Turquia e o caminho ao genocídio

Cizre, Curdistam sob administraçom turca em março de 2016. IPPNW Alemanha

Por Djene Bajalan

Há paralelos assustadores entre o genocídio armênio e a situaçom dos curdos na Turquia hoje.

No domingo, 24 de abril do 1915, o ministro Otomano do Interior, Talat Pasha, ordenou a prisom e detençom dos líderes da comunidade armênia que residiam dentro do império. Na primeira noite, mais de duzentas pessoas foram apanhadas polas forças governamentais; com o passar dos dias o número cresceu a mais de dois mil. O ataque de Talat Pasha contra os armênios otomanos fazia parte de umha campanha mais ampla e sistemática de genocídio dirigida à comunidade armênia do império – umha campanha que deixou entre 800.000 e 1.5 milhons de mortos.

Nom é necessário aqui re-litigar a questom de se ou nom os eventos de 1915 – descritos eufemisticamente em fontes turcas oficiais como as “deslocalizaçons (tehcir)” – constituírom genocídio. Em vez disso, ao lembrar o genocídio armênio e, mais especificamente, as detençons do “Domingo Vermelho”, torna-se possível situar as políticas dos líderes atuais da Turquia em relaçom aos representantes do movimento curdo – em particular, a detençom dos líderes de pró-curdo  Partido Democrático do  Povo (HDP), Selahattin Demirtaş e Figen Yuksekdağ, o 4 de novembro – em um contexto histórico mais amplo.

Enquanto isso seria hiperbólico afirmar que os níveis de violência actualmente a ser dirigida a povoaçom curda da Turquia hoje tenham chegado à mesma magnitude que a dirigida contra os armênios pouco mais de um século atrás, inegáveis e assustadores paralelos podem, contudo, elaborar-se.

Erdogan e os curdos

Nom foi há muito tempo que o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan foi elogiado pola sua (relativamente) posiçom progressista em relaçom aos direitos curdos na Turquia. Desde a fundaçom da República da Turquia em 1923, a “questom curda” – o conflito entre as elites nacionalistas turcas em Ancara e aqueles que alegam representar a autêntica vontade nacional dos curdos da Turquia – constituiu umha das principais fontes de instabilidade política do país.

Nas décadas de 1920 e 1930, a jovem república enfrentou umha série de rebelions curdas de inspiraçom nacionalista, principalmente a Rebeliom do Sheikh Said de 1925 e a Revolta Hoybûn de 1929-1931. A postura tomada pola administraçom do pai fundador da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, era de supressom e negaçom. O governo republicano foi enorme para esmagar a resistência curda; por exemplo, em 1925, um terço do orçamento do governo estava direcionado para a supressom militar da insurgência do xeque Said.

No entanto, apesar da intensidade da violência empregada polo Estado durante as décadas de 1920 e 1930, a questom curda nunca foi verdadeiramente resolvida. Começando nas décadas de 1940 e 1950, umha nova geraçom de intelectuais e ativistas curdos começou a mobilizar-se em um processo que culminou com a fundaçom do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (mais conhecido polo seu acrónimo curdo PKK) em 1978, umha organizaçom dedicada à libertaçom nacional nom só dos curdos da Turquia, mas dos curdos em todo o Oriente Médio.

Posteriormente, o Sudeste maioritariamente curdo da Turquia foi mergulhado num estado de guerra civil. Entre 1978 e a prisom do fundador do PKK Abdullah Öcalan em 1999, trinta mil vidas foram perdidas e cerca de quatro mil aldeias curdas destruídas. Ao longo destes anos de conflito, o governo turco sustentou que nom havia “questom curda”; ao invés funcionários do governo enquadram o conflito em termos da luita contra o terrorismo (e, se pressionado, desenvolvimento económico). Como dixo o primeiro-ministro Tansu Çiller durante uma entrevista concedida em 1995 a Daniel Pipes: “Nom há insurreiçom curda na Turquia. Os terroristas do PKK estam a atacar civis inocentes na parte sudeste do meu país sem poupar mulheres, crianças ou idosos.”

No entanto, o sucesso eleitoral do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) em 2002 e a ascensom de Erdoğan ao cargo de primeiro-ministro (umha posiçom que ocupou até a sua eleiçom como presidente em 2014) marcarom umha mudança sutil mas distinta na política oficial para os curdos. No Verao de 2005, o primeiro-ministro Erdoğan viajou para Diyarbakir, um bastiom do nacionalismo curdo, e proclamou que a questom curda era a sua questom e um problema colectivo para a Turquia, confessando que, no passado, ” foram cometidos erros.”

Estas declaraçons foram seguidas por umha série de medidas que facilitarom a fim as restriçons à expressom da cultura curda. Provisons forom feitas para permitir que o curdo fosse ensinado em escolas de idiomas e universidades, a televisom estatal abriu um canal de transmissom em curdo e, em 2009, o governo anunciou a chamada “abertura curda”, processo que o ministro do Interior, Beşir Atalay, Hakan Fidan, chefe da poderosa Agência Nacional de Inteligência da Turquia, estava até em negociaçons com o líder preso do PKK, Abdullah Öcalan, com vista a acabar com o período mais longo de insurgência curda.

É claro que muitas das reformas prometidas permaneceram em grande parte na teoria e o ativismo curdo continuou sendo um negócio arriscado. Em dezembro de 2009, o Partido Democrático da Sociedade (DTP), o antecessor do HDP, foi ilegalizado polo tribunal constitucional da Turquia, alegando que era umha frente para o “terrorismo”. Além disso, os contatos do governo com Abdullah Öcalan nom possuíam umha posiçom legal clara Ou um objectivo definido. No entanto, no início de 2010, parecia que a Turquia estava a avançar lentamente para algum tipo de resoluçom da “questom curda do país.”

Em retrospectiva, parece evidente que a abertura de Erdoğan para com os curdos nasceu nom de qualquer convicçom forte de que a povoaçom curda do país tinha sido vítima de umha injustiça histórica, mas um desejo básico de ganhar votos curdos. No curto prazo, este provou ser bem sucedido, com o AKP aumentando a sua parte do voto no sudeste curdo nas eleiçons gerais de 2007. Entretanto, nas eleiçons locais de 2009 muitos curdos, frustrados com o ritmo lento das reforma, abandonou o AKP, levando ao fracasso do partido para assumir o control do governo municipal de Diyarbakir do DTP pro-curdo.

As reformas lentas também impulsionaram a popularidade da ala parlamentar do movimento curdo, que, em 2014, se fundiu em um novo partido, o HDP. O HDP foi capaz de capitalizar sobre a repulsa sentida por muitos curdos (incluindo os elementos mais conservadores da sociedade curda que geralmente tinham sido solidários com o AKP) em direçom a visom de Erdoğan do movimento curdo sírio, que tinha chegado a proeminência política após a eclosom da Guerra Civil Síria em 2011.

No outono de 2014, quando os combatentes curdos sírios tentaram defender a cidade síria curda de Kobanê das forças do Estado Islâmico, as autoridades turcas se recusaram a permitir que os curdos da Turquia cruzassem a fronteira para ajudar os defensores de Kobanê, apesar de que essas mesmas autoridades tinham sido mais do que dispostas a fechar os olhos para um fluxo constante de jihadistas na Síria desde o território turco. As paixons foram ainda mais inflamadas quando Erdoğan (agora presidente) proclamou, com aparente indiferença fria, que Kobanê estava “à beira da queda”. Umha onda de protestos espalhou-se por toda a Turquia e foi brutalmente reprimida polas autoridades turcas.

A popularidade do HDP também aumentou como resultado da sua postura relativamente progressista em relaçom à economia, aos direitos LGBT e ao meio ambiente. Tais posiçons o ajudarom a construir apoio entre os turcos liberais e esquerdistas, muitos dos quais tinham participado ou simpatizado com os protestos do Parque Gezi em 2013. Assim, sob a co-liderança de Demirtaş, um curdo étnico de Elazığ e Figen Yüksekdağ, umha turca étnico de Adana, o partido conseguiu construir umha coalizom eleitoral que incluía nom apenas curdos, mas liberais turcos, esquerdistas, ambientalistas e ativistas de direitos LGBT. Concedido, a base do partido permaneceu esmagadoramente curda, mas nas eleiçons parlamentares de junho de 2015, esta coalizom pôde impulsionar o HDP após o limiar eleitoral do 10 por cento, umha barreira que em eleiçons precedentes negou-lhe aos partidos pro-Curdo representaçom parlamentar adequada (HDP ganhou o 13,1 por cento).

O sucesso eleitoral do HDP, que veio principalmente à custa do AKP, foi um desafio direto ao crescente poder de Erdoğan, e aparentemente pôs fim às suas ambiçons de reescrever a Constituiçom turca de 1982 e estabelecer umha presidência executiva forte (a Turquia é um sistema parlamentar ). Quase assim que os resultados das eleiçons foram em umha nova ofensiva militar foi lançado contra o PKK.

O estopim para a renovaçom da violência foi o atentadoo, provavelmente orquestrado polo Estado Islâmico, de um grupo de estudantes que se reuniram em Suruç, na fronteira turco-síria, para apoiar os combatentes curdos na Síria. Logo depois, forças de segurança turcas entraram em confronto com militantes curdos em Adiyaman e Ceylanpinar, deixando três soldados mortos. Embora o PKK tenha negado estar envolvido nos combates, essas mortes abriram um espaço para um novo ataque do governo contra o PKK. Sob a capa de perseguir o Estado Islâmico, a força aérea turca atacou posiçons do PKK no Iraque.

Enquanto isso, dentro das fronteiras da Turquia, as autoridades se enfrentaram com militantes curdos em cidades do sudeste. Na primavera de 2016, esta nova rodada de violência custou, segundo as autoridades turcas, 4,571 combatentes curdos, 450 soldados e policiais e polo menos 338 civis. As perdas materiais foram igualmente grandes, com muitas cidades curdas reduzidas a escombros e ruínas, adornadas com bandeiras turcas.

Apesar de alimentar o sentimento nacionalista entre os turcos, estes confrontos nom significarom o fim do HDP. Umha segunda eleiçom realizada em novembro de 2015 viu a queda do voto da HDP, mas nom abaixo do limiar eleitoral do 10%. Na verdade, em termos de assentos parlamentares, o HDP ultrapassou o Partido de Açom Nacional de extrema-direita (MHP), tornando-se o terceiro maior partido parlamentar.

No entanto, após o fracasso golpe de Estado do 15 de julho, a paisagem política na Turquia está mudando rapidamente. Erdoğan usou o caos político para consolidar ainda mais o seu poder, atacando os bastions da oposiçom remanescentes nos meios de comunicaçom, na burocracia, na educaçom e, naturalmente, no movimento curdo.

As fontes de mídia curdas, incluindo a Agência de Notícias Dicle, Azadiya Welat (Naçom Livre) e Evrensel Kültür (Cultura Universal), forom fechadas. Líderes do HDP de governos locais também forom arredondados, incluindo os co-presidentes de câmara de Diyarbakir, Gültan Kışanak e Fırat Anli. Talvez um dos movimentos mais significativos do governo tenha sido o assalto legal à delegaçom parlamentar do HDP.

