Pacifismo feminista ou passivismo?

Protesta polo #BlackLivesMatter em Nova York o 13 de fevereiro de 2017. Créditos: Erik McGregor / PA Images

Por Dilar Dirik

Quando algumhas mulheres brancas louvam a nom-violência das marchas de mulheres contra Trump e depois posam em fotografias com policias enquanto a violência policial atinge especificamente a pessoas de cor, quando os anti-nazis som acusados de nom ser diferentes dos fascistas, quando feministas em relativa segurança acusam a mulheres militantes no Oriente Médio que enfrentam escravidude sexual sob o ISIS de militarismo, devemos perguntarmos pola noçom liberal da nom-violência que ignoram a interseçom dos sistemas de poder e os mecanismos de violência estrutural. Aderindo-se dogmaticamente a um pacifismo (ou passivismo?) que tem um caráter de classe e racial, e demonizando a raiva violenta anti-sistema, as feministas excluem-se de um tam necessário debate sobre formas alternativas de autodefesa cujo objetivo e estética servem a políticas liberadoras. Em umha era global de feminicídio, violência sexual e violaçons, quem se pode dar ao luxo de nom pensar na auto-defesa das mulheres?

O feminismo desempenhou um papel importante nos movimentos anti-guerra e alcançou vitórias políticas na construçom da paz. A crítica feminista ao militarismo como instrumento patriarcal torna compreensível a rejeiçom da participaçom das mulheres nos exércitos estatais em quanto  “empoderamento”. Mas a rejeiçom generalizada das feministas liberais à violência feminina, sem importar o objetivo, nom distingue qualitativamente entre o militarismo estatista, colonialista, imperialista, intervencionista e a necessária legítima defesa.

A polícia dispara para dispersar manifestantes da Black Lives Matter o 9 de julho de 2016 em Saint Paul para protestar contra o assassinato policial de Philando Castile. Créditos: Annabelle Marcovici / PA Imagens

O monopólio da violência como umha característica fundamental do Estado protege a este das acusaçons de injustiça, enquanto que criminaliza as tentativas básicas das pessoas pola auto-preservaçom. Dependendo das estratégias e políticas, atores nom-estatais som rotulados como “perturbadores da ordem pública” na melhor das hipóteses, ou “terroristas” na pior. A tendência de defender exemplos como Mahatma Gandhi ou Martin Luther King para defender a resistência nom-violenta muitas vezes desdibuja feitos históricos ao ponto de satanizar os elementos radicais e às vezes violentos de umha resistência legítima anticolonial ou anti-racista.

Simultaneamente, a tradicional associaçom da violência com a masculinidade e a exclusom sistemática das mulheres da política, da economia, da guerra e da paz reproduzem o patriarcado através de umha divisom sexual dos papéis no domínio do poder. A crítica feminista à violência baseia-se no bem-intencionado, mas profundamente essencialista, discurso de umha moralidade baseada no gênero, que também pode reproduzir a imagem das mulheres como passivas, inerentemente apolíticas e com necessidade de proteçom. Tal reduçom do gênero nom consegue entender que a inclinaçom à violência nom é inerentemente específica do gênero, mas determinada por sistemas interconectados de hierarquia e poder como demonstra o caso das mulheres brancas americanas que torturom homens iraquianos na prisom de Abu Ghraib.

