O modelo Rojava

o-modelo-de-rojavaPor Meredith Tax

Como governam os curdos da Síria

Um novo modelo de organização social está tomando forma nas áreas curdas no norte da Síria. Rojava, como ficou conhecida, compreende três cantões na seção ocidental da  histórica terra natal do povo curdo, que está agora dividida entre Irã, Iraque, Síria, e Turquia. No que diz respeito a igualdade social, pluralismo étnico, e anti-sectarismo, o território é uma região sem igual. Esse é especialmente o caso quando falamos dos avanços das mulheres.

A atenção pública do ocidente deu um giro de 2014 a 2015, quando as milícias territoriais, as Unidades de Proteção do Povo (YPG) e as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ), tiveram um papel central na expulsão do Estado Islâmico, ou ISIS, de Kobane, uma cidade no noroeste da Síria. Observadores destacaram duas características do grupo: primeiro seu sucesso contra o ISIS, que as forças de segurança dos EUA e das forças de oposição Síria se esforçaram para derrotar, e segundo, o protagonismo das lutadoras femininas em suas fileiras.

Desde a Segunda Guerra Mundial, guerrilhas femininas fizera parte de lutas armadas ao redor do mundo. Mesmo a maior parte dos grupos militantes alistaram mulheres pois precisavam de soldadas, não porque desejaram empoderar as mulheres, e poucos tem priorizado tanto a igualdade das mulheres como os curdos da Turquia e da Síria.

A ênfase do Rojava sobre o papel de liderança das mulheres, no entanto, não se limita ao plano militar. Isso é definido pelos Curdos Sírios como uma visão societal mais ampla. Quarenta por cento dos membros da sociedade civil ou de qualquer órgão social em Rojava têm que ser de mulheres. Da mesma forma, todos os órgãos administrativos, projetos econômicos e organizações da sociedade civil são obrigadas a ter homens e co-presidentes do sexo feminino. Embora o Partido da União Democrática (PYD) seja dominante em Rojava  e os curdos são a maioria da sua população, Rojava é o lar de uma série de outros partidos políticos e etnias. É a única sociedade em sua região, que baseia-se nos pontos fortes de toda a sua população. Como é que as mulheres conseguiram ganhar tanto poder no meio de uma guerra pela sobrevivência?

Uma exceção regional

A história começa na Turquia em 1978, quando o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) foi fundado para criar um Estado independente curdo. Nos primeiros anos de sua insurgência contra o governo turco, o PKK foi dirigido principalmente por guerrilheiros do sexo masculino. Mas isso mudou na década de 1990. Quando a resistência civil curda mais ampla emergiu nas cidades turcas e os ativistas curdos  começaram a pressionar para ter um partido de representação no parlamento, o Partido Trabalhista Popular (HEP). Em ambos os empreendimentos, as mulheres serviram como líderes. Leyla Zana, uma ex-integrante do HEP, continua atuando no parlamento da Turquia.

Em 1993, de acordo com a jornalista Aliza Marcus, um terço dos novos membros do PKK eram mulheres; muitas delas recrutadas por Sakine Cansiz, uma de suas fundadoras.

Em 1995, o PKK formou um exército de mulheres, que agora é chamado de YJA-Estrela. A resolução que cria o exército deixou claro que iria servir como um modelo para outras organizações de mulheres “em todos os setores da economia, todas as instituições sociais, e até mesmo no campo da cultura.” A decisão foi particularmente notável pelo fato de que, na área rural do Curdistão, a subordinação do pensamento dass mulheres, tal como as práticas misóginas como os chamados assassinatos de honra,  reclusão imposta, e os casamentos de crianças tinham sido a norma. Para muitas mulheres curdas, deixar suas famílias para se juntar a um grupo insurgente foi uma enorme ruptura com a tradição patriarcal. Mulheres guerrilheiras foram pioneiras do movimento de libertação das mulheres como uma sociedade dentro da sociedade  curda.

Alguns dos líderes de Rojava, tais como os co-presidentes do PYD: como o Salih Muslim, foram originalmente membros sírios do PKK, e muitos dos ideais que têm sido postos em prática em Rojava foram testados na Turquia. Desde a fundação do PYD em 2003, a libertação das mulheres tem sido parte do programa do partido. Tal como na configuração da Estrela-Yekitiya, seu braço de organização para as mulheres, em 2005. Em 2012, como o presidente da Síria, Bashar al-Assad retirou suas tropas da maior parte do norte da Síria e dos cantões, Rojava tornou-se efetivamente autônoma e os membros do PYD começaram a se organizar de maneira mais vigorosa, tornando a defesa das mulheres uma parte integral de sua guerra contra o ISIS. A organização logo começou a recrutar novos membros de outros grupos étnicos da região, tratando de incluir assírios, árabes e Yezidis.

O grupo que mudou seu nome para Estrela de Kongreya no início deste ano, se descreveu como uma organização guarda-chuva para o movimento das mulheres de Rojava. Em nível local, a Estrela de Kongreya compreende um número de organizações, conhecidas como a comuna das mulheres, que operam em paralelo às comunas de sexo misto, que organizam tais assuntos como a alocação de energia e o uso do espaço público. O foco das comunas de mulheres sobre a violência doméstica, casamento forçado, e saúde das mulheres e programas econômicos, entre outras coisas; em muitos casos, podem se sobrepor aos seus parceiros organizacionais de sexo misto. Estrela de Kongreya no nível mais alto organiza comitês em cinco áreas: educação, especialmente educação de adultos e aulas de literatura; saúde pública, incluindo clínicas especializadas para mulheres; economia, incluindo a manutenção de cooperativas; resolução de disputas em comunidades, que inclui mediação e manutenção de abrigos para vítimas de violência doméstica; e defesa de cidadãos, que é central para a plataforma do PYD e especialmente para Estrela-Kongreya. Há três forças de defesa de mulheres em Rojava, a YPJ, que luta contra inimigos externos tais como o ISIS; as forças de segurança locais; e as forças de defesa civil atreladas às comunas, que lidam com a segurança da vizinhança, incluindo casos de violência contra as mulheres.

Autonomia e democracia

O crescimento da influência de mulheres na Rojava é parte central da transformação mais ampla da política curda ali e na Turquia. Ao contrário dos curdos iraquianos, os curdos sírios e turcos afastaram-se do nacionalismo. Eles buscam autonomia local ao invés de um arranjo federal. A ideia de longo prazo é a de assegurar a democracia, constituições democráticas que garantam uma autonomia local extensiva e protejam os direitos humanos. (Esta mudança foi executada em paralelo com a evolução ideológica do líder do PKK preso Abdullah Ocalan, um antigo militante que agora é um defensor do que ele chama de Confederalismo Democrático.)

À luz da atual turbulência da região, a visão de Rojava para uma feminista, de uma sociedade diretamente democrática, pode parecer irrealista.

No entanto, o fracasso das negociações para acabar a guerra civil síria mostrou a capacidade limitada da diplomacia para pôr fim a conflitos inflamados por atores não-estatais e financiados por potências externas, e em décadas recentes, tem havido alguns modelos políticos nas cercanias do Curdistão que oferecem muito mais uma promessa para o igualitarismo e paz como a que os curdos chamam de autonomia democrática.

Até agora, os Estados Unidos têm tratado os curdos sírios como um aliado militar de curto prazo e dado a eles apoio militar, mas não apoio político ou econômico ostensivos; Washington não insistiu para eles tomarem parte nas conversações de Genebra para acabar com a guerra na Síria. Esta abordagem é um erro. Desde os anos 1990, os Estados Unidos tem se posicionado como um defensor das mulheres e minorias sexuais. Os curdos sírios estão praticando uma forma de democracia que consagra a igualdade de género e se opõe noções de soma zero de étnico e direitos nacionais. Dado os compromissos que assumiu, os Estados Unidos deveriam estar dispostos a apoiar esses fins.

lead-Meredith-TaxMeredith Tax é escritora e ativista política desde o final da década de 1960, foi membro do Bread and Roses, fundadora presidente da Comissom Internacional de Mulheres Escritoras do PEN, presidente fundadora de  Women’s WORLD, e co-fundadora do Centre for Secular Space. Os seus últimos livros som Double Bind: The Muslim Right, the Anglo-American Left, and Universal Human Rights e A Road Unforeseen: Women Fight the Islamic State.