Em maio de 2016, dois meses antes do golpe de Estado, o parlamento turco votou para remover a imunidade parlamentar dos membros do HDP, umha medida apoiada nom só polo AKP, mas também polo maior partido da oposiçom da Turquia, o Partido Popular Kemalista (CHP) . Na noite do 4 de novembro, as autoridades turcas figeram uso desse novo poder para, de feito, “decapitar” o movimento curdo; um movimento que lembra misteriosamente o ataque de Talat Pasha contra a intelligentsia armênia 101 anos antes.

Assim como os “jovens turcos” usaram a capa da Primeira Guerra Mundial para “resolver” a questom armênia, Erdoğan parece estar usando o pós-golpe para “limpar” a oposiçom curda.

Racializaçom do Conflito Curdo

Um aspecto significativo, mas muitas vezes ignorado, dos desenvolvimentos relacionados com a “questom curda” da Turquia é a mudança gradual na última década para a institucionalizaçom da identidade curda na Turquia. À primeira vista, isso pode parecer um desenvolvimento positivo. No entanto, à medida que a República Turca avançou para o reconhecimento, embora apenas implicitamente, de que os curdos constituem umha comunidade distinta, a comunidade curda, paradoxalmente, tornou-se mais vulnerável à violência dirigida.

A este respeito, a comparaçom com o caso arménio é particularmente relevante. Apesar dos esforços das sucessivas geraçons de reformadores otomanos no século XIX e início do XX para forjar umha “naçom” otomana através do estabelecimento de um conjunto comum de direitos e responsabilidades para todos os sujeitos otomanos, independentemente das suas afiliaçons étnicas ou religiosas, característica persistente da política otomana tardia. Isto foi particularmente verdade em comunidades predominantemente nom-muçulmanas como os armênios que gozavam de um tipo de reconhecimento oficial devido à existência do chamado sistema de milheto, umha estrutura administrativa que proporcionava às minorias religiosas umha forma de autonomia legal.

Na segunda metade do século XIX, essa autonomia institucional foi reforçada polo surgimento de um animado movimento político armênio que impulsionou (às vezes através de umha atividade revolucionária violenta) o reconhecimento dos direitos nacionais armênios (embora nom necessariamente a independência nacional). As elites políticas otomanas consideravam cada vez mais a comunidade armênia nom como “cidadaos” otomanos em potencia, mas como umha ameaça existencial à unidade imperial – umha quinta coluna trabalhando ativamente para minar a ordem política otomana.

Essa tendência foi exacerbada pola proliferaçom de idéias social-darwinistas entre a liderança do Comitê de Uniom e Progresso (mais conhecido no Ocidente como os Jovens Turcos), umha cabala secreta de funcionarios e militares que lideraram o Império Otomano durante a I Guerra Mundial. Esta tendência serviu para racializar umha comunidade que, historicamente, tinha sido compreendida principalmente em termos religiosos. Como dixo o Dr. Nazim, membro da Organizaçom Especial da CUP (Teşkilât-ı Mahsusat), umha organizaçom semi-oficial de inteligência diretamente responsável polas brutalidades contra os armênios, declarou em umha reuniom da CUP em 1915:

Se permanecermos satisfeitos. . . Com massacres locais. . . Se esta purga nom é geral e final, inevitavelmente levará a problemas. Portanto, é absolutamente necessário eliminar o povo armênio na sua totalidade, de modo que nom haja mais armênios nesta terra e o próprio conceito da Armênia seja extinto. . .

Assim, mesmo a conversom ao Islã (um movimento que salvara a muitos armênios da morte durante um conjunto anterior de pogroms em meados da década de 1890), nom era suficiente para salvar os infelizes moradores arménios da deportaçom para o deserto sírio ou o assassinato.

Como poderíamos entom comparar a situaçom dos armênios há um século com a situaçom dos curdos hoje?

A atitude das elites políticas na Turquia republicana em relaçom aos curdos tem sido, historicamente, um pouco diferente da atitude mostrada para os armênios polos arquitetos do genocídio. Isso nom quer sugerir que as noçons racializadas de identidade étnica nom tenham sido significativas na Turquia republicana. A lei das indemnizaçons de 1934, desde que os mecanismos legais para a deportaçom daqueles de “cultura”  nom-turca das suas casas; Umha lei usada com grande efeito para deportar curdos e outros “indesejáveis”, como os judeus da Trácia.

Ao mesmo tempo, o governo de Mustafa Kemal Atatürk estava mais do que disposto a tolerar as atividades dos supremacistas raciais turcos como Nihal Atsiz, um indivíduo que recuperou a propaganda nazista para o consumo turco e descreveu a nacionalidade turca como “umha questom de sangue”. A nível popular, os curdos forom muitas vezes considerados polos turcos como sendo um povo bestial, de pel escura, suja.

No entanto, o discurso “kemalista” oficial nom reconheceu os curdos como um povo distinto. Eles foram descritos como “turcos da montanha”; um povo que era de origem turca, mas que vinhera falar umha forma de “persa quebrado” (curdo, como o persa, é umha língua indo-iraniana). Assim, a política da Turquia para os curdos foi muitas vezes ditadas pola noçom de que a Curdicidade era umha forma de falsa consciência e que qualquer manifestaçom de descontentamento político curdo era o resultado da agitaçom externa.

Assim, os kurdos foram considerados polas elites kemalistas como sendo, para tomar um termo do estudioso Mesut Yegen “turcos prospectivos”; umha comunidade que poderia, por meio da educaçom, ser atraída para o círculo da “civilizaçom” turca moderna. Na verdade, os nacionalistas kemalistas, com a quase obsessom patológica de usar as palavras de Mustafa Kemal, muitas vezes tentavam negar a exclusividade étnica do nacionalismo turco, feita polo fundador da Turquia: “Feliz é aquel que se chama turco”, nom “Feliz é aquel que é turco”; um ponto usado para demonstrar a aparente inclusividade da identidade turca.

É claro que os “nacionalismos cívicos” assimilacionistas, como variedade do nacionalismo turco exposta polos kemalistas seculares, som muitas vezes menos perniciosos do que o chamado nacionalismo étnico (se de feito umha divisom firme entre essas duas categorias pode mesmo ser feita). A missom civilizadora kemalista, apropriadamente descrita por Welat Zeydanoğlu como “o fardo do homem branco turco”, resultou na repressom da língua curda, na prisom de ativistas curdos e em políticas como o rapto em massa de crianças curdas e o seu internamento forçado polo governo em Internatos.

No entanto, a negaçom do estado turco da existência curda também isolou os curdos de um ataque genocida. Embora a violência contra determinadas comunidades de curdos tenha, às vezes, atingido proporçons genocidas – principalmente durante a campanha de Dersim de 1937 e 1938 – enquanto os curdos fossem considerados “turcos em potencia”, ficava fora da agenda a erradicaçom física total da comunidade curda. Afinal, como se pode destruir umha naçom que o Estado se recusa a aceitar que existe?

A situaçom evoluiu no âmbito do AKP. O reconhecimento oficial parcial e imperfeito dos curdos como umha comunidade distinta ao longo da última década criou ironicamente condiçons nas quais o genocídio contra os curdos da Turquia é agora, se nom necessariamente, provável,.

Escrevendo em 2009, Mesut Yeğen observou que “o status dos curdos em relaçom à turquia está à beira de umha grande mudança”. O ponto de Yeğen era que a crença popular de que os curdos poderiam se tornar turcos estava em declínio; no seu lugar, surgiu umha nova narrativa emanando tanto das Forças Armadas turcas como da imprensa nacionalista, que retratava os curdos como pseudo-cidadaos (sözde vatandaşlar) e muitas vezes os ligava a comunidades há muito consideradas fora do círculo turco através do uso de termos como judeus-curdos ou armênios-curdos.

A tendência para ver os curdos como o “outro” claramente definido para o turco tem sido inadvertidamente reforçada por concessons oficiais (por mais escandalosas e superficiais) à identidade curda. É agora impossível para os líderes políticos turcos voltar à política de negaçom que, durante grande parte da história moderna da Turquia, definiu a atitude oficial em relaçom aos curdos. Em vez disso, os curdos som agora considerados polos círculos governamentais e por grandes setores do público turco, como ingratos que, apesar dos esforços do governo, continuam empenhados em destruir o país.

Assim, o castigo coletivo do tipo dos armênios há um século é – talvez por primeira vez na história da Turquia moderna – agora possível. Como os armênios em 1915, os curdos emergiram como um novo “outro” – um grupo distinguível da maioria turca.

A este respeito, a prisom dos co-líderes do HDP, bem como centenas de outros intelectuais e ativistas curdos, parece notavelmente semelhante aos esforços de Talat Pasha para “decapitar” a comunidade armênia. Os apologistas de Erdoğan podem muito bem tentar enquadrar essas prisons em termos da “guerra contra o terrorismo”; especialmente ao justificar as suas açons para os Estados Unidos e Europa.

No entanto, as declaraçons do ministro da Economia Nihat Zeybekçi, em que el comparou os membros do HDP a “ratos”, sugere as atitudes racistas e desumanizantes mantidas pola elite governante da Turquia. Tais declaraçons, feitas num momento em que o conflito militar entre o PKK e o exército turco estam aumentando, servem apenas para endurecer as fronteiras ideológicas que separam os curdos dos turcos e, ao fazê-lo, podem muito bem estar lançando as bases de umha campanha até entom sem precedentes Violência contra a povoaçom curda da Turquia.

Isso resultará em genocídio? Talvez seja cedo demais para dizer. Mas este é 2016, um ano em que muitas coisas que umha vez pensou impossível tornaram-se muito reais.

Djene Bajalan é professor assistente no Departamento de História da Universidade Estadual de Missouri.A sua pesquisa centra-se sobre assuntos do Oriente Médio e ensinou e estudou no Reino Unido, na Turquia e no Curdistam iraquiano.

Publicado em Jacobinmag.

 

 

 

 

 

 

 

“O PKK nunca permitirá a institucionalizaçom do fascismo de Erdogan-MHP na Turquia”

cemil-bayikEntrevista a Cemil Bayik, co-presidente do Conselho Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK)

O co-presidente do Conselho Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK), a organizaçom gardachuva do movimento curdo, Cemil Bayik, falou à ANF sobre os acontecimentos na Turquia, a aliança entre o AKP e o MHP, bem como umha possível operaçom transfronteiriça contra o PKK.

Bayik dixo que umha onda de fascismo estava varrendo a Turquia e que a prisom de parlamentares do Partido Democrático do Povo (HDP) era a última prova disso.

Eles estam fundindo nacionalismo e religiom

“Erdogan e Devlet Bahceli [líder ultra-nacionalista do MHP] uniram-se na Turquia e estam tentando institucionalizar o fascismo. Para fazer isso estam tentando remover todos os obstáculos no seu caminho.

