Como reagem os alevitas da Turquia ao gambito da Síria?

Turkish Alevis make v-signs, hold national flags and portraits of Mustafa Kemal Ataturk and Hadrat Ali Ibn Abu Talib, son-in-law of Prophet Mohammed, during a rally in Ankara November 9, 2008. Thousands of Turkish Alevis marched in Ankara on Sunday in their first massive demonstration to call for an end to discrimination by the government and compulsory religious classes. REUTERS/Umit Bektas (TURKEY) - RTXAF2X
Alevis turcos fam sinais de “Vitória” e portam bandeiras e retratos de Mustafa Kemal Ataturk e Hadrat Ali Ibn Abu Talib, durante um encontro em Ancara, o 9 de novembro do 2008. (Foto de REUTERS / Umit Bektas)

Resumo: Depois de anos de enfrentar a pressom do estado e da maioria sunita do país, o envolvimento militar turco na Síria provocou na minoria Alevi da Turquia mais problemas nas suas relaçons com o governo do AKP.

Por Pinar Tremblay

Na noite da tentativa de golpe de estado do 15 de julho, umha amiga chamou-me desde Nurtepe, um bairro Alevi de Istambul. Ela estava preocupada com os centos de homes marchando na sua rua com paus nas maos cantando Allahu akbar (Deus é Grande). O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan tinha chamado ao povo para sair às ruas e alguns o virom como umha oportunidade para intimidar os bairros alevitas.

Os alevis tiverom relaçons notavelmente azedas com o movimento Gulen, que muitos turcos suspeitam de orquestrar a tentativa de golpe, entom nom havia nengumha razom para suspeitar o envolvimento alevi no golpe de estado. De feito, a finais de agosto, o governo anunciara que Dersim, umha província de maioria Alevi, era a província menos infiltrada polos Gulenistas entre as 81 províncias da Turquia. Minha amiga, que estudara as massacres alevitas na Turquia moderna, estava com medo pola sua vida. Ter umha vida como Alevi ficou muito mais difícil na Turquia após da tentativa de golpe?

Al-Monitor entrevistou mais de 100 alevitas de diferentes partes do país para falar esta questom, que os meios de comunicaçom da Turquia nom cobrem.

Erdal Dogan, um proeminente avogado dos direitos humanos, dixo a Al-Monitor, “Qualquer tipo de golpe ou intervençom militar é umha situaçom política que quase todos os alevitas recusariam e resistiriam; essa foi a primeira reaçom da comunidade Alevi o 15 de julho No entanto, as tentativas de linchamento coordenadas em bairros alevitas confirmou os medos alevitas sobre a segurança “. De feito, as observaçons da minha amiga em Nurtepe nom eram isoladas, vários outros distritos alevitas forom atacados em Hatay, Istambul, Ancara e particularmente em Malatya.

Dogan dixo: “Os alevis estavam preocupados com os golpistas, tanto quanto eles estam preocupados com o tom jihadista que as manifestaçons pola democracia assumirom.”

Mesmo se os alevis som as maiores vítimas e um dos grupos mais distantes aos presupostos do movimento Gulen, os meios de comunicaçom pró-governo publicarom tentando gerar teorias da conspiraçom sobre alevis colaborando com os golpistas. Por exemplo, o diário Turkiye publicou na sua primeira página que ” o muhtar alevi [chefe eleito de umha aldeia ou bairro] ordenara massacrar os sunitas”. As acusaçons nom tinha provas concretas, nom há nomes dos muhtar, cidades ou outros dados – so que foi na província de Hatay, na fronteira com a Síria. Os líderes alevitas em todo o país prontamente emitirom umha mensagem de solidariedade contra a tentativa de golpe antes que as tensons aumentassem mais longe.

Um sociólogo proeminente de Istambul, que investiga em Dersim dixo sob a condiçom de anonimato, “Desde a tentativa de golpe, o povo de Dersim tem todo o direitos de se gabar e brincar entre si e [recordar] estranhos, ‘Será que nós nom o digemos ja [sobre Gulen]? ‘ Em 2011, Dersim realizou umha manifestaçom de 10.000 pessoas contra o movimento Gulen. Em Dersim, os Gulenistas estavam limitados à burocracia, sobre a qual as autoridades locais nom tinham control.”

