Pacifismo feminista ou passivismo?

Protesta polo #BlackLivesMatter em Nova York o 13 de fevereiro de 2017. Créditos: Erik McGregor / PA Images

Por Dilar Dirik

Quando algumhas mulheres brancas louvam a nom-violência das marchas de mulheres contra Trump e depois posam em fotografias com policias enquanto a violência policial atinge especificamente a pessoas de cor, quando os anti-nazis som acusados de nom ser diferentes dos fascistas, quando feministas em relativa segurança acusam a mulheres militantes no Oriente Médio que enfrentam escravidude sexual sob o ISIS de militarismo, devemos perguntarmos pola noçom liberal da nom-violência que ignoram a interseçom dos sistemas de poder e os mecanismos de violência estrutural. Aderindo-se dogmaticamente a um pacifismo (ou passivismo?) que tem um caráter de classe e racial, e demonizando a raiva violenta anti-sistema, as feministas excluem-se de um tam necessário debate sobre formas alternativas de autodefesa cujo objetivo e estética servem a políticas liberadoras. Em umha era global de feminicídio, violência sexual e violaçons, quem se pode dar ao luxo de nom pensar na auto-defesa das mulheres?

O feminismo desempenhou um papel importante nos movimentos anti-guerra e alcançou vitórias políticas na construçom da paz. A crítica feminista ao militarismo como instrumento patriarcal torna compreensível a rejeiçom da participaçom das mulheres nos exércitos estatais em quanto  “empoderamento”. Mas a rejeiçom generalizada das feministas liberais à violência feminina, sem importar o objetivo, nom distingue qualitativamente entre o militarismo estatista, colonialista, imperialista, intervencionista e a necessária legítima defesa.

A polícia dispara para dispersar manifestantes da Black Lives Matter o 9 de julho de 2016 em Saint Paul para protestar contra o assassinato policial de Philando Castile. Créditos: Annabelle Marcovici / PA Imagens

O monopólio da violência como umha característica fundamental do Estado protege a este das acusaçons de injustiça, enquanto que criminaliza as tentativas básicas das pessoas pola auto-preservaçom. Dependendo das estratégias e políticas, atores nom-estatais som rotulados como “perturbadores da ordem pública” na melhor das hipóteses, ou “terroristas” na pior. A tendência de defender exemplos como Mahatma Gandhi ou Martin Luther King para defender a resistência nom-violenta muitas vezes desdibuja feitos históricos ao ponto de satanizar os elementos radicais e às vezes violentos de umha resistência legítima anticolonial ou anti-racista.

Simultaneamente, a tradicional associaçom da violência com a masculinidade e a exclusom sistemática das mulheres da política, da economia, da guerra e da paz reproduzem o patriarcado através de umha divisom sexual dos papéis no domínio do poder. A crítica feminista à violência baseia-se no bem-intencionado, mas profundamente essencialista, discurso de umha moralidade baseada no gênero, que também pode reproduzir a imagem das mulheres como passivas, inerentemente apolíticas e com necessidade de proteçom. Tal reduçom do gênero nom consegue entender que a inclinaçom à violência nom é inerentemente específica do gênero, mas determinada por sistemas interconectados de hierarquia e poder como demonstra o caso das mulheres brancas americanas que torturom homens iraquianos na prisom de Abu Ghraib.

As mulheres curdas tenhem umha tradiçom de resistência; a sua filosofia da autodefesa varia desde exércitos autônomos de guerrilhas femininas ao desenvolvimento de cooperativas autogeridas de mulheres. Nos últimos anos, as vitórias das Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ) em Rojava-Norte da Síria e das YJA Star do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) contra o ISIS tenhem sido inspiradoras. As mulheres curdas, junto com as suas irmás cristians, árabes e siríacas, libertarom milheiros de quilômetros quadrados do ISIS, criando fermosas imagem de mulheres liberando mulheres. Ao mesmo tempo, elas também estavam construindo os alicerces da revoluçom da mulher dentro da sociedade. No entanto, algumhas feministas ocidentais questionavam a sua legitimidade e a descartarom como militarismo ou cooptaçom por grupos políticos. As narrativas dos meios ocidentais retratarom essa luita de umha maneira despolitizada, exótica, ou fazendo suposiçons generalizadas sobre o desinteresse “natural” das mulheres à violência.  Se a reportagem da mídia era dominada por um olhar masculino, isso se devia em parte à recusa das feministas em se envolver com esse relevante tema. Umha nom pode deixar de pensar que as mulheres militantes que tomam as coisas nas suas maos prejudicam a capacidade das feministas ocidentais de falar em nome das mulheres no Oriente Médio, projetadas como vítimas indefesas, pode ser umha das razons para essa hostilidade.

Credito: YPJ Media Team

A luita das mulheres curdas desenvolveu umha filosofia centrada na mulher de autodefesa e situa-se numha análise interseccional do colonialismo, do racismo, do estatismo-naçom, do capitalismo e do patriarcado. A Teoria das Rosas é umha parte do pensamento político liberador do líder do PKK, Abdullah Öcalan. El sugere que, a fim de chegar a formas nom-estatistas de auto-defesa, precisamos nom olhar mais longe do que a própria natureza. Cada organismo vivo, umha rosa, umha abelha, tem os seus mecanismos de autodefesa para proteger-se e expressar a sua existência – com espinhos, picadas, dentes, garras, etc. nom para dominar, explorar ou destruir desnecessariamente outra criatura, mas para preservar-se e satisfazer as suas necessidades vitais. Entre os seres humanos, sistemas inteiros de exploraçom e dominaçom perpetuam a violência além da sobrevivência física necessária. Contra este abuso de poder, a legítima defesa deve basear-se na justiça social e na ética comunitária, com particular respeito à autonomia das mulheres. Se deixarmos de lado as noçons sociais darwinistas de sobrevivência e competiçom que, sob a modernidade capitalista, atingiram dimensons mortais e concentrarmos-nos na interaçom da vida dentro dos sistemas ecológicos, podemos aprender com os modos de resistência da natureza e formular umha filosofia de autodefesa. Para luitar contra o sistema, a autodefesa deve abraçar a açom direta, a democracia radical participativa e as estruturas sociais, políticas e econômicas autogeridas.

Encostado ao Confederalismo Democrático que lidera o movimento da liberdade curdo, um sistema confederal autônomo das Mulheres Democratas foi construído através de milheiros de comunas, conselhos, cooperativas, academias e unidades de defesa no Curdistam e além. Através da criaçom de umha comuna de mulheres autônoma em umha aldeia rural, a identidade, a existência e a vontade das suas membros encontram a sua expressom na prática e desafiam a autoridade do estado patriarcal e capitalista. Além disso, a autonomia econômica e a economia comunitária baseada na solidariedade através do estabelecimento de cooperativas som cruciais para a auto-defesa da sociedade, garantindo o auto-sustento através do mutualismo e da responsabilidade compartilhada, rejeitando a dependência dos Estados e dos homens. O cuidado com a água, as terras, as florestas, o património histórico e natural som partes vitais da auto-defesa contra o Estado-naçom e a destruiçom ambiental orientada ao lucro.

Defender-se também significa ser e conhecer-se a si mesma. Isso implica a superaçom da produçom de conhecimento sexista e racista que a modernidade capitalista defende e que exclui os oprimidos da história. A consciência política constitui umha luita contra a assimilaçom, a alienaçom da natureza e as políticas de Estado genocidas. A resposta à literatura histórica e socialista positivista, colonialista e centrada no homem é, portanto, o estabelecimento de academias de mulheres de base que promovam epistemologias liberacionistas.