As mulheres curdas tenhem umha tradiçom de resistência; a sua filosofia da autodefesa varia desde exércitos autônomos de guerrilhas femininas ao desenvolvimento de cooperativas autogeridas de mulheres. Nos últimos anos, as vitórias das Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ) em Rojava-Norte da Síria e das YJA Star do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) contra o ISIS tenhem sido inspiradoras. As mulheres curdas, junto com as suas irmás cristians, árabes e siríacas, libertarom milheiros de quilômetros quadrados do ISIS, criando fermosas imagem de mulheres liberando mulheres. Ao mesmo tempo, elas também estavam construindo os alicerces da revoluçom da mulher dentro da sociedade. No entanto, algumhas feministas ocidentais questionavam a sua legitimidade e a descartarom como militarismo ou cooptaçom por grupos políticos. As narrativas dos meios ocidentais retratarom essa luita de umha maneira despolitizada, exótica, ou fazendo suposiçons generalizadas sobre o desinteresse “natural” das mulheres à violência.  Se a reportagem da mídia era dominada por um olhar masculino, isso se devia em parte à recusa das feministas em se envolver com esse relevante tema. Umha nom pode deixar de pensar que as mulheres militantes que tomam as coisas nas suas maos prejudicam a capacidade das feministas ocidentais de falar em nome das mulheres no Oriente Médio, projetadas como vítimas indefesas, pode ser umha das razons para essa hostilidade.

Credito: YPJ Media Team

A luita das mulheres curdas desenvolveu umha filosofia centrada na mulher de autodefesa e situa-se numha análise interseccional do colonialismo, do racismo, do estatismo-naçom, do capitalismo e do patriarcado. A Teoria das Rosas é umha parte do pensamento político liberador do líder do PKK, Abdullah Öcalan. El sugere que, a fim de chegar a formas nom-estatistas de auto-defesa, precisamos nom olhar mais longe do que a própria natureza. Cada organismo vivo, umha rosa, umha abelha, tem os seus mecanismos de autodefesa para proteger-se e expressar a sua existência – com espinhos, picadas, dentes, garras, etc. nom para dominar, explorar ou destruir desnecessariamente outra criatura, mas para preservar-se e satisfazer as suas necessidades vitais. Entre os seres humanos, sistemas inteiros de exploraçom e dominaçom perpetuam a violência além da sobrevivência física necessária. Contra este abuso de poder, a legítima defesa deve basear-se na justiça social e na ética comunitária, com particular respeito à autonomia das mulheres. Se deixarmos de lado as noçons sociais darwinistas de sobrevivência e competiçom que, sob a modernidade capitalista, atingiram dimensons mortais e concentrarmos-nos na interaçom da vida dentro dos sistemas ecológicos, podemos aprender com os modos de resistência da natureza e formular umha filosofia de autodefesa. Para luitar contra o sistema, a autodefesa deve abraçar a açom direta, a democracia radical participativa e as estruturas sociais, políticas e econômicas autogeridas.

Encostado ao Confederalismo Democrático que lidera o movimento da liberdade curdo, um sistema confederal autônomo das Mulheres Democratas foi construído através de milheiros de comunas, conselhos, cooperativas, academias e unidades de defesa no Curdistam e além. Através da criaçom de umha comuna de mulheres autônoma em umha aldeia rural, a identidade, a existência e a vontade das suas membros encontram a sua expressom na prática e desafiam a autoridade do estado patriarcal e capitalista. Além disso, a autonomia econômica e a economia comunitária baseada na solidariedade através do estabelecimento de cooperativas som cruciais para a auto-defesa da sociedade, garantindo o auto-sustento através do mutualismo e da responsabilidade compartilhada, rejeitando a dependência dos Estados e dos homens. O cuidado com a água, as terras, as florestas, o património histórico e natural som partes vitais da auto-defesa contra o Estado-naçom e a destruiçom ambiental orientada ao lucro.

Defender-se também significa ser e conhecer-se a si mesma. Isso implica a superaçom da produçom de conhecimento sexista e racista que a modernidade capitalista defende e que exclui os oprimidos da história. A consciência política constitui umha luita contra a assimilaçom, a alienaçom da natureza e as políticas de Estado genocidas. A resposta à literatura histórica e socialista positivista, colonialista e centrada no homem é, portanto, o estabelecimento de academias de mulheres de base que promovam epistemologias liberacionistas.