Esse artigo foi primeiramente publicado no website Foreign Affair e tem sido reproduzido com a permissão da autora.

Tradução ao português: Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda – RJ

Esse artigo expressa a visão da autora e não necessariamente está de acordo com os Comitês de Solidariedade à Resistência Popular Curda.

 

Construindo a Democracia sem Estado

Building Democracy without the Statepor *Dilar Dirik

Quando as primeiras pessoas chegarom a nossa casa há alguns anos atrás para perguntar se a nossa família gostaria de participar nas comunas, eu atirava pedras contra eles para mantê-los longe, ri Bushra, umha jovem de Tirbespiye, Rojava. A mae pertence a umha seita religiosa ultra-conservadora. Antes, ela nunca tinha sido autorizada a sair da sua casa e cobria todo o corpo, exceto os olhos.

“Agora eu formo ativamente parte da minha própria comunidade “, di ela com um sorriso orgulhoso e radiante. “A gente procura-me em busca de ajuda para resolver problemas sociais. Mas, no momento, se tivesses me perguntado, eu nom teria sequer conhecido o que significava “conselho”  ou que fai a gente nas assembléias.”

Hoje, em todo o mundo, as pessoas recorrem a formas alternativas de organizaçom autónoma para dar significado a sua existência mais umha vez, de modo a reflectir a criatividade do desejo humano de expressar-se com liberdade. Estas coletividades, comunas, cooperativas e movimentos de base podem ser qualificadas como mecanismos de auto-defesa do povo contra a invasom do capitalismo, o patriarcado e o estado.

Ao mesmo tempo, muitos povos indígenas, culturas e comunidades que enfrentam a exclusom e a marginalizaçom tenhem protegido os seus caminhos comunalistas de vida até este dia. É surpreendente que as comunidades que protegiam a sua existência contra a ordem mundial evoluindo em torno deles som freqüentemente descritos em termos negativos, como “falta” algo -notavelmente, um estado. As tendências positivistas e deterministas que dominam a historiografia de hoje tornam tais comunidades incomuns, incivilizadas, para trás. A Condiçom de Estado é assumida ser umha consequência inevitável da civilizaçom e a modernidade; um passo natural na evoluçom linear da história.

Há, sem dúvida, algumhas diferenças genealógica e ontológicas entre, por falta de umha palavra melhor, as “modernas” comunas revolucionárias, e as comunidades naturais, orgânicas. As “modernas” estam desenvolvendo-se principalmente entre os círculos radicais nas sociedades capitalistas como revoltas contra o sistema dominante, enquanto as naturais constituem umha ameaça para as potências hegemônicas pola natureza da sua própria sobrevivência. Mas ainda assim, nom podemos dizer que estas comunas orgânicas sejam nom-política, em oposiçom às comunas metropolitanas com a sua intençom política, orientadas a objectivos.

Séculos, talvez milênios de resistência contra a ordem capitalista mundial som, na verdade atos muito radicais de desafio. Para essas comunidades, relativamente neutras para as correntes globais, devido às suas características, geografia singular ou resistência ativa, a política comunal é simplesmente umha parte natural do mundo. É por isso que muitas pessoas em Rojava, por exemplo, onde umha transformaçom social radical está actualmente em curso, referem-se à sua revoluçom como “um retorno à nossa natureza” ou “a conquista da nossa ética social.”

Ao longo da história, os curdos sofrerom todos os tipos de negaçom, opressom, destruiçom, genocídio e assimilaçom. Forom excluídos da ordem estatista em duas frentes: eles nom so lhes foi negado o seu próprio estado, mas forom simultaneamente excluídos dos mecanismos das estruturas dos Estados ao seu redor. No entanto, a experiência de apatridia também ajudou a proteger muita ética e valores sociais, bem como um senso de comunidade, especialmente nas aldeias rurais e montanhosas muito longe das cidades.

Hoje em dia, aldeias curdo-alevi em particular, som caracterizadas por processos de terra comum e constataçom de ritos de conciliaçom para conflitos sociais baseados na ética e o perdom para o benefício da comunidade. Mas enquanto esta forma de vida é bastante prevalente no Curdistam, há também um novo esforço consciente para estabelecer um sistema político centrado em torno de valores comunais do Confederalismo Democrático, construído através da autonomia democrática com a comuna em seu coraçom.

O Confederalismo democrático na Rojava

O Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), como muitos movimentos de libertaçom nacional, inicialmente pensou que a criaçom de um estado independente seria a soluçom para a violência e a opressom. No entanto, com as mudanças no mundo após o colapso da Uniom Soviética, o movimento começou a desenvolver umha auto-crítica fundamental, bem como umha crítica às políticas socialistas dominantes da época, que ainda estava muito focada em tomar o poder estatal. Perto do final da década de 1990. O PKK, sob a liderança de Abdullah Öcalan, começou a articular umha alternativa para o Estado-naçom e o socialismo de estado.

Ao estudar a história do Curdistam e o Médio Oriente, bem como a natureza do poder, o actual sistema económico e as questons ecológicas, Öcalan chegou à conclusom de que a razom para “problema de liberdade” da humanidade nom era a apatridia mas o surgimento do Estado . Em umha tentativa de subverter o domínio do sistema que se institucionalizou em todo o mundo ao longo de 5.000 anos como umha síntese do patriarcado, o capitalismo e o Estado-naçom, este paradigma alternativo baseia-se no opostos – a libertaçom das mulheres, ecologia e democracia de base.

O Confederalismo democrático é um modelo social, político e económico da auto-governo de diferentes povos, desenvolvidos por mulheres e jovens. El tenta na prática expressar a vontade do povo, visualizando a democracia como um método em vez de um objectivo por si só. É democracia sem Estado.

Embora propon novas estruturas normativas para estabelecer um sistema político consciente, o Confederalismo Democrático inspira-se também em formas milenarias de organizaçom social que ainda existem entre as comunidades no Curdistam e além. Este modelo pode parecer muito forçado à nossa imaginaçom contemporânea, mas el realmente ressoa bem com um forte desejo de emancipaçom entre os diferentes povos da regiom. Embora o sistema foi implementado em Bakur (Curdistam do Norte) durante anos, dentro dos limites da repressom estatal turca, foi na Rojava (Curdistam do Oeste) que umha oportunidade histórica surgiu para por o Confederalismo Democrático em prática.

O sistema coloca a “autonomia democrática” no seu cerne: as pessoas organizam-se diretamente na forma de comunas e criam conselhos. Em Rojava, este processo é facilitado polo Tev-Dem, o Movimento para umha Sociedade Democrática. A comuna está composta de umha vizinhança consciente auto-organizada e constitui o aspecto mais essencial e radical da prática democrática. Ela tem comissons de trabalho sobre diferentes temas como a paz e a justiça, a economia, segurança, educaçom, mulheres, jovens e serviços sociais.

As comunas enviam delegados eleitos para os conselhos. Os conselhos de aldeia enviam delegados aos municipios, os municípios enviam delegados às cidades, e assim por diante. Cada umha das comunas é autônoma, mas elas estam ligadas umha a outra através de umha estrutura confederal com o fim de coordenaçom e salvaguarda dos princípios comuns. Só quando os problemas nom podem ser resolvidos na base, ou quando as questons transcendem as preocupaçons dos conselhos de nível mais baixo, elas som delegadas para o próximo nível. As instâncias “superiores” som responsáveis perante os níveis “inferiores” e informam sobre suas açons e decisons.

Enquanto as comunas som as áreas para a resoluçom de problemas e organizar a vida cotidiana, os conselhos criam planos e políticas para a coesom e a coordenaçom da açom. No início da revoluçom e nas áreas recém-libertadas, as assembleias tiveram que erguer os conselhos do povo em primeiro lugar e só mais tarde começou a desenvolver as estruturas organizacionais de base mais descentralizadas na forma de comunas.

