A incursom em Síria significa a Guerra perpétua da Turquia contra os Curdos

vinheta01Por Hawzhin Azeez

Nas últimas horas informaçons emergerom que o exército turco está bombardeando a aldeia de  Til-Emarne (al-Amarne) de Jarablus com fogo de artilharia e avions e também ataca às SDF em Ain Diwar (leste de Rojava) e Afrin (oeste Rojava). Fontes curdas relatarom que dúzias de civis foram feridos e mortos. A incursom da Turquia na Síria já confirmou o que muitos pensavam que era, umha agressom contra os curdos.

A propaganda pro-turcaa é abundante, afirmando que Jarablus foi “libertada” polo exército turco sem derramamento de sangue, em oposiçom às “YPG” – o que implica que as YPG som um exército invasor e selvagem que mata e assassina pessoas inocentes desnecessariamente, em oposiçom ao mais “legítimo” exército turco. Mas a realidade é que nom houvo “luita” para libertar Jarablus porque claramente havia um acordo entre o ISIS eTurquia. A relativa facilidade com que a Turquia tomou Jarablus suscitou importantes questons estratégicas e políticas. Por que combateu o ISIS tanto para manter Kobane ou Manbij mas nom Jarablus? Por que atravancarom-se, pugerom centos de minas e armadilhas em toda Kobanê e Manbij, perderom milheiros dos seus combatentes envolvidos em umha guerra de guerrilha e luitarom pola território casa por casa, rua por rua, mas nom há sinais das suas estratégias em Jarablus? Por que abandonarom tam facilmente e sem derramamento de sangue Jarablus?

Talvez a resposta pode ser encontrada em que os combatentes do ISIS forom vistos simplesmente trocando as suas roupas polos ‘uniformes’  dos geupos que apoia Turquia?

Seja qual for a verdade, a este respeito, a realidade é, o cerne do acordo ISIS eTurquia foi que após a perda espetacular de Manbij,  estrategicamente era melhor permitir que Turquia controlara Jarablus, o que efetivamente cortaria a possibilidade de uniom entre os cantons de Kobane e Cezire com o cantom de Afrin e estabelecer a “zona tampom” que a Turquia levava tempo procurando. Deixando nesse processo que o ISIS se recupere e contine os seus ataques em Afrin, no leste e sul do cantom de Kobane e em Cezire, o sudoeste de Rojava, norte da Síria. Esta estratégia também envolve o aumento de ataques suicidas e carros-bomba em Cezire, enquanto a inexistência de um corredor humanitário imposto pola Turquia e apoiado polo governo de Barzani na KRG (norte do Iraque) assegura um ambiente de pressom para as zonas autônomas assediadas.

Agora, existem sugestons de que a Turquia e os seus co-conspiradores estam decididos a “libertar” Manbij utilizando a presença das YPG como um pretexto para a guerra -quando é bem sabido que as YPG deixarom a cidade, so os conselhos locais das Forças Democrâticas da Síria e o Conselho Militar de Manbij, composto por luitadores locais quedarom lá. Este processo descarrila eficazmente o argumento de que os curdos estam “apropriando terras”, por nom mencionar que as Forças Democráticas da Síria (SDF) tenhem um grande número de árabes e outros grupos etno-religioso que se juntarom na libertaçom das cidades sob o control do ISIS, e os quais forom os responsáveis da libertaçom de Manbij.

Mas a história se repete novamente, entom pretensa guerra da Turquia sobre o ISIS na Síria com o nome de “Escudo do Eufrates”, é simplesmente umha tentativa mal disfarçada para atacar os curdos, como foi o caso no ano passado, quando em vez de atacar o ISIS atacou o PKK nas montanhas de Qandil no Curdistam do Sul. Naquela época, também os EUA tinham combinado com os curdos para o acesso à base militar de Incirlik (Adana). Mas agora as implicaçons geoestratégicas desta incursom na Síria som muito maiores do que o conflito turco-curdo. Aludindo a isto, o primeiro-ministro da Turquia, Binali Yildirim, afirmou que a invasom da Síria basea-se em “defender a integridade territorial da Síria” – mas o governo de Assad condenou fortemente a incursom como umha clara violaçom da sua soberania; pois reflete as aspiraçons crescentes da Turquia para a liderança e hegemonia regional.