O sociólogo, no entanto, está preocupado com o impacto da lei de emergência do estado nas comunidades alevitas da Turquia oriental. “Um dos meus colegas em Dersim, um Alevi de cerca de 60 anos, dixo-me:”Para as pessoas de Istambul ou Izmir nom sei o que significa a lei de emergência, mas para nós, toda a nossa vida vai ser alterada. ‘ Agora a cidade enfrenta umha espada de dous fios com múltiplas áreas declaradas «zonas especiais”, onde a liberdade de movimento está significativamente reduzida. Particularmente as pessoas que estam envolvidas na agricultura ou criando animais estam bastante amargosos, porque os seus meios de subsistência estám diretamente afetados por estes regulamentos. Estam com raiva contra o governo,. … também temem os ataques do Islâmico [ISIS]. Há rumores de que os sírios que instalara o  Estado em áreas próximas som realmente apoiantes do ISIS e que o seu primeiro objetivo é atacar Dersim . As ruas estam desertas, as pessoas tenhem medo de realizar reunions.”

Há várias questons que preocupam profundamente à comunidade alevi. Os alevitas nom som um grupo homogêneo. Enquanto a maioria som turco e alguns som bastante nacionalistas, hai-nos que som curdos. Mas todos som laicos, de modo que a intensificaçom da retórica islâmica desde o 15 de julho assusta os alevis.

Tanto no dia do golpe e, posteriormente, a primeira reaçom de Erdogan e outras autoridades do governo “para os ataques terroristas tem sido” que a chamada à oraçom nom vai parar.” Tam reconfortante como isso pode ser para alguns moradores da Turquia, os alevitas sofrerom décadas de Sunificaçom. A construçom de mesquitas e enviando imás para as cidades alevitas é umha antiga tradiçom do governo turco.

Agora, Dersim sofre com esse esforço de umha outra maneira, como um residente de Dersim dixo: “Eles colocaram alto-falantes para o mescit [lugar de oraçom] da universidade, e agora toda a cidade tem a ouvir a chamada para a oraçom cinco vezes por dia. É uma tortura para nós. Nom podemos manter as nossas festas ou visitar os nossos santo lugares devido às preocupaçons pola segurança. é como se eles gostariam que deixaramos a nossa cidade. Mas se marchamos, seremos forçados a assimilar-nos por isso ficamos onde podemos praticar a nossa fé “.

Além disso, em todos os noticiários apareceu que diferentes ordens religiosas sunitas foram autorizadas a realizar cerimônias do dhikr (canto devoto sufi) no Palácio Presidencial, em Ancara, assim como abertamente as realizarom nas manifestaçons pola democracia desde o 15 de julho . Estas performances podem ser fascinantes para os crentes de umha ordem religiosa, mas preocupantes para outros. Considerando que os membros dessas ordens religiosas gabam-se abertamente sobre o nome da nova ponte, em Istambul, que abriu o dia 26 de agosto, como Sultan Selim, o Severo, que foi famoso polas suas massacres de alevitas na Anatólia, a insistência do governante Partido da Justiça e o Desenvolvimento [AKP] sobre este nome o distanciarom mais umha vez dos alevis. Enquanto isso, qualquer conversa sobre as demandas alevitas, tais como um estatuto legal dos seus lugares de oraçom e excepçons à educaçom religiosa obrigatória para os seus filhos, som silenciadas sob a lei de emergência.

Todos os alevitas entrevistados estavam preocupados com a recente incursom do exército turco na Síria. Hayri Tunc, um jornalista e escritor que proporciona assídua cobertura dos bairros alevitas de Istambul, dixo: “Há muito poucos ou nengum alevi que nom questionem a abordagem turca com a guerra civil na síria. Especialmente na duvidosa relaçom da Turquia com o ISIS e outros militantes jihadistas é bastante preocupante para os alevitas da Turquia. Agora que a incursom do exército turco começou, os alevitas temem novos ataques do ISIS dentro de Turquia. Existem alguns alevis que estam contra o PKK porque o vêem como sunita. Há também aqueles que apoiam a luita curda mas nom a guerra. Os alevis curdos nem apoiam o governo sírio nem às organizaçons islâmicas na Síria.”