As comunas trabalham no sentido de umha sociedade “político-moral”, composta por indivíduos conscientes que entendem como resolver problemas sociais e que cuidam do auto-governo diário, como umha responsabilidade comum, em vez de submeter-se a elites burocráticas. Tudo isso conta com a participaçom voluntária e livre das pessoas, ao invés da coerçom do Estado de Direito.

Claro que é difícil aumentar a consciência da sociedade em um curto espaço de tempo, especialmente quando as condiçons de guerra, embargos, mentalidades internalizadas e antigas estruturas despóticas tenhem sido profundamente institucionalizadas e pode levar a abusos de poder e mentalidades apolíticas. Um sistema de educaçom alternativa, organizada através de academias, busca promover umha mentalidade social saudável, embora a auto-organizaçom na prática reproduz umha sociedade consciente, mobilizando-a em todas as esferas da vida.

As mulheres e os jovens organizam-se autonomamente e incorporam as dinâmicas sociais às que estam naturalmente inclinados para mais democracia e menos hierarquia. Eles posicionam-se “à esquerda” do modelo de autonomia democrática e formulam novas formas de produçom e reproduçom do conhecimento.

Hoje, o movimento de libertaçom curdo reparte o poder igualitariamente entre umha mulher e um homem, desde Qandil a Qamishli e Paris. A idéia por trás do princípio da co-presidencia é tanto simbólico como prático descentralizador do poder e promove a descoberta do consenso, enquanto simboliza a harmonia entre mulheres e homens. Só as mulheres tenhem o direito de eleger a co-presidenta, enquanto o co-presidente é eleito por todos. As mulheres organizam as suas próprias estruturas, mais fortes, mais ideologicamente conscientes em direçom à confederaçom de mulheres, começando com as comunas autônomas de mulheres.

O Princípio da Naçom Democrática

Outro princípio importante articulado por Öcalan é a “naçom democrática”. Ao contrário da doutrina monista do Estado-naçom, que se justifica por meio de um mito machista, este conceito prevê umha sociedade baseada em um contrato social comum e os princípios éticos fundamentais, tais como a igualdade de género. Assim, todos os indivíduos e grupos, étnias, linguas, sexos, identidades e tendências intelectuais e religiosas podem expressar-se livremente e adicionam a diversidade para esta naçom expansiva, a ética baseada, a fim de garantir a sua democratizaçom. Quanto mais diversificada for a naçom, quanto mais forte a sua democracia. Os diferentes grupos e seçons também som responsáveis por si mesmos de democratizar desde dentro.

Em Rojava, curdos, árabes, cristians siríacos, armênios, turcomanos e chechenos tentam criar juntos umha nova vida. A mesma lógica subjacente ao projecto do Partido Democrático do Povo, ou HDP, através da fronteira com Turquia. O HDP uniu todas as comunidades da Mesopotâmia e Anatólia sob a égide da “uniom livre” na naçom democrática.

Entre as suas deputadas conta curdos, turcos, armênios, árabes, assírios, muçulmanos, alevitas, cristians e jazidis -umha maior diversidade do que em qualquer outro partido no Parlamento turco. Contrastando com a monopolismo da ideologia do Estado-naçom, o conceito de naçom democrática serve como um mecanismo de auto-defesa ideológica dos diversos povos.

Apesar de muitas comunidades diferentes participam activamente na revoluçom de Rojava, ressentimentos há muitos pendentes de prevalecer. Confederaçons tribais inteiras de árabes unilateralmente expressarom o seu apoio para a administraçom, mas em algumhas partes, os árabes permanecem desconfiados. Documentaçom dos serviços secretos revelam que já no início de 1960, o partido Baath da Síria fixo planos altamente sofisticados para lançar comunidades diferentes umhas contra as outras, especialmente em Cizire. Em cima das tensons pré-existentes, forças externas, adicionarom combustivel e instrumentalizam o conflito entre diferentes comunidades para promover as suas próprias agendas. A criaçom da unidade entre os diferentes grupos étnicos e religiosos da Síria, e no Médio Oriente em termos mais gerais, seria tornar mais difícil de dividir e governar a regiom.

Um membro árabe da administraçom de Rojava explicou porque este modelo democrático conta com tam pouco apoio por parte dos estabelecidos, bem como grupos políticos recém-formados na regiom e além:

“O sistema de autonomia democrática nos nossos três cantons treme e perturba o mundo inteiro porque o sistema capitalista nom quer liberdade e democracia para o Oriente Médio, apesar de todas as suas pretensons. É por isso que toda a gente ataca Rojava. As diferentes formas de Estado exemplificadas pola República Árabe Síria sob Assad e o Estado islâmico som dous lados da mesma moeda ja que negam e destruem o mosaico da diversidade da nossa regiom. Mas cada vez mais árabes do resto da Síria venhem para Rojava a aprender sobre a autonomia democrática, porque vêem umha perspectiva para a liberdade aqui.”

Um Modelo econômico e Político alternativo

O efetivo sistema de auto-organizaçom, combinado em certa medida com o embargo, que exigiu a autoconfiança e criatividade, assim, alimentou, poupado Rojava da corrupçom económica através de mentalidades capitalistas internas ou exploraçom externa. No entanto, a fim de defender os valores revolucionários além da guerra, umha visom econômica calibrada é necessária para umha sociedade mais justa, economica, ecológica, feminista que pode sustentar umha populaçom empobrecida, traumatizada e brutalizada.

Como envolvem as pessoas ricas, que nom se preocupam polas cooperativas, e evitar ser acusados de autoritarismo? Como organizar os princípios de emancipaçom e de libertaçom na urgência da guerra e umha economia de sobrevivência? Como descentralizar a economia ao mesmo tempo garantir a justiça e a coesom revolucionária? Para as pessoas em Rojava, a resposta está na educaçom.

“Que significa a ecologia para ti? “, Umha mulher na academia das mulheres Ishtar em Rimelan pede as suas companheiras em umha sala decorada com fotos de mulheres como Sakine Cansiz e Rosa Luxemburgo. Umha mulher velha com tatuagens tradicionais nas suas maos e rosto responde: “Para mim, ser mae significa ser ecológica. Viver em harmonia com a comunidade e natureza. As maes sabem melhor como manter e organizar esta harmonia. “Talvez seja a questom ecológica, que ilustra mais claramente em Rojava o dilema de ter grandes princípios e intençons e a vontade de sacrificio, embora muitas vezes sem as condiçons para implementar esses ideais. Por razons óbvias, a sobrevivência, muitas vezes tem prioridade sobre o ambientalismo.

Polo momento, polo menos, é possível falar de um sistema dual de transiçom em que a auto-gestom democrática de Rojava estabelece princípios revolucionários e ecológicos, com cuidado manobrando na guerra e na política real, enquanto o movimento popular organiza a povoaçom desde abaixo. No nível cantonal, especialmente no que di respeito a questons relacionadas com a política externa, práticas centralistas ou polo menos nom revolucionárias som, até certo ponto inevitáveis, especialmente porque Rojava está política e economicamente entre umha rocha e umha espada. É o sistema de autonomia democrática resultante da base ao que as pessoas geralmente se referem quando falam da “revoluçom de Rojava”.

A dinâmica descentralizadora da organizaçom desde a base, principalmente nas comunas, até mesmo servir como umha oposiçom interna aos cantons e facilitar a democratizaçom, que, devido à sua complicada geografia- ainda mais limitada por partidos políticos e grupos nom-revolucionárias – pode tender a umha concentraçom de poder (embora os cantons, como som atualmente, ainda som muito mais descentralizados e democráticos do que estados comuns).

Muito mais importante do que o mecanismo exato por meio do qual a vontade popular se expressa, é o significado e o impacto da autonomia democrática nas próprias pessoas. Se eu tivesse de descrever a “democracia radical”, eu acho nomeadamente as pessoas da classe trabalhadora, as mulheres às vezes analfabetas em bairros que decidiram organizar-se em comunas e que agora fazem política. Risos e jogos de crianças, cacarejar da galinha, sentados em cadeiras de plástico componhem a melodia para a etapa em que as decisons relativas às horas de eletricidade e disputas de bairro som feitas. Deve-se também notar que as estruturas funcionam melhor em áreas rurais e pequenos bairros que nas cidades grandes e complexas, onde som necessários maiores esforços para envolver as pessoas. Aqui, o poder pertence a pessoas que nunca tiveram nada e que agora escrevem sua própria história.