A ascensom do neo-otonomanismo da Turquia foi apoiado pola absoluta incapacidade da Europa em lidar com o fluxo de pessoas na Europa, resultando, paradoxalmente, no fluxo de milheiros de milhons de euros cara Turquia para “parar os refugiados”. À vez, a Turquia respondeu transportando os refugiados de volta a território sírio, atirando, matando, e batendo nos refugiados na fronteira com a Síria. Ainda mais paradoxalmente, os EUA ajudarom e incitarom a Turquia na sua invasom e violaçom da integridade territorial da Síria e a entrada em Jarablus com apoio aéreo, apesar do feito de que a Turquia tem sido aliada com a filial de Al-Qaeda, Jabhat Fatah al-Sham (antes Al Nusra) e o ISIS na Síria e Turquia. A recente visita de Joe Biden e as declaraçons de começos desta semana em apoio da Turquia aludiu à presença da Turquia na Síria sendo umha idéia a longo prazo. A consequência resultante era umha invasom apoiada polos EUA de Jarablus, quando menos de umha semana antes os EUA estavam a fornecer apoio aéreo para a libertaçom de Manbij às SDF. Enquanto isso pode ser visto como umha mensagem clara dos EUA aos curdos, esta mudança de aliança também deve ser vista como um lembrete oportuno para que os curdos mantenham a integridade ideológica e militar e continuem nom alinhados com qualquer umha das partes em conflito.

A invasão do Jarablus é também um reflexo da recente reforço do poder político de Erdogan e o seu controle do país após a recente tentativa fracassada de golpe. Os EUA tem recompensado a Erdogan pola enorme purga de militares e civis que ocorreu e reafirmou o férreo control sobre o país, fornecendo cobertura aérea para a sua invasom da Síria. Os EUA estam alinhando-se claramente com a autocracia de Erdogan, talvez em umha tentativa equivocada de controlar a situaçom na Síria, evitando “soldados em território inimigo”, um erro que fjá cometeu na invasom do Iraque em 2003 e que lhe custou muito em diversas maneiras .

Mas os EUA está muito enganado se acredita que pode manter umha guerra delegada na Síria e controlar o regime cada vez mais inestável de Erdogan. O visível envolvimento de Iram, Arábia Saudita e os seus estados aliados menores complica mais a situaçom geopolítica. Do mesmo modo, a UE permanece completamente paralisada desenrolar umha abordagem coerente e concisa em relaçom à Turquia, nom só à luz da recente invasom, o tratamento cada vez mais abusivo dos refugiados na Turquia, mas também as violaçons dos direitos humanos contra as minorias, como os curdos, alevitas e outros, que estam ocorrendo na Turquia.

Em vez de conter a Turquia e apoiar continuamente aos curdos e as Forças Democráticas da Síria (SFD , nas suas siglas em inglês, umha combinaçom de árabes, curdos, armênios, assírios e outros grupos étnico-religiosos), na luita e rejeiçom do ISIS – algo que tenhem feito com sucesso- os EUA ea UE continuam a mostrar fraca vontade, escolhendo o que parece ser a  realpolitik sobre a política ética e democrática. No entanto, esta abordagem é questionável, considerando a ampla opiniom pública global e o feito inegável que, até à data, forom as forças mais bem sucedidas na eliminaçom do ISIS, mas também na criaçom de regions pacíficas, inclusivas e democráticas.

O que está claro é que os curdos estaram em um estado de guerra perpétua para os tempos vindouros, tanto se o conflito inclui a Turquia, o ISIS ou as suas outras filiais, a Assad, ou a todos simultaneamente. Parece que a situaçom de paz para os curdos passou a significar um estado perpétuo de resistência e auto-defesa. Mas se há umha cousa que o último ano tem demonstrado, é que os curdos som muito bons na arte da guerra e na auto-defesa. Sem mencionar que nos últimos anos o terrorismo de Estado e os abusos contra os curdos já nom podem permanecer ocultos, o que levou a umha condena crescente do terrorismo de Estado da Turquia e o apoio ao regime polos EUA e a UE. Isto, combinado com o suporte global visível para as forças curdas e as SDF na sua heróica resistência contra o ISIS asseguram um interesse internacional contínuo e a visibilidade da questom.

O que está claro é o próximo movimento na Turquia: a invasom e desestabilizaçom de Rojava com ataques contra o três cantons e “recuperar” o território para os seus aliados islamistas. A açom militar e estratégica mais difícil dos curdos ainda está por vir.

Hawzhin AzeezHawzhin Azeez tem um doutorado em Ciência Política e Relaçons Internacionais. Ela é defensora dos direitos das mulheres e dos refugiados. Está atualmente trabalhando na reconstruçom de Kobane através do Conselhode  Reconstruçom de  Kobane.

Publicado originalmente por Kurdish Question.

 

 

A política anti-alevi da Turquia nos tempos do Estado Islâmico

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Mulheres Alevi-curdas resistem às políticas insidiosas de assentamentos de refugiados do Estado turco em Terolar. Foto: Kurdish Question

Por Dilar Dirik

Os alevis som parte central do movimento de libertaçom curdo e da política de esquerdas e progressistas turcas.

Sob a autoritária, sectária-conservadora política do presidente turco e o seu partido o AKP, Turquia prendeu de refém a Uniom Europeia ao instrumentalizar o sofrimento dos refugiados sírios. El continua a fortalecer o seu governo uni-pessoas com a sua guerra contra o terror paranóico em que, paradoxalmente, junta o movimento curdo, o Estado Islâmico, acadêmicos, setores do exército, e o seu ex-mentor e colaborador Fethullah Gülen em um bloco monolítico.

