O modelo Rojava

o-modelo-de-rojavaPor Meredith Tax

Como governam os curdos da Síria

Um novo modelo de organização social está tomando forma nas áreas curdas no norte da Síria. Rojava, como ficou conhecida, compreende três cantões na seção ocidental da  histórica terra natal do povo curdo, que está agora dividida entre Irã, Iraque, Síria, e Turquia. No que diz respeito a igualdade social, pluralismo étnico, e anti-sectarismo, o território é uma região sem igual. Esse é especialmente o caso quando falamos dos avanços das mulheres.

A atenção pública do ocidente deu um giro de 2014 a 2015, quando as milícias territoriais, as Unidades de Proteção do Povo (YPG) e as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ), tiveram um papel central na expulsão do Estado Islâmico, ou ISIS, de Kobane, uma cidade no noroeste da Síria. Observadores destacaram duas características do grupo: primeiro seu sucesso contra o ISIS, que as forças de segurança dos EUA e das forças de oposição Síria se esforçaram para derrotar, e segundo, o protagonismo das lutadoras femininas em suas fileiras.

Desde a Segunda Guerra Mundial, guerrilhas femininas fizera parte de lutas armadas ao redor do mundo. Mesmo a maior parte dos grupos militantes alistaram mulheres pois precisavam de soldadas, não porque desejaram empoderar as mulheres, e poucos tem priorizado tanto a igualdade das mulheres como os curdos da Turquia e da Síria.

A ênfase do Rojava sobre o papel de liderança das mulheres, no entanto, não se limita ao plano militar. Isso é definido pelos Curdos Sírios como uma visão societal mais ampla. Quarenta por cento dos membros da sociedade civil ou de qualquer órgão social em Rojava têm que ser de mulheres. Da mesma forma, todos os órgãos administrativos, projetos econômicos e organizações da sociedade civil são obrigadas a ter homens e co-presidentes do sexo feminino. Embora o Partido da União Democrática (PYD) seja dominante em Rojava  e os curdos são a maioria da sua população, Rojava é o lar de uma série de outros partidos políticos e etnias. É a única sociedade em sua região, que baseia-se nos pontos fortes de toda a sua população. Como é que as mulheres conseguiram ganhar tanto poder no meio de uma guerra pela sobrevivência?

Uma exceção regional

A história começa na Turquia em 1978, quando o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) foi fundado para criar um Estado independente curdo. Nos primeiros anos de sua insurgência contra o governo turco, o PKK foi dirigido principalmente por guerrilheiros do sexo masculino. Mas isso mudou na década de 1990. Quando a resistência civil curda mais ampla emergiu nas cidades turcas e os ativistas curdos  começaram a pressionar para ter um partido de representação no parlamento, o Partido Trabalhista Popular (HEP). Em ambos os empreendimentos, as mulheres serviram como líderes. Leyla Zana, uma ex-integrante do HEP, continua atuando no parlamento da Turquia.

Em 1993, de acordo com a jornalista Aliza Marcus, um terço dos novos membros do PKK eram mulheres; muitas delas recrutadas por Sakine Cansiz, uma de suas fundadoras.

Em 1995, o PKK formou um exército de mulheres, que agora é chamado de YJA-Estrela. A resolução que cria o exército deixou claro que iria servir como um modelo para outras organizações de mulheres “em todos os setores da economia, todas as instituições sociais, e até mesmo no campo da cultura.” A decisão foi particularmente notável pelo fato de que, na área rural do Curdistão, a subordinação do pensamento dass mulheres, tal como as práticas misóginas como os chamados assassinatos de honra,  reclusão imposta, e os casamentos de crianças tinham sido a norma. Para muitas mulheres curdas, deixar suas famílias para se juntar a um grupo insurgente foi uma enorme ruptura com a tradição patriarcal. Mulheres guerrilheiras foram pioneiras do movimento de libertação das mulheres como uma sociedade dentro da sociedade  curda.

Alguns dos líderes de Rojava, tais como os co-presidentes do PYD: como o Salih Muslim, foram originalmente membros sírios do PKK, e muitos dos ideais que têm sido postos em prática em Rojava foram testados na Turquia. Desde a fundação do PYD em 2003, a libertação das mulheres tem sido parte do programa do partido. Tal como na configuração da Estrela-Yekitiya, seu braço de organização para as mulheres, em 2005. Em 2012, como o presidente da Síria, Bashar al-Assad retirou suas tropas da maior parte do norte da Síria e dos cantões, Rojava tornou-se efetivamente autônoma e os membros do PYD começaram a se organizar de maneira mais vigorosa, tornando a defesa das mulheres uma parte integral de sua guerra contra o ISIS. A organização logo começou a recrutar novos membros de outros grupos étnicos da região, tratando de incluir assírios, árabes e Yezidis.

O grupo que mudou seu nome para Estrela de Kongreya no início deste ano, se descreveu como uma organização guarda-chuva para o movimento das mulheres de Rojava. Em nível local, a Estrela de Kongreya compreende um número de organizações, conhecidas como a comuna das mulheres, que operam em paralelo às comunas de sexo misto, que organizam tais assuntos como a alocação de energia e o uso do espaço público. O foco das comunas de mulheres sobre a violência doméstica, casamento forçado, e saúde das mulheres e programas econômicos, entre outras coisas; em muitos casos, podem se sobrepor aos seus parceiros organizacionais de sexo misto. Estrela de Kongreya no nível mais alto organiza comitês em cinco áreas: educação, especialmente educação de adultos e aulas de literatura; saúde pública, incluindo clínicas especializadas para mulheres; economia, incluindo a manutenção de cooperativas; resolução de disputas em comunidades, que inclui mediação e manutenção de abrigos para vítimas de violência doméstica; e defesa de cidadãos, que é central para a plataforma do PYD e especialmente para Estrela-Kongreya. Há três forças de defesa de mulheres em Rojava, a YPJ, que luta contra inimigos externos tais como o ISIS; as forças de segurança locais; e as forças de defesa civil atreladas às comunas, que lidam com a segurança da vizinhança, incluindo casos de violência contra as mulheres.

Autonomia e democracia

O crescimento da influência de mulheres na Rojava é parte central da transformação mais ampla da política curda ali e na Turquia. Ao contrário dos curdos iraquianos, os curdos sírios e turcos afastaram-se do nacionalismo. Eles buscam autonomia local ao invés de um arranjo federal. A ideia de longo prazo é a de assegurar a democracia, constituições democráticas que garantam uma autonomia local extensiva e protejam os direitos humanos. (Esta mudança foi executada em paralelo com a evolução ideológica do líder do PKK preso Abdullah Ocalan, um antigo militante que agora é um defensor do que ele chama de Confederalismo Democrático.)

À luz da atual turbulência da região, a visão de Rojava para uma feminista, de uma sociedade diretamente democrática, pode parecer irrealista.

No entanto, o fracasso das negociações para acabar a guerra civil síria mostrou a capacidade limitada da diplomacia para pôr fim a conflitos inflamados por atores não-estatais e financiados por potências externas, e em décadas recentes, tem havido alguns modelos políticos nas cercanias do Curdistão que oferecem muito mais uma promessa para o igualitarismo e paz como a que os curdos chamam de autonomia democrática.

Até agora, os Estados Unidos têm tratado os curdos sírios como um aliado militar de curto prazo e dado a eles apoio militar, mas não apoio político ou econômico ostensivos; Washington não insistiu para eles tomarem parte nas conversações de Genebra para acabar com a guerra na Síria. Esta abordagem é um erro. Desde os anos 1990, os Estados Unidos tem se posicionado como um defensor das mulheres e minorias sexuais. Os curdos sírios estão praticando uma forma de democracia que consagra a igualdade de género e se opõe noções de soma zero de étnico e direitos nacionais. Dado os compromissos que assumiu, os Estados Unidos deveriam estar dispostos a apoiar esses fins.

lead-Meredith-TaxMeredith Tax é escritora e ativista política desde o final da década de 1960, foi membro do Bread and Roses, fundadora presidente da Comissom Internacional de Mulheres Escritoras do PEN, presidente fundadora de  Women’s WORLD, e co-fundadora do Centre for Secular Space. Os seus últimos livros som Double Bind: The Muslim Right, the Anglo-American Left, and Universal Human Rights e A Road Unforeseen: Women Fight the Islamic State.

Esse artigo foi primeiramente publicado no website Foreign Affair e tem sido reproduzido com a permissão da autora.

Tradução ao português: Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda – RJ

Esse artigo expressa a visão da autora e não necessariamente está de acordo com os Comitês de Solidariedade à Resistência Popular Curda.

 

Construindo a Democracia sem Estado

Building Democracy without the Statepor *Dilar Dirik

Quando as primeiras pessoas chegarom a nossa casa há alguns anos atrás para perguntar se a nossa família gostaria de participar nas comunas, eu atirava pedras contra eles para mantê-los longe, ri Bushra, umha jovem de Tirbespiye, Rojava. A mae pertence a umha seita religiosa ultra-conservadora. Antes, ela nunca tinha sido autorizada a sair da sua casa e cobria todo o corpo, exceto os olhos.

“Agora eu formo ativamente parte da minha própria comunidade “, di ela com um sorriso orgulhoso e radiante. “A gente procura-me em busca de ajuda para resolver problemas sociais. Mas, no momento, se tivesses me perguntado, eu nom teria sequer conhecido o que significava “conselho”  ou que fai a gente nas assembléias.”

Hoje, em todo o mundo, as pessoas recorrem a formas alternativas de organizaçom autónoma para dar significado a sua existência mais umha vez, de modo a reflectir a criatividade do desejo humano de expressar-se com liberdade. Estas coletividades, comunas, cooperativas e movimentos de base podem ser qualificadas como mecanismos de auto-defesa do povo contra a invasom do capitalismo, o patriarcado e o estado.

Ao mesmo tempo, muitos povos indígenas, culturas e comunidades que enfrentam a exclusom e a marginalizaçom tenhem protegido os seus caminhos comunalistas de vida até este dia. É surpreendente que as comunidades que protegiam a sua existência contra a ordem mundial evoluindo em torno deles som freqüentemente descritos em termos negativos, como “falta” algo -notavelmente, um estado. As tendências positivistas e deterministas que dominam a historiografia de hoje tornam tais comunidades incomuns, incivilizadas, para trás. A Condiçom de Estado é assumida ser umha consequência inevitável da civilizaçom e a modernidade; um passo natural na evoluçom linear da história.

Há, sem dúvida, algumhas diferenças genealógica e ontológicas entre, por falta de umha palavra melhor, as “modernas” comunas revolucionárias, e as comunidades naturais, orgânicas. As “modernas” estam desenvolvendo-se principalmente entre os círculos radicais nas sociedades capitalistas como revoltas contra o sistema dominante, enquanto as naturais constituem umha ameaça para as potências hegemônicas pola natureza da sua própria sobrevivência. Mas ainda assim, nom podemos dizer que estas comunas orgânicas sejam nom-política, em oposiçom às comunas metropolitanas com a sua intençom política, orientadas a objectivos.

Séculos, talvez milênios de resistência contra a ordem capitalista mundial som, na verdade atos muito radicais de desafio. Para essas comunidades, relativamente neutras para as correntes globais, devido às suas características, geografia singular ou resistência ativa, a política comunal é simplesmente umha parte natural do mundo. É por isso que muitas pessoas em Rojava, por exemplo, onde umha transformaçom social radical está actualmente em curso, referem-se à sua revoluçom como “um retorno à nossa natureza” ou “a conquista da nossa ética social.”

Ao longo da história, os curdos sofrerom todos os tipos de negaçom, opressom, destruiçom, genocídio e assimilaçom. Forom excluídos da ordem estatista em duas frentes: eles nom so lhes foi negado o seu próprio estado, mas forom simultaneamente excluídos dos mecanismos das estruturas dos Estados ao seu redor. No entanto, a experiência de apatridia também ajudou a proteger muita ética e valores sociais, bem como um senso de comunidade, especialmente nas aldeias rurais e montanhosas muito longe das cidades.

Hoje em dia, aldeias curdo-alevi em particular, som caracterizadas por processos de terra comum e constataçom de ritos de conciliaçom para conflitos sociais baseados na ética e o perdom para o benefício da comunidade. Mas enquanto esta forma de vida é bastante prevalente no Curdistam, há também um novo esforço consciente para estabelecer um sistema político centrado em torno de valores comunais do Confederalismo Democrático, construído através da autonomia democrática com a comuna em seu coraçom.

O Confederalismo democrático na Rojava

O Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), como muitos movimentos de libertaçom nacional, inicialmente pensou que a criaçom de um estado independente seria a soluçom para a violência e a opressom. No entanto, com as mudanças no mundo após o colapso da Uniom Soviética, o movimento começou a desenvolver umha auto-crítica fundamental, bem como umha crítica às políticas socialistas dominantes da época, que ainda estava muito focada em tomar o poder estatal. Perto do final da década de 1990. O PKK, sob a liderança de Abdullah Öcalan, começou a articular umha alternativa para o Estado-naçom e o socialismo de estado.

Ao estudar a história do Curdistam e o Médio Oriente, bem como a natureza do poder, o actual sistema económico e as questons ecológicas, Öcalan chegou à conclusom de que a razom para “problema de liberdade” da humanidade nom era a apatridia mas o surgimento do Estado . Em umha tentativa de subverter o domínio do sistema que se institucionalizou em todo o mundo ao longo de 5.000 anos como umha síntese do patriarcado, o capitalismo e o Estado-naçom, este paradigma alternativo baseia-se no opostos – a libertaçom das mulheres, ecologia e democracia de base.

O Confederalismo democrático é um modelo social, político e económico da auto-governo de diferentes povos, desenvolvidos por mulheres e jovens. El tenta na prática expressar a vontade do povo, visualizando a democracia como um método em vez de um objectivo por si só. É democracia sem Estado.

Embora propon novas estruturas normativas para estabelecer um sistema político consciente, o Confederalismo Democrático inspira-se também em formas milenarias de organizaçom social que ainda existem entre as comunidades no Curdistam e além. Este modelo pode parecer muito forçado à nossa imaginaçom contemporânea, mas el realmente ressoa bem com um forte desejo de emancipaçom entre os diferentes povos da regiom. Embora o sistema foi implementado em Bakur (Curdistam do Norte) durante anos, dentro dos limites da repressom estatal turca, foi na Rojava (Curdistam do Oeste) que umha oportunidade histórica surgiu para por o Confederalismo Democrático em prática.

O sistema coloca a “autonomia democrática” no seu cerne: as pessoas organizam-se diretamente na forma de comunas e criam conselhos. Em Rojava, este processo é facilitado polo Tev-Dem, o Movimento para umha Sociedade Democrática. A comuna está composta de umha vizinhança consciente auto-organizada e constitui o aspecto mais essencial e radical da prática democrática. Ela tem comissons de trabalho sobre diferentes temas como a paz e a justiça, a economia, segurança, educaçom, mulheres, jovens e serviços sociais.

As comunas enviam delegados eleitos para os conselhos. Os conselhos de aldeia enviam delegados aos municipios, os municípios enviam delegados às cidades, e assim por diante. Cada umha das comunas é autônoma, mas elas estam ligadas umha a outra através de umha estrutura confederal com o fim de coordenaçom e salvaguarda dos princípios comuns. Só quando os problemas nom podem ser resolvidos na base, ou quando as questons transcendem as preocupaçons dos conselhos de nível mais baixo, elas som delegadas para o próximo nível. As instâncias “superiores” som responsáveis perante os níveis “inferiores” e informam sobre suas açons e decisons.

Enquanto as comunas som as áreas para a resoluçom de problemas e organizar a vida cotidiana, os conselhos criam planos e políticas para a coesom e a coordenaçom da açom. No início da revoluçom e nas áreas recém-libertadas, as assembleias tiveram que erguer os conselhos do povo em primeiro lugar e só mais tarde começou a desenvolver as estruturas organizacionais de base mais descentralizadas na forma de comunas.

As comunas trabalham no sentido de umha sociedade “político-moral”, composta por indivíduos conscientes que entendem como resolver problemas sociais e que cuidam do auto-governo diário, como umha responsabilidade comum, em vez de submeter-se a elites burocráticas. Tudo isso conta com a participaçom voluntária e livre das pessoas, ao invés da coerçom do Estado de Direito.

Claro que é difícil aumentar a consciência da sociedade em um curto espaço de tempo, especialmente quando as condiçons de guerra, embargos, mentalidades internalizadas e antigas estruturas despóticas tenhem sido profundamente institucionalizadas e pode levar a abusos de poder e mentalidades apolíticas. Um sistema de educaçom alternativa, organizada através de academias, busca promover umha mentalidade social saudável, embora a auto-organizaçom na prática reproduz umha sociedade consciente, mobilizando-a em todas as esferas da vida.

As mulheres e os jovens organizam-se autonomamente e incorporam as dinâmicas sociais às que estam naturalmente inclinados para mais democracia e menos hierarquia. Eles posicionam-se “à esquerda” do modelo de autonomia democrática e formulam novas formas de produçom e reproduçom do conhecimento.

Hoje, o movimento de libertaçom curdo reparte o poder igualitariamente entre umha mulher e um homem, desde Qandil a Qamishli e Paris. A idéia por trás do princípio da co-presidencia é tanto simbólico como prático descentralizador do poder e promove a descoberta do consenso, enquanto simboliza a harmonia entre mulheres e homens. Só as mulheres tenhem o direito de eleger a co-presidenta, enquanto o co-presidente é eleito por todos. As mulheres organizam as suas próprias estruturas, mais fortes, mais ideologicamente conscientes em direçom à confederaçom de mulheres, começando com as comunas autônomas de mulheres.

O Princípio da Naçom Democrática

Outro princípio importante articulado por Öcalan é a “naçom democrática”. Ao contrário da doutrina monista do Estado-naçom, que se justifica por meio de um mito machista, este conceito prevê umha sociedade baseada em um contrato social comum e os princípios éticos fundamentais, tais como a igualdade de género. Assim, todos os indivíduos e grupos, étnias, linguas, sexos, identidades e tendências intelectuais e religiosas podem expressar-se livremente e adicionam a diversidade para esta naçom expansiva, a ética baseada, a fim de garantir a sua democratizaçom. Quanto mais diversificada for a naçom, quanto mais forte a sua democracia. Os diferentes grupos e seçons também som responsáveis por si mesmos de democratizar desde dentro.

Em Rojava, curdos, árabes, cristians siríacos, armênios, turcomanos e chechenos tentam criar juntos umha nova vida. A mesma lógica subjacente ao projecto do Partido Democrático do Povo, ou HDP, através da fronteira com Turquia. O HDP uniu todas as comunidades da Mesopotâmia e Anatólia sob a égide da “uniom livre” na naçom democrática.

Entre as suas deputadas conta curdos, turcos, armênios, árabes, assírios, muçulmanos, alevitas, cristians e jazidis -umha maior diversidade do que em qualquer outro partido no Parlamento turco. Contrastando com a monopolismo da ideologia do Estado-naçom, o conceito de naçom democrática serve como um mecanismo de auto-defesa ideológica dos diversos povos.

Apesar de muitas comunidades diferentes participam activamente na revoluçom de Rojava, ressentimentos há muitos pendentes de prevalecer. Confederaçons tribais inteiras de árabes unilateralmente expressarom o seu apoio para a administraçom, mas em algumhas partes, os árabes permanecem desconfiados. Documentaçom dos serviços secretos revelam que já no início de 1960, o partido Baath da Síria fixo planos altamente sofisticados para lançar comunidades diferentes umhas contra as outras, especialmente em Cizire. Em cima das tensons pré-existentes, forças externas, adicionarom combustivel e instrumentalizam o conflito entre diferentes comunidades para promover as suas próprias agendas. A criaçom da unidade entre os diferentes grupos étnicos e religiosos da Síria, e no Médio Oriente em termos mais gerais, seria tornar mais difícil de dividir e governar a regiom.

Um membro árabe da administraçom de Rojava explicou porque este modelo democrático conta com tam pouco apoio por parte dos estabelecidos, bem como grupos políticos recém-formados na regiom e além:

“O sistema de autonomia democrática nos nossos três cantons treme e perturba o mundo inteiro porque o sistema capitalista nom quer liberdade e democracia para o Oriente Médio, apesar de todas as suas pretensons. É por isso que toda a gente ataca Rojava. As diferentes formas de Estado exemplificadas pola República Árabe Síria sob Assad e o Estado islâmico som dous lados da mesma moeda ja que negam e destruem o mosaico da diversidade da nossa regiom. Mas cada vez mais árabes do resto da Síria venhem para Rojava a aprender sobre a autonomia democrática, porque vêem umha perspectiva para a liberdade aqui.”

Um Modelo econômico e Político alternativo

O efetivo sistema de auto-organizaçom, combinado em certa medida com o embargo, que exigiu a autoconfiança e criatividade, assim, alimentou, poupado Rojava da corrupçom económica através de mentalidades capitalistas internas ou exploraçom externa. No entanto, a fim de defender os valores revolucionários além da guerra, umha visom econômica calibrada é necessária para umha sociedade mais justa, economica, ecológica, feminista que pode sustentar umha populaçom empobrecida, traumatizada e brutalizada.