“Queres ver os nossos legumes? “Qadifa, umha mulher velha Jazidi pergunta-me em um centro de Yekîtiya Star, o movimento das mulheres. Ela parece ter pouco interesse em explicar o novo sistema, mas ela está disposta a mostrar os seus frutos no seu lugar. Nós continuamos a nossa conversa sobre as transformaçons da vida cotidiana na Rojava ao comer os deliciosos tomates de umha cooperativa de mulheres no quintal.

A Autodeterminaçom de Rojava está a ser vivida no aqui e agora, na prática quotidiana. Milheiros de mulheres como Qadifa, mulheres previamente completamente marginalizadas, invisíveis e sem voz, agora assumem posiçons de liderança e moldeam a sociedade. Hoje, pola manhá, elas podem, por primeira vez colher os seus próprios tomates da terra que foi colonizada polo Estado durante décadas, enquanto agem como juízes em tribunais populares à tarde.

Muitas famílias dedicam-se totalmente à revoluçom agora; especialmente aquelas que perderom seres queridos. Muitos domicílios familiares começam lentamente a funcionar como casas do povo (“gel mala”) que coordenam as necessidades da povoaçom: as pessoas entram na casa um do outro com os seus filhos para criticar ou discutir ou sugerir idéias sobre como melhorar as suas novas vidas. Os tópicos da mesa do jantar mudarom. As questons sociais tornam-se literalmente sociais, tornando-se responsabilidade de todos. Todos os membros da comunidade tornam-se em líder.

A lenta transiçom da tomada de decisom social a partir de construçons atribuídas às áreas da vida cotidiana é um fruto dos esforços por construir umha nova sociedade moral e política. Para as pessoas de países capitalistas avançados esta maneira direta de comandar a própria vida pode parecer assustador às vezes, especialmente quando as cousas importantes, como a justiça, educaçom e segurança estam agora nas maos de pessoas como si mesmos, em vez de ser entregues aos aparatos estatais anónimos.

Legado da Resistência do Comuna

Umha noite que eu estou sentada perto de Tell Mozan, umha vez o lar de Urkesh, de 6.000 anos, antiga capital dos Hurrians. Nas proximidades está a fronteira entre a Síria e a Turquia, desde há menos de um século. Enquanto bebia chá com Meryem, umha comandante de Kobane, vemos as luzes da cidade de Mardin no Curdistam do Norte, do outro lado da fronteira.

“Nós luitamos em nome da comunidade, dos oprimidos, de todas as mulheres, polas páginas nom escritas da história”, di ela. Meryem é umha das muitas mulheres que se encontrarom com Abdullah Öcalan na sua juventude, quando el chegou a Rojava na década de 1980. Como milheiros de mulheres, em busca de justiça além da sua própria vida, um dia ela decidiu tornar-se umha combatente da liberdade nesta regiom que é ao mesmo tempo o lar de milheiros de crimes de honra e milheiros de deusas, adoradas em todas as formas e tamanhos.

O que atraiu aos movimentos anti-sistêmicos em todo o mundo da histórica resistência em Kobane forom talvez as muitas formas polas quais a defesa da cidade espelhavam umha corrente milenaria da luita humana; as formas em que ela carregava traços universais que ressoam com imaginários coletivos de um mundo diferente. Muitas comparaçons forom feitas com a Comuna de Paris, a Batalha de Stalingrado, a Guerra Civil Espanhola, e outros casos míticos de resistência popular.

Nos zigurates de Sumer, complexos de templos maciços da antiga Mesopotâmia, múltiplos mecanismos hierárquicos começarom a ser institucionalizados por primeira vez: o patriarcado, o estado, a escravitude, o exército permanente e a propriedade privada – o início da formalizaçom da sociedade de classes. Este era propôs umha ruptura social profunda caracterizada pola perda de status social das mulheres e o aumento do homem dominante, especialmente o sacerdote, que tomou o monopólio do conhecimento. Mas também é onde amargi, a primeira palavra para o conceito de liberdade, literalmente “o retorno à mae”, surgiu por volta do 2300 aC

Öcalan propon a ideia de duas civilizaçons: el afirma que, no final do período Neolítico, com o surgimento de estruturas hierárquicas na antiga Sumer desenvolveu-se umha civilizaçom baseada na hierarquia, violência, submissom e monopolismo -o “mainstream” ou “civilizaçom dominante”. Por outro lado, o que el chama de “civilizaçom democrática” representa as luitas históricas dos marginalizados, dos oprimidos, dos pobres e dos excluídos, especialmente as mulheres. O Confederalismo democrático é, portanto, um produto político e manifestaçom desta civilizaçom democrática milenar.

O modelo de autonomia democrática, por sua vez, nom é so umha perspectiva prometedora para umha soluçom justa e pacífica para os conflitos traumáticos da regiom; em muitos aspectos, o surgimento da revoluçom Rojava ilustra como a autonomia democrática pode realmente ser a única maneira de sobreviver. Neste sentido, a comuna revolucionária é um património histórico, umha fonte de memória colectiva para as forças da democracia em todo o mundo, e um mecanismo consciente de auto-defesa contra o sistema estatal. El carrega um legado milenar e manifesta-se em novas formas hoje.

O que une momentos históricos de resistência humana e o desejo de um outro mundo, desde os primeiros combatentes da liberdade da história até a comuna de Paris e a sublevaçom dos Zapatistas às praças da liberdade em Rojava, é o poder inquebrável a ousar imaginar. É a coragem de acreditar que a opressom nom é o destino. É a expressom do desejo antigo da humanidade de se libertar.

Bijî komunên me! Vive la commune!

 Este artigo foi originalmente publicado em Roar Mag e depois em Kurdishquestion.
Dilar-Dirik-140x140*Dilar Dirik, 23 anos, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

 

 

Radicalizando a democracia: Poder, Política, Povo e PKK

RadicalizandoPor Joost Jongerden.

Resumo

Em 2005, o Partiya Karkêren Kurdistani (Partido dos Trabalhadores do Curdistam) (PKK) anunciou que considerava o Estado-naçom um obstáculo no caminho para a liberdade, e que o seu objectivo estratégico nom era o estabelecimento de um Estado, mas de umha rede interligada de conselhos como a base da auto-determinaçom e umha nova forma de viver juntos. O objetivo deste artigo é apresentar e explicar o entendimento da política do PKK e como evoluiu na década do 2000 ao olhar para dous conceitos: “O Confederalismo democrático” e “A Autonomia democrática” . Este artigo vai colocar esses conceitos em umha perspectiva histórica e comparativa, e contextualiza-los nos debates mais amplos em ciências políticas e sociais. A questom central para esta contribuiçom é a forma como estes conceitos dam sentido no contexto da teoria política, e como eles tenhem o potencial para colmatar as lacunas fundamentais na democracia moderna. Os dados forom recolhidos para o estudo de fontes primárias e entrevistas.

I. Introduçom

No seu programa fundacional do 1978, o Partiya Karkêren Kurdistani (Partido dos Trabalhadores do Curdistam) (PKK), expressa o objetivo de estabelecer um único (unido), estado independente chamado “Curdistam” (PKK, 1978). Ao longo do tempo, isto mudou. Em 2005, o PKK anunciou que considerava o Estado-naçom um obstáculo no caminho para a liberdade, e que o seu objectivo estratégico nom era o estabelecimento de um Estado, mas de umha rede interligada de conselhos com base na auto-determinaçom e um novo modo de viver juntos (PKK, 2005: 175). Desenhando e morrendo por fronteiras, argumentou Salih Müslüm, presidente do partido irmá do PKK na Síria, o Partiya Yekîtiya Demokrat (Partido da Uniom Democrática) (PYD), é umha doença europeia dos séculos 19 e 20. O modelo dos conselhos conectados, declarou el, é o modelo para o futuro (Müslüm, discurso no Parlamento Flamengo, em Bruxelas, 19-9-2014).