O 4 de setembro, várias associaçons alevitas juntarom com grupos curdos em greve de fome exigindo a ter um encontro com o líder em cativeiro do PKK, Abdullah Ocalan, para reiniciar as negociaçons de paz.

Enquanto os alevis estam tentando encontrar sentido a vida sob a lei de emergência, eles nom som os únicos confusos. O 29 de agosto, o experiente político do AKP e vozeiro do parlamento Ismail Kahraman dixo-lhe à imprensa que o líder cubano Che Guevara (que é bastante popular entre os esquerdistas turcos) era um “bandido” e “assassino” e que a juventude turca nom deve vestir camisetas ou brochuras com a sua imagem. Isso levou a um boom nas vendas de itens com a imagem do Che. Um jovem estudante universitário alevi de Kadikoy dixo, “Eu nom estava usando símbolos da minha fé por medo dos ataques, mas agora vejo que mesmo umha camiseta do Che poderia ser razom para o ódio. Eu acho que o país está em um ponto crítico.”

A contínua intervençom do AKP nos direitos e liberdades individuais, e invadindo as violaçons do secularismo preocupa aos alevitas. Isso, no entanto, nom é exclusivamente umha questom alevi na Turquia, e é provável que se torne em um grande problema no futuro próximo.
pinar-tremblayPinar Tremblay é umha colunista da Turquia para Al-Monitor e professora visitante de ciência política na Universidade Estadual Politécnica da Califórnia, Pomona. Ela é colunista do canal de notícias turca T24. Os seus artigos tenhem aparecido em Time, New America, Hurriyet Daily News, Todau´s Zaman, Star e Salom

Publicado em Al-Monitor.

 

A política anti-alevi da Turquia nos tempos do Estado Islâmico

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Mulheres Alevi-curdas resistem às políticas insidiosas de assentamentos de refugiados do Estado turco em Terolar. Foto: Kurdish Question

Por Dilar Dirik

Os alevis som parte central do movimento de libertaçom curdo e da política de esquerdas e progressistas turcas.

Sob a autoritária, sectária-conservadora política do presidente turco e o seu partido o AKP, Turquia prendeu de refém a Uniom Europeia ao instrumentalizar o sofrimento dos refugiados sírios. El continua a fortalecer o seu governo uni-pessoas com a sua guerra contra o terror paranóico em que, paradoxalmente, junta o movimento curdo, o Estado Islâmico, acadêmicos, setores do exército, e o seu ex-mentor e colaborador Fethullah Gülen em um bloco monolítico.

Parte do plano de Erdogan é opor as comunidades umhas contra as outras para se livrar dos eventuais componentes étnicos, religiosos, ideológicos, sociais ou políticos que poidam desafiar o seu projeto profundamente sectário neo-otomano que consiste em apontar à povoaçom Alevi do país.

Desde março de 2016, os moradores das aldeias Alevi-curdas em Kahramanmaraş ou Maraş (Gurgum em curdo) estiverom a resistir activamente as políticas de assentamentos do estado. O Estado turco quer construir um acampamento da Presidência de Desastres e Gestiom de Emergência de Turquia, ou AFAD, ao redor do val da vila de Terolar – que som principalmente sunitas árabes da Síria. Enquanto fornece umha imagem impecável para o mundo exterior, estes campos de refugiados patrocinados polo Estado geralmente fornecem aos jihadistas um refúgio seguro para o tratamento, recrutamento e abrigo. Casos de abuso sexual e tráfico de seres humanos som amplamente relatados. Para estes acampamentos forom amplamente analisados os lugares onde o AKP conscientemente mobiliza os refugiados para a sua própria agenda política e ideológica. O acampamento planejado em Terolar deveria acolher umha povoaçom de refugiados maior do que a povoaçom local.

As incansáveis manifestaçons dos moradores de aldeias como Terolar e além, que percebem umha perigosa agenda por trás deste novo plano de liquidaçom, forom defrontados com violência policial durante meses. Em umha medida bastante inteligente, o governo e os seus meios retratarom essa resistência legítima como sentimentos anti-refugiados dos moradores, quando na realidade isso é parte de um projeto maior do AKP para incitar conflitos comunitários e impor dramáticas alteraçons demográficas para as regions curdas para os seus próprios ganhos económicos e políticos usando aos refugiados.