Como envolvem as pessoas ricas, que nom se preocupam polas cooperativas, e evitar ser acusados de autoritarismo? Como organizar os princípios de emancipaçom e de libertaçom na urgência da guerra e umha economia de sobrevivência? Como descentralizar a economia ao mesmo tempo garantir a justiça e a coesom revolucionária? Para as pessoas em Rojava, a resposta está na educaçom.

“Que significa a ecologia para ti? “, Umha mulher na academia das mulheres Ishtar em Rimelan pede as suas companheiras em umha sala decorada com fotos de mulheres como Sakine Cansiz e Rosa Luxemburgo. Umha mulher velha com tatuagens tradicionais nas suas maos e rosto responde: “Para mim, ser mae significa ser ecológica. Viver em harmonia com a comunidade e natureza. As maes sabem melhor como manter e organizar esta harmonia. “Talvez seja a questom ecológica, que ilustra mais claramente em Rojava o dilema de ter grandes princípios e intençons e a vontade de sacrificio, embora muitas vezes sem as condiçons para implementar esses ideais. Por razons óbvias, a sobrevivência, muitas vezes tem prioridade sobre o ambientalismo.

Polo momento, polo menos, é possível falar de um sistema dual de transiçom em que a auto-gestom democrática de Rojava estabelece princípios revolucionários e ecológicos, com cuidado manobrando na guerra e na política real, enquanto o movimento popular organiza a povoaçom desde abaixo. No nível cantonal, especialmente no que di respeito a questons relacionadas com a política externa, práticas centralistas ou polo menos nom revolucionárias som, até certo ponto inevitáveis, especialmente porque Rojava está política e economicamente entre umha rocha e umha espada. É o sistema de autonomia democrática resultante da base ao que as pessoas geralmente se referem quando falam da “revoluçom de Rojava”.

A dinâmica descentralizadora da organizaçom desde a base, principalmente nas comunas, até mesmo servir como umha oposiçom interna aos cantons e facilitar a democratizaçom, que, devido à sua complicada geografia- ainda mais limitada por partidos políticos e grupos nom-revolucionárias – pode tender a umha concentraçom de poder (embora os cantons, como som atualmente, ainda som muito mais descentralizados e democráticos do que estados comuns).

Muito mais importante do que o mecanismo exato por meio do qual a vontade popular se expressa, é o significado e o impacto da autonomia democrática nas próprias pessoas. Se eu tivesse de descrever a “democracia radical”, eu acho nomeadamente as pessoas da classe trabalhadora, as mulheres às vezes analfabetas em bairros que decidiram organizar-se em comunas e que agora fazem política. Risos e jogos de crianças, cacarejar da galinha, sentados em cadeiras de plástico componhem a melodia para a etapa em que as decisons relativas às horas de eletricidade e disputas de bairro som feitas. Deve-se também notar que as estruturas funcionam melhor em áreas rurais e pequenos bairros que nas cidades grandes e complexas, onde som necessários maiores esforços para envolver as pessoas. Aqui, o poder pertence a pessoas que nunca tiveram nada e que agora escrevem sua própria história.

“Queres ver os nossos legumes? “Qadifa, umha mulher velha Jazidi pergunta-me em um centro de Yekîtiya Star, o movimento das mulheres. Ela parece ter pouco interesse em explicar o novo sistema, mas ela está disposta a mostrar os seus frutos no seu lugar. Nós continuamos a nossa conversa sobre as transformaçons da vida cotidiana na Rojava ao comer os deliciosos tomates de umha cooperativa de mulheres no quintal.

A Autodeterminaçom de Rojava está a ser vivida no aqui e agora, na prática quotidiana. Milheiros de mulheres como Qadifa, mulheres previamente completamente marginalizadas, invisíveis e sem voz, agora assumem posiçons de liderança e moldeam a sociedade. Hoje, pola manhá, elas podem, por primeira vez colher os seus próprios tomates da terra que foi colonizada polo Estado durante décadas, enquanto agem como juízes em tribunais populares à tarde.

Muitas famílias dedicam-se totalmente à revoluçom agora; especialmente aquelas que perderom seres queridos. Muitos domicílios familiares começam lentamente a funcionar como casas do povo (“gel mala”) que coordenam as necessidades da povoaçom: as pessoas entram na casa um do outro com os seus filhos para criticar ou discutir ou sugerir idéias sobre como melhorar as suas novas vidas. Os tópicos da mesa do jantar mudarom. As questons sociais tornam-se literalmente sociais, tornando-se responsabilidade de todos. Todos os membros da comunidade tornam-se em líder.

A lenta transiçom da tomada de decisom social a partir de construçons atribuídas às áreas da vida cotidiana é um fruto dos esforços por construir umha nova sociedade moral e política. Para as pessoas de países capitalistas avançados esta maneira direta de comandar a própria vida pode parecer assustador às vezes, especialmente quando as cousas importantes, como a justiça, educaçom e segurança estam agora nas maos de pessoas como si mesmos, em vez de ser entregues aos aparatos estatais anónimos.

Legado da Resistência do Comuna

Umha noite que eu estou sentada perto de Tell Mozan, umha vez o lar de Urkesh, de 6.000 anos, antiga capital dos Hurrians. Nas proximidades está a fronteira entre a Síria e a Turquia, desde há menos de um século. Enquanto bebia chá com Meryem, umha comandante de Kobane, vemos as luzes da cidade de Mardin no Curdistam do Norte, do outro lado da fronteira.

“Nós luitamos em nome da comunidade, dos oprimidos, de todas as mulheres, polas páginas nom escritas da história”, di ela. Meryem é umha das muitas mulheres que se encontrarom com Abdullah Öcalan na sua juventude, quando el chegou a Rojava na década de 1980. Como milheiros de mulheres, em busca de justiça além da sua própria vida, um dia ela decidiu tornar-se umha combatente da liberdade nesta regiom que é ao mesmo tempo o lar de milheiros de crimes de honra e milheiros de deusas, adoradas em todas as formas e tamanhos.

O que atraiu aos movimentos anti-sistêmicos em todo o mundo da histórica resistência em Kobane forom talvez as muitas formas polas quais a defesa da cidade espelhavam umha corrente milenaria da luita humana; as formas em que ela carregava traços universais que ressoam com imaginários coletivos de um mundo diferente. Muitas comparaçons forom feitas com a Comuna de Paris, a Batalha de Stalingrado, a Guerra Civil Espanhola, e outros casos míticos de resistência popular.

Nos zigurates de Sumer, complexos de templos maciços da antiga Mesopotâmia, múltiplos mecanismos hierárquicos começarom a ser institucionalizados por primeira vez: o patriarcado, o estado, a escravitude, o exército permanente e a propriedade privada – o início da formalizaçom da sociedade de classes. Este era propôs umha ruptura social profunda caracterizada pola perda de status social das mulheres e o aumento do homem dominante, especialmente o sacerdote, que tomou o monopólio do conhecimento. Mas também é onde amargi, a primeira palavra para o conceito de liberdade, literalmente “o retorno à mae”, surgiu por volta do 2300 aC

Öcalan propon a ideia de duas civilizaçons: el afirma que, no final do período Neolítico, com o surgimento de estruturas hierárquicas na antiga Sumer desenvolveu-se umha civilizaçom baseada na hierarquia, violência, submissom e monopolismo -o “mainstream” ou “civilizaçom dominante”. Por outro lado, o que el chama de “civilizaçom democrática” representa as luitas históricas dos marginalizados, dos oprimidos, dos pobres e dos excluídos, especialmente as mulheres. O Confederalismo democrático é, portanto, um produto político e manifestaçom desta civilizaçom democrática milenar.

O modelo de autonomia democrática, por sua vez, nom é so umha perspectiva prometedora para umha soluçom justa e pacífica para os conflitos traumáticos da regiom; em muitos aspectos, o surgimento da revoluçom Rojava ilustra como a autonomia democrática pode realmente ser a única maneira de sobreviver. Neste sentido, a comuna revolucionária é um património histórico, umha fonte de memória colectiva para as forças da democracia em todo o mundo, e um mecanismo consciente de auto-defesa contra o sistema estatal. El carrega um legado milenar e manifesta-se em novas formas hoje.

O que une momentos históricos de resistência humana e o desejo de um outro mundo, desde os primeiros combatentes da liberdade da história até a comuna de Paris e a sublevaçom dos Zapatistas às praças da liberdade em Rojava, é o poder inquebrável a ousar imaginar. É a coragem de acreditar que a opressom nom é o destino. É a expressom do desejo antigo da humanidade de se libertar.

Bijî komunên me! Vive la commune!

 Este artigo foi originalmente publicado em Roar Mag e depois em Kurdishquestion.
Dilar-Dirik-140x140*Dilar Dirik, 23 anos, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

 

 

Murray Bookchin e a resistência curda

kurdish-woman-mainpor Joris Leverink e Foto de Uygar Önder Simsek.

As idéias municipalistas de Bookchin, umha vez rejeitadas tanto por comunistas e anarquistas, agora inspirarom a busca pola autonomia democrática curda.

A introduçom do novo livro The Next Revolution: Popular Assemblies and the Promise of Direct Democracy (Verso, 2015), explica como Murray Bookchin – nascido de imigrantes judeus russos em Nova York em 1921 – introduziu-se na política radical com a idade de nove anos quando se juntou aos Young Pioneers, umha organizaçom de jovens comunista. Este seria o início da sua ‘vida na esquerda “, na qual iria passar do stalinismo ao trotskismo nos anos seguintes até a Segunda Guerra Mundial antes de definir-se como anarquista no final de 1950 e, eventualmente, identificar-se como um”comunalista “ou ‘municipalista libertário “após a introduçom da idéia da ecologia social.

Mesmo que Bookchin nunca freqüentou a faculdade – com exceçom de algumhas classes em tecnologia da rádio logo após a Segunda Guerra Mundial – el escreveu duzias de livros e publicou centos de artigos acadêmicos, além de fundar várias revistas e criar o Instituto de Ecologia Social em 1974. Possivelmente a sua contribuiçom mais importante para a política radical foi o (re)-introduzir o conceito de ecologia à arena do pensamento político.

Bookchin opoe as idéias e práticas dos movimentos ambientalistas emergentes, acusando-os de defender apenas “correçons técnicas” do capitalismo, contra-posando-o a umha abordagem ecológica que visa combater as causas profundas do problema sistêmico. Na sua opiniom, a falha fatal do capitalismo nom reside na sua exploraçom da classe trabalhadora, como os marxistas acreditam, mas sim no seu conflito com o ambiente natural que, se permitiu desenvolver sem oposiçom, levaria inevitavelmente à desumanizaçom das pessoas e a destruiçom de natureza.

The Next Revolution inclui o ensaio The Ecological Crisis and the Need to Remake Society (1992). Nel, Bookchin defende que “a mensagem mais fundamental que a ecologia social avança é que a própria idéia de dominar a natureza deriva da dominaçom do home polo home.” Para desenvolver umha sociedade ecológica, em primeiro lugar a dominaçom inter-humana deve ser erradicada. De acordo com Bookchin, “o capitalismo e o seu alter-ego, o “socialismo de Estado “, trouxerom todos os problemas históricos de dominaçom à cabeça”, e a economia de mercado, se nom for interrompida, terá sucesso em destruir o nosso ambiente natural como um resultado da sua ideologia de “crescer ou morrer”.

Durante anos, Bookchin procurou convencer os grupos anarquistas nos EUA de que a sua ideia de municipalismo libertário – que, nas suas próprias palavras “procura recuperar a esfera pública para o exercício da autêntica cidadania enquanto rompe com o ciclo sombrio do parlamentarismo e a sua mistificaçom do “partido” mecanismo como um meio para a representaçom pública “- foi a chave para fazer o anarquismo política e socialmente relevante novamente.

O Municipalismo promove o uso de assembléias directas face-a-face, a fim de “roubar” a prática da política de volta dos profissionais, políticos carreiristas e colocá-la de volta nas maos dos cidadaos. Descrevendo o estado como “umha formaçom completamente alheia” e umha “pedra no sapato do desenvolvimento humano”, Bookchin apresenta o municipalismo como “democrático até o núcleo e nom-hierárquico na sua estrutura”, bem como “baseiado na luita para alcançar umha sociedade racional e ecológica”.

Para grande frustraçom de Bookchin, muitos anarquistas recusaron adotar as suas idéias, nom estavam dispostos a aceitar que, a fim de ser politicamente relevante e capazes de fazer umha verdadeira revoluçom, eles teriam de participar no governo local. Apesar de ter politicamente amadurecido na companhia de marxistas, anarquistas e sindicalistas, Bookchin em breve desenvolveu e mantivo críticas fundamentais com todas essas correntes, levando nom só o desenvolvimento da sua própria idéia da ecologia social, mas também deixando-o com muitos críticos na esquerda .

A resistência curda

No final de 1970, enquanto Bookchin se esforçava por ganhar reconhecimento para o valor e a importância da sua teoria da ecologia social nos EUA, umha luita totalmente diferente estava emergindo do outro lado do mundo. Nas regions montanhosas, principalmente curdas do sudeste da Turquia, umha organizaçom foi fundada que viria a adotar e adaptar a ecologia social de Bookchin.

A organizaçom chamou-se Partido dos Trabalhadores do Curdistam, ou PKK após sa ua siglas em curdo, e em 1984 lançou os seus primeiros ataques contra o Estado turco. Estas primeiras operaçons foram logo seguidos por outras e, eventualmente, desenvolverom-se três décadas de longa luita armada que nom foi ainda resolvida.

O PKK foi inspirado polo pensamento marxista-leninista e luitou por um Estado curdo independente que seria fundado sobre princípios socialistas. A pátria curda tradicional abrange territórios na atual Turquia, Iram, Iraque e Síria, mas tinha sido dividida no início do século 20, quando um acordo foi fechado sobre a divisom do antigo território otomano turco no Oriente Médio entre a França e o Reino Unido. As fronteiras entre a Turquia, Síria e Iraque forom estabelecidos no infame acordo de Sykes-Picot de 1916.

Apesar do desejo utópico de um dia ver os diferentes territórios curdos unidos, a luita do PKK focou principalmente na liberaçom do Curdistam do Norte, ou Bakur – os territórios curdos ocupados polo Estado turco. Ao longo da década de 1990, porém, o PKK lentamente começou a afastar-se do seu desejo de fundar um Estado-naçom curdo independente e começou a explorar outras possibilidades.

Em 1999, Abdullah Öcalan – fundador e líder do PKK – tornou-se objecto de umha disputa diplomática entre a Turquia e a Síria, onde el tinha estado dirigindo as operaçons do PKK depois de ter sido forçado a fugir da Turquia duas décadas antes. Síria recusou a abrigar e proteger o líder rebelde por mais tempo, deixando a Öcalan com pouca escolha a nom ser deixar o país em busca de outro refúgio. Nom muito tempo depois, el foi preso na Quênia e extraditado para a Turquia, onde foi condenado à morte – um castigo que foi mudado mais tarde à prisom perpétua.

A captura de Ocalan foi um ponto de ruptura para a luita de independência do PKK. Pouco tempo depois, a organizaçom revogada as suas reivindicaçons de um Estado independente em favor de exigir mais autonomia a nível local. Na cadeia, Öcalan começou a familiarizar-se com as obras de Bookchin, cujos escritos sobre a transformaçom social influenciou-o a desistir do ideal de um Estado-naçom independente e sim buscar um curso alternativo que el denominou ‘Confederalismo Democrático’.

Vários anos antes, após o colapso da Uniom Soviética em 1991, o PKK tinha já começado a reflexom crítica sobre o conceito de Estado-naçom. Nengumha das terras tradicionais dos curdos eram exclusivamente curdas. Um estado fundado e controlado por curdos teria assim acolhido automaticamente grandes grupos minoritários, criando o potencial para a repressom de minorias étnicas e religiosas, da mesma forma que os curdos tinham sido reprimidos por muitos anos. Enquanto, um estado curdo foi visto como umha continuaçom de, em vez de umha soluçom para os problemas existentes na regiom.

Finalmente, tendo analisado a interdependência do capitalismo e do Estado-naçom, por um lado, e entre o patriarcado e o poder centralizado do Estado, por outro, Öcalan percebeu que a verdadeira liberdade e independência só poderia acontecer umha vez que o movimento tinha cortado todos os laços com essas formas institucionalizadas de repressom e exploraçom.

Confederalismo Democrático

No folheto de 2005, a Declaraçom do Confederalismo Democrático, Abdullah Öcalan formal e definitivamente rompia com as aspiraçons anteriores do PKK de fundar um Estado-naçom curdo independente. “O sistema de Estados-naçom”, argumenta no documento, “tornou-se um sério obstáculo para o desenvolvimento da sociedade e da democracia e da liberdade desde o final do século 20″.

Na visom de Öcalan, a única maneira de sair da crise no Oriente Médio é o estabelecimento de um sistema confederal democrático”, que derivara a sua força diretamente do povo, e nom da globalizaçom com base em estados-naçom.” De acordo com o líder rebelde preso, “nem o sistema capitalista nem a pressom de forças imperialistas vam levar para a democracia; exceto para servir os seus próprios interesses. A tarefa é ajudar no desenvolvimento de umha democracia de base… que tome em consideraçom as diferenças religiosas, étnicas e de classe na sociedade.”

Logo após o chamado de Öcalan para o desenvolvimento de um modelo confederalista democrático, o Congresso da Sociedade Democrática (DTK) foi fundada em Diyarbakir. Durante umha reuniom em 2011, o organismo lançou sua chamada pola Autonomia Democrática em que exigiu a autonomia do Estado nas áreas de política, justiça, defesa, cultura, sociedade, economia, ecologia e diplomacia. A reaçom do Estado turco era previsível: sair em um caminho de confronto e criminalizaçom, imediatamente proibiu a DTK.

Nom é por acaso que a idéia de Confederalismo Democrática, como a desenvolvida por Öcalan, mostra muitos paralelos com as idéias de Bookchin da ecologia social. No início de 2000 Öcalan tinha começado a ler Ecology of Freedom and Urbanization Without Cities enquanto estava na prisom e logo depois declarou-se um estudante de Bookchin. Através dos seus avogados, Öcalan tentou marcar umha reuniom com o pensador radical para descobrir as maneiras em que poderiam ser aplicdas ao contexto de Oriente Médio as idéias de Bookchin.

Infelizmente, devido a problemas de saúde de Bookchin, no momento, esta reuniom nunca ocorreu, mas el enviou umha mensagem para Öcalan em maio do 2004: “A minha esperança é que o povo curdo, um dia, seja capaz de estabelecer umha sociedade racional livre que permita que o seu brilho mais umha vez florescer. Eles tenhem a sorte do feito de ter um líder de talento como o Sr. Öcalan para guiá-los.”

Em contrapartida, e como umha forma de reconhecimento da influência crítica de Bookchin sobre o movimento curdo, umha assembleia do PKK honrou-o como “um dos maiores cientistas sociais do século 20”, quando el morreu em julho do 2006. Eles manifestarom a sua esperança de que os curdos seriam a primeira sociedade a estabelecer o Confederalismo democrático, chamando o projeto de “criativo e realizavel.”

Duplo poder, Confederalismo e ecologia social

Durante a última década, o Confederalismo democrático lenta mas seguro tornar-se parte integrante da sociedade curda. Três elementos do pensamento de Bookchin tenhem particularmente influenciado o desenvolvimento de umha “modernidade democrática” em todo o Curdistam: o conceito de “duplo poder”, a estrutura confederal como o proposto por Bookchin sob o título de municipalismo libertário, e a teoria da ecologia social, que segue as raízes de muitas luitas contemporâneas de volta às origens da civilizaçom e coloca o ambiente natural no coraçom da soluçom para estes problemas.

Duplo poder:

O conceito da dualidade de poder foi umha das principais razons polas quais o corpo da obra de Bookchin foi rejeitada por grupos anarquistas, comunistas e sindicalistas. Em vez de defender a aboliçom do estado através de umha rebeliom do proletariado, el sugeriu que através do desenvolvimento de instituiçons alternativas na forma de assembléias populares e comitês de bairro – e nomeadamente através da participaçom em eleiçons municipais – o poder do Estado poderia ser “escavado”desde abaixo, eventualmente tornando-o supérfluo.

A disposiçom de Bookchin no sentido de tomar e construir instituiçons do poder provem da sua análise da política em oposiçom a arte de governar.. De acordo com Bookchin” marxistas, sindicalistas revolucionários e autênticos anarquistas tenhem umha compreensom falaciosa da política, que devem ser concebidas como a arena cívica e as instituiçons polas quais as pessoas democratica e directamente gerem os assuntos da comunidade.” O que normalmente é conhecido como “política” desde o ponto de vista de Bookchin como “arte de governar”, ou o tipo de negócio dos que se ocupam os políticos profissionais.

“Política”, em contraste, em vez de um tipo de prática intrinsecamente maligno que tantos revolucionários de esquerda acredita que precisa ser abolida, é na verdade a própria cola que une a sociedade em conjunto. É algo que precisa ser organizada de forma a evitar qualquer abuso de poder. “A liberdade a partir desde o autoritarismo só pode ser assegurado pola atribuiçom clara, concisa e detalhada do poder, nom por pretensom de que o poder e a liderança som formas de ‘governo’ ou por metáforas libertárias que ocultam a sua realidade”, escreveu Bookchin no seu ensaio The Communalist Project.