Parte do plano de Erdogan é opor as comunidades umhas contra as outras para se livrar dos eventuais componentes étnicos, religiosos, ideológicos, sociais ou políticos que poidam desafiar o seu projeto profundamente sectário neo-otomano que consiste em apontar à povoaçom Alevi do país.

Desde março de 2016, os moradores das aldeias Alevi-curdas em Kahramanmaraş ou Maraş (Gurgum em curdo) estiverom a resistir activamente as políticas de assentamentos do estado. O Estado turco quer construir um acampamento da Presidência de Desastres e Gestiom de Emergência de Turquia, ou AFAD, ao redor do val da vila de Terolar – que som principalmente sunitas árabes da Síria. Enquanto fornece umha imagem impecável para o mundo exterior, estes campos de refugiados patrocinados polo Estado geralmente fornecem aos jihadistas um refúgio seguro para o tratamento, recrutamento e abrigo. Casos de abuso sexual e tráfico de seres humanos som amplamente relatados. Para estes acampamentos forom amplamente analisados os lugares onde o AKP conscientemente mobiliza os refugiados para a sua própria agenda política e ideológica. O acampamento planejado em Terolar deveria acolher umha povoaçom de refugiados maior do que a povoaçom local.

As incansáveis manifestaçons dos moradores de aldeias como Terolar e além, que percebem umha perigosa agenda por trás deste novo plano de liquidaçom, forom defrontados com violência policial durante meses. Em umha medida bastante inteligente, o governo e os seus meios retratarom essa resistência legítima como sentimentos anti-refugiados dos moradores, quando na realidade isso é parte de um projeto maior do AKP para incitar conflitos comunitários e impor dramáticas alteraçons demográficas para as regions curdas para os seus próprios ganhos económicos e políticos usando aos refugiados.

Umha história das massacres alevitas

A fim de compreender o significado da resistência em Maras, é importante conhecer a profundamente enraizada história genocida do Estado turco moderno contra a comunidade Alevi-curda, um legado anterior à administraçom abertamente religioso-sectária de Erdogan, apesar das pretensons seculares dos governos anteriores.

A negaçom e aniquilaçom sistemática daqueles que nom som turcos-e-sunitas constituiu um pilar fundador da naçom-estado turco – nom importa quanto isso enquadrada na imagem em termos progressistas, seculares. Assim, os genocídios contra os armênios, gregos pônticos, assírios e curdos – especialmente os Jazidis e alevitas – forom fundamentais e até mesmo existenciais para o paradigma “modernidade” deste estado artificial violentamente imposto , que encontrou um bode expiatório diferente em cada década, em coordenaçom com os militares, a extrema-direita e fundamentalistas islâmicos.

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Marcas em umha casa alevi

Enquanto algumhas massacres ocorrerom como campanhas de linchamento patrocinadas polo Estado ou mortes de indivíduos alevitas, outras forom planejadas operaçons de limpeza étnica em grande escala por parte do Estado. Durante décadas, “marcarom” as casas alevitas como objetivos para ataques de ódio e demonizaçom do modo de vida Alevi através de mitos urbanos, negaçom, mentiras e propaganda sendo umha constante na agenda do estado. A eliminaçom sistemática e islamizaçom forçada do pensamento, cultura, história e valores Alevis que mostram características ecológicas, comunitaristas, anti-autoritarias e muitas vezes centradas nas mulheres som motivaçons profundamente ideologicas, em quanto a filosofia Alevi incorpora umha oposiçom ao Estado autoritário, capitalista e patriarcal.

Em 1938, a cidade alevi-curda de Dersim foi implacavelmente bombardeada, matando mais de 15.000 civis, depois de umha grande revolta do povo, liderados por Seyît Riza, um respeitado líder tribal e figura política. Entre os pilotos de combate estava a filha adotiva do fundador da república turca Mustafa Kemal,  Sabiha Gökçen, pola que tem o nome o terceiro maior aeroporto da Turquia. Glorificando-a como a primeira piloto de combate feminina no mundo e a primeira mulher piloto na Turquia é umha das muitas tentativas por parte do Estado para cobrir as suas medidas genocidas com a narrativa da modernidade: umha mulher turca moderna bombardea aos curdos atrasados – umha história de modernizaçom perfeita.