Umha história das massacres alevitas

A fim de compreender o significado da resistência em Maras, é importante conhecer a profundamente enraizada história genocida do Estado turco moderno contra a comunidade Alevi-curda, um legado anterior à administraçom abertamente religioso-sectária de Erdogan, apesar das pretensons seculares dos governos anteriores.

A negaçom e aniquilaçom sistemática daqueles que nom som turcos-e-sunitas constituiu um pilar fundador da naçom-estado turco – nom importa quanto isso enquadrada na imagem em termos progressistas, seculares. Assim, os genocídios contra os armênios, gregos pônticos, assírios e curdos – especialmente os Jazidis e alevitas – forom fundamentais e até mesmo existenciais para o paradigma “modernidade” deste estado artificial violentamente imposto , que encontrou um bode expiatório diferente em cada década, em coordenaçom com os militares, a extrema-direita e fundamentalistas islâmicos.

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Marcas em umha casa alevi

Enquanto algumhas massacres ocorrerom como campanhas de linchamento patrocinadas polo Estado ou mortes de indivíduos alevitas, outras forom planejadas operaçons de limpeza étnica em grande escala por parte do Estado. Durante décadas, “marcarom” as casas alevitas como objetivos para ataques de ódio e demonizaçom do modo de vida Alevi através de mitos urbanos, negaçom, mentiras e propaganda sendo umha constante na agenda do estado. A eliminaçom sistemática e islamizaçom forçada do pensamento, cultura, história e valores Alevis que mostram características ecológicas, comunitaristas, anti-autoritarias e muitas vezes centradas nas mulheres som motivaçons profundamente ideologicas, em quanto a filosofia Alevi incorpora umha oposiçom ao Estado autoritário, capitalista e patriarcal.

Em 1938, a cidade alevi-curda de Dersim foi implacavelmente bombardeada, matando mais de 15.000 civis, depois de umha grande revolta do povo, liderados por Seyît Riza, um respeitado líder tribal e figura política. Entre os pilotos de combate estava a filha adotiva do fundador da república turca Mustafa Kemal,  Sabiha Gökçen, pola que tem o nome o terceiro maior aeroporto da Turquia. Glorificando-a como a primeira piloto de combate feminina no mundo e a primeira mulher piloto na Turquia é umha das muitas tentativas por parte do Estado para cobrir as suas medidas genocidas com a narrativa da modernidade: umha mulher turca moderna bombardea aos curdos atrasados – umha história de modernizaçom perfeita.

Umha das maiores massacres contra os alevitas-curdos tivo lugar em 1978 em Maraş, o mesmo lugar onde o Estado tenta instalar os refugiados árabes sunitas hoje. Em um clima político já tenso cheio de confrontos entre esquerda e direita, antecipando o infame golpe militar de 1980, umha violenta matança varreu Maraş, onde casas alevitas foram atacadas, queimadas, e as pessoas assassinadas nas ruas. Mais de 100 pessoas forom assassinadas e para os alevitas, ficou claro que as autoridades contra-guerrilha do estado tinham provocado os ataques. Após este trauma colectivo, dez milheiros de pessoas fugirom para outras partes da Turquia e Europa. Muitos deixarom de ensinar aos seus filhos curdos por medo e lentamente assimilar-se como um meio de auto-preservaçom.

Alevis massacres
Ataque a alevitas no 1993 no Hotel Madimak em Sivas

A era pós-golpe estivo marcada por muitos incidentes, ecoando a grande massacre de  Maraş. Em 1993, umha multitude de linchadores fascista islâmistas atacou o hotel Madimak em Sivas, onde pensadores, artistas, escritores e intelectuais estavam-se preparando para um festival cultural Alevi. A polícia turca, na época secular, observou e, em alguns casos, até mesmo ajudou a multitude fascista que primeiramente atirou pedras ao hotel antes de prender-lhe lume, com o resultado de 33 alevis asfixiados ou queimados vivos e muitos feridos.