Umha luita sem ética nom pode proteger a sociedade. Aos olhos das mulheres curdas, o ISIS nom pode ser derrotado so polas armas, mas por umha revoluçom social. É por isso que as mulheres Jazidis, depois de sofrerem um genocídio traumático sob o ISIS, formarom um conselho de mulheres autônomo por primeira vez na sua história com o lema “A organizaçom das mulheres Jazidi será a resposta a todas as massacres”, ao lado das organizaçons militares femininas. Em Rojava, ao lado das YPJ, até mesmo as avoas aprendem a lidar com o AK47 e rotam entre si a responsabilidade de proteger as suas comunidades dentro das Forças de Autodefesa (HPC), enquanto milheiros de centros de mulheres, cooperativas, comunas e academias visam desmantelar a dominaçom masculina. Contra a guerra hiper-masculina do Estado turco, as mulheres curdas constituem um dos principais desafios para o governo de Erdogan através da sua mobilizaçom autônoma. Crucialmente, mulheres de diferentes comunidades juntaram-se a elas na construçom de alternativas femininas à dominaçom masculina em todas as esferas da vida. Um conceito de autodefesa alternativo que nom reproduza o militarismo estatista deve ser, naturalmente, anti-nacionalista.

YJÊ é umha milícia de mulheres formada no Iraque em 2015 para proteger a comunidade Jazidi no Iraque e no Curdistam iraquiano. Créditos: Wikicommons

Ao contrário da violência que procura subjugar o “outro”, a auto-defesa é umha completa dedicaçom e responsabilidade para a vida. Existir significa resistir. E para existir de forma significativa e livre, é preciso ser politicamente autônoma. Dito sem rodeios, num sistema internacional de violência sexual e racial, legitimado polos Estados-naçom capitalistas, o grito de nom-violência é um luxo para aqueles em posiçons privilegiadas de relativa segurança, que acreditam que nunca acabaram numha situaçom em que a violência será necessária para sobreviver. Embora teoricamente sólido, o pacifismo nom fala à realidade das massas de mulheres e, assim, assume um caráter do primeiro mundo bastante elitista.

Se as nossas reivindicaçons de justiça social som genuínas, num sistema mundial de interseçom de formas de violência, nos temos que luitar.

Publicado em Opendemocracy

Dilar Dirik é do norte do Curdistam (Administrativamente Turquia). Ela é umha ativista do movimento de mulheres curdas e escreve sobre a luita pola liberdade curda para um público internacional. Está atualmente trabalhando no seu doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.

A guerra de Erdogan contra as mulheres

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Ayla Akat Ata, porta-voz do Congresso de Mulheres Livres (KJA), celebraçom do 8 de março de 2014, quando ainda era deputada.

Por Dilar Dirik

As mulheres curdas, um dos movimentos mais fortes e radicais das mulheres no mundo está sendo reprimido polo Estado turco com total impunidade – e Europa mirando para outro lado

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Detençom de Sebahat Tuncel

“Vamos resistir e resistir até ganhar!”, berrava Sebahat Tuncel antes da sua boca ser fechada à força por meia dúzia de policias que a arrastam polo chao e a detiverom a começos de novembro.

Nove anos atrás, um comboio com sinais de vitória, slogans alegres e flores recebeu a Tuncel quando ela foi libertada da prisom para entrar no parlamento, tendo sido eleita ainda dentro. Tuncel, agora presa novamente, é umha das dúzias de políticos curdos do Partido Democrático do Povo (HDP) ou do Partido Regional Democrático (DBP), presos polas forças de segurança turcas desde o final de outubro sob as operaçons “anti-terroristas” contra aqueles que desafiam o governo autoritário do presidente turco, Erdoğan. Essa repressom acompanha a tentativa de golpe de Estado em julho e representa umha re-escalada da guerra entre o Estado e o movimento curdo desde o verao de 2015, terminando um processo de paz de dous anos e meio. Como o conselho dado ao esquadrom anti-terrorista alemao na década de 1980 “Atire as mulheres em primeiro lugar!” A masculinidade tóxica do Estado tornou-se evidente na sua declaraçom de umha guerra contra as mulheres; a força do movimento militante das mulheres curdas representa a maior ameaça ao sistema. O caso de Sebahat Tuncel nom é único.

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Foto de Gulten Kışanak.

No final de outubro, Gültan Kisanak foi detida. Ela foi a primeira co-alcalde do Município Metropolitano de Diyarbakir e ex-parlamentária, que passou dous anos na década de 1980 na famosa prisom de Diyarbakir, onde sobreviveu às formas mais atrozes de tortura, como ter de viver durante meses em umha cabana de cans cheia de excrementos, porque ela recusou a dizer “Eu sou turca”. A sua prisom foi imediatamente seguida pola detençom violenta de Ayla Akat Ata, ex-deputada e agora porta-voz do Congresso de Mulheres Livres (KJA), a maior organizaçom de mulheres no Curdistam e Turquia, que está entre as 370 organizaçons da sociedade civil proibidas polo governo desde meados de novembro. Ela foi hospitalizada várias vezes devido à violência policial durante o seu período parlamentar e sobreviveu a várias tentativas de assassinato.

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Sebahat Tuncel, Ayla Akat Ata, Selma Irmak e Pervin Buldan protestam contra umha lei de segurança no Parlamento. Todas, exceto Pervin Buldan estam agora na prisom. Foto: Murstafa Istemi/Milliyet

Selma Irmak está entre as deputadas eleitas desde a prisom, onde passou mais de 10 anos sob acusaçons de terrorismo e participou de greves de fome. Gülser Yildirim estivo presa durante cinco anos antes das eleiçons. Outra deputada é Leyla Birlik, que ficou com os civis sob fogo militar em Sirnak durante toda a duraçom do bloqueio militar, testemunhando os assassinatos brutais de inúmeros civis polo exército. O seu cunhado, Haci Lokman Birlik, ativista e cineasta, foi executado polo exército turco em outubro de 2015; Seu cadáver estava amarrado a um veículo do exército e arrastado polas ruas. Soldados filmaram isso e enviarom o vídeo para Leyla Birlik com a mensagem “Venha colher o seu cunhado”.

A lista continua. Escolhemos mulheres corajosas como nossas representantes. Elas som agora prisioneiras políticas apesar de serem eleitas por mais de cinco milhons de pessoas.

As políticas ultra-conservadoras do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) sob Erdogan levarom ao aumento da violência contra as mulheres na Turquia durante a última década e meia. Nom só membros de alto nível da administraçom, incluindo o próprio Erdogan, rejeitam frequentemente a igualdade entre mulheres e homes em favor de atitudes que normalizam a cultura da violaçom, a violência de género e a misoginia, o AKP lança ainda ataques físicos explícitos às mulheres e pessoas LGBTI +. O estado hipermilitar nom só pune coletivamente a comunidade curda como separatistas, terroristas ou conspiradores contra o Estado, retrata as ativistas curdas como “mulheres más”, prostitutas vergonhosas e violadoras do núcleo da família.

Historicamente, a violaçom e a tortura sexual, incluindo os “testes de virgindade” post-mortem, tenhem sido utilizados polo Estado turco para disciplinar e punir os corpos das mulheres como observou Anja Flach no seu livro Frauen in der Kurdischen Guerrilla que nom está ainda traduzido do alemao. Nas prisons, as mulheres som submetidas a buscas íntimas para humilhá-las sexualmente. Recentemente, soldados tiraram as roupas dos cadáveres de militantes curdas e compartilharam essas imagens nas mídias sociais. Outro vídeo brutal mostrou que o exército turco disparava contra mulheres guerrilheiras na cabeça e as atiravam dos penhascos da montanha. Os rifles GermanG3 usados no vídeo ilustram a cumplicidade ocidental nestes crimes de guerra.

Embora essas atrocidades fossem frequentemente cometidas secretamente nos anos 90, compartilhar imagens nas mídias sociais é umha nova tentativa de desmoralizar a resistência das mulheres e demonstrar o poder do Estado. Estes métodos som semelhantes aos que comete o ISIS ao outro lado da fronteira e violam todas as convençons de guerra. Abusar sexualmente de umha mulher ativista, que ousa desafiar a hegemonia masculina, tem como objetivo quebrar a sua força de vontade e impedir o ativismo. Os ataques a mulheres políticas devem ser lidos neste contexto.

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Umha mulher curda que protestava contra o exército turco em Kerboran no ano passado. Imagem: Zehra Dogan / JinHa.