Do abraço curdo da idéia de Bookchin da dualidade de poder resulta o modo no que a DTK organiza os diferentes níveis da sociedade. A assembleia geral da DTK reúne-se duas vezes por ano, em Diyarbakir, a capital de facto do Norte do Curdistam. Dos 1.000 delegados, o 40 por cento som cárregos que ocupam posiçons diferentes eleitas dentro das instituiçons do governo, ao tempo que os restantes 60 por cento venhem da sociedade civil e podem ser membros de umha das assembléias populares, representantes de ONGs ou indivíduos nom afiliados. As decisons tomadas na assembléia som promovidas ao conselho da cidade por aqueles membros que ocupam lugares em ambos os corpos organizacionais.

Confederalismo

O sistema confederal também se manifesta claramente na estrutura organizacional do DTK. Em The Meaning of Confederalism, Bookchin descreve o Confederalismo como “umha rede de conselhos administrativos cujos membros ou delegados som eleitos de face-a-face em assembleias democráticas populares, nas diversas aldeias, vilas e até mesmo bairros das grandes cidades.” Esta explicaçom é um ajuste quase perfeito com a situaçom no terreno em muitos lugares da regiom curda na Turquia -, bem como no norte da Síria.

Um exemplo claro é a situaçom em Diyarbakir, onde o movimento de conselhos está particularmente bem estabelecida. No livro Autonomia Democrática no Curdistam do Norte, a situaçom é explicada pelos membros do Conselho Municipal de Amed (Amed é o nome curdo para Diyarbakir):

Amed tem treze distritos, e cada um tem um conselho com o seu próprio conselho. Dentro dos distritos há bairros, que tenhem conselhos de bairro. Alguns distritos tenhem até oito conselhos de bairro. E alguns lugares tenhem conselhos até mesmo no nível da rua. Nas aldeias próximas, existem comunas que estam vinculados ao conselho da cidade. Entom, o poder é articulado cada vez mais profundamente na base.

Como Joost Jongerden e Ahmet Akkaya escreve em Confederalismo e autonomia na Turquia: “o DTK nom é simplesmente umha outra organizaçom, mas parte da tentativa de forjar um novo paradigma político, definido polo exercício direto e contínuo do poder do povo através da vila, cidade e os conselhos municipais.”

Vale a pena notar que este novo paradigma político nom só é defendido por aquelas iniciativas que existem fora da esfera política institucionalizada, mas também por partidos políticos pró-curdos como o Partido Democrático das Regions (BDP) e o Partido Democrático dos Povos (HDP ). O objetivo final nom é estabelecer a Autonomia Democrática exclusivamente nas regions curdas, mas a nível nacional também, tanto na Turquia como na Síria.

A ecologia social

A Teoria da ecologia social de Bookchin é caracterizada pola crença de que “temos de reorganizar as relaçons sociais de modo que a humanidade poida viver em um equilíbrio de proteçom com o mundo natural.” A sociedade pós-capitalista nom pode ser bem sucedida a menos que seja criada em harmonia com meio ambiente ecológico.

Bookchin defende que “a mensagem mais fundamental que a ecologia social avança é que a própria idéia de dominar a natureza provém da dominaçom do home polo homem.” O Movimento da ecologia social para além da tradicional visom marxista e anarquista de como organizar umha sociedade nom-hierárquica e igualitária na medida em que coloca a necessidade de evitar umha catástrofe ecológica iminente no centro das luitas sociais contemporâneas.

Para os curdos, um povo tradicionalmente rural que vivem da agricultura e da gandeiria, manter o meio ambiente ecológico é tam crucial como a criaçom de umha sociedade igualitária. A destruiçom do meio ambiente nos seus países de origem montanhosos e na planície fértil da Mesopotâmia está ocorrendo diariamente impulsionado polo Estado.

O exemplo mais óbvio é o projeto GAP na Turquia, em que duzias de mega-represas já forom construídas ou estam em construçom. O projeto é apresentado como trazer desenvolvimento para a regiom, sob a forma de oportunidades de emprego nos lugares de construçom, melhor mega-fazendas produtoras de cultivos comerciais para a exportaçom, e fornecem trabalhos no dia para os pequenos agricultores expropriados e umha infra-estrutura energética melhorada com a construçom de regadios de várias usinas hidrelétricas.

O que é percebido como “desenvolvimento” por parte dos agentes do Estado é vivida de umha forma totalmente diferente polos povos que vem as suas casas e aldeias inundadas, os rios de escoamento livre transformarom-se em mercadorias, sendo as suas terras expropriadas e compradas por grandes corporaçons e utilizadas para a produçom em escala industrial de produtos que nom servem de nada, mas que para enriquecer os proprietários agrícolas nas suas distantes vilas. Estas grandes escalas, altamente destrutivos mega-projectos exponhem a necessidade urgente de control local sobre os ambientes locais.

Mas, enquanto arrebatar o meio ambiente natural, longe das garras destrutivas das forças capitalistas implica um confronto direto com o Estado, umha importante primeira – e potencialmente ainda mais revolucionária – etapa envolve a aboliçom da hierarquia ao nível interpessoal. Umha vez que, como argumentou Bookchin, a dominaçom dos humanos sobre a natureza provém da dominaçom de um ser humano em detrimento de outro, a soluçom tem de seguir umha trajetória similar.

A este respeito, a emancipaçom das mulheres é um dos aspectos mais importantes da ecologia social. Enquanto a dominaçom do home sobre a mulher permanece intacta, o tratamento do nosso ambiente natural como parte essencial e integrante da vida humana – ao invés de umha mercadoria a ser explorada para o nosso benefício – ainda está longe.

Neste sentido, os projetos emancipatórios em curso na sociedade curda som um sinal de esperança. Embora em muitos casos as relaçons sociais dentro das famílias curdas e da sociedade ainda estam guiados por costumes e tradiçons seculares, mudanças radicais já podem ser observadas. Como um ativista da Academia das Mulheres Amed expujo em umha entrevista com Tatort Kurdistan:

As famílias curdas ainda nom estám realmente abertas ao novo sistema, a Autonomia Democrática. Eles ainda nom o interiorizarom. Nós, as ativistas, temo-la muito interiorizada e é a nossa responsabilidade de fazer a mudança, para transmitir as idéias da Autonomia Democrática para as famílias, mesmo que seja apenas em pequenos passos. Nós podemos começar a falar sobre isso em casa a maneira de como fazemos no exterior. Quando as nossas famílias vem quam seriamente nós tomamo-lo, afetá-os. Claro, as discussons som frequentemente muito difíceis. Portas baterom, as pessoas gritam. Mas muita perseverança e discussom também começou a criar a mudança nas famílias.

Ouvir, aprender e seguir

Os desenvolvimentos no Curdistam – e especialmente no Curdistam sírio, a regiom curda no norte da Síria – tenhem agradado a imaginaçom radical de ativistas ao redor do globo. A revoluçom no Curdistam sírio foi comparada à Barcelona em 1936 e os zapatistas em Chiapas, em México. A esquerda radical precisa da sua própria mitologia, tanto quanto todos os outros, e, neste sentido o Curdistam sírio, Barcelona e Chiapas servem como lembretes esperançosos de que existe umha alternativa; que é possível organizar a sociedade de umha maneira diferente.

No entanto, por só colocar essas instâncias de organizaçom radical em um pedestal, como um farol de esperança para ser reverenciado quando os tempos ficam difíceis, o nosso apoio a estas luitas muitas vezes nom é muito diferente do apoio que exibimos quando animamos à nossa equipa de futebol favorita na TV. Os zapatistas nas selvas de Chiapas e os curdos nas planícies da Mesopotâmia já percorrerom um longo caminho, confiando em nada, mas que a sua própria força e determinaçom. O seu relativo isolamento permitiu o desenvolvimento das suas alternativas radicais, mas para estas experiências sobreviver no longo prazo, eles precisam mais que apoiantes e simpatizantes. Eles precisam de parceiros.

“O capital global, precisamente por causa da sua própria grandeza, só pode ser corroída nas suas raízes”, Bookchin escreveu em A Política para o Século XXI “, especificamente por meio de umha resistência municipalista libertária na base da sociedade. Deve ser corroída pelos milhons inumeráveis que, mobilizados por um movimento popular, desafiam a soberania do capital global sobre as suas vidas e tentam desenvolver alternativas econômicas locais e regionais para as atividades industriais “.

Bookchin acredita que, se o nosso ideal é umha comuna de Comunas, o lugar natural para começar é o nível político local, com um movimento e um programa como a “defensa inflexível dos bairros populares e as assembléias de povo e o desenvolvimento de umha economia municipalizada.”

Finalmente, a melhor maneira de apoiar as luitas dos curdos, dos zapatistas e de muitos outros movimentos e iniciativas revolucionárias que surgirom em todo o mundo nos últimos anos, é ouvindo as suas histórias, aprendendo com as suas experiências e seguindo os seus passos.

Umha confederaçom de municípios auto-organizados, transcendendo as fronteiras nacionais e as fronteiras étnicas e religiosas é o melhor baluarte contra as potências imperialistas e as forças capitalistas. Na luita para atingir esse objetivo, há exemplos piores a seguir do que as ideias expostas por Murray Bookchin e a prática do municipalismo libertário.

Joris Leverink é um jornalista freelance de Istambul, editor de ROAR Magazine e colunista da Telesur English.

Publicado em Roarmag.

Radicalizando a democracia: Poder, Política, Povo e PKK

RadicalizandoPor Joost Jongerden.

Resumo

Em 2005, o Partiya Karkêren Kurdistani (Partido dos Trabalhadores do Curdistam) (PKK) anunciou que considerava o Estado-naçom um obstáculo no caminho para a liberdade, e que o seu objectivo estratégico nom era o estabelecimento de um Estado, mas de umha rede interligada de conselhos como a base da auto-determinaçom e umha nova forma de viver juntos. O objetivo deste artigo é apresentar e explicar o entendimento da política do PKK e como evoluiu na década do 2000 ao olhar para dous conceitos: “O Confederalismo democrático” e “A Autonomia democrática” . Este artigo vai colocar esses conceitos em umha perspectiva histórica e comparativa, e contextualiza-los nos debates mais amplos em ciências políticas e sociais. A questom central para esta contribuiçom é a forma como estes conceitos dam sentido no contexto da teoria política, e como eles tenhem o potencial para colmatar as lacunas fundamentais na democracia moderna. Os dados forom recolhidos para o estudo de fontes primárias e entrevistas.

I. Introduçom

No seu programa fundacional do 1978, o Partiya Karkêren Kurdistani (Partido dos Trabalhadores do Curdistam) (PKK), expressa o objetivo de estabelecer um único (unido), estado independente chamado “Curdistam” (PKK, 1978). Ao longo do tempo, isto mudou. Em 2005, o PKK anunciou que considerava o Estado-naçom um obstáculo no caminho para a liberdade, e que o seu objectivo estratégico nom era o estabelecimento de um Estado, mas de umha rede interligada de conselhos com base na auto-determinaçom e um novo modo de viver juntos (PKK, 2005: 175). Desenhando e morrendo por fronteiras, argumentou Salih Müslüm, presidente do partido irmá do PKK na Síria, o Partiya Yekîtiya Demokrat (Partido da Uniom Democrática) (PYD), é umha doença europeia dos séculos 19 e 20. O modelo dos conselhos conectados, declarou el, é o modelo para o futuro (Müslüm, discurso no Parlamento Flamengo, em Bruxelas, 19-9-2014).

O objetivo deste artigo é apresentar e explicar o entendimento da política do PKK como evoluiu na década do 2000 ao olhar para dous conceitos que som fundamentais para o PKK do imaginário de umha nova arquitetura política: “O Confederalismo democrático” e “A Autonomia democrática”. Na minha discussom da autonomia democrática e o Confederalismo democrático, vou colocar essas idéias em umha perspectiva histórica e comparativa, e contextualiza-los em debates mais amplos em ciências políticas e sociais. Ao fazer sentido de autonomia democrática e Confederalismo democrático como umha práxis, ou seja, tanto ideia e engajamento, este trabalho visa também contribuir para um corpo de trabalho que tem como tema umha compreensom completa do PKK.

[1] O objetivo deste artigo, portanto, é discutir, no contexto curdo, as idéias da autonomia democrática e o Confederalismo democrático e mostrar a potencialidade destes como práticas para radicalizar a democracia. A questom central para esta contribuiçom é a forma como estes conceitos tenhem sentido no contexto da teoria política, e como eles tenhem o potencial para colmatar as lacunas fundamentais na democracia moderna. Os Dados forom recolhidos polo estudo de fontes primárias e entrevistas.

II. Democracia radical

Embora geralmente descrita como umha guerrilha/organizaçom armada, o PKK nom deve ser caracterizada em termos militares (ou similares), umha vez que é essencialmente umha organizaçom política, solicitado a usar a violência em circunstâncias em que nom havia alternativa (legalmente permitida) de caminho dumha genuína expressom política (Bozarslan, 2004: 23; Jongerden e Akkaya, 2011: 168-9). Os militantes ativos no PKK hoje igualmente nom se referem ao movimento como um movimento militar ou insurgente, como um militante declarou recentemente, por exemplo:

Todo o movimento curdo é umha revolta, mas eu nom quero dizer que o PKK é um movimento insurrecional. Nom o é. Os movimentos anteriores ao PKK forom revoltas, em termos do processo, metas, e ênfase geral, mas o PKK é muito mais do que isso, por isso nom deve ser chamado de um movimento insurrecional. O PKK é um movimento politicamente organizado, um movimento de libertaçom. Chamar ao PKK um movimento insurrecional restringe-o“. (Entrevista com o militante PKK, ED, 2014/06/08)

Quando o PKK foi fundado como partido político em 1978, tinha umha estrutura organizacional do tipo de partido comunista clássico. Lendo documentos do PKK, pode-se distinguir que o movimento tivo dous objectivos políticos desde o seu início. O primeiro foi implementar progressivamente o direito à auto-determinaçom, o segundo a reunificaçom, ou melhor, restabelecimento desde a esquerda, um restabelecimento previsto, tanto em termos organizacionais e ideológicos (Jongerden e Akkaya, 2012: 10). A perspectiva ideológica e política do PKK de “democracia radical” surgiu na década do 2000 com três projetos interligados: república democrática, autonomia democrática e confederalismo democrático, cada um destinado a funcionar como um “aparelho estratégico” com formas nas que as demandas políticas curdas som (re)definidas e organizadas (Akkaya & Jongerden, 2012: 22).

O projecto para uma república democrática que visa a dissociaçom da democracia do nacionalismo, o demos a partir da etnia. Concretamente, isso resultou na proposta de umha nova Constituiçom, em que a cidadania nom está definida ou mesmo concebida em termos de etnia, mas sim em termos da república cívica e direitos civis. Enquanto o projeto de república democrática dirigiu-se ao caráter do Estado, os projetos de autonomia democrática e o confederalismo democrático destinarom-se a desenvolver umha alternativa ao estado – política voltada para o povo – orientada e política emancipatória de conectividade. Esta política de conectividade baseia-se em um repensar a separaçom entre as pessoas, poder e política, como a tentativa de abordar estas desconexons.

O conceito de autonomia democrática nom se refere a umha forma de sub-soberania concedida às instituiçons dentro de um Estado soberano, a transferência de funçons e responsabilidades (limitadas) do Estado para as instituiçons que formam um sub-estado (Reyes e Kaufman, 2011), mas para um novo aterramento do estatuto político das pessoas, com base no auto-governo, em vez das relaçons das pessoas com o Estado (Duran Kalkan, comunicaçom pessoal, 28-10-2014). O PKK distingue cuidadosamente a autonomia democrática da autonomia. “A maioria das pessoas confundem autonomia democrática com autonomia”, confirma um alto membro do PKK, Cemil Bayık “-na verdade, nom há relaçom entre os dous”, afirmou (comunicaçom pessoal, 30-10-2014). Explicando isso, Bayık continua a dizer que, enquanto a autonomia leva o Estado-naçom como base, a autonomia democrática baseia-se no Confederalismo democrático.

O Confederalismo Democrático refere-se a umha organizaçom social que pode ser caracterizado como um sistema de baixo para cima de auto-administraçom, organizado na Turquia a níveis de vila (köy), bairro urbano (mahalle), distrito (Ilçe), cidade (kent), e regiom (bölge), denominado “Curdistam Norte” (Jongerden & Akkaya, 2013a). “O princípio básico do Confederalismo democrático “, continua Bayık “é o auto-governo das comunidades.” Em outras palavras, pode-se dizer, que a autonomia democrática é sobre a habilidade e capacidade de ter (ou recuperar) o control sobre as instituiçons políticas, econômicas e culturais , enquanto o Confederalismo democrático refere-se à capacidade de decidir e administrar. O objetivo nom é construir um Estado, mas desenvolver umha sociedade democrática. “Cinqüenta anos atrás, há cem anos”, argumenta Duran Kalkan (comunicaçom pessoal, 28-10-2014), “o Estado era pequeno e grande a sociedade, mas hoje, o Estado é todo e a sociedade nada.” Os projetos de autonomia democrática e Confederalismo democrático destinam-se a inverter esta situaçom, a desenvolver as capacidades de auto-governo do povo e, portanto, a radicalizar a democracia.

III. Autonomia Democrática e O Confederalismo Democrático: Ontem e Hoje

Seguindo o trabalho do Murray Bookchin, Abdullah Öcalan iniciou o debate sobre a autonomia democrática e o Confederalismo democrático entre os curdos (Biehl, 2012: 10; Öcalan, 2008). Bookchin diferencia entre duas idéias da política, o modelo Helénico e o Romana, que deu origem a dous imaginários diferentes de política e entendimento sobre o governo. O primeiro, o modelo Helénico, representa umha forma participativa e comunitária da política, com a qual se alinha Bookchin, e o segundo, o modelo romano, umha forma centralista e estatista, que el rejeita (White, 2008: 159). O modelo estatista romano, centralizado tem um rebanho dos indivíduos (Kropotkin, 1897), enquanto o modelo Helénico umha cidadania activa (Bookchin, 1991: 11). Bookchin argumenta que foi o modelo romano o que se tornou a forma dominante na sociedade moderna, introducido polos constitucionalistas norte-americanos e franceses do século 18. O modelo helénico existe como umha contra-corrente subterrânea, encontramos a sua expressom na Comuna de Paris de 1871, os conselhos iniciais (sovietes) que surgirom nos começos da revoluçom na Rússia, em 1917, e na Revoluçom Espanhola em 1936- 39.

Os projetos do Confederalismo democrático e a autonomia democrática do PKK estam em umha rica tradiçom de pensamento e de fazer política. Murray Bookchin (1991) colocou a autonomia e o Confederalismo em expressons da tradiçom helênica -como a Comuna de Paris (1871), os sovietes (conselhos) iniciais que surgiram na revoluçom na Rússia em 1917 e mais tarde foram suprimidos, e a revoluçom espanhola de 1936 -39- em oposiçom à tradiçom romana autoritária, base do molde da nossa política. Darrow Schecter (1994: 74-102) discutiu a corrente conselhista dentro do movimento comunista, referindo-se a Rosa Luxemburg, Antonio Gramsci e, em particular, Anton Pannekoek. Michael Hardt e Antonio Negri (Hardt & Negri, 2004), mas também Hannah Arendt relaciona o movimento dos conselhos em correntes na Revoluçom Americana e da idéia de “direito do cidadao do acesso à esfera pública” (Arendt, 1990 (1963): 127).

De acordo com Arendt, os conselhos som o tesouro perdido da revoluçom, o que representa “umha forma inteiramente nova de governo, com um novo espaço público para a liberdade, constituída e organizada durante o curso da própria revoluçom” (Arendt, 1990 [1963]: 249 ). Historicamente, esses conselhos forom estabelecidos em revoluçons na América, França, Rússia e Espanha; hoje, eles som revividos no Curdistam, sob a égide do Koma Civakên Kurdistan (Associaçom das Comunidades do Curdistam) (KCK), coordenado na Turquia pelo Kongreya Civaka Demokratik (Congresso da Sociedade Democrática) (KCD) e na Síria pelo Tevgera Civaka Demokratik (Movemento da Sociedade Democrática) (Tev-Dem).

A idéia do PKK da democracia radical pode ser visualizado a partir de umha perspectiva histórica, mas também pode ser comparado com os movimentos sociais atuais ou projetos em outros lugares. Alguns exemplos devem ser suficientes para dar umha impressom do horizonte mais amplo. Umha vez que o PKK tem sido comparado com o Exército Zapatista de Libertaçom Nacional (Exército Zapatista de Libertaçom Nacional) (EZLN) (Gambetti, 2009; Kucukozer, 2010), o ponto mais óbvio de referência contemporânea é o projeto político deste movimento. A autonomia democrática e o Confederalismo democrático que está sendo desenvolvido no Curdistam assemelha-se claramente a criaçom Zapatista de municípios autônomos em Chiapas (sul do México) (Stahler-Sholk, 2000) e a sua adesom à autonomia como um desenvolvimento de baixo para cima de auto-organizaçom e estruturas de direcçom e recursos. Como o PKK hoje, o EZLN nom afirma querer tomar o poder (no sentido de controlar o Estado), mas desenvolver alternativas o poder soberano do Estado através da criaçom de umha rede de práticas através das quais o auto-governo poida surgir. Como o PKK, o Zapatismo conceitua este auto-governo em termos de conjuntos, que nom som apenas as instituiçons da administraçom, mas também espaços de deliberaçom, com os delegados responsáveis e revogáveis e “com a possibilidade de rotar todos nos cárregos.” (Reyes & Kaufman, 2011: 516).

