Erdogan adotou políticas nom em linha com as dos EUA, apesar do feito de que Washington o levou ao poder. Por quê? É por causa das suas aspiraçons de reviver o Império Otomano ou o desejo de monopolizar o poder na regiom? El nom sabe que a sua sobrevivência depende da aprovaçom dos Estados Unidos?

Altun: A ascensom de Erdogan ao poder nom tem nada a ver com as mudanças que el iniciou umha vez no poder. Erdogan surgiu devido a que as tradiçons nacionalistas, que el traiu, assim como el traiu a Necmettin Erbakan no processo, preferindo abraçar as políticas extremistas Salafistas islâmicas umha vez que assumiu o poder.

No início, Erdogan deveria ter governado por um período de tempo específico, mas os desenvolvimentos no Médio Oriente inflarom o seu ego e levou-no a adotar políticas autoritárias até o ponto onde pensou que era o líder dos sunitas no mundo muçulmano, conforme aspirava a construir um novo califado otomano, levando à sua fractura com os EUA. Todas as suas declaraçons tinham umha base no Islam, e a ironia é que a mesma Turquia, que abandonou a sua herança Oriental para adoptar tradiçons ocidentais mudou de curso para defender fortemente a sua herdança oriental e enfrentar o Ocidente.

As-Safir: Será que a América temer umha Turquia forte?

Altun: Medo da popularidade que Erdogan alcançara era motivo de preocupaçom para os americanos, levando a disputas entre eles ultimamente.

As-Safir: Há contactos entre o PKK e os EUA?

 Altun: Existem contatos, mas eles som de um nível baixo e nom incluem qualquer coordenaçom.

As-Safir: Contactos directos?

Altun: Estam em algum lugar entre diretos e indiretos.

As-Safir: Som positivos?

Altun: Caracterizar-los depende da regiom em questom. Por exemplo, na Rojava, os americanos apoiarom o modelo que surgiu lá e esforçarom-se para impedir a intervençom turca na área. Mas, por outro lado, os EUA fam vista grossa às massacres, assassinatos e a repressom perpetrada contra os curdos por parte do Estado turco. Os EUA coopera com as Unidades de Proteçom do Povo Curdo, fornece-lhes apoio e impede a intervençom turca. O papel os EUA é de duplo fio em funçom dos seus interesses, e a relaçom com Washington é, portanto, de natureza táctica.

As-Safir: Será que os americanos prometerom apoiar umha federaçom curda na Síria?

 Altun: Absolutamente nom. A política dos Estados Unidos é pragmática. Nom apoiam o federalismo, mas nom o rejeitam abertamente. Permite suportar a ideia até que o seu resultado seja evidente. Os interesses dos EUA ditam a sua abordagem do assunto. Adota umha atitude conciliatória para com todos. Nos bastidores, afirma que nom se opon à ideia de umha federaçom, mas publicamente diz que está contra o particionamento, tendo em mente que o federalismo nada tem a ver com o particionamento.

As-Safir: Será que Washington permitirá aos curdos atingir Afrin e conectar as regions curdas da área?

Altun: Os EUA estam a manobrar todos os elementos relevantes para impedir de obstruir o avanço dos Curdos cara Afrin. Mas está igualmente dizendo a Turquia que nom iria reconhecer a entidade curda de Rojava.

As-Safir: Tenhem contato com o regime sírio?

 Altun: Temos tido relaçons com Damasco desde o início, e os contactos nunca pararom. Mas eu nom podoo dizer que as reunions entre nós som numerosas.

As-Safir: Será que a saída de Ocalan da Síria afectou às relaçons com Damasco?

Altun: Honramos o nosso relacionamento e a ajuda que Damasco nos deu no passado.

As-Safir: A adoçom da nomenclatura federal sem consultar previamente afetou às relaçons à experiência, com as pessoas vendo-o como um movimento secessionista. É secessionista?

 Altun: Nós também criticamos a imposiçom de essa perspectiva, a redacçom do seu anúncio e o uso de Rojava nel porque Rojava continua a ser umha parte integrante da Síria unida. O anúncio deveria ter sido redigido de forma diferente e que se opôm ao texto do anúncio da federaçom. Apoiamos a criaçom de umha federaçom no norte da Síria, entom por que nom necessitamos de umha Rojava federal? Qual seria o destino do território sírio restante? Eles nom pensam sobre o resto da Síria.

As-Safir: De quem foi que falha? Nom há coordenaçom entre vocês e as autoridades de Rojava?

Altun:. Nom há coordenaçom no sentido de “Fazede isto ou aquilo”. Nós nom interferimos diretamente para lá, mas sim oferecemos sugestons, sem dar instruçons específicas.

Nós também criticamos te-lo anunciado antes da conclusom de um terreno adequado para o seu anúncio, que deu a impressom de que estava sendo imposta como um feito consumado, e isso é prejudicial. O plano deveria ter sido explica-lo antes de ser feito o anúncio. Nós preferimos o uso Federaçom do Norte da Síria e chamamos para a eliminaçom de Rojava do nome porque Rojava significa umha federaçom de identidade curda. Norte da Síria é o lar de todos os seus componentes, e a liberdade dos curdos nom está condicionada ao grau de liberdade doutros habitantes da regiom. A nossa atençom, portanto, é instituir umha revoluçom intelectual, sem a qual as questons tendem a ficar mais complicadas.

Riza AltunEntrevista realizada por Mohamed Noureddine e publicada em árabe em As-Safir, e traducida ao inglês por Kamal Fayad para Al-Monitor.