Muito antes dos principais meios de comunicaçom estarem sob fogo na Turquia, as repórteiras de Jinna, a primeira agência de noticias de mulheres do Oriente Médio, foram atacadas. Comprometidas com um objetivo explicitamente feminista no seu trabalho, as trabalhadoras de Jinha expuseram os crimes do Estado sob umha perspectiva de gênero. Agora Jinha está proibida e várias dos seus membros na cadeia.

O HDP é o único partido de oposiçom progressista de esquerda na Turquia com umha agenda baseada na protecçom dos direitos seculares, da diversidade, pró-minorias, pró-dereitos das mulheres e LGBT e ecológicos. Tem, de longe, o maior percentual de mulheres nas suas fileiras. Mesmo sem o sistema de co-presidência, umha política do movimento de liberdade curdo que garante a liderança compartilhada entre umha mulher e um home, a grande maioria das alcaldes estam nas regions curdas. Através de umha luita de décadas, especialmente encorajada polo líder curdo preso Abdullah Öcalan, o papel ativo das mulheres na política é umha parte normal da vida no Curdistam de hoje.

As mulheres do HDP e do DBP nom encarnam idéias burguesas da política representativa e do feminismo corporativo. Quase todas as políticas atualmente sob ataque passaram algum tempo na prisom, foram sujeitas a brutalidade policial, tortura sexualizada, tentativas de assassinato ou algum tipo de tratamento violento por parte do Estado. Elas estam sempre na vanguarda dos protestos contra o Estado e o exército.

As mulheres também forom actores significativos no processo de paz iniciado por Abdullah Öcalan com o Estado turco em Março de 2013. Todas as reunions na Ilha Prisiom de Imrali incluíam mulheres. Em 2014, Öcalan recomendou que as mulheres fossem representadas nas reunions como umha força organizada, e nom apenas como indivíduos. Assim, Ceylan Bagriyanik se juntou às reunions como representante do movimento de mulheres. A Declaraçom de Dolmabahce, a primeira declaraçom conjunta entre as partes em conflito, incluiu a libertaçom das mulheres como um dos dez pontos para a justiça e a paz duradoura. O Estado e os meios de comunicaçom forom incapazes de dar sentido à insistência do movimento curdo sobre a centralidade da libertaçom das mulheres no processo de paz.

Nós enfrentamos a puniçom coletiva para passar o limite eleitoral o mais elevado no mundo que exige que um partido político ganhe polo menos o 10 por cento do voto nacional para entrar no parlamento. As nossas cidades forom arrasadas, nossos seres queridos assassinados, queimados vivos, bombardeados, atirados ou espancados até a morte. O nosso património cultural e meio ambiente forom eliminados para sempre, nossos deputados arrastados nas ruas, nossos prefeitos substituídos por administradores governamentais contra a nossa vontade, nossos meios de comunicaçom censurados, as nossas mídias sociais bloqueadas. Ao destruir a possibilidade de políticas pacíficas e legais dentro dos marcos democráticos, a Turquia deixou os curdos sem outra opçom senom a da autodefesa. As instituiçons internacionais, sobretudo a Uniom Européia, falharom ao povo curdo em apaziguar a Erdogan. Em outras palavras, os governos ocidentais apoiam a eliminaçom sistemática de um dos mais fortes e radicais movimentos de mulheres no mundo.

A filosofia do movimento das mulheres curdas propom que todo organismo vivo tem os seus mecanismos de autodefesa, como a rosa com as suas espinhas. Este conceito nom é definido em um sentido físico rigoroso, mas inclui a criaçom de estruturas autônomas de autogoverno para organizar a vida social e política. A protecçom da própria identidade contra o Estado através da autodefesa é parcialmente possibilitado pola construçom de instituiçons políticas auto-suficientes.

Em umha época em que os corpos nus das mulheres som expostos nas mídias sociais polo exército e as candidatas eleitas estam sujeitas à tortura polo Estado capitalista-patriarcal, as mulheres estam luitando para demostrar que a sua honra nom está para ser definida polos homes porque a honra nom fica entre as pernas das mulheres; reside na nossa resistência, na cultura de resistência estabelecida polas pioneiras do nosso movimento. As nossas políticas encarceradas som as que defendem essa honra.

Desde a prisom, a co-presidente do HDP Figen Yüksekdag enviou esta mensagem: “Apesar de todo, eles nom podem erradicar a nossa esperança ou quebrar a nossa resistência. Seja na prisom ou nom, o HDP e nós, ainda somos a única opçom da Turquia para a liberdade e a democracia. E é por isso que eles tenhem tanto medo de nós. Nom, nem um só de vos, deixede-vos desmoralizar; Nom deixar cair a sua guarda, nem enfraquecer a resistência. Nom esqueçades que este ódio e agressom está enraizada no medo. O amor e a coragem ao final vam ganhar. “.

Dilar Dirik 34Dilar Dirik, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. O seu trabalho analisa o papel da luita das mulheres na articulaçom e construçom da liberdade no Curdistam. Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

Publicado em Opendemocracy.

 

 

Construindo a Democracia sem Estado

Building Democracy without the Statepor *Dilar Dirik

Quando as primeiras pessoas chegarom a nossa casa há alguns anos atrás para perguntar se a nossa família gostaria de participar nas comunas, eu atirava pedras contra eles para mantê-los longe, ri Bushra, umha jovem de Tirbespiye, Rojava. A mae pertence a umha seita religiosa ultra-conservadora. Antes, ela nunca tinha sido autorizada a sair da sua casa e cobria todo o corpo, exceto os olhos.

“Agora eu formo ativamente parte da minha própria comunidade “, di ela com um sorriso orgulhoso e radiante. “A gente procura-me em busca de ajuda para resolver problemas sociais. Mas, no momento, se tivesses me perguntado, eu nom teria sequer conhecido o que significava “conselho”  ou que fai a gente nas assembléias.”

Hoje, em todo o mundo, as pessoas recorrem a formas alternativas de organizaçom autónoma para dar significado a sua existência mais umha vez, de modo a reflectir a criatividade do desejo humano de expressar-se com liberdade. Estas coletividades, comunas, cooperativas e movimentos de base podem ser qualificadas como mecanismos de auto-defesa do povo contra a invasom do capitalismo, o patriarcado e o estado.

Ao mesmo tempo, muitos povos indígenas, culturas e comunidades que enfrentam a exclusom e a marginalizaçom tenhem protegido os seus caminhos comunalistas de vida até este dia. É surpreendente que as comunidades que protegiam a sua existência contra a ordem mundial evoluindo em torno deles som freqüentemente descritos em termos negativos, como “falta” algo -notavelmente, um estado. As tendências positivistas e deterministas que dominam a historiografia de hoje tornam tais comunidades incomuns, incivilizadas, para trás. A Condiçom de Estado é assumida ser umha consequência inevitável da civilizaçom e a modernidade; um passo natural na evoluçom linear da história.

Há, sem dúvida, algumhas diferenças genealógica e ontológicas entre, por falta de umha palavra melhor, as “modernas” comunas revolucionárias, e as comunidades naturais, orgânicas. As “modernas” estam desenvolvendo-se principalmente entre os círculos radicais nas sociedades capitalistas como revoltas contra o sistema dominante, enquanto as naturais constituem umha ameaça para as potências hegemônicas pola natureza da sua própria sobrevivência. Mas ainda assim, nom podemos dizer que estas comunas orgânicas sejam nom-política, em oposiçom às comunas metropolitanas com a sua intençom política, orientadas a objectivos.

Séculos, talvez milênios de resistência contra a ordem capitalista mundial som, na verdade atos muito radicais de desafio. Para essas comunidades, relativamente neutras para as correntes globais, devido às suas características, geografia singular ou resistência ativa, a política comunal é simplesmente umha parte natural do mundo. É por isso que muitas pessoas em Rojava, por exemplo, onde umha transformaçom social radical está actualmente em curso, referem-se à sua revoluçom como “um retorno à nossa natureza” ou “a conquista da nossa ética social.”