O objetivo deste artigo é apresentar e explicar o entendimento da política do PKK como evoluiu na década do 2000 ao olhar para dous conceitos que som fundamentais para o PKK do imaginário de umha nova arquitetura política: “O Confederalismo democrático” e “A Autonomia democrática”. Na minha discussom da autonomia democrática e o Confederalismo democrático, vou colocar essas idéias em umha perspectiva histórica e comparativa, e contextualiza-los em debates mais amplos em ciências políticas e sociais. Ao fazer sentido de autonomia democrática e Confederalismo democrático como umha práxis, ou seja, tanto ideia e engajamento, este trabalho visa também contribuir para um corpo de trabalho que tem como tema umha compreensom completa do PKK.

[1] O objetivo deste artigo, portanto, é discutir, no contexto curdo, as idéias da autonomia democrática e o Confederalismo democrático e mostrar a potencialidade destes como práticas para radicalizar a democracia. A questom central para esta contribuiçom é a forma como estes conceitos tenhem sentido no contexto da teoria política, e como eles tenhem o potencial para colmatar as lacunas fundamentais na democracia moderna. Os Dados forom recolhidos polo estudo de fontes primárias e entrevistas.

II. Democracia radical

Embora geralmente descrita como umha guerrilha/organizaçom armada, o PKK nom deve ser caracterizada em termos militares (ou similares), umha vez que é essencialmente umha organizaçom política, solicitado a usar a violência em circunstâncias em que nom havia alternativa (legalmente permitida) de caminho dumha genuína expressom política (Bozarslan, 2004: 23; Jongerden e Akkaya, 2011: 168-9). Os militantes ativos no PKK hoje igualmente nom se referem ao movimento como um movimento militar ou insurgente, como um militante declarou recentemente, por exemplo:

Todo o movimento curdo é umha revolta, mas eu nom quero dizer que o PKK é um movimento insurrecional. Nom o é. Os movimentos anteriores ao PKK forom revoltas, em termos do processo, metas, e ênfase geral, mas o PKK é muito mais do que isso, por isso nom deve ser chamado de um movimento insurrecional. O PKK é um movimento politicamente organizado, um movimento de libertaçom. Chamar ao PKK um movimento insurrecional restringe-o“. (Entrevista com o militante PKK, ED, 2014/06/08)

Quando o PKK foi fundado como partido político em 1978, tinha umha estrutura organizacional do tipo de partido comunista clássico. Lendo documentos do PKK, pode-se distinguir que o movimento tivo dous objectivos políticos desde o seu início. O primeiro foi implementar progressivamente o direito à auto-determinaçom, o segundo a reunificaçom, ou melhor, restabelecimento desde a esquerda, um restabelecimento previsto, tanto em termos organizacionais e ideológicos (Jongerden e Akkaya, 2012: 10). A perspectiva ideológica e política do PKK de “democracia radical” surgiu na década do 2000 com três projetos interligados: república democrática, autonomia democrática e confederalismo democrático, cada um destinado a funcionar como um “aparelho estratégico” com formas nas que as demandas políticas curdas som (re)definidas e organizadas (Akkaya & Jongerden, 2012: 22).

O projecto para uma república democrática que visa a dissociaçom da democracia do nacionalismo, o demos a partir da etnia. Concretamente, isso resultou na proposta de umha nova Constituiçom, em que a cidadania nom está definida ou mesmo concebida em termos de etnia, mas sim em termos da república cívica e direitos civis. Enquanto o projeto de república democrática dirigiu-se ao caráter do Estado, os projetos de autonomia democrática e o confederalismo democrático destinarom-se a desenvolver umha alternativa ao estado – política voltada para o povo – orientada e política emancipatória de conectividade. Esta política de conectividade baseia-se em um repensar a separaçom entre as pessoas, poder e política, como a tentativa de abordar estas desconexons.

O conceito de autonomia democrática nom se refere a umha forma de sub-soberania concedida às instituiçons dentro de um Estado soberano, a transferência de funçons e responsabilidades (limitadas) do Estado para as instituiçons que formam um sub-estado (Reyes e Kaufman, 2011), mas para um novo aterramento do estatuto político das pessoas, com base no auto-governo, em vez das relaçons das pessoas com o Estado (Duran Kalkan, comunicaçom pessoal, 28-10-2014). O PKK distingue cuidadosamente a autonomia democrática da autonomia. “A maioria das pessoas confundem autonomia democrática com autonomia”, confirma um alto membro do PKK, Cemil Bayık “-na verdade, nom há relaçom entre os dous”, afirmou (comunicaçom pessoal, 30-10-2014). Explicando isso, Bayık continua a dizer que, enquanto a autonomia leva o Estado-naçom como base, a autonomia democrática baseia-se no Confederalismo democrático.

O Confederalismo Democrático refere-se a umha organizaçom social que pode ser caracterizado como um sistema de baixo para cima de auto-administraçom, organizado na Turquia a níveis de vila (köy), bairro urbano (mahalle), distrito (Ilçe), cidade (kent), e regiom (bölge), denominado “Curdistam Norte” (Jongerden & Akkaya, 2013a). “O princípio básico do Confederalismo democrático “, continua Bayık “é o auto-governo das comunidades.” Em outras palavras, pode-se dizer, que a autonomia democrática é sobre a habilidade e capacidade de ter (ou recuperar) o control sobre as instituiçons políticas, econômicas e culturais , enquanto o Confederalismo democrático refere-se à capacidade de decidir e administrar. O objetivo nom é construir um Estado, mas desenvolver umha sociedade democrática. “Cinqüenta anos atrás, há cem anos”, argumenta Duran Kalkan (comunicaçom pessoal, 28-10-2014), “o Estado era pequeno e grande a sociedade, mas hoje, o Estado é todo e a sociedade nada.” Os projetos de autonomia democrática e Confederalismo democrático destinam-se a inverter esta situaçom, a desenvolver as capacidades de auto-governo do povo e, portanto, a radicalizar a democracia.

III. Autonomia Democrática e O Confederalismo Democrático: Ontem e Hoje

Seguindo o trabalho do Murray Bookchin, Abdullah Öcalan iniciou o debate sobre a autonomia democrática e o Confederalismo democrático entre os curdos (Biehl, 2012: 10; Öcalan, 2008). Bookchin diferencia entre duas idéias da política, o modelo Helénico e o Romana, que deu origem a dous imaginários diferentes de política e entendimento sobre o governo. O primeiro, o modelo Helénico, representa umha forma participativa e comunitária da política, com a qual se alinha Bookchin, e o segundo, o modelo romano, umha forma centralista e estatista, que el rejeita (White, 2008: 159). O modelo estatista romano, centralizado tem um rebanho dos indivíduos (Kropotkin, 1897), enquanto o modelo Helénico umha cidadania activa (Bookchin, 1991: 11). Bookchin argumenta que foi o modelo romano o que se tornou a forma dominante na sociedade moderna, introducido polos constitucionalistas norte-americanos e franceses do século 18. O modelo helénico existe como umha contra-corrente subterrânea, encontramos a sua expressom na Comuna de Paris de 1871, os conselhos iniciais (sovietes) que surgirom nos começos da revoluçom na Rússia, em 1917, e na Revoluçom Espanhola em 1936- 39.

Os projetos do Confederalismo democrático e a autonomia democrática do PKK estam em umha rica tradiçom de pensamento e de fazer política. Murray Bookchin (1991) colocou a autonomia e o Confederalismo em expressons da tradiçom helênica -como a Comuna de Paris (1871), os sovietes (conselhos) iniciais que surgiram na revoluçom na Rússia em 1917 e mais tarde foram suprimidos, e a revoluçom espanhola de 1936 -39- em oposiçom à tradiçom romana autoritária, base do molde da nossa política. Darrow Schecter (1994: 74-102) discutiu a corrente conselhista dentro do movimento comunista, referindo-se a Rosa Luxemburg, Antonio Gramsci e, em particular, Anton Pannekoek. Michael Hardt e Antonio Negri (Hardt & Negri, 2004), mas também Hannah Arendt relaciona o movimento dos conselhos em correntes na Revoluçom Americana e da idéia de “direito do cidadao do acesso à esfera pública” (Arendt, 1990 (1963): 127).

