A questom turca

a-questom-turcaPor Ozkan Kocakaya

A questom de como resolver a crise causada pola deterioraçom das relaçons entre a UE ea Turquia está a ganhar intensidade cada dia. O venres, o presidente da Turquia Erdogan ameaçou com abrir as portas da fronteira para permitir que milhons de refugiados viajem para a UE em resposta ao voto nom vinculativo do jôves dos deputados europeus no Parlamento Europeu para congelar as negociaçons de adesom da Turquia. Foi o último (que nm derradeiro) capítulo que sublinhou a queda da Turquia em umha ditadura.

As negociaçons de adesom da Turquia à Comunidade Económica Europeia, antecessora da UE, começaram em 1987, com a ideia de que, ao mesmo tempo que serviam os interesses estratégicos e económicos da Europa, a Turquia poderia também ser modernizada através da adesom aos valores europeus. Embora o som principal, desta estratégia requer umha naçom que se esforça para umha evoluçom progressiva; e a Turquia nom se enquadra nesta categoria ainda.

A revelaçom de Erdogan do fascismo profundamente arraigado em todos os níveis da sociedade em Turquia é prova disso e os aliados internacionais de Turquia, pretendendo proteger os interesses acima mencionados na regiom, permitirom que a Turquia mantivesse umha fachada de democracia ao negar-se a fazer exame estrutural e social das reformas. A sua incapacidade de resolver a questom curda resultou, consequentemente, em que o membro da OTAN recorresse à extorsom e à supressom militar brutal do movimento curdo, juntamente com a propaganda sistemática sancionada polo Estado, tanto nacional como internacionalmente, por quase um século.

Os comprimentos a que a Turquia tem estado a negar o estatus curdo de qualquer tipo na regiom pode ser sintetizado polos acontecimentos dos últimos dous meses sozinho. É a insistência, e falha subseqüente, para ser-lhe permitido participar em operaçons para libertar Mosul e Raqqa foi destinado a travar o progresso dos curdos. Para distrair as suas políticas sírias e iraquianas, Erdogan acelerou as prisons contra os curdos em casa, prendendo deputados curdos. A natureza sinistra da mentalidade que resultou no feito de o Estado tome efetivamente prisioneiros deputados curdos eleitos foi revelada por Huseyin Kocabiyik, o deputado do AKP para Izmir, dizendo: “No caso de tentativas de assassinato de líderes estaduais, as pessoas iram invadir as prisons e ficarem presas os terroristas do FETO [Gulenistas] e do PKK “umha semana após essas prisons. É umha admissom categórica do desespero que toma a preensom entre círculos do AKP assim como umha derrota política.

Embora estes sejam indicativos da vontade da Turquia de recorrer a medidas tam desesperadas como a extorsom dirigida à UE e aos curdos, o que está a ficar claro é que a Turquia nunca tivo um problema curdo, mas a regiom sempre tivo um problema turco. Afinal, a Turquia tem legitimado os crimes que cometeu contra os curdos apontando o dedo para o PKK por quase quatro décadas. A questom curda é um sintoma do maior problema que está ligado a el, e a Turquia tem estado habilmente desviando a atençom dos seus próprios fracassos a nível estadual, despejando vastos recursos para apresentá-los como umha questom curda.

A decisom da Áustria de impor um embargo de armas à Turquia, o reconhecimento por parte dos tribunais alemaes do apoio da Turquia ao terrorismo e o reconhecimento de um tribunal belga da luita armada num caso histórico contra políticos curdos acusados de serem membros do PKK. O que deve seguir é o reconhecimento de que a UE e o Médio Oriente tenhem um problema turco. Até que este seja amplamente reconhecido e abertamente debatido a nível internacional, juntamente com umha forte liderança do Ocidente para negar a Turquia as plataformas de censura e propaganda no exterior, a Turquia nom vai mudar. Isto pode muito bem envolver sançons económicas e militares, mas considerando que foi necessária umha guerra mundial para combater o fascismo na Europa, será um preço menor a pagar.

A Turquia está empregando toda a força das suas capacidades militares e políticas para impedir que os curdos ganhem status em qualquer lugar, é indicativo o papel importante dos curdos em trazer estabilidade e reformas democráticas para o Oriente Médio. É também um reconhecimento da última batalha ideológica para a sobrevivência, apresentando-o como umha guerra contra os curdos, onde na verdade sempre foi uma guerra entre o fascismo e a democracia dentro da Turquia. Derrotar essa ideologia nom só serve os curdos, mas os próprios turcos.

Quando Hilary Benn deu o seu discurso apaixonado no parlamento do Reino Unido na sequência dos atentados de Paris em novembro passado, el estava-se referindo à ameaça crescente do Islamofascismo apresentado pola ISIS. No contexto do reconhecimento generalizado da cumplicidade da Turquia no surgimento do ISIS e dos paralelos na ideologia do AKP com o grupo terrorista mais vilipendiado da história, esse discurso é mais relevante para a crescente ameaça à segurança global proveniente da última casa remanescente do fascismo que é a Turquia. Assim, a questom curda da Turquia sempre foi umha cortina de fumaça para a verdadeira questom turca.

ozkan-kocakayaOzkan Kocakaya é originária da Turquia, de origem curda. Depois de ganhar umha licenciatura e um mestrado da Universidade de Liverpool em IT e assuntos relacionados com o mercado, el começou umha carreira na indústria financeira, onde ainda ganha a vida. Tendo um grande interesse na literatura e umha paixom polo Curdistam,  dedicao  seu tempo livre a escrever ficçom para promover a história e os valores curdos, bem como blogs sobre assuntos atuais no seu país de origem.

Publicado em Kurdish Question.

 

 

O fracasso contínuo do sistema internacional na questom curda

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Cidade curda destruída por artilharia militar turca

Por Hawzhin Azeez

Na semana passada, o estado turco, liderado polo presidente Erdogan e o seu governo do AKP, envolveu-se em umha das repressons mais preocupantes sobre os membros eleitos curdos do parlamento. O processo que começou com a prisom dos co-alcaldes de Diyarbakir continuou com a prisom dos co-presidentes do Partido Democrático do Povo (HDP) Selahattin Demirtas, Figen Yuksekdag e 7 deputados.

Esta última repressom ocorre em linha com os acontecimentos do fracassado golpe militar de julho. Desde entom, milheiros de funcionários públicos, professores, trabalhadores municipais, jornalistas e acadêmicos e também soldados forom presos ou demitidos. Esta repressom realça as preocupantes tendências políticas em curso na Turquia. A chamada democracia na Turquia está em sérios problemas e em rápido declínio.

A única marca da democracia da Turquia é a vergonhenta e transparente prisom de deputados, detençom de ativistas e tortura e assassinato de manifestantes.

A única certeza no sistema internacional com as suas leis farsas e falsas instituiçons é o contínuo silêncio cúmplice em vista das graves violaçons dos direitos humanos contra os curdos, grupos de esquerda e outras minorias na Turquia e as invasons inspiradas no neo-otomanismo imperialistas do AKP do Curdistam da Síria e o Iraque. A única liberdade que a imprensa internacional expressa é a sua escolha coletiva contínua de permanecer em grande parte silenciosa sobre essas violaçons. Enquanto a esquerda global permanece negligentemente subjugada, paralisada pola inaçom e indecisom.

Este pesadelo orwelliano representa o fracasso de toda a fundaçom da Nova Ordem Mundial. As suas instituiçons neoliberais, imperialistas e estatistas, outrora símbolo do argumento xenófobo da “Fim da História”, definido como o epítome da sua essência imperial, representam agora a realidade que sempre foi para os oprimidos e colonizados: violentas instituiçons indiferente e de empatia seletiva que determinam o destino das naçons, agora nom com canetas em mapas, mas com o clique de alguns botons em smartphones todo o direito das pessoas de existir ou perecer. E todo isso diante de um público global insaciável que consome com avidez o sofrimento dos oprimidos e exigem imagens cada vez mais violentas das nossas opressons para cumprir  o seu mórbido canibalismo.

Nom se engane, a resoluçom da “Questom Curda” pode ser o maior caminho rumo à estabilidade coletiva coletiva e à paz imediata, ou, se as tendências continuarem, pode implodir em outro conflito prolongado sem fim à vista. A única diferença é que agora a nossa opressom e a violência associada nom será mais contida nitidamente em nossos lares e eiras, como tem sido por décadas e séculos. Mas ela se vai espalhar na sua eira também.

Nom se esqueça que a responsabilidade nom deve ser sobre os oprimidos para provar a sua humanidade e, portanto, o seu direito à existência. Eles já estam carregados com o fardo insuportável da resistência desesperada pola sua própria sobrevivência. Mas em vez disso, a responsabilidade deve ser sempre à elite informada, privilegiada para reafirmar e recuperar a sua humanidade, fazendo algo sobre isso.

E assim imos esperar.

Enquanto permanecemos, coletivamente, no precipício de umha era perigosa.

Hawzhin AzeezHawzhin Azeez tem um doutorado em Ciência Política e Relaçons Internacionais. Ela é defensora dos direitos das mulheres e dos refugiados. Está atualmente trabalhando na reconstruçom de Kobane através do Conselhode  Reconstruçom de  Kobane.

Publicado em kurdish question.

 

‘Erdogan vai seguir os passos de Saddam ou Hitler’: Entrevista a Zubeyir Aydar, líder político curdo

01-zubeyir-aydarPor Figen Gunes

“A maior mostra de solidariedade após a resistência de Kobanê em toda a Europa entre os curdos foi depois que os líderes e deputados do HDP foram presos na Turquia “, dixo Zubeyir Aydar, membro do Comité Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK),  organizaçom a que pertenze o Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK).

Zubeyir Aydar respondeu às perguntas de Figen Gunes sobre a ausência de protestos nas ruas na Turquia, bem como o apoio dos partidos do Governo Regional do Curdistam e as possibilidades de transformá-lo numha oportunidade para consolidar as relaçons nacionais entre os Curdos.

Figen Gunes: O povo do sudeste da Turquia sofreu umha grande destruiçom em todos os níveis desde o colapso do processo de paz. Depois de quase 200 civis terem sido queimados vivos em três sotos de Cizre, Sirnak, seria de esperar fortes protestos públicos. No entanto, nom houvo grandes manifestaços. Mas quando olhamos para a diáspora curda na Europa, especialmente na Alemanha, vemos umha  forte condenaçom do governo turco em grandes protestos de milheiros de pessoas enviando mensagens de apoio para às gente do sudeste da Turquia. Pode nos falar sobre essa dicotomia?

Zubeyir Aydar: Quando o estado está matando as pessoas nas ruas é difícil sacar as pessoas. Há milhons de pessoas em Bakur (norte do Kurdistan-sudeste da Turquia) que, de outra forma, estariam nas ruas protestando contra a opressom dos curdos. Sob as Leis de emergência, há actuaçons limitadas. Além disso, os líderes que organizariam estas mobilizaçons estam todos sob custódia ou presos.

Até 1992, grandes massas protestavam nas ruas. No entanto, quando eu fum a Sirnak no verao de 1992 como deputado da cidade, a gente mirava-nos de longe. Estavam com medo de aproximar-se-me devido à atmosfera no momento. Isso nom significava que eles estiveram contra minha ja que fum escolhido por eles. É porque o estado é muito experiente em como silenciar às pessoas.

As multitudess que vimos na Europa em protestos públicos tenhem as mesmas inclinaçons políticas com aqueles no Curdistam. Aqui na Europa, nom há nem toques de recolher nem limites aos protestos. Esta é a única razom pola qual nom vemos protestos em Diyarbakir, onde as pessoas sabem que pagariam com as suas vidas. Tendo dito que em Adana e Mersin, por exemplo, há menos pressom e as pessoas estavam criticando as decisons do governante AKP.

O Plano Colonialista de Reforma do Leste ainda está em vigor

F.G: Historicamente, o governo turco, que criaram um  espaço para conversaçons bilaterais com os líderes do PKK, classificariam mais tarde estas conversas como atos de traiçom. Pode nos dizer se o governo atual na Turquia tinha umha política para tratar os curdos de umha certa maneira desde o início ou estamos enfrentando umha liderança volátil sem planos concretos do governante AKP?

Z.A: O Plano de Reforma do Leste (Sark Islahat Plani), que chamamos de plano de genocídio, tem sido usado contra os curdos desde 1925. Este era o documento teórico detalhando como os curdos seriam erradicados. Nos últimos anos, a Turquia tentou abordar a questom curda sem recorrer à guerra, mas este discurso nom reconhecia a identidade curda. O governo turco mais umha vez nos últimos anos viu o PKK apenas como portador de armas; Eles pensavam que se o PKK desistisse das armas, a questom curda seria resolvida. Isto foi mencionado em todas as conversaçons, incluindo Oslo (2009) e Imrali [2013-2015] com o governo turco.

O governo nom apresentou um plano político para abordar a questom. Emre Taner, ex-funcionário do Serviço de Inteligência Turco (MIT), repetiu recentemente isso quando deu provas ao comitê de investigaçom do golpe. Taner foi o arquitecto das conversaçons de Oslo e admitiu que o governo turco nom ofereceu um roteiro aos curdos durante as conversaçons de Oslo para resolver a questom.

Além disso, o primeiro objectivo estabelecido no Plano de Reforma Oriental era a assimilaçom dos curdos residentes no Oeste do Eufrates. Portanto, quando o atual governo turco di que o oeste do Eufrates é a sua linha vermelha, isso nom deve ser visto como umha coincidência. Esta fronteira de feito vem deste documento histórico. O governo pensa que se os curdos atravessaram ao oeste do Eufrates em Rojava, também o fariam no Iraque.

Declaraçom de Dolmabahce

F.G: Os curdos forom capazes de negociar um acordo com o atual governo em fevereiro de 2015. Por que entom a Declaraçom de Dolmabahce foi desfeita? 

Z.A: O atual período de guerra veu depois do estado profundo na Turquia: Ergenekon e Gulenistas estenderam a cabeça e questionaram a Declaraçom de Dolmabahce. Esta declaraçom tinha o potencial de resolver a questom curda através de dez pontos práticos. Contudo, estas forças do estado profundo digeram-lhe a Erdogan, “Vostede é o que senta no palácio mas esta declaraçom deve ser bloqueado”. Esta era inerentemente umha decisom de guerra. Queriam buscar umha resoluçom nas negociaçons de paz, ou luitar. No verao, logo da Declaraçom de Dolmabahce ter sido abandonada por Erdogan, o conflito retomou. Agora, mesmo as associaçons curdas estam sendo fechadas. Nom apenas isso, os conselhos locais eleitos e administrados polos curdos estam sendo apreendidos e substituídos por administradores designados polo governo. A prisom dos 10 deputados do HDP é também umha parte deste período de conflito. Nom reconheceremos os guardians designados. No entanto, as declaraçons para o auto-governo curdo nom estam na nossa agenda para o futuro próximo porque o povo nem sequer é capaz de respirar e mover-se livremente.

Ajoelhar-se ou morrer

F.G: Forom abordados polo governo turco para iniciar umha nova fase de negociaçons após a mesa da negociaçom ter sido derrubada.

Z.A: Nom. Nós, como Movimento de Libertaçom do Curdistam somos confrontados com a destruiçom total porque o governo di isso: ou ajoelhar-se ou morrer. Nom nos inclinaremos, portanto estamos sendo atacados. Primeiro, a Turquia apoiou o Daesh (Estado Islâmico) para bloquear os ganhos dos curdos na Síria, e entom entrou el mesmo com o mesmo objetivo. A nossa estratégia é defender-nos em Rojava e Turquia com as armas. O presidente Recep Tayyip Erdogan é um ditador e por esta razom estaremos trabalhando para construir umha frente pola democracia ao lado de outras vozes da oposiçom na Turquia.