Umha luita sem ética nom pode proteger a sociedade. Aos olhos das mulheres curdas, o ISIS nom pode ser derrotado so polas armas, mas por umha revoluçom social. É por isso que as mulheres Jazidis, depois de sofrerem um genocídio traumático sob o ISIS, formarom um conselho de mulheres autônomo por primeira vez na sua história com o lema “A organizaçom das mulheres Jazidi será a resposta a todas as massacres”, ao lado das organizaçons militares femininas. Em Rojava, ao lado das YPJ, até mesmo as avoas aprendem a lidar com o AK47 e rotam entre si a responsabilidade de proteger as suas comunidades dentro das Forças de Autodefesa (HPC), enquanto milheiros de centros de mulheres, cooperativas, comunas e academias visam desmantelar a dominaçom masculina. Contra a guerra hiper-masculina do Estado turco, as mulheres curdas constituem um dos principais desafios para o governo de Erdogan através da sua mobilizaçom autônoma. Crucialmente, mulheres de diferentes comunidades juntaram-se a elas na construçom de alternativas femininas à dominaçom masculina em todas as esferas da vida. Um conceito de autodefesa alternativo que nom reproduza o militarismo estatista deve ser, naturalmente, anti-nacionalista.

YJÊ é umha milícia de mulheres formada no Iraque em 2015 para proteger a comunidade Jazidi no Iraque e no Curdistam iraquiano. Créditos: Wikicommons

Ao contrário da violência que procura subjugar o “outro”, a auto-defesa é umha completa dedicaçom e responsabilidade para a vida. Existir significa resistir. E para existir de forma significativa e livre, é preciso ser politicamente autônoma. Dito sem rodeios, num sistema internacional de violência sexual e racial, legitimado polos Estados-naçom capitalistas, o grito de nom-violência é um luxo para aqueles em posiçons privilegiadas de relativa segurança, que acreditam que nunca acabaram numha situaçom em que a violência será necessária para sobreviver. Embora teoricamente sólido, o pacifismo nom fala à realidade das massas de mulheres e, assim, assume um caráter do primeiro mundo bastante elitista.

Se as nossas reivindicaçons de justiça social som genuínas, num sistema mundial de interseçom de formas de violência, nos temos que luitar.

Publicado em Opendemocracy

Dilar Dirik é do norte do Curdistam (Administrativamente Turquia). Ela é umha ativista do movimento de mulheres curdas e escreve sobre a luita pola liberdade curda para um público internacional. Está atualmente trabalhando no seu doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.

Terríveis informaçons desde Cizre

BBC 01Por Selin Girit BBC News, Istambul

O que é incomum sobre a foto tirada em Cizre, umha cidade curda no sudeste da Turquia, som as garrafas de gelo ao redor de seu corpo.

Sune foi atingida por estilhaços e morreu das suas feridas, como ela nom tinha permisso para ir o tratamento no hospital, dizem os relatórios locais – por mor ao toque de recolher declarado há mais de umha semana atrás.

Ela nom poido ser enterrada durante dous dias e o seu corpo foi mantido primeiro em frio com garrafas de gelo, e depois no congelador de uma loja de frango.

O Ministério do Interior da Turquia di que mais de 30 militantes foram mortos em Cizre em confrontos entre forças de segurança e grupos militantes curdos que som o ala jovem do PKK.

Mas o Partido Democrático do Povo (HDP) fala de que polo menos 20 dos mortos eram civis.

BBC 02Sibel Yigitalp, um deputado do HDP atualmente em Cizre, contou à BBC o relato de umha família sob fogo.

“O marido de Zeynep Taskin está trabalho no estrangeiro de camioneiro”, dixo ela. “Ela queria fazerr-lhe umha chamada. Mas eles nom tinham telefone em casa. Entom ela foi para a casa do seu vizinho.”

“Quando ela estava na porta da sua casa com o seu bebê em seus braços, forom disparados. O bebê caiu no chao, ferido na orelha e na perna.”

De acordo com relatos locais, Taskin e a sua sogra Masallah Edin, que vinhera ajudá-la, forom mortas por franco-atiradores. Houvo duas outras pessoas feridas da mesma família.

“Nós chamamos os serviços de emergência do hospital. Eles digerom que nom podiam vir devido a problemas de segurança”, dixo Yigitalp. Os corpos estam mantidos em frigoríficos.