Também se pode encontrar semelhanças com a luta sócio-política do (principalmente do Brasil) Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para transformar a relaçom entre as pessoas e entre pessoas e o Estado e do desenvolvimento da idéia de umha cidadania activa (Wittman, 2009). Em termos mais gerais, pode-se notar a recente rodada de protestos e ocupaçons da rua em massa, do ativismo ambientalista e anti-globalista (nomeadamente com as manifestaçons anti-G8 e os distúrbios em Seattle, 1999) e o desenvolvimento do movimento Occupy, que também tem visto expressom no surgimento de movimentos espontâneos assembleários (por exemplo, em Istambul, 2013) e plataformas de democracia direta pré-existentes (por exemplo, People’s Assembly Movement, no Reino Unido).

IV. Poder, povo e Política

O projeto do PKK da democracia radical e a ideia de democracia de conselhos ou de auto-administraçom (Confederalismo democrático) e o desenvolvimento da autonomia potencialmente resolve três problemas: a separaçom do poder soberano do povo, a separaçom de pessoas umhas das outras e a separaçom do poder e política.

4.1. A Separaçom de poder soberano da Pessoas

Na moderna (século 18) antiga concepçom, a democracia era considerada a regra de todos por todos. No entanto, a maneira em que a ideia de democracia institucionalizou-se como “governo de autoridades que som responsáveis e removíveis pola maioria das pessoas em umha jurisdiçom” está longe de ser isso (Hardt e Negri, 2004). Arendt (1990 [1963]: 268-9) argumenta que “o governo representativo tornou, de fato governo oligárquico (…) embora nom no sentido clássico do sistema duns poucos no interesse duns poucos; o que hoje chamamos de democracia é umha forma de governo onde os uns poucos, polo menos supostamente, no interesse de muitos “- de modo que os mais dos cidadaos podem esperar estar “representados”, onde um sistema de representaçom implica umha delegaçom de interesses.

Na verdade, de acordo com Hardt e Negri (2004: 247), a representaçom tem umha natureza dupla na medida em que nom só a representaçom implica umha conexom entre o representante e o representado, mas também desconecta os governantes dos governados, “simultaneamente liga e separa.”: “quando o nosso poder é transferido para um grupo de governantes, entom já nom governamos, estamos separados do poder e do governo “(Hardt e Negri, 2004: 244). A separaçom das pessoas do poder soberano é umha base para a formaçom do estado, Hardt e Negri argumentam, definindo a democratizaçom como “[e] muito passo que estreita a distância entre representantes e representados,” assim, “neutralizar o monopólio estatal do poder” segue-se que a democracia “teria de ser construída a partir de baixo” (Hardt & Negri, 2004: 249, 251).

Para Arendt, este também deverá implicar a formaçom de opinions “em um processo de discussom aberta e debate público, “as pessoas precisam de se tornar pró-ativas, para conduzir o processo, umha vez que nom seria suficiente só o nosso apoio, enquanto a açom manteve a prerrogativa do governo “(Arendt, 1990 [1963]: 268-9, 271). é precisamente esta relaçom que o co-presidente do PYD, Salih Müslüm, critica, argumentando que as relaçons entre o Estado e as pessoas no Oriente Médio mais nas últimas décadas forom concebidas e praticadas em termos de um estado ativo com o povo como os seus objetos, enquanto o novo modelo de autonomia democrática e Confederalismo democrático baseia-se na cidadania activa, com as pessoas como sujeitos na sua capacidade de decidir e agir, debatendo problemas e soluçons articulado polo povo e para o povo (Salih Müslüm 19-9-2013 na Conferência sobre Modelos novos e umha soluçom para a questom curda, Parlamento flamengo, em Bruxelas). Na mesma linha, Cemil Bayık (comunicaçom pessoal, 30-10-2014) e Duran Kalkan (comunicaçom pessoal, 30-10-2014) argumenta que a mudança de paradigma inclui, entre outros, umha mudança de construçom do Estado para a construçom da sociedade e, relativamente, tomar o poder (‘iktidar’, como estado ou poder soberano) para o desenvolvimento de capacidades de auto-governo da sociedade.

4.2. A separaçom das pessoas umhas das outras

A representaçom nom só separa as pessoas do poder, mas também transforma a política a partir de umha capacidade do público para o privado. A furna representa a capacidade de escolha privada, já que se baseia em dar às pessoas o direito a título particular, o direito de voto. Essa relaçom, argumenta Arendt (1990 [1963]: 277), é transformada em um vendedor e comprador individual, enquanto a açom política é para ficar na frente dos outros e formar opinions, polo que o espaço de umha pluralidade de perspectivas sobre temas políticos pode ser formado (Sitton, 1987). A furna nom fornece um espaço para ser público e político, um espaço de encontro (Merrifield, 2011), mas apenas um de açom privada e a expressom da escolha (seleçom de umha determinada variedade de alternativas).

Segundo Arendt, a atividade política nom pode ser reduzida ao direito individual de escolha, umha vez que é também sobre um compromisso público com os outros, e, como ela observa (Arendt, 1958: 57), a importância de ser vista e ouvida polos outros deriva do fato de que toda a gente vê e ouve a partir de umha posiçom diferente. Para Arendt, a liberdade é a liberdade de agir como cidadaos, e isso significa participar, de ser ouvido, debater, a troca de opinions e toma de decisons. A liberdade, portanto, nom se trata de dar às pessoas o poder a título privado, mas das pessoas que estam sendo habilitadas na sua capacidade de cidadaos, através da criaçom de um espaço público. E, assim, Arendt (1990 [1963]: 253) referem-se a democracia dos conselhos como um tesouro da tradiçom revolucionária, dos espaços públicos de pessoas historicamente criado para formar opiniom e tomar decisons em conjunto. Na verdade, é um sistema de democracia de conselhos que iniciou o KCK (através da KCD e o Tev-Dem).

4.3. A separaçom do Poder e a Política

A autonomia democrática e o Confederalismo democrático também abordam o problema do que Bauman (2007: 1-2) chama a separaçom dos poderes e da política na sociedade moderna. Poder, definido como a capacidade de fazer as cousas, e política, a capacidade de decidir o sentido e a finalidade da açom, estavam disponíveis anteriormente para o Estado-naçom, mas eles divorciarom. A economia política muda -em particular, a globalizaçom do capital, em combinaçom com a contrataçom neoliberal de funçons anteriormente desempenhadas pola declaraçom transformou a política nacional e em formas de “um exercício prolongado para decidir o que deve ser feito- sem realmente ser capaz de fazê-lo. “(Roos, 2012). Sem a capacidade de fazer as cousas, a responsabilidade nom é muito mais do que um apelo. Sem a capacidade de decidir, a responsabilidade nom pode ser assumida. O projeto do PKK de autonomia democrática, pode-se dizer, é sobre a capacidade de control, enquanto o Confederalismo democrático é sobre a capacidade de decidir. Isto implicaria que os projetos individuais do PKK de autonomia democrática e o Confederalismo democrático contenhem a promessa de poder re-ligar a política, nom no contexto da política do Estado-naçom homogeneizada, mas sob a forma de um formulário baseado na assembléia de auto-governo.

V. Radical Política além do Retiro e o Compromisso

As idéias do Confederalismo democrático e a autonomia democrática tenhem o potencial para tratar umha série de desconexonss entre o poder, as pessoas e a política, mas eles também podem alterar a idéia da política radical. A política radical têm sido frequentemente debatidas no contexto de um dilema entre o retiro e o compromisso: a retirada das formas e das instituiçons políticas estabelecidas para desenvolver alternativas ou um compromisso com as formas e instituiçons estabelecidas, a fim de praticar a mudança. No seu trabalho sobre a ideia da democracia radical, Chantal Mouffe (2013) cria umha oposiçom entre as idéias de êxodo e compromisso. Êxodo aqui refere-se a umha forma de açom política que consiste em umha rejeiçom e a deserçom do Estado. O seu principal objectivo é o desenvolvimento de umha esfera pública nom-estatal e um radicalmente novo tipo de democracia baseado na construçom e experimentaçom de formas de auto-representaçom e democracia extra-parlamentar organizados em torno de conselhos. Este êxodo implica umha negaçom, no entanto, com o objectivo de tornar irrelevante o significado do Estado na vida diária. Em oposiçom a isso, Mouffe (2013) distingue umha política de compromisso, que afirma que a política radical deve-se envolver com as instituiçons, a fim de desarticula-las, separá-la dos discursos e das práticas existentes, com o objetivo de construir novos.

A primeira opçom, o êxodo, é a estratégia de Hardt e Negri, a estratégia dos movimentos de protesto que dizem “Nós nom queremos nada a ver com os partidos, com os sindicatos, com as instituiçons existentes, porque eles nom podem ser transformados; precisamos de montar e organizar novas formas de vida; devemos tentar a democracia no presente, e agir.”

[2] Esta é a posiçom da esquerda radical. A segunda opçom, a estratégia ao que Mouffe (2013) adere-se, é criar algo por envolver com as instituiçons existentes e transformar a política de umha arena de antagonismos, em que o outro deve ser derrotado, por meio de um agonismo no qual lidar positivamente com e aceitar as diferenças. Esta é a posiçom da esquerda reformista. No seu projeto de autonomia democrática e Confederalismo democrático, no entanto, o PKK nom parece fazer umha escolha entre o retiro ou compromisso: cria as suas próprias alternativas (os conselhos) enquanto se envolve com as instituiçons existentes (o município).

Esta posiçom dupla, de ambos os desenvolvimento com alternativas próprias enquanto se envolve com as instituiçons existentes, é perto do que Henri Lefebvre (2003) refere-se como “transduçom”. A transduçom de Lefebvre é conectar as práticas reais e o aterramento nas realidades do momento , nom, no entanto, aceitar as fronteiras existentes da sociedade contemporânea. O objetivo nom é conectar-se à luitas existentes e instituiçons ou ir além da ordem existente, mas para se conectar com as luitas existentes e ir além da ordem existente. “Nós nunca devemos permanecer contidos dentro do real”, Lefebvre di: “devemos sempre avançar em direçom ao virtual, o que ainda nom foi actualizado.” (Purcell, 2013: 320) Elo representa um compromisso radical com o real, sem limitar-se ao que existe.

O desenvolvimento de alternativas nos trae novamente a diferença entre autonomia e autonomia democrática, conforme o indicado polo líder PKK, Cemil Bayık. A autonomia, como indiquei, está baseada na transferência de funçons e responsabilidades (limitadas) do Estado para as instituiçons que formam um sub-estado, enquanto a autonomia democrática refere-se a práticas em que as pessoas produzem e reproduzem as condiçons necessárias e desejadas para viver através de contactos directos e colaboraçom dos uns com os outros, no domínio político, mas também nos domínios económicos e culturais. Essa idéia de reproduçom das condiçons necessárias e desejadas para viver juntos é conceituada como “auto-valorizaçom” na literatura marxista autonomista.

O conceito de auto-valorizaçom foi desenvolvido em (1991) na leitura de Toni Negri de Marx para além de Marx, na qual Negri apresenta umha leitura alternativa de Marx que concede primazia nom ao capital, mas ao trabalho. Essa inversom da perspectiva, tam típico da abordagem marxista autónoma, trouxo a idéia de “práticas de autonomia” e “auto-atividade” para o centro dos debates e análises (Tronti, 1980) e “fornece um conceito útil ao chamar a nossa atençom para as luitas que vam além da resistência com vários tipos de positivo, socialmente constitutivas de auto-atividade “(Cleaver, 1993). Na mesma linha de pensamento, o filósofo e pedagogo Ivan Illich chamou a atençom para a necessidade de recuperar a vida do Estado e dos seus profissionais através do desenvolvimento de capacidades autónomas.

O desenvolvimento da sociedade moderna, argumenta Illich (1977), vem junto com umha guerra de atividades de subsistência autónomas – em que precisamos ler atividades de subsistência, nom só em termos de organizaçom econômica da vida, sobre o qual o pensamento marxista está principalmente preocupado, mas também de atividades que sustentam a vida humana em outros campos, como a escolaridade e saúde, dous dos campos aos que Illich dirigiu a sua atençom, e à política, umha questom discutida por Arendt (1990 [1963]). O funcionamento negativo das instituiçons modernas está minar as capacidades de auto-ajudá e as capacidades das pessoas, subordinando as atividades produtivas humanas para o comando de profissionais. A autonomia democrática é sobre recuperar o trabalho da esfera da produçom de valor e recuperar a vida dos profissionais e no desenvolvimento de capacidades de auto-governo (Gibson-Graham, et al., 2013). Como a idéia de auto-valorizaçom dos italianos autônomos-marxistas e a ideia de Illich de desenvolver capacidades autónomas, a autonomia democrática, desenvolvida polo PKK nom é tanto um projeto de resistência, mas umha das alternativas de construçom. “Ser um movimento revolucionário significa construir e nom destruir”, dixo Cemil Bayık em umha entrevista recente (comunicaçom pessoal, 30-10-2014). A construçom de umha nova sociedade, o PKK acredita hoje, baseia-se no desenvolvimento de novas formas de gestom e de governo para além da ordem existente. Como tal, nom visa destruir a ordem existente, mas visa torná-la irrelevante através da construçom de alternativas.

VI. conclusons

Este artigo analisou a compreensom do PKK da democracia radical através da exploraçom de dous dos seus conceitos-chave ou projetos: a autonomia democrática e o Confederalismo democrático. Eu nom só olhaei para a forma como estes projectos foram definidos polo PKK, mas também apresentei os conceitos em umha perspectiva histórica e comparativa. No que respeita à dimensom histórica, mostrei como as idéias e práticas da autonomia democrática e o confederalismo democrático conectam com umha contra-corrente na história política, referido como o modelo Helénico. Este modelo representa umha forma participativa de democrática da política, com base na cidadania activa. No que respeita à dimensom contemporânea, centrei na semelhança entre, por um lado, as idéias do PKK e as práticas da autonomia democrática e confederalismo democrática, e por outro, os experimentos e as experiências em outros lugares, referindo-me especialmente ao EZLN no México e MST em Brasil.

A autonomia democrática e o Confederalismo democrática têm o potencial de abordar problemas fundamentais da democracia representativa, ou seja, a separaçom das pessoas de poder, a separaçom das pessoas umhas das outras e a separaçom da política e o poder. Explorei esse potencial referindo-nee ao o trabalho de, entre outros, Antonio Negri e Michael Hardt, Hannah Arendt e Zygmunt Bauman. Também indiquei que pensar e trabalhar ao longo do eixo da autonomia democrática e o Confederalismo democrático vem junto com um repensar a política progressista. Nom se trata de umha escolha entre retirada e compromisso; é umha escolha para a transduçom, a conexom com luitas existentes a mover-se para o que ainda nom foi actualizado.

Estas questons -as dimensons históricas e contemporâneas do projeto do PKK da autonomia democrática e o Confederalismo democrático, a reconexom das pessoas, poder e política, e a questom da transduçom- só forom abordados aqui. Mais do que um tratamento elaborado das questons, isto representa um esboço de umha possível agenda de pesquisa teórica e empírica. No entanto, o que está claro é que pensar ao longo das linhas da autonomia democrática e o Confederalismo democrático tem o potencial para resolver falhas fundamentais na nossa política contemporânea e radicalizar a idéia de democracia.

Joost Jongerden é Professor Adjunto da Universidade Wageningen.

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VIII. Notas

[1]Para isto, ver Akkaya and Jongerden (2011, 2012), Grojean (2014), Gunes (2012),Gunes and Zeydanlioglu (2013), Imset (1992), Jongerden and Akkaya (2011, 2012,2013a, b) and Marcus (2007).
[2]Ver ‘A Vibrant Democracy Needs Agonistic Confrontation’ – An Interview with Chantal Mouffe. [Accessed date 6 March 2015].

Artigo publicado em Research Turkey e posteriormente em Kurdish Question.

Dr. Jeffrey Miley: Um Oriente Médio Além da opressiva Estado-Naçom e o imperialismo é Possível: Rojava

JeffreyO *Dr. Thomas Jeffrey Miley  é entrevistado por Rosa Burc para Kurdish Question.

Quando o paradigma do Estado-naçom esta falhando e o federalismo já nom é umha soluçom: o modelo do Confederalismo democrático é a única alternativa viável.

Quanto viável é o paradigma do Estado-naçom no mundo de hoje? É hora de ir além do conceito de Estado-naçom?

Bem, o conceito de Estado-naçom é de dois gumes. Historicamente, surge com umha promessa emancipatória, associado com a transferência da noçom de soberania que se encontra nas maos do monarca e os aristocratas para as maos do povo, daí a naçom entendida como o povo. Isso está muito associado com a Revoluçom Francesa. Isto tem um espécie de apelo emancipatório em grande parte do século 19. O nacionalismo na Europa estivo associada a este apelo democrático: a naçom é umha fonte de legitimaçom democrática para o exercício do poder político. No entanto, ao longo do século 19, transformou-se em um apelo para um grupo étnico particular, umha espécie particularista da história por um lado e por outro lado, tornou-se utilizada por pessoas no poder para justificar e para obter apoio popular para projetos imperiais em muitos dos países imperiais. Assim ve-se a Gram Bretanha apelando a um conceito de anglicismo, para obter que a classe trabalhadora identificara-se com projetos imperiais. Este também é o caso, por exemplo, na Rússia, onde um nacionalismo oficial de estado foi propagado. Esta é umha problemática histórica que culminou na Europa de entreguerras com a ascensom do fascismo e com atores estatais que utilizam este recurso para o país mobilizar as massas do povo.

Mobilizar massas, a fim de manipular para um projeto nacionalista?

É isso mesmo, utilizar massas do povo para projetos reacionários. Agora, essa transiçom de ‘povo’ causa “meu povo” todos os tipos de problemas em um mundo que estám inevitavelmente misturadas. Portanto, há comunidades linguísticas heterogêneas, comunidades étnicas, comunidades religiosas e similares, que podem ser considerados como componhentes culturais de identificaçom nacional. A criaçom do Estado-naçom após a separaçom de umha entidade imperial nom resolve o problema das minorias étnicas, daí o problema da maioria-minoria. Apenas cria novas fronteiras, que criam novas minorias e maiorias.

Podemos dizer que esses mecanismos de criaçom de novas fronteiras, portanto, re-executam umha dicotomia maioria-minoria ou sistematicamente marginalizam certos grupos dentro da sociedade som inerentes ao paradigma do Estado-naçom?

Sim, em alguns aspectos. Isso é com relaçom aos projetos de construçom nacional dos Estados. Isto é principalmente uma questom de cima para baixo na construçom da naçom. Sim, as pessoas que estam no control do estado usam qualquer tipo de ideologia, a fim de legitimar a sua permanência no poder. Este é o outro lado do estado ideal – o elemento histórico do mesmo. Entom eu diria que há um elemento contemporâneo particular, que está associado com o âmbito de governança que o Estado-naçom fornece. Qual é, por um lado demasiado grande de um espaço para a participaçom democrática, mas por outro lado muito pequeno de uma margem para o controle democrático sobre as forças de dominaçom do mundo. O período de dominaçom neo-liberal global, em particular é algo que nós sempre temos que ter em mente. Temos uma muito coesa classe capitalista organizada, que é transnacional no seu âmbito e do próprio Estado-naçom é, como eu disse, muito grande para a participaçom direta eficaz e, certamente, muito pequena para regular governar e controlar as forças da dominaçom capitalista.

Que dirias sobre a tentativa de construir estados mais descentralizados, usar o federalismo como um meio de democratizar a instituiçom estatal. Achas que esta é umha alternativa para os limites do Estado-naçom ou o federalismo também segue os mesmos paradigmas?

Nos lugares onde tenha territorialmente concentradas as minorias étnico-nacional, o federalismo pode fornecer talvez uma soluçom, mas digamos um paradigma de trabalho a partir do qual as instituiçons democráticas representativas tanto pode ter um apelo a maiorias globais no estado, mas também criar maiorias locais. O problema que as minorias nacionais tenhem frequentemente é que elas podem ser umha minoria permanente. Umha estrutura federal pode dar um espaço, onde essas minorias nacionais estam concentradas territorialmente – um espaço onde elas podem constituir umha maioria. Entom, com isso em relaçom o federalismo pode ser associado a, e alguns dos defensores das idéias federais vai associá-lo, superar um projeto nacionalista nacional ou mono-nacional unitário em abraçar umha concepçom mais multi-nacional de pertencimento o estado.

Será que a criaçom de maiorias locais dentro de um sistema federal rompem com a problemática da hegemonia e da hierarquia ou realmente cria tensons semelhantes, daí reconstrue as mesmas problemáticas a nível local?