Outra prioridade para nós é concentrar-nos com a diplomacia, neste momento particular. Vamos expor os erros da Turquia, especificamente da OTAN e a UE. Nom Imos ajoelhar, mas resistiremos e isso precisa ser explicado ao mundo inteiro.

O objetivo dos curdos umha nova aliança

F.G: A Turquia atravessa um período extraordinário. Como é que o partido no poder preenche os cargos vacios polas grandes purgas? Quem som os novos sócios do Estado?

Z.A: Erdogan formou umha nova aliança com o Ergenekon. Ironicamente, os Gulenistas e Erdogan luitaram juntos contra esta força na última década e aprisionou-nos. No entanto, agora, Erdogan tem umha aliança inversa em vigor. O primeiro objetivo desta aliança é a consolidaçom do governo de Erdogan. A segunda é a eliminaçom total dos gulenistas nas posiçons governamentais. Sob esta nova aliança o objectivo comum de luitar também os curdos.

Erdogan nom descera do seu palácio normalmente; El vai ser preso ou morrer, seguindo os passos de Hitler ou Saddam, que el tentou imitar com as suas políticas expansionistas e opressivas na Turquia e no Oriente Médio em geral. A UE e os Estados Unidos nom estam satisfeitos com esta orientaçom. Eles nom querem umha Turquia instável. Apesar de estar infelizes, ainda nom querem impor sançons contra a Turquia, o que deveria ter sido feito rapidamente.

Os grupos paramilitares de Erdogan

F.G: Como pode esta nova aliança sobreviver em meio disses inimigos?

Z.A: Erdogan tem trabalhado na criaçom dos seus próprios grupos paramilitares. Historicamente, o partido político nacionalista MHP foi dado a esta tarefa e criou os Lobos Cinzentos para usa-los em favor do governo. Mas agora, as Unidades Otomanas (Osmanli Ocaklari) forom formadas e estam sob as ordens diretas do governo e operam como parte das unidades especiais no serviço secreto. No ano passado, houvo uma onda de ataques ao HDP. Este foi trabalho das Unidades Otomanas. Os alemaes alertaram-nos sobre a sua grande existência na Alemanha. Acreditamos que estam organizados em toda a Europa. As informaçons da Alemanha reveladas sobre eles devem ser tidas em conta e tomar medidas.

Unidade Curda

F.G: Alguns pensam que a personalidade alegre e adorável de Selahattin Demirtas pode desempenhar um papel em reunir outras seçons do movimento curdo; Vostede está esperançoso na unidade entre os curdos, especialmente depois que os líderes do HDP foram presos?

Z.A: As prisons dos líderes do HDP criaram umha reaçom entre outros líderes curdos. No entanto, eu encontrei a reaçom do KDP macia. Os problemas atuais nom podem ser resolvidos através da opressom; A liderança do KDP nom condenou as açons da Turquia. Dito isto, outros partidos curdos nas quatro partes do Curdistam mostraram a sua condenaçom da Turquia, o que é importante. Os desenvolvimentos em Mosul e Rojava criam ainda a necessidade de unifidade entre os curdos. Estamos prontos para um diálogo mais desenvolvido; No entanto, é difícil prever se isso levaria a quaisquer ganhos sob a forma de cooperaçom sólida a curto prazo.

Diferenças históricas

F.G: O PKK está perdendo força depois dos recentes ataques?

Z.A: Os curdos gozavam de autonomia sob o domínio otomano desde o início dos anos 1500 até o início do século XIX. Quando isso mudou, começarom os motins contra os otomanos. O primeiro motim foi em 1806 em Sulaymaniah. Desde entom, 210 anos passarom, mas há umha série de revoltas. O ex-presidente da Turquia, Suleyman Demirel, dixo umha vez que o PKK era a 29ª revolta curda, no entanto, de acordo com os documentos do Comandante Geral turco, o PKK é o 39º movimento curdo desde o início do Império Otomano. A diferença é que a existência do levante do PKK é a mais longa do que o total de todas aquelas que forom anteriormente. Os movimentos do passado eram locais e fracos e, portanto, forom suprimidos em um curto espaço de tempo. No entanto, o PKK tem crescido continuamente nos últimos 33 anos.

Na Turquia, os governos venhem e vam e cada um promete erradicar o PKK, mas nom foi esse o caso. Nos anos 90, tínhamos um grupo parlamentar curdo, mas agora, apesar de alguns terem sido presos, temos um grupo muito mais forte. Temos também mais municípios administrados polos curdos e o reconhecimento internacional de Rojava, que nom existia no passado. Mais umha vez na década de 1990, houvo Saddam no Iraque e o Governo Regional do Curdistam era fraco. A OTAN era um partidário proeminente da Turquia. Mas nos últimos anos, a UE e as relaçons da OTAN com a Turquia tenhem azedado. Os curdos também pagarom um preço durante este período, mas imos sair mais fortes. A operaçom de Raqqa ajudará os curdos a ganhar mais reconhecimento.

Trump no Oriente Médio

F.G: Trump vai ser um bom amigo para os curdos? Qual é a sua previsom, dado o seu populismo no período das eleiçons?

Z.A: É difícil prever, como el era um homem de negócios no passado. Nom tem experiência política. Foi eleito presidente, mas um home nom pode mudar o modelo de política da América sozinho. A sua política externa e prática nom muda com um home. Além disso Trump nom está claro sobre como vai implementar as suas políticas. Queremos que a América seja mediadora nas negociaçons de paz e entenda que a política opressiva da Turquia contra os curdos nom pode durar mais tempo.

03-figen-gunesFigen Gunes é umha jornalista de Al Jazeera Inglês com foco na liberdade de expressom, a mudança de propriedade dos mídia e julgamentos de jornalistas na Turquia. Formada em mestrado em Relaçons Internacionais, escreveu a sua tese sobre a viabilidade futura de Rojava.

Publicado em Kurdishquestion.

A guerra de Erdogan contra as mulheres

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Ayla Akat Ata, porta-voz do Congresso de Mulheres Livres (KJA), celebraçom do 8 de março de 2014, quando ainda era deputada.

Por Dilar Dirik

As mulheres curdas, um dos movimentos mais fortes e radicais das mulheres no mundo está sendo reprimido polo Estado turco com total impunidade – e Europa mirando para outro lado

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Detençom de Sebahat Tuncel

“Vamos resistir e resistir até ganhar!”, berrava Sebahat Tuncel antes da sua boca ser fechada à força por meia dúzia de policias que a arrastam polo chao e a detiverom a começos de novembro.

Nove anos atrás, um comboio com sinais de vitória, slogans alegres e flores recebeu a Tuncel quando ela foi libertada da prisom para entrar no parlamento, tendo sido eleita ainda dentro. Tuncel, agora presa novamente, é umha das dúzias de políticos curdos do Partido Democrático do Povo (HDP) ou do Partido Regional Democrático (DBP), presos polas forças de segurança turcas desde o final de outubro sob as operaçons “anti-terroristas” contra aqueles que desafiam o governo autoritário do presidente turco, Erdoğan. Essa repressom acompanha a tentativa de golpe de Estado em julho e representa umha re-escalada da guerra entre o Estado e o movimento curdo desde o verao de 2015, terminando um processo de paz de dous anos e meio. Como o conselho dado ao esquadrom anti-terrorista alemao na década de 1980 “Atire as mulheres em primeiro lugar!” A masculinidade tóxica do Estado tornou-se evidente na sua declaraçom de umha guerra contra as mulheres; a força do movimento militante das mulheres curdas representa a maior ameaça ao sistema. O caso de Sebahat Tuncel nom é único.

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Foto de Gulten Kışanak.

No final de outubro, Gültan Kisanak foi detida. Ela foi a primeira co-alcalde do Município Metropolitano de Diyarbakir e ex-parlamentária, que passou dous anos na década de 1980 na famosa prisom de Diyarbakir, onde sobreviveu às formas mais atrozes de tortura, como ter de viver durante meses em umha cabana de cans cheia de excrementos, porque ela recusou a dizer “Eu sou turca”. A sua prisom foi imediatamente seguida pola detençom violenta de Ayla Akat Ata, ex-deputada e agora porta-voz do Congresso de Mulheres Livres (KJA), a maior organizaçom de mulheres no Curdistam e Turquia, que está entre as 370 organizaçons da sociedade civil proibidas polo governo desde meados de novembro. Ela foi hospitalizada várias vezes devido à violência policial durante o seu período parlamentar e sobreviveu a várias tentativas de assassinato.

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Sebahat Tuncel, Ayla Akat Ata, Selma Irmak e Pervin Buldan protestam contra umha lei de segurança no Parlamento. Todas, exceto Pervin Buldan estam agora na prisom. Foto: Murstafa Istemi/Milliyet

Selma Irmak está entre as deputadas eleitas desde a prisom, onde passou mais de 10 anos sob acusaçons de terrorismo e participou de greves de fome. Gülser Yildirim estivo presa durante cinco anos antes das eleiçons. Outra deputada é Leyla Birlik, que ficou com os civis sob fogo militar em Sirnak durante toda a duraçom do bloqueio militar, testemunhando os assassinatos brutais de inúmeros civis polo exército. O seu cunhado, Haci Lokman Birlik, ativista e cineasta, foi executado polo exército turco em outubro de 2015; Seu cadáver estava amarrado a um veículo do exército e arrastado polas ruas. Soldados filmaram isso e enviarom o vídeo para Leyla Birlik com a mensagem “Venha colher o seu cunhado”.

A lista continua. Escolhemos mulheres corajosas como nossas representantes. Elas som agora prisioneiras políticas apesar de serem eleitas por mais de cinco milhons de pessoas.

As políticas ultra-conservadoras do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) sob Erdogan levarom ao aumento da violência contra as mulheres na Turquia durante a última década e meia. Nom só membros de alto nível da administraçom, incluindo o próprio Erdogan, rejeitam frequentemente a igualdade entre mulheres e homes em favor de atitudes que normalizam a cultura da violaçom, a violência de género e a misoginia, o AKP lança ainda ataques físicos explícitos às mulheres e pessoas LGBTI +. O estado hipermilitar nom só pune coletivamente a comunidade curda como separatistas, terroristas ou conspiradores contra o Estado, retrata as ativistas curdas como “mulheres más”, prostitutas vergonhosas e violadoras do núcleo da família.

Historicamente, a violaçom e a tortura sexual, incluindo os “testes de virgindade” post-mortem, tenhem sido utilizados polo Estado turco para disciplinar e punir os corpos das mulheres como observou Anja Flach no seu livro Frauen in der Kurdischen Guerrilla que nom está ainda traduzido do alemao. Nas prisons, as mulheres som submetidas a buscas íntimas para humilhá-las sexualmente. Recentemente, soldados tiraram as roupas dos cadáveres de militantes curdas e compartilharam essas imagens nas mídias sociais. Outro vídeo brutal mostrou que o exército turco disparava contra mulheres guerrilheiras na cabeça e as atiravam dos penhascos da montanha. Os rifles GermanG3 usados no vídeo ilustram a cumplicidade ocidental nestes crimes de guerra.

Embora essas atrocidades fossem frequentemente cometidas secretamente nos anos 90, compartilhar imagens nas mídias sociais é umha nova tentativa de desmoralizar a resistência das mulheres e demonstrar o poder do Estado. Estes métodos som semelhantes aos que comete o ISIS ao outro lado da fronteira e violam todas as convençons de guerra. Abusar sexualmente de umha mulher ativista, que ousa desafiar a hegemonia masculina, tem como objetivo quebrar a sua força de vontade e impedir o ativismo. Os ataques a mulheres políticas devem ser lidos neste contexto.

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Umha mulher curda que protestava contra o exército turco em Kerboran no ano passado. Imagem: Zehra Dogan / JinHa.

Muito antes dos principais meios de comunicaçom estarem sob fogo na Turquia, as repórteiras de Jinna, a primeira agência de noticias de mulheres do Oriente Médio, foram atacadas. Comprometidas com um objetivo explicitamente feminista no seu trabalho, as trabalhadoras de Jinha expuseram os crimes do Estado sob umha perspectiva de gênero. Agora Jinha está proibida e várias dos seus membros na cadeia.

O HDP é o único partido de oposiçom progressista de esquerda na Turquia com umha agenda baseada na protecçom dos direitos seculares, da diversidade, pró-minorias, pró-dereitos das mulheres e LGBT e ecológicos. Tem, de longe, o maior percentual de mulheres nas suas fileiras. Mesmo sem o sistema de co-presidência, umha política do movimento de liberdade curdo que garante a liderança compartilhada entre umha mulher e um home, a grande maioria das alcaldes estam nas regions curdas. Através de umha luita de décadas, especialmente encorajada polo líder curdo preso Abdullah Öcalan, o papel ativo das mulheres na política é umha parte normal da vida no Curdistam de hoje.

As mulheres do HDP e do DBP nom encarnam idéias burguesas da política representativa e do feminismo corporativo. Quase todas as políticas atualmente sob ataque passaram algum tempo na prisom, foram sujeitas a brutalidade policial, tortura sexualizada, tentativas de assassinato ou algum tipo de tratamento violento por parte do Estado. Elas estam sempre na vanguarda dos protestos contra o Estado e o exército.

As mulheres também forom actores significativos no processo de paz iniciado por Abdullah Öcalan com o Estado turco em Março de 2013. Todas as reunions na Ilha Prisiom de Imrali incluíam mulheres. Em 2014, Öcalan recomendou que as mulheres fossem representadas nas reunions como umha força organizada, e nom apenas como indivíduos. Assim, Ceylan Bagriyanik se juntou às reunions como representante do movimento de mulheres. A Declaraçom de Dolmabahce, a primeira declaraçom conjunta entre as partes em conflito, incluiu a libertaçom das mulheres como um dos dez pontos para a justiça e a paz duradoura. O Estado e os meios de comunicaçom forom incapazes de dar sentido à insistência do movimento curdo sobre a centralidade da libertaçom das mulheres no processo de paz.

Nós enfrentamos a puniçom coletiva para passar o limite eleitoral o mais elevado no mundo que exige que um partido político ganhe polo menos o 10 por cento do voto nacional para entrar no parlamento. As nossas cidades forom arrasadas, nossos seres queridos assassinados, queimados vivos, bombardeados, atirados ou espancados até a morte. O nosso património cultural e meio ambiente forom eliminados para sempre, nossos deputados arrastados nas ruas, nossos prefeitos substituídos por administradores governamentais contra a nossa vontade, nossos meios de comunicaçom censurados, as nossas mídias sociais bloqueadas. Ao destruir a possibilidade de políticas pacíficas e legais dentro dos marcos democráticos, a Turquia deixou os curdos sem outra opçom senom a da autodefesa. As instituiçons internacionais, sobretudo a Uniom Européia, falharom ao povo curdo em apaziguar a Erdogan. Em outras palavras, os governos ocidentais apoiam a eliminaçom sistemática de um dos mais fortes e radicais movimentos de mulheres no mundo.

A filosofia do movimento das mulheres curdas propom que todo organismo vivo tem os seus mecanismos de autodefesa, como a rosa com as suas espinhas. Este conceito nom é definido em um sentido físico rigoroso, mas inclui a criaçom de estruturas autônomas de autogoverno para organizar a vida social e política. A protecçom da própria identidade contra o Estado através da autodefesa é parcialmente possibilitado pola construçom de instituiçons políticas auto-suficientes.

Em umha época em que os corpos nus das mulheres som expostos nas mídias sociais polo exército e as candidatas eleitas estam sujeitas à tortura polo Estado capitalista-patriarcal, as mulheres estam luitando para demostrar que a sua honra nom está para ser definida polos homes porque a honra nom fica entre as pernas das mulheres; reside na nossa resistência, na cultura de resistência estabelecida polas pioneiras do nosso movimento. As nossas políticas encarceradas som as que defendem essa honra.