Umha das maiores massacres contra os alevitas-curdos tivo lugar em 1978 em Maraş, o mesmo lugar onde o Estado tenta instalar os refugiados árabes sunitas hoje. Em um clima político já tenso cheio de confrontos entre esquerda e direita, antecipando o infame golpe militar de 1980, umha violenta matança varreu Maraş, onde casas alevitas foram atacadas, queimadas, e as pessoas assassinadas nas ruas. Mais de 100 pessoas forom assassinadas e para os alevitas, ficou claro que as autoridades contra-guerrilha do estado tinham provocado os ataques. Após este trauma colectivo, dez milheiros de pessoas fugirom para outras partes da Turquia e Europa. Muitos deixarom de ensinar aos seus filhos curdos por medo e lentamente assimilar-se como um meio de auto-preservaçom.

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Ataque a alevitas no 1993 no Hotel Madimak em Sivas

A era pós-golpe estivo marcada por muitos incidentes, ecoando a grande massacre de  Maraş. Em 1993, umha multitude de linchadores fascista islâmistas atacou o hotel Madimak em Sivas, onde pensadores, artistas, escritores e intelectuais estavam-se preparando para um festival cultural Alevi. A polícia turca, na época secular, observou e, em alguns casos, até mesmo ajudou a multitude fascista que primeiramente atirou pedras ao hotel antes de prender-lhe lume, com o resultado de 33 alevis asfixiados ou queimados vivos e muitos feridos.

Os sangrentos acontecementos do bairro em grande parte alevi de Gazi em Istambul, em Março de 1995 foram mais um episódio de assassinato e violência contra os alevitas, os curdos em geral, e de esquerdas, executado por direitistas e islamistas, patrocinado polo Estado. A polícia disparou às cegas às multitudes de pessoas que se manifestarom pola massacre em Gazi. Ataques, linchamentos, marcaçons de casas para os ter em vista e as perseguiçons de alevitas em Gazi continuam ate hoje.

Como esta cronologia nom exaustiva mostra, militares laicos kemalistas, ultra-nacionalistas de extrema-direita e islamitas conservadores na Turquia sempre deixam as suas diferenças à parte e unem forças contra aqueles a quem veem como ameaças ao autoritário: um Estado, umha bandeira, umha naçom , umha língua, umha doutrina religiosa que eles tenhem em comum, com pequenas diferenças. Por meio de seu islamismo claramente político, Erdogan acaba de traer esse legado a um novo nível, ajudados pola ascensom do Estado Islâmico.

Mas há também umha longa história de resistência. Os alevis som parte central do movimento de libertaçom curdo e da esquerda e as políticas progressistas turcas. Sobretudo as mulheres alevi-curdas, que sofrerom mais que os homes esses ataques violentos, amplamente juntarom às fileiras dos diferentes grupos políticos e, especialmente, no Partido dos Trabalhadores do Curdistam, ou PKK, desde os inícios. Enquanto líder política secular, o movimento de libertaçom curdo sempre enfatizou a repressom histórica específica e as políticas genocidas contra grupos como os alevitas, Jazidis, e armênios na Turquia.

Sakine Cansiz, umha das co-fundadoras do PKK e figura de proa do movimento de mulheres curdas assassinada o 9 de janeiro do 2013, em Paris, juntamente com Fidan Dogan e Leyla Saylemez, era umha mulher alevi-curda. Fidan Dogan, também era umha mulher alevi-curda, de feito era de Maraş.

Dado esse contexto histórico, a questom da legítimidade surge em Maraş hoje como a razom pola qual o governo do AKP, que afirma repetidamente ter o 50 por cento da povoaçom do seu lado, parece nom encontrar lugar para os refugiados sunitas nos seus baluartes, mas ao invés disso, considera necessário estabelece-los no meio de zonas de povoaçom alevi-curdo, que ainda estam sob a sombra das massacres e traumas passados.

É fundamental compreender que a raiva entre os alevitas nom está dirigida contra os refugiados, mas contra as motivaçons tão sutis como insidiosas do Estado. Os moradores da aldeia de Terolar ponhem ênfase nas suas manifestaçons de que a sua comunidade, que está bem familiarizada com o significado da guerra, deslocamento, desenraizamento e ameaças existenciais, som solidárias com os refugiados sírios que precisam de asilo, mas luitam contra o governo que aproveita a miséria humana para impor novamente um genocídio cultural contra os alevitas. Receiam que as tentativas do Estado de incitar o conflito por motivos religiosos asentando refugiados árabes sunitas nas regions curdo alevitas, e para obrigar os alevitas deixar as suas casas. Considerando que o Governo turco recebeu 6 mil milhons de euros da Uniom Europeia para ajudar aos refugiados e a imensa quantidade de recursos que o Estado e o exército destinam à destruiçom das cidades curdas, resultando na massacre de centos de civis, nom parece que os recursos, logística e meios económicos constituam um problema para a política de assentamentos de refugiados prevista por Erdogan.

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Protestos em Saras

Mudança demográfica, desenvolvimento capitalista e guerra total

Dentro deste contexto, as motivaçons ideológicas, políticas e religiosas das políticas anti-alevitas do estado parecem óbvias. No entanto, nom se podem entender esses desenvolvimentos sem considerar os interesses políticos e econômicos a longo prazo do AKP que tenta alcançar através de mudanças demográficas.