“Se eles estam aprisionando deputados do HPD, bloqueando sedes do HDP para impedi-lo operar, aprisionando membros do HDP, apreendendo municípios no Curdistam através da nomeaçom de administradores, destruindo cidades, deslocando centos de milheiros de pessoas, abusando dos curdos, democratas e intelectuais, torturando presos, executando prisioneiros de Guerra, amarrando-os à parte de trás dos veículos e arrastando os seus cadáveres, expondo os corpos nus das mulheres mortas, permitindo que os animais “dizimem os cadáveres das pessoas que matarom; é porque querem institucionalizar o fascismo.

“Para conseguir isso, precisam silenciar os meios de comunicaçom, intelectuais e artistas. É por isso que eles fecharom as mídias da oposiçom e prenderom jornalistas. Eles querem impor a sua propaganda e fazer as pessoas acreditarem nela. Estam fundindo nacionalismo e religiom para formar as bases sociais para o fascismo. Todo o  mundo precisa estar ciente disso.”

Eles querem tomar a todos como reféns

Bayik continuou a afirmar que o governo e os seus aliados estavam realmente fracos e recorrendo a essas políticas por causa disso.

“Estam praticando umha guerra psicológica muito intensa. Eles estam muito fracos; é por isso que estam fechando associaçons, mídias e partidos e tentando silenciar a todos. Se fossem fortes, eles nom fariam isso.”

A luita intra-curda está a ser provocada

Bayik também observou que o governo e o MHP estavam tentando avançar os sistemas de guarda de aldeia e vigia na regiom curda da Turquia para fortalecer o que el chamou de “traiçom”.

“Eles querem organizar umha força traiçoeira que esteja em colaboraçom com eles e levá-los a atacar curdos. Desta forma, querem transformar a questom curda em umha questom intra-curda, em vez de um problema entre os curdos e o Estado.”

Umha luita alternativa precisa ser desenvolvida

O co-presidente do KCK dixo que o regime na Turquia entraria em colapso se os setores progressistas da sociedade se juntassem.

“Os jovens e as mulheres em particular tenhem um papel importante; intelectuais, artistas, escritores, acadêmicos, jornalistas e trabalhadores também. Alauitas, diferentes grupos nacionais e culturais e democratas sunitas também. Todos os que estam preocupados com este regime precisam de unir-se e formar umha aliança. Se o figeram, esse regime entraria em colapso. Este regime nom tem apoio internacional; o seu apoio interno é fraco. Eles estam tentando retratar-se como tendo um monte de apoio, mas isso nom é verdade.

“Eles tenhem medo de perder o poder, sendo aprisionados e julgados; É por isso que estam recorrendo a essas açons. Erdogan quer transformar o AKP no partido fundador do novo regime e el próprio no seu chefe. Isso significará repressom, prisom, tortura e afrontas para todos os povos e religions. É por isso que todos os círculos que estam contra a institucionalizaçom do fascismo fundado sobre a unificaçom do nacionalismo e a religiom precisam formar umha luita alternativa.

O estado de emergência nom tem legitimidade

Bayik também comentou sobre o estado de emergência na Turquia e dixo que estava sendo armado contra as pessoas.

“O governo usou a tentativa de golpe de Estado do 15 de julho como umha oportunidade para declarar o estado de emergência. Eles figeram isso para adicionar legitimidade às políticas que iriam implementar. Erdogan tem o estado de emergência militar. Está tentando enganar as forças internas e internas dessa maneira. O estado de emergência nom tem qualquer legitimidade.”

Os curdos nom vom cumprimentar o exército turco com flores

Bayık também mencionou declaraçons recentes das autoridades turcas que sugerem umha operaçom em áreas controladas polo PKK na regiom do Curdistam (KRG), ressaltando que Erdoğan nom seria capaz de derrotar o PKK apesar do provável apoio que receberia.

“Erdogan di que vai erradicar o PKK. Com isso, el está tentando fortalecer o nacionalismo, o chauvinismo e o fascismo na Turquia. El quere o genocídio dos curdos. Quere eliminar os círculos seculares, socialistas e democratas para construir um regime baseado no nacionalismo e na religiom. É por isso que Erdogan está a tentar demonizar o PKK e os curdos aos olhos da sociedade turca e da comunidade internacional.

“É claro que el quere erradicar o PKK, que sabe é a única maneira de perpetrar um genocídio curdo e institucionalizar o seu próprio regime fascista. Considera o PKK um grande obstáculo para este objetivo e ataca o PKK e qualquer pessoa relacionada a el com grande raiva. No entanto, Erdogan só trará a sua própria queda dessa maneira, assim como Hitler fixo.

“El nunca poderá erradicar o PKK. El nom é forte o suficiente para fazer isso, mesmo se usa todos os meios do estado e recebe o apoio de algumhas forças internacionais e regionais, e até de alguns curdos. O PKK é um movimento apoiado e formado por milhons de pessoas. Nom está composto apenas por um pequeno quadro, nem por um pequeno movimento de guerrilha. O PKK tem um lugar nos coraçons e mentes do povo curdo, democratas, patriotas e socialistas. O PKK é a esperança dos oprimidos, de todos os oprimidos fora da Turquia também. Se Erdoğan quer erradicar o PKK, terá de massacrar todos os curdos, todos os oprimidos, todos os intelectuais, democratas, escritores e artistas que simpatizam com el.

“Eles [as autoridades turcas] falarom recentemente em conduzir umha operaçom em Qandil (base do PKK). Deixe-os vir, se podem. O povo curdo nom vai cumprimentá-los com flores. A Turquia provavelmente experimentará a maior derrota da sua história.”

O PKK jamais permitirá que o fascismo se torne institucionalizado na Turquia

O co-presidente do Conselho Executivo do KCK, Cemil Bayik, encerrou a entrevista dizendo que nom poderia haver democracia, liberdade ou justiça ou um futuro seguro na Turquia a menos que o AKP e o MHP fossem eliminados.

“Se as pessoas querem garantir o seu futuro, devem luitar contra o fascismo de Erdogan-Bahceli. O PKK jamais permitirá que o fascismo se torne institucionalizado na Turquia. O PKK nom luita apenas para si e para os curdos, mas sim para a humanidade, a democracia e a justiça. Esta é umha luita por todos e haverá umha vitória definitiva se for apoiada por todos.”

Publicada em ANF – Ajansa Nûçeyan a Firatê e KurdishQuestion.

 

A questom turca

a-questom-turcaPor Ozkan Kocakaya

A questom de como resolver a crise causada pola deterioraçom das relaçons entre a UE ea Turquia está a ganhar intensidade cada dia. O venres, o presidente da Turquia Erdogan ameaçou com abrir as portas da fronteira para permitir que milhons de refugiados viajem para a UE em resposta ao voto nom vinculativo do jôves dos deputados europeus no Parlamento Europeu para congelar as negociaçons de adesom da Turquia. Foi o último (que nm derradeiro) capítulo que sublinhou a queda da Turquia em umha ditadura.

As negociaçons de adesom da Turquia à Comunidade Económica Europeia, antecessora da UE, começaram em 1987, com a ideia de que, ao mesmo tempo que serviam os interesses estratégicos e económicos da Europa, a Turquia poderia também ser modernizada através da adesom aos valores europeus. Embora o som principal, desta estratégia requer umha naçom que se esforça para umha evoluçom progressiva; e a Turquia nom se enquadra nesta categoria ainda.

A revelaçom de Erdogan do fascismo profundamente arraigado em todos os níveis da sociedade em Turquia é prova disso e os aliados internacionais de Turquia, pretendendo proteger os interesses acima mencionados na regiom, permitirom que a Turquia mantivesse umha fachada de democracia ao negar-se a fazer exame estrutural e social das reformas. A sua incapacidade de resolver a questom curda resultou, consequentemente, em que o membro da OTAN recorresse à extorsom e à supressom militar brutal do movimento curdo, juntamente com a propaganda sistemática sancionada polo Estado, tanto nacional como internacionalmente, por quase um século.

Os comprimentos a que a Turquia tem estado a negar o estatus curdo de qualquer tipo na regiom pode ser sintetizado polos acontecimentos dos últimos dous meses sozinho. É a insistência, e falha subseqüente, para ser-lhe permitido participar em operaçons para libertar Mosul e Raqqa foi destinado a travar o progresso dos curdos. Para distrair as suas políticas sírias e iraquianas, Erdogan acelerou as prisons contra os curdos em casa, prendendo deputados curdos. A natureza sinistra da mentalidade que resultou no feito de o Estado tome efetivamente prisioneiros deputados curdos eleitos foi revelada por Huseyin Kocabiyik, o deputado do AKP para Izmir, dizendo: “No caso de tentativas de assassinato de líderes estaduais, as pessoas iram invadir as prisons e ficarem presas os terroristas do FETO [Gulenistas] e do PKK “umha semana após essas prisons. É umha admissom categórica do desespero que toma a preensom entre círculos do AKP assim como umha derrota política.

Embora estes sejam indicativos da vontade da Turquia de recorrer a medidas tam desesperadas como a extorsom dirigida à UE e aos curdos, o que está a ficar claro é que a Turquia nunca tivo um problema curdo, mas a regiom sempre tivo um problema turco. Afinal, a Turquia tem legitimado os crimes que cometeu contra os curdos apontando o dedo para o PKK por quase quatro décadas. A questom curda é um sintoma do maior problema que está ligado a el, e a Turquia tem estado habilmente desviando a atençom dos seus próprios fracassos a nível estadual, despejando vastos recursos para apresentá-los como umha questom curda.

A decisom da Áustria de impor um embargo de armas à Turquia, o reconhecimento por parte dos tribunais alemaes do apoio da Turquia ao terrorismo e o reconhecimento de um tribunal belga da luita armada num caso histórico contra políticos curdos acusados de serem membros do PKK. O que deve seguir é o reconhecimento de que a UE e o Médio Oriente tenhem um problema turco. Até que este seja amplamente reconhecido e abertamente debatido a nível internacional, juntamente com umha forte liderança do Ocidente para negar a Turquia as plataformas de censura e propaganda no exterior, a Turquia nom vai mudar. Isto pode muito bem envolver sançons económicas e militares, mas considerando que foi necessária umha guerra mundial para combater o fascismo na Europa, será um preço menor a pagar.

A Turquia está empregando toda a força das suas capacidades militares e políticas para impedir que os curdos ganhem status em qualquer lugar, é indicativo o papel importante dos curdos em trazer estabilidade e reformas democráticas para o Oriente Médio. É também um reconhecimento da última batalha ideológica para a sobrevivência, apresentando-o como umha guerra contra os curdos, onde na verdade sempre foi uma guerra entre o fascismo e a democracia dentro da Turquia. Derrotar essa ideologia nom só serve os curdos, mas os próprios turcos.