Ao longo da história, os curdos sofrerom todos os tipos de negaçom, opressom, destruiçom, genocídio e assimilaçom. Forom excluídos da ordem estatista em duas frentes: eles nom so lhes foi negado o seu próprio estado, mas forom simultaneamente excluídos dos mecanismos das estruturas dos Estados ao seu redor. No entanto, a experiência de apatridia também ajudou a proteger muita ética e valores sociais, bem como um senso de comunidade, especialmente nas aldeias rurais e montanhosas muito longe das cidades.

Hoje em dia, aldeias curdo-alevi em particular, som caracterizadas por processos de terra comum e constataçom de ritos de conciliaçom para conflitos sociais baseados na ética e o perdom para o benefício da comunidade. Mas enquanto esta forma de vida é bastante prevalente no Curdistam, há também um novo esforço consciente para estabelecer um sistema político centrado em torno de valores comunais do Confederalismo Democrático, construído através da autonomia democrática com a comuna em seu coraçom.

O Confederalismo democrático na Rojava

O Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), como muitos movimentos de libertaçom nacional, inicialmente pensou que a criaçom de um estado independente seria a soluçom para a violência e a opressom. No entanto, com as mudanças no mundo após o colapso da Uniom Soviética, o movimento começou a desenvolver umha auto-crítica fundamental, bem como umha crítica às políticas socialistas dominantes da época, que ainda estava muito focada em tomar o poder estatal. Perto do final da década de 1990. O PKK, sob a liderança de Abdullah Öcalan, começou a articular umha alternativa para o Estado-naçom e o socialismo de estado.

Ao estudar a história do Curdistam e o Médio Oriente, bem como a natureza do poder, o actual sistema económico e as questons ecológicas, Öcalan chegou à conclusom de que a razom para “problema de liberdade” da humanidade nom era a apatridia mas o surgimento do Estado . Em umha tentativa de subverter o domínio do sistema que se institucionalizou em todo o mundo ao longo de 5.000 anos como umha síntese do patriarcado, o capitalismo e o Estado-naçom, este paradigma alternativo baseia-se no opostos – a libertaçom das mulheres, ecologia e democracia de base.

O Confederalismo democrático é um modelo social, político e económico da auto-governo de diferentes povos, desenvolvidos por mulheres e jovens. El tenta na prática expressar a vontade do povo, visualizando a democracia como um método em vez de um objectivo por si só. É democracia sem Estado.

Embora propon novas estruturas normativas para estabelecer um sistema político consciente, o Confederalismo Democrático inspira-se também em formas milenarias de organizaçom social que ainda existem entre as comunidades no Curdistam e além. Este modelo pode parecer muito forçado à nossa imaginaçom contemporânea, mas el realmente ressoa bem com um forte desejo de emancipaçom entre os diferentes povos da regiom. Embora o sistema foi implementado em Bakur (Curdistam do Norte) durante anos, dentro dos limites da repressom estatal turca, foi na Rojava (Curdistam do Oeste) que umha oportunidade histórica surgiu para por o Confederalismo Democrático em prática.

O sistema coloca a “autonomia democrática” no seu cerne: as pessoas organizam-se diretamente na forma de comunas e criam conselhos. Em Rojava, este processo é facilitado polo Tev-Dem, o Movimento para umha Sociedade Democrática. A comuna está composta de umha vizinhança consciente auto-organizada e constitui o aspecto mais essencial e radical da prática democrática. Ela tem comissons de trabalho sobre diferentes temas como a paz e a justiça, a economia, segurança, educaçom, mulheres, jovens e serviços sociais.

As comunas enviam delegados eleitos para os conselhos. Os conselhos de aldeia enviam delegados aos municipios, os municípios enviam delegados às cidades, e assim por diante. Cada umha das comunas é autônoma, mas elas estam ligadas umha a outra através de umha estrutura confederal com o fim de coordenaçom e salvaguarda dos princípios comuns. Só quando os problemas nom podem ser resolvidos na base, ou quando as questons transcendem as preocupaçons dos conselhos de nível mais baixo, elas som delegadas para o próximo nível. As instâncias “superiores” som responsáveis perante os níveis “inferiores” e informam sobre suas açons e decisons.

Enquanto as comunas som as áreas para a resoluçom de problemas e organizar a vida cotidiana, os conselhos criam planos e políticas para a coesom e a coordenaçom da açom. No início da revoluçom e nas áreas recém-libertadas, as assembleias tiveram que erguer os conselhos do povo em primeiro lugar e só mais tarde começou a desenvolver as estruturas organizacionais de base mais descentralizadas na forma de comunas.

As comunas trabalham no sentido de umha sociedade “político-moral”, composta por indivíduos conscientes que entendem como resolver problemas sociais e que cuidam do auto-governo diário, como umha responsabilidade comum, em vez de submeter-se a elites burocráticas. Tudo isso conta com a participaçom voluntária e livre das pessoas, ao invés da coerçom do Estado de Direito.

Claro que é difícil aumentar a consciência da sociedade em um curto espaço de tempo, especialmente quando as condiçons de guerra, embargos, mentalidades internalizadas e antigas estruturas despóticas tenhem sido profundamente institucionalizadas e pode levar a abusos de poder e mentalidades apolíticas. Um sistema de educaçom alternativa, organizada através de academias, busca promover umha mentalidade social saudável, embora a auto-organizaçom na prática reproduz umha sociedade consciente, mobilizando-a em todas as esferas da vida.

As mulheres e os jovens organizam-se autonomamente e incorporam as dinâmicas sociais às que estam naturalmente inclinados para mais democracia e menos hierarquia. Eles posicionam-se “à esquerda” do modelo de autonomia democrática e formulam novas formas de produçom e reproduçom do conhecimento.

Hoje, o movimento de libertaçom curdo reparte o poder igualitariamente entre umha mulher e um homem, desde Qandil a Qamishli e Paris. A idéia por trás do princípio da co-presidencia é tanto simbólico como prático descentralizador do poder e promove a descoberta do consenso, enquanto simboliza a harmonia entre mulheres e homens. Só as mulheres tenhem o direito de eleger a co-presidenta, enquanto o co-presidente é eleito por todos. As mulheres organizam as suas próprias estruturas, mais fortes, mais ideologicamente conscientes em direçom à confederaçom de mulheres, começando com as comunas autônomas de mulheres.

O Princípio da Naçom Democrática

Outro princípio importante articulado por Öcalan é a “naçom democrática”. Ao contrário da doutrina monista do Estado-naçom, que se justifica por meio de um mito machista, este conceito prevê umha sociedade baseada em um contrato social comum e os princípios éticos fundamentais, tais como a igualdade de género. Assim, todos os indivíduos e grupos, étnias, linguas, sexos, identidades e tendências intelectuais e religiosas podem expressar-se livremente e adicionam a diversidade para esta naçom expansiva, a ética baseada, a fim de garantir a sua democratizaçom. Quanto mais diversificada for a naçom, quanto mais forte a sua democracia. Os diferentes grupos e seçons também som responsáveis por si mesmos de democratizar desde dentro.

Em Rojava, curdos, árabes, cristians siríacos, armênios, turcomanos e chechenos tentam criar juntos umha nova vida. A mesma lógica subjacente ao projecto do Partido Democrático do Povo, ou HDP, através da fronteira com Turquia. O HDP uniu todas as comunidades da Mesopotâmia e Anatólia sob a égide da “uniom livre” na naçom democrática.

Entre as suas deputadas conta curdos, turcos, armênios, árabes, assírios, muçulmanos, alevitas, cristians e jazidis -umha maior diversidade do que em qualquer outro partido no Parlamento turco. Contrastando com a monopolismo da ideologia do Estado-naçom, o conceito de naçom democrática serve como um mecanismo de auto-defesa ideológica dos diversos povos.