Desde o Verao do 2015, o Estado turco lançou umha cruel campanha militar no Curdistam, que nom só matou centos de civis em frente aos olhos da comunidade internacional, mas também destruiu sistematicamente casas, lugares históricos significativos e infra-estruturas. Logo, torna-se claro que um dos objectivos do Estado é criar edifícios da Administraçom para o Desenvolvimento de Habitage (TOKI) nestas áreas, gentrifica-los ou instalar os refugiados sírios lá, depois de aniquilar os curdos destas regions. Este é especialmente o caso do distrito de Sur de Amed (Diyarbakir), que é património mundial da UNESCO e que foi transformado em pó e cinzas polo exército turco, forçando a mais de vinte mil pessoas a fugir. Ao mesmo tempo que  extermina fisicamente os habitantes dessas áreas, re-ajustes de infra-estrutura radicais e a elitificaçom do turismo impom umha segunda medida genocida sobre eles aniquilando a sua cultura da face da terra.

Além disso, Erdogan há muito que insinua a concessom aos refugiados sírios da cidadania turca para angariar apoio na regiom e mobilizar potenciais votos. Ao mesmo tempo, que ameaça despojar os “simpatizantes dos terroristas”, umha descriçom que abrange um amplo espectro de pessoas, incluindo acadêmicos, da sua cidadania. O objetivo deste duplo movimento é claro: umha grande mudança demográfica lado-a-lado com ambiciosos projectos de infra-estruturas capitalistas para recolonizar economicamente o Curdistam.

Ademais opor os refugiados contra os curdos em geral e os alevitas em particular, é umha questom muito delicada que o AKP tenta explorar para os seus próprios ganhos. É fácil acusar alguém de racismo anti-refugiados aos que resistem essas táticas especiais de guerra quando estas incluem a construçom de campos de refugiados. O assentamento de  refugiados sírios em áreas específicas e até mesmo prometer-lhes a cidadania é umha estratégia inteligente de Erdogan para subornar Europa, aumentar a sua popularidade com o bloco sunita-conservador na regiom, e engaja-se em um ataque genocida cultural e físico em grande escala sobre todo mundo que nom combina com a sua narrativa neo-otomana – especialmente as pessoas que prejudicam o casamento entre nacionalismo turco e islamismo conservador.

É por isso que é impossível analisar as políticas de refugiados da Turquia isoladas da sua guerra total com o Curdistam como regiom e a cultura alevi em particular.

Da mesma forma, nom é realista tratar o assassinato físico dos curdos do plano mestre económico neoliberal do AKP, combinado com a sua nostalgia imperial. Assim como as leis militares e decretos governamentais que legitimarom a devastaçom militarista de Dersim, em 1938, os bloqueios  militares e matanças  extrajudiciais em lugares como Cizre, Nusaybin, Yüksekova, Sur e Silopi hoje som continuaçons da síntese turca da política nacionalista, militarista, capitalista, patriarcal e religiosa. Dentro do espírito do ISIS, Erdogan está promovendo umha mudança demográfica mortal no Médio Oriente, atacando a culturas antigas que incluem identidades e estilos de vida ecológicos e centrados nas mulheres. O feito de que especialmente as mulheres estam na vanguarda da resistência em Terolar é ilustrativo do apego das mulheres alevi-curdas para as suas terras e os valores ecológicos associados a elas.

A UE é cúmplice nessa guerra quer através da vendas de armas dos Estados individualmente a Turquia, quer através do silêncio sobre as violaçons dos direitos humanos e o fascismo mália ser bem conscientes, ou através dos futuros interesses de investimento económico e jogos de guerra. Os chamados “valores europeus” estam a ser vendidos no tráfico e mercados sexuais de escravos humanos na Turquia, no trabalho de crianças refugiadas, na contínua perda de património cultural mundial, e no mar Mediterrâneo, o cemitério conjunto europeu-turco de milheiros de refugiados afogados.

A renúncia aos refugiados polos mesmos estados, instituiçons e sistemas que tenhem causado todas essas guerras é umha vergonha para todos os que crem na liberdade, a democracia e os direitos humanos. Mas desde o ponto de vista dos oprimidos, a resistência e auto-defesa continuam.

Nas palavras de Seyit Riza, que liderou a rebeliom alevi-curda na Dersim e foi executado polo Estado turco em 1937: “Eu nom podia lidiar com os seus truques e mentiras, isso volveu-se um problema para mim. Mas, eu nom me ajoelhei frente sua. Que isso lhes quite o sono”.

Dilar Dirik 34Dilar Dirik, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. O seu trabalho analisa o papel da luita das mulheres na articulaçom e construçom da liberdade no Curdistam. Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

Publicado em TeleSurtv.