 

Falido golpe da Turquia e a Agenda Anti-curda de Erdogan

Erdogan e militaresO 15 de julho de 2016 aconteceu umha tentativa fracassada de golpe de Estado na Turquia. Mesmo nesta fase inicial, o processo pós-golpe, obviamente, terá consequências importantes. É importante compreender que este processo foi iniciado o 7 de Junho do 2015, quando Erdogan perdeu as eleiçons e fixo umha intervençom anti-democrática dos resultados. É importante fazer umha análise abrangente do golpe, a fim de compreender os potenciais resultados.

Inicialmente, é importante especificar que este golpe nom foi realizada por Gulenistas. Devido ao conflito de entre o AKP e os Gulenistas, simpatizantes de Gulen podem ter tomado parte na tentativa de golpe. Mas ao dizer que “os Gulenistas deram o golpe” o AKP e Erdogan estám tentando criar uma plataforma na qual eles poidam suprimir os partidários de Gulen ainda mais. Ao classificar o golpe como Gulenista (que muitas pessoas vêem como piores / mais reacionários), estam esperando conseguir os apoios, a fim de se vingar dos golpistas. Em outras palavras, eles estam tentando matar dous coelhos de umha cajadada.

É evidente que esta tentativa foi apoiada por umha boa parte do exército. Se eles o tivessem planejado e executado de forma mais profissional, poderiam te-lo conseguido. A este respeito, nom pode dizer-se que foi realizado por Gulenistas ou umha minoria; nom há suficiente presença Gulenista no exército para fazer um golpe.

Talvez muitos dos golpistas que estam empreendendo a guerra contra os curdos no Curdistam nom estavam envolvidos na prática, mas agora fala-se que muitos dos generais na regiom apoiavam o golpe. Eles foram cuidadosos, porque a sua participaçom teria dificultado o seu esforço de guerra contra os curdos. No entanto, muitos dos generais na guerra contra os curdos forom detidos como apoiantes do golpe.

A teimosia na guerra reforçou os golpistas

Quando o AKP nom conseguiu resolver a questom curda, que desviou a umha guerra de destruiçom contra o Movimento de Libertaçom Curdo o ano passado. Especialmente a finais do 2014 e depois das eleiçons do 7 de junho do 2015, o “mecanismo golpista” estava no lugar e resultou em umha coligaçom fascista [Erdogan-AKP, o exército e os ultra-nacionalistas]. Quando Erdogan mudou para a guerra, o exército tornou-se o principal jogador. Erdogan e o AKP eram dependentes do exército na sua guerra contra o Movimento de Libertaçom Curdo.

Como Erdogan decidiu intensificar a guerra e enviou o exército a destruir cidades curdas, o mecanismo golpista foi colocado no lugar. Durante a guerra, o Exército reforçou a sua própria mao contra Erdogan. Isso ocorre porque o exército só pode tornar-se um jogador central na política turca enquanto el está em guerra contra o Movimento de Libertaçom Curdo. Entom, depois de um período em que o exército tinha perdido a sua centralidade na vida política turca, através da noçom de Erdogan de que “nós ganhamos a guerra nas cidades, nos destruimos o PKK”, o exército, mais umha vez ganhou a confiança para tentar um golpe. Este golpe desejava redesenhar a política turca. A declaraçom dos golpistas aponta claramente a isso.

“Pelejamos-nos os quatro quando deveriamos fazer política”

Os golpistas som umha nova ala nacionalista, separada dos Ergenekonistas [estatistas nacionalistas tradicionais]. Esta nova tendência foi formada por umha oposiçom às políticas do AKP. Podemos até dizer que as alteraçons efectuadas nas política externa do AKP (renovar as relaçons com Israel e Rússia, e umha mudança de política em relaçom ao Egito, Iraque e Síria) pode ter estimulado essa nova formaçom. Estes golpistas, que também podem ser chamados de “neo-nacionalistas”, assistirom de perto a relaçom de cooperaçom entre o AKP e o ISIS. Devido ao feito de que eles estam na linha de frente, onde esta relaçom está a ser aplicada, eles aprenderom como funciona a relaçom entre o AKP e o ISIS. Se o golpe tivera sido bem sucedido, com o apoio do Ocidente, eles teriam perseguido o AKP por apoiar o ISIS.

Parece que o enfoque dos golpistas era: “O principal problema político da Turquia é a questom curda, e nós somos os que estamos na linha de frente, de modo que devemos modelar a política da Turquia”. Quando os governos civis nom tenhem políticas para a resoluçom da questom curda, o mecanismo golpista está sempre funcionando. O feito de que eles nomearam-se “O Conselho da Paz no País” é um reflexo do seu pensamento de que “imos conduzir a política quando se refere à questom curda”. Em suma, a sua abordagem foi “quem está luitando contra o PKK deve dominar a política e a própria Turquia”.

Após a tentativa de golpe: o nacionalismo sectário vai criar um ISIS turco

Após o golpe foi derrotado, o AKP e os seus aliados declararam-se como a “vontade do povo” e  as “forças democráticas”. O AKP agora espera reforçar o seu domínio sobre o poder e o seu sistema anti-curdo e anti-democrático. Neste contexto, a apresentaçom do AKP, os seus defensores e os seus aliados como os defensores da democracia constitui um desenvolvimento perigoso; o AKP pode mais facilmente implementar as suas políticas anti-democráticas e anti-curdas.