Apesar de muitas comunidades diferentes participam activamente na revoluçom de Rojava, ressentimentos há muitos pendentes de prevalecer. Confederaçons tribais inteiras de árabes unilateralmente expressarom o seu apoio para a administraçom, mas em algumhas partes, os árabes permanecem desconfiados. Documentaçom dos serviços secretos revelam que já no início de 1960, o partido Baath da Síria fixo planos altamente sofisticados para lançar comunidades diferentes umhas contra as outras, especialmente em Cizire. Em cima das tensons pré-existentes, forças externas, adicionarom combustivel e instrumentalizam o conflito entre diferentes comunidades para promover as suas próprias agendas. A criaçom da unidade entre os diferentes grupos étnicos e religiosos da Síria, e no Médio Oriente em termos mais gerais, seria tornar mais difícil de dividir e governar a regiom.

Um membro árabe da administraçom de Rojava explicou porque este modelo democrático conta com tam pouco apoio por parte dos estabelecidos, bem como grupos políticos recém-formados na regiom e além:

“O sistema de autonomia democrática nos nossos três cantons treme e perturba o mundo inteiro porque o sistema capitalista nom quer liberdade e democracia para o Oriente Médio, apesar de todas as suas pretensons. É por isso que toda a gente ataca Rojava. As diferentes formas de Estado exemplificadas pola República Árabe Síria sob Assad e o Estado islâmico som dous lados da mesma moeda ja que negam e destruem o mosaico da diversidade da nossa regiom. Mas cada vez mais árabes do resto da Síria venhem para Rojava a aprender sobre a autonomia democrática, porque vêem umha perspectiva para a liberdade aqui.”

Um Modelo econômico e Político alternativo

O efetivo sistema de auto-organizaçom, combinado em certa medida com o embargo, que exigiu a autoconfiança e criatividade, assim, alimentou, poupado Rojava da corrupçom económica através de mentalidades capitalistas internas ou exploraçom externa. No entanto, a fim de defender os valores revolucionários além da guerra, umha visom econômica calibrada é necessária para umha sociedade mais justa, economica, ecológica, feminista que pode sustentar umha populaçom empobrecida, traumatizada e brutalizada.

Como envolvem as pessoas ricas, que nom se preocupam polas cooperativas, e evitar ser acusados de autoritarismo? Como organizar os princípios de emancipaçom e de libertaçom na urgência da guerra e umha economia de sobrevivência? Como descentralizar a economia ao mesmo tempo garantir a justiça e a coesom revolucionária? Para as pessoas em Rojava, a resposta está na educaçom.

“Que significa a ecologia para ti? “, Umha mulher na academia das mulheres Ishtar em Rimelan pede as suas companheiras em umha sala decorada com fotos de mulheres como Sakine Cansiz e Rosa Luxemburgo. Umha mulher velha com tatuagens tradicionais nas suas maos e rosto responde: “Para mim, ser mae significa ser ecológica. Viver em harmonia com a comunidade e natureza. As maes sabem melhor como manter e organizar esta harmonia. “Talvez seja a questom ecológica, que ilustra mais claramente em Rojava o dilema de ter grandes princípios e intençons e a vontade de sacrificio, embora muitas vezes sem as condiçons para implementar esses ideais. Por razons óbvias, a sobrevivência, muitas vezes tem prioridade sobre o ambientalismo.

Polo momento, polo menos, é possível falar de um sistema dual de transiçom em que a auto-gestom democrática de Rojava estabelece princípios revolucionários e ecológicos, com cuidado manobrando na guerra e na política real, enquanto o movimento popular organiza a povoaçom desde abaixo. No nível cantonal, especialmente no que di respeito a questons relacionadas com a política externa, práticas centralistas ou polo menos nom revolucionárias som, até certo ponto inevitáveis, especialmente porque Rojava está política e economicamente entre umha rocha e umha espada. É o sistema de autonomia democrática resultante da base ao que as pessoas geralmente se referem quando falam da “revoluçom de Rojava”.

A dinâmica descentralizadora da organizaçom desde a base, principalmente nas comunas, até mesmo servir como umha oposiçom interna aos cantons e facilitar a democratizaçom, que, devido à sua complicada geografia- ainda mais limitada por partidos políticos e grupos nom-revolucionárias – pode tender a umha concentraçom de poder (embora os cantons, como som atualmente, ainda som muito mais descentralizados e democráticos do que estados comuns).

Muito mais importante do que o mecanismo exato por meio do qual a vontade popular se expressa, é o significado e o impacto da autonomia democrática nas próprias pessoas. Se eu tivesse de descrever a “democracia radical”, eu acho nomeadamente as pessoas da classe trabalhadora, as mulheres às vezes analfabetas em bairros que decidiram organizar-se em comunas e que agora fazem política. Risos e jogos de crianças, cacarejar da galinha, sentados em cadeiras de plástico componhem a melodia para a etapa em que as decisons relativas às horas de eletricidade e disputas de bairro som feitas. Deve-se também notar que as estruturas funcionam melhor em áreas rurais e pequenos bairros que nas cidades grandes e complexas, onde som necessários maiores esforços para envolver as pessoas. Aqui, o poder pertence a pessoas que nunca tiveram nada e que agora escrevem sua própria história.

“Queres ver os nossos legumes? “Qadifa, umha mulher velha Jazidi pergunta-me em um centro de Yekîtiya Star, o movimento das mulheres. Ela parece ter pouco interesse em explicar o novo sistema, mas ela está disposta a mostrar os seus frutos no seu lugar. Nós continuamos a nossa conversa sobre as transformaçons da vida cotidiana na Rojava ao comer os deliciosos tomates de umha cooperativa de mulheres no quintal.

A Autodeterminaçom de Rojava está a ser vivida no aqui e agora, na prática quotidiana. Milheiros de mulheres como Qadifa, mulheres previamente completamente marginalizadas, invisíveis e sem voz, agora assumem posiçons de liderança e moldeam a sociedade. Hoje, pola manhá, elas podem, por primeira vez colher os seus próprios tomates da terra que foi colonizada polo Estado durante décadas, enquanto agem como juízes em tribunais populares à tarde.

Muitas famílias dedicam-se totalmente à revoluçom agora; especialmente aquelas que perderom seres queridos. Muitos domicílios familiares começam lentamente a funcionar como casas do povo (“gel mala”) que coordenam as necessidades da povoaçom: as pessoas entram na casa um do outro com os seus filhos para criticar ou discutir ou sugerir idéias sobre como melhorar as suas novas vidas. Os tópicos da mesa do jantar mudarom. As questons sociais tornam-se literalmente sociais, tornando-se responsabilidade de todos. Todos os membros da comunidade tornam-se em líder.

A lenta transiçom da tomada de decisom social a partir de construçons atribuídas às áreas da vida cotidiana é um fruto dos esforços por construir umha nova sociedade moral e política. Para as pessoas de países capitalistas avançados esta maneira direta de comandar a própria vida pode parecer assustador às vezes, especialmente quando as cousas importantes, como a justiça, educaçom e segurança estam agora nas maos de pessoas como si mesmos, em vez de ser entregues aos aparatos estatais anónimos.

Legado da Resistência do Comuna

Umha noite que eu estou sentada perto de Tell Mozan, umha vez o lar de Urkesh, de 6.000 anos, antiga capital dos Hurrians. Nas proximidades está a fronteira entre a Síria e a Turquia, desde há menos de um século. Enquanto bebia chá com Meryem, umha comandante de Kobane, vemos as luzes da cidade de Mardin no Curdistam do Norte, do outro lado da fronteira.

“Nós luitamos em nome da comunidade, dos oprimidos, de todas as mulheres, polas páginas nom escritas da história”, di ela. Meryem é umha das muitas mulheres que se encontrarom com Abdullah Öcalan na sua juventude, quando el chegou a Rojava na década de 1980. Como milheiros de mulheres, em busca de justiça além da sua própria vida, um dia ela decidiu tornar-se umha combatente da liberdade nesta regiom que é ao mesmo tempo o lar de milheiros de crimes de honra e milheiros de deusas, adoradas em todas as formas e tamanhos.