Desde a prisom, a co-presidente do HDP Figen Yüksekdag enviou esta mensagem: “Apesar de todo, eles nom podem erradicar a nossa esperança ou quebrar a nossa resistência. Seja na prisom ou nom, o HDP e nós, ainda somos a única opçom da Turquia para a liberdade e a democracia. E é por isso que eles tenhem tanto medo de nós. Nom, nem um só de vos, deixede-vos desmoralizar; Nom deixar cair a sua guarda, nem enfraquecer a resistência. Nom esqueçades que este ódio e agressom está enraizada no medo. O amor e a coragem ao final vam ganhar. “.

Dilar Dirik 34Dilar Dirik, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. O seu trabalho analisa o papel da luita das mulheres na articulaçom e construçom da liberdade no Curdistam. Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

Publicado em Opendemocracy.

 

 

O modelo Rojava

o-modelo-de-rojavaPor Meredith Tax

Como governam os curdos da Síria

Um novo modelo de organização social está tomando forma nas áreas curdas no norte da Síria. Rojava, como ficou conhecida, compreende três cantões na seção ocidental da  histórica terra natal do povo curdo, que está agora dividida entre Irã, Iraque, Síria, e Turquia. No que diz respeito a igualdade social, pluralismo étnico, e anti-sectarismo, o território é uma região sem igual. Esse é especialmente o caso quando falamos dos avanços das mulheres.

A atenção pública do ocidente deu um giro de 2014 a 2015, quando as milícias territoriais, as Unidades de Proteção do Povo (YPG) e as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ), tiveram um papel central na expulsão do Estado Islâmico, ou ISIS, de Kobane, uma cidade no noroeste da Síria. Observadores destacaram duas características do grupo: primeiro seu sucesso contra o ISIS, que as forças de segurança dos EUA e das forças de oposição Síria se esforçaram para derrotar, e segundo, o protagonismo das lutadoras femininas em suas fileiras.

Desde a Segunda Guerra Mundial, guerrilhas femininas fizera parte de lutas armadas ao redor do mundo. Mesmo a maior parte dos grupos militantes alistaram mulheres pois precisavam de soldadas, não porque desejaram empoderar as mulheres, e poucos tem priorizado tanto a igualdade das mulheres como os curdos da Turquia e da Síria.

A ênfase do Rojava sobre o papel de liderança das mulheres, no entanto, não se limita ao plano militar. Isso é definido pelos Curdos Sírios como uma visão societal mais ampla. Quarenta por cento dos membros da sociedade civil ou de qualquer órgão social em Rojava têm que ser de mulheres. Da mesma forma, todos os órgãos administrativos, projetos econômicos e organizações da sociedade civil são obrigadas a ter homens e co-presidentes do sexo feminino. Embora o Partido da União Democrática (PYD) seja dominante em Rojava  e os curdos são a maioria da sua população, Rojava é o lar de uma série de outros partidos políticos e etnias. É a única sociedade em sua região, que baseia-se nos pontos fortes de toda a sua população. Como é que as mulheres conseguiram ganhar tanto poder no meio de uma guerra pela sobrevivência?

Uma exceção regional

A história começa na Turquia em 1978, quando o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) foi fundado para criar um Estado independente curdo. Nos primeiros anos de sua insurgência contra o governo turco, o PKK foi dirigido principalmente por guerrilheiros do sexo masculino. Mas isso mudou na década de 1990. Quando a resistência civil curda mais ampla emergiu nas cidades turcas e os ativistas curdos  começaram a pressionar para ter um partido de representação no parlamento, o Partido Trabalhista Popular (HEP). Em ambos os empreendimentos, as mulheres serviram como líderes. Leyla Zana, uma ex-integrante do HEP, continua atuando no parlamento da Turquia.

Em 1993, de acordo com a jornalista Aliza Marcus, um terço dos novos membros do PKK eram mulheres; muitas delas recrutadas por Sakine Cansiz, uma de suas fundadoras.

Em 1995, o PKK formou um exército de mulheres, que agora é chamado de YJA-Estrela. A resolução que cria o exército deixou claro que iria servir como um modelo para outras organizações de mulheres “em todos os setores da economia, todas as instituições sociais, e até mesmo no campo da cultura.” A decisão foi particularmente notável pelo fato de que, na área rural do Curdistão, a subordinação do pensamento dass mulheres, tal como as práticas misóginas como os chamados assassinatos de honra,  reclusão imposta, e os casamentos de crianças tinham sido a norma. Para muitas mulheres curdas, deixar suas famílias para se juntar a um grupo insurgente foi uma enorme ruptura com a tradição patriarcal. Mulheres guerrilheiras foram pioneiras do movimento de libertação das mulheres como uma sociedade dentro da sociedade  curda.

Alguns dos líderes de Rojava, tais como os co-presidentes do PYD: como o Salih Muslim, foram originalmente membros sírios do PKK, e muitos dos ideais que têm sido postos em prática em Rojava foram testados na Turquia. Desde a fundação do PYD em 2003, a libertação das mulheres tem sido parte do programa do partido. Tal como na configuração da Estrela-Yekitiya, seu braço de organização para as mulheres, em 2005. Em 2012, como o presidente da Síria, Bashar al-Assad retirou suas tropas da maior parte do norte da Síria e dos cantões, Rojava tornou-se efetivamente autônoma e os membros do PYD começaram a se organizar de maneira mais vigorosa, tornando a defesa das mulheres uma parte integral de sua guerra contra o ISIS. A organização logo começou a recrutar novos membros de outros grupos étnicos da região, tratando de incluir assírios, árabes e Yezidis.

O grupo que mudou seu nome para Estrela de Kongreya no início deste ano, se descreveu como uma organização guarda-chuva para o movimento das mulheres de Rojava. Em nível local, a Estrela de Kongreya compreende um número de organizações, conhecidas como a comuna das mulheres, que operam em paralelo às comunas de sexo misto, que organizam tais assuntos como a alocação de energia e o uso do espaço público. O foco das comunas de mulheres sobre a violência doméstica, casamento forçado, e saúde das mulheres e programas econômicos, entre outras coisas; em muitos casos, podem se sobrepor aos seus parceiros organizacionais de sexo misto. Estrela de Kongreya no nível mais alto organiza comitês em cinco áreas: educação, especialmente educação de adultos e aulas de literatura; saúde pública, incluindo clínicas especializadas para mulheres; economia, incluindo a manutenção de cooperativas; resolução de disputas em comunidades, que inclui mediação e manutenção de abrigos para vítimas de violência doméstica; e defesa de cidadãos, que é central para a plataforma do PYD e especialmente para Estrela-Kongreya. Há três forças de defesa de mulheres em Rojava, a YPJ, que luta contra inimigos externos tais como o ISIS; as forças de segurança locais; e as forças de defesa civil atreladas às comunas, que lidam com a segurança da vizinhança, incluindo casos de violência contra as mulheres.

Autonomia e democracia

O crescimento da influência de mulheres na Rojava é parte central da transformação mais ampla da política curda ali e na Turquia. Ao contrário dos curdos iraquianos, os curdos sírios e turcos afastaram-se do nacionalismo. Eles buscam autonomia local ao invés de um arranjo federal. A ideia de longo prazo é a de assegurar a democracia, constituições democráticas que garantam uma autonomia local extensiva e protejam os direitos humanos. (Esta mudança foi executada em paralelo com a evolução ideológica do líder do PKK preso Abdullah Ocalan, um antigo militante que agora é um defensor do que ele chama de Confederalismo Democrático.)

À luz da atual turbulência da região, a visão de Rojava para uma feminista, de uma sociedade diretamente democrática, pode parecer irrealista.

No entanto, o fracasso das negociações para acabar a guerra civil síria mostrou a capacidade limitada da diplomacia para pôr fim a conflitos inflamados por atores não-estatais e financiados por potências externas, e em décadas recentes, tem havido alguns modelos políticos nas cercanias do Curdistão que oferecem muito mais uma promessa para o igualitarismo e paz como a que os curdos chamam de autonomia democrática.

Até agora, os Estados Unidos têm tratado os curdos sírios como um aliado militar de curto prazo e dado a eles apoio militar, mas não apoio político ou econômico ostensivos; Washington não insistiu para eles tomarem parte nas conversações de Genebra para acabar com a guerra na Síria. Esta abordagem é um erro. Desde os anos 1990, os Estados Unidos tem se posicionado como um defensor das mulheres e minorias sexuais. Os curdos sírios estão praticando uma forma de democracia que consagra a igualdade de género e se opõe noções de soma zero de étnico e direitos nacionais. Dado os compromissos que assumiu, os Estados Unidos deveriam estar dispostos a apoiar esses fins.

lead-Meredith-TaxMeredith Tax é escritora e ativista política desde o final da década de 1960, foi membro do Bread and Roses, fundadora presidente da Comissom Internacional de Mulheres Escritoras do PEN, presidente fundadora de  Women’s WORLD, e co-fundadora do Centre for Secular Space. Os seus últimos livros som Double Bind: The Muslim Right, the Anglo-American Left, and Universal Human Rights e A Road Unforeseen: Women Fight the Islamic State.

Esse artigo foi primeiramente publicado no website Foreign Affair e tem sido reproduzido com a permissão da autora.

Tradução ao português: Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda – RJ

Esse artigo expressa a visão da autora e não necessariamente está de acordo com os Comitês de Solidariedade à Resistência Popular Curda.

 

Acreditar ser um curdo-turco é um engano

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Bandeira do PKK flanqueada pola bandeira Turquia que está cobrindo a bandeira do HDP

Nesta entrevista em profundidade feita por Robert Leonard Corda, Saladdin Ahmed, professor assistente de Filosofia na Mardin Artuklu fala sobre identidade curda, política, religiom, democracia e a situaçom atual na que se encontram os curdos no Oriente Médio.

Robert Leonard Corda (RLR): Descreva resumidamente a sua experiência. Chama-se Saladdin por Saladin, o Grande? Como foi ensinar em umha universidade da Turquia?

Saladdin Ahmed (SA): Eu nunca sei como responder a perguntas sobre o meu passado, principalmente porque a minha identidade sempre foi modelada ao redor de negaçons em vez da promoçom de um determinado conhecimento. Eu nom diria que tenho umha crise de identidade, mas eu diria que a identidade, polo menos no mundo de hoje, é em si umha crise.

Quando ser curdo é visto como algo a ser renunciado, som curdo, nom há dúvida sobre isso. No momento em que que se torna a identidade do governante, só podo estar em oposiçom a ela com os oprimidos. Quer dizer, eu som curdo na medida em que a curdonidade é umha negaçom da opressom. A primeira vez que eu estava em um lugar onde ser curdo era equivalente a ser privilegiado, em 2013, eu encontrei-me em umha grave crise moral, entom comecei a construir laços com as minorias nom-curdas e nom-muçulmanas.

Antes que eu percebesse, criticar o nacionalismo curdo eo Islam tornaram-se as minhas principais atividades intelectuais até que eu deixei o Curdistam iraquiano.

Para lhe dar umha resposta comum, eu nascim em umha família curda em Kirkuk, Iraque, e meu nome era originalmente Sherzad. No entanto, com medo de que um nome tam nitidamente curdo poderia atrair umha investigaçom minuciosa do governo iraquiano, meu pai mudou o meu nome para Saladdin – um nome árabe com conotaçons curdas. Embora o meu mesmo nome é, de umha forma indireta, o do líder curdo Saladdin Ayubi, eu deveria afirmar claramente que, tanto quanto eu me interessei, “Saladdin o Grande” nom era nengum herói, mas sim um notório assassino como tantos outros que vinheeram antes e depois del.

Como umha criança curda, eu crescim em Kirkuk durante o regime do pensamento Baath e era um erro existencial, mas eu gostava de ser um erro. Eu ainda gosto de ser um erro.

Quanto à minha experiência no ensino, na Turquia, a situaçom quando cheguei no outono de 2014 era algo sem precedentes. Por primeira vez em quatro décadas, a regiom curda do país estava desfrutando de umha relativa paz que deu origem a um movimento cultural e intelectual impressionante. Estamos a falar de umha regiom que tem estado tam oprimida que mesmo umha dança curda tradicional é considerada um ato político. O alunado principalmente curdo estava muito envolvido na vida pública dentro e fora da universidade. Foi, em suma, um momento emocionante estar em Mardin.

Infelizmente, o meu tempo ensinando em Mardin Artuklu Universidade foi abreviada. Um par de meses depois da minha chegada do Canadá, o reitor liberal foi deposto e substituído por um islamista apoiado por Erdogan. Logo, foi formalmente nomeado por Erdogan, o novo reitor começou umha campanha para erradicar aos nom-islâmicos da administraçom da universidade. Vários meses depois, el suspendeu unilateralmente o meu contrato e os contratos de 12 professores mais, os quais eram estrangeiros. Para piorar as cousas, a guerra também retomou a regiom curda e com ela veu a opressom violenta dos jovens, vastas operaçons militares, prisons em massa, e assim por diante. O que Erdogan tem feito às universidades turcas em Istambul e Ancara durante as semanas desde o golpe fracassado do 15 de julho de 2016 começou há um ano no sudeste [Curdistam sob administraçom turca].

RLR: Temos estado todos especulando sobre o recente golpe de Estado ao longo das últimas semanas – foi real? Quem estava realmente por trás disso? Como foi Erdogan beneficiado? Será que algum dia conheceremos a verdade completa?

SA: Sim, eu acho que foi umha tentativa de golpe real, mas o fato de que houvera especulaçons de que Erdogan escenificou  o golpe di-nos muito sobre a falta de credibilidade do governo.

Penso que os kemalistas no exército forom a principal força por trás do golpe, e é possível que Gulenistas também se juntaram a eles, sentindo mais de um que a repressom era iminente. Claro, Erdogan nom podia culpar abertamente as forças kemalistas porque o kemalismo continua a ser extremamente popular entre os turcos, funcionando mais ou menos como sinônimo de patriotismo e nacionalismo turco. Assim Gulen, o rival islâmico populista com residência em Filadélfia desde 2004, era o melhor candidato para representar “o inimigo”. Se bem se lembram, quando Erdogan deu o seu primeiro discurso na noite do golpe, algumhas horas após a entrevista na CNN Turca, um enorme retrato de Mustafa Kemal Ataturk foi colocado atrás del. A mensagem, na minha opiniom, era clara: O kemalismo nom é o inimigo.

Para voltar à questom da credibilidade, as pessoas tenhem todos os motivos para desconfiar do regime de Erdogan. Para muitas pessoas na Turquia, tornou-se rotina excluir o cenário, o governo pretende ser a verdade desde o reino das possibilidades.

Em junho de 2014, quando o ISIS tomou o control de Mosul, o governo turco afirmou que o ISIS tomou 49 pessoas do Consulado turco em Mosul como reféns. Na noite da invasom do ISIS de Mosul, fugindo as autoridades iraquianas alertaram o pessoal do consulado e aconselhou-os a deixar a cidade, mas nom o figeram. Durante três meses, a Turquia usou “os reféns” como umha desculpa para nom se juntar à coalizom contra o ISIS. Em contraste com o destino dos outros reféns do ISIS, o ISIS finalmente libertou aos 49 reféns, apesar do feito de que a Turquia nom teria feito nengum pagamento de resgate.

Notavelmente, a própria narrativa do governo turco sobre a libertaçom dos reféns era conflitante, com o único detalhe consistente que era que a Organizaçom Nacional de Inteligência da Turquia (MIT) lidou com a situaçom. Desde o início, a história inteira em torno do cenário era pouco pública. Por exemplo, as pessoas eram esperadas para acreditar que o cônsul-geral conseguiu esconder o seu telefone móvel e usá-lo para fornecer atualizaçons regulares para Ankara ao longo de três meses. Para quem tem acompanhado relatórios sobre a situaçom dos reféns em poder do ISIS, é claro que esta história também era nada mais do que umha invençom destina a promover os objetivos políticos de Erdogan.