 

Campanha do HDK-Europe contra o acordo UE-Turquia

HDK-eHDK-Europe iniciou umha petiçom contra os acordos entre a UE e a Turquia, principalmente o acordo de imigraçom, em umha conferência de imprensa realizada na capital da Alemanha, Berlim. Ativistas reunirom-se no “Haus der Demokratie und Menschenrechte ‘para a campanha com o lema “Di nom ao acordo com a Turquia. Polos direitos humanos, a democracia e a paz! Protege os valores democráticos!”. A  Co-porta-voz  do HDK Gülistan Kılıç Koçyiğit, Alex Kalk da Initiativa HDK-Europe, o co-presidente do KCDK-E Yüksel Koç, Tobias Pflüger de Die Linke e a Membro do Parlamento do Estado Die Linke de Hamburg Cansu Özdemir participarom da reuniçom. Representantes de outras instituiçons também estavam presentes na reuniom em que os ativistas chamarom a fim das massacres de Turquia no Curdistam e criticarom os países da UE polo seu silêncio.

logo02 “O ACORDO VAI CONTRA A CONVENÇOM EUROPEIA DOS DEREITOS HUMANOS

Kalk da Iniciativa HDK-Europe falou sobre a história da fundaçom do HDP Europa e dixo o seguinte sobre a campanha: “O HDP Berlin iniciou esta petiçom em maio. Conseguirom 2.500 assinaturas até à data. Com esta conferência de imprensa, espalha-se esta campanha à escala europeia. Este acordo inclui o retorno dos migrantes que chegam à Europa a Turquia. Este acordo vai contra as leis de asilo e imigraçom. E iniciamos a campanha aqui hoje para amosar a nossa recusa a este acordo.”

Kalk também se referiu ao reconhecimento do Parlamento Alemam do Genocídio Armênio: “Com esta decisom, eles realmente confessaram a sua própria culpa. Porque o estado alemam tivo a sua participaçom nesse período também. Enfrentarom o seu crime e aceitarom um crime histórico. Esta decisom é positiva. Como umha pessoa arménia da Turquia, quero que se fale dos crimes e massacres, nom só as do passado. Caso contrário, estas decisons seram só um show “.

Tobias Pflüger de Die Linke apontou a relaçom entre a UE e a Turquia: “Este acordo nom é umha soluçom. Isto vai totalmente contra os direitos humanos e a lei. Este acordo tem de ser abandonado imediatamente. ” Pflüger criticou as massacres que comete Turquia no Curdistam norte.

 “As assinaturas seram entregadas no final do mês de Setembro

O Co-Presidente do KCDK-E Yüksel Koç informou sobre a campanha: “Neste momento, 58 organizaçons da Turquia e o Curdistam na Europa, incluindo Alevis, Jazidîs, muçulmanas, grupos religiosos assírios e diferentes grupos confessionais estam levando esta campanha. Desenvolve-se na Alemanha, Reino Unido, França, Bélgica, Holanda e outros países europeus. Organizaram-se comissons nas cidades e povos. A campanha será em 6 línguas europeias. Os esforços nas instituiçons europeias, as ONG e partidos políticos continuará até finais de setembro. Iamos apresentar essas assinaturas com manifestaçons, especialmente na Alemanha, aos parlamentos dos respectivos países e outras instituiçons.

 PONTOS DA CAMPANHA

1- Rematar o sujo acordo com a Turquia! Rematar com a transferência de fundos e armas e outros apoios logísticos e militares para o regime Erdoğan.

2- O governo da Turquia deveria ser sujeito a pressom diplomática, ao invés de ser dada promessas de adesçom plena à UE num futuro próximo. O estado de terror e a guerra em Turquia devem acabar, e a democracia e a paz deve ser assegurada!

3- Acabar com a pressom sobre as organizaçons curdas na Europa servendo aos interesses da Turquia! O PKK, que defende as diferentes identidades e religions no Oriente Médio contra o ISIS, deve ser removido da lista de organizaçons terroristas.

4- Pleno cumprimento da Declaraçom da ONU dos Direitos Humanos e a Convençom dos Refugiados de Genebra! Deve ser respeitada a a dignidade humanados milheiros de Refugiados que tiverom que abandonar os seus fogares.

5- Abrir um corredor humanitário para Rojava e deve garantir-se o retorno daquelas pessoas que desejam regressar ao Curdistam.

Plano de Erdogan para os curdos: Destruir, Reconstruir, pacificar

Plano ErdoganSur é um distrito no sudeste da Turquia, umha parte da capital curda de Diyarbakir, que foi exposta a um toque de recolher desde 02 de dezembro de 2015. As primeiras fotos de Sur, ou “Amed”, como acostumam a chama-la os curdos polo seu nome histórico, que romperam o embargo notícias do país revelou a extensom da destruiçom: edifícios demolidos, casas crivadas de buracos de bala, lojas saqueadas, corpos mortos na ruas, e igrejas e mesquitas destruidas em um distrito que é conhecido como o centro histórico da cidade.