Os sangrentos acontecementos do bairro em grande parte alevi de Gazi em Istambul, em Março de 1995 foram mais um episódio de assassinato e violência contra os alevitas, os curdos em geral, e de esquerdas, executado por direitistas e islamistas, patrocinado polo Estado. A polícia disparou às cegas às multitudes de pessoas que se manifestarom pola massacre em Gazi. Ataques, linchamentos, marcaçons de casas para os ter em vista e as perseguiçons de alevitas em Gazi continuam ate hoje.

Como esta cronologia nom exaustiva mostra, militares laicos kemalistas, ultra-nacionalistas de extrema-direita e islamitas conservadores na Turquia sempre deixam as suas diferenças à parte e unem forças contra aqueles a quem veem como ameaças ao autoritário: um Estado, umha bandeira, umha naçom , umha língua, umha doutrina religiosa que eles tenhem em comum, com pequenas diferenças. Por meio de seu islamismo claramente político, Erdogan acaba de traer esse legado a um novo nível, ajudados pola ascensom do Estado Islâmico.

Mas há também umha longa história de resistência. Os alevis som parte central do movimento de libertaçom curdo e da esquerda e as políticas progressistas turcas. Sobretudo as mulheres alevi-curdas, que sofrerom mais que os homes esses ataques violentos, amplamente juntarom às fileiras dos diferentes grupos políticos e, especialmente, no Partido dos Trabalhadores do Curdistam, ou PKK, desde os inícios. Enquanto líder política secular, o movimento de libertaçom curdo sempre enfatizou a repressom histórica específica e as políticas genocidas contra grupos como os alevitas, Jazidis, e armênios na Turquia.

Sakine Cansiz, umha das co-fundadoras do PKK e figura de proa do movimento de mulheres curdas assassinada o 9 de janeiro do 2013, em Paris, juntamente com Fidan Dogan e Leyla Saylemez, era umha mulher alevi-curda. Fidan Dogan, também era umha mulher alevi-curda, de feito era de Maraş.

Dado esse contexto histórico, a questom da legítimidade surge em Maraş hoje como a razom pola qual o governo do AKP, que afirma repetidamente ter o 50 por cento da povoaçom do seu lado, parece nom encontrar lugar para os refugiados sunitas nos seus baluartes, mas ao invés disso, considera necessário estabelece-los no meio de zonas de povoaçom alevi-curdo, que ainda estam sob a sombra das massacres e traumas passados.

É fundamental compreender que a raiva entre os alevitas nom está dirigida contra os refugiados, mas contra as motivaçons tão sutis como insidiosas do Estado. Os moradores da aldeia de Terolar ponhem ênfase nas suas manifestaçons de que a sua comunidade, que está bem familiarizada com o significado da guerra, deslocamento, desenraizamento e ameaças existenciais, som solidárias com os refugiados sírios que precisam de asilo, mas luitam contra o governo que aproveita a miséria humana para impor novamente um genocídio cultural contra os alevitas. Receiam que as tentativas do Estado de incitar o conflito por motivos religiosos asentando refugiados árabes sunitas nas regions curdo alevitas, e para obrigar os alevitas deixar as suas casas. Considerando que o Governo turco recebeu 6 mil milhons de euros da Uniom Europeia para ajudar aos refugiados e a imensa quantidade de recursos que o Estado e o exército destinam à destruiçom das cidades curdas, resultando na massacre de centos de civis, nom parece que os recursos, logística e meios económicos constituam um problema para a política de assentamentos de refugiados prevista por Erdogan.

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Mudança demográfica, desenvolvimento capitalista e guerra total

Dentro deste contexto, as motivaçons ideológicas, políticas e religiosas das políticas anti-alevitas do estado parecem óbvias. No entanto, nom se podem entender esses desenvolvimentos sem considerar os interesses políticos e econômicos a longo prazo do AKP que tenta alcançar através de mudanças demográficas.

Desde o Verao do 2015, o Estado turco lançou umha cruel campanha militar no Curdistam, que nom só matou centos de civis em frente aos olhos da comunidade internacional, mas também destruiu sistematicamente casas, lugares históricos significativos e infra-estruturas. Logo, torna-se claro que um dos objectivos do Estado é criar edifícios da Administraçom para o Desenvolvimento de Habitage (TOKI) nestas áreas, gentrifica-los ou instalar os refugiados sírios lá, depois de aniquilar os curdos destas regions. Este é especialmente o caso do distrito de Sur de Amed (Diyarbakir), que é património mundial da UNESCO e que foi transformado em pó e cinzas polo exército turco, forçando a mais de vinte mil pessoas a fugir. Ao mesmo tempo que  extermina fisicamente os habitantes dessas áreas, re-ajustes de infra-estrutura radicais e a elitificaçom do turismo impom umha segunda medida genocida sobre eles aniquilando a sua cultura da face da terra.