Dado que os aliados do AKP som o Partido do Movimento Nacionalista (MHP) e nacionalistas chauvinistas, um aumento no sentimento anti-curdo e abordagens anti-democráticas é de esperar. Estas forças tornaram-se ainda mais unidas após a tentativa de golpe; isto levará a um aprofundamento das políticas genocidas contra os curdos. Assim como esta tentativa de golpe encorajou o AKP, aos seus aliados e aos nacionalistas, também radicalizou os círculos nacionalistas sectários perto do AKP. Isto levará a umha nova geraçom de formaçons de ISIS turcos, como Osmanli Ocaklari (Aliança Otomana), um grupo paramilitar organizada polo próprio Erdogan. Eles já estam a organizar-se nos países europeus; ligaçons entre eles e ISIS estam já a ser debatidas. Esta tendência nacionalista sectária continuará a radicalizar e tornara-se em forças de repressom contra qualquer oposiçom ao AKP. Muitas das pessoas que tomaram as ruas durante este período eram destas organizaçons. Pode esperar-se que estes grupos vam intensificar os seus ataques contra o povo curdo. As forças da liberdade do povo curdo e as forças democráticas do país devem preparar-se contra esses ataques.

O que vai fazer o AKP e as responsabilidades das forças democráticas

Há declaraçons que dim que “esta tentativa de golpe deve ser transformada em umha oportunidade e plataforma para a democratizaçom”. Essas chamadas som feitas com boas intençons, mas precisam ser seguidas. Todas as tentativas de um golpe podem ser bloqueadas pola democratizaçom. No entanto, a retórica anti-golpe de Estado de alguns nom se baseia em umha mentalidade democrática; polo contrário, tenhem mais a ver com a luita polo poder. Essas pessoas nom som democratas ou anti-golpistas! Essas pessoas já tinham tomado o poder através de um golpe contra a democracia. Por esta razom, a democratizaçom nom se pode esperar delas, a fim de impedir possíveis tentativas de golpe. Essas pessoas vam usar esta tentativa de golpe, a fim cobrir osseus rostos e intençons reais. Eles já começarom a fazer isso.

A este respeito, esperar que o AKP vaia tomar medidas para democratizar o país em resposta a esta tentativa de golpe nom é senom um auto-engano. So precisa de dar umha olhada mais atenta a Erdogan e as alianças da sua Gladio. Nada mais que a evoluçom do sentimento anti-curdo e anti-democrático pode-se esperar desta coligaçom. E quando o AKP finalmente descarte esses grupos aliados, os grupos nacionalistas sectários vam radicalizar e tornar-se a versom turca do ISIS. Sob o guarda-chuva ideológico e político do AKP, umha versom mais radical da Irmandade Muçulmana será formado na regiom. Erdogan verá esta tentativa de golpe como umha oportunidade para os preparativos e tomara medidas para esse fim. Há já há facçons nacionalistas sectárias dentro da força policial. Erdogan viu as açons desses grupos durante esta tentativa de golpe. Turquia tornara-se um Estado policial. A polícia vai-se tornar em umha força armada alternativa ao exército.

As forças democrâticas devem novamente analisar a situaçom após esta tentativa de golpe. O fascista AKP tentará suprimir todas as forças democráticas. Tentará conseguir que todas as facçons da sociedade obedeçam as suas regras. Qualquer oposiçom vai ser rotulada como ” partidários do golpe” e será brutalmente reprimida. Se as forças da democracia nom agem para mudar essa situaçom, Erdogan irá forçar a todos a submissom. A este respeito, as forças democráticas devem compreender a realidade do AKP e os seus aliados e precisam formar umha nova frente de resistência.

Este artigo de opiniom foi escrito pelo Congresso Nacional do Curdistam, com sede em Bruxelas e publicado em KurdishQuestion.

 

 

Entrevista a Selahattin Demirtaş, co-presidente do HDP: “Nom temos outra opçom do que estar bem organizados e atentos, prontos para qualquer cousa”

demirtas 25Öcalan avisara a Erdogan sobre esta questom. ” Di-lhe, el nom entende, está agindo como um idiota “, dixo Öcalan. “Continuar o processo de resoluçom apoia-o , se esse processo termina, a mecânica do golpe vai intervir e el vai acabar como o Morsi de Egito”, avisou.

Selahattin Demirtaş, co-presidente do Partido Democrático dos Povos, definiu a tentativa de golpe como “umha tentativa de golpe de Estado duns golpistas contra outros golpistas “, e acrescentou: “Umha atitude clara deve ser adoptada contra as duas mentalidades golpistas e a luita deve ser reforçada, porque a mentalidade golpista que tentou tomar o poder através das forças militares usando tanques e canhons é ilegítima e  governar por meio de umhas eleiçons que se realizarom com umha guerra, violência, e o bombardeamento de cidades, é também um golpe civil.”

Demirtaş, lembrou que o Líder Curdo Abdullah Öcalan avisara a Erdogan sobre a “mecânica golpista” em todo o processo de diálogo, dixo que o Movimento de Libertaçom Curdo nom “aproveitou a tentativa de golpe” quando ocorreu:  as “guerrilhas curdas poderiam ter aproveitado essa tentativa e apreender muitas cidades, mas isso seria jogar da mentalidade pró-golpista. O movimento curdo, por nom fazer umha escolha entre as duas mentalidades pró-golpistas, mantivo umha postura digna, que insiste na luita democratica dos povos. No entanto, pessoas como Erdogan nom tenhem a capacidade de entender essa postura digna”.

O co-presidente do HDP chamou a “solidariedade” ao mencionar que com os grupos racistas e jihadistas que tomarom as ruas após a tentativa de golpe corre-se o risco de linchamentos e massacres.

Conversamos com Demirtaş sobre a tentativa de golpe que tivo lugar o 15 de Julho.

O que aconteceu ainda precisa de uma definiçom geral. Que foi exatamente?

Em primeiro lugar, é óbvio que houvo umha tentativa de golpe militar desde que o Exército empreendeu umha atividade militar que estendeu até bombardear o edifício do parlamento, a fim de derrubar o governo e tomar o poder. Que isso seja feito polo exército, pola força das armas exige que seja definido como umha tentativa óbvia de golpe de Estado. Umha vez que é definido de forma diferente, fica difícil de abordar a questom.