Pode criar tensons semelhantes no nível local, sim. É por isso que eu digem que nom resolve o problema. Além disso, há sempre a tentaçom das maiorias locais para utilizar os seus poderes federais, a fim de construir o Estado-naçom a partir de dentro do estado existente. Vemos certas tentaçons para este na Catalunha, por exemplo. Mas de modo mais geral, eu diria, o federalismo com a descentralizaçom pode levar a democracia mais perto, mas também está ligada a umha certa afinidade entre a descentralizaçom de poder e de dominaçom capitalista – quando pensamos do ponto de vista da democracia. A democracia tem dous elementos diferentes, tem a igualdade de participaçom, e, nesse aspecto quanto menor o nível de governança, melhor – em um assembleia que poida a minha voz ser ouvida diretamente por exemplo. Por tanto, há esse elemento participativo da democracia, mas há também a questão do âmbito da governabilidade. Em um assembleia, é difícil regular eficazmente as cooperaçons multinacionais. Vimos nas últimas décadas que há uma afinidade entre um projeto neo-liberal e umha tentativa de enfraquecer os Estados, descentralizando-os – porque um estado enfraquecido é mais fácil de controlar. Podes pensar na divisom do mundo em estados nacionais em um momento de um control capitalista coordenado globalmente – como dividir e conquistar a lógica e o trabalho. Aqui eu acho que a federalizaçom de todos os tipos de control econômico ou de tomada de decisons, por exemplo, sobre a divisom dos recursos a nível nacional nos Estados Unidos, onde os estados ricos nom querem compartilhar com os estados pobres – estados entendidos como subunidades federais. Portanto, nom há essa afinidade entre o federalismo, por um lado e a descentralizaçom, do outro, bem como a dinâmica de dividir e conquistar. Apesar dessas dinâmicas do federalismo nom oferecem um certo atrativo à participaçom democrática. Mas a unidade federal também é muitas vezes demasiado grande para a participaçom local eficaz. Os tipos de cousas que as pessoas falam em assembléias populares estam no município ou mesmo no nível de bairro local. Entom o federalismo apresenta diversos níveis de governaçom, no entanto, ainda pode ser umha estrutura em que as pessoas estam efetivamente marginalizados e sem poder – especialmente se estamos a falar da unidade federativa ter milhons de pessoas na mesma.

Menciona-ches a tentaçom de usar os poderes federais para construir um Estado-naçom dentro de um Estado-naçom, ou a construçom de uma maioria crescente em favor de uma agenda separatista, como é o caso da Catalunha, por exemplo.

Nom é uma coincidência que a vaga de separatismo na Catalunha, que é uma das regions mais ricas da Espanha, está associada com a política do neoliberalismo na Catalunha – nom exclusivamente, é claro, mas, hegemonicamente. Em um momento de difíceis, dolorosas medidas de austeridade que estám a ser implementadas, o aumento deste apelo popular que todos os problemas venhrm de Madrid, por exemplo – o que nom quer dizer que nom existam problemas com relaçom ao nacionalismo espanhol. Eu acho que existe cumplicidade entre as autoridades da Catalunha culpando a Madrid e as autoridades de Madrid culpando os catalans e mobilizando o resto da Espanha contra os catalans. Ao mesmo tempo, as autoridades de ambos os lugares estám igualmente comprometidas com a implementaçom de medidas de austeridade. Assim umha espécie de cortina de fume dinâmica pode surgir dentro das unidades federais. Novamente, isto nom quer dizer que umha re-centralizaçom ou um modelo centralista seria mais viável. Em verdade, seria menos viável. No entanto, é interessante notar que muitos movimentos nacionalistas realmente aspiram a um Estado-naçom concebido como umha linha nacionalista unitária.

Com relaçom às transiçons democráticas e do que dixo sobre o caso catalam, que conduze à conclusão de que o federalismo tem também os seus limites para alcançar umha transiçom democrática e também em propor um modelo alternativo à dominaçom capitalista, bem como ir além do paradigma de estados-naçom. Assim que poderia ser um sistema alternativo, entóm?

Deixe-me ser claro sobre o que eu acho que o caso espanhol tem que oferecer, se olhas para el a partir do ponto de vista dos curdos na Turquia. O Estado turco tem um forte tipo de idéia unitária nacionalista, que é muito semelhante ao nacionalismo unitário do regime de Franco. Essencial para a transiçom para uma democracia e o êxito dessa transiçom foi um acordo entre os representantes democráticos da oposiçom democrática e consagrados no pacto constitucional de 1978 para a descentralizaçom e o surgimento de estruturas quase-federal. Assim, umha acomodaçom das minorias nacionais, reconhecimento da pluralidade nacional e linguística e similares, o que foi crucial para o pacto constitucional, que permitiu a transiçom para a democracia representativa. A esse respeito eu acho que do ponto de vista dos curdos na Turquia, que nom tenhem direitos linguísticos, nom tenhem nengumha instituiçom historica de control, a construçom de um movimento autônomo seria certamente um avanço. Também é um avanço na medida em que el se move em direçom a re-conceptualizar o que significa pertencer a Espanha ou a Turquia. O processo de re-conceptualizaçom é um projeto longo de superar esse ideal nacionalista unitário. Eu acho que o nacionalismo turco realmente poderia aprender com o nacionalismo espanhol em termos de que a reforma. Mas, obviamente, os temores de que a federalizaçom e acomodaçom ao longo destas linhas podem levar ao separatismo é algo que os recentes acontecimentos na Catalunha – embora tenha 30-40 anos de paz e democracia representativa – mais umha vez mostra que nom existe tal cousa como umha panacéia institucional ou de salvaguarda para o representante democrático “viver juntos”.

Acha que o modelo do Confederalismo democrático que está sendo estabelecido em Rojava está oferecendo umha alternativa para os problemas dos Estados-naçom e federalismos lideradas polo Estado?

O Modelo do Confederalismo democrático de Öcalan tem em algum aspecto algumhas afinidades com a noçom federal, para ser visto em particular na idéia de garantir a representaçom política de diferentes minorias nacionais. Mas em outros aspectos, fica longe de umha noçom territorial de constituir maiorias territoriais e também, claro, oferece umha alternativa democrática participativa radical ao ideal democrático representativo. Eu acho que o modelo de Öcalan está realmente mais perto de – digamos, por exemplo, compreensom Austro-marxista de como lidar com as diversidades e desvincula-lo de aspiraçons territoriais completamente. O ideal federal ainda é um ideal que está construído em cima de umha noçom de ‘neste território que constituem a maioria’. O ideal de Öcalan está mais ligado aos direitos como membros de umha comunidade. Está tentando acabar com esta lógica da maioria contra minoria, consagrando a representaçom das minorias, da participaçom e organizaçom de grupos minoritários. No Oriente Médio, este é um modelo muito importante e promissorio. Vemo-lo a ser implementado em Rojava. Desde Israel-Palestina, em todo o Oriente Médio, o modelo confederal democrático de Öcalan fornece a única alternativa viável para uma luita entre nacionalismos diferentes, projetos hegemônicos exclusivos e excludentes. Deixe-me ser mais claro, eu acho que é umha oportunidade muito promissor que surge, no entanto, no meio de um desastre que é a guerra e o colapso do estado na Síria e no Iraque. Em muitos aspectos, tinhas regimes tirânicos, mas eles também eram estados. O colapso e a destruiçom do estado no Iraque e na Síria levou a catástrofes humanas. É fora dessa catástrofe – pesadelo hobbesiano por assim dizer – que surge essa possibilidade alternativa encarnada na revoluçom da Rojava, mas é importante entender que está emergindo no cenário de umha tragédia.

Apesar do feito de que a luita contra o ISIS em Kobanê e Shengal continua, as pessoas começaram a reconstruçom das cidades e também com a implementaçom do modelo do Confederalismo democrático de Öcalan. Estiveches em Rojava, como viches a situaçom atual?

Fiquei extremamente impressionado com a disciplina revolucionária e a mobilizaçom coletiva de um povo em armas contra uma ameaça existencial para a sua existência. Com os tipos de tragédias humanitárias que estam no contexto em torno deles ver essas pessoas mobilizando-se para a sua sobrevivência na busca de ideais muito nobres e admiráveis de alojamento multi-cultural, multi-étnico, multi-religioso e emancipaçom das mulheres, que é umha parte muito importante deste projeto revolucionário e no contexto do Oriente Médio, em particular, é algo que é extremamente admirável. Dadas as justificativas para a dominaçom imperial sobre a regiom com base nos tipos de afirmaçons como “No Oriente Médio, eles nom sabem como tratar as suas mulheres ‘etc. iste revela-se crucial.

Podemos dizer que é a revoluçom da Rojava – por primeira vez – ajudou-nos a superar a narrativa orientalista? Será que a revoluçom da Rojava é um momento emancipatório além do Curdistam?

Em termos de questom da emancipaçom das mulheres, a questom da existência ou nom de ‘essas pessoas som capazes de governar-se a si mesmos “, a revoluçom da Rojava demonstrou um projeto de auto-governo, em que a emancipaçom e participaçom das mulheres está institucionalmente consagrado e garantido. Este tipo de constitucionalismo revolucionário que é um desenvolvimento interessante também, porque nós tendemos a pensar no constitucionalismo associado com estados democráticos representativos que som ricos em representaçom e baixos em democracia. Aqui nós temos um modelo direto de democracia participativa que ao mesmo tempo constitucionaliza os direitos das mulheres, os direitos das minorias étnicas e religiosas. Eu acho que isso sem dúvida sobressai como umha terceira via entre os tiranos autocráticos que governavam toda a regiom nas últimas décadas, por um lado e por outro lado a ascensom do islamismo político, de umha inclinaçom decididamente reacionária que está sendo propagada polos sauditas e Qatar, em particular. O modelo de Confederalismo democrático de Öcalan é umha terceira via, umha alternativa que é muito mais atraente do que quaisquer outros desenvolvimentos no Oriente Médio, na última década ou assim após a invasom criminosa do Iraque.

Falando nom só sobre a regiom do Curdistam, mas de modo mais geral – por exemplo, olhando para o conflito em Israel e na Palestina ou semelhantes – acha que o modelo do Confederalismo democrático de Öcalan que actualmente está a ser implementado em Rojava tem o potencial para iniciar umha soluçom ou até mesmo a paz?

Com relaçom à questom de Israel-Palestina, a soluçom de dous estados nom parece estar no horizonte, apesar de ter sido empurrado por tanto tempo. Nesse mesmo tempo vê-se a expansom de um nacionalismo sionista por um lado e por outro lado é preciso questionar o que a realizaçom de um estado palestino realmente significaria para a liberdade da Palestina. Eu acho que o modelo confederal democrático é umha alternativa, o que podemos dizer em um sentido está ligada a umha soluçom de um Estado, ou, talvez, umha soluçom de nengum estado. É umha ‘soluçom ao Estado “, na medida em que nom é umha forma independentista de lidar com o conflito, mas ao mesmo tempo nom é necessariamente um modelo de estado, porque está ligado à participaçom democrática radical, portanto, umha” soluçom de nengum estado ‘.

Entom, potencialmente conduze à liberdade em um sentido mais amplo?

Com certeza, eu acho que isso é como umha alternativa viável e desejável seria semelhante para conflitos como o de Israel-Palestina, por exemplo. No entanto, obviamente, é muito difícil de obter em particular que os israelenses tornem-se razoáveis, eles preferem o seu projeto nacionalista de dominaçom. É bastante semelhante na Turquia, em relaçom ao nacionalismo turco. Eu acho que a Turquia e o nacionalismo turco tem muito a aprender com o modelo confederal democrático de Öcalan. Com relaçom ao Médio Oriente, temos de pensar na populaçom árabe e a maioria sunita, em particular, penso que este é realmente o desafio para a revoluçom da Rojava, para o modelo do Confederalismo democrático de se envolver no mundo árabe. Aqui eu vejo umha das principais dificuldades para os revolucionários em Rojava. Como é que a revoluçom da Rojava vai espalhar esta mensagem para o mundo árabe? Aqui é onde eu acho o dilema para os revolucionários curdos, em particular, surge e é mais emblematicamente representada pola muito estreita colaboraçom entre as autoridades americanas, a aliança da OTAN e o governo regional curdo no Iraque – em especial na defesa de Kobanê. Por um lado, esta colaboraçom tem sido obviamente útil para as forças revolucionárias no terreno, em termos de ajudar a defender a cidade a partir do assalto do ISIS, mas, por outro lado, uma coordenaçom muito estreita com as forças imperialistas é algo que nom pode ser muito atraente para a maioria árabe e pode criar problemas políticos, no que respeita à credibilidade da revoluçom nos olhos da maioria árabe e o mundo sunita. Eu acho que temos que deixar claro que as fontes de recursos do ISIS tem que ver com a sua aparentemente – e digo aparentemente – oposiçom implacável ao imperialismo que o ISIS representa. Digo “aparentemente” porque por trás ISIS tes a Arábia Saudita, Qatar e as evidências – que muitos dos revolucionários em Rojava foram consistentemente apontar – das autoridades turcas facilitando os ataques do ISIS que é um dilema interessante para a NATO, dado o feito de que a Turquia é um membro da OTAN. Entom, eu acho que é muito importante ressaltar que muitos dos sunitas árabes, que som talvez simpatizantes com o ISIS como umha força aparentemente anti-imperialista, as ligaçons entre o ISIS e o imperialismo. Penso que é umha questom crucial na medida em que a sustentabilidade futura da revoluçom depende da sua capacidade de se espalhar para além da Rojava, além do Curdistan em um projeto mais amplo para o Oriente Médio – que é a mensagem visionária de Öcalan.

Nom é o modelo do Confederalismo democrático que Öcalan propom por natureza já algo anti-imperialista e polo que as potências imperialistas se sentam ameaçadas? Especialmente olhando como el derruba sistematicamente todos os tipos de estruturas hierárquicas e hegemônicas, indo para o nível muito local e comunitário da governaçom democrática, portanto, por exemplo, a implementaçom da democracia de base etc.

Bem, certamente. Como cidadao americano, é muito claro para mim que a razom pola qual a regiom está em chamas tem que ver com o feito de que a regiom, é muito rica em recursos naturais, petróleo em particular. Certamente, as potências imperialistas nom tenhem interesse em o povo da regiom que tem o control sobre os recursos da regiom. Especialmente se as pessoas tenhem a idéia de estabelecer um modelo confederal democrático, que é ao mesmo tempo amigável para o meio ambiente e às questons ecológicas. Esta é umha outra dimensom crucial também. Por outro lado, as exigências da guerra conduziram a esta colaboraçom, mesmo que às vezes as autoridades curdas no Iraque traíram a sua etnia em Rojava quando pressionados polas autoridades turcas para o fazer. Esta colaboraçom com as potências imperialistas pode ser umha ferramenta útil a curto prazo na defesa da revoluçom, mas a longo prazo, pode criar grandes problemas para a legitimaçom do projeto revolucionário em Rojava além do Curdistam.

Concordas que o modelo do Confederalismo democrático de Öcalan nom é apenas umha alternativa ao paradigma das naçons-estados centralizados, portanto, para as realidades dos Estados-naçom anti-democráticos, mas também oferece umha oportunidade para minimizar a influência imperialista na regiom?

Essa é a esperança do mesmo. Na medida em que os ideais democráticos radicais da revoluçom da Rojava estam incorporados e postos em prática, eles exigiriam umha oposiçom implacável ao imperialismo, sim. A implementaçom desses ideais certamente significam o oposto da dominaçom e control imperial.

Portanto, esta “terceira via”, que foi proposta por Öcalan e até agora vem sendo discutida como umha alternativa para o Curdistam e mais amplo no Oriente Médio, também poderia servir de exemplo para superar essas dinâmicas de poder opressivas que ocorrem em todo o mundo?

Sim, o modelo do Confederalismo democrático de Öcalan é a superaçom dos limites do Estado-naçom, superando as fronteiras das limitaçons da democracia representativa e oferecendo umha alternativa ao capitalismo, que é crucial se nós, como humanidade imos lidar com o grandes problemas que temos que lidar com o fim de sobreviver: a sustentabilidade ambiental sendo uma questom urgente, as questons de lidar com as tecnologias de destruiçom ser outra questom – e muito menos com a questom da emancipaçom humana, por usar a velha terminologia marxista – estas som todas as coisas que estam consistentes com o modelo confederal democrático e inconsistente com a hegemonia capitalista liberal-democrática.

Muito obrigado Dr. Miley.

jmiley* Dr. Thomas Jeffrey Miley é professor de Sociologia Política no Departamento de Sociologia na Universidade de Cambridge. Ele recebeu seu B.A. do U.C.L.A. (1995) e seu doutorado na Universidade de Yale (2004). Foi um investigador contratado M. García-Pelayo at the Centro de Estudios Políticos y Constitucionales em Madrid (2007-2009). Os seus interesses de investigaçom incluem nacionalismos comparativos, a política de migraçom, religiom e política e teoria democrática.

Depois da Revolta: Liçons da Rojava para Baltimore

Baltimorepor Ben Reynolds para RoarMag

A revolta de Baltimore mostrou que a açom direta pode forçar concessons do Estado. O que ainda falta é umha estratégia coerente para a mudança radical.

O 19 de abril, Freddie Gray morreu de graves lesons na coluna vertebral em um centro de traumatismo em Baltimore. Umha semana antes, Gray fora detido por oficiais do Departamento de Polícia de Baltimore depois que el “figera contato visual” com um policia e votou correr.

Um vídeo do incidente mostra à polícia arrastando o corpo mole de Gray para um furgom à espera enquanto el gritava de dor. Com 25 anos derom-lhe um “mau bocado” para a delegacia de polícia – umha prática em que os detidos som deliberadamente abusados, tornando-os a bater contra as paredes do furgom a alta velocidade.

Os protestos depois da morte de Gray, e os confrontos entre manifestantes e polícia eclodirom após a resposta da polícia de mao pesada. Milhares encheram as ruas, e alguns manifestantes incendiaram e destruíram carros da polícia.

O governo da cidade decretou um toque de queda e chamou à Guarda Nacional para “restaurar a ordem”. A revolta de Baltimore foi a mais intensa agitaçom que a cidade tinha testemunhado desde o assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968.

Umha visom do futuro

A revolta provocou ondas de choque através dos Estados Unidos e fascinou a imaginaçom dos oprimidos de todo o mundo. Nos EUA, o evento foi intensamente polarizador. Moderados brancos torciam as maos sobre um CVS [um manual de forças humanas e virtudes] na queimas de umha tenda de empréstimo saqueada enquanto os meios de comunicaçom e os políticos vendiam tropas racistas e criticavam os manifestantes polo seu desafio.

O Baltimore Sun sugeriu “rezar pola paz,” em essência orar porque a violência do Estado continue sem oposiçom. Por outro lado, Ta-Nahesi Coates – um colunista liberal do New York Times – defendeu a revolta em um artigo intitulado “A nom-violência como Cúmplice“.

As reaçons a nível popular, foram igualmente intensas. Imagens heróicas de estudantes do ensino médio expelindo a polícia dos seus bairros inspirou protestos de solidariedade em cidades de todo o país. Em Nova York, umha força policial assustada carregava contra os manifestantes, espancando e prendendo mais de cem manifestantes, incluindo jornalistas e crianças.

As expressons de solidariedade nom se limitarom aos Estados Unidos. O espancamento de um soldado etíope em Israel desencadeou protestos em Tel Aviv, onde manifestantes alegadamente gritavam “Baltimore é aqui”

A revolta de Baltimore evocou essas reaçons porque era o símbolo essencial da luita da nossa era: a batalha entre os setores mais oprimidos da sociedade e os agentes do Estado que defendem a supremacia branca e o capitalismo.

Nom é por acaso que as luitas mais intensas no ano passado surgiram em cidades como Ferguson, Oakland e Baltimore, que forom devastadas pola desindustrializaçom e o complexo penitenciário-industrial. Estes lugares nom som ecos de um passado moribundo, mas é umha visom do futuro de toda a classe operária – umha sociedade carcerária projetada para controlar umha força de trabalho cada vez mais supérflua.

Os negros americanos forom a primeira povoaçom a sofrer a permanente substituiçom de trabalho em virtude de sua posiçom na parte inferior da hierarquia da América supremacista branca. Esse “selecto” status nom lhes foi preservado por muito tempo. Durante as últimas quatro décadas, os ganhos de produçom forom apropriados completamente polos donos do capital, enquanto a chamada “classe média” está cada vez mais endividada e empobrecida.

Os economistas estimam que cerca de 47% dos postos de trabalho actualmente existentes podem ser automatizados ao longo dos próximas duas décadas. Isto nom é umha boa notícia para os jovens do mundo desenvolvido, umha proporçom enorme dos quais já nom podem encontrar emprego sólido. Os estudantes do ensino médio em Baltimore que quebrarom e incendiarom carros de polícia simplesmente reconhecerom que eles nom tenhem futuro no actual sistema.

Umha estratégia viável para mudanças significativas

Por todo o seu simbolismo heróico, no entanto, a revolta deixou-nos perguntando: “E agora que ”

Aprendemos que a polícia pode ser flanqueada e atropelada por adolescentes armados com pedras. Aprendemos que a açom direta é a única maneira confiável para forçar concessons do Estado.