De acordo com Arendt, os conselhos som o tesouro perdido da revoluçom, o que representa “umha forma inteiramente nova de governo, com um novo espaço público para a liberdade, constituída e organizada durante o curso da própria revoluçom” (Arendt, 1990 [1963]: 249 ). Historicamente, esses conselhos forom estabelecidos em revoluçons na América, França, Rússia e Espanha; hoje, eles som revividos no Curdistam, sob a égide do Koma Civakên Kurdistan (Associaçom das Comunidades do Curdistam) (KCK), coordenado na Turquia pelo Kongreya Civaka Demokratik (Congresso da Sociedade Democrática) (KCD) e na Síria pelo Tevgera Civaka Demokratik (Movemento da Sociedade Democrática) (Tev-Dem).

A idéia do PKK da democracia radical pode ser visualizado a partir de umha perspectiva histórica, mas também pode ser comparado com os movimentos sociais atuais ou projetos em outros lugares. Alguns exemplos devem ser suficientes para dar umha impressom do horizonte mais amplo. Umha vez que o PKK tem sido comparado com o Exército Zapatista de Libertaçom Nacional (Exército Zapatista de Libertaçom Nacional) (EZLN) (Gambetti, 2009; Kucukozer, 2010), o ponto mais óbvio de referência contemporânea é o projeto político deste movimento. A autonomia democrática e o Confederalismo democrático que está sendo desenvolvido no Curdistam assemelha-se claramente a criaçom Zapatista de municípios autônomos em Chiapas (sul do México) (Stahler-Sholk, 2000) e a sua adesom à autonomia como um desenvolvimento de baixo para cima de auto-organizaçom e estruturas de direcçom e recursos. Como o PKK hoje, o EZLN nom afirma querer tomar o poder (no sentido de controlar o Estado), mas desenvolver alternativas o poder soberano do Estado através da criaçom de umha rede de práticas através das quais o auto-governo poida surgir. Como o PKK, o Zapatismo conceitua este auto-governo em termos de conjuntos, que nom som apenas as instituiçons da administraçom, mas também espaços de deliberaçom, com os delegados responsáveis e revogáveis e “com a possibilidade de rotar todos nos cárregos.” (Reyes & Kaufman, 2011: 516).

Também se pode encontrar semelhanças com a luta sócio-política do (principalmente do Brasil) Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para transformar a relaçom entre as pessoas e entre pessoas e o Estado e do desenvolvimento da idéia de umha cidadania activa (Wittman, 2009). Em termos mais gerais, pode-se notar a recente rodada de protestos e ocupaçons da rua em massa, do ativismo ambientalista e anti-globalista (nomeadamente com as manifestaçons anti-G8 e os distúrbios em Seattle, 1999) e o desenvolvimento do movimento Occupy, que também tem visto expressom no surgimento de movimentos espontâneos assembleários (por exemplo, em Istambul, 2013) e plataformas de democracia direta pré-existentes (por exemplo, People’s Assembly Movement, no Reino Unido).

IV. Poder, povo e Política

O projeto do PKK da democracia radical e a ideia de democracia de conselhos ou de auto-administraçom (Confederalismo democrático) e o desenvolvimento da autonomia potencialmente resolve três problemas: a separaçom do poder soberano do povo, a separaçom de pessoas umhas das outras e a separaçom do poder e política.

4.1. A Separaçom de poder soberano da Pessoas

Na moderna (século 18) antiga concepçom, a democracia era considerada a regra de todos por todos. No entanto, a maneira em que a ideia de democracia institucionalizou-se como “governo de autoridades que som responsáveis e removíveis pola maioria das pessoas em umha jurisdiçom” está longe de ser isso (Hardt e Negri, 2004). Arendt (1990 [1963]: 268-9) argumenta que “o governo representativo tornou, de fato governo oligárquico (…) embora nom no sentido clássico do sistema duns poucos no interesse duns poucos; o que hoje chamamos de democracia é umha forma de governo onde os uns poucos, polo menos supostamente, no interesse de muitos “- de modo que os mais dos cidadaos podem esperar estar “representados”, onde um sistema de representaçom implica umha delegaçom de interesses.

Na verdade, de acordo com Hardt e Negri (2004: 247), a representaçom tem umha natureza dupla na medida em que nom só a representaçom implica umha conexom entre o representante e o representado, mas também desconecta os governantes dos governados, “simultaneamente liga e separa.”: “quando o nosso poder é transferido para um grupo de governantes, entom já nom governamos, estamos separados do poder e do governo “(Hardt e Negri, 2004: 244). A separaçom das pessoas do poder soberano é umha base para a formaçom do estado, Hardt e Negri argumentam, definindo a democratizaçom como “[e] muito passo que estreita a distância entre representantes e representados,” assim, “neutralizar o monopólio estatal do poder” segue-se que a democracia “teria de ser construída a partir de baixo” (Hardt & Negri, 2004: 249, 251).

Para Arendt, este também deverá implicar a formaçom de opinions “em um processo de discussom aberta e debate público, “as pessoas precisam de se tornar pró-ativas, para conduzir o processo, umha vez que nom seria suficiente só o nosso apoio, enquanto a açom manteve a prerrogativa do governo “(Arendt, 1990 [1963]: 268-9, 271). é precisamente esta relaçom que o co-presidente do PYD, Salih Müslüm, critica, argumentando que as relaçons entre o Estado e as pessoas no Oriente Médio mais nas últimas décadas forom concebidas e praticadas em termos de um estado ativo com o povo como os seus objetos, enquanto o novo modelo de autonomia democrática e Confederalismo democrático baseia-se na cidadania activa, com as pessoas como sujeitos na sua capacidade de decidir e agir, debatendo problemas e soluçons articulado polo povo e para o povo (Salih Müslüm 19-9-2013 na Conferência sobre Modelos novos e umha soluçom para a questom curda, Parlamento flamengo, em Bruxelas). Na mesma linha, Cemil Bayık (comunicaçom pessoal, 30-10-2014) e Duran Kalkan (comunicaçom pessoal, 30-10-2014) argumenta que a mudança de paradigma inclui, entre outros, umha mudança de construçom do Estado para a construçom da sociedade e, relativamente, tomar o poder (‘iktidar’, como estado ou poder soberano) para o desenvolvimento de capacidades de auto-governo da sociedade.

4.2. A separaçom das pessoas umhas das outras

A representaçom nom só separa as pessoas do poder, mas também transforma a política a partir de umha capacidade do público para o privado. A furna representa a capacidade de escolha privada, já que se baseia em dar às pessoas o direito a título particular, o direito de voto. Essa relaçom, argumenta Arendt (1990 [1963]: 277), é transformada em um vendedor e comprador individual, enquanto a açom política é para ficar na frente dos outros e formar opinions, polo que o espaço de umha pluralidade de perspectivas sobre temas políticos pode ser formado (Sitton, 1987). A furna nom fornece um espaço para ser público e político, um espaço de encontro (Merrifield, 2011), mas apenas um de açom privada e a expressom da escolha (seleçom de umha determinada variedade de alternativas).

Segundo Arendt, a atividade política nom pode ser reduzida ao direito individual de escolha, umha vez que é também sobre um compromisso público com os outros, e, como ela observa (Arendt, 1958: 57), a importância de ser vista e ouvida polos outros deriva do fato de que toda a gente vê e ouve a partir de umha posiçom diferente. Para Arendt, a liberdade é a liberdade de agir como cidadaos, e isso significa participar, de ser ouvido, debater, a troca de opinions e toma de decisons. A liberdade, portanto, nom se trata de dar às pessoas o poder a título privado, mas das pessoas que estam sendo habilitadas na sua capacidade de cidadaos, através da criaçom de um espaço público. E, assim, Arendt (1990 [1963]: 253) referem-se a democracia dos conselhos como um tesouro da tradiçom revolucionária, dos espaços públicos de pessoas historicamente criado para formar opiniom e tomar decisons em conjunto. Na verdade, é um sistema de democracia de conselhos que iniciou o KCK (através da KCD e o Tev-Dem).