Umha cousa ficou certa: o Estado turco nom impujo toques de recolher, mas bem colocou cidades inteiras sob cerco militar. Sur é apenas um exemplo do que vem ocorrendo em toda a regiom curda depois que o presidente Recep Tayyip Erdogan acabou com a processo de paz com o Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), umha organizaçom guerrilheira que luita pola autodeterminaçom curda na Turquia há mais de 40 anos. Nom só Erdogan encerrou o processo de paz com o PKK, precário mas prometedor, mas também alimentou umha campanha de linchamento contra os curdos, as vozes de oposiçom, meios de comunicaçom críticos e, acima de todo contra o pró-curdo HDP, Partido Democrático do Povo.
Tudo como consequência do importante retrocesso do seu partido nas eleiç0ns gerais do 7 de Junho do 2015, onde subiu o apoio social do HDP e o seu sucesso eleitoral negou o AKP de Erdogan a maioria absoluta necessária, a fim de apresentar o seu ansiado sistema presidencial autoritário.

O governo, de maos dadas com os militares, lançou as chamadas “operaçons de limpeza” contra supostos membros do PKK imediatamente depois, mas na verdade direccionada aos civis curdos em um ato de puniçom coletiva. Desde entom, nom só o número de mortos subiu cada dia, mas bairros inteiros forom destruídos, o que causou deslocamentos significativos da povoaçom.

Como figeram anteriormente em outras cidades, as pessoas do Sur forom sistematicamente deslocadas. Eles fugiram ou foram forçadas a deixar as suas casas quando o cerco foi logo levantado por algumhas horas – a última vez o 11 de dezembro. Hoje, apenas cerca de 1.000 dos 28.000 habitantes de Sur ficarom para trás; muitos deles feridos e presos em edifícios destruídos, à espera da fim do cerco.

O 5 de fevereiro, o governo revelou um plano de açom de 10 etapas destinado a “reparar” a Turquia do sudeste, que destruiu, e que foi, de acordo com o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, “demolido polos terroristas que começaram um incêndio.” O plano envolve pagamentos de compensaçom, consultas públicas com guardas das aldeias que funcionam como milícia curda pró-governo, bem como a construçom de torres de segurança à prova de balas em distritos urbanos.

O conceito do governo da guerra, que inclui o seu plano mestre pós-operaçons, é nada menos que umha tentativa de separar os residentes locais dos espaços que historicamente habitarom, forçando a dependência económica e criar povo obediente esmagado para aceitar a submissom.

“Imos juntar a conciência da naçom e a sua sabedoria com a razom de Estado. Todas as divergências entre a naçom e o estado serám completamente eliminadas, e obteremos com isso um entendimento que vai ligar e integrar a naçom”, dixo Davutoglu ao apresentar o plano de acçom.
Curiosamente, quase ao mesmo tempo que a mídia pró-governo ofereceu manchetes como “O terror deve ser respondido com TOKI” ou “TOKI de volta ao trabalho”. TOKI (Administraçom Massiva da Vivenda) é o órgao estadual de habitagem que atua diretamente sob o primeiro ministro desde o 2003. Apesar de ser umha empresa pública activa oficialmente, TOKI tornou-se, essencialmente, em umha grande agência de privatizaçom que administra as vendas de propriedades e edifícios públicos a entidades comerciais privadas, daí que terreos públicos estam sendo usados como o seu capital principal e principalmente para projetos de habitagem de luxo que som oferecidos aos contratantes selecionados.

Em 2011 TOKI já tinha começado com o trabalho de demoliçom em Sur depois que o presidente Erdogan declarara que “novos projetos” para Diyarbakir seram implementados para torná-lo “atraente para o turismo internacional.” No entanto, em 2013, as obras de construçom foram paradas por forças da oposiçom local, principalmente os concelhos gestionados polo HDP que proibiram novos projectos de construçom arbitrária.

O regime de Erdogan é bem conhecido polas suas políticas neoliberais baseadas principalmente em dous pilares focados no lucro: a construçom e a energia. Portanto, parece menos surpreendente quando o primeiro-ministro Davutoglu anunciou publicamente “Reconstruiremos Sur para que se pareza a Toledo! Todo mundo vai querer vir e apreciar a sua textura arquitectónica”, sem mencionar as possibilidades de retorno para os moradores deslocados.

O governo nom duvidou em declarar que distritos curdos enteiros estavam sob um risco de segurança, em vez de avaliar os danos que tinha sofrido cada edifício por separado. Isto significa que o TOQUI é independente por lei na tomada de decisons sobre o início dos trabalhos de construçom nas áreas que foram declaradas “inseguras”. Agora, os projetos habitacionais de luxo e a construçom de edifícios de alto nível som apresentadas polas autoridades estaduais, bem como som apoiados polos jornais pró-governo, para luitar contra o “crime e o terror.”