O que atraiu aos movimentos anti-sistêmicos em todo o mundo da histórica resistência em Kobane forom talvez as muitas formas polas quais a defesa da cidade espelhavam umha corrente milenaria da luita humana; as formas em que ela carregava traços universais que ressoam com imaginários coletivos de um mundo diferente. Muitas comparaçons forom feitas com a Comuna de Paris, a Batalha de Stalingrado, a Guerra Civil Espanhola, e outros casos míticos de resistência popular.

Nos zigurates de Sumer, complexos de templos maciços da antiga Mesopotâmia, múltiplos mecanismos hierárquicos começarom a ser institucionalizados por primeira vez: o patriarcado, o estado, a escravitude, o exército permanente e a propriedade privada – o início da formalizaçom da sociedade de classes. Este era propôs umha ruptura social profunda caracterizada pola perda de status social das mulheres e o aumento do homem dominante, especialmente o sacerdote, que tomou o monopólio do conhecimento. Mas também é onde amargi, a primeira palavra para o conceito de liberdade, literalmente “o retorno à mae”, surgiu por volta do 2300 aC

Öcalan propon a ideia de duas civilizaçons: el afirma que, no final do período Neolítico, com o surgimento de estruturas hierárquicas na antiga Sumer desenvolveu-se umha civilizaçom baseada na hierarquia, violência, submissom e monopolismo -o “mainstream” ou “civilizaçom dominante”. Por outro lado, o que el chama de “civilizaçom democrática” representa as luitas históricas dos marginalizados, dos oprimidos, dos pobres e dos excluídos, especialmente as mulheres. O Confederalismo democrático é, portanto, um produto político e manifestaçom desta civilizaçom democrática milenar.

O modelo de autonomia democrática, por sua vez, nom é so umha perspectiva prometedora para umha soluçom justa e pacífica para os conflitos traumáticos da regiom; em muitos aspectos, o surgimento da revoluçom Rojava ilustra como a autonomia democrática pode realmente ser a única maneira de sobreviver. Neste sentido, a comuna revolucionária é um património histórico, umha fonte de memória colectiva para as forças da democracia em todo o mundo, e um mecanismo consciente de auto-defesa contra o sistema estatal. El carrega um legado milenar e manifesta-se em novas formas hoje.

O que une momentos históricos de resistência humana e o desejo de um outro mundo, desde os primeiros combatentes da liberdade da história até a comuna de Paris e a sublevaçom dos Zapatistas às praças da liberdade em Rojava, é o poder inquebrável a ousar imaginar. É a coragem de acreditar que a opressom nom é o destino. É a expressom do desejo antigo da humanidade de se libertar.

Bijî komunên me! Vive la commune!

 Este artigo foi originalmente publicado em Roar Mag e depois em Kurdishquestion.
Dilar-Dirik-140x140*Dilar Dirik, 23 anos, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

 

 

Por que Kobanî nom caiu?

Por Dilar Dirik

KObane e bandeira no outeiro de Kaniya KurdanUm ano atrás, hoje, Kobanî declarou-se como um cantom autônomo.

Hoje, depois de 135 dias de resistência sem medo, o povo de Kobanî libertarom a cidade do chamado Estado Islâmico. Desde setembro do 2014, a YPG e YPJ tem levado umha -nom há outra palavra para descreve-lo que épica – resistência inacreditável contra a mais recente onda de ataques do ISIS. As mulheres e os homens, que lideram a resistência mais gloriosa do nosso tempo, içou a sua bandeira sobre os últimos montes que forom ocupadas polo ISIS e começarom imediatamente as suas danças em linha, acompanhados por velhas cançons e slogans revolucionárioas curdos. Desde entom, pessoas ao redor do mundo correrom às ruas para comemora-lo. Após as inúmeras tragédias, massacres e traumas que esta regiom tivo de sofrer recentemente, os dores que precederom este momento fam a vitória ainda mais doce. Um olho derrama lágrimas polos mortos, enquanto o outro grita de muita merecida alegria.

Mas vamos voltar um ano. Foi por volta desta época, em janeiro do 2014, quando os principais atores internacionais se reunirom na chamada conferência de Genebra-II para discutir umha resoluçom sobre a guerra na Síria. Os curdos, que tinham luitado tanto, o regime, assim como os extremistas, o Frente al-Nusra ou o ISIS, desde que assumiu o control sobre Rojava no 2012, nom forom convidados. Além disso, a fim de pacificar ao Estado turco, a comunidade internacional adoptou uma atitude explicitamente hostil com a Rojava, porque os principais atores da regiom estam ideologicamente filiados ao Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), arquiinimigo do Estado turco, que é declarado ‘terrorista ” polos EUA, a UE e Turquia. Na verdade, a comunidade internacional marginalizava a Rojava muito antes de eles marginalizar aos jihadistas na Síria. Membros do Estado turco enfatizam repetidamente que eles “nom toleraram terroristas na fronteira sírio-turca”, referindo-se aos curdos em Rojava, nom aos radicais islâmicos.

No entanto, sem depender da aprovaçom de ninguém, e apesar de toda essa hostilidade, o povo da Rojava declarou três cantons autónomos, ao mesmo tempo que a conferência de Genebra-II: Kobanî, Afrin, e Cizîre. A mensagem era: “Vamos construir a nossa autonomia e nom precisamos da aprovaçom de ninguém”.

Durante os últimos três anos, os curdos, que tomarom umha “terceira via” e recusaram a estar tanto com a oposiçom ou Assad, tentou advertir ao mundo sobre o ISIS, mas forom completamente ignorados. O co-presidente do PYD em Rojava, Salih Muslim, negou-se-lhe a visa quatro vezes para os EUA. No 2013, quase um ano antes de que o mundo sequer soubese sobre o grupo jihadista, o seu filho morreu luitando contra ISIS.

A mais recente onda de ataques a Kobanî é apenas um dos muitos que o precederom. Todas as advertências dos curdos forom descartados como as teorias da conspiraçom, simplesmente porque ouvi-los significaria reconhecer que o bloco anti-Assad tem assassinos jihadistas direta ou indiretamente, apoiados e patrocinados na Síria.

Hoje, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden e outros afirmam exatamente o que os curdos venhem dizendo há anos: Estados como a Arábia Saudita, Qatar e Turquia apoiam aos jihadistas. Literalmente durante a noite, depois de milhares de pessoas já foram assassinadas, oISIS tornou-se num “problema”, em torno do mesmo tempo em que o ISIS atravessou para o Iraque – o Estado falhido no qual os EUA investirom bilhons de dólares depois de invadi-lo e onde muitas forças mantenhem estratégias econômicas e interesses políticos. E, em seguida, os mesmos estados que antigamente apoiavam aos jihadistas de repente tornarom-se parte da coalizom contra deles, incluindo a Qatar e Arábia Saudita. Depois de que o povo em Kobanî já resistia por mais dum mês por si mesmos, a coalizom viu umha oportunidade para mostrar que a sua estratégia contra o ISIS funcionava. De repente eles apoiavam às mesmas pessoas que anteriormente tinham marginadas. Mas ainda hoje, apesar de toda a gente que se apropria da resistência de Kobanî para as suas próprias agendas, as mesmas forças que levarom essa resistência som considerados como “terroristas”, enquanto nom há consequências para os estados que explicitamente contribuírom à ascensom do ISIS.

Kobane queimaSe vivêssemos em um mundo no qual as forças dominantes que se apresentam como os defensores dos direitos humanos, da liberdade e da democracia, em verdade, e realmente estivessem interessados nos princípios que eles defendem, todo esse inferno na terra teria sido evitado. Mas deixando de lado o fato de que o comércio de armas e à desestabilizaçom da regiom som rentáveis para muitos atores globais, outra feia verdade é que aqueles, que queriam derrubar a Assad beneficiarom a presença jihadista na Síria por um longo tempo. Este foi muito benefícioso para o regime de Assad-, que poido afirmar que nom existia nenhuma verdadeira oposiçom na Síria. E hoje, a horrível realidade é que Assad parece o mal menor, de modo que até mesmo a coalizom parece suave sobre el. Que tragédia kafkiana para o povo da Síria!