4.3. A separaçom do Poder e a Política

A autonomia democrática e o Confederalismo democrático também abordam o problema do que Bauman (2007: 1-2) chama a separaçom dos poderes e da política na sociedade moderna. Poder, definido como a capacidade de fazer as cousas, e política, a capacidade de decidir o sentido e a finalidade da açom, estavam disponíveis anteriormente para o Estado-naçom, mas eles divorciarom. A economia política muda -em particular, a globalizaçom do capital, em combinaçom com a contrataçom neoliberal de funçons anteriormente desempenhadas pola declaraçom transformou a política nacional e em formas de “um exercício prolongado para decidir o que deve ser feito- sem realmente ser capaz de fazê-lo. “(Roos, 2012). Sem a capacidade de fazer as cousas, a responsabilidade nom é muito mais do que um apelo. Sem a capacidade de decidir, a responsabilidade nom pode ser assumida. O projeto do PKK de autonomia democrática, pode-se dizer, é sobre a capacidade de control, enquanto o Confederalismo democrático é sobre a capacidade de decidir. Isto implicaria que os projetos individuais do PKK de autonomia democrática e o Confederalismo democrático contenhem a promessa de poder re-ligar a política, nom no contexto da política do Estado-naçom homogeneizada, mas sob a forma de um formulário baseado na assembléia de auto-governo.

V. Radical Política além do Retiro e o Compromisso

As idéias do Confederalismo democrático e a autonomia democrática tenhem o potencial para tratar umha série de desconexonss entre o poder, as pessoas e a política, mas eles também podem alterar a idéia da política radical. A política radical têm sido frequentemente debatidas no contexto de um dilema entre o retiro e o compromisso: a retirada das formas e das instituiçons políticas estabelecidas para desenvolver alternativas ou um compromisso com as formas e instituiçons estabelecidas, a fim de praticar a mudança. No seu trabalho sobre a ideia da democracia radical, Chantal Mouffe (2013) cria umha oposiçom entre as idéias de êxodo e compromisso. Êxodo aqui refere-se a umha forma de açom política que consiste em umha rejeiçom e a deserçom do Estado. O seu principal objectivo é o desenvolvimento de umha esfera pública nom-estatal e um radicalmente novo tipo de democracia baseado na construçom e experimentaçom de formas de auto-representaçom e democracia extra-parlamentar organizados em torno de conselhos. Este êxodo implica umha negaçom, no entanto, com o objectivo de tornar irrelevante o significado do Estado na vida diária. Em oposiçom a isso, Mouffe (2013) distingue umha política de compromisso, que afirma que a política radical deve-se envolver com as instituiçons, a fim de desarticula-las, separá-la dos discursos e das práticas existentes, com o objetivo de construir novos.

A primeira opçom, o êxodo, é a estratégia de Hardt e Negri, a estratégia dos movimentos de protesto que dizem “Nós nom queremos nada a ver com os partidos, com os sindicatos, com as instituiçons existentes, porque eles nom podem ser transformados; precisamos de montar e organizar novas formas de vida; devemos tentar a democracia no presente, e agir.”

[2] Esta é a posiçom da esquerda radical. A segunda opçom, a estratégia ao que Mouffe (2013) adere-se, é criar algo por envolver com as instituiçons existentes e transformar a política de umha arena de antagonismos, em que o outro deve ser derrotado, por meio de um agonismo no qual lidar positivamente com e aceitar as diferenças. Esta é a posiçom da esquerda reformista. No seu projeto de autonomia democrática e Confederalismo democrático, no entanto, o PKK nom parece fazer umha escolha entre o retiro ou compromisso: cria as suas próprias alternativas (os conselhos) enquanto se envolve com as instituiçons existentes (o município).

Esta posiçom dupla, de ambos os desenvolvimento com alternativas próprias enquanto se envolve com as instituiçons existentes, é perto do que Henri Lefebvre (2003) refere-se como “transduçom”. A transduçom de Lefebvre é conectar as práticas reais e o aterramento nas realidades do momento , nom, no entanto, aceitar as fronteiras existentes da sociedade contemporânea. O objetivo nom é conectar-se à luitas existentes e instituiçons ou ir além da ordem existente, mas para se conectar com as luitas existentes e ir além da ordem existente. “Nós nunca devemos permanecer contidos dentro do real”, Lefebvre di: “devemos sempre avançar em direçom ao virtual, o que ainda nom foi actualizado.” (Purcell, 2013: 320) Elo representa um compromisso radical com o real, sem limitar-se ao que existe.

O desenvolvimento de alternativas nos trae novamente a diferença entre autonomia e autonomia democrática, conforme o indicado polo líder PKK, Cemil Bayık. A autonomia, como indiquei, está baseada na transferência de funçons e responsabilidades (limitadas) do Estado para as instituiçons que formam um sub-estado, enquanto a autonomia democrática refere-se a práticas em que as pessoas produzem e reproduzem as condiçons necessárias e desejadas para viver através de contactos directos e colaboraçom dos uns com os outros, no domínio político, mas também nos domínios económicos e culturais. Essa idéia de reproduçom das condiçons necessárias e desejadas para viver juntos é conceituada como “auto-valorizaçom” na literatura marxista autonomista.

O conceito de auto-valorizaçom foi desenvolvido em (1991) na leitura de Toni Negri de Marx para além de Marx, na qual Negri apresenta umha leitura alternativa de Marx que concede primazia nom ao capital, mas ao trabalho. Essa inversom da perspectiva, tam típico da abordagem marxista autónoma, trouxo a idéia de “práticas de autonomia” e “auto-atividade” para o centro dos debates e análises (Tronti, 1980) e “fornece um conceito útil ao chamar a nossa atençom para as luitas que vam além da resistência com vários tipos de positivo, socialmente constitutivas de auto-atividade “(Cleaver, 1993). Na mesma linha de pensamento, o filósofo e pedagogo Ivan Illich chamou a atençom para a necessidade de recuperar a vida do Estado e dos seus profissionais através do desenvolvimento de capacidades autónomas.

O desenvolvimento da sociedade moderna, argumenta Illich (1977), vem junto com umha guerra de atividades de subsistência autónomas – em que precisamos ler atividades de subsistência, nom só em termos de organizaçom econômica da vida, sobre o qual o pensamento marxista está principalmente preocupado, mas também de atividades que sustentam a vida humana em outros campos, como a escolaridade e saúde, dous dos campos aos que Illich dirigiu a sua atençom, e à política, umha questom discutida por Arendt (1990 [1963]). O funcionamento negativo das instituiçons modernas está minar as capacidades de auto-ajudá e as capacidades das pessoas, subordinando as atividades produtivas humanas para o comando de profissionais. A autonomia democrática é sobre recuperar o trabalho da esfera da produçom de valor e recuperar a vida dos profissionais e no desenvolvimento de capacidades de auto-governo (Gibson-Graham, et al., 2013). Como a idéia de auto-valorizaçom dos italianos autônomos-marxistas e a ideia de Illich de desenvolver capacidades autónomas, a autonomia democrática, desenvolvida polo PKK nom é tanto um projeto de resistência, mas umha das alternativas de construçom. “Ser um movimento revolucionário significa construir e nom destruir”, dixo Cemil Bayık em umha entrevista recente (comunicaçom pessoal, 30-10-2014). A construçom de umha nova sociedade, o PKK acredita hoje, baseia-se no desenvolvimento de novas formas de gestom e de governo para além da ordem existente. Como tal, nom visa destruir a ordem existente, mas visa torná-la irrelevante através da construçom de alternativas.

VI. conclusons

Este artigo analisou a compreensom do PKK da democracia radical através da exploraçom de dous dos seus conceitos-chave ou projetos: a autonomia democrática e o Confederalismo democrático. Eu nom só olhaei para a forma como estes projectos foram definidos polo PKK, mas também apresentei os conceitos em umha perspectiva histórica e comparativa. No que respeita à dimensom histórica, mostrei como as idéias e práticas da autonomia democrática e o confederalismo democrático conectam com umha contra-corrente na história política, referido como o modelo Helénico. Este modelo representa umha forma participativa de democrática da política, com base na cidadania activa. No que respeita à dimensom contemporânea, centrei na semelhança entre, por um lado, as idéias do PKK e as práticas da autonomia democrática e confederalismo democrática, e por outro, os experimentos e as experiências em outros lugares, referindo-me especialmente ao EZLN no México e MST em Brasil.