Dado todo o que a gente em Turquia e os observadores internacionais já sabem do governo turco, das suas forças armadas e o MIT, nom é surpreendente que a narrativa do governo sobre o fracasado golpe nom fôsse creida.

Som inúmeras as histórias sobre conspiraçons políticas do regime. Por exemplo, em umha reuniom de 2014 entre Ahmet Davutoglu eo chefe do MIT, Hakan Fidan, umha idéia para começar umha guerra com a Síria foi discutida. Com base em umha sugestom de Erdogan, Fidan desenvolveu um plano polo qual o MIT iria organizar um ataque de mísseis contra a Turquia, desde a Síria, dando a Ankara umha desculpa para entrar em umha guerra com a Síria. Umha gravaçom de áudio da reuniom foi divulgada e publicada no YouTube, o que levou o governo turco a lançar um dos seus bloqueios periódicas do site para controlar o fluxo de informaçons.

À luz dos acontecimentos passados, como isso, é possível que o MIT tinha algum conhecimento prévio do golpe de 15 de julho, mas permitiu que isso acontecesse, a fim de criar a oportunidade para as purgas de Erdogan? Talvez, mas o ponto é que os povos, compreensivelmente, nom acreditam a narrativa de um regime nom democrático. De qualquer forma, o que é certo é que Erdogan explorou o fracassado golpe para acabar com deslealdades reais e potenciais no exército, polícia, e no sistema judiciário e educacional.

RLR: Como sabe, existe actualmente um estado de emergência na Turquia – milheiros forom presos, muitos professores e jornalistas por nom mencionar os membros das forças armadas – e há muitas denúncias de tortura. Qual é a sua perspectiva sobre isso: como tudo vai acabar?

SA: Eu acho que os próximos anos na Turquia será umha era de terror. Esta purga vai levar a um colapso completo da confiança já frágil entre os diferentes setores das forças armadas e o MIT. Aqueles em posiçons de poder cada vez mais tentam utilizar o clima de medo e a falta de transparência para se livrar dos rivais.

Como tal, penso que as denúncias de assassinatos e tortura só se tornarám mais comuns. O exército da Turquia sempre foi considerado como o guardiam do Estado, mas agora vai ser forçado a submeter-se ao governo, e isso nom vai acontecer sem problemas.

As tramas de conspiraçom só se tornará mais complicadas e sutis. À medida que a situaçom se agrava, o regime vai atrair cada vez mais islamitas, anti-intelectuais e pessoas que só sabem ganhar a vida vigiando aos outros.

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Saladdin Ahmed

RLR: Qual é a sua opiniom da “democracia turca”? Existiu mesmo umha coisa assim? Será que Erdogan primeiro alimentá-la, e em seguida, destruí-na? Será que as pessoas nom querem a democracia de estilo ocidental? Democracia versus teocracia?

SA: Eu nom acho que tenha existido umha “democracia turca”. Sim, houvo eleiçons, mas até mesmo países como Iram e Paquistam regularmente realizam eleiçons. Há também um parlamento em Ancara, mas é um Parlamento que simboliza a rejeiçom turca da pluralidade.

Deixe-me ser mais precisos e dizer que sempre houvo duas Turquias: a ocidental e a oriental. No oeste da Turquia, estendendo-se desde Istambul, a Izmir, Antalya, Ankara, e Adana, umha sorte europeia da cotidianidade era relativamente viável, polo menos, para as estimativas de um turista típico. Concedido, isso está mudando agora, razom pola qual a actual situaçom na Turquia tem atraído tanto interesse internacional.

Mas o leste da Turquia sempre estivo sob regime militar. Desde Istambul, a brutalidade da vida no leste do país é inimaginável. Milheiros de jovens curdos desaparecerom em operaçons militares turcas ao longo dos anos 1980 e 1990. A visom de tanques e veículos blindados em praças da cidade ou bairros em itinerância, militares e postos de control da polícia entre e dentro das cidades, enormes bases militares nos centros urbanos, e milheiros de aldeias completamente destruídas é a outra face da Turquia. Se um se permite ver essa outra cara, a noçom de “democracia turca” deveria parecer nada mais do que um absurdo.

Os movimentos islâmicos, como a Irmandade Muçulmana ou o partido AK, muitas vezes utilizam os meios democráticos para alcançar os seus fins islâmicos, que som essencialmente anti-democráticos, anti-pluralistas, anti-individualistas, e violentos. Erdogan é um típico demagogo islâmico pragmático que fingiu ser pró-democracia e contra a violência até que el ganhou poder suficiente. El agora está revelando gradualmente as suas verdadeiras crenças. Islamitas nas que acreditam que jogar qualquer truques possíveis e enganar o povo em prol de empoderar o Islam é completamente legítimo. Eles poderiam-se comportar como as pessoas mais tolerantes e pacíficas, mas isso é apenas a fim de ganhar o apoio e, assim, ganhar o poder. No momento em que eles tenhem poder suficiente, espalhar o Islam pola espada torna-se o método preferido simplesmente porque tanto a vida de Maomé e a do Alcoram refletem diretamente essa dualidade pragmática essencial: a paz quando é a única opçom, e a violência quando é umha opçom eficaz.

Para colocar isso de forma muito clara, nom existe um islamita moderado; existem radicais e islâmicos esperando-a-ser-abertamente radicais. Erdogan estivo pacientemente seguindo o caminho ao poder, e o pior ainda está por vir. Além disso, nom nos imos enganar a nós mesmos, se umha força política quer ser democrática, será democrática, nom islâmica.

A sociedade na Turquia, como em qualquer outro lugar, é extremamente complexa, com diversas forças sociais e políticas em desenvolvimento competindo, chocando-se, e assim por diante. Apesar do aumento aterrorizante do islamismo e a história de 100 anos de fascismo kemalista na Turquia, há uma forte tradiçom de movimentos progressistas no país. A democracia liberal nom tem raízes fortes na Turquia, e a dualidade principal nom é a democracia contra a teocracia. Antes a teocracia nos anos 2000 nom era vista como umha possibilidade, mas o país era sem dúvida nom menos antidemocrático.

Como todos sabemos, o secularismo nom é condiçom suficiente para a democracia em todo o mundo. O fascismo pode muito bem ser, e tem sido, historicamente, secular. Turquia tem sido governado polo fascismo kemalista, e agora está caminhando para o fascismo islamista. Ao longo dos últimos dous anos, Erdogan tem umha na longa história de ódio contra o outro na Turquia para apelar a ambos os ultra-nacionalistas e islamitas. Assim, o discurso de umha naçom, um país, um Deus, umha bandeira, um idioma já está crescendo novamente.

RLR:  Como poderíamos no Ocidente pressionar com sucesso a Erdogan e os seus seguidores para restaurar e defender os direitos humanos e o Estado de direito na Turquia?

SA: Os direitos humanos nom podem ser “restabelecidos”, porque nunca forom respeitados em primeiro lugar. Talvez o turismo pode ser recuperado, mas os direitos humanos som algo polo qual todos devemos luitar coletivamente.

Erdogan está a pressionar o Ocidente, e nom vice-versa. Polo que podo ver, Erdogan vai continuar a usar refugiados sírios e iraquianos para chantagear aos políticos europeus, todo continuando a consolidar o seu poder em todo o mundo sunita ao tempo. Como el trabalha para eliminar a oposiçom regional a sua visom de um império islâmico em 2023, devemos esperar mais guerras desastrosas no Oriente Médio, o que resultará em muitos mais refugiados que tentam escapar para a Europa. A Europa nom será capaz de manter a crise fora das suas fronteiras, baseando-se em um guardiam que el próprio é o principal instigador do problema. Vamos enfrentá-lo: o ISIS só tem sido capaz de sobreviver com o fluxo de jihadis, armas, muniçons, e dinheiro através da Turquia.

A ideia de que o chamado regime islâmico moderado em Ancara pode ser usado contra a propagaçom do chamado islamismo radical é talvez a estratégia mais inútil que se poda imaginar. Em vez disso, os chamados moderados continuarám desempenhando tanto no Ocidente como os radicais islâmicos contra o outro. Eles vam continuar a usar ambos os lados para fortalecer ainda mais a si mesmos, ganhando ainda mais força e crescendo cada vez mais radicais.

Turquia aprendeu a maneira saudita de jogar este jogo. Os sauditas som os principais financiadores dos movimentos islâmicos, mas, ao mesmo tempo eles dam aos “aliados” ocidentais informaçons de inteligência apenas o suficiente sobre os movimentos jihadistas e enredos para manter a aparência de cooperaçom. Turquia tem vindo a fazer o mesmo na guerra contra o ISIS. Ambos, o ISIS e o Ocidente tornarom dependentes da Turquia na sua guerra contra o outro; enquanto a Turquia fai o mínimo para satisfazer os seus aliados ocidentais, ao mesmo tempo, el garante que o ISIS nom vai cair. O que pode ser feito agora? O regime de Erdogan deve ser tratados da maneira que deveria Hitler ter sido tratado nos anos anteriores a 1939. Claro, nada na história acontece duas vezes exactamente da mesma forma, mas todos os sinais de um império fascista baseado na rejeiçom violenta da diversidade já estam lá.

RLR: Com relaçom ao ISIS, como achas que esse movimento bárbaro deveria ser destruído?

SA: ISIS fai o trabalho sujo para a Turquia e, em troca, Turquia atua como umha rota de abastecimento para o ISIS, além de prestar assistência directa. Enquanto a Turquia tem permisso para continuar dessa maneira, mesmo se o ISIS é destruído, dúzias de outras forças islâmicas continuarám a prosperar na Síria. Eu acho que Erdogan vai continuar a apoiar os islamistas na Síria até que el nom precise mais deles. Naturalmente, as cousas nom vam todas como el deseja. Com cada dia que passa a Turquia torna-se cada vez mais como a Síria em termos de polarizaçom da sociedade, que poderia muito bem levar à eventual erupçom da guerra civil.

A única pior fóbia da Turquia é o chamado “problema curdo”. Erdogan tem vindo a apoiar o ISIS, Jabhat al-Nusra, que recentemente mudou o nome a Jabhat Fatah al-Sham, e inúmeros outros movimentos islamistas principalmente para evitar que os curdos sírios controlem regions do norte da Síria ao longo da fronteira com a Turquia.

Quando se tornou claro que o ISIS nom podia parar as forças curdas depois da guerra de Kobane, Turquia diretamente interveu para evitar que os curdos expulsaram o ISIS dos últimos 100 km de faixa ao longo da fronteira com a Turquia. Ankara instou repetidamente à área umha “linha vermelha” que os curdos nom podiam atravessar. Assim, a área de Jarablus está essencialmente sob controlo do ISIS e protegido pola Turquia.

Erdogan também vem contando com o ISIS para conter a ameaça curda percebida dentro da Turquia. O ISIS tem realizado vários ataques contra objetivos curdos no último ano. Na massacre de Suruç o 20 de julho de 2015, 32 estudantes curdos e turcos que estavam em caminho para Kobane para ajudar a reconstruí-lo forom assassinados em um atentado suicida realizado polo ISIS. Cerca de seis semanas antes, o 5 de junho, houvo outro atentado do ISIS durante umha reuniom eleitoral curda em Diyarbakir que matou quatro pessoas. O 10 de Outubro, de 2015, um atentado do ISIS matou mais de 100 civis e feriu mais de 500 pessoas durante umha marcha pola paz em Ancara organizada polo pró-curdo Partido Democrático do Povo (HDP) e vários sindicatos.

O regime de Erdogan é o aliado ideológico e estratégico dos movimentos sunitas em toda a regiom, e há muitos deles. o ISIS tem atraído mais atençom por causa da quantidade de território que controlam e a sua produçom dos mídia. Acho que o ISIS vai perder a maior parte dos seus territórios talvez dentro de um par de anos, mas o perigo do islamismo está longe de terminar.

A chamada oposiçom islamista na Síria difere muito pouco do ISIS. Erdogan, Arábia Saudita e Qatar têm vindo a apoiar abertamente as forças islamistas, incluindo Fatah al-Sham. Na verdade, os EUA tem estado envolvido em armar muitos desses grupos também, incluindo um que recentemente decapitou um menino de 10 anos de idade.

RLR: Existe algumha maneira significante na que podemos ajudar a  aqueles atualmente encerrados em prisons turcas?

SA: A forma significativa para ajudar as vítimas de qualquer regime despótico é o primeiro, nom apoiar esse regime, quer através da venda de armas ou visitar o país por turismo. Eu acho que o Ocidente tem de libertar-se do ciclo de apoiar os islamistas para livrar-se de ditadores indesejáveis, como Qadafi e Al-Assad, e apoiar regimes militares para depor os islamistas.

É um ciclo mortal no Oriente Médio e a Turquia nom é excepçom. A longa história de opressom na Turquia deu legitimidade popular a Erdogan, e el está-se tornando um ditador opressivo. Nom é que considere que umha terceira opçom democrática nom exista, mas onde e quando o fascismo é relativamente popular, as forças democráticas som fracas precisamente por serem inerentemente contra a violência, o que os impede parar o fascismo.

Na Turquia, há um movimento progressista que está contra o fascismo nacionalista e o fascismo islamista. É um movimento democrático, laico, pluralista, multiétnico e feminista liderado polo HDP. Durante as semanas que antecederom ao golpe de julho o partido AK de Erdogan defendeu umha lei que dá imunidade contra a perseguiçom jurídica aos soldados, a fim de permitir que as forças armadas matem mais livremente na regiom curda. O partido também avançou mais um projeto de lei que retira aos deputados da sua imunidade, principalmente para atingir os deputados do HDP. O HDP é a última esperança na Turquia; se o regime de Erdogan consegue silenciar os seus líderes e ativistas seja por meio de prisom ou outros meios opressivos, a Turquia se tornar um caso de livro de ditadura.

RLR: Os curdos na Turquia tenhem umha longa e atormentada história. Por um tempo houvo um cessar-fogo com o PKK e as negociaçons com o governo. Recentemente, o HDP tem estado na defensiva, e centos de civis curdos forom mortos polas forças governamentais, pré-golpe. Vai Erdogan retomar a sua guerra contra os curdos?

SA: Erdogan nom demonstrou qualquer intençom de retomar o processo de paz. Agora está em umha aliança com os ultranacionalistas, e para sustentar essa aliança el vai manter a guerra contra os curdos. Retomou a guerra em primeiro lugar para apelar aos ultranacionalistas que som inflexiveis contra qualquer reconhecimento dos direitos curdos.

É difícil imaginar um momento em que a Turquia vai concordar em retomar o processo de paz com os curdos, mas acho que o casamento entre Ancara e o ISIS vai desmoronar mais cedo ou mais tarde. Quando isso aconteça, Ankara provavelmente irá fazer um acordo com os curdos. Historicamente, os curdos estam prontos para aceitar qualquer oferta de paz, mas eles nunca tiverom poder suficiente para impor a paz na Turquia.

Mesmo que o Ocidente agora usa os curdos para conter a ascensom do ISIS, há muito pouca cobertura da mídia internacional da brutal repressom dos curdos na Turquia. Também, porque Erdogan está essencialmente chantageando a UE com a questom dos refugiados, ameaçando abrir as portas da Europa aos refugiados sírios, a UE nom se atreve a criticar a Turquia sobre as violaçons dos direitos humanos no Curdistam.