Quando Hilary Benn deu o seu discurso apaixonado no parlamento do Reino Unido na sequência dos atentados de Paris em novembro passado, el estava-se referindo à ameaça crescente do Islamofascismo apresentado pola ISIS. No contexto do reconhecimento generalizado da cumplicidade da Turquia no surgimento do ISIS e dos paralelos na ideologia do AKP com o grupo terrorista mais vilipendiado da história, esse discurso é mais relevante para a crescente ameaça à segurança global proveniente da última casa remanescente do fascismo que é a Turquia. Assim, a questom curda da Turquia sempre foi umha cortina de fumaça para a verdadeira questom turca.

ozkan-kocakayaOzkan Kocakaya é originária da Turquia, de origem curda. Depois de ganhar umha licenciatura e um mestrado da Universidade de Liverpool em IT e assuntos relacionados com o mercado, el começou umha carreira na indústria financeira, onde ainda ganha a vida. Tendo um grande interesse na literatura e umha paixom polo Curdistam,  dedicao  seu tempo livre a escrever ficçom para promover a história e os valores curdos, bem como blogs sobre assuntos atuais no seu país de origem.

Publicado em Kurdish Question.

 

 

O fracasso contínuo do sistema internacional na questom curda

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Cidade curda destruída por artilharia militar turca

Por Hawzhin Azeez

Na semana passada, o estado turco, liderado polo presidente Erdogan e o seu governo do AKP, envolveu-se em umha das repressons mais preocupantes sobre os membros eleitos curdos do parlamento. O processo que começou com a prisom dos co-alcaldes de Diyarbakir continuou com a prisom dos co-presidentes do Partido Democrático do Povo (HDP) Selahattin Demirtas, Figen Yuksekdag e 7 deputados.

Esta última repressom ocorre em linha com os acontecimentos do fracassado golpe militar de julho. Desde entom, milheiros de funcionários públicos, professores, trabalhadores municipais, jornalistas e acadêmicos e também soldados forom presos ou demitidos. Esta repressom realça as preocupantes tendências políticas em curso na Turquia. A chamada democracia na Turquia está em sérios problemas e em rápido declínio.

A única marca da democracia da Turquia é a vergonhenta e transparente prisom de deputados, detençom de ativistas e tortura e assassinato de manifestantes.

A única certeza no sistema internacional com as suas leis farsas e falsas instituiçons é o contínuo silêncio cúmplice em vista das graves violaçons dos direitos humanos contra os curdos, grupos de esquerda e outras minorias na Turquia e as invasons inspiradas no neo-otomanismo imperialistas do AKP do Curdistam da Síria e o Iraque. A única liberdade que a imprensa internacional expressa é a sua escolha coletiva contínua de permanecer em grande parte silenciosa sobre essas violaçons. Enquanto a esquerda global permanece negligentemente subjugada, paralisada pola inaçom e indecisom.

Este pesadelo orwelliano representa o fracasso de toda a fundaçom da Nova Ordem Mundial. As suas instituiçons neoliberais, imperialistas e estatistas, outrora símbolo do argumento xenófobo da “Fim da História”, definido como o epítome da sua essência imperial, representam agora a realidade que sempre foi para os oprimidos e colonizados: violentas instituiçons indiferente e de empatia seletiva que determinam o destino das naçons, agora nom com canetas em mapas, mas com o clique de alguns botons em smartphones todo o direito das pessoas de existir ou perecer. E todo isso diante de um público global insaciável que consome com avidez o sofrimento dos oprimidos e exigem imagens cada vez mais violentas das nossas opressons para cumprir  o seu mórbido canibalismo.

Nom se engane, a resoluçom da “Questom Curda” pode ser o maior caminho rumo à estabilidade coletiva coletiva e à paz imediata, ou, se as tendências continuarem, pode implodir em outro conflito prolongado sem fim à vista. A única diferença é que agora a nossa opressom e a violência associada nom será mais contida nitidamente em nossos lares e eiras, como tem sido por décadas e séculos. Mas ela se vai espalhar na sua eira também.

Nom se esqueça que a responsabilidade nom deve ser sobre os oprimidos para provar a sua humanidade e, portanto, o seu direito à existência. Eles já estam carregados com o fardo insuportável da resistência desesperada pola sua própria sobrevivência. Mas em vez disso, a responsabilidade deve ser sempre à elite informada, privilegiada para reafirmar e recuperar a sua humanidade, fazendo algo sobre isso.

E assim imos esperar.

Enquanto permanecemos, coletivamente, no precipício de umha era perigosa.

Hawzhin AzeezHawzhin Azeez tem um doutorado em Ciência Política e Relaçons Internacionais. Ela é defensora dos direitos das mulheres e dos refugiados. Está atualmente trabalhando na reconstruçom de Kobane através do Conselhode  Reconstruçom de  Kobane.

Publicado em kurdish question.

 

Os curdos matam e deslocam civis árabes na operaçom de Raqqa?

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Luitadores das SDF na operaçom de Raqqa / ANF

Por Sinan Cudi

As forças da Ira do Eúfrates terminarom a primeira fase da operaçom para libertar Raqqa do  Estado Islâmico (ISIS) o 14 de novembro.

A declaraçom revelando os detalhes dos primeiros 10 dias da operaçom foi na aldeia de Hîşa; há pouco informara-se que fora atacada por avions da Coligaçom anti-ISIS. A declaraçom, lida pola porta-voz Cihan Ehmed dixo que 36 aldeias, 31 povos, 7 outeiros estrategicamente importantes e duas regions importantes que fornecem água e eletricidade foram liberados em umha área de 550 km do ISIS. Também informou-se que 167 militantes do ISIS foram mortos e 4 presos.

A declaraçom acrescentou que o ISIS tinha tentado 12 ataques VBIED [Veículos bomba], mas que todos os veículos tinham sido destruídos. Um grande número de armas e outros veículos também tinham sido eliminados, 240 minas desativadas. A declaraçom dizia que apenas quatro lutadores das Forças Democráticas da Síria (SDF) foram feridos na primeira fase da operaçom.

Mencionou também que o assédio de Raqqa continuava e que as pessoas nas áreas liberadas permitiria-se-lhes retornar às suas casas umha vez que a limpeza das minas terminara.

A declaraçom também se refere à reivindicaçom sobre a Aldeia de Hîşa (Hisah), que é o tema deste artigo e di: “Embora nom tenhamos encontrado nengumha evidência de que os civis foram prejudicados durante a operaçom, continuamos a investigar as alegaçons.”

Deixando de lado o conteúdo da declaraçom sobre a aldeia Hîşa, o fato de que a declaraçom foi feita na aldeia onde o suposto ataque ocorrera é umha mensagem para aqueles que fam essas alegaçons. Que os jornalistas tenham permissão para entrar e investigar na aldeia após o comunicado de imprensa é mais umha prova da confiança do SDF de que as alegaçons som falsas.

Reivindicaçons semelhantes forom feitas antes. Cada vez que o ISIS é atacado, há mentiras do tipo “os árabes estam sendo deslocados”, “há limpeza étnica”, “a demografia está sendo mudada”, “os civis estam sendo assassinados”, som postos em circulaçom para interromper a guerra contra o grupo jihadista.

A mensagem subjacente repetida com estas afirmaçons é a seguinte: “Os curdos estam matando árabes, deslocando-os, apropriando-se das suas terras e tentando criar um estado curdo.” De longe isso pode parecer plausível também. Afinal, vivemos em sociedades onde as pessoas têm bebido do cálice envenenado do nacionalismo e forom infectados polas suas ideias e que, a gente pense que é umha possibilidade fazer o anterior.

No entanto, é importante enfatizar certos feitos.

Em primeiro lugar, a maioria dos combatentes que participam na ofensiva de Raqqa som árabes. Os componentes da força de combate que participam da operaçom som proporcionais à povoaçom de Raqqa. Isto significa que os curdos representam o 25% desta força, em relaçom à povoaçom curda que vivia em Raqqa.

Em segundo lugar, durante mais de um ano, desde a ofensiva de al-Hawl, os curdos nom agem unilateralmente. As forças de comando e combate em todas as operaçons e açons militares som decididas polas SDF. Há umha ordem comum e um centro de comando. O que significa que há um exército administrado conjuntamente por árabes, curdos, assírios e turcomanos.

E, finalmente, se os curdos tivessem pretendido e desejassem deslocar os árabes, teriam começado com a povoaçom árabe movida polo regime Baath para os assentamentos curdos como parte da iniciativa do cordom árabe na década de 1960.

É possível listar muitos mais feitos, mas três som suficientes.

O que é interessante, no entanto, é que aqueles que fam estas afirmaçons estam completamente silenciosos sobre as massacres cometidos por avions de guerra turcos em Afrin e na regiom de Shehba, a destruiçom de aldeias curdas e o deslocamento de milheiros de curdos.

sinan-cudiSinan Cudi é um jornalista curdo atualmente em Rojava-Norte da Síria.

Publicado em  Kurdish Question.

 

 

 

‘Erdogan vai seguir os passos de Saddam ou Hitler’: Entrevista a Zubeyir Aydar, líder político curdo

01-zubeyir-aydarPor Figen Gunes

“A maior mostra de solidariedade após a resistência de Kobanê em toda a Europa entre os curdos foi depois que os líderes e deputados do HDP foram presos na Turquia “, dixo Zubeyir Aydar, membro do Comité Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK),  organizaçom a que pertenze o Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK).

Zubeyir Aydar respondeu às perguntas de Figen Gunes sobre a ausência de protestos nas ruas na Turquia, bem como o apoio dos partidos do Governo Regional do Curdistam e as possibilidades de transformá-lo numha oportunidade para consolidar as relaçons nacionais entre os Curdos.

Figen Gunes: O povo do sudeste da Turquia sofreu umha grande destruiçom em todos os níveis desde o colapso do processo de paz. Depois de quase 200 civis terem sido queimados vivos em três sotos de Cizre, Sirnak, seria de esperar fortes protestos públicos. No entanto, nom houvo grandes manifestaços. Mas quando olhamos para a diáspora curda na Europa, especialmente na Alemanha, vemos umha  forte condenaçom do governo turco em grandes protestos de milheiros de pessoas enviando mensagens de apoio para às gente do sudeste da Turquia. Pode nos falar sobre essa dicotomia?

Zubeyir Aydar: Quando o estado está matando as pessoas nas ruas é difícil sacar as pessoas. Há milhons de pessoas em Bakur (norte do Kurdistan-sudeste da Turquia) que, de outra forma, estariam nas ruas protestando contra a opressom dos curdos. Sob as Leis de emergência, há actuaçons limitadas. Além disso, os líderes que organizariam estas mobilizaçons estam todos sob custódia ou presos.

Até 1992, grandes massas protestavam nas ruas. No entanto, quando eu fum a Sirnak no verao de 1992 como deputado da cidade, a gente mirava-nos de longe. Estavam com medo de aproximar-se-me devido à atmosfera no momento. Isso nom significava que eles estiveram contra minha ja que fum escolhido por eles. É porque o estado é muito experiente em como silenciar às pessoas.

As multitudess que vimos na Europa em protestos públicos tenhem as mesmas inclinaçons políticas com aqueles no Curdistam. Aqui na Europa, nom há nem toques de recolher nem limites aos protestos. Esta é a única razom pola qual nom vemos protestos em Diyarbakir, onde as pessoas sabem que pagariam com as suas vidas. Tendo dito que em Adana e Mersin, por exemplo, há menos pressom e as pessoas estavam criticando as decisons do governante AKP.