Considerando tudo isso, estamos realmente esperado para felicitar aos principais instigadores da guerra e do conflito no Oriente Médio por libertar Kobanî?

Aqueles que financiarom ou, polo menos, figerom a vista grossa com os jihadistas assassinos?
Aqueles que começarom a guerras injusta e destruirom a regiom com as suas políticas? Aqueles que apaziguarom ao Estado turco, que tem apoiado a extremistas estupradores e assassinos?
Que está realmente por trás da capacidade de resistência da Kobanî? Que simboliza Kobanî numha era de revoluçons fracassadas e guerras intermináveis?

Kobane velhas armadasAs pessoas, que estam luitando em Kobanî tenhem umha ideologia, umha visom do mundo, uma visom que os mantem na loita. Podemos dizer que os ataques aéreos da coalizom nom ajudarom em todo? É claro que nom se pode. Mas vamos nos perguntar por que a coalizom passou de “Kobanî até estar prestes a cair e dizer que nom é a nossa prioridade salvá-la” para colocar todos os esforços em protegê-la. Se nom fosse pola resiliência das pessoas no terreno, que se mobilizarom em conjunto com Kalashnikovs apenas para defender a sua cidade, a oportunidade para a coalizom para “resgatar” Kobanî polos seus próprios interesses nom teria surgido. Afinal, meio ano antes de que os ataques aéreos liderados polos EUA bombardearam posiçons do ISIS ao redor de Kobanî, as mulheres de 60 anos tinham estabelecido os seus batalhons autônoma de autodefesa de “maes “” no terreo. Sem a determinaçom dessas pessoas e a disposição para o sacrificio, os ataques aéreos teriam salvado a cidade.

É importante compreender que a revoluçom da Rojava tem sido a luita dum povo, desde o início até hoje. Ao contrário de outras rebelions nos últimos tempos, por sorte nom foi cooptado por umha pessoa, devido às condiçons geopolíticas e sobreviveu por confiar na sua própria força, contra todas as probabilidades. A postura corajosa de Kobanî contra os homens, que querem tirar a cor preta do Oriente Médio, ressoou luitando em pessoas em todo o mundo. Muitos estam elogiando e alguns estam instrumentalizando Kobanî agora, mesmo os direitistas e Islamofóbicos, porque todo mundo quer um pedaço da bola da vitória. Mas os mesmos poderes que agora se apropriaam de Kobanî para os seus próprios interesses, etiquetam a política desses luitadores corajosos como terroristas. A resistência de Kobanî está baseada numha tradiçom enraizada e nom aparece do nada. Os luitadores enfatizam que é a filosofia do PKK a que motiva a sua luita. Quando libertarom Kobanî, os luitadores gritavam “biji Serok Apo” – Viva Apo (Abdullah Öcalan, representante ideológico do PKK preso).
Em outras palavras, os inimigos mais fortes d ISIS som internacionalmente designados como terroristas, assim como os estupradores, assassinos fascistas jihadistas. Da mesma forma, todo o mundo está tentando instrumentalizar o sofrimento do povo Jazidi no Monte Sinjar (Shengal) para os seus próprios interesses, mas os milhares de refugiados Jezidi que estam na Rojava e que a comunidade internacional nom está fazendo nada por eles, enquanto que foi as YPG / YPJ e o PKK que os resgatou em agosto e cuida deles desde entom, apesar do embargo sobre Rojava e a guerra em Kobanî.

Fatos desconfortável para aqueles que se apresentam como os salvadores!
Rojava é umha alternativa para a regiom, rasgada polo ódio étnico e religioso, as guerras injustas, e a exploraçom econômica. Eles nom tenhem como objectivo construir um novo Estado, mas criar um sistema alternativo ao capitalista global, paradigma do Estado-naçom dominado por homens, ao defender a autonomia regional através de libertaçom das mulheres e em cooperaçom com todos os povos da regiom, denominado ” Confederalismo Democratico” por Öcalan.

A recusa em aceitar os parâmetros do sistema global é o que tem mobilizado à povoaçom nessa regiom devastada, entre a guerra e o embargo, e esta é precisamente a razom pola qual Kobanî nunca vai caer. No meio da guerra, os cantons da Rojava incrivelmente conseguirom estabelecer um movimento de capacitaçom das mulheres, um sistema de auto-governo que funciona por meio de conselhos locais na base, de baixo para cima, e uma sociedade em que todos os componentes étnicos e religiosos da regiom trabalham mao com mao para criar um futuro mais brilhante. Isso está em contraste radical com o monopolista “umha religiom, umha língua, uma naçom, um Estado, umha bandeira” – das politicas, ditaduras, monarquias, tiranias sectárias e violências patriarcais na regiom. E a expectativa de uma vida tam livre é o motor principal da resistência de Kobanî. O sistema dominante nos fai acreditar que os princípios e ideais estam mortos, é por isso que a mobilizaçom coletiva e o sacrificio da resistência como em Kobanî parece tam inacreditável para a maioria das pessoas. Mas o feito de que a segunda maior cidade do Iraque, Mossul, caiura nas maos do ISIS em poucos dias, mesmo que os EUA tinham invertido bilhons de dólares para treinar ao exército iraquiano, enquanto a pequena cidade de Kobanî, onde as mulheres maiores criaram os seus batalhons autónomos, tornou-se numha fortaleza de resistência para as pessoas em todo o mundo, mostra-nos que a possibilidade dum futuro diferente está bem viva!

Nom se pode separar a mobilizaçom política das pessoas em Rojava das suas vitórias contra o ISIS. É por isso que o mínimo que podemos fazer para honrar aos lutadores de Kobanî é respeitar e apoiar os seus objetivos políticos! O reconhecimento dos cantons da Rojava está muito atrasada. Mas mesmo que o mundo nom reconheça a Rojava, ainda vai insistir em ser, porque eles provarom que nom precisam da aprovaçom de ninguém para existir. É exatamente essa resistência e luita auto-suficientes, estae recusa em assinar o sintoma de Estocolmo – como o que o Oriente Médio se encontra, tanto que ele é obrigado a ser umha feliz “democracia” em formas de pam relado, que nom permitiu cair a Kobanî.
A vitória e a dignidade de Kobanî deve dar esperança a todos os povos do Oriente Médio e além. Cercado pola negra bandeira do ISIS, o regime sanguinário de Assad, o cruel Estado turco, um embargo sufocante, os cálculos da política exterior de sangue frio das potências mundiais hegemônicas, as tensons étnicas, sectárias e das guerras, as pessoas sorrintes de Kobanî tenem ficado com os seus princípios revolucionários de libertaçom e ajudarom ao sol da Mesopotâmia a levantarse contra toda esso escuridade.

A vitória pertence a aqueles que dedicarom as suas vidas a ela. Vamos honrar a bravura desses seres humanos abnegados e às vítimas da guerra, expondo as políticas e os interesses dos Estados e estruturas que criarom este inferno para começar.

Que possamos olhar a frente a mais momentos revolucionários de alegria como o de hoje e nunca esquecer a aqueles que dedicarom as suas vidas a eles!

Biji Kobanî!

Mas lá do campo de batalha: A luita radical das mulheres Curdas

YPJ 25O furor dos medios ocidentais sobre as mulheres que combatem ao ISIS é sensacionalista, miope, orientalista e menosprécia umha luita importante.

Umha moça curda chamada “Rehana” tem recebido moita atençom dos médios os últimos días, logo de que jordiram informaçons dizendo que matara a mas de um cento de membros do ISIS –ela soa. Umha foto dumha beleça sorrindo, vestida com uniforme de combate e levando um rifle, ainda está a dar a volta ao mundo polas redes sociais. Todo e que as circunstácias de Rehana seguem sem confirmar-se, a sobreabundáncia de atençom recebida pranteja diversas questons importantes. Suma-se o feixe de informaçons sobre os glamurosos batalhons de mulheres que se enfrontam aos combatentes do ISIS, e com pouca atençom aos prantejamentos políticos destas mulheres valentes.