Na Turquia, nom há pressom suficiente sobre o governo para iniciar um processo de paz também. É bastante irônico que, por um lado, os curdos som alienados diariamente, tanto através da violência do Estado e a falta de solidariedade popular suficiente, enquanto que, por outro lado, eles som acusados de nom ter um forte sentido de pertença à Turquia . O único cenário em que Ankara entraria em um processo de paz é, portanto, se e quando a própria Turquia esteja em umha grave crise.

A questom curda é extremamente complicada na Turquia. É umha questom de 100 anos de negaçom, humilhaçom, assimilaçom forçada, e engenharia social. Enquanto estivem na Turquia, diariamente eu testemunhei as consequências dolorosas da política colonial turca. Um dia eu estava montando no microônibus para a universidade quando duas crianças pequenas, juntamente com sua mae e avó entrou no ônibus. O avó falou em curdo com a mae, mas a mae falou em turco aos seus filhos. Presumo que o avó ou nom sabia turco ou sentiu estranho falar com sua filha em umha língua estrangeira. Presumo também que as crianças nom sabiam curdo, como tantas crianças curdas que forom Turkificadas polo Estado. Quando o ônibus continuou, umha das crianças começou a cantar umha música triste em curdo ao olhar para fora da janela. Em um momento ordinário assim, podia-se ver a repressom que atravessa geraçons.

RLR: Como livre – e como restrito – estam as mulheres na Turquia de hoje? As mulheres curdas e as mulheres turcas?

SA: O kemalismo ajudou as mulheres turcas a ganhar muitas das suas liberdades individuais, mas isso está mudando sob o governo islamista de Erdogan. Erdogan deixou claro em várias ocasions que el nom acredita que homes e mulheres sejam iguais. El sempre incentivou às famílias turcas a ter mais filhos e exortou as mulheres a fazer a educaçom dos filhos a sua principal prioridade.

Em umha mudança interessante, muitas feministas turcas agora tomam inspiraçom do movimento feminista curdo. Historicamente, a regiom curda tem sido mais conservadora em termos de direitos das mulheres, que estava agravada polas condiçons políticas e económicas opressivas impostas à regiom curda.

No entanto, o empoderamento das mulheres é um dos pilares do movimento de libertaçom curdo de hoje. O líder preso do PKK, Ocalan, dixo a famosa frase, “Matar o macho”, que agora é o lema da academia para mulheres em Rojava (Curdistam sírio). É claro, a declaraçom é usada metaforicamente, mas marca umha mudança poderosa na consciência. Combatentes curdos na Turquia e na Síria passam por cursos de feminismo radical para desaprender o sistema de valores patriarcal. Além disso, esse mesmo movimento fixo o sistema igualitário de género de co-presidência em todas as posiçons de governo umha regra universal na política curda na Turquia e Síria.

Municípios, partidos políticos, e as forças militares nas regions curdas da Turquia e da Síria devem cumprir os requisitos de assegurar que o poder é compartilhado entre um co-presidente home emulher.

RLR: Como é a vida para as pessoas LGBT na Turquia hoje?

SA: As pessoas LGBT também tenhem enfrentado o aumento da pressom do governo de  Erdogan nos últimos anos. Na verdade, a polícia procurou impedir as paradas do orgulho em Istambul nos últimos dous anos. Claro que, como as liberdades das mulheres, nom é fácil para o governo suprimir totalmente os direitos LGBT, mas esses direitos podem estar completamente perdidos no espaço de poucos anos, como vimos em outros lugares. Ao mesmo tempo, a sociedade iraniana era muito liberal em termos de relaçons pessoais / sexuais, apesar da brutal ditadura. Agora aos iranianos som lhes negadas essas liberdades passadas sob o regime despótico atual.

Turquia parece estar indo polo mesmo caminho: para além da falta de liberdades políticas, haverá cada vez menos liberdades “pessoais” também. O Islam, em todas as suas versons, nom tolera as liberdades individuais, assim com a ascensom do islamismo, as pessoas LGBT estaram,  evidentemente, entre aqueles que vam sofrer mais.

Esta entrevista foi publicada em Open Democracy.

 

O Perigroso jogo da Turquia na Síria ameaça todo Oriente Médio

Turkey DangerousPor Cihad Hammy

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan e Vladimir Putin reunirom-se recentemente para abrir um novo capítulo nas relaçons turco-russas, normalizar laços até entom tensos entre os seus países. Esta tensom começou no ano passado, quando a Turquia derrubou um aviom russo que estava violando o espaço aéreo turco. Este novo capítulo muda drasticamente toda a cena do conflito Sírio.

No centro deste novo desenvolvimento encontra-se o antagonismo profundamente arraigado de Ancara em relaçom os curdos, tanto na Síria como em Turquia. A fim de antecipar os planos curdos para conectar os três cantons de Afrin, Kobane e Jazeera, Ankara adotou medidas para normalizar as relaçons com a Rússia, o Iram e a Síria, e ganhar o seu apoio a umha intervençom militar no norte da Síria.

 Tensons de Washington e Ancara sobre os Curdos Sírios

Washington tem um sucesso notável na melhoria da sua coordenaçom com os curdos sírios para destruir o ISIS, que é agora a prioridade de Washington no conflito Sírio. A coalizom internacional liderada polos EUA estabelecerom umha parceria bem sucedida e eficaz com as Forças Democráticas da Síria (SDF). Esta força, liderada polas YPG curdas, inclui diversos povos da regiom do norte da Síria, ou seja, árabes, assírios, armênios, Turcomanos, e facçons circassianas e grande número das Unidades de Proteçom das Mulheres (YPJ).

As forças das SDF e das YPJ som eficazes em derrotar e tomar cidades do Estado Islâmico no leste e norte da Síria. Por isso, ganharom a confiança das instâncias de decisom dos EUA e agora som apoiados por ataques aéreos dos EUA e forças especiais. Sob este modelo, a cidade mais recentemente libertada foi Manbij, umha cidade altamente estratégica, que serviu como centro nas principais rotas de abastecimento do ISIS. O sucesso de Manbij cortou o ISIS com o exterior e agora os impede de mover aos seus combatentes da Síria para realizar ataques terroristas na Turquia e na Europa.

No entanto, o governo de Erdogan está extremamente descontente com o apoio que Washington fornece às SDF porque fortalece ao Partido da Uniom Democrática (PYD), um grupo curdo ideologicamente vinculado ao Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), o odiado inimigo interno da Turquia. Ancara rejeita qualquer entidade que ostente a aparência de auto-governo curdo, tanto em Ancara ou ao longo da sua fronteira sul, e considera o PYD como parte do PKK. Em fevereiro passado, umha delegaçom, incluindo o enviado dos EUA para a coalizom internacional contra o ISIS, Brett McGurk, reuniu-se com as YPG. Isto levou a Erdogan a exigir furiosamente que Washington optara entre el ou os curdos sírios. “A quem quere de parceiro, a mim ou os terroristas de Kobane?” dixo Erdogan a jornalistas no seu aviom quando regressava de umha viagem à América Latina e o Senegal.

Nom muito tempo depois do ultimato de Erdogan, Washington respondeu declarando que o PYD nom era umha organizaçom terrorista e os combatentes curdos eram os mais bem sucedidos no combate contra o ISIS dentro da Síria. Além disso, a coalizom liderada polos Estados Unidos enviou autoridades militares e conselheiros para o norte da Síria, a fim de apoiar as forças terrestres curdas na destruiçom do ISIS. De qualquer modo recentemente Washington mudou a sua postura por apaziguar a Ankara e pedindo as forças das YPG “recuar para o leste do Eufrates”. Embora esta seja umha vitória diplomática que Ankara ganhou mudando a sua política externa e buscando apoio de Moscou, o Iram e a Síria, isso nom significa que os laços entre os curdos sírios e os EUA foram completamente cortados.

Novas aproximaçons de Ancara e as suas reflexons sobre os curdos

Durante quase um século, os estados-naçom do Oriente Médio se unirom no combate e repressom dos curdos. Hoje, a aproximaçom de Ancara com a Rússia renova esta dinâmica, abordando nom só a sua própria agenda anticurda, mas também a de Síria e Iram.

Para Assad, a aproximaçom ajuda a manter o seu regime centralizado porque o projeto político que os curdos na Síria estam realizando tem como objectivo desmantelar o poder do Estado-naçom centralizado e em vez disso tenta capacitar as pessoas em torno de instituiçons de base. O regime também pode encontrar a oportunidade para retomar territórios no leste da Síria agora sob control curdo. Na verdade, a última luita entre o Exército sírio e as YPG em Hesekê pode ser interpretado como um gesto de boa vontade por parte do regime em relaçom a aproximaçom de Moscou com Ancara. Em troca, Ancara pode cortar o apoio de grupos islâmicos autoritários em luita contra Assad em Aleppo e direcionar estes grupos-islâmica -authoritários contra os curdos no norte da Síria. (Algo que está acontecendo agora em Jarablus.)

Teeram como Ancara, teme que os curdos sírios vaiam incentivar aos curdos iranianos a se revoltar e exigir os seus direitos cívicos e culturais. Umha revolta curda no Iram ameaça o seu regime islâmico e a segurança nacional. Iram pode deixar de lado velhas tensons com Ancara e cooperar na luita contra a maior “ameaça perigosa”, os curdos. Quanto a Moscou, a nova aproximaçom ajuda a manter no poder a Assad.

Para evitar mais autonomia dos curdos, Ancara enviou as suas tropas de terra no norte da Síria, a fim de antecipar-se a ligaçom dos cantons curdos de Kobane, Jazeera, e Afrin. No entanto, a fim de intervir no norte da Síria a esta escala, eles deveram ter tido a aprovaçom de Moscou e Teeram. Tendo feito isso, eles agora estam usando tropas e grupos islâmicos autoritários como Faylaq al-Sham, Ahrar Alsham, Sultan Murad, e o batalhom Nour al-Din al-Zenki para tomar o control de Jarablus e Al Bab.

É óbvio que a chamada guerra de Ancara contra o Estado Islâmico (ISIS), em Jarablus foi apenas umha substituiçom de combatentes do ISIS por outros grupos islâmicos autoritários que som cópias dos jihadistas. A “luita” contra o ISIS em Jarablus testemunhou que nom há armadilhas, nom há franco atiradores do ISIS, nom há lutadores à espreita do ISIS usando escudos humanos, nom houvo ataques a bomba, sem nom houvo resistência do ISIS. Nom houvo luita em Jarablus, mas sim ordes dadas polo governo turco e a realizaçom dessas ordens polos seus “soldados”. Isso ficou claro para os meios de comunicaçom internacionais e a opiniom pública e nom puido ter escapado à atençom dos governos ocidentais.

 Apoio dos Jihadistas da Turquia Mostra as Aspiraçons Neo-otomanas Estam Bem Vivas

Nom é umha coincidência que o 24 de agosto, o mesmo dia em que Ankara invadiu a Síria, é o mesmo dia da Batalha de Marj Dabiq. A batalha tivo lugar em 1516-1517 entre o Império Otomano e o Sultanato Mamluk e terminou em umha vitória otomana e a conquista de grande parte do Oriente Médio. O simbolismo da batalha de 500 anos atrás foi muito usado na Turquia antes da operaçom e é um sinal da continuaçom da mentalidade expansionista do governo turco. Embora o governo afirma que nom está na Síria permanentemente, a tentativa é colocar umha regiom sob control islâmico e a mentalidade que ocupava o Oriente Médio há 500 anos. O movimento é também umha mensagem ao mundo inteiro de que a Turquia ainda é um jogador no jogo da Síria e nom pode ser ignorada.

No entanto, a intervençom de Ancara nom será um piquenique turístico, mas sim um pesadelo carregado com perdas militares e humanas. Já vários tanques turcos forom destruídas e um soldado foi morto no sul de Jarablus. Turquia lançou ataques aéreos em Afrin (sudoeste) e Ain Diwar (sudeste) e dirigiu os seus tanques para a fronteira de Kobane para erigir um muro. Mas el está sendo recebido com resistência em todos os lugares, e nom só dos curdos, mas de árabes -quem Turquia alega estar liberando dos curdos- e outros grupos etno-religiosos.

Mapa Jarablus Manbij Al BabA Intervençom da Turquia vai aumentar a violência na Síria e na Turquia

Os governos ocidentais e dos Estados Unidos som forças pragmáticas; eles só ajudam movimentos ou estados quando se trata de proteger os seus próprios interesses. A este respeito, os EUA ao que parece, está contente com a intervençom turca na Síria porque a sua principal preocupaçom é degradar o ISIS. Como tal os EUA nom se preocupam com os resultados desta intervençom, o que provavelmente vai levar a anos de violência entre o governo turco e os curdos na Síria, e alimentar a violência, guerra e instabilidade na Turquia. A ‘Sirianizaçom’ da Turquia, neste sentido, é cada vez mais provável. Na verdade, cousas tais como democracia, paz e a estabilidade, que som necessários para os povos do Oriente Médio, como o pam e água som de importância secundária ou nem sequer existem na política externa dos EUA.

Nom é necessário ler volumes de saber quem está a favor e tem um projeto para a paz e a democracia na Turquia e no Oriente Médio e quem pode iniciar um fim à confusom atual. Lendo apenas umha página escrita por Abdullah Öcalan – líder curdo e pensador que inspirou o Modelo de Rojava – iria esclarecer quem quer a paz, a liberdade, a democracia, a estabilidade, a convivência, fraternidade, igualdade de gênero, e umha sociedade ecológica e ética na Turquia e o Curdistam . Todos esses valores e princípios estam agora sob sete chaves em umha prisom turca. O governo turco nom quer um fim para o conflito; se o figesse, teriam acabado com o isolamento de Öcalan para lhe permitir desempenhar um papel eficaz no fortalecimento do estagnado processo de paz. Em vez disso, optou por prosseguir a sua política de isolamento de Öcalan e dos políticos curdos em geral, mesmo após a recente tentativa de golpe.

Isso deixa apenas umha coisa para os curdos: a resistência. Porque a resistência é a única cousa que pode trazer o Estado turco de volta a qualquer tipo de mesa de negociaçom. Como o co-presidente do PYD, Saleh Moslem, dixo após a intervençom de Ancara na Síria, “A Turquia vai perder muito no lamaçal da Síria, e seram derrotados como o Daesh (ISIS).” Agora, apenas umha derrota turca rápida pode salvar a regiom. A alternativa é que todos os envolvidos perdam.

Jihad Hammy é um curdo de Kobanê. Ele era um estudante de literatura de Inglês da Universidade de Damasco antes de fugir devido à guerra civil na Síria.

Artigo publicado em Kurdish Question.

 

 

 

 

 

Umha revoluçom nom é um jantar de gala

A revoluçom nom é um jantar de galaEscrito por Meredith Tax

A palavra “revoluçom” significa o mesmo para o movimento de libertaçom curdo e para os esquerdistas norte-americanos que apoiaram o Bernie Sanders? Uma pequena história…

Durante o século XX ficava claro o que as pessoas queriam dizer quando usavam a palavra “revoluçom”. Mao Tsé-Tung falou, melhor do que ninguém: “Nom se obtêm com a mesma elegância, calma e delicadeza. Nem com a mesma suavidade, amizade, cortesia, moderaçom e generosidade. A revoluçom é umha insurreiçom, um ato de violência na qual umha classe invalida a outra”.

Os fundadores do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistam) na Turquia consideraram esta definiçom em 1978 quando apresentaram umha estratégia de guerra popular que iria conduzir à formaçom de um Estado curdo independente. Ao princípio, centraram-se na “propaganda polos feitos” e no treinamento militar na construçom do que, logo, converteu-se numha força extremadamente combativa, como foi descoberto polo ISIS na Síria. Mas, a sua visom sobre a revoluçom foi enormemente ampliada durante a década de 1990 quando o movimento de resistência civil chamado Serhildan surgiu nas regions curdas da Turquia, juntamente com os esforços em construir um partido parlamentário que pudesse combinar trabalho eleitoral e o de apoio.