Além disso, Erdogan há muito que insinua a concessom aos refugiados sírios da cidadania turca para angariar apoio na regiom e mobilizar potenciais votos. Ao mesmo tempo, que ameaça despojar os “simpatizantes dos terroristas”, umha descriçom que abrange um amplo espectro de pessoas, incluindo acadêmicos, da sua cidadania. O objetivo deste duplo movimento é claro: umha grande mudança demográfica lado-a-lado com ambiciosos projectos de infra-estruturas capitalistas para recolonizar economicamente o Curdistam.

Ademais opor os refugiados contra os curdos em geral e os alevitas em particular, é umha questom muito delicada que o AKP tenta explorar para os seus próprios ganhos. É fácil acusar alguém de racismo anti-refugiados aos que resistem essas táticas especiais de guerra quando estas incluem a construçom de campos de refugiados. O assentamento de  refugiados sírios em áreas específicas e até mesmo prometer-lhes a cidadania é umha estratégia inteligente de Erdogan para subornar Europa, aumentar a sua popularidade com o bloco sunita-conservador na regiom, e engaja-se em um ataque genocida cultural e físico em grande escala sobre todo mundo que nom combina com a sua narrativa neo-otomana – especialmente as pessoas que prejudicam o casamento entre nacionalismo turco e islamismo conservador.

É por isso que é impossível analisar as políticas de refugiados da Turquia isoladas da sua guerra total com o Curdistam como regiom e a cultura alevi em particular.

Da mesma forma, nom é realista tratar o assassinato físico dos curdos do plano mestre económico neoliberal do AKP, combinado com a sua nostalgia imperial. Assim como as leis militares e decretos governamentais que legitimarom a devastaçom militarista de Dersim, em 1938, os bloqueios  militares e matanças  extrajudiciais em lugares como Cizre, Nusaybin, Yüksekova, Sur e Silopi hoje som continuaçons da síntese turca da política nacionalista, militarista, capitalista, patriarcal e religiosa. Dentro do espírito do ISIS, Erdogan está promovendo umha mudança demográfica mortal no Médio Oriente, atacando a culturas antigas que incluem identidades e estilos de vida ecológicos e centrados nas mulheres. O feito de que especialmente as mulheres estam na vanguarda da resistência em Terolar é ilustrativo do apego das mulheres alevi-curdas para as suas terras e os valores ecológicos associados a elas.

A UE é cúmplice nessa guerra quer através da vendas de armas dos Estados individualmente a Turquia, quer através do silêncio sobre as violaçons dos direitos humanos e o fascismo mália ser bem conscientes, ou através dos futuros interesses de investimento económico e jogos de guerra. Os chamados “valores europeus” estam a ser vendidos no tráfico e mercados sexuais de escravos humanos na Turquia, no trabalho de crianças refugiadas, na contínua perda de património cultural mundial, e no mar Mediterrâneo, o cemitério conjunto europeu-turco de milheiros de refugiados afogados.

A renúncia aos refugiados polos mesmos estados, instituiçons e sistemas que tenhem causado todas essas guerras é umha vergonha para todos os que crem na liberdade, a democracia e os direitos humanos. Mas desde o ponto de vista dos oprimidos, a resistência e auto-defesa continuam.

Nas palavras de Seyit Riza, que liderou a rebeliom alevi-curda na Dersim e foi executado polo Estado turco em 1937: “Eu nom podia lidiar com os seus truques e mentiras, isso volveu-se um problema para mim. Mas, eu nom me ajoelhei frente sua. Que isso lhes quite o sono”.

Dilar Dirik 34Dilar Dirik, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. O seu trabalho analisa o papel da luita das mulheres na articulaçom e construçom da liberdade no Curdistam. Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

Publicado em TeleSurtv.