A idéia é construir novas residências em massa nos arredores da cidade, para oferecer empréstimos a umha taxa reduzida para os residentes deslocados, bem como para dar novas oportunidades de emprego, portanto, para criar umha nova relaçom baseada na dependência económica entre os cidadaos curdos pobres e o estado turco. Desta forma, o estado cria todas as condiçons para começar umha  etapa como o principal salvador neste conflito.

A mentalidade rentista do governo do AKP sempre foi entendida em termos de “crescimento económico”, o Estado turco, entretanto, tem umha longa história do mesmo tipo de práticas de engenharia social levadas a cabo para obter ganhos políticos assimilacionistas.

Até hoje, o Estado turco sempre tentou integrar e homogeneizar regions dissidentes do seu território em umha corrente cultural comum ao invadir os seus espaços tradicionais, desconstruindo-os e criando outros novos e controlados. Depois da massacre de Dersim em 1938, que seguiu a umha revolta curda contra a repressom do Estado, a povoaçom curda restante foi redistribuída por várias outras cidades do Estado turco. O mesmo aconteceu na década de 1990, quando os militares turcos queimarom 4.000 aldeias curdas, para que toda a povoaçom rural do Sudeste foi deslocada e forçada a emigrar para as cidades. Em ambos os casos, foi o Estado turco quem tentou domesticar os que resistiram contra as políticas agressivas de turquificaçom.

Selma Irmak, co-presidenta do Congresso da Sociedade Democrática em Diyarbakir (DTK), destacou em um dos seus discursos durante a sua visita à Alemanha em janeiro que o Estado turco está pondo toda a sua energia em ” eliminar tudo o que resta do sentimento curdo” na regiom.

As paisagens som ideologias que tenhem umha forma concreta, onde as identidades som criadas e reproduzidas através de espaços particulares. As cidades que estam expostas a cerco militar hoje nom só som redutos eleitorais do HDP, mas também som conhecidas por umha longa história de dissidência e resistência. Praças, monumentos, ruas, áreas residenciais e edifícios históricos que já foram cuidadosamente restauradas polo município do HDP em prol de criar um lugar tranquilo da existência cultural inter-religiosa e interétnica forom alvo – parece quase que de forma intencional – de fortes bombardeios das equipes de operaçons especiais turcas.

O regime de Erdogan acredita que a estratégia de pacificar a povoaçom com a promessa de casas de luxo em guetos de construçom nova na cidade terá êxito, mas a história mostra que nunca o tivo, da mesma maneira que o demonstram as pessoas que defendem as suas vidas atrás das barricadas e trincheiras contra o exército turco em Sur e em todos os outros bairros e cidades curdas sob cerco, que som as mesmas pessoas que foram deslocadas nos 90.
Plano Erdogan 02Em uma entrevista publicada polo jornal curdo Özgür Gündem o 25 de fevereiro, Faisal Ayaz, de 87 anos, resume o sentimento das pessoas no Sudeste: “Sur é meu amor, minha filha, meu muro, minha existência, minha nom-existência. Pense em uma mae que nom pode colher a sua filha no colo. Pola mesma razom, nom podo deixar Sur.”

Rosa Burç, 25 anos, é estudante pre-doutoral e Assistente de Investigaçom no Department of Comparative Government, da Universidade de Bonn. A sua investigaçom é sobre Estados-Naçom e Teorias do (pós-Nacionalismo).

Publicado Por Telesur.

 

A Europa nom tem umha crise migrante, tem umha crise síria

Por Joe Dyke

Imaginem que a Síria nom existe – que a guerra nunca aconteceu. De repente a crise migratória da Europa já nom parece tam ruim.

Os dous países da UE que recebem a grande maioria das chegadas de barcos som a Itália e a Grécia.

Na Itália, o número de chegadas por mar (principalmente a partir da Líbia) mudou pouco desde o ano passado. De janeiro até o final de agosto, havia 114.000, ante 112.000 durante o mesmo período em 2014, segundo a Organizaçom Internacional para as Migraçons. Isto é ainda mais elevada do que a Europa quer, mas nom um número que um rico bloco econômico de mais de 500 milhons de habitantes nom deveria ser capaz de acomodar.

A grande mudança foi o grande fluxo às ilhas gregas. Até finais de agosto deste ano, as chegadas por mar a Grécia alcançaram os 239.000. Em todo o 2014, houvo so 45 mil. Até final do ano, poderíamos estar olhando para um aumento de dez vezes, com polo menos a metade dessas chegadas de sírios. *

A atual crise migratória da Europa é, essencialmente, a chegada da crise síria para as costas europeias.

Ouvindo o debate no Ocidente, poderias ser perdoado por esquecer que a Síria existe. Algumhas semanas atrás, Matt Hancock, um ministro do governo do Reino Unido, apareceu em umha emblemático debate político