No entanto, as condiçons em que a tentativa de golpe se levou a cabo, os que desencadearom a tentativa de golpe, a posiçom do governo do AKP, estas som realmente aquelas que precisam ser definidas porque o poder atual é o poder que está governando através de um golpe de estado civil. Umha tentativa de golpe de golpistas contra golpistas … Se isso nom é precisamente definido, a questom nom pode ser feita. Entom, a posiçom tomada será igualmente errada e tal erro iria jogar nas maos do AKP no âmbito de um slogan “anti-golpe”.

É necessário tomar umha posiçom clara contra as duas mentalidades pró-golpistas e deve ser realizado um esforço. Um golpe civil para governar por meio de umhas eleiçons que foi realizada na sequencia da guerra, a violência, o bombardeando de cidades é tam ilegal quanto as forças golpistas que tentarom alcançar o poder através de meios militares, com tanques e armas.

Nós já levamos resistindo ao golpe do AKP por mais de um ano. O AKP, que extorquiu o poder desde o ano passado, nom pode ser absolvido só porque um bando dentro do exército acaba de tentar usurpar o poder. Estamos contra o golpe, principalmente; apresentamos a nossa posiçom como tal e ponto final. É necessário trabalhar umha política baseada em umha perspectiva que nom encobra o golpe feito polo AKP também. Nos nossos informes, apontamos a umha liga pola democracia tanto contra a mentalidade pró-golpista dentro do AKP como a camarilha pró-golpista dentro do exército. A alternativa é umha liga pola democracia, porque os próximos desenvolvimentos iram determinar o futuro do país. Ou o AKP vai embora e as forças da democracia terám o poder ou o AKP vai fazer o seu próprio golpe permanente, institucionalizando-o, aproveitando esta tentativa de golpe militar.

Como poderia esta camarilha golpista acreditar que a tentativa seria bem sucedida? Em quem ou o que confiavam?

Desconheço-o. A camarilha golpista nom tinha apoio político. Di-se que o golpe foi realizado sem apoiar-se em nengumha alternativa política. Há só umha cousa que eu sei: nom era umha camarilha que dependesse do HDP ou das forças que o HDP representa. Essa é a única cousa da que temos certeza. No entanto, se a camarilha tinha quaisquer contacto com outras forças políticas ou foi um golpe planejado por algumas outras forças políticas? Nom podemos sabe-lo. Pode ficar claro nas próximas semanas ou meses. No entanto, na Turquia algum tem sempre um entendimento de que espera a ajuda de um golpe. Houvo sempre umha mentalidade pró-golpista que acredita que nengumha força, exceto o exército pode consolidar a democracia no país, mas nom podo saber com quem essas pessoas tenhem relaçons políticas.

Esperava essa tentativa de golpe? Recebeu algumha especulaçom ou já preveia umha coisa assim?

Fazer tal previsom seria difícil, mas ao mesmo tempo durante as conversas em Imrali, o Sr. Öcalan descreveu a mecânica do golpismo e ilustrou-no correctamente com exemplos históricos. El muito bem explicou como as chamadas mecânicas golpistas funcionam na Turquia. Assim, el previa que a mecânica golpista seria implementada umha vez que o processo de resoluçom acabara. E, nesse sentido, advertiu a Erdoğan muitas vezes. El dizia: “Di-lhe, el nom entende, está agindo como um idiota.” Continuamente o avisou, dizendo: ” Continuar o processo de resoluçom apoia-o , se esse processo termina, a mecânica golpista vai intervir e el vai acabar como o Morsi de Egito”.

Como forom os passos concretos da mecânica golpista depois de rematar o processo?

Sim, poidemos observar e muito bem compreender a mecânica golpista durante essas conversas. Quando o processo terminou, a chamada mecânica golpista já estava em funcionamento de algumha forma. A guerra contra os curdos, a destruiçom no Curdistam, o esforço do exército a tomar a iniciativa de novo, Erdogan pondo-se em reserva do exército, a renuncia do seu poder sobre o exército, a sua proposta de aliança para um bloco nacional-fascista e a rendiçom da sua vontade a esse grande bloqueo, el praticamente fazendo tudo o que este bloco quer só para ganhar a guerra contra os curdos forom realmente os sinais da mecânica golpista em funçom.

Será que o Bloco de Estado Turco, que foi formada como umha consequência da guerra contra os curdos, leva a isso?

O Staff General obtivo todas as promessas de Erdogan antes de entrar na batalha das cidades. Ou seja, entregou o sistema presidencial, e, no máximo, haveria presidência com partidos políticos, Erdogan iria desistir da idéia de aproveitar todos os poderes do Estado para si mesmo; aprovaria a lei de impunidade e nom haveria caminho de volta para as negociaçons do processo de resoluçom. Tais promessas forom feitas e, portanto, o exército começou a luitar nas cidades.

Se lembrar, dixo-se no início que esta era umha guerra do Palácio e as pessoas estavam reagindo fortemente contra Erdogan nos funerais de soldados e policias. O exército também duvidava de luitar nas cidades e formulou um parecer sobre nom entrar nas cidades. Nos primeiros momentos os tanques entraram na cidade em Silvan e em pouco tempo eles afastarom os tanques da batalha, o exército expressou a Erdogan que nom iam entrar na cidade. Depois disso, Erdogan entregou-lhes a sua vontade, a fim de fazer um acordo com o exército e tornar o exército à luita nas cidades e entrar às cidades com tanques e armamento militar.

As relaçons e mecanismos internacionais também começarom a exercer pressom sobre Erdogan.