Preocupados fazendo sensacionalismo das formas nas que estas mulheres curdas combatentes coma um fenómeno novo. Menospreciando e ignorando umha luita legítima com a projeçom das suas estranas fantasias orientalistas sobre elas –e simplificam as razons que motivam às mulheres curdas a unir-se à luita. Hoje em dia, semelha ser atractivo retratar +as mulheres coma entranhaveis enimigas do ISIS, sem preguntar sobre as suas ideologias e objetivos politicos.

Ao mesmo tempo, os críticos acussam aos líderes curdos de explotar estas mulheres com finalidades propagandísticas –num intento de ganhar-se à opiniom pública ocidental. Se bem pode ter elementos de verdade nestas críticas, nalguns casos, estes mesmos críticos nom apreciam as diferentes culturas políticas que há no povo curdo no seu conjunto, disperso ao longo de Síria, Iraq, Turquia e Iram. Tambêm ignoram o feito de que as mulheres curdas tenhem participado na resistência armada ao longo de décadas sem que ninguem o explicara.

YPJ camuflando-se“Fabulosas” amazonas

Típico da miopia dos medios de comunicaçom ocidentais, em vez de considerar as implicaçons das mulheres que colherom as armas no que é esencialmente umha sociedade patriarcal –em especial contra um grupo que viola e ve às mulheres como escravas sexuais – até as revistas de moda apropriam-se da luita das mulheres curdas para os seus prórpios fins sensacionalistas. Os fotógrafos a miudo recolhem às loitadoras mas guapas para as entrevistas e converte-nas em fabulosas amazonas exóticas.

O certo é que, independentemente do fascinante que resulte –desde umha perspectiva orientalista- descobrer a revoluçom da mulher entre os curdos, a minha geraçom vai medrar no reconhecemento das mulheres combatentes como um elemento natural da nossa identidade. Ainda que fique um longo caminho por percorrer, o que alguns consideram desde a ignorancia um “tokenismo” (1), na realidade formou a consciência de milhons de curdos.

Na actualidade, ademais de ser parte na loita contra o ISIS e o régime de Al-Assad na Síria, as mulheres curdas tambêm luitam contra os régimes que consideram opressores, coma Turquia e Iram.

Há muitos exemplos de mulheres combatentes ou líderes na história curda. Por exemplo, a finais do século XIX, Kara Fatma dirigiu um batalhom duns 700 homes no Império Otomano e conseguiu que 43 mulheres estiveram nas fileiras do exército, moi infrequente na época. No 1974, Leyla Qasim, à idade de 22 anos, converteu-se na primeira mulher executada polo partido Baas iraquiano pola sua participaçom no movimento estudiantil curdo.

Mália a este legado, seria umha esageraçom considerar que a sociedade curda vive em igualdade de género, tendo em conta a prevalença do poder dominado polos homes e a violência.

As Unidades de Proteçom do Povo (YPG) e as Unidades de Defensa da Mulher (YPJ) do Curdistam sirio estiverom a combater ao ISIS ao longo de dous anos e agora estam a ter umha resistência épica na cidade de Kobanê. Estima-se que um 35% dos seus perto de 15.000 combatentes na Rojava som mulheres. Fundadas no 2013 coma um exército autônomo de mulheres, as YPJ desenrolam operaçons independentes. Há vários centenares de batalhons de mulheres em toda a Rojava. Meysa Abdo é a mulher ao comandamento da resistência em Kobanê e centos de mulheres morrerom luitando contra o ISIS.

Paralelamente à luita existencial contra o ISIS, as mulheres da Rojava, entre elas as árabes, as assírias, as turcomanas e as arménias, levam fazendo umha revoluçom social contra a orde patriarcal da sociedade ao travês do governo igualitário de género e um movimento feminista de base.

YPJ 152Luitadoras reais

Os combatentes das YPG/YPJ estam estreitamente relacionados com o Partido dos Trabalhadores do Curdistam. Esta organizaçom guerrilheira é umha das forças mas fortes contra o ISIS, mas por mor das hostilidades com Turquia, é clasificada como “organizaçom terrorista”.

É pouco conhecido o feito que quase a metade das fileiras do PKK estam integradas por mulheres. O movimento está comprometido explicitamente com a liberaçom das mulheres e fai cumprir as quotas, assim como a “co-presidência” a todos os niveis – umha mulher e um home compartem cada cárrego. Estas políticas estam aprovadas pola Administraçom da Rojava e os partidos curdos em Turquia e Iram.

Grácias à influência desta posiçom feminista do PKK, a maioria das mulheres no Parlamento turco e nas administraçons municipais som curdas. Junto com as YPG/YPJ, as unidades do PKK forom a clave para a criaçom dum corredor de seguridade para rescatar aos jezedis nas montanhas de Sinjar em Agosto. Algumhas mulheres do PKK morrerom defensando Makhmour no Curdistam iraquiano, ao carom dos combatentes peshmergas homes.

No Curdistam iraquiano, pola contra, vários centos de mulheres formarom um batalhom femenino nos peshmergass. Moitas delas queixam-se que nom as despregam na fronte. Nos anos 70-80, ao longo da resistência armada contra o régime de Saddam Hussein, as mulheres curdas erguerom em armas ao carom dos seus maridos e ate vam ter nomes de guerra.

Hoje em dia, os curdos iraquianos tenhem certo grau de autonomia e dereitos. A diferência das geraçons de mas idade, nengumha das mulheres actualmente alistadas tenhem experiência real de combate e polo normal adicam-se à logística. A cultura patriarcal-feudal dos dous partidos dominantes no norde de Iraq fai que seja menos admisible a participaçom das mulheres na guerra.

Cultura da resistência

Se há um forte movimento de mulheres entre os curdos más lá do campo de batalha de hoje tem mais a ver com a esquerda política e a cultura de resistência.

Aqueles que vêm a luita das mulheres curdas como mera propaganda ou relaçons públicas, ja seja tratando a todos os partidos curdos como um grupo homogéneo ou ignorante da revoluçom social que precedeu à loita armada, que deu às mulheres curdas umha reputaçom como actores políticos importantes e responsaveis da toma de decissons em igualdade. Depois de todo, as mulheres curdas, estiverom a luitar por esta causa desde há décadas com pouca atençom dos médios de comunicaçom.

De feito, a mobilizaçom dos médios cara as mulheres de Kobanê é o legado da resistência das mulheres curdas ao longo de décadas coma combatentes, prissioneiras, políticas, líderes dos alçamentos populares e ativistas incansáveis, que nom estam dispostas a ceder nos seus direitos.

Finalmente, nom ajuda às mulheres curdas ser glorificadas como enimigas do ISIS, se a totalidade da sua luita nom se comprende nem reconheze. A tergiversaçom da resistência das mulheres curdas nos médios de comunicaçom ocidentais higeniza umha luita radical de tal jeito que se poida adaptar às percepçons dum público ocidental. Em lugar de cuestionar o feito incómodo que o movimento ao qual pertezem a grande majoria das mulheres que combatem ao ISIS som etiquetadas como umha organizaçom terrorista -por Turquia, a UE e os EUA- cousa que convintemente silenciam.

A valoraçom destas mulheres nom só tem de louvar a sua luita contra o ISIS, mas tambêm tem de reconhezer a sua luita política. Os que queiram honrar às enimigas mas valentes contra o ISIS, podem começar por apoiar ativamente a resistência de Kobanê, sacar ao PKK da lista de organizaçons terroristas e reconhezer oficialmente à administraçom própria do Curdistam sirio.
Dilar-DirikEste artigo foi publicado por primeira vez em Al Jazeera com o tíduo “Western Fascination with ‘badass’ Kurdish Women” e a autora é Dilar Dirik.

(1) Tokenismo: é a prática de fazer só um pequeño esforço de jeito simbólico mas sem umha intençom real, por exemplo recrutando pequenos grupos de mulheres para dar umha image de igualdade.