O governo turco nega as alegaçons de mortes de civis em Cizre.

Em umha entrevista na televisom, o primeiro-ministro, Ahmet Davutoglu, dixo que “nem um civil morreu” na cidade e afirmou que o toque de recolher vai continuar enquanto for necessário.

Davutoglu insistiu que no povo de Cizre estavam sendo cuidadas e que as padarias da cidade seriam mantidas abertas.

No entanto, os relatos desde Cizre contradizem os seus comentários.

Bozo Acar, que trabalha para umha ONG, di que há cortes de energia em certas partes da cidade, nom há água, e a comida em muitas casas está-se esgotando.

“Há umha tragédia aqui. As pessoas estam sofrendo. Há choques contínuos. As bombas explodem. Ninguém pode sair. O governo di que as necessidades básicas estam atendidas, mas as pessoas aqui estam morrendo de fome”, di el.

Muitos relatos semelhantes sobre o que vem acontecendo em Cizre som compartilhados nas redes sociais. O hashtag #CizreUnderAttack tornou-se um dos temas mais trending topics mundial do Twitter.

O governador local nom estava disponível para falar com a BBC para negar ou confirmar estas informaçons.

A Kurdish militant stands near a road blockadeEm agosto, Cizre declarou um estatus de “autogoverno”, em resposta às operaçons em curso contra o PKK e as detençom de autoridades locais.

Militantes do ala jovem do PKK – a YDG-H – bloquearom as estradas e cavarom valas para impedir que as forças de segurança chegaram à cidade.

O governo turco di que as operaçons estam destinadas a desactivar as minas das estradas, fechar as valas e assegurar a segurança geral e das pessoas.

BBC 05O jovês, umha delegaçom de 30 parlamentários do HDP, incluindo o co-presidente do partido Selahattin Demirtas, forom detidos quando tentavam chegar à cidade a pé.

Ertugrul Kurkcu, um da delegaçom, dixo à BBC que eles queriam ir para Cizre para evitar o que eles chamavam de “atrocidades contra civis”.

“Nos últimos sete dias, e durante 24 horas por dia, houvo um toque de recolher no lugar. Eu nom acho que visse nada como isto, mesmo em Gaza. As pessoas em Cizre estam a viver no inferno”, dixo el .

Críticos acusam o governo de “punir” Cizre, porque o 85% da cidade votou a favor das HDP nas eleiçons de Junho.

O sucesso do HDP custou-lhe o AKP governante a sua maioria parlamentária.

As eleiçons antecipadas forom convocadas para o 1 de Novembro e as preocupaçons estam sendo expressas sobre a segurança das eleiçons, especialmente no leste e sudeste curdo do país.

Ertugrul Kurkcu di que se a violência em Cizre nom acaba em breve poderia servir de exemplo para outras áreas.

“Se a situaçom continua assim, cada cidade onde o HDP obteve grande apoio nas eleiçons de Junho seram tratados da mesma forma. Pensamos que terá consequências terríveis”.

Publicado na BBC.

Autodefesa Radical das Mulheres Curdas: Armadas e políticas

ypj1_dilardirik.jpg_1718483346Por Dilar Dirik

A resistência das mulheres curdas funciona sem hierarquia e dominaçom e fai parte da transformaçom e libertaçom social. As poderosas Instituiçons do mundo funcionam pola estrutura do Estado, que detém o monopólio final sobre a tomada de decisom, a economia, e o uso da força. Ao mesmo tempo, somos conhecedoras de que a violência predominante de hoje é a razom pola qual o Estado necessita proteger-nos contra nós mesmos. As comunidades que decidem a defender-se contra a injustiça som criminalizadas. Basta dar uma olhada na definiçom genérica de terrorismo: o uso da força por parte de atores nom-estatais para fins políticos.