O Plano Colonialista de Reforma do Leste ainda está em vigor

F.G: Historicamente, o governo turco, que criaram um  espaço para conversaçons bilaterais com os líderes do PKK, classificariam mais tarde estas conversas como atos de traiçom. Pode nos dizer se o governo atual na Turquia tinha umha política para tratar os curdos de umha certa maneira desde o início ou estamos enfrentando umha liderança volátil sem planos concretos do governante AKP?

Z.A: O Plano de Reforma do Leste (Sark Islahat Plani), que chamamos de plano de genocídio, tem sido usado contra os curdos desde 1925. Este era o documento teórico detalhando como os curdos seriam erradicados. Nos últimos anos, a Turquia tentou abordar a questom curda sem recorrer à guerra, mas este discurso nom reconhecia a identidade curda. O governo turco mais umha vez nos últimos anos viu o PKK apenas como portador de armas; Eles pensavam que se o PKK desistisse das armas, a questom curda seria resolvida. Isto foi mencionado em todas as conversaçons, incluindo Oslo (2009) e Imrali [2013-2015] com o governo turco.

O governo nom apresentou um plano político para abordar a questom. Emre Taner, ex-funcionário do Serviço de Inteligência Turco (MIT), repetiu recentemente isso quando deu provas ao comitê de investigaçom do golpe. Taner foi o arquitecto das conversaçons de Oslo e admitiu que o governo turco nom ofereceu um roteiro aos curdos durante as conversaçons de Oslo para resolver a questom.

Além disso, o primeiro objectivo estabelecido no Plano de Reforma Oriental era a assimilaçom dos curdos residentes no Oeste do Eufrates. Portanto, quando o atual governo turco di que o oeste do Eufrates é a sua linha vermelha, isso nom deve ser visto como umha coincidência. Esta fronteira de feito vem deste documento histórico. O governo pensa que se os curdos atravessaram ao oeste do Eufrates em Rojava, também o fariam no Iraque.

Declaraçom de Dolmabahce

F.G: Os curdos forom capazes de negociar um acordo com o atual governo em fevereiro de 2015. Por que entom a Declaraçom de Dolmabahce foi desfeita? 

Z.A: O atual período de guerra veu depois do estado profundo na Turquia: Ergenekon e Gulenistas estenderam a cabeça e questionaram a Declaraçom de Dolmabahce. Esta declaraçom tinha o potencial de resolver a questom curda através de dez pontos práticos. Contudo, estas forças do estado profundo digeram-lhe a Erdogan, “Vostede é o que senta no palácio mas esta declaraçom deve ser bloqueado”. Esta era inerentemente umha decisom de guerra. Queriam buscar umha resoluçom nas negociaçons de paz, ou luitar. No verao, logo da Declaraçom de Dolmabahce ter sido abandonada por Erdogan, o conflito retomou. Agora, mesmo as associaçons curdas estam sendo fechadas. Nom apenas isso, os conselhos locais eleitos e administrados polos curdos estam sendo apreendidos e substituídos por administradores designados polo governo. A prisom dos 10 deputados do HDP é também umha parte deste período de conflito. Nom reconheceremos os guardians designados. No entanto, as declaraçons para o auto-governo curdo nom estam na nossa agenda para o futuro próximo porque o povo nem sequer é capaz de respirar e mover-se livremente.

Ajoelhar-se ou morrer

F.G: Forom abordados polo governo turco para iniciar umha nova fase de negociaçons após a mesa da negociaçom ter sido derrubada.

Z.A: Nom. Nós, como Movimento de Libertaçom do Curdistam somos confrontados com a destruiçom total porque o governo di isso: ou ajoelhar-se ou morrer. Nom nos inclinaremos, portanto estamos sendo atacados. Primeiro, a Turquia apoiou o Daesh (Estado Islâmico) para bloquear os ganhos dos curdos na Síria, e entom entrou el mesmo com o mesmo objetivo. A nossa estratégia é defender-nos em Rojava e Turquia com as armas. O presidente Recep Tayyip Erdogan é um ditador e por esta razom estaremos trabalhando para construir umha frente pola democracia ao lado de outras vozes da oposiçom na Turquia.

Outra prioridade para nós é concentrar-nos com a diplomacia, neste momento particular. Vamos expor os erros da Turquia, especificamente da OTAN e a UE. Nom Imos ajoelhar, mas resistiremos e isso precisa ser explicado ao mundo inteiro.

O objetivo dos curdos umha nova aliança

F.G: A Turquia atravessa um período extraordinário. Como é que o partido no poder preenche os cargos vacios polas grandes purgas? Quem som os novos sócios do Estado?

Z.A: Erdogan formou umha nova aliança com o Ergenekon. Ironicamente, os Gulenistas e Erdogan luitaram juntos contra esta força na última década e aprisionou-nos. No entanto, agora, Erdogan tem umha aliança inversa em vigor. O primeiro objetivo desta aliança é a consolidaçom do governo de Erdogan. A segunda é a eliminaçom total dos gulenistas nas posiçons governamentais. Sob esta nova aliança o objectivo comum de luitar também os curdos.

Erdogan nom descera do seu palácio normalmente; El vai ser preso ou morrer, seguindo os passos de Hitler ou Saddam, que el tentou imitar com as suas políticas expansionistas e opressivas na Turquia e no Oriente Médio em geral. A UE e os Estados Unidos nom estam satisfeitos com esta orientaçom. Eles nom querem umha Turquia instável. Apesar de estar infelizes, ainda nom querem impor sançons contra a Turquia, o que deveria ter sido feito rapidamente.

Os grupos paramilitares de Erdogan

F.G: Como pode esta nova aliança sobreviver em meio disses inimigos?

Z.A: Erdogan tem trabalhado na criaçom dos seus próprios grupos paramilitares. Historicamente, o partido político nacionalista MHP foi dado a esta tarefa e criou os Lobos Cinzentos para usa-los em favor do governo. Mas agora, as Unidades Otomanas (Osmanli Ocaklari) forom formadas e estam sob as ordens diretas do governo e operam como parte das unidades especiais no serviço secreto. No ano passado, houvo uma onda de ataques ao HDP. Este foi trabalho das Unidades Otomanas. Os alemaes alertaram-nos sobre a sua grande existência na Alemanha. Acreditamos que estam organizados em toda a Europa. As informaçons da Alemanha reveladas sobre eles devem ser tidas em conta e tomar medidas.

Unidade Curda

F.G: Alguns pensam que a personalidade alegre e adorável de Selahattin Demirtas pode desempenhar um papel em reunir outras seçons do movimento curdo; Vostede está esperançoso na unidade entre os curdos, especialmente depois que os líderes do HDP foram presos?

Z.A: As prisons dos líderes do HDP criaram umha reaçom entre outros líderes curdos. No entanto, eu encontrei a reaçom do KDP macia. Os problemas atuais nom podem ser resolvidos através da opressom; A liderança do KDP nom condenou as açons da Turquia. Dito isto, outros partidos curdos nas quatro partes do Curdistam mostraram a sua condenaçom da Turquia, o que é importante. Os desenvolvimentos em Mosul e Rojava criam ainda a necessidade de unifidade entre os curdos. Estamos prontos para um diálogo mais desenvolvido; No entanto, é difícil prever se isso levaria a quaisquer ganhos sob a forma de cooperaçom sólida a curto prazo.

Diferenças históricas

F.G: O PKK está perdendo força depois dos recentes ataques?

Z.A: Os curdos gozavam de autonomia sob o domínio otomano desde o início dos anos 1500 até o início do século XIX. Quando isso mudou, começarom os motins contra os otomanos. O primeiro motim foi em 1806 em Sulaymaniah. Desde entom, 210 anos passarom, mas há umha série de revoltas. O ex-presidente da Turquia, Suleyman Demirel, dixo umha vez que o PKK era a 29ª revolta curda, no entanto, de acordo com os documentos do Comandante Geral turco, o PKK é o 39º movimento curdo desde o início do Império Otomano. A diferença é que a existência do levante do PKK é a mais longa do que o total de todas aquelas que forom anteriormente. Os movimentos do passado eram locais e fracos e, portanto, forom suprimidos em um curto espaço de tempo. No entanto, o PKK tem crescido continuamente nos últimos 33 anos.

Na Turquia, os governos venhem e vam e cada um promete erradicar o PKK, mas nom foi esse o caso. Nos anos 90, tínhamos um grupo parlamentar curdo, mas agora, apesar de alguns terem sido presos, temos um grupo muito mais forte. Temos também mais municípios administrados polos curdos e o reconhecimento internacional de Rojava, que nom existia no passado. Mais umha vez na década de 1990, houvo Saddam no Iraque e o Governo Regional do Curdistam era fraco. A OTAN era um partidário proeminente da Turquia. Mas nos últimos anos, a UE e as relaçons da OTAN com a Turquia tenhem azedado. Os curdos também pagarom um preço durante este período, mas imos sair mais fortes. A operaçom de Raqqa ajudará os curdos a ganhar mais reconhecimento.

Trump no Oriente Médio

F.G: Trump vai ser um bom amigo para os curdos? Qual é a sua previsom, dado o seu populismo no período das eleiçons?

Z.A: É difícil prever, como el era um homem de negócios no passado. Nom tem experiência política. Foi eleito presidente, mas um home nom pode mudar o modelo de política da América sozinho. A sua política externa e prática nom muda com um home. Além disso Trump nom está claro sobre como vai implementar as suas políticas. Queremos que a América seja mediadora nas negociaçons de paz e entenda que a política opressiva da Turquia contra os curdos nom pode durar mais tempo.

03-figen-gunesFigen Gunes é umha jornalista de Al Jazeera Inglês com foco na liberdade de expressom, a mudança de propriedade dos mídia e julgamentos de jornalistas na Turquia. Formada em mestrado em Relaçons Internacionais, escreveu a sua tese sobre a viabilidade futura de Rojava.

Publicado em Kurdishquestion.

A guerra de Erdogan contra as mulheres

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Ayla Akat Ata, porta-voz do Congresso de Mulheres Livres (KJA), celebraçom do 8 de março de 2014, quando ainda era deputada.

Por Dilar Dirik

As mulheres curdas, um dos movimentos mais fortes e radicais das mulheres no mundo está sendo reprimido polo Estado turco com total impunidade – e Europa mirando para outro lado

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Detençom de Sebahat Tuncel

“Vamos resistir e resistir até ganhar!”, berrava Sebahat Tuncel antes da sua boca ser fechada à força por meia dúzia de policias que a arrastam polo chao e a detiverom a começos de novembro.