Isto foi completamente a mecânica golpista definida polo Sr. Öcalan. Estava funcionando perfeitamente. Enquanto a paz e o acordo nom forom feitas e umha aliança nom foi formada com os curdos, a guerra contra os curdos desencadeou o mecanismo de golpe como um relógio quando chega a hora.

Neste caso, nom deve estar surpreendido com a tentativa de golpe, certo?

Nom, nom estou surpreso. Estávamos esperando tal processo, mas é claro que era impossível para nós adivinhar, prever ou fornecer informaçons sobre o golpe. No entanto, nom ficamos chocados quando aconteceu porque se estava aproximando abertamente. Como isso aconteceria era um mistério. Seria um golpe pós-moderno como o do 28 de fevereiro, ou o exército completaria o golpe, aproveitando-se de Erdogan com o o exército ganhando lentamente a iniciativa da guerra no campo? Isso nom o sabiamos. No entanto, também se sabia que nom havia só umha camarilha no exército. Estruturas comunitários, chauvinistas, nacionalistas, americanistas forom separando-se em facçons. Nom é possível afirmar que esses grupos concordem entre si o 100% e concordem com Erdogan.

Sabe-se que houvo tensom antes de o Conselho Militar e que havia divergências antes das consultas. O Conselho Militar foi muito importante este ano. Cada conselho militar nos últimos anos tem sido muito importante, mas o Conselho Militar desse ano foi histórico para eles. Esperava-se que a tensom subiria. No entanto, ninguém estava esperando que isso se transformar em uma tentativa de golpe.

Após a tentativa de golpe, alguém do governo chamou ou tentou contatar com você?

Nom, ninguém o fixo. Houvo troque de informaçons com os nossos colegas, mas ninguém do governo contactou-nos.

Que vai acontecer? Por exemplo, pode haver uma mudança de política sobre a guerra curda? A paz pode estar na agenda? Ou será que a política de violência continuará a aumentar?

Isso depende da atitude que adote o Erdogan e o AKP. Na verdade, apareceu umha oportunidade. O Sr. Öcalan, durante as negociaçons, falou constantemente sobre a estrutura paralela no governo. “Essa mentalidade pró-golpista sempre foi um obstáculo para umha resoluçom”, alertou. Se essa mentalidade pró-golpista realmente vai ser dissolvida e se chegamos a um ponto onde a política civil e a resoluçom do problema curdo nom sejá abordado de forma provocativa; Se Erdogan realmente presta atençom aos avisos do Sr. Öcalan, um processo saudável e duradouro para a paz pode continuar. Em última análise, o enfraquecimento da mentalidade pró-golpista e a tradiçom golpista no exército, da vida civil, judicial, e da burocracia é para o benefício da democracia. No entanto, uma vez que há umha outra mentalidade golpista como o AKP contra nós, umha verdadeira compreensom da democracia nom surge.

 Que seria necessário para umha evoluçom em umha direcçom diferente?

Isso pode vir a ser umha oportunidade se Erdoğan entra em sentido e aqueles em torno del possuem a inteligência para perceber a magnitude do perigo e que a mecânica do golpismo nom desaparecera e compreender que a ameaça de golpe nom chegará ao fim enquanto a questom curda nom for resolvida em paz; umha democracia institucional e umha constituiçom libertária nom está na açom. No entanto, eu acho que isso é umha probabilidade muito pequena porque o AKP sempre usou essas oportunidades em favor da sua consolidaçom, o reforço do seu próprio poder, nom em favor da democracia. [As negociaçons com a] Uniom Europeia, cessar-fogo, processo de retirada dos guerrilheiros [retirada das fronteiras turcas], o AKP tentou-se beneficiar de todos estes.

Os resultados das eleiçons do 7 de junho de 2015 eram certamente umha oportunidade de democratizaçom e reconciliaçom e o AKP nom quixo usá-lo, tampouco. O AKP queria fortalecer-se novamente com umha instrumentalizaçom da guerra para as seguintes eleiçons do 1 de Novembro de 2015.

Ou seja, existe umha oportunidade para começar umha nova democracia em cima de umha fracassada tentativa de golpe; no entanto, o AKP nom é um partido capaz de fazer tal cousa e Erdoğan tampouco nom é um líder capaz de fazê-lo. Portanto, em vez de estar na expectativa de AKP e Erdoğan, precisamos ampliar o campo da democracia e levar, também, umha luta muito mais dura contra as duas mentalidades golpistas. A tensom vai aumentar a cada passo desde as multitudes que saem às ruas por Erdoğan nom estám em umha luita pola democracia ou algo assim. O primeiro-ministro está falando sobre alegria, mas este tem sido simplesmente umha festa de alguns reaccionários.

 Vários meios estam dizendo que há movimento nas ruas, o que é preocupante e prestes a cometer linchamentos …

Sim, mentalidade pró-ISIS, grupos pró-ISIS, incluindo Huda-PAR [um partido político islâmico do Curdistam Norte], AKP, todos os religiosos, grupos reacionários que estam fazendo um “tour de force” nas praças e exibindo o que entendem por democracia também. Eles nom querem ver ninguém, mesmo como cidadaos. Especialmente durante a tentativa de golpe, você já viu mesmo o que fizeram a os pobres recrutas fanfarrons inocentes. Até ontem, os que gritavam “mártires som imortais, a pátria está unida” quando os soldados de reempraço morriam na guerra estam agora linchando e torturando a esses soldados, cortando as suas gargantas.