Nom importa o terrorismo de Estado. Como resultado, as mulheres, a sociedade e a natureza estam sendo deixados indefesos, nom só fisicamente, mas social, econômica e politicamente. Enquanto isso, os aparatos de segurança do Estado onipresente que abertamente comérciam com armas e beneficiam-se contrapondo às comunidades umhas contra as outras polas suas sujas guerras que dam a ilusom de proteger “nós” contra um misterioso “eles”.

Durante o ano passado, o mundo testemunhou a resistência histórica da cidade curda de Kobane. Que as mulheres de umha comunidade esquecida tornarom-se os inimigos mais ferozes do grupo Estado Islâmico, cuja ideologia está baseada em destruir todas as culturas, comunidades, idiomas e cores do Oriente Médio, a compreensom convencional virada do uso da força e da guerra. Nom era porque os homens estavam protegendo as mulheres ou um estado protegendo os seus “súditos” que Kobane estará escrita na história da humanidade da resistência, mas porque o sorriso de mulheres e homens viraram as idéias e corpos na linha da frente ideológica em que o grupo Estado Islâmico e a sua visom do mundo de violadores desintegrou em pedaços. Especialmente no Oriente Médio, já nom é suficiente que as mulheres “condenem a violência” quando a violência se tornou um fator tam constante nas nossas vidas, quando a nossa percepçom, ou o status construído como “vítimas” é usado como justificativa polos imperialistas para lançar guerras nas nossas comunidades. A ascensom do grupo Estado Islâmico mostrou os desastres que a dependência total em homens e exércitos estatais trae: nada além do femicídio.

Assim, é necessário um mecanismo de auto-defesa radical.

O comportamento da movimento de libertaçom curdo da guerra repousa sobre o conceito de “legítima defesa” e inclui a criaçom de mecanismos sociais e políticos de base para proteger a sociedade além da restrita defesa física. Na natureza, os organismos vivos, tais como rosas com espinhos desenvolvem os seus sistemas de auto-defesa nom para atacar, mas para proteger a vida. Abdullah Öcalan, o representante ideológico do PKK, ou Partido dos Trabalhadores do Curdistam, chamou-lhe a isto a “teoria da rosa”.

Para que a sociedade resista de forma semelhante sem ser militarista, deve abster-se de imitar conceitos para-estatais de força e, em vez, proteger os valores comunalistas, derivando o seu poder a partir da base. A sociedade, especialmente as mulheres, reclama Ocalan, deve-se antes de tudo a “xwebûn”, ou seja a si mesma. Apenas com a realizaçom da existência própria de um e do seu significado, pode-se reivindicar o direito de viver e defender-se a um e à comunidade. Esta deve estar baseada em umha sociedade que está politizada, autoconsciente, consciente e ativa, enquanto internaliza a ética comunitária amorosa – incluindo os valores fundamentais, como o compromisso com a libertaçom das mulheres, em vez de depender da lei imposta polo Estado capitalista e o seu aparato policial. O que transformou o Curdistam em um lugar de peregrinaçom para as mulheres e os movimentos anti-sistema de todo o mundo foi essa postura ideológica que defendeu a vida, em face de um exército de morte.

As forças de defesa em Rojava ilustram como a auto-defesa pode funcionar sem hierarquia, control e dominaçom: No meio da guerra, as unidades de defesa do Povo Curdo, ou YPG, e a brigada de mulheres, a YPJ, bem como as unidades de segurança interna, Asayish, focalizarom na educaçom ideológica. A metade dela é sobre a igualdade de gênero. As Academias educam aos luitadores para entender que eles nom som uma força de vingança e que a mobilizaçom atual é umha necessidade devido à guerra. As academias Asayish trabalham na direçom a umha comunidade com umha Asayish sem armas, que verbalmente intercede nas disputas nos bairros com o objectivo final de abolir completamente as Asayish através da construçom de umha “sociedade ético-política” que vai resolver os seus próprios problemas. Eles rejeitam o rótulo de polícia, porque em vez de servir o Estado, eles servem o povo, porque eles som do povo. A academia Asayish em Rimelan costumava ser um centro do serviço secreto do regime sírio. Alguns alunos foram torturados polo regime como prisioneiros políticos lá. Os Comandantes som eleitos polos integrantes do batalhom em base à sua experiência, compromisso e vontade de assumir a responsabilidade. Essa idéia de liderança no espírito de sacrifício é a razom pola qual muitos dos mártires das YPG/YPJ eram experimentados, amados comandantes.