Isto nom foi fácil eis que cada vez que os curdos fundavam um partido dentro do sistema eleitoral e se candidatavam a algum cargo o Estado turco declarava ilegal essa organizaçom -isto aconteceu em 1993, 1994, 2003 e 2009 e, agora, está acontecendo com o HDP (Partido Democrático dos Povos)-, apesar de todo (e devido a isso) obtivo 13,1% de votos nas eleiçons estatais parlamentárias em junho de 2015.

A resposta de Erdogan a este sucesso eleitoral foi a convocaçom de novas eleiçons e, ao mesmo tempo, iniciar umha política militar forte sobre as cidades curdas no sudeste da Turquia onde a povoaçom civil foi submetida à bombardeios, desocupaçons e inúmeros crimes de guerra, ao mesmo tempo em que as suas casas e as vizinhanças eram destruídas. Todo isso foi feito em nome do combate ao terrorismo do PKK.

De feito, o PKK rechaça o terrorismo há mais de 20 anos, no seu 5º Congresso, realizado em 1995, quando juraram publicamente respeitar a Convençom de Genebra e as todas as leis de guerra, rechaçando, assim, os crimes contra a povoaçom civil mas, mantendo o seu direito à autodefesa armada contra o governo turco. Neste mesmo Congresso, fundaram o exército das mulheres dando-lhe total independência para aumentar a sua capacidade de autogestom e incentivar a liderança das mulheres nesta luita. A Co-prefeita de Amed (Diyarbakir), Gültan Kişanak, declarou, em recente entrevista, sobre a forma na qual o PKK foi-se transformando, dizendo que, no princípio, a perspectiva era de realizar primeiro a revoluçom e, depois, tomar providências em relaçom às mulheres mas, isso mudou na década de 1990 dada a enorme influência do movimento internacional polos direitos das mulheres:

“Neste novo ambiente as mulheres começaram a assumir funçons importantes e criaram as suas próprias estruturas separadas, nom só seguindo o que dizia o movimento politico de modo geral mas, também, criando políticas alternativas que o partido tivo que obedecer… Estas mudanças nom foram fáceis e os direitos nom foram cedidos polos homens sem mais nem menos: as mulheres curdas temos lutado em todos os níveis e conseguimos estas mudanças apesar das barreiras que enfrentamos dentro da sociedade patriarcal e, em que pese, a resistência de alguns dos nossos companheiros homens”.

Os curdos em Rojava (Curdistam sírio) seguem a mesma filosofia política do movimento na Turquia. Por tanto, apesar de Rojava ser umha novidade que declarou a autonomia em 2012, o movimento lá presente está embasado em quarenta anos de experiência política acumulada nos quais, nos últimos vinte, se deu especial destaque ao desenvolvimento da democracia local, à organizaçom comunitária e à liderança das mulheres.

Comecei a estudar o movimento das mulheres curdas durante a batalha em Kobane e, rapidamente, fiquei convencida de que a sua história é tam importante que tinha a obrigaçom de fazer isto, de escrever em inglês o mais rápido que podia, apesar de que nom poderia ir até lá e estava limitada pola minha falta de conhecimento em outros idiomas.

Na medida em que trabalhava emA Road Unforeseen: Women fight the Islamic State” [Um caminho imprevisto: a luita das mulheres contra o Estado Isâmico], era constantemente chocada pola natureza radical desta revoluçom e pola forma em que questiona as estruturas mais básicas da esquerda, nom só no que se refere às mulheres mas, sobre a relaçom entre a luita armada, o movimento de massas, a atuaçom dos partidos no parlamento e o próprio Estado em si mesmo.

As revoluçons marxistas-leninistas do século XX estam embasadas na premissa de que o Estado era um instrumento de dominaçom da classe burguesa que poderia ser tomado e convertido aos interesses da classe operária sob a “ditadura do proletariado”. No seu 5º Congresso em 1995, o PKK descreveu como se desenvolvera isso na URSS: “Ideologicamente, produziu-se um declínio em direçom ao dogmatismo, ao materialismo vulgar a ao chauvinismo pan-russo; politicamente, foi a criaçom do centralismo extremo, umha suspensom da luita de classes democrática e a emergência dos interesses do Estado a um nível de fator determinante; socialmente, reduziu-se a vida livre e democrática da sociedade e dos seus indivíduos; economicamente, o setor estatal foi dominante e foi um fracasso a tentativa de superar umha sociedade de consumo que era mantida no estrangeiro; militarmente, o crescimento do exército e da adquisiçom de armas tivo prioridade sobre outros setores. Este desvio ficou cada vez mais claro durante a década de 1960, levando o sistema soviético a umha condiçom de estancamento absoluto”. 

Em 1989, Abullah Öcalan foi capturado, preso e acusado de assassinato, extorsom, separatismo e traiçom; a sua sentença de morte foi transformada em prisom perpétua devido as regulaçons implementadas pola Uniom Européia.

Começou a estudar a escrever dentro da prisom e, assim, deu inicio aos questionamentos sobre o papel do Estado. Na sua Declaraçom do Confederalismo Democrático em 2005, bem como nos seus escritos sobre as mulheres, expôm umha teoria que rompe completamente com o manual leninista.

Atualmente o movimento de libertaçom curdo afirma a ideia de que os Estados som intrinsecamente hierárquicos, com bases étnicas e sexistas e que ao invés de tomar o aparelho estatal um movimento de libertaçom deve estar envolvido com o Estado apenas até o ponto em insistir que este deve ser democrático e permitir a autonomia; pra além disso, o movimento deve concentrar as suas forças no desenvolvimento de economias democráticas e da autonomia local embasado em princípios anticapitalistas, feministas e ecológicos.

Esta estratégia, que está sendo colocada em prática em Rojava, ainda nom foi capaz de chegar a sua plenitude devido à guerra e ao embargo que assola a regiom. Rojava está cercada por forças hostis em todas as suas fronteiras: luitando contra o ISIS, Jabhat al-Nusra (agora usando um novo nome[Jabhat Fateh al-Sham (Frente de la Conquista de Levante)]) e outros grupos islamistas na Turquia; sendo bombardeada polo exercito turco e, recentemente, por Assad; também, está sendo bloqueada polos aliados da Turquia, o PDK na regiom autônoma do Curdistam iraquiano que fai fronteira com a Síria.

Juntos, o PDK e a Turquia impugerom um brutal cerco econômico sobre Rojava, negando-lhes alimentos, materiais de construçom, material de uso médico e até mesmo remédios, fazendo com que se torne muito difícil que as pessoas poidam entrar ou sair da regiom.

Na medida em que a ONU envia ajuda estes recursos som acumulados nas fronteiras, Rojava nom está conseguindo, sequer, alimentar os centos de milheiros de refugiados que buscam asilo naquela regiom, a última onda vem de Manbij e Aleppo (cidades que tiveram grandes embates no último mês). A OTAN nom colocou pressom suficiente na Turquia para insistir que seja levantado o cerco à regiom e os EUA nom usaram da sua influência com o PDK (Partido Democrático Curdo).

Por mais que o golpe fosse dirigido polos mesmos oficiais que estavam bombardeando as cidades curdas, os porta-vozes destas regions asseguram que o que aconteceu foi um contra-golpe, com a intençom de que Erdogan poidesse impôr umha ditadura islamista ao invés de umha ditadura militar. Sem dúvidas é muito significativo que o único partido que Erdogan excluiu depois do golpe é a grande coalizom democrática do HDP, partido formado por curdos, inconformistas, intelectuais, feministas, minorias e homossexuais.

Foi umha experiência estranha estar escrevendo “Um caminho imprevisto” justamente quado estava começando ter sucesso a “revoluçom política” de Bernie Sanders nos EUA. Apoiei ao Sanders; era muito bom ouvir um político de renome nacional usar a linguagem da esquerda, algo que se tinha convertido em um tabu entre as principais correntes dos EUA depois da caída do muro de Berlim. E foi comovedor ver umha nova geraçom sensível frente às ideias radicais.

Mas, Bernie nunca explicou realmente o que queria dizer com umha “revoluçom política” e, muitos dos seus seguidores, eram jovens e nom tinham estudado muito sobre história, isso fazia que parecera possível pensar e fazer umha revoluçom em umha campanha eleitoral. A sua dor quando Bernie avaliou a Hillary Clinton -como sempre dixo que faria se ela conseguisse a nomeaçom- foi compreensível, como foi a sua indignaçom de que o sistema de partidos fosse partidista, regido por umha carreira de afiliaçom à longo prazo, e bastante hostil às emergências democráticas repentinas vindas de fora.

A história do movimento curdo poderia lhes ensinar o difícil que é fazer umha revoluçom, o tempo que demora tudo isso e o porque as mulheres serem a chave deste processo. Como dixo Frederick Douglass: “O poder nom concede nada sem umha demanda. Nunca o fixo e nunca o fará”.

A história do proletariado dos EUA mostra que quando os interesses econômicos substanciais estam em jogo, os poderes fáticos podem luitar para manter cada polegada. O tipo de mudança que precisamos nos EUA nom vai acontecer em um ciclo eleitoral. Nom vai acontecer somente por meio de umha política eleitoral nem somente por meio de protestos. Isto só irá acontecer por meio do tipo de organizaçons que os curdos venhem criando.
O movimento de libertaçom curdo desenvolve a força que foi construída em muitos anos de educaçom popular, de construçom das suas próprias instituiçons, combinando trabalho eleitoral e parlamentário com a resistência nom violenta e a autodefesa armada sempre e quando for necessária, destinando os seus esforços em “servir ao povo”, como diriam as Panteras Negras, ao mesmo tempo, em que vam construindo organizaçons administradas democraticamente que poidam ser sustentáveis. É por isso que é tam importante apoiá-las, bem como aprender dos seus exemplos.

A recente tentativa de golpe de Estado na Tuquia em julho -o qual foi imediatamente denunciado polo HDP- nom parece ter mudado em nada os assuntos relativos aos curdos.

lead-Meredith-TaxMeredith Tax é escritora e ativista política desde o final da década de 1960, foi membro do Bread and Roses, fundadora presidente da Comissom Internacional de Mulheres Escritoras do PEN, presidente fundadora de  Women’s WORLD, e co-fundadora do Centre for Secular Space. Os seus últimos livros som Double Bind: The Muslim Right, the Anglo-American Left, and Universal Human Rights e A Road Unforeseen: Women Fight the Islamic State.

Publicado em Opendemocracy.

 

 

Em defesa de Rojava

Em defesa de RojavaPor Memed Aksoy

O exército turco, juntamente com umha gentuza de jihadistas e militantes do Exército Livre Sírio, invadiu áreas de Rojava e continua a sua incursom ainda mais no território que já fora liberado do ISIS.

Milicianos apoiados por Turquia, como os Batalhons Nour al-Din al-Zenki, Faylaq al-Sham (A Legiom Sham), Brigada Sultan Murad e Jabhat Fateh al-Sham (antes al-Nusra), entre outros -todos salafistas / grupos islâmicos responsáveis por inúmeros crimes aos direitos humanos – já declararom que iam atacar Manbij, a que celebrou recentemente depois de ser libertada do ISIS polas Forças Democráticas de Síria (SDF). Imagens de mulheres tirando os nicabs e fumando, e homes barbeando-se ainda estam frescas na memória.

Depois do acordo de sustituir  em  Jarablus ao ISSIS sem disparar um so tiro, o exército turco envolveu-se em ataques aéreos e bombardeios de áreas civis, matando polo menos 45 em duas aldeias ao sul de Jarablus. Dúzias de combatentes locais do Conselho Militar de Jarablus, filiados às SDF, forom feitos prisioneiros e torturados frente das câmeras; a maioria deles árabes.

Com a última correria militar, a Turquia tentou camuflar a sua guerra regional contra os curdos, usando o ISIS como um pretexto, tentando impedir a uniom dos três cantons de Rojava. Além disso, esta também a tentativa de reforçar às forças sunitas / Irmandade Muçulmana, alinhados ideologicamente com o governo turco do AKP. Através destes mandatários Erdogan espera reviver as suas aspiraçons neo-otomanas de poder decidir no futuro da Síria e umha influência de longo prazo no Oriente Médio e Norte da África.

O que está em jogo, porém, tanto quanto os ganhos curdos, é a possibilidade de umha política e o sistema progressista, laica e democrática na regiom. Isto é o que Rojava representa e é por isso que o regime sírio, Iram, Rússia e os EUA concordarom na invasom da Turquia. A existência de Rojava nesse sentido é umha ameaça ao status quo e interesses de todos os Estados-naçons e governos no Oriente Médio e, e por extensom, aos saqueadores da regiom. Com um modelo alternativo de governança Rojava provou que pessoas de diferentes etnias e grupos religiosos podem-se organizar a nível local, viver, produzir e luitar juntos, sem um Estado centralizado, mesmo nos tempos de umha guerra sectária. A unidade entre curdos, árabes e turcomanos contra a invasom da Turquia é prova disso.

Por esta razom, o desenvolvimento de Rojava e a uniom dos três cantons -Cezire, Kobanê e Afrîn- está a ser impedido por todos os poderes envolvidos na guerra síria. Além disso, e pola mesma razo, o desenvolvimento de Rojava nom pode ser encarados com a mesma luz que as áreas que estam sendo capturadass polos grupos jihadistas apoiados pola Turquia ou o regime. Estes dous sistemas políticos -Islamista e Baathista- nada tenhem que aportar às pessoas em termos de umha democracia humana, progressista e participativa. Na verdade, eles nem sequer fam qualquer tipo de reivindicaçom.

Ainda que Rojava, com a sua retórica anti-nacionalista já refutou as acusaçons de alguns setores de que os curdos estam tentando capturar terras árabes, também é digno de nota que a área entre Kobanê e Afrin, que está sob ataque de Turquia e jihadistas do FSA, forom sistematicamente arabizadas polo regime sírio na década de 1970. Mesmo se nom fosse este o caso, os curdos, enquanto grupo distinto vivendo em umha parte contínua de território em Turquia, Iram, Iraque e Síria, ainda teria o direito de auto-determinaçom e reconhecimento internacional. Defender o contrário significaria que os estados de acima, que tenhem grandes povoaçons curdas cujos direitos tenhem sido negado durante décadas, devem ser considerados ilegítimos desde o momento em que forom declarados.

Em suma, Rojava tornou-se um facho, umha luz de esperança para todas as pessoas progressistas do mundo; contra a desigualdade, os regimes despóticos e sistemas hierárquicos e o patriarcado, Rojava tem levantado a bandeira da humanidade contra a barbárie. É por isso que a Revoluçom de Rojava deve ser defendida contra a agressom turca e jihadista mais umha vez. Mais umha vez as pessoas revolucionárias, democratas, feministas, laicas e todas as forças progressistas devem-se unir, como figeram em Kobanê, para fazer a Revoluçom de Rojava vitoriosa novamente.

Publicado em Kurdish Question.