Nove anos atrás, um comboio com sinais de vitória, slogans alegres e flores recebeu a Tuncel quando ela foi libertada da prisom para entrar no parlamento, tendo sido eleita ainda dentro. Tuncel, agora presa novamente, é umha das dúzias de políticos curdos do Partido Democrático do Povo (HDP) ou do Partido Regional Democrático (DBP), presos polas forças de segurança turcas desde o final de outubro sob as operaçons “anti-terroristas” contra aqueles que desafiam o governo autoritário do presidente turco, Erdoğan. Essa repressom acompanha a tentativa de golpe de Estado em julho e representa umha re-escalada da guerra entre o Estado e o movimento curdo desde o verao de 2015, terminando um processo de paz de dous anos e meio. Como o conselho dado ao esquadrom anti-terrorista alemao na década de 1980 “Atire as mulheres em primeiro lugar!” A masculinidade tóxica do Estado tornou-se evidente na sua declaraçom de umha guerra contra as mulheres; a força do movimento militante das mulheres curdas representa a maior ameaça ao sistema. O caso de Sebahat Tuncel nom é único.

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Foto de Gulten Kışanak.

No final de outubro, Gültan Kisanak foi detida. Ela foi a primeira co-alcalde do Município Metropolitano de Diyarbakir e ex-parlamentária, que passou dous anos na década de 1980 na famosa prisom de Diyarbakir, onde sobreviveu às formas mais atrozes de tortura, como ter de viver durante meses em umha cabana de cans cheia de excrementos, porque ela recusou a dizer “Eu sou turca”. A sua prisom foi imediatamente seguida pola detençom violenta de Ayla Akat Ata, ex-deputada e agora porta-voz do Congresso de Mulheres Livres (KJA), a maior organizaçom de mulheres no Curdistam e Turquia, que está entre as 370 organizaçons da sociedade civil proibidas polo governo desde meados de novembro. Ela foi hospitalizada várias vezes devido à violência policial durante o seu período parlamentar e sobreviveu a várias tentativas de assassinato.

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Sebahat Tuncel, Ayla Akat Ata, Selma Irmak e Pervin Buldan protestam contra umha lei de segurança no Parlamento. Todas, exceto Pervin Buldan estam agora na prisom. Foto: Murstafa Istemi/Milliyet

Selma Irmak está entre as deputadas eleitas desde a prisom, onde passou mais de 10 anos sob acusaçons de terrorismo e participou de greves de fome. Gülser Yildirim estivo presa durante cinco anos antes das eleiçons. Outra deputada é Leyla Birlik, que ficou com os civis sob fogo militar em Sirnak durante toda a duraçom do bloqueio militar, testemunhando os assassinatos brutais de inúmeros civis polo exército. O seu cunhado, Haci Lokman Birlik, ativista e cineasta, foi executado polo exército turco em outubro de 2015; Seu cadáver estava amarrado a um veículo do exército e arrastado polas ruas. Soldados filmaram isso e enviarom o vídeo para Leyla Birlik com a mensagem “Venha colher o seu cunhado”.

A lista continua. Escolhemos mulheres corajosas como nossas representantes. Elas som agora prisioneiras políticas apesar de serem eleitas por mais de cinco milhons de pessoas.

As políticas ultra-conservadoras do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) sob Erdogan levarom ao aumento da violência contra as mulheres na Turquia durante a última década e meia. Nom só membros de alto nível da administraçom, incluindo o próprio Erdogan, rejeitam frequentemente a igualdade entre mulheres e homes em favor de atitudes que normalizam a cultura da violaçom, a violência de género e a misoginia, o AKP lança ainda ataques físicos explícitos às mulheres e pessoas LGBTI +. O estado hipermilitar nom só pune coletivamente a comunidade curda como separatistas, terroristas ou conspiradores contra o Estado, retrata as ativistas curdas como “mulheres más”, prostitutas vergonhosas e violadoras do núcleo da família.

Historicamente, a violaçom e a tortura sexual, incluindo os “testes de virgindade” post-mortem, tenhem sido utilizados polo Estado turco para disciplinar e punir os corpos das mulheres como observou Anja Flach no seu livro Frauen in der Kurdischen Guerrilla que nom está ainda traduzido do alemao. Nas prisons, as mulheres som submetidas a buscas íntimas para humilhá-las sexualmente. Recentemente, soldados tiraram as roupas dos cadáveres de militantes curdas e compartilharam essas imagens nas mídias sociais. Outro vídeo brutal mostrou que o exército turco disparava contra mulheres guerrilheiras na cabeça e as atiravam dos penhascos da montanha. Os rifles GermanG3 usados no vídeo ilustram a cumplicidade ocidental nestes crimes de guerra.

Embora essas atrocidades fossem frequentemente cometidas secretamente nos anos 90, compartilhar imagens nas mídias sociais é umha nova tentativa de desmoralizar a resistência das mulheres e demonstrar o poder do Estado. Estes métodos som semelhantes aos que comete o ISIS ao outro lado da fronteira e violam todas as convençons de guerra. Abusar sexualmente de umha mulher ativista, que ousa desafiar a hegemonia masculina, tem como objetivo quebrar a sua força de vontade e impedir o ativismo. Os ataques a mulheres políticas devem ser lidos neste contexto.

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Umha mulher curda que protestava contra o exército turco em Kerboran no ano passado. Imagem: Zehra Dogan / JinHa.

Muito antes dos principais meios de comunicaçom estarem sob fogo na Turquia, as repórteiras de Jinna, a primeira agência de noticias de mulheres do Oriente Médio, foram atacadas. Comprometidas com um objetivo explicitamente feminista no seu trabalho, as trabalhadoras de Jinha expuseram os crimes do Estado sob umha perspectiva de gênero. Agora Jinha está proibida e várias dos seus membros na cadeia.

O HDP é o único partido de oposiçom progressista de esquerda na Turquia com umha agenda baseada na protecçom dos direitos seculares, da diversidade, pró-minorias, pró-dereitos das mulheres e LGBT e ecológicos. Tem, de longe, o maior percentual de mulheres nas suas fileiras. Mesmo sem o sistema de co-presidência, umha política do movimento de liberdade curdo que garante a liderança compartilhada entre umha mulher e um home, a grande maioria das alcaldes estam nas regions curdas. Através de umha luita de décadas, especialmente encorajada polo líder curdo preso Abdullah Öcalan, o papel ativo das mulheres na política é umha parte normal da vida no Curdistam de hoje.

As mulheres do HDP e do DBP nom encarnam idéias burguesas da política representativa e do feminismo corporativo. Quase todas as políticas atualmente sob ataque passaram algum tempo na prisom, foram sujeitas a brutalidade policial, tortura sexualizada, tentativas de assassinato ou algum tipo de tratamento violento por parte do Estado. Elas estam sempre na vanguarda dos protestos contra o Estado e o exército.

As mulheres também forom actores significativos no processo de paz iniciado por Abdullah Öcalan com o Estado turco em Março de 2013. Todas as reunions na Ilha Prisiom de Imrali incluíam mulheres. Em 2014, Öcalan recomendou que as mulheres fossem representadas nas reunions como umha força organizada, e nom apenas como indivíduos. Assim, Ceylan Bagriyanik se juntou às reunions como representante do movimento de mulheres. A Declaraçom de Dolmabahce, a primeira declaraçom conjunta entre as partes em conflito, incluiu a libertaçom das mulheres como um dos dez pontos para a justiça e a paz duradoura. O Estado e os meios de comunicaçom forom incapazes de dar sentido à insistência do movimento curdo sobre a centralidade da libertaçom das mulheres no processo de paz.

Nós enfrentamos a puniçom coletiva para passar o limite eleitoral o mais elevado no mundo que exige que um partido político ganhe polo menos o 10 por cento do voto nacional para entrar no parlamento. As nossas cidades forom arrasadas, nossos seres queridos assassinados, queimados vivos, bombardeados, atirados ou espancados até a morte. O nosso património cultural e meio ambiente forom eliminados para sempre, nossos deputados arrastados nas ruas, nossos prefeitos substituídos por administradores governamentais contra a nossa vontade, nossos meios de comunicaçom censurados, as nossas mídias sociais bloqueadas. Ao destruir a possibilidade de políticas pacíficas e legais dentro dos marcos democráticos, a Turquia deixou os curdos sem outra opçom senom a da autodefesa. As instituiçons internacionais, sobretudo a Uniom Européia, falharom ao povo curdo em apaziguar a Erdogan. Em outras palavras, os governos ocidentais apoiam a eliminaçom sistemática de um dos mais fortes e radicais movimentos de mulheres no mundo.

A filosofia do movimento das mulheres curdas propom que todo organismo vivo tem os seus mecanismos de autodefesa, como a rosa com as suas espinhas. Este conceito nom é definido em um sentido físico rigoroso, mas inclui a criaçom de estruturas autônomas de autogoverno para organizar a vida social e política. A protecçom da própria identidade contra o Estado através da autodefesa é parcialmente possibilitado pola construçom de instituiçons políticas auto-suficientes.

Em umha época em que os corpos nus das mulheres som expostos nas mídias sociais polo exército e as candidatas eleitas estam sujeitas à tortura polo Estado capitalista-patriarcal, as mulheres estam luitando para demostrar que a sua honra nom está para ser definida polos homes porque a honra nom fica entre as pernas das mulheres; reside na nossa resistência, na cultura de resistência estabelecida polas pioneiras do nosso movimento. As nossas políticas encarceradas som as que defendem essa honra.

Desde a prisom, a co-presidente do HDP Figen Yüksekdag enviou esta mensagem: “Apesar de todo, eles nom podem erradicar a nossa esperança ou quebrar a nossa resistência. Seja na prisom ou nom, o HDP e nós, ainda somos a única opçom da Turquia para a liberdade e a democracia. E é por isso que eles tenhem tanto medo de nós. Nom, nem um só de vos, deixede-vos desmoralizar; Nom deixar cair a sua guarda, nem enfraquecer a resistência. Nom esqueçades que este ódio e agressom está enraizada no medo. O amor e a coragem ao final vam ganhar. “.

Dilar Dirik 34Dilar Dirik, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. O seu trabalho analisa o papel da luita das mulheres na articulaçom e construçom da liberdade no Curdistam. Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

Publicado em Opendemocracy.

 

 

Turquia: caminho à ditadura e a responsabilidade de Ocidente

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Thanassis Stavrakis AP / Press Association Images

Por Mehmet Ugur

As recentes detençons dos co-presidentes e deputados do HDP som outro episódio perigoso no caminho turco rumo a umha ditadura absoluta.

Imos parar de fingir o contrário: a Turquia está agora sob um regime ditatorial estabelecido passo a passo sob o olhar e com o apoio tácito dos governos e instituiçons ocidentais. As forças curdas e democráticas dentro do país estam pagando um preço muito alto, nom só por causa da brutalidade da governante AKP por umha combinaçom de políticas econômicas neoliberais e islamismo político, mas também polo fracasso dos governos e instituiçons ocidentais para ler corretamente o roteiro e desenvolver umha resposta de princípio. A falha de hoje do Ocidente é semelhante ao apaziguamento de Hitler na década de 1930.

No momento da redaçom, polo menos 11 deputados do Partido Democrático do Povo (HDP), incluindo os co-presidentes Figen Yuksekdag e Selahattin Demirtas, forom detidos e a sede do partido invadida. Estas atrocidades seguiram-se de longas interrupçons da Internet na regiom curda. Trata-se de umha puniçom coletiva em grande escala com o objetivo de espalhar o medo entre a povoaçom em geral. Pode-se apenas imaginar como um membro da OTAN e um candidato a UE podem interromper comunicaçons, transaçons comerciais e serviços públicos, incluindo provisons de saúde sem qualquer desafio dos governos ocidentais.