Para as mulheres, a auto-defesa é mais umha questom de vida ou morte: As mulheres jáziges de Shengal (Sinjar), que som retratadas como passivas vítimas lamentáveis polos meios de comunicaçom irresponsáveis, agora rejeitam ser essencializadas quanto vítimas de violaçom e, semelhante às YJA Estrela (o exército das mulheres do PKK) e as YPJ, Forças de Defesa da Mulher de Rojava, construírom o seu próprio exército autônomo de mulheres chamado YPJ-Shengal, a força de auto-defesa das mulheres jáziges, paralelamente às suas emergentes estruturas de auto-governança autónomas.

Nom é umha coincidência que os primeiros exércitos permanentes surgiram com a ascensom da acumulaçom da riqueza, que também marcou a institucionalizaçom do patriarcado e os antecessores do Estado. O Estado-naçom insidiosamente afirma a sua existência através da elaboraçom das fronteiras entre as comunidades, criando paranóia e genofobia, onde houvo mosaicos de culturas durante séculos. Assim, se estamos empenhados em defender a sociedade, devemos também filosoficamente combater todos os ataques contra a sociedade, desde os primeiros sistemas de dominaçom e hierarquia estabelecidos nos nossos pensamentos.

Dualismos como homem-mulher, estado-sociedade, humano-natureza visam retratar relaçons hierárquicas quanto naturais. O que Thomas Hobbes chamou de “homo homini lupus est” para legitimar o leviatam incontestável chamado estado, é praticada ao estilo big-brother nos nossos tempos modernos. Temos de desafiar a história escrita-fascista que deprecia a sociedade e objetiviza a natureza e, e praticamente ao invés buscar soluçons para os problemas sociais com umha “sociologia da liberdade” centrada em torno das vozes e experiências dos oprimidos.

Contra as premissas racistas do ordem do Estado-naçom separatista e as suas fronteiras físicas e mentais, a sociedade deve reforçar a noçom de “naçom democrática”, conceituada por Öcalan com dissociar a idéia de naçom a partir de formas étnicas de sentido de pertença, para fortalecer a unidade ética mais significativa com base em princípios como a liberdade das mulheres, especialmente nestes tempo do Estado Islâmico. A Revoluçom da Rojava, onde os curdos, árabes, sírios, turcomanos e chechenos tentam criam um novo sistema alternativo juntos, repousa sobre essa noçom política.

A auto-defesa deve, assim, nom só luitar contra, mas também por algo, especialmente no Oriente Médio, onde todas as formas de violência som realizados em uma escala insuportável. Assim, a auto-defesa é umhaa tentativa radical em dissociar a energia do sistema militarista patriarcal – e as mulheres devem ser a vanguarda militante na auto-defesa da auto-determinaçom, ou mais bonito, de umha vida livre. Auto-defesa, acompanhada de pensamento revolucionário, tem o potencial de gerar umha mudança social radical. A Revoluçom da Rojava com seu modelo de “Confederalismo democrático”, proposto por Öcalan, é um exemplo brilhante do poder do povo.

Como a luitadora das YPJ Amara Kobane me dixo:

“Mais umha vez, os curdos aparecerom no palco da história. Mas desta vez com um sistema de auto-defesa e auto-governaçom, especialmente para as mulheres, que agora pode, após milênios, escrever a sua própria história por primeira vez. Os nossos pontos de vista filosóficos nos fai as mulheres conscientes do feito de que só podemos viver resistindo. A nossa revoluçom vai muito além desta guerra. Para ter sucesso, é vital saber por que luitas. ”

Dilar Dirik 24Dilar Dirik,  fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.

Publicado originalmente em telesur e traduzido com com o permisso expresso da sua autora .