Mas ainda nom temos umha estratégia coerente para desmantelar um sistema social que permite o assassinato em massa, prisons e opressom de negro e trabalhadores. Nós podemos bloquear pontes e estradas, mas ainda nom podemos expulsar a polícia inteiramente das nossas comunidades.

Nós ainda nom temos umha estratégia para substituir o capitalismo com um sistema que valorize a humanidade sobre as mercadorias. Nós tornamos-nos conscientes da nossa força, mas ainda temos de desenvolver os meios para utilizá à sua plena potencia.

As Marchas [manifestaçons] nunca fam alteraçons por conta própria. Umha revolta como a de Baltimore pode forçar o Estado a fazer reformas simbólicas, mas polo geral, muitas vezes retorna tam pronto as chamas se apagam. Este problema nom é de nengumha maneira exclusiva dos Estados Unidos.

Na Bósnia, por exemplo, os protestos massivos em 2014 resultou em edifícios estatais queimados, mas o governo corrupto continua no poder. A revoluçom egípcia de 2011 mobilizou milhons de pessoas, mas nom conseguiu desmontar nem o estado profundo nem a economia capitalista do Egito. O Egito está umha vez mais sujeito a umha ditadura militar.

O principal problema enfrentando polos ativistas radicais de hoje é como transformar a raiva e a frustraçom na rua em umha expressom mais permanente do poder popular. A nossa tarefa nom é institucionalizar ou “canalizar” a raiva popular, em saidas gerenciáveis, mas amplificar o seu impacto através da criaçom de umha base política radical durável. Devemos constituir um desafio sustentado à autoridade do Estado. Nom podemos efetuar a mudança sistêmica na nossa sociedade se nom somos capazes de construir umha estrutura de poder alternativa.

Isso é importante para pensar agora, porque é óbvio que a atual fase ascendente no ciclo da luita nom vai diminuir tam cedo. Há um longo verao à frente de nós, e o estado vai continuar assassinando e encarcerando inocentes com quase total impunidade.

As causas subjacentes da agitaçom generalizada – racismo institucionalizado, inestabilidade econômica e crescente desigualdade – nom pode ser resolvido polo actual sistema, porque eles som pilares fundamentais do capitalismo contemporâneo. Umha cada vez maior parcela da povoaçom necessariamente estaram radicalizados por essas pressons. Se eles se voltam para a esquerda ou para a direita radical ultra-nacionalista e fascista dependerá da nossa capacidade de oferecer umha estratégia viável para produzir mudanças significativas na estrutura da sociedade.

Rojava da um exemplo …

Como podemos criar a mudança fundamental que tam desesperadamente precisamos? Precisamos de umha estratégia superior às estratégias fracassadas do passado; precisamos de um meio para transformar umha insurreiçom em umha revoluçom.

A história oferece alguns exemplos bem sucedidos de organizaçom popular que podemos tirar. Durante a Revoluçom Francesa, as assembleias populares das secçons de Paris formaram umha base radical que empurrou a revoluçom em desenvolvimento para a frente. A Revoluçom Russa de 1917 viu corpos deliberativos populares conhecidos como “sovietes” derrubar o governo provisório em nome do pam e a paz.

Esses tipos de sistemas – com base em conselhos deliberativos e assembléias – freqüentemente aparecem em qualquer período de agitaçom ou revolta, e emergirom recentemente na Argentina, na Espanha e em outros lugares.

No presente, o movimento curdo na Turquia e Síria emprega umha versom desenvolvida do sistema conhecido como “Confederalismo democrático.” Assembléias de bairros cara a cara formam a base da tomada de decisons políticas, enquanto conselhos sucessivos operam no distrito, cidade e em níveis regionais. Os conselhos e assembleias deliberam sobre todas as questons que enfrenta a comunidade e tentam organizar os meios para efetuar as alteraçons necessárias.

Na Turquia, onde a repressom do Estado é intensa e incessante, estes conselhos populares ainda se organizam de forma eficaz e som um locus de política democrática radical. Em Rojava (norte da Síria), estes conselhos formar um sistema político autônomo para os povos da regiom.

Rojava tem eliminado nomeadamente os impostos, reconstruído umha economia baseada em cooperativas e desenvolveu um programa feminista radical multifaceta. Existem contradiçons e falhas em ambos os sistemas, mas estas estratégias tenhem-se mostrado muito mais eficazes no breve período após a sua adopçom em 2005 do que qualquer cousa convocada pola esquerda ocidental.

Que Rojava sobrevivira três anos de guerra civil, um embargo internacional e cercos constantes é umha prova da força das suas assembléias de base.

… E o resto a vir

Organizaçons radicais nos Estados Unidos e no resto do mundo desenvolvido deveriam aprender essas estratégias. Podemos começar por organizar assembleias de bairro em comunidades da classe trabalhadora onde já temos umha forte presença. Estes conjuntos podem-se reunir para permitir discussons cara a cara das questons relacionadas com a comunidade, racismo e violência policial aos despejos, gentrificaçom e exploraçom no local de trabalho.

As assembleias devem estar destinadas a identificar formas nas que a comunidade resolva os seus próprios problemas. Por exemplo, as assembleias poderam coordenar grupos de trabalho para bloquear as expulsons, controlar a polícia e intervir se passam por cima das linhas vermelhas, e organizar asociaçons de inquilinos. A agitaçom dos organizadores e os sucessos de outras assembelias poderiam ser utilizados para inspirar a mais comunidades para formar as suas próprias assembléias.

Estas assembleias de bairro podem entom formar redes com as outras, a criaçom de conselhos com o fim de coordenar-se e da tomada de decisons conjunta. Porque eles som o nível mais imediato e democrático de associaçom política, o poder deve ser colocado em primeiro lugar nas assembléias de bairros.

As assembléias devem ser capazes de se abster de decisons coletivas das quais discordem. Estas redes confederais permitirám assim os bairros manter a sua autonomia, facilitando a cooperaçom em questons de interesse comum. Embora possamos estabelecer algumhas regras básicas para a organizaçom do conselho, incluindo umha adesom estrita aos princípios democráticos participativos e a descentralizaçom da autoridade, devemos permitir que as regras que regem o sistema evoluir organicamente a partir do agir no dia-a-dia.

Umha das vantagens deste sistema confederal é que nom há limites para o alcance geográfico dos conselhos. Conselhos de nivel superior podem ser organizados nos bairro, cidade, regions, nacional e até internacional, todo isso mantendo um sistema democrático que maximiza a autodeterminaçom das comunidades e indivíduos. Tal sistema permitiria equilibrar a necessidade absoluta de solidariedade e de cooperaçom internacional, com umha abordagem que protege contra o autoritarismo.

A culminaçom desta estratégia seria a criaçom de um sistema dual de poder, onde umha rede de assembleias democráticas populares e conselhos compete polo o poder com um estado oligárquico e autoritário. Como nengumha das estrutura poderia finalmente cumprir a usurpaçom do seu poder pola outra, esta contradiçom seria necessariamente acabar com a supressom das assembléias populares ou o colapso do Estado.

O sistema de conselho deve ser nom-sectário e completamente aberto à participaçom de todas as partes dispostas a respeitar os seus princípios democráticos. A grande maioria das pessoas nom se preocupam com disputas seculares entre obscuras seitas da esquerda. Eles preocupam-se com a exploraçom, a dívida, o desemprego, a violência policial, a degradaçom do meio ambiente e no futuro que eles vam deixar ao seus filhos.

Os conselhos permitiriam às diferentes partes a trabalharem em conjunto sobre estas questons, a partilha de ideias e de recursos humanos, mantendo a sua independência e permitindo umha ampla gama de táticas e estratégias. Assim, podemos forjar umha “esquerda unida” sem um acordo a priori impossível em todos os princípios políticos.
É hora de parar de pensar sobre a revoluçom em termos hipotéticos e começar a construir umha alternativa revolucionária agora. O mundo está em um estado de crise política e econômica permanente durante sete longos anos. Milhons de pessoas tomarom as ruas, forjarom novas conexons e alianças, e organizarom novas iniciativas nas suas comunidades.

As nossas acçons até o momento, no entanto, ainda nom proferirom o tipo de mudanças revolucionárias que tam desesperadamente necessitam. A degradaçom ambiental tem continuado sem oposiçom, os ricos apropriarom-se de umha proporçom ainda maior da riqueza do mundo, os Estados continuam a matar e encarcerar milhons, o desemprego continua a ser intoleravelmente alto, e as pessoas que trabalham estam sendo sufocados sob o fardo das enormes dívidas e os baixos salários.

Nós nom temos o luxo de poder esperar para a mudança. Devemos fazer um esforço consciente para construir a revoluçom que precisamos agora. Todo o poder aos conselhos, e Viva a revoluçom!

Ben Reynolds é um escritor e ativista de Nova Iorque. O seu artigo apareceu em CounterPunch e outros fóruns. Para segui-lo no Twitter em @bpreynolds01

Traduzido ao galego e publicado com o consentimento esplícito do autor.

 

O Feminismo e o Movimento de Libertaçom Curdo

Dilar Dirik centralEste artigo é uma versom editada de umha apresentaçom na Conferência “Dissecioando a Modernidade Capitalista. Construindo o Confederalismo Democrático” na Universidade de Hamburgo, o 3-5 de Abril do 2015.

O feito de que estamos a debater aproximaçons do movimento de libertaçom curdo, idéias e re-conceptualizaçons da liberdade hoje nesta conferência com pessoas de tantas diversas origens é bastante revelador dos impactos da resistência de Kobanê, que vam muito além dos seus aspectos militares .

Em Março deste ano mulheres do mundo estiverom na fronteira entre o Curdistam Norte (Bakur) e Oeste (Rojava), a linha artificial que separa as cidades gêmeas de Qamişlo e Nisêbin. O comitê tomou esta decisom, a fim de prestar homenagem à resistência das Unidades de Defesa das Mulheres, YPJ, em Kobanê contra o Estado Islâmico (ISIS). Isto, entre muitos outros exemplos, ilustra o crescente interesse das feministas ao redor do mundo no movimento de mulheres curdo.

Assim, neste momento crucial em que as mulheres curdas contribuírom a umha rearticulaçom da libertaçom das mulheres, rejeitando cumprir as premissas de ordem do Estado-naçom capitalista patriarcal global, quebrando o tabu da militância das mulheres (que é um tabu em todo o mundo, ja que quebra barreiras sociais), através da recuperaçom da autodefesa legítima, ao dissociar o monopólio do poder do Estado, e luitando contra umha força brutal nom em nome das forças imperialistas, mas, a fim de criar os seus próprios termos de libertaçom , nom só das organizaçons estatais ou fascistas, mas também da sua própria comunidade, que podem os movimentos feministas aprender com a experiência das mulheres curdas?

Em primeiro lugar, deve-se mencionar que a relaçom das mulheres curdas com os feminismos na regiom tem sido muitas vezes bastante complicada. As feministas turcas por exemplo tinham a tendência a marginalizar as mulheres curdas, que elas percebiam como atrasadas, e tentarom assimilá-las à força no seu nacionalista “projeto de modernizaçom”. Na prática, isso significava que todas as mulheres em primeiro lugar tinham que ser “Turcas”, a fim de se qualificar para a libertaçom. A sua luita política, especialmente a armada, muitas vezes encontrou-se com a violência de Estado, que usou uma combinaçom bruta de racismo e sexismo, centrada em torno da tortura sexualizada, a violaçom sistemática, e campanhas de propaganda que retratavam as mulheres militantes como prostitutas, porque se atreverom a colocar-se como inimigas de exércitos hiper-masculinos. No discurso ocidental, a capacidade de decidir das mulheres curdas na sua luita foi desmentido, por alegaçons de que elas estam “a ser instrumentalizadas para a causa nacional” ou que participam na luita de libertaçom, a fim de escapar das suas vidas tristes como “vítimas de umha cultura atrasada”. Além de ser inerentemente chauvinista e sexista, esses tipos de argumentos som ainda incapazes de explicar o feito de que o movimento curdo criou um movimento feminista de base popular, que desafiou a tradiçom e a sociedade transformando-a numha medida surpreendente. Hoje, quando olhamos para a forma como o mainstream trata a resistência das mulheres curdas contra do ISIS, podemos ver abordagens muito simplistas e problemáticas que incidem sobre a guerra em termos de só umha luita militar física, até mesmo um certo Schadenfreude dizia que o ISIS está sendo derrotado por mulheres, um tipo de atitude clássico de “meninas batendo em meninhos”. As motivaçons políticas das mulheres, as suas ideologias som ignoradas ou cooptadas neste contexto, até mesmo polas feministas. Nom muitas investigam os ideais que orientam a sua luita, quase ninguém questiona o feito de que a ideologia com a qual as mulheres estam luitando contra do ISIS está de feito na lista de terroristas de muitos países ocidentais.

O objetivo desta palestra nom é dizer que o feminismo e o movimento das mulheres curdas som duas cousas separadas. Em vez disso, quero investigar as suas relaçons e focar as aproximaçons originais do movimento de mulheres curdas que poderiam fornecer algumhas perspectivas para outros movimentos.

É claro que nom há um feminismo singular, mas várias vertentes que às vezes som muito diferentes umhas das outras. As especificidades da experiência das mulheres curdas que criou a consciência vivida direta do feito de que diferentes formas de opressom estam inter-relacionadas, devido à sua posiçom opressiva -multiplicada como membros de umha naçom sem Estado em um mundo dominado por estados excluintes, socio-económicos e a violência patriarcal polo Estado e a comunidade, bem como a crítica do movimento de libertaçom curdo do colonialismo, o capitalismo, e do Estado, possivelmente sugerem o anarquismo, os movimentos de feministas socialistas e anti-coloniais a ser o mais próximo à experiência do movimento das mulheres curdas.

No entanto, ao reivindicar o feminismo como umha parte importante da sociedade histórica e o seu legado como um patrimônio, as discussons dentro do movimento de mulheres curdas hoje pretendemos investigar os limites do feminismo e superar isso. Isso nom é de todo umha abordagem pós-feminista clássica, nem rejeitar o feminismo. Indo além dos meios para sistematizar umha alternativa para o sistema dominante através de umha crítica radical sistêmica e a comunalizaçom da luita multi-frente, especialmente por politizar a base, dirigir umha revoluçom mental, e transformando ou figurativamente matando o masculino e as suas múltiples expressons, bem como questionar e resistir a toda a ordem global, a fase dessa violência e opressom. Kobanê, bem como os outros dous cantons de Rojava – Cizîre e Afrîn – som um exemplo da aplicaçom prática do presente. Como eu argumento, a resistência de Kobanê, onde as mulheres corajosas derrotarom as forças fascistas dos nossos dias, tem muito a ver com a ideologia política do povo e o modelo imaginado. A vitória de Kobanê é um resultado direto da organizaçom social e política dos cantons, bem como o conceito do movimento de liberdade, muito além do nacionalismo, do poder e o Estado.

Abdullah Öcalan, o representante ideológico do PKK, afirma explicitamente que o patriarcado, juntamente com o capitalismo e a mentira do estado estam na raiz da opressom, dominaçom e poder e fai umha conexom clara entre elas: “Todas as ideologias de poder e estatais derivam em atitudes e comportamentos sexistas […]. Sem a escravitude das mulheres os outros tipos de escravitude nom podem existir e muito menos desenvolver-se. Capitalismo e Estado-naçom denotam a institucionalizaçom do macho dominante. Com mais ousadia e falando abertamente: O Capitalismo e o Estado-naçom som o monopolio do macho despótico e explorador”[1] El afirma ainda: “Nada no Oriente Médio é tam horrível como o status social da mulher. A escravizaçom da mulher é semelhante à escravizaçom dos povos, exceto que é ainda mais antiga “[2] Em outro lugar: “O projeto de libertaçom das mulheres vai muito além da igualdade entre os sexos, mas, além disso, descreve a essência da democracia em geral, dos direitos humanos, da harmonia com a natureza e a igualdade comunal “(Öcalan, 2010, 203).

A perspectiva do movimento de libertaçom curdo na libertaçom das mulheres é de natureza explícita comunalista. Ao invés de desconstruir os papéis de gênero ao infinito, trata os conceitos das condiçons atuais por trás da feminilidade como fenômenos sociológicos e pretende redefinir tais conceitos pola elaboraçom de um novo contrato social. El critica a análise comum do mainstream feminista do sexismo em termos de gênero único, bem como a sua incapacidade para alcançar mais amplas mudanças sociais e a justiça, limitando a luita para o quadro de ordem persistente. Umha das principais tragédias do feminismo é cair na armadilha do liberalismo. Sob a bandeira da libertaçom, o individualismo extremo e o consumismo som muitas vezes propagados como emancipaçom e empoderamento, que levanta obstáculos claros para qualquer açom coletiva ou até mesmo tocar as questons de pessoas reais. É claro que as liberdades individuais som cruciais para a democracia, mas o fracasso de mobilizaçom popular requer umha auto-crítica fundamental do feminismo. O termo feminista de “intersetorialidade” claramente sublinha que as formas de opressom estam interligadas e que o feminismo tem de ter umha abordagem holística para enfrentá-los. Mas, muitas vezes, os círculos feministas que se dedicam a estes debates deixam de tocar as vidas reais de milhons de mulheres afetadas, gerando ainda umha outra discussom aspirada no radicalismo, inacessível para a maioria. Por que o radical ou interseccional é umha luita que nom consegue espalhar-se?

Essas atitudes, de acordo com o movimento de mulheres curdas, estam ligadas à subscriçom à ciência positivista e da relaçom entre conhecimento e poder, o que desfoca as ligaçons explícitas entre as formas de dominaçom, eliminando, assim, a crença em um mundo diferente, retratando o sistema global como a ordem natural, imutável das cousas. Devido às suas condiçons específicas sócio-políticas e económicas, bem como a umha posiçom ideológica firme, acompanhadas de muito sacrifício, o movimento das mulheres curdas foi capaz de mobilizar em um movimento de massas por chegar a certas conclusons nom apenas através de debates teóricos, mas experiências e práticas reais vividas, que nom só criou a consciência política direta, mas também um anexo para encontrar soluçons coletivamente, contra todas as adversidades.

Assim, incentivadas por sugestom de Öcalan para desenvolver um método científico que desafia a compreensom hegemônica das ciências, especialmente as ciências sociais, que reproduzem mecanismos de violência, exclusom e opressom -um que nom se limite à categorizaçom de fenômenos ao redor dos seres humanos e comunidades sem considerar o feito de que estes estam vivos e potencialmente capazes de resolver os seus problemas, e que as áreas de divisom da vida de um e do outro, criando umha infinidade de ramos científicos, mas em vez disso propom umha ciência que praticamente procura fornecer soluçons para os problemas sociais, umha “sociologia da liberdade “, centrada nas vozes e experiências dos oprimidos –o movimento das mulheres tem se envolvido em debates teóricos e propôm o conceito de” jineologia “(jin, em curdo:” mulher “). As discussons e debates realizados nas montanhas Qandil, na linha da frente em Rojava, bem como em bairros pobres em Diyarbakir – cada esquina pode ser transformada em umha academia. Perguntas “Como reler e re-escrever a história das mulheres? Como é o conhecimento alcançado? Que métodos podem ser usados em uma busca libertadora da verdade, que produçons de ciência e conhecimento de hoje levam os conhecimentos para longe de nós e servem para manter o status quo?” Surgem em intensas discussons. A desconstruçom do patriarcado e outras formas de submissom, dominaçom e violência som acompanhadas por discussons sobre a construçom de alternativas com base em valores e soluçons libertadoras para a questom da liberdade.

Ao definir-se como a ciência das mulheres ou a procura das mulheres para o próprio conhecimento, uma objeçom que a jineologia representa para o feminismo é que muitas vezes se ocupa com a análise de questons sociais apenas através de lentes de gênero. Enquanto os papéis de gênero e desconstruçom patriarcal tem contribuído imensamente para a nossa compreensom do sexismo e outras formas de violência e opressom, este propôs nem sempre com sucesso o tipo de alternativa, podemos criar coletivamente em vez disso. Se conceitos como homem e mulher, nom importa o quam socialmente construída que poidam ser, olha como eles vam persistir nas mentes das pessoas por um tempo, talvez devemos tentar definir as novas condiçons de existência, proporcionar-lhes umha essência libertadora na tentativa de superá-los? Nom esqueçamos o fundo por trás da qual essas discussons estam sendo realizadas – e em torno de sociedades ultra-conservadoras com espaço limitado para a auto-expressom individual que consideram as mulheres como indignas, funcionárias sem voz dos homens, num contexto de violência normalizada, abertamente institucionalizada contra as mulheres . Se é possível para re-imaginar conceitos de identidade, tais como a “naçom”, desassociando-o de implicaçons étnicas e com o objetivo de formar umha unidade baseada em princípios, Ou seja umha unidade de pensamento, composta por sujeitos políticos em vez de objetos servindo ao estado (que é a idéia de que é defendida na multi-cultural Rojava, a “naçom democrática”, como define Öcalan), podemos também criar umha nova liberdade, capacitando radicalmente a identidade das mulheres, com base na autonomia e liberdade para dar forma a um novo sentido da comunidade, livre de hierarquia e dominaçom? A Jineologia nom pretende perpetuar um conceito essencialista da feminilidade, umha nova atribuiçom de um papel social com espaço limitado para o movimento, também nom se considera umha provedora de respostas, mas propom-se como um método para explorar tais questons suscitadas em umha maneira coletivista. Ao pesquisar a história e a história escrita, a jineologia tenta aprender desde as mitologias e religions, compreender as formas de organizaçom comunalistas na era neolítica e mais além, investigar as relaçons entre meios de produçom e de organizaçom social, e a ascensom do patriarcalismo com o surgimento da acumulaçom e da propriedade.