A este respeito, estes grupos reacionários constituem umha ameaça importante, impedendo umha esperançosa democracia. É necessário dar a luita contra eles, mas também porque eles vam ficar mais atrevidos e funcionando por livre em todos os campos. Em todos os campos, eles vam tentar agir de forma mais imprudente. Eles podem realizar campanhas de linchamento contra os curdos, alevitas, esquerdistas, forças progressistas; eles podem até tentar massacres umha vez que estas pilhas se sentam muito mais forte a partir de agora. Esta será umha ilusom deles, mas eles nom som capazes de se libertar dos seus próprios delírios. Essa mentalidade reacionária está desprovida de qualquer análise histórica; desprovida de fazer avaliaçons políticas corretas; desprovida de compreensom dos equilíbrios internos da sociedade. A mentalidade de quem nom tem idéia de tudo isso pensa que pode mudar tudo com base só na força bruta.

Na verdade, a tentativa de golpe foi desativada graças ao posicionamento de companheiros de todos os partidos políticos, incluindo-nós. Claro, nós nom fizemos isto para apoiar o AKP mas o AKP vai tentar avaliá-lo assim e vai querer tomar vantagem delo. No entanto, se eles foram um pouco éticos e inteligentes, o AKP iria perceber o quam valiosa é a postura anti-golpista do HDP e do Movimento de Libertaçom Curdo. Eles dirigiriam em direçom à democratizaçom e reformas, deduzindo fazer isso nom para si mesmos. Mas eles nom tenhem umha mentalidade assim.

Qual é a posiçom do Movimento de Libertaçom Curdo contra o golpe?

Erdogan estivo acusando o movimento curdo de estar conspirando contra el junto com as estruturas paralelas. El está tentando explicar o término do cessar-fogo com este ponto de vista. Esta tentativa de golpe demonstra claramente que nom é o caso. O movimento curdo nom mostrou nengum ato de incorreçom durante as horas da tentativa de golpe na prática. Isso deve ser observado nos livros de história. Essa ampla guerra ainda está em curso, mas nem um só guerrilheiro do movimento curdo disparou sequer umha bala naquela noite. A guerrilha nom tomou posiçom com os golpistas. O povo curdo nom tomou partido com os golpistas. A guerrilha curda poderia tirar proveito dessa tentativa e entrar em várias cidades. Mas isso seria jogar nas mans dos golpistas. O movimento curdo nom escolheu entre as duas mentalidades pró-golpistas, demonstrando umha postura digna, persistente na luita dos povos pola democracia. Mas mentalidades como a de Erdogan nom tenhem a capacidade de entender essa honrosa postura.

Temos de estar preparados para um desafio mais difícil em qualquer caso. Precisamos estar preparados para umha luita muito mais difícil em todas as áreas. Erdogan e a sua mentalidade realizou “operaçons ilegais de inteligência”, umha vez no poder. Nas operaçons contra o KCK eles prenderom milheiros de pessoas e, em seguida, anunciarom ter prendido milheiros de pessoas erradas. Mais tarde, na operaçom Ergenekon, foi o mesmo. Em operaçons contra a comunidade Gulenista, eles estam prendendo pessoas aleatórias. Agora sobre a tentativa de golpe o AKP está novamente prendendo ou cessando a qualquera que eles vêem como umha ameaça. Nom há espaço para a justiça ou equidade no mundo de Erdogan. Agora, todos os grupos da oposiçom que pareçam ser opostas a Erdogan podem ser julgadas e removidas do exército e do aparelho judicial. Isso requer atençom. Os golpistas devem ser julgados, presos e condenados perante a lei. Mas no disfarce das operaçons anti-golpe, grupos de oposiçom podem ser ainda mais oprimidos, canais de televisom e meios de comunicaçom podem ser fechados. Todos isto requere mais atençom. Nom devemos permanecer em silêncio contra as políticas injustas cara círculos inocentes.

E, claro, organizar o povo, entretanto, é umha obriga.

Mas como? A confusom é comum tanto na sociedade curda como na frente democrâtica. Ou seja, que pode fazer-se para intervir no processo?

A tentativa de golpe é tam recente e ainda nom está totalmente sob control. Ainda estam desaparecidos helicópteros e comandantes do exército cuja localizaçom é desconhecida. O seu paradeiro nom é certo. Por isso, Erdogan e a sua linha da frente ainda estam nervosos. Aparentemente, o golpe nom está totalmente reprimido. A parte sistemática e ampla do golpe está terminado, mas os seus pontos focais nom estam identificados. Tanto quanto se pode ver, esta é a imagem. A sociedade também está um pouco intranquila. Claro que a sociedade está contra os golpistas, mas as multitudes do AKP está levando às ruas estám realizando manifestaçons reacionárias, e assemelham jihadistas, membros do ISIS, assim que a sociedade em geral nom pode demonstrar a sua postura anti-golpe nas ruas e praças. Somente as multitudess organizadas como turbas polo AKP estam inundando as praças.

É claro que as águas voltaram limpas em um par de dias. Nom devemos deixar o espaço público nas maos das turbas reacionáris. Devemos tomar as praças, dizendo que “nem o golpe palaciano, nem o golpe militar”, “nom há nengumha opçom mas que a democracia”, e tomar as ruas contra todas as mentalidades golpistas. Porque as ruas som legítimas. O AKP leva vantagem deste quando se trata do seu ganho, e quando nom é, eles tentam bloquear as ruas, aterrorizar as ruas. Nós nom devemos cair nesse enredo, essa tirania do AKP. Umha cousa é clara agora: As ruas nom som legítimas só para o AKP. Quando a oposiçom encha as ruas no futuro, se o AKP tenta oprimir e dominar as ruas, todos devem lembrar-lhe o AKP a legitimidade das ruas.