 

 

O Inimigo do meu inimigo. Receita para o abismo

Cierzo 00Por Cierzo Bardenero

Recomendamos a leitura deste artigo para aqueles que “querem saber, entender e opinar” além de “bons e maus” no grande conflito no Oriente Médio. Titulares exagerados, e o sectarismo na imprensa e redes, fam desanimar o leitor ou resultam tendências xenófobas quando se afronta este conflito. E este artigo contribui como poucos a construir umha opiniom fundamentada.
Zabaltzen

[Este artigo de começos do outubro do 2014, quase dous, mantem as linhas gerais do que aconteceu, e está aconcento no Oriente Médio. Às vezes fam falha artigos que mais que analissar os feitos pontuais elevem o foco e deam a visom global do por que se chegou a esta situaçom. Logo de andar tempo perdido pola computadora penso que segue tendo a mesma claridade e interesse que quando foi escrito]

Só depois que Sinjar no qual dúzias de milheiros de pessoas pertencentes a minoria religiosa Jazidi foram condenados a conversom ou extermínio, e especialmente após a execuçom do jornalista americano James Foley, a opiniom pública ocidental descobriu a existência do Estado Islâmico (EI), ISIS, ou ISIL. O EI é umha organizaçom que usa a violência extrema para implementar o seu programa político-religioso sobre os territórios que ocupa na Síria e no Iraque, cujo objetivo declarado é a criaçom de um califado islâmico nos territórios pertencentes ao Iraque, Síria, Líbia, Palestina , Sinai e Chipre prévio ao estabelecimento do califado global. Mas chegar a esta situaçom foi trabalho de todos os protagonistas da área nas décadas anterioas em umha absurda estratégia política baseada em: “O inimigo do meu inimigo nom é meu amigo … mas pode ser útil. O que levou a umha contenda em múltiplas frentes que seguem a ocorrer na Síria, Iraque e Líbano com potencial para expandir-se para outros países do Oriente Médio. ”

Oriente Médio
Mapa do Oriente Medio

IraqueSíria

 Um dos pilares fundadores dessa estratégia é a divisom entre os ramos sírio e iraquiano do partido Baath nesses países que governarom depois de umha fusom entre elas e o Egito (Nasser) em 1963, que falhou pouco depois do nascimento. Ao longo do tempo as relaçons entre eles forom provocando cada vez mais purgas freqüentes de militantes Baath em ambos os ramos de militantes acusados de simpatizar com o ramo do outro país. A cousa intensificou a meados dos anos 70 em que umha organizaçom terrorista misteriosa ligada à Irmandade Muçulmana começou a atentar contra políticos, militares e pessoas de profissons liberais de confissao alawi (o mesmo que Al Assad e a cúpula do partido Baath sírio) e suspeitava-se que estava financiado polo ramo iraquiano do partido Baath (do deposto Saddam Hussein). Esta campanha terrorista foi ainda mais dura e transformada em guerra aberta desde 1979 em que foi visto como umha clara tentativa de exterminar a povoaçom alawi síria, que foi sangrentamente esmagada na massacre de Hama em 1982, enviando a prisom ou ao exílio ao islamistas sobreviventes.

A oportunidade para a vingança (e por duas vezes) viu depois da morte de Hafez al-Assad e a sua substituiçom à frente do país começou na última década. Bashar al-Assad, numha tentativa de tímida abertura abriu a porta para os Irmaos Muçulmanos presos e até brincou a legalizar esta organizaçom e outras, para transformar o país em umha democracia de estilo ocidental, mas em um gesto incompreensível de EUA, naquela época estava envolvido na derrubada de Saddam Hussein, em vez de atrai-lo a coligaçom, dedicou-se a torpedear a abertura e impor sançons à Síria que fecharom a porta a umha transiçom para a democracia e levou a segurança da Síria a promover a transferência de membros da Irmandade Muçulmana liberadoa a fazer a jihad contra os americanos que ocupavam o Iraque e acessoriamente facilitar a entrada de membros da Al Qaeda ao Iraque pola província de Al Anbar.

Apesar de que ao princípio Al Qaeda recebeu um forte apoio da povoaçom árabe sunita na sua luita contra os americanos e o governo de Bagdá (nas maos da maioria xiita) ao longo do tempo e devido ao seu o sectarismo e intolerância transformou-se em um problema tam grande que até mesmo as tribos sunitas e o governo dos EUA juntaram forças para combatê-los e reduzir à prática marginalizaçom AQI [AlQaeda de Iraque], e a cousa teria seguido assim se nom for porque na Síria o mesmo que erguerom em 1964 e 1976 -82 novamente erguerom em 2011 aproveitando a demandas populares contra a inflaçom, o custo de vida e a falta de alimentos devido às más colheitas que derivarom em um conflito armado aberto contra o governo, tanto assim que a Irmandade Muçulmana já em 2011-2012 representavam mais do 30% do FSA [Exército Livre Sírio], ao que há de sumar dúzias de brigadas independentes de grupos mais extremistas, como os salafistas, Takfiris e até mesmo um ramo da Al Qaeda chamado Jabhat Al Nusra.

É neste momento em que os EUA e a Europa também começavam a participar da doutrina do inimigo do meu inimigo, enviando armas e equipamentos pesados em colaboraçom com a Turquia, Qatar e Arábia Saudita, e Ocidente alegando que as armas iam destinadas às maos a moderados, a composiçom do FSA fazia que se estivesse equipando com armas pesadas (conscientemente) a brigadas que tinham fortes laços com grupos extremistas e até mesmo Jabhat Al Nusra com a esperança de domar o dragom umha vez que caíra Bashar Assad.

O que ninguém foi quem de prever é um problema na hierarquia do comando dentro da Al Qaeda ia provocar a cisom do ramo iraquiano da Al Qaeda e ista, com o tempo, varrera ou absorvera as restantes brigadas rebeldes, recebendo grandes quantidades de armas modernas, com as que pouderom assaltar o norte do Iraque (de povaçom árabe sunita) que esperava qualquer milícia que poidera enfrentar-se a um governo iraquiano em maos xiitas e curdas e retornar um poder que tinha monopolizado desde o estabelecimento do Iraque apesar de só representar o 25 % da povoaçom.

Em semanas, o Estado Islâmico com um número muito pequeno de homens liderou umha coalizom militar com os restos do baathismo iraquiano que tomou todas as províncias de povoaçom árabe sunita, chegando às portas de Bagdá enquanto limpavam etnicamente de xiitas, cristiaos e jazidis os territórios tomados. O avanço foi tam rápido e o colapso do Estado iraquiano tam alto que a Jordânia e a Arábia Saudita pugeram-se em alerta máxima para prevenir umha possível invasom dos seus respectivos países.

Cierzo 01 Extensom do ISIS a 22 de Setembro do 2014
Extensom do ISIS a 22 de Setembro do 2014

Umha vez consolidado o território no Iraque e proclamado o Califado, o ISIS voltou os seus olhos para a Síria lançando umha ofensiva total com o material de guerra iraquiano (recém doado polos EUA), tanto contra os restantes rebeldes, curdos como contra o Estado sírio, ofensiva que no momento parece imparável quando a suspeita e o ódio das muitas facçons em conflito impede aceitar umha estratégia conjunta para lidar com o ISIS.

Também no Iraque o sectarismo prevaleceu ao feito de parar o ISIS, e assim os curdos aproveitarom para ocupar militarmente os seus territórios históricos no norte do Iraque e em Bagdá era impossível formar um governo ante o impasse de Al Maliki e a divisom dos outros partidos.

Nesta situaçom os EUA e o Iram chegarom a um acordo para substituir al-Maliki como primeiro-ministro e por um candidato do seu próprio partido, também de confissom xiita pero mais diplomático, que resultou na chegada de equipamentos militares e homens do Iram e apoio aéreo norte-americano e que conseguiu deter o avanço do ISIS às portas de Bagdá (onde começa a área do país de maioria xiita) e umha ofensiva contra os curdos, que ameaçava chegar às portas da Regiom Autónoma Curda e a sua capital Erbil e polo caminho fazia um rastro de massacres contra as minorias xiitas, cristians e jaziguis.

Jordânia

O exemplo da Jordânia é um caso de como um país pode ser engolido por um turbilhom que el ajudou a criar e que, em virtude das suas alianças internacionais, no início da guerra civil síria, ofereceu as suas bases para que os Estados Unidos e outros paises treinaram contingentes de jovens sírios o que se chamou o Exército Livre Sírio (FSA) e permitir que a sua fronteira servesse como retaguarda e zona desde onde lançar ataques às províncias do sul de Daraa e Quneitra.

Diante da chamada para a Jihad na Síria centos de jovens radicais dos baluartes radicais de Ma’an e Zarqa e outras grandes cidades juntarom-se às brigadas da Irmandade Muçulmana do  FSA ou a grupos mais radicais como os salafistas de Ahrar al-Sham ou al Nusra. Isso começou a alarmar os serviços secretos jordanianos que temerom o retorno do contingente de milheiros de homes para casa para continuar a jihad.

O surgimento do ISIS terminou por complicar as cousas porque provocou o fracasso das organizaçons rebeldes e assim centos de homes que tinham sido treinados na Jordânia junto com os próprios jihadistas da Jordânia e toneladas de armas passarom a maos do ISIS cujo objetivo declarado era o estabelecimento um Estado islâmico transfronteiriço que incluia Jordânia entre outros.

Enquanto em 2012-2013 os protestos contra o alto custo de vida e a repressom do estado levou a manifestaçons contínuas convocadas pola Irmandade Muçulmana e organizaçons salafistas, muitos deles violentos, em 2014 e com o surgimento do ISIS os protestos resultarom em confrontos armados entre as forças de segurança e partidários do ISIS, como no caso da cidade de Ma’an onde jovens armados expulsarom por dias a polícia e o exército.

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Manifestaçom pró-ISIS em Ma’an Jordânia

Durante os primeiros meses deste ano, as forças de segurança contemplarom o ISIS como um perigo certo embora que geograficamente longínquo e preocuparom-se da repressom interna, mas a apreensom do norte do Iraque ate a passagem fronteiriço Jordâno-Iraquiano e as contínuas deserçons rebeldes cara o ISIS fam aumentar os temores de que estes obtenham as bases para atacar o país desde o norte e leste agindo coordenado com apoiantes internos do ISIS, de modo que os serviços de segurança procederom a rusgas contínuas e de olhar para trás a Israel e tentar reativar os acordos de ajuda mútua em caso de conflito.

Curdistam

Outro cenário onde as rivalidades podem ter levado à catástrofe tem sido a longa luita pola supremacia política no Curdistam entre Barzani e o seu partido (KDP), que governa junto à UPK (PUK) a Regiom Autônoma Curda contra este mesmo partido ao longo da década dos 90 na Regiom Autónoma curda do Iraque, e mais tarde contra o KCK (coordenadora de organizaçons curdas dlideradas polo pensamento de Abdullah Ocalan, preso na prisom turca de Inrali) e que som maioritárias tanto na Turquia como na Síria e no Iram.

Depois de uma breve experiência de autonomia curda no Iraque desde 1970 até o seu colapso em 1974, os curdos do Iraque tiverom que esperar até a primeira Guerra do Golfo para iniciar uma insurreiçom geral curda (e xiita no sul do Iraque) que levou à restauraçom da regiom autônoma curda. Umha vez alcançado o objetivo comum dos curdos iraquianos de todas as ideologias logo começarom as diferenças entre eles, especialmente depois de umhas eleiçons realizadas e um  território nom delimitado povoado por curdos e em que tanto o KDP de Barzani como a PUK de Talabani considerarom ter ganhado, começando em 1994 umha guerra em que tanto um partido como o outro ajudarom-se dos governos e exércitos dos países que os ocupavam.

Cierzo 03Assim em 1996 Barzani recorreu ao exército de Saddam Hussein para ajudá-lo a derrotar as milícias da PUK em áreas onde eles eram minoria causando umha retirada destes para a fronteira com o Iram a partir da qual eles procurarom a ajuda da Guarda Revolucionária e o PKK curdo (que na época já levava umha década de luita contra o estado turco) conseguendo recuperar o território perdido. Dado o envolvimento do PKK no conflito, o exército turco lançou umha ofensiva na Regiom Autónoma curda contra o PKK causando pesadas baixas e estabelecendo um precedente de invasons do norte da regiom autônoma curda com o consentimento do seu governo para acabar com as bases do PKK.

Em 1998, após o bombardeio do Iraque polos EUA para parar a ofensiva iraquiana contra a PUK, foi estabelecida umha zona de segurança no norte do Iraque, a retirada das suas tropas ao sul da zona de segurança, e aprovado um programa da ONU chamado Petróleo por alimentos que forneceu de enormes quantidades de dinheiro a ser geridos pola Regiom Autónoma. A possibilidade de ver fluir grandes quantidades de dinheiro que poderiam gerir conjuntamente o KDP e a PUK levaram a fazer a paz esse ano e compartilhar o poder na Regiom Autónoma curda, um acordo que dura até hoje.

Umha vez que ficou claro supremacia do KDP na Regiom Autónoma Barzani só tinha um rival importante para fazer-lhe fronte como líder dos curdos: Ocalan e o PKK que levava anos de luita contra o Estado turco, e, após a queda do bloco soviético que financiou as suas atividades contra o estado turco através de umha Síria que forneceu umha retaguarda segura e serviu como um intermediário entre o PKK e Moscovo, viu como, ao ver-se sem super-potência protetora contra umha possível agressom turca finalmente assinou um acordo de segurança que implicou a expulsom do PKK da Síria. Assim, Ocalan começou umha turnê por diferentes países na busca de asilo até que foi sequestrado polos serviços secretos turcos na Quênia e preso em uma prisom de máxima segurança.

No início deste século, e depois de alguns anos de prisom, Ocalan abandonou o marxismo-leninismo abraçando o Confederalismo Democrático em umha tentativa de unir os curdos de diferentes países em umha estrutura política sem remover as fronteiras existentes.

Para isso dissolveu o PKK e criou um guarda-chuva em que as organizaçons sectoriais, os partidos políticos e as milícias que aceitaram o Confederalismo democrático estiveram representados e servir como órgao político do povo curdo no seu conjunto chamado KCK (Confederaçom de Comunidades do Curdistam/ Koma Civakên Kurdistán.

Assim, a partir dos pontos propostos por Ocalan forom surgindo um partido político para cada estado (Kongra Gel e formaçons sucessivas que tentam lidar com as ilegalizaçons na Turquia, o PYD na Síria, o PJAK no Iram e no Iraque o PÇDK), um braço armado para cada estado, se a situaçom política o requeria (todos encontrarom as suas milícias necessárias para proteger a povoaçom curda), organizaçons de mulheres, jovens e migrantes fora do Curdistam.

E enquanto a milícia do partido trasladava-se para as montanhas no norte do Curdistam iraquiano, onde sofreu represálias contínuas do exército turco, com a aprovaçom do governo da Regiom Autônoma Curda liderada por Barzani, durante a primeira década deste século, quando se sucederom as tréguas e o retorno às armas até que o governo turco e Ocalan sentarom a negociar umha paz duradoura, negociaçom esta que veu junto com a marcha de todas as milícias do PKK às montanhas de Qandill no Curdistam iraquiano.

O novo discurso de Ocalan logo prendeu nas minorias curdas na Síria e no Iram que sofriam um nível de repressom semelhante ao turco e o PYD e o PJAK tornarom-se em opçons maioritárias nas suas respeitivas comunidades. Tanto assim, que na Síria, como resultado do vácuo de poder pola guerra civil que assola o país desde 2011, o PYD conseguiu atrair a maioria da povoaçom de Rojava de todos os credos e etnias com o seu discurso e erguer um governo autónomo composto por três cantões federais com base nos princípios do Confederalismo Democrático, apesar das reticências do ramo sírio do PDK que manobrou para torpedear o processo, e a recusa em reconhecer a autonomia curda na Síria por Barzani e os órgaos políticos da Regiom Autônoma curda do Iraque.

Outro sinal de hostilidade de Barzani ao projeto político de Ocalan que sofreu o povo curdo, foi o fechamento contínuo da fronteira entre a província de Hassakah e a KRG no mais duro da ofensiva das milícias islâmicas e do ISIS contra os curdos de Rojava aos que qualificavam de apóstatas e militantes do PKK. Este processo vergonhoso culminou em 2014, quando o KRG sumou-se a Turquia ao escavar fossos profundos ao longo da fronteira para impedir a marcha dos curdos (e árabes e assírios) que fugiam da ofensiva do ISIS que pretendia erradicar a autonomia curda de Rojava.