E, no entanto, ao criticar a fixaçom do feminismo no gênero, o movimento das mulheres curdas, ao mesmo tempo, devido à sua própria experiência, reconhece a necessidade urgente de prestar atençom às opressons específicas. Na verdade, o elemento central da estrutura organizativa deste movimento é a auto-organizaçom autónoma de grupos e comunidades a fim de reforçar a democracia radical. Diferentemente da maioria das lideranças de movimentos de libertaçom nacionais clássicos, Öcalan enfatiza a necessidade da luita feminista autônoma e consciente [3] e ainda prioriza a libertaçom das mulheres: “O século XXI deve ser a era de despertar; a era da mulher liberada, emancipada […]. Eu acredito que [a libertaçom das mulheres] deve ter prioridade sobre a liberaçom das terras e a mao de obra “(Öcalan, 2013, p.59). Há uma abundância de exemplos de como o movimento das mulheres curdas tenta viver essa autonomia na prática, aqui e agora, em vez de projetá-la a um momento no futuro – mesmo um breve olhar sobre a participaçom e o poder das mulheres curdas na política da Turquia poderia-se falar volumes. A libertaçom das mulheres nom é apenas visto como um objetivo, mas como um método que precisa ser praticado em uma base diária. Nom é algo que será alcançado em umha democracia, mas é a democracia na prática.

Hoje, o movimento divide o poder igualitariamente entre umha mulher e um homem desde a presidência do partido aos conselhos de bairro através do princípio da co-presidencia. Além de fornecer as mulheres e os homens com igual poder de decisom, o conceito de co-presidência visa descentralizar o poder, evitar o monopolismo, e promover um consenso de feitos. Isto demonstra novamente a associaçom de libertaçom com a tomada de decisons comunalista. O movimento de mulheres é autonomo organizacional, social, política e militarmente. Embora esses princípios organizacionais tentam garantir a representaçom das mulheres, a massiva mobilizaçom social e aumentar a consciência política da sociedade, o que exige umha revoluçom radical da mentalidade, porque a hierarquia e a dominaçom primeiro estabelece-se nos pensamentos.

Inspirado por estes princípios, os cantons da Rojava aplicam a co-presidência e quotas, e criarom unidades de defesa das mulheres, comunas das mulheres, academias, tribunais e cooperativas no meio da guerra e sob o peso de um embargo. O movimento de mulheres Yekîtiya-Estrela é organizado de forma autônoma em todas as esferas da vida, desde a defesa à economia à educaçom para a saúde. Conselhos de mulheres autônomas existem paralelos junto dos conselhos do povo e podem vetar decisons deste último. Os homes que cometem violência contra as mulheres nom fam parte da administraçom. Discriminaçom com base no género, os casamentos forçados, violência doméstica, crimes de honra, poligamia, casamento infantil, e dote estam tipificados como delito. Muitas mulheres nom-curdas, especialmente árabes e assírias, juntam-se às fileiras armadas e à administraçom em Rojava e som incentivadas a organizar-se de forma autônoma também. Em todas as esferas, incluindo as forças internas de segurança (Asayish) e Unidades da Defesa do Povo (YPG) e as Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ), a igualdade de género é umha parte central da educaçom e da formaçom. Como Ruken, um ativista do movimento de mulheres em Rojava dixo: “Nós nom batemos nas portas das pessoas e dizemos-lhes que eles estam errados. Em vez disso, nós tentamos explicar-lhes que eles se podem organizar e dar-se os meios para determinar as suas próprias vidas “.

Curiosamente, embora a libertaçom das mulheres sempre foi parte da ideologia do PKK, a organizaçom autônoma das mulheres surgiu simultaneamente com a mudança geral do objectivo político do Estado-naçom no sentido de mobilizaçom local popular-democrática. Tal como foi identificada a relaçom entre as diferentes formas de opressom, quanto as premissas opressoras e os mecanismos do sistema estatal foram expostos, as soluçons alternativas forom procuradas, resultando na articulaçom da libertaçom das mulheres como um princípio firme.

Ao invés de aspirar a busca da justiça dentro de conceitos concedido polo Estado, como os direitos legais, o que é umha das pré-ocupaçons do mainstream feminista, o movimento das mulheres curdas chegou à conclusom de que o caminho para a libertaçom requer umha crítica fundamental do sistema. Em vez de colocar a carga sobre as mulheres, a libertaçom das mulheres torna-se umha questom de responsabilidade para toda a sociedade, porque se torna umha medida para a ética e a liberdade da sociedade. Para umha luita significativa pola liberdade, a libertaçom das mulheres deve ser um objectivo, mas também um método activo no processo de libertaçom. Na verdade, esperar qualquer mudança social significativa dos próprios mecanismos que perpetuam a cultura do estupro e da violência contra as mulheres, tais como o estado, significaria recorrer ao liberalismo com suas pretensons feministas e democráticas. Um slogan que já vi em Rojava, muitas vezes, “Vamos derrotar os ataques do Estado Islâmico, assegurando a libertaçom das mulheres no Oriente Médio”. Porque nom se pode apenas derrotar militarmente ao ISIS sem também derrotar a mentalidade que está subjacente, a cultura persistente do estupro mundial que lhe dá umha plataforma. Essa mentalidade nom esta apenas encarnada polo ISIS, mas é também, em parte, expressa nas nossas próprias mentes, nas nossas próprias comunidades – a violência do Estado liberal, a violência do ISIS, e os crimes de honra na nossa própria comunidade nom som tam diferentes uns dos outros. Contra todas as probabilidades, após décadas de longas luitas e sacrifícios, as mulheres curdas estabelecerom umha cultura política e em torno do PKK em que o sexismo e a violência contra as mulheres vam ao ostracismo social.

O movimento de mulheres produz independentemente teorias e críticas sofisticadas, mas é surpreendente que um líder masculino de um movimento do Oriente Médio coloque a libertaçom das mulheres como umha medida fundamental da liberdade. Isto levou a muitas feministas -que muitas vezes nom tenhem realmente lido os livros de Öcalan a criticar que o movimento das mulheres curdas está centrada em torno de um homem em umha posiçom de liderança. Mas se analisarmos o problema da liberdade das mulheres além de entendimentos estreitos no âmbito do género, mas em vez disso tratamo-lo como questom da liberdade da sociedade, como fundamentalmente vinculado à reproduçons centenárias de poder e hierarquia, quando rearticulamos a nossa compreensom da libertaçom fora dos parâmetros do sistema dominante, com os seus pressupostos e comportamentos patriarcais, mas procuramos propor umha alternativa radical que, por tanto, perceba a libertaçom das mulheres como um efeito colateral percevido de umha revoluçom ou liberaçom geral que pode nunca vir, mas em vez disso reconhecemos que a luita radical pola liberdade das mulheres e a sua auto-organizaçom autónoma deve ser um método central e o mecanismo do processo para a liberdade aqui e agora, se ligamos a crítica radical dos próprios métodos que utilizamos para dar sentido ao mundo para o processo de concepçom de umha vida mais justa, em suma – se ampliamos e sistematizamos, portanto, a nossa luita pola libertaçom, e reconhecemos que o caminho para a liberdade exige auto-reflexom e interiorizaçom dos valores democráticos libertadores, talvez nom seria surpreendente depois de tudo que umha das feministas mais sinceros pode na verdade ser um homem. Em vez de nos preocuparmos com o sexo ou gênero de Öcalan, talvez devêssemos tentar entender o que significa para um homem de umha sociedade feudal extremamente patriarcal tomar tal posiçom em relaçom a escravizaçom das mulheres. Que significa quando umha pessoa em umha posiçom de liderança, fai tais chamadas para “matar o homem”? Talvez este seja o radicalismo que precisamos para resolver os nossos problemas…

A Marcha Mundial das Mulheres que eu mencionei na introduçom juntou nas comemoraçons do 8 de março deste ano em Amed (Diyarbakir). Enquanto as fotos de mártires de mulheres curdas militantes estam acenas ao vento, eu vim um grupo de pessoas cantando formando um círculo de danças tradicionais curdas. Umha mulher estava tocando o daf em que ela tinha desenhado o A anarquista, enquanto umha mulher maior velada em roupa tradicional com os dedos formando o sinal da vitória estava dançando ao seu ritmo, ao lado de umha jovem que acompanha a sua alegria acenando umha grande bandeira LGBT. Completamente umha visom incomum para dizer o mínimo, mas de feito revelador do caráter do movimento das mulheres curdas.

Aqueles que querem saber se o movimento das mulheres curdas “é, na verdade, feminista ou nom” precisa perceber o radicalismo que oscila entre os dous dedos levantados para o sinal da vitória por mulheres idosas com vestes coloridas e tatuagens tradicionais em seus rostos na Rojava hoje. Que estas mulheres agora participem nos programas de TV, conselhos do povo, economia, que agora aprendam a ler e a escrever na sua própria língua, que, umha vez por semana, umha mulher de 70 anos relate contos populares tradicionais na recém-criada Academia de Ciências Sociais da Mesopotâmia para desafiar a história-escrita dos poderes hegemônicos e a ciência positivista, é um ato radical de rebeldia contra o antigo regime monista, porque em vez de substituir a pessoa no topo, recusam-se os parâmetros do sistema por completo e constrói os seus próprios padrons . E esta plataforma acabará por derrotar o ISIS no longo prazo.

As mulheres que luitam em Kobanê tornarom-se umha inspiraçom para as mulheres em torno do mundo. Neste sentido, se queremos contestar o patriarcado global, a naçom-estado, o racismo, militariso, neo-colonialismo e o ordem sistêmico capitalista, devemos-nos perguntar que tipo de feminismo este sistema pode aceitar e quais os que nom podem. Um “feminismo” imperialista pode justificar guerras no Oriente Médio para “salvar as mulheres da barbárie”, enquanto que as mesmas forças alimentam esta chamada barbárie polas suas políticas externas ou negócios armamentísticos etiquetam as mulheres que defendem Kobanê hoje como terroristas.

O sistema dominante considera um dos mais mobilizados e capacitados dos movimentos de mulheres como umha ameaça inerente ao seu status quo. Assim, torna-se claro que o movimento de libertaçom curdo nom representa umha ameaça para a ordem internacional, devido à sua capacidade potencial de criaçom de um novo estado – de feito, opom-se ao paradigma estado, mas por causa da sua alternativa radical para el, umha vida alternativa explicitamente centrada em abolir 5000 anos de escravitude sistemática física e mental.

Quando olhamos para os dois lados que luitam em Kobanê hoje – mulheres sorrindo esperançosas de um lado, e assassinos, estupradores violentos, que criam a sua hegemonia das trevas sobre a destruiçom e brutalidade fascista por outro lado, parece um papel num filme, a história de um romance. Mas é de nengumha maneira umha coincidência que estas duas linhas estam luitando em Rojava. A ordem atual pode ser o legado de milênios de sistemas de dominaçom e subjugaçom, pode ter sido sempre a opressom, mas, ao mesmo tempo, há também sempre houvo revolucionárias, rebeldes, luitas de resistência. O Estado Islâmico nom é umha mala coincidência, mas um resultado da ordem mundial, e essa ordem, com todos os seus mercenários, cumpre o seu maior inimigo nos sorrisos radicais de mulheres luitando. Sorrir é um ato ideológico. E estas mulheres som as guardians da nossa opçom à liberdade.

As mulheres curdas forom sempre excluídos da história-escrita, mas agora o seu poder desceu na história. Estamos orgulhosas de pertencer a umha geraçom de jovens mulheres curdas, que crescerom tendo testemunhado e identificado com umha luta tam gloriosa. Nom é um orgulho vazio em cousas sem sentido como o nacionalismo, mas um orgulho em resistir e sacrificar-se polos princípios fundamentais, para a vida. Nós nom precisamos de nengum mito ou romanticizaçons para justificar as nossas reivindicaçons para a liberdade. E eu nom podo imaginar qualquer mitologia, qualquer texto religioso, qualquer conto de fadas que poderia ser mais épico, libertador, e poderoso que a resistência exibida polas mulheres de Kobanê contra o fascismo. Todas nós renascimos com a resistência de Kobanê.

Dilar Dirik 24Dilar Dirik, estudante PhD focada sobre o movimento das mulheres curdas

NOTES
Öcalan, Abdullah, 2010, Jenseits von Staat, Macht und Gewalt (Cologne: Mesopotamien Verlag).
Öcalan, Abdullah, 2011, Democratic Confederalism (Cologne: International Initiative “Freedom for Abdullah Öcalan – Peace in Kurdistan),
Available online at http://www.freeocalan.org/wp-content/uploads/2012/09/Ocalan-Democratic-Confederalism.pdf
Öcalan, Abdullah, 2013, Liberating Life: Woman’s Revolution(Cologne: International Initiative “Freedom for Abdullah Öcalan – Peace in Kurdistan), Available online at http://www.freeocalan.org/wp-content/uploads/2014/06/liberating-Lifefinal.pdf
________________________________________
[1](Öcalan, 2011, p.17)
[2](Öcalan, 2010, p.267)
[3](Öcalan, 2013, p.53)

http://kurdishquestion.com/index.php/insight-research/feminism-and-the-kurdish-freedom-movement.html

Pontes entre o anarquismo e o Confederalismo Democrático – 3

Bridges Between Anarchism and Democratic Confederalism – 3 Neste ensaio, eu começo a debater e contestar a teoria política produzida para classificar todos os partidos e em extensom, todas as organizaçons políticas, dentro de um guarda-chuva que os modelos de participaçom política dentro da democracia indireta em umha abordagem liberal. Antes de ir mais fundo na crítica, vou destacar alguns aspectos. Este artigo nom tem a intençom de entrar no debate específico sobre as teorias dos partidos políticos, mas contestar a parte essencial da abordagem hegemônica nas definiçons das organizaçons políticas. Argumentamos contra a tradiçom marxista e marxista-leninista nos dous primeiros ensaios. No presente e na próxima, vamos argumentar contra a teoria produzida para reforçar os poderes que som modelos políticos nas sociedades ocidentais. Além de luitar contra as definiçons hegemônicas, devo reconhecer que a ciência política tem discutido esse assunto extensivamente, e que o objeto de análise – o partido político – é umha unidade de análise estrutural essencial para a área, e que há umha grande (e chata) literatura sobre o assunto.

Eu reconheço a validade de todas estas abordagens de estudo (as hegemônicas), mas eu efectuo um estudo que, desde o ponto de vista ideológico, aborda o partido em termos de funcionamento da sua estrutura; por isso, há umha certa ênfase com base nos termos e conceitos utilizados pola teoria clássica. Esta abordagem das funçons orgânicas pretende observar os tipos de papel que esta unidade de análise desempenha no exercício do processo de radicalizaçom democrática (e, obviamente, no processo do Confederalismo Democrático), a compreensom da frente política dentro de umha democracia liberal como umha estratégia permanente incluindo a açom popular, forçando ao Estado a dar resposta, e ser consistente com a expansom dos direitos e a liberdade individual e coletiva, dada a multiplicidade de sujeitos, demandas, identidades e questons gerais.

Eu começo com a premissa de que o aumento substancial da participaçom social e os protestos organizados criam as condiçons para o aumento da tensom social, passando por este caminho a forma de projeçom e tentativa de consolidaçom da hegemonia da organizaçom política anarquista ou o partido anarquista – com base na incidência e integraçom das estruturas organizadas das classes mais baixas.

Dentro deste contexto, o meu eixo analítico fundamental é o funcionamento da organizaçom política e do treinamento necessário para a sua projeçom considerando o conceito estratégico de radicalizaçom das demandas através da rota da participaçom e os protestos. O aspecto que muda em relaçom ao método tradicional de produçom da ciência política – é o ponto explícito (nom implícito como umha premissa oculta) de vista ideológico – e da localizaçom da organizaçom social voluntária e integrativa (partido político com quadros que tenhem democracia interna) ser estratégico para a acumulaçom de forças a partir de um trabalho e ponto de vista libertário de esquerda.

Antes de retornar ao tema da modelagem desta organizaçom, é interessante analisar alguns aspectos da literatura atual. Debato em particular o que di respeito à caracterizaçom do partido, o tipo de participaçom, o ambiente macro-político (que democracia?), e o formato do processo a longo prazo, onde esta organizaçom opera. Para a caracterizaçom dos partidos políticos, a definiçom é apresentada por Bobbio no seu famoso dicionário político. Lá, Norberto Bobbio e os seus colaboradores descrevem o partido como:

[…] O partido engloba muitas diferentes estruturas sociais, de grupos ligados por laços pessoais e particulares a organizaçons complexas de estilo burocrático e impessoal, cuja característica está-se movendo dentro da esfera do poder político. […] As associaçons que podemos considerar serem partes reais som criadas quando o sistema político alcança um certo grau de autonomia estrutural, complexidade interna e divisom de trabalho, permitindo, por um lado, um processo de tomada de decisons políticas envolvendo diversas partes do sistema e, por outro lado, que, estes partidos incluem, em princípio ou de fato, representantes daqueles a quem as decisons políticas se referem […]

Bobbio e os seus colaboradores caracterizam os partidos como umha espécie de organizaçom de massas ou massa eleitoral e isso é visto como um fenômeno equivalente a um ambiente organizacional e como um conjunto de funçons desenvolvidas. Eu caracterizo essas funçons, entre muitos, tais como a representaçom política, a mediaçom política, questionamento político, influência sobre as decisons-chave de umha sociedade, escola de quadros para a elite, nicho de poder específico, e promotor de diversos interesses difusos e específicos. Todas as definiçons acima som bem fixo dentro da forma tradicional e hegemônica de fazer política. Nom para o nosso projeto.

Enquanto o objectivo estratégico é diferente dos partidos oligárquicos, umha organizaçom política dedicada à mudança social é um recipiente que estimula e acumula poder social e experiências de protestos social. O papel do centro estratégico de discussom é a natureza de umha organizaçom social como um partido político.

As semelhanças entre as tradiçons anarquistas e o confederalismo democrático e a teoria som evidentes novamente. Se compararmos as minhas premissas acima para o seguinte texto é fácil de observar semelhanças. Lendo a entrevista do Co-Presidente da Executiva do Conselho Uniom Comunidades do Curdistam (KCK) Bese Hozat (no website do PKK em Inglês) há umha definiçom quase idêntica do que deve ser a missom e principais pontos do partido. Eu pensei que seria melhor para enumerar alguns desses pontos cruciais:

“… Ele continua a ser insuficiente para definir o PKK como um movimento de insurreiçom por causa do fato de que o partido tem apresentado o paradigma da naçom democrática, melhorou o sistema do confederalismo democrático dos povos, construiu um projeto alternativo de sistema dos povos democráticos contra os cinco mil anos de sistema de governo estatista e está liderando a construçom deste projeto agora. Com a forma democrática, livre e igualitária e o sistema ecológico democrático que o PKK tem construído é o único sistema que irá libertar aos povos. O povo curdo está hoje dando umha luita para construir este sistema, com base na sua própria vontade. No actual estado de cousas, o PKK foi além de um movimento e tornou em um sistema de convivência social “.

A organizaçom política pode ser umha instituiçom social para educar umha nova elite da classe dirigente, tal como é reconhecido dentro da teoria liberal e hegemônica. Por outro lado, pode ser um lugar para o desenvolvimento de umha mentalidade revolucionária alimentando em projetos socialistas reais dia-a-dia, sem perder a perspectiva sobre os ativos estratégicos. A organizaçom política que nom é umha vanguarda autoproclamada nunca se tornará umha nova elite, como a Nomenklatura no modelo soviético, mas vai organizar-se para operar como um motor para a mudança social.

Bruno Lima Rocha é Doutor e Mestre em Ciência Política e professor de Estudos e Geopolítica Internacional em 3 universidades no Sul do Brasil.

website: www.estrategiaeanalise.com.br /
e-mail: strategicanalysis@riseup.net /
Facebook: blimarocha@gmail.com

Publicado em inglês em Kurdishquestion.

 

Novas Posições Estratégicas, Filosóficas e Políticas do Movimento de Libertação Curdo

por Abdullah Öcalan

a3 Fragmento textual retirado de “Guerra e Paz no Curdistão – Perspectivas para uma Solução Política da Questão Curda“, por Abdullah Öcalan.

Apelidado de Apo, ele é líder independentista curdo, fundador e secretário-geral do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK – Partiya Karkêren Kurdistan), criado em 1978.

Texto completo no site freedom-for-ocalan.