Os linchamentos forom comuns nas ruas; pobres soldados fanfarrons sendo abatidos. O Erdogan nom mencionou nengum deles. Por favor, lembre, quando nós chamamos as pessoas às praças para a Resistência de Kobanê, nós nom chamamos para a violência, e 48 membros do HDP forom assassinados de um total de 55 pessoas. O AKP tentou r mesmo botarnos a culpa a nós. Hoje, eles estam linchando pessoas na televisom ao vivo, estam matando jovens recrutas, inocentes que foram redigidos pola força ao serviço militar obrigatório, o que o primeiro-ministro chama de “festa da democracia” e o Presidente da República chama “direito de manifestaçom”. O povo deve estar atento a eles. Se estas turbas continuam governando o país e fortalecendo-se, o seu desejo é o de que haja linchamentos. Eles gostariam de governar com esta mentalidade e temos de tomar as ruas para impedir-lhes sentir esse falso poder.

 Entom prevê umha ameaça de linchamentos e massacres?

O AKP pode dirigir essas massas, esses grupos para atacar certos bairros. Todo o mundo precisa de prestar atençom. Bairros curdos, bairros alevitas, e esquerdistas podem-se transformar em objetivos. Todo o mundo tem direito a necessária defesa contra qualquer ataque. No caso dessa situaçom, umha força de resistência legítima seria necessária que fôra organizada para atuar independentemente de quem ataque.

Estamos passando por dias e horas críticos. O golpe nom foi totalmente anulado. Outras facçons também podem tomar medidas para um golpe. O AKP está a abusar das sensibilidades sociais, provocando-os, tentando levar a nossa postura anti-golpe a um rendimento político, e isso pode desencadear outros movimentos sociais. Nom temos outra opçom do que estar bem organizados e atentos, prontos para qualquer cousa.

Entrevista realizada por OSMAN OĞUZ e publicada na web do HDP.

 

Que é o “TAK” e quem som os seus membros?

TAKpor Amed Dicle

Umha análise dos  Falcons da liberdade do Curdistam (TAK); umha organizaçom que recebeu ampla atençom depois das suas açons em Ankara, é importante se quigermos compreender o que está acontecendo na Turquia e Curdistam. Na verdade, nom som os curdos, mas o estado quem deve explicar o porque da existência da organizaçom TAK que é resultado direto das políticas estatais. Ainda assim, imos dar umha olhada na estrutura geral desta organizaçom.

De acordo com a informaçom no seu site, os Falcons da Liberdade do Curdistam (Teyrêbazên Azadiya Kurdistan-TAK) foi formada no 2004. No seu site, o TAK afirma que nom realizou nengumha açom entre o 2004 e 2005, e iniciou as suas açons nas cidades turcas no 2006.

O TAK realizou a sua primeira açom o 22 de maio do 2007. O membro do TAK,  Güven Akkuş (Erdal Andok) realizou umha açom no Anafartalar Bazaar no distrito de Ankara Ulus. Akkuş era de Maraş, cresceu em Istambul, e juntou-se a organizaçom na Europa. O TAK afirmou que o alvo de Akkus era Yaşar Büyükanıt, o entom Chefe do Estado Maior das Forças Armadas da Turquia, a açom nom foi bem sucedida.

O contexto político, quando este ataque foi perpetrado, era intenso como o de hoje, com sinais de que o preso líder curdo Abdullah Öcalan estava sendo envenenado, causando indignaçom entre os curdos em todo o planeta.

No seu site, o TAK diz que realizou açons entre 2006 e 2012, mas nom há informaçons sobre os detalhes destas. Em 2013 e 2014, a organizaçom nom realizou nengumha açom. Retomou as suas açons o 23 de dezembro do 2015, com um ataque no Aeroporto de Sabiha Gökçen, e perpetrou duas açons em Ancara no 2016.

Na sua declaraçom do 30 de dezembro de 2015, o TAK descreveu as metas, açons e tática do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) e outras organizaçons curdas como “respostas demasiado leves e ineficazes para a guerra que o fascismo da República Turca está travando contra o povo curdo» e anunciado o início de um novo processo.

O TAK nom realizou açons durante as negociaçons entre o Estado turco e Movimento Curdo (2013-2015) em Imrali, mas declarou que seria ativa após o final do processo de negociaçom.

Na mesma declaraçom, o TAK enfatizou que iria vingar a opressom e a massacre dos curdos.

Em outras palavras, o TAK posicionou-se como umha organizaçom de vingança. Além disso, organizou-se em funçom de responder a todas as ameaças e pressons que se dirigem aos curdos e a Öcalan.

Após os recentes ataques em Ancara, muitas pessoas argumentaram que o TAK era afiliado ao PKK ou sob a sua influência. O TAK nom é o PKK. O PKK declarou inúmeras vezes que nom tinha relaçons com o TAK. O PKK é um movimento com projetos políticos e sociais e umha perspectiva. Organiza-se em muitas aspectos diferentes da vida e tem milheiros de guerrilheiros. Nom é lógico para um movimento que tem estruturas militares criar outro grupo militar. As suas acçons som contra soldados e as forças militares nom desafiam as leis da guerra, e vê os ataques contra civis como crimes de guerra.

O PKK assinou a Convençom de Guerra de Genebra em 1994 e lançou investigaçons sobre as suas açons durante os anos 1980 que resultarom em mortes de civis. Criticou os ataques e condenou a morte e danos a civis, mesmo se eles foram acidentais.

O TAK salienta que tem como alvo as instituiçons e economia do Estado turco. Declarou que nom tem como alvo os civis, e manifestou a sua tristeza polas mortes de civis em Ancara.

Como entendemos a partir de declaraçons recentes da organizaçom, o TAK percebe a guerra do PKK como incompleta e adota umha linha mais radical de açom.