Seguindo o Autoritarismo crescente do AKP

O sistema multipartidário turco tinha sido um verniz para um regime essencialmente centralizado e autoritário desde 1947. O regime sempre oscilou entre eleiçons parlamentares e golpes militares. A vitória eleitoral do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) em 2002 foi apresentada como um avanço. No entanto, o AKP logo se tornou um arquiteto do autoritarismo crescente e atuou recentemente como parteira de um golpe frustrado. Esta trajetória tem estado sustentado por uma crença islamo-calvinista na economia de mercado que ressoa com os dogmas econômicos neoliberais. Exige a adesom a umha ordem política islâmica em que as eleiçons som dispositivos para confirmar aqueles que estam no poder, e nom meios de responsabilizá-los e garantir os direitos das minorias.

De feito, a transiçom para o atual regime ditatorial começou em 2005, logo depois que a elite do AKP sentiu-se confiante de que tinham apoio suficiente para a concepçom de democracia de Recep Tayyip Erdogan. Em março de 2005, menos de seis meses depois de umha vitória eleitoral municipal, Erdogan marcou manifestaçons contra a brutalidade policial contra as mulheres em Istambul como “euro-informadores” – isto é, traidores cuja lealdade é para as potências estrangeiras e nom para o Estado turco. Esta declaraçom iniciou um processo de 10 anos de consolidaçom autoritária, durante o qual toda dissidência política foi equiparada a traiçom e conspiraçom.

A primeira vítima desse processo de consolidaçom forom as instituiçons de boa gestom de governança. Entre 2005 e 2015, a Turquia permaneceu no 50% dos Indicadores de Governança do Banco Mundial. A qualidade da governança caiu ao 48%  e ao 35% no que se refere à informaçom e à responsabilidade; E do 28% ao 10% em relaçom à estabilidade política. A sua classificaçom quando se trata do Estado de direito estagnou em torno do 57% e eventualmente caiu para cerca do 50% até 2016. Escândalos de corrupçom em grande escala envolvendo funcionários do governo e os seus apoiadores políticos forom encobertos e aqueles que os expuseram forom silenciados.

A liberdade de imprensa foi reduzida ano após ano. De acordo com dados da Freedom House, a Turquia era “parcialmente livre” em relaçom à liberdade de imprensa em 2005. Em 2015, tornou-se “nom livre”. Em 2016, o ambiente legal e político da liberdade de imprensa na Turquia foi do 10-15%, um dos piores do mundo.

A Turquia nunca foi conhecida pola liberdade acadêmica. A tutela estatal sobre o sistema de ensino superior foi consagrada tanto na Constituiçom como na Lei do Ensino Superior. Os acadêmicos sempre forom forçados a seguir a linha do governo sob sucessivos governos do AKP; E aqueles que assinarom umha carta pedindo paz e monitoramento internacional da violência do Estado nas cidades curdas foram perseguidos desde o final de 2015.

Após o fracassado golpe de julho de 2016, dezenas de milhares de acadêmicos e educadores forom demitidos e o presidente recebeu o poder de escolher todos os vice-reptores das universidades públicas, levando a umha atmosfera de medo sem precedentes no sistema. De acordo com o relatório de 2016 da Scholars at Risk, as açons do governo turco “prejudicaram a reputaçom do setor de educaçom superior da Turquia como um parceiro confiável para projetos de pesquisa, intercâmbios de ensino e estudo e conferências e reunions internacionais.”

Apesar das pressons políticas internas e das recomendaçons dos advogados internacionais de direitos humanos desde 2005, sucessivos governos do AKP evitaram negociaçons de paz significativas com os curdos. Por fim, entre junho e a segunda volta das eleiçons de novembro de 2015, o governo do AKP usou a violência orquestrada polo Estado para silenciar o Partido Democrático do Povo ( HDP). Após as eleiçons de novembro, o AKP desencadeou um ataque militar sem precedentes contra os curdos, destruindo povos e cidades, matando civis inocentes e provocando uma onda maciça de deslocamento interno. O uso ilícito e desproporcionado da violência estatal foi documentado num relatório da Human Rights Watch e reconhecido polo Comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa.

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11 deputados do HDP foram detidos o 4 de novembro de 2016, incluindo os co-presidentes Demirtas e Yuksekdag. Imagem de Lefteris Pitarakis AP / Press Association Images.

Mais recentemente, o governo do AKP prendeu e emprissionou os co-alcaldes de Diyarbakir (Amed), a maior cidade curda, alegando que eles eram membros de umha organizaçom terrorista. As provas contra eles consistem em discursos que figeram a favor da autonomia local democrática e da prestaçom de serviços municipais para o enterro de combatentes do PKK mortos em confrontos armados com as forças de segurança. Isto é, apesar do feito de que os serviços de enterro estam entre os deveres e responsabilidades dos municípios em toda a Turquia. Os co-alcaldes foram detidos e enviados para a cadeia na prisom de Kandira Tipo F, na província de Izmit – a mais de 800 milhas [ quase 1.300 km] de Diyarbakir!

Além de dezenas de meios de comunicaçom ser encerrados nas últimas duas semanas de outubro de 2016, o governo do AKP ordenou a invasom do principal jornal da oposiçom Cumhuriyet e as casas dos seus jornalistas, editores e administradores. Atualmente, 15 jornalistas e altos executivos do jornal estam sob custódia policial sem acesso a avogados.

A repressom geral após o golpe fracassado é implementada através de decretos sob o estado de emergência. Embora o artigo 15.º da Convençom Europeia dos Direitos Humanos (CEDH) prevê derrogaçons à Convençom nos estados de emergência, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos continua a ser a autoridade final para determinar se as medidas tomadas durante o estado de emergência estam em conformidade com a Convençom. Esta última prevê claramente que as derrogaçons sejam estritamente necessárias e proporcionadas. Mesmo no início do estado de emergência, o Comissário para os Direitos Humanos declarou que o primeiro decreto suscitava questons muito graves de compatibilidade com a CEDH e com os princípios do Estado de direito, mesmo tendo em conta a derrogaçom em vigor.

Desde entom, o alcance, a modalidade e a arbitrariedade das açons do governo e o estado de decretos de emergência pioraram além de qualquer cousa que os últimos governos turcos figeram.

Este estado de terror nom pode ser justificado invocando derrogaçons da CEDH sob o estado de emergência. Em França, foi introduzido um estado de emergência, mas os controlos e contrapesos necessários foram instituídos polo poder judicial, polo Parlamento francês, pola Instituiçom Nacional dos Direitos Humanos e polo Valedor do Povo. Além disso, as medidas adoptadas polo Governo francês forom muito mais limitadas do que as da Turquia. Neste último, o Parlamento é totalmente disfuncional, o judiciário sob o control total do governo, que já tinha introduzido legislaçom que garante a imunidade das forças de segurança para as suas açons na repressom contra os curdos.

Em geral, o regime atual na Turquia tem as características de um regime ditatorial. Erdogan e a AKP, juntamente com os militares, estam construindo defesas que faram com que o regime seja totalmente inexplicável e talvez irreversível. Umha dessas defesas é a prestaçom de umha cultura de turbas civis nos meios de comunicaçom, mesquitas, bairros, universidades, etc. Esta cultura da multitude consiste em: (i) demonizar e criminalizar todos os adversários políticos; (ii) incentivos centrados no estado de linchamento político através de vários meios, incluindo prisons, ataques de negócios, campanhas de hostilidade cibernética e mediática, ódio étnico e religioso contra os curdos, alevis e outras minorias, incluindo a comunidade LGBTQ; (iii) as exigências da reintroduçom da pena de morte, para as quais Erdogan declarou apoio várias vezes após o fracassado golpe; E (iv) as teorias de conspiraçom que apresentam a Ocidente como o inimigo da Turquia.

O outro nível de defesa é a transiçom para um “sistema presidencial unitário” no qual o presidente nomearia o Judiciário, os reitores universitários, e estaria no control do aparelho de segurança. É muito provável que seja adotado em breve, com o apoio dos deputados do AKP e do Partido de Açom Nacional (MHP).

A implosom do sistema mundial unipolar como fator explicativo

Dado que as evidências acima som de conhecimento comum, é seguro assumir que os governos e instituiçons ocidentais também tenhem conhecimento da deriva ditatorial na Turquia. Isso levanta duas questons: (i) por que a sua resposta foi silenciada; E (ii) teriam sido capazes de responder de forma diferente?

A resposta a ambas as perguntas reside na crise do sistema mundial unipolar que os Estados Unidos, com a Europa, estam tentando estabelecer desde o colapso da Uniom Soviética. Com exceçom da década de transiçom na década de 1990, os EUA foram totalmente infrutíferos em se estabelecer como um poder de monopólio. Por outro lado, os políticos europeus tiveram que andar na linha, sem quaisquer benefícios visíveis, com exceçom da falsa sensaçom de poder que no Reino Unido levou ao Brexit. Esse triste resultado tem sido associado ao custo humano e à ruína econômica no Iraque, na Líbia e na Síria; E com percepçons contínuas de insegurança apesar da expansom oriental da OTAN.

A falha foi devida a três fatores: (i) a ascensom da China e da Rússia como sérios candidatos para o estatus de potência mundial; (ii) o alto preço que as potências regionais, como a Turquia, a Arábia Saudita, a Índia, etc., exigiram o seu papel como subcontratas no projeto; E (iii) o surgimento de grupos terroristas islâmicos transnacionais das cinzas da destruiçom causada por intervençons ocidentais visando a mudança de regime. A combinaçom destes factores levou a dous resultados. Primeiro, o projeto do sistema mundial unipolar provou ser a experiência de vida mais curta da política mundial. Em segundo lugar, as incertezas atuais sobre como passar a um sistema multipolar forom associadas a custos, que podem ser esperados ser ainda mais altos a menos que os eleitorados desafiem os dogmas políticos prevalecentes no Ocidente.

Visto desta perspectiva, o silêncio do Ocidente contra o autoritarismo crescente na Turquia nom pode ser explicado polo medo dos refugiados sírios ou como um preço para garantir a luita da Turquia contra o ISIS. Estas som apenas manifestaçons de um mal-estar mais profundo – isto é, a obsessom com a idéia de um sistema unipolar – que se baseou em duas falácias: (i) crença na supremacia dos sistemas econômicos e de segurança ocidentais; E (ii) a crença na capacidade deste último de escolher seus aliados de um conjunto de atores secundários, como a Turquia, para alcançar os objetivos regionais.

Hoje, ambas as crenças provaram ser infundadas: o sistema econômico ocidental tem entregue altos níveis de desigualdades de renda e riqueza dentro do país, e mais fragilidade; O sistema de segurança, por outro lado, tem beneficiado apenas a indústria de armamento para um aumento do apetite para gastos militares sem reduzir os riscos de segurança percebidos. Em suma, o investimento no projeto do sistema mundial unipolar tem sido verdadeiramente desastroso para o público ocidental, que financiou o projeto quer por meio de baixos salários para a maioria ou por aumento de encargos fiscais sobre os assalariados de renda média.