“Não é possível detalhar aqui de uma maneira aprofundada todos os elementos estratégicos, ideológicos, filosóficos e políticos que animam o movimento. Os principais fundamentos, no entanto, podem ser resumidos da seguinte maneira:

  • A abordagem filosófica, política e ideológica do renovado PKK encontra sua expressão mais adequada através do conceito de “socialismo democrático”.
  • O PKK não procura alcançar a criação de um novo estado- nação curdo a partir do direito de autodeterminação de povos. Este direito se entende como a base para o estabelecimento de democracias de base, sem a necessidade de procurar novas fronteiras políticas. É a tarefa do PKK convencer o povo curdo desta sua convicção. O mesmo é válido para o diálogo com os países hegemônicos que influenciam o Curdistão. Esta convicção é a base para a solução dos conflitos existentes.
  • Os países atualmente existentes nesta região necessitam sujeitar-se a profundas reformas democráticas. No entanto, a abolição imediata do estado não é uma opção viável, o que não significa que o estado atual deve ser aceito tal qual. A estrutura estatal clássica e sua concepção despótica do poder são inaceitáveis. O estado institucional deve ser sujeito a mudanças democráticas. Ao final deste processo, o estado deve constituir uma instituição política mais modesta, com objetivo de regular funções no campo da segurança e na provisão de serviços sociais. Esta concepção de Estado não tem nada em comum com o caráter autoritário do estado clássico, mas seria concebido como uma autoridade social.
  • O movimento curdo pela libertação procura para o Curdistão um sistema de auto-organização democrática em forma de confederação. O Confederalismo Democrático deve ser entendida como um modelo de coordenação de uma nação democrática. Tal sistema proporcionaria os marcos dentro dos quais toda comunidade, grupo confessional, coletivo específico de gênero e/ou grupo étnico minoritário, entre outros, poderia organizar-se de maneira autônoma. O mesmo proporcionaria também os meios de organização para qualquer nação e cultura democráticas. O processo de democratização no Curdistão não se limita, no entanto, a uma questão de forma, mas abrange um amplo projeto social visando a soberania econômica, social e política de todas as partes da sociedade, assim como a criação dos órgãos e instituições necessárias e a elaboração dos instrumentos que possam garantir e possibilitar à sociedade um autogoverno e um controle democrático. É um processo de longo e contínuo. As eleições não são o único meio neste contexto. Ao contrário, este é um processo político dinâmico que necessita intervenções diretas da parte do soberano, o povo. Assim, a população deve estar diretamente envolvida em cada processo decisório da sociedade. Este modelo é construído sobre a autogestão de comunidades locais e é organizado em conselhos abertos, conselhos de município, parlamentos locais e congressos gerais. Os próprios cidadãos são os atores de um autogoverno deste gênero. O principio de uma autogestão confederal não apresenta restrições. Tal sistema poderia até atravessar fronteiras para assim criar estruturas democráticas multinacionais. No seio de um sistema democrático de confederação, somente hierarquias horizontais favoreceriam o processo decisório no nível comunitário.
  • O modelo detalhado acima pode ser descrito como um governo democrático de autogestão, onde os direitos ‘soberanos’ do estado seriam limitados. Um tal modelo permite uma implementação mais adequada de valores básicos como liberdade e igualdade em comparação com os modelos administrativos tradicionais. Este novo modelo não é limitado ao caso da Turquia, muito pelo contrário, ele é igualmente aplicável em outras partes do Curdistão. Ele é adequado para a construção de estruturas administrativas confederais em toda região de assentamentos curdos na Síria, Turquia, Iraque e Irã. Deste modo, a construção de estruturas confederais na totalidade do Curdistão é possibilitada, sem que isto signifique um questionamento de fronteiras políticas já existentes.
  • Um dos fatores que resultaram na queda do real socialismo foi a maneira como os países socialistas utilizaram seu poder interna e externamente, assim como sua concepção errônea da importância da questão do gênero. Mulher e poder parecem, segundo esta ideologia, conceitos quase contraditórios. A questão dos direitos da mulher foi relativamente renegada por regimes socialistas; afirmava-se que esta questão seria resolvida automaticamente uma vez solucionados os problemas econômicos e outros problemas sociais. As mulheres, porém, podem ser consideradas como uma classe ou uma nação oprimida: um gênero oprimido. Enquanto a liberdade e os direitos da mulher não forem discutidos em um contexto histórico e social, enquanto uma teoria adequada não for formulada, tampouco existirá prática adequada. Em vista disso, a liberdade e os direitos da mulher devem constituir uma parte estratégica da luta pela liberdade e democracia no Curdistão.
  • Hoje em dia, a democratização da política constitui o desafio mais urgente. Uma política democrática, no entanto, somente poderia existir a partir de partidos democráticos. Enquanto não houverem partidos e instituições afiliadas a partidos cujos interesses vão além da simples execução de ordens ditadas pelo estado, uma democratização do estado sera impossível. Na Turquia, os partidos não passam de ferramentas para a divulgação de propaganda política por parte do estado. Sua transformação em partidos íntegros e engajados exclusivamente com o bem-estar social, assim como o desenvolvimento jurídico adequado neste contexto, constituiriam um avanço importante no sentido de uma verdadeira reforma política. A fundação de partidos políticos exibindo a palavra Curdistão em seu nome é considerada ainda hoje um ato criminoso. Partidos independentes sofrem inúmeras obstruções da parte do estado. Coalizões e partidos relacionados ao Curdistão servem à democratização e não advogam separatismo ou violência.
  • Existe a disseminação de um espirito subserviente tanto no nivel individual como institucional, o que representa um grande obstáculo à democratização. A única maneira de superar este sentimento é através da conscientização da sociedade. Cada cidadão deve ser convidado a engajar-se ativamente na causa democrática. Para o povo curdo, isto significa apoiar a construção de estruturas democráticas no Curdistão e em toda região abrigando comunidades curdas, com o objetivo de fomentar a participação ativa na vida política de cada comunidade. Da mesma maneira, minorias residentes no Curdistão devem ser convidadas a participar de tais projetos. O desenvolvimento de estruturas democráticas autóctones assim como a abordagem prática de tais estruturas devem ser tratados como prioridade máxima. As mesmas devem ainda ser vistas como necessárias em regiões onde os direitos básicos de uma democracia não são respeitados, como é o caso do Oriente Médio.
  • A política depende da existência de meios de comunicação independentes. Na ausência destes, as estruturas estatais não logram desenvolver uma sensibilidade às questões democráticas. O livre acesso à informação é não somente um direito individual, mas uma questão social essencial. Mídias independentes representam um mandato social. Sua comunicação com o publico deve ser caracterizada por um equilíbrio democrático.
  • Instituições feudais como tribos e seitas, resquícios da Idade Média, também representam obstáculos à democratização. Tais instituições parasitárias devem ser instigadas a integrar-se na luta por uma mudança democrática.
  • O direito à educação na língua nativa deve ser garantido. Mesmo se as autoridades não desenvolvem tal educação, elas não devem impedir esforços civis visando criar instituições especializadas no ensino da língua e cultura curdas. Além disso, o sistema de saúde deve ser garantido tanto pelo estado como pela sociedade civil.
  • Um modelo social ecológico é por essência um modelo socialista. Um equilíbrio ecológico somente será possível durante a fase de transição entre uma sociedade alienada baseada no despotismo e uma sociedade socialista. Seria ilusão acreditar que a preservação do meio ambiente é compatível com o sistema capitalista. Pelo contrário, o sistema capitalista contribui ávidamente para a devastação do meio ambiente. A proteção do meio ambiente deve ser levada em consideração seriamente durante o processo de mudança social.
  • A solução para a questão curda deve ser tentada em conjunto com um processo de democratização de todos os países que exercem seu poder sobre o Curdistão de maneira hegemônica. Este processo, porém, não é limitado a tais países, mas deve estender-se por todo o Oriente Médio. A paz no Curdistão está intimamente ligada à democracia no Oriente Médio. Um Curdistão livre somente é concebível como um Curdistão democrático.
  • A liberdade individual de expressão e de decisão é imperativa. Nenhum país, nenhum estado, nenhuma sociedade tem o direito de restringir tais liberdades, independentemente das razões alegadas. Sem liberdade individual, a liberdade social não poderá existir, assim como a liberdade pessoal é impossível se a sociedade não for livre.
  • Uma redistribuição justa de recursos econômicos que se encontram atualmente nas mãos do estado é igualmente de extrema importância para o processo de liberação social. Abundância econômica não deve transformar-se em uma ferramenta do poder do estado com o objetivo de facilitar o exercício deste poder sobre a população. Riquezas econômicas não são propriedade do estado mas da sociedade.
  • Uma economia próxima à população deve ser baseada nesta redistribuição; ela deve ainda ser baseada em benefícios em lugar de visar exclusivamente a acumulação de lucros e o aumento da circulação monetária. Atualmente, as estruturas econômicas locais deterioram tanto a sociedade quanto o meio ambiente. Uma das principais razões da decadência da sociedade é o efeito dos mercados financeiros locais. A produção artificial de bens, a procura interminável por novos mercados de consumo e a cobiça sem limites por lucros cada vez maiores são responsáveis pela diferença cada vez mais abismal entre pobres e ricos, acrescentando diariamente indivíduos ao batalhão dos que vivem abaixo do nível de pobreza e mesmo dos que morrem de fome. Uma política  econômica deste tipo não pode mais ser tolerada. Este é então o maior desafio para a política socialista: implementar uma política econômica alternativa que não vise unicamente o lucro mas sim uma distribuição justa dos recursos e a satisfação das necessidades básicas naturais para todos.
  • Embora a tradição curda valorize altamente a família, esta última segue sendo uma entidade onde a liberdade não é garantida. Carência de recursos financeiros assim como o difícil acesso à educação e aos serviços de saúde não deixam espaço para o desenvolvimento da unidade familiar. A situação de crianças e mulheres é desastrosa. Assassinatos “de honra” de mulheres da família ilustram este desastre. Mulheres podem virar o alvo de uma noção de honra arcaica que reflete a decadência da sociedade como tal. A frustração masculina em relação as condições existentes é dirigida contra o suposto membro “frágil” da família: a mulher. A família como instituição social está em crise. A solução desta crise familiar, assim como de outras crises detalhadas acima, se encontra no contexto de uma democratização completa.”

Abdullah Öcalan

Publicado polo blog anarquia ou barbarie.

 

Democracia sem estado no Curdistão

Por Carlos C. VarelaKobaneAs negociações entre Turquia e o PKK, presas por um fio, e sobretudo a batalha de Kobane contra o Estado Islâmico, trouxeram à agenda internacional o conflito curdo. Porém, o tratamento mediático está a ser muito seletivo no que diz respeito à ajuda militar: protagonismo aos conservadores Peshmerga; hostilidade e apagamento informativo às combatentes do confederalismo democrático. Isto porque no Curdistão, dividido entre vários Estados em conflito, estão a ensaiar uma das propostas emancipatórias mais originais da região, um “zapatismo de guerra” em cuja superação do capitalismo e do Estado-nação poderia estar a chave para a paz no Oriente Médio.

A queda do bloco soviético, que resultou no colapso da imaginação política europeia, situou o PKK – um movimento de libertação nacional clássico, marxista-leninista – numa disjuntiva: ou refugiar-se no dogmatismo, ou aceitar o desafio de se reinventar. Esta última opção, que na América Latina se produziu desbordando por baixo – e da mão da indigeneidade – as velhas organizações; no Curdistão efetuou-se desde dentro da estrutura clássica. Influenciado polas leituras de cárcere de Murray Bookchin, o líder curdo Abdullah Öcalan impulsiona uma nova estratégia para a libertação curda e de todo Oriente Médio: a superação dos horizontes da modernidade capitalista e do Estado-nação através do socialismo comunitário e a confederação. A concreção teórica desta viragem à democracia sem Estado foi a Declaração do Confederalismo Democrático de 2005, renovado em 2011 com o Chamamento à Autonomia Democrática no Curdistão.
O Estado turco respostou detendo entre 2009 e 2011 mais de 8.000 ativistas da União de Comunidades do Curdistão (KCK), sob acusação de «pertença a organização terrorista» e quererem construir «um Estado paralelo». Mas as ativistas chamam às cárceres turcas «a Universidade Curda», e a criação de concelhos autogeridos, cooperativas e todo tipo de auto-organizações, não deixa de medrar, a par da tomada de poder dos concelhos «oficiais» que permite a duvidosa democracia eleitoral turca.

Soberania alimentar e económica
A transição a uma economia democrática e ecológica é uma proposta que se concretiza nas cooperativas, especialmente as agropecuárias, mas também têxteis. Mulheres e jovens são as protagonistas destes gérmolos de socialismo descentralizado. Dizia o velho Marx que um assalariado «leva a sua própria pele ao mercado e não pode aspirar a mais do que a uma cousa: a ser curtido», por isso o movimento curdo, para além das reivindicações laborais do sindicalismo clássico, faz da soberania e do empoderamento económico – através da economia social e do cooperativismo – o seu horizonte de emancipação pós-capitalismo.
Apontava Gramsci que «não há dúvida de que embora a hegemonia é ético-política também deve ser económica». Com esta premissa um grupo de sociólogos cria Sarmaçile (“Hedra”, em curdo), ONG que trabalha no empoderamento económico. Um dos seus militantes explica que «por causa dos nossos problemas económicos, os curdos estamos a expensas da dependência do Estado. O nosso objetivo global é romper esta dependência . É aqui onde o nosso projeto converge com a Autonomia Democrática. O Estado mesmo pode instrumentalizar a população empobrecida, e nós queremos privá-los dessa possibilidade, e que a gente possa decidir livremente. Politicamente, o Estado turco fracassou aqui, e graças à resistência está a perder militarmente também. A única área em que ainda é capaz de dominar é na económica».

Şehid Sakine Cansız e Murat KarayılanUma revolução feminizadora
Em janeiro de 2013 o movimento curdo saltava às capas dos jornais europeus; três ativistas foram assassinadas em Paris, entre elas a cofundadora do PKK Sakine Canzis. Nas passadas eleições no Curdistão Norte (Bakur), resolvidas com um forte apoio à estratégia do confederalismo democrático, Gültan Kisanak era eleita presidenta da capital, Amed, algo inusual no Oriente Médio. Atualmente, na guerra de Síria destacam-se as milicianas das Unidades de Proteção Popular mistas (YPG) e das exclusivamente femininas (YPJ). A guerrilheira Arin Mirkan, morta em Kobane, tornou-se um símbolo omnipresente duma guerra em que as curdas não só defendem o seu país, mas o seu processo de libertação de género.
Estes são apenas os exemplos mais mediáticos da feminização do movimento curdo, que com a nova estratégia reconhece que a libertação nacional e social só é possível através da libertação das mulheres. No independentismo curdo, como nos movimentos sociais latinoamericanos ou indianos, está a irromper uma outra cultura política, uma outra racionalidade que tem como força motriz os afectos, o amor e a amizade, isso a que Alejandro Moreno chama a episteme relacional. Do Movimento Democrático de Mulheres Livres (DÖKH), às Mães pola Paz, uma constelação de projetos autogeridos estão a materializar esta mudança. Procuram o empoderamento das mulheres através da autonomia económica que dá o cooperativismo, a educação e a participação política. O novo soberanismo de base concelhia dispõe de conselhos de mulheres, que se auto-organizam em todos os âmbitos da vida, incluída a autodefesa perante a violência machista. Um repertório de métodos sancionadores, que vão das multas económicas à expulsão ou condenação ao ostracismo, permite-lhes combater o maltrato. Tem muita importância também a luta contra a poligamia, considerada insultuosa polas mulheres. No âmbito do lazer, atividades culturais como a dança ou a música abrem portas às mulheres menos politizadas, amiúde sem mais vida que a familiar. A lavandaria cooperativa de Sûr, por exemplo, não só poupa trabalho às vizinhas, também oferece um espaço de socialização, com cursos educativos e assembleias políticas, enquanto as crianças são atendidas no serviço autogerido de creche.

1982 Umha das primeiras unidades guerrilha PKKDesmilitarizar a religião
Antes do enfrentamento com o Estado Islâmico o movimento curdo já fora ameaçado por outras forças reacionárias escudadas na religião. De facto o Estado turco sempre empregou a religião como arma contra o PKK: primeiro com grupos como o Hezbollah –organização que não tem nada a ver com a sua homónima libanesa– e posteriormente com os novos movimentos salafistas. Ainda, o movimento do magnate Fetullah Güllen, outrora partidário de Erdogan, trabalha na extensão da sua rede clientelar polo Curdistão Norte. Promotor do nacionalismo neo-otomano e islamista, Fetullah Güllen defende a assimilação dos curdos sunitas e o aniquilamento do movimento da libertação independentista.
É neste contexto que o movimento curdo, secular e com muitos militantes ateus, está a tentar que os seus inimigos não possam enquadrar o conflito em parâmetros sectários. Opõem-se radicalmente, numa região inçada de minorias, a um ordenamento político sustentado na homogeneização religiosa, apenas factível através da barbárie. No meio da perseguição, os curdos estão a converter-se no guarda-chuva de minorias como a Yazidi, convidando-as, aliás, à auto-organização democrática. Para combater a militarização das religiões, Öcallan realizou um chamamento à democratização religiosa, que calhou no passado mês de maio na organização em Amed do I Congresso do Islão Democrático, onde se explorou a Carta de Medina do profeta Maomé como ferramenta para o convívio e diversidade religiosa.

Democracia radical em Rojava
As ativistas do Curdistão Oeste, sob administração síria, engrossaram tradicionalmente a guerrilha do PKK, posto que Rojava é uma terra sem montanhas, mui pouco apropriada para a resistência armada. Muitas já vinham criticando este “turcocentrismo” do movimento curso quando o estalido da guerra de Síria mudou tudo. Agora a principal frente está em Rojava, onde o vazio de poder foi ocupado, nos cantões de Kobane, Afrin e Yazira, polo chamado Autogoverno Democrático.
Além da autodefesa, o povo e os partidos assinarom um Contrato Social para a autogestão da sociedade e polo respeito dos direitos humanos e nacionais de todas as minorias de Rojava –curdas, árabes, siríacas, circasianas, chechenas…–, estabelecendo governos descentralizados. No meio da guerra, Rojava é um impressionante laboratório de experimentação política. Cada um dos três cantões autogoverna-se renunciando a hegemonias e homogeneizações étnicas, acreditando em que esse modelo de convívio poder-se-à estender a uma Síria multinacional.
Salih Muslim, do Partido da União Democrática (PYD) que partilha ideário com o PKK, e copresidente do Governo de Yazira*, explica que «do PYD advogamos pola autodeterminação direta, também chamada “democracia radical”. Basicamente consiste em descentralizar o poder para que o povo seja capaz de tomar e executar as suas próprias decisões. É uma versão mais sofisticada do conceito de democracia que vai em sintonia com muitos dos recentes movimentos sociais na Europa».

E no Curdistão Sul?
Em Bashur, o sul curdo sob administração iraquiana, os peshmergas combateram o Estado do Iraque entre os anos 60 e 80, passando a atacar a guerrilha do PKK em Qandil durante a trégua unilateral de 1999-2004, e atingiram o poder com a invasão dos EUA, com um elevado grau de autonomia. Porém, o governo de Massud Barzani não redundou num reforço do resto das zonas curdas sob outros Estados, senão em suculentos petronegócios com os EUA, Israel e Turquia. Do PCDK, organização irmã do PKK em Bashur, acusaram o presidente Barzani de ser responsável da tragédia de Kobane, ao não dar nenhuma ajuda às YPG para não incomodar a Turquia. Contudo, a impotência dos peshmerga para conter no seu território o avanço yihadista, impôs-lhes uma aproximação às combatentes revolucionárias das YPG, PKK e PJAK –de Rojhilat ou Curdistão Oriental–. Apenas o tempo dirá se foi apenas oportunismo ou uma aplicação da democracia radical a todo o Curdistão, incluído o Sul.
Publicado no Novas da Galiza de Abril.

Carlos C. Varela foi detido pola Policía Nacional o 15 de setembro do 2012 en Vigo e atópase en prisión provisional, á espera de que o Tribunal Supremo resolva o recurso contra a sentenza da Audiencia Nacional que en maio do 2014 o condenou a 12 anos de prisión por “tenencia de explosivos e pertenza a Resistencia Galega”. Na actualidade está preso no centro penitenciario de Estremera (Madrid), despois de ter pasado durante este tempo, tamén polas cadeas de Soto del Real, Aranjuez, Valdemoro, Navalcarnero (Madrid) e Topas (Salamanca).
Membro do Consello de Redacción do Novas da Galiza e colaborador de varios medios de comunicación, estudante de Filosofía e de Antropoloxía e investigador, ten publicado numerosos artigos en portais web, revistas e libros, ademais de realizar un importante labor como dinamizador social e cultural en diferentes agrupacións de Compostela e da comarca de Ordes.
A Rede de Apoio a Carlos Calvo abriu ao pouco da súa detención o blog De volta para Loureda, unha web que dá conta das novidades relacionadas con Carlos e do seu día a día na prisión e que tamén pretende ser un punto de encontro que apañe canta solidariedade sexa posible para el e para todos os presos que se atopen en situacións semellantes

*O nome em curdo é Cizirê, e em siriaco Gozarto. Os tres nomes alternam-se indistintamente para falar da mesma realidade.

Agradecer ao Novas da Galiza que nós permita a reproduçom do artigo. Um grande trabalho jornalistico o deles sobre a Galiza.