A partir das declaraçons do TAK, podemos ver que alguns dos membros da organizaçom estiveram no PKK no passado. Muitos membros do TAK provenhem dos grupos sociais que forom criadas através da luita do PKK. No entanto, o TAK e a juventude organizada nel, vem os esforços do PKK para umha soluçom política como inadequada, e formam outras organizaçons que visam intensificar o nível da luita.

Argumentando que o TAK e o PKK som o mesmo só pode ser guerra psicológica ou simples ignorância.

Entom, poderia o PKK parar o TAK se quigesse?

A resposta a esta pergunta é nom.

No seu site, o TAK afirma que nom recebem ordens do PKK e continuaram as suas açons até a libertaçom de Öcalan e o povo curdo.

Esta questom nom é simples; está além de hierarquias e relaçons orgânicas. As dimensons sociológicas e emocionais do problema som mais profundas do que o que a maioria das pessoas pensa.

Por que o TAK existe, quando umha organizaçom radical como o PKK já está a travar umha luita política, militar e social?

Esta é a pergunta que deve ser feita, porque milheiros de jovens no Curdistam acreditam que um resultado só pode ser alcançado através da luita contra o Estado turco. Milheiros de pessoas cantam “vingança” nas ruas e chamam o PKK para se vingar. Há razons sociológicas por trás pola qual algumhas pessoas vingam-se. Milheiros de jovens curdos levam as fotos de militantes TAK nas ruas da Turquia, Londres, Berlim, Paris e Bruxelas.

Milheiros de jovens criticam o PKK por nom luitar durante o processo de negociaçom em Imrali. Se vas a qualquer evento que reúna milheross de curdos, vai ver que muitas pessoas compartilham a perspectiva do TAK. Podes observar milheiros de jovens expressando-se de forma semelhante.

Por isso, é impossível compreender a situaçom, se separas a realidade no Curdistam e do povo curdo. Muitos grupos que som sensíveis ao questomm/problema curdo ainda estam a compreender a situaçom. Eles nom entendem por que milhares de jovens chegam ao ponto de se juntar ao TAK. Eles concentram-se nos componentes políticos da situaçom em oposiçom aos sociológicos.

No seu site, o TAK nom oferece um projeto político para o futuro. Umha vez que cada açom tem razons e consequências políticas, a política é a única maneira para dissolver o TAK. É necessário remover as condiçons sociais e políticas que levam a tais açons, e temos assistido a essa necessidade, em 2013 e 2014. Depois que o estado terminou o processo de negociaçom e fala de retomar as suas massacres, o TAK reativou-se. A Política impede que tais organizaçons obtenham umha base social.

Devemos examinar por que pessoas de 20 anos sacrificam-se e organizam-se para este fim. É mais favorável examinar o TAK através da sociologia em oposiçom a análise política simples.

Quem som essas pessoas?

Os membros do TAK som os conhecidos, vizinhos e parentes de Taybet Inan, umha mulher de 60 anos de idade e mae de 8 filhos, que foi morta e cujo corpo foi deixado apodrecer na rua pola polícia em Silopi …

Eles som os seus pares, ccompanheiros de escola e companheirasas de Hacı Birlik cujo cadáver foi arrastado atrás de um veículo blindado em Şırnak …

Eles som os amigos de Mahsum cujo cadáver foi atropelado por tanques em Diyarbakir…

Eles som os amigos de Ekin Van, cujo corpo foi exibido nu depois da sua execuçom em Varto …

Eles som os conhecidos e amigos das dúzias de mulheres e homens que forom queimados vivos em sotos, em Şırnak …

Eles som os irmaos e irmás de centos de crianças que forom baleados enquanto jogavam na frente das suas casas …

Eles som os filhos de famílias cujas casas foram destruídas em Sur e os seus parentes foram executados na rua…

Eles som as crianças que nas ruas que graffitarom por riba de “Se orgulhoso se es Turco, obedece se nom o es” escritos nos muros pola policia e soldados do estado turco …

Para resumir, qualquer jovem curdo dará milheiros de razons para a adesom ao TAK.

É impossível aprovar a morte de civis. É direito de todos criticar e condenar estas vítimas. Devemos criticar mais e deixar claro que atacar civis nom é aceitável em nengumha guerra. No entanto, todos estes pontos nom mudam a realidade do TAK, porque as realidades acima descrita formam as emoçons e pensamentos de milheiros de pessoas.

Quantos intelectuais Turcos que analisam a questom curda hoje sabem dos “sotos da barbárie ‘em Cizre, ou Taybet Inan, Hacı Birlik, Ekin Van, e Miray, de 3 meses, em Cizre que foi baleado nos braços do seu avô?

É impossível para as pessoas que nom tenhem idéia sobre estes ter um conhecimento do TAK. É por isso que muitos curdos vem as suas críticas ao TAK como repugnantes e hipócritas.

Examinando o TAK como umha reaçom contemporânea nom deu nengum resultado. A única maneira para desativar tais estruturas é o final da opressom do Estado e a negaçom do povo curdo. Caso contrário, o TAK vai continuar as suas açons e até mesmo novos TAKS surgiram. Algumhas autoridades do AKP que criticam o PKK hoje lembramos que digeram que mais PKK surgiriam se a questom curda nom é resolvida. A situaçom é exactamente a mesmo para o TAK.

Se milheiros de pessoas estám prontas para “sacrificar as suas vidas’ e a maioria da sociedade curda nom acredita em umha resoluçom dentro das ‘fronteiras turcas,” é hora de re-examinar completamente a situaçom. Centrar-nos nas avaliaçons dos resultados, em vez de nas razons das açons é a opçom mais fácil.

 Publicado em Kurdishquestion.