A incapacidade dos governos ocidentais de reagir eficazmente ao autoritarismo crescente na Turquia pode e deve ser lida a partir desta anomalia subjacente. Os EUA e a Europa nom tiveram influência sobre a Turquia porque esta última (como outras potências regionais emergentes) estava disposta a apoiar as ambiçons de um sistema unipolar apenas em troca de aumentar a sua influência no Oriente Médio. Os EUA e a Europa concordaram com este acordo, preparado clandestinamente junto com “especialistas” embutidos de academicismo.

Parte do acordo tem sido apresentar a Turquia como um modelo para o Oriente Médio, apesar da crescente evidência de autoritarismo e degradaçom institucional. Quando o argumento ‘modelo’ perdeu a sua credibilidade após o fracasso do golpe, o oeste começou a medir o “valor” da Turquia com umha nova moeda: a estabilidade do regime. É por isso que tanto o Secretário-Geral do Conselho da Europa, Thorbjørn Jagland, como o ex-comandante supremo da OTAN, James Stavridis, apelaram a um apoio ocidental mais forte ao governo turco – com pouca ou nengumha atençom ao risco de violaçons dos direitos humanos. O estado de emergência. Este foi um indicador nauseabundo de até que ponto o poder superou o justiça na formaçom da política externa no Ocidente.

Consciente deste arranjo, o governo turco tem: (i) reforçado a sua política externa sectária e intervencionista em relaçom à Síria e ao Iraque; (ii) forneceu armas a organizaçons terroristas como Al-Nusra, fechando os olhos às atividades do ISIS dentro e fora de suas fronteiras; iii) adoptou umha abordagem hostil ao movimento político curdo na Turquia e na Síria; E (iv) suprimiu todas as fontes potenciais de dissidência doméstica.

Ao fazê-lo, a elite do AKP desfrutou de umha mistura de apoio tácito e explícito dos governos e instituiçons ocidentais, que criticaram mutavelmente e seguiram umha sólida confirmaçom da importância estratégica da Turquia como aliada.

A política de apaziguamento, no entanto, foi um tiro pola culatra. A Turquia é agora um passivo e nom um ativo para a segurança ocidental. As suas açons no Iraque e Síria foram além do apoio ou cumplicidade com grupos terroristas e começaram a sinalizar ambiçons irredentista que complicam os objetivos de Ocidente na regiom. A Turquia também está jogando a carta russa para empurrar os EUA e os decisores políticos europeus para apoiar a sua ambiçom de destruir a realidade curda emergente na Turquia e além. A próxima fase pode muito bem ser uma situaçom em que a Turquia “aumenta” a responsabilidade da ameaça à segurança europeia – principalmente devido a níveis mais elevados de instabilidade política sob um regime ditatorial.

Já é tempo de que os governos e instituiçons ocidentais confessarem ao seu público e admitir que a política de apaziguar a Turquia em troca do seu apoio à idéia do sistema unipolar implodiu. Também é altura de admitir que o Ocidente perdeu o argumento moral contra a Rússia. Nom é preciso subscrever umha concepçom benigna do regime russo para ver que é a Rússia quem defende a adesom ao direito internacional no combate ao terrorismo. Além disso, é a Rússia quem defende das intervençons unilaterais que visam a mudança de regime, cujas consequências foram: (i) a proliferaçom de redes terroristas transnacionais; (ii) perda de vidas e ruína econômica nos países afetados; E (iii) a imposiçom de contas de guerra ao público ocidental cujas inseguranças percebidas apenas aumentaram.

Assim, é necessário e racional para o eleitorado ocidental parar de legitimar e financiar as falácias sobre um sistema mundial unipolar, que só levaram a níveis mais elevados de insegurança econômica e existencial. Em vez disso, devemos forçar os nossos governos e instituiçons a participar de um debate genuíno, nacional e internacional, sobre como avançar para um sistema mundial multipolar no qual as pessoas – e nom os estados estrangeiros com os seus próprios interesses e agendas – estam capacitadas para combater tendências e práticas autoritárias nos seus próprios países.

O novo regime exige regras mais rígidas contra as intervençons unilaterais, um mandato mais forte para as Naçons Unidas e um regime de direitos humanos mais eficaz que nom seja esvaziado polo excepcionalismo regional / cultural. Em resumo, precisamos de umha transformaçom semelhante em escala à experiência pós-guerra de construçom de instituiçons internacionais. Devemos empurrar para este cálculo nom só para mostrar solidariedade com os luitadores contra o regime ditatorial na Turquia, mas também para aumentar a chance de um sistema democrático, secular, igualdade de gênero e justo na Turquia e em outros lugares.

Mehmet Ugur é professor de Economia e Instituiçons e membro do Greenwich Political Economy Research Center (GPERC) no Departamento de Negócios Internacionais e Economia , da Universidade de Greenwich.

Publicado em Opendemocracy.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Turquia diante de um possível aumento das tensons étnicas

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Manifestantes acenam bandeiras com a imagem do lider curdo preso Abdullah Ocalan durante umha manifestaçom em Istambul, o 15 de fevereiro de 2015.

Os medos estam crescendo na Turquia sobre o aumento das tensons étnicas entre turcos e curdos. O país está no meio de umha onda de nacionalismo turco na sequência do fracassado golpe de estado de julho, ao mesmo tempo, os rebeldes curdos do PKK intensificarom a sua campanha militar pola autonomia.

A perigosa combinaçom de forças em conflito estouparom em violência no início deste mês, na cidade do Mar Negro de Sinop. Dúzias de turcos, armados com paus e coitelos, invadirom o bairro curdo da cidade, atacando os moradores e destruindo as vitrines, com “cantos nacionalistas turcos.” A luita, que viu dúziaas de feridos, foi tal que as forças de segurança turcas forom forçadas a declarar um toque de recolher . Um apagom dos mídias sobre a história seguiu rapidamente.

A seguir o incidente de um trabalhador da construçom curdo foi queimado vivo por um companheiro de trabalho em Istambul, so uns dias antes queixara-se à sua família que era objetivo dos nacionalistas turcos por ser curdo. A imprensa local também relatou que um trabalhador do naval  foi atacado e hospitalizado em Istambul por supostamente falar curdo na rua por um telefone.

Ertugrul Kurkcu, deputado do parlamento com o principal partido pró-curdo da Turquia, o HDP, dixo que os ataques som parte de umha alarmante tendência causada pola onda de nacionalismo turco que está sendo alimentado polo presidente Recep Tayyip Erdogan e o seu governante partido AKP.

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Militantes das YBS (Unidades de Defesa Civil) em Nusaybin, Bakur, 1 de março de 2016.

“Tayyip Erdogan chama ao extermínio total do PKK, e isso é refletido polos mídias pró-AKP e, se es nacionalista, a única soluçom que você achas é decapitar aos políticos da oposiçom e ativistas curdos e esse ódio está crescendo. E isso, inevitavelmente, provoca raiva e, em umha noite, a turba podem iniciar ataques de linchamento em toda as cidades do Oeste da Turquia nos bairros curdos. “, dixo Kurkcu.

Kurkcu é deputado por Izmir, a terceira maior cidade da Turquia, situado na parte oeste do país. Izmir, como muitas cidades, tem umha grande minoria curda, muitos dos quais fugiram dos combates no sudeste devastado pola guerra do país. Izmir também é um bastiom tradicional do nacionalismo turco e a base do poder da principal oposiçom laica, o Partido Republicano do Povo (CHP).

Na sequência do golpe militar falhido de julho, o Presidente Erdogan, que por pouco escapou com vida, procurou tirar partido sem precedentes entre os partidos de oposiçom ao golpe de Estado, através da criaçom de um consenso sob a bandeira turca.

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Pessoas usam os seus telefones celulares para tirar fotos antes do discurso do presidente Recep Tayyip Erdogan na manifestaçom pola Democracia e os Mártires em Istambul, 7 de agosto de 2016.

“A única estratégia é consolidar essa aliança sunita nacionalista do 60 por cento dos Turcos”, observa o colunista político Kadir Gursel do jornal Cumhuriyet da Turquia. “Mas isso nom é um passo sensato; ele irá gerar umha dinâmica da polarizaçom, que vai gerar mais e mais conflitos e fortalecer os sentimentos separatistas “.

Muitos curdos juntarom aos turcos e forom às ruas para se opor ao golpe de Julho; mas, Erdogan, na sequência da tentativa de golpe, excluiu o líder do HDP pró-curdo, Selahattin Demirtas, das conversas entre os partidos, chamando-o um torcedor do terrorismo. A exclusom de Demirtas ‘foi seguida pola intensificaçom das operaçons militares do PKK contra as forças de segurança, matando dúzias.

O primeiro-ministro Binali Yildirim descartou a possibilidade de qualquer soluçom política para o conflito que ja dura décadas, prometendo, como todos os seus predecessores nas últimas três décadas, aniquilar o PKK.

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Um homem prende umha bandeira das YPG, durante um protesto contra o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan na frente da Brookings Institution, em Washington, onde Erdogan falava, 31 de março de 2016.

O ciclo de violência está definido para escalar ainda mais, com Ankara lançando umha incursom militar na Síria, tendo como objetivo nom, ou nom só Estado islâmico, mas as YPG, que di que som o ramo sírio do PKK. “O PKK vai intensificar os seus ataques dentro”, adverte Aydin Selcen, um ex-diplomata turco que atuou extensamente na regiom. “Na Turquia, as cousas podem-se sair de control, especialmente no Sudeste. Nesse caso, nom imos estar de volta ao processo de paz. Vai ser muito difícil prever o que vai acontecer.”

“Como vimos na crise de Kobanî, a povoaçom curda politizada na Turquia é muito sensível”, di o colunista Gursel. No outono de 2014, os curdos manifestarom-se por toda a Turquia em apoio dos combatentes curdos sírios que defendiam a cidade de Kobanî, que se enfrentava a ser invadida polo Estado islâmico. Para acabar a agitaçom, que causou 31 mortes, o governo foi forçado a recorrer ao líder preso do PKK, Abdullah Ocalan.

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Protesta contra as autoridades turcas durante o Festival de Primavera nas celebraçons do Newroz, no centro de Hannover, Alemanha, 19 de março de 2016.

Em face da renovaçom das tensons étnicas, Ankara, em um movimento amplamente interpretado como um gesto cara a minoria curda, permitiu que Ocalan fôsse visitado polo seu irmao, a sua primeira visita em mais de um ano. O deputado Kurkcu di que ambos os lados precisam agir e afastar o país do precipício.

“O ódio recíproco está crescendo e se as cousas evoluem assim, e nom há esperança de que seja possível umha vida em comum das diferentes nacionalidades e etnias, em um  futuro próximo, em seguida, os sinos de guerra civil estaram a soar. Esta é umha situaçom muito, muito arriscada.”

Dorian Jones

Publicado em Voa.