Mas às vezes a história é caprichosa e toma a vingança, no mês de Julho de 2014, e depois de frear  o exército iraquiano a ofensiva do ISIS nas aforas de Bagdá, isso virou os olhos do ISIS contra o Curdistam iraquiano, lançando umha ofensiva contra territórios curdos do norte do Iraque protegidos por Peshmerga mas que nom som a Regiom Autónoma em sentido estrito, forçando a retirar-se aos Peshmergas quase ate as portas de Erbil e deixando à sua sorte a centos de milheiros de curdos que viveram desde tempos imemoriais nessas áreas reivindicadas pola Regiom Autónoma e com a grande desgraça de pertencer a grupos religiosos considerados heréticos polo ISIS, assim que sacrificando as forças de combate das suas respectivas frentes, membros da milícia da KCK da Turquia, Síria e do Iram chegarom à zona para combater o ISIS e evitar a certa massacre da minoria curda e umha vez afastado o perigo formar e armar umha milícia de auto-defesa dos curdos da zona de Sinjar.

Assim, a resposta solidária e altruísta às repetidas mostras de mesquinhez de Barzani trouxa enorme popularidade para a KCK no Curdistam iraquiano, onde o seu braço político (PÇDK) era bastante marginal, e isso tem forçado Barzani a colaborar com as milícias do KCK na luita contra o ISIS, a burlar o veto, a armar as milícias do KCK por estar incluídas na lista de organizaçons terroristas Ocidentais (via carregamentos de armas à PUK que esta reparte entre as outras milícias), a reconsiderar a declaraçom de independência da Autonomia curda do Iraque que baralhava meses antes (depois de receber o apoio turco e israelense a umha possível declaraçom unilateral) e assim promover a coordenaçom entre a Regiom Autónoma curda e a KCK de cara à auto-determinaçom do Curdistam e a enviar Peshmerga para ajudar às YPG a frear a  ofensiva do ISIS para erradicar o cantom autônomo curdo de Kobanê e eliminar fisicamente os seus 400.000 habitantes.

A este dia, apesar do apoio militar da Regiom Autónoma do Curdistam do Iraque e dos jovens vindos da Turquia e do exílio na Europa a situaçom em Kobanê é desesperada porque o cantom foi praticamente reduzido à cidade sofrendo ataques diários desde o oeste, sul e leste com armas pesadas, enquanto Turquia dificulta a saida de refugiados curdos e a entrada da pequena ajuda militar que recebem os curdos como armas ligeiras e voluntários. [Desde outubro de 2014, as YPG pararom e depois expulsarom da cidade o ISIS em janeiro de 2015 logo de que tomaram o 80% desta. Passando à ofensiva na luita contra o ISIS e, progressivamente, recuperando todo Canton. Criando umha força conunta com árabes, turcomanos, assírios e siriacos, as SDF que cpnseguirom unificar territorialmente o Cantom de Kobanê com o de Cizire polo Oeste; levar a linha da frente a 60 km de Kobanê no sul, e atravessando o rio Eúfrates polo oeste ate Manbij].

Líbano

Se há um lugar no Oriente Médio que melhor encarna a máxima de “O inimigo do meu inimigo …” Este é o Líbano. Desde o seu nascimento em 1920, resultado de romper o território costeiro da Síria, povoado na maior parte por maronitas que reivindicavam um Estado própria que mantivesse relaçons com o Ocidente, o Líbano viu-se arrastado a conflitos armados polas alianças regionais das diferentes minorias que componhem o país (cristians de diferentes tipos, sunitas, xiitas e drusos).

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Minorias religiosas em Líbano.

Tendo obtido a independência em 1942, nom demorou mais de umha década para se tornar envolvida na agitaçom que cercou o Médio Oriente na sequência da nacionalizaçom do Canal de Suez e a subsequente guerra que envolveu Israel, Gram-Bretanha e França, por um lado, e Egito polo outro. Se a constante dos países árabes foi romper as relaçons diplomáticas com o Ocidente, o presidente recém-eleito Chaoum (de onfissom cristiam) opta por nom fazer parte da República Árabe Unida e aproximar-se diplomaticamente o Ocidente , como represália Egito e outros países árabes armam aos palestinos que foram expulsos de Israel na década passada para que este tomem o Libano estalando umha guerra civil que é sufocada polos cristians com a ajuda dos EUA.

Uma paz relativa é estabelecida no Líbano até o final dos anos 60, mas depois da Guerra dos 6 Dias e o Setembro Negro de Jordania a situaçom no Líbano polariza-se, conforme os palestinos aproveitando um acordo de extraterritorialidade usam os campos de refugiados como campos de treinamento e base para lançar ataques contra Israel sem que o exército libanês poida intervir. De 1970 a 1975, a situaçom vai gradualmente degradandp e dividindo o país em dous blocos, um conservador cristiam defensor de reprimir os palestinos e de ter ligaçons com Israel e um bloco muçulmano progressista defensor de apoiar os palestinos.

A partir de 1975 começou um conflito intermitente entre as diferentes facçons libanesas (e palestinas) apoiadas por potências estrangeiras acompanhadas por invasons do Líbano, dos países vizinhos para tentar fazer a paz, ou simplesmente evitar ataques terroristas no seu território do Líbano que durou até os Acordos de Taif em 1989.

Assim, ao longo desses 15 anos viu-se como a Síria invadiu o norte do Líbano para defender os maronitas (e assim limpar as bases terroristas islâmicas desde onde se lançava a campanha terrorista de extermínio do partido Baath e os intelectuais sírios alawítas), e posteriormente mudar de aliança e juntar-se ao bloco palestino/muçulmano/esquerdista, como Israel invadiu o território libanês repetidamente para criar zonas de segurança dentro do Líbano para acabar com as campanhas terroristas no norte do seu país, como o Iram estava envolvido no conflito organizando política e militarmente ao Hizbullah xiita ou mesmo como umha segunda frente na guerra Iram-Iraque, Saddam Hussein armava os maronitas para enfrentar-se o Hizbullah, tudo isso apesar da existência de forças de interposiçom da ONU.

Os Acordos de Taif eram básicos para alcançar a paz no Líbano e consistiu na reforma do sistema eleitoral libanês, polo que os escanos no parlamento estariam divididos ao 50% entre cristians e muçulmanos, o reparto de cargos institucionais também realizada com base a critérios religiosos polo qual o presidente sempre seria um cristiam, o primeiro-ministro sunita e o porta-voz do Parlamento xiita, também todas as facçons libanesas e palestinas concordaram em desarmar-se (exceto o Hizbullah), o exército libanês ia ser o garante da segurança nacional e despregava-se pola maior parte do estado. Apesar destes acordos os combates entre o Hizbullah e Israel e o seu aliado (Exército do Sul do Líbano) continuarom ate a marcha israelense e a derrota militar do seu aliado no 2000.

Embora a paz chegara no início dos anos 90 com a assinatura dos Acordos de Taif e a derrota das milícias cristians anti-Sírias do general Michel Aoun, a ocupaçom síria continuou até o 2005, quando as mobilizaçons após a morte em atentado do Primeiro-Ministro libanês Rafiq Hariri, e conhecida como a Revoluçom dos Cedros, levou à saída do exército e dos serviços de inteligência sírios do território libanês.

À marcha síria do Líbano e a vitória eleitoral da coalizom anti-Síria liderada por Saad Hariri nas eleiçons legislativas, foi seguido por umha campanha de atentados contra os chefes das formaçons anti-Sírisa, que tinham ganhado as eleiçons o que elevou as tensons no país, até que um acordo entre Michel Aoun e Hizbullah estabeleceu os fundamentos de entendimento entre os blocos e ainda servem de base para acordos nacionais.

Apesar da partida da Síria e Israel de território libanês, os conflitos armados e o terrorismo continuarom a assolar o país, e a meados do 2006 o rapto de dous soldados israelenses na fronteira entre o Líbano e Israel resultou em umha escalada de confrontos que levou a fortes combates entre elas por semanas e só terminou após a intervençom do Conselho de Segurança das Naçons Unidas. Se em 2006 o conflito foi devido a Hizbullah, em 2007 eram militantes salafistas acampamentos palestinos, quem quase levou à guerra civil no Líbano, ao enfrontar-se  ao exército libanês por meses em um conflito onde houvo 500 mortos e cerca de mil feridos, quando as forças de segurança libanesas forom deterr em um acampamentoo perto de Tripoli os responsáveis de explodir vários autocarros em umha cidade cristiam nas proximidades. Depois de vencer militarmente, os primeiros brinquedos de erigir governos islâmicos salafistas, os anos seguintes no Líbano tenhem decorrido entre governos provisórios, crises políticas e atentados terroristas dirigidos contra líderes políticos e indiscriminados contra a povoaçom civil.

Se esta situaçom era instável em si foi agravada com o início da guerra civil síria em 2011 em que xiitas, sunitas e alawitas libaneses estiverom envolvidos na guerra civil na Síria diante de umha inibiçom incompreensível dos cristians que considerou a guerra como algo alheio a eles, enquanto observavam as milícias sunitas ligadas aos rebeldes sírios cometer massacres de cristians na vizinha província síria de Homs.

Assim que por 3 anos houvo confrontos armados entre jovens de confessom alawíta e salafistas em Trípoli e arredores, ataques indiscriminaaos bairros de maioria xiita em Beirute efectuados por grupos terroristas ligados ao ramo sírio da Al Qaeda ou ISIS, umha insurreiçom Salafi em Sidon que foi reprimida polo exército após 25 horas de combate, e o desmantelamento das milícias do xeque Ahmed Assir e a invasom direta por militantes islâmicos de Al Nusra (Al Qaeda na Síria) e ISIS à cidade de Arsal (que acolhia a dúzias de milheiros dos  milhons de refugiados sírios no Líbano) da regiom síria de Qalamoun e que resultou na expulsom das milícias fundamentalistas d a Síria, levando consigo 20 soldados libaneses reféns.

Esta invasom e outras planejadas polo ISIS, com a intençom de integrar o Líbano como regiom do Estado Islâmico finalmente começarom a preocupar e envolver à maioria cristiam na luita contra o fundamentalismo islâmico que está sangrando a vizinha Síria e o Iraque e começa a abundar campanhas multireligiosa de repúdio ISIS como o surgimento de grupos de autodefesa mistas formados por cristians e xiitas e drusos que estam sendo armados e treinados por Hizbullah.

Qatar – Arábia Saudita

Surgida após a implosom do califado otomano e da uniom pola força das armas dos vários reinos da Península Arábica, Arábia Saudita pola legitimidade que lhe deu a custódia de duas das três cidades santas do Islam (Meca e Medina) erigiu-se por anos como líder e mediador de conflitos entre estados com maioria muçulmana, enquanto se apresentava como ideólogo e financiador mundial de umha versom radical do Islam (wahhabismo), que é a religiom oficial do país (por exemplo, Ben Laden).

Durante décadas Arábia gostava desta posiçom privilegiada graças à tolerância de países ocidentais que permitiam abusos dos direitos humanos no seu país e o financiamento de organizaçons terroristas que atentavam objetivos ocidentais em troca de petróleo barato; mas a estrela Saudita minguou após a Guerra do Golfo, na que Arábia tivo que recorrer a Ocidente para resolver umha guerra que, na opiniom de Bin Laden poderia ser resolvida entre os muçulmanos. Assim, enquanto Arabia declinava, Qatar foi emergindo como umha potência econômica e política na regiom disposta a disputar a liderança saudita.

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Conselho de Cooperaçom do Golfo (GCC)

Embora a financiar por anos a semelhantes ou os mesmos grupos terroristas fundamentalistas em todo o mundo, a rivalidade entre os dous países cresceu ao longo do tempo, ja que patrocinavam duas correntes islamistas antagônicas (a Irmandade Muçulmana Qatar e Arábia o wahhabismo), sendo o detonante a descoberta de umha conspiraçom da Irmandade Muçulmana para tomar o poder nos Emirados Árabes Unidos, naquel tempo outro membro do Conselho de Cooperaçom do Golfo (GCC), do qual Qatar e Arábia fam parte.

A partir desse momento o CCG dividiu-se entre os partidários do Qatar (basicamente Kuwait), os partidários da Arábia Saudita (EAU que era a que sofrera a tentativa de golpe e Bahrein, com o seu trono dependente da presença do exército de Arábia para nom ser derrubado pola maioria xiita) e Omam quem advertiu que se eles marchavam se continuavam os conflitos internos. Ao ser maioria os pró-sauditas (ao que também se sumava Jordânia como um candidato a participar do GCC), estabelecerom um bloqueio por terra, mar e ar a Qatar até que abandonara a sua posiçom de promover golpes pró-Irmandade Muçulmana na zona.

Qatar e Kuwait com outro estado governado por um ramo da Irmandade Muçulmana como éTurquia (aliados do Ocidente) som os financiadores das milícias que procuram impor governos islâmicos do Norte de África (Tunísia, Líbia e Egito) ou em Oriente Médio (Líbano, Síria e Iraque); e som mesmo suspeitos de financiar o ISIS através de fundos privados e ONGs amplamente subsidiadas por esses governos, o que levou, à sua vez a umha ruptura de Arábia com o terrorismo islâmico e apoiar os governos seculares que enfrentam às milícias patrocinadas por Qatar , Kuwait e Turquia como nos casos da Líbia e do Egipto.

Assim, mália nom descobrer-se ligaçom entre Qatar e Turquia com o ISIS, tanto Arábia como Jordânia e outros membros do CCG que os apóiam tornaram-se em objectivo prioritário do ISIS e nom é de excluir que em um curto espaço de tempo campanhas terroristas em Jordânia e Arábia ou até mesmo sofrer invasons de milícias do ISIS dos seus territórios.

Conclusom

A situaçom no Médio Oriente é muito complicada após o surgimento do Estado Islâmico (ISIS) e a proclamaçom do Califado mais tarde em junho deste ano e é improvável que seja resolvida à luz dos acontecimentos relatados anteriormente devido a ressentimentos pessoais e históricos de agentes diferentes na área que impedem um acordo mínimo para combater umha organizaçom que começa a expandir os seus tentáculos ao Norte de África, Ásia Central e o Extremo Oriente, absorvendo pequenas organizaçons salafistas existentes, a excisom de franquias regionais de Al Qaeda ou a deserçom em massa de militantes destas para se juntar ao Estado Islâmico.

A cimeira em Paris para forjar umha coalizom internacional para combater o Estado islâmico é a demonstraçom prática da incapacidade, ja que parte dos envolvidos na luita nom forom convidados a ela e a maioria daqueles que comparecerom não se comprometerom com nada mais de fornecer apoio logístico para bombardear as bases do ISIS que, embora que enfraquecem a organizaçom nom a derrotam completamente, como sim o faria umha operaçom militar no terreno que estam fazendo casualmente os que nom forom convidados a cimeira, nomeadamente o Iram, Síria, Hizbullah e as milícias curdas ligadas à KCK.

Portanto, a curto prazo, nom é de excluir que, sem ter abortado o califado, o cenário do Oriente Médio se repete em outras áreas problemáticas do mundo que também estam orientadas pola máxima de que o inimigo do meu inimigo e que o caos no que está assolada Líbia desde a derrubada de Gaddafi se torne em umha plataforma para criar um califado abrangendo aos seus vizinhos Mali, Chade, Tunísia e Egito.

Publicado em outubro do 2014 em Zabaltzen.

Cierzo Bardenero, residente na Ribera de Navarra é um apaixonado pola política, história e fascinado por Catalunha e o MENA (Oriente Médio e Norte da África). Tem publicado em Zabaltzen e Endavant entre outros, e é muito ativo e atinado nas redes sociais, pode-se seguer em twitter em @Cierzo_bardener