A autonomia democrática e o Confederalismo democrática têm o potencial de abordar problemas fundamentais da democracia representativa, ou seja, a separaçom das pessoas de poder, a separaçom das pessoas umhas das outras e a separaçom da política e o poder. Explorei esse potencial referindo-nee ao o trabalho de, entre outros, Antonio Negri e Michael Hardt, Hannah Arendt e Zygmunt Bauman. Também indiquei que pensar e trabalhar ao longo do eixo da autonomia democrática e o Confederalismo democrático vem junto com um repensar a política progressista. Nom se trata de umha escolha entre retirada e compromisso; é umha escolha para a transduçom, a conexom com luitas existentes a mover-se para o que ainda nom foi actualizado.

Estas questons -as dimensons históricas e contemporâneas do projeto do PKK da autonomia democrática e o Confederalismo democrático, a reconexom das pessoas, poder e política, e a questom da transduçom- só forom abordados aqui. Mais do que um tratamento elaborado das questons, isto representa um esboço de umha possível agenda de pesquisa teórica e empírica. No entanto, o que está claro é que pensar ao longo das linhas da autonomia democrática e o Confederalismo democrático tem o potencial para resolver falhas fundamentais na nossa política contemporânea e radicalizar a idéia de democracia.

Joost Jongerden é Professor Adjunto da Universidade Wageningen.

Jongerden, J. (March, 2015), “Radicalising Democracy: Power, Politics, People and the PKK”, Vol. IV, Issue 3, pp.64-78, Centre for Policy and Research on Turkey (ResearchTurkey), London, Research Turkey.

VII. Referencias

Akkaya, Ahmet Hamdi and Joost Jongerden. 2011. “The PKK in the 2000s: continuity through breaks.” In Nationalisms and Politics in Turkey: political Islam, Kemalism and the Kurdish Issue, eds. Marlies Casier and Joost Jongerden. London: Routledge.

Akkaya, Ahmet Hamdi and Joost Jongerden. 2012. “Reassembling the Political: The PKK and the project of Radical Democracy.” European Journal of Turkish Studies (12).

Arendt, Hannah. 1958. The Human Condition. Chicago: The University of Chicago Press.

Arendt, Hannah. 1990 (1963). On Revolution. London: Penguin Press.

Bauman, Zygmunt. 2007. Liquid Times. Living in an Age of Uncertainty. Cambridge: Polity Press.

Biehl, Janet. 2012. “Bookchin, Öcalan, and the Dialectics of Democracy.” In Challenging Capitalist Modernity: Alternative Concepts and the Kurdish Quest, 3-5 February 2012. Hamburg.

Bookchin, Murray. 1991. “Libertarian Municipalism: an overview.” Green Perspectives( October 1991 ).

Bozarslan, Hamit. 2004. Violence in the Middle East, from political struggle to self-sacrifice, Princeton: Markus Wiener Publishers

Cleaver, Harry. 1993. “Kropotkin, Self-Valorisation, and the Crisis of Marxism.” In Anarchist Studies, ed. Thomas V. Cahill. Lancaster: Lancaster University.

Gambetti, Zeynep. 2009. “Politics of place/space: The spatial dynamics of the Kurdish and Zapatista movements.” New Perspectives on Turkey (41): 43-87.

Gibson-Graham, J.K., Jenny Cameron and Stephen Healy. 2013. Take back the Economy: An ethical guide for transforming communities. Minneapolis: University of Minnesota Press.

Grojean, Olivier. 2014. “The Production of the New Man within the PKK.” European Journal of Turkish Studies.

Gunes, Cengiz. 2012. The Kurdish national movement in Turkey: from protest to resistance. London: Routledge.

Gunes, Cengiz and Welat Zeydanlioglu. 2013. “The Kurdish Question in Turkey: New perspectives on violence, representation and reconciliation.” London: Routledge.

Hardt, Michael and Tony Negri. 2004. Multitude. New York: Penguin Press.

Illich, Ivan. 1977. Disabling professions. London: Boyars.

Imset, Ismet. 1992. The PKK: a report on separatist violence in Turkey (1973-1992). Ankara: Turkish Daily News.

Jongerden, Joost and Ahmet Hamdi Akkaya. 2011. “Born from the left: the making of the PKK.” In Nationalisms and Politics in Turkey: political Islam, Kemalism and the Kurdish Issue, eds. Marlies Casier and Joost Jongerden. London: Routledge.

Jongerden, Joost and Ahmet Hamdi Akkaya. 2012. “The Kurdistan Workers Party and a New Left in Turkey: Analysis of the revolutionary movement in Turkey through the PKK’s memorial text on Haki Karer.” European Journal of Turkish Studies (14).

Jongerden, Joost and Ahmet Hamdi Akkaya. 2013a. “Democratic Confederalism as a Kurdish Spring: the PKK and the quest for radical democracy.” In The Kurdish Spring: Geopolitical Changes and the Kurds, eds. Mohammed Ahmet and Michael Gunter. Costa Mesa: Mazda Publishers.

Jongerden, Joost and Ahmet Hamdi Akkaya. 2013b. PKK Üzerine Yazilar. Istanbul: Vate Yayinlari.

Kropotkin, Peter. 1897. The State: It’s Historical Role.

Kucukozer, Mehmet. 2010. Peasant rebellions in the age of globalization: The EZLN in Mexico and the PKK in Turkey. New York: City University of New York.

Lefebvre, Henri. 2003. The urban revolution. Minneapolis: University of Minnesota Press.

Marcus, Aliza. 2007. Blood and Belief: the PKK and the Kurdish Fight for Independence. New York & London: New York University Press.

Mouffe, Chantal. 2013. Hegemony, Radical Democracy, and the Political, edited by James Martin, London: Routledge, 2013.

Negri, Antonio. 1991. Marx beyond Marx, Lessons on the Grundrisse. New York: Bergen and Garvey.

Öcalan, Abdullah. 2008. “Prison Notes June 18, 2008.”

PKK. 1978. Kürdistan Devriminin Yolu.

PKK. 2005. Partiya Karkerên Kurdistan PKK Yeniden Inşa Kongre Belgeleri. Istanbul: Çetin Yayınları.

Purcell, Mark. 2013. “The right to the city: the struggle for democracy in the urban public realm.” Policy & Politics 43(3): 311-327.

Reyes, Alvaro and Mara Kaufman. 2011a. “Sovereignty, I ndigeneity, Territory: Zapatista Autonomy and the New Practices of Decolonization.” The South Atlantic Quarterly 110(2): 505-525.

Roos, Jerome. 2012. “Beyond the vote: the crisis of representative democracy.” Roar Magazine, 14-09-2012.

Schecter, Darrow. 1994. Radical Theories: paths beyond marxism and social-democracy. Manchester: Manchester University Press.

Sitton, John F. 1987. “Hannah Arendt’s Argument for Council Democracy.” Polity XX(1): 80-100.

Stahler-Sholk, Richard. 2000. A world in which many worlds fit: Zapatista responses to globalization: Paper presented on Panel 384, “Globalization in the New Millennium? Perspectives from/for Latin America,” at Latin American Studies Association (LASA), XXII International Congres.

Tronti, Mario. 1980. The Strategy of Refusal: Semiotexte.

White, Damian. 2008. Bookchin: A Critical Appraisal London: Pluto Press.

Wittman, Hannah. 2009. “Reframing agrarian citizenship: Land, life and power in Brazil.” Journal of Rural Studies (25): 120-130.

VIII. Notas

[1]Para isto, ver Akkaya and Jongerden (2011, 2012), Grojean (2014), Gunes (2012),Gunes and Zeydanlioglu (2013), Imset (1992), Jongerden and Akkaya (2011, 2012,2013a, b) and Marcus (2007).
[2]Ver ‘A Vibrant Democracy Needs Agonistic Confrontation’ – An Interview with Chantal Mouffe. [Accessed date 6 March 2015].

Artigo publicado em Research Turkey e posteriormente em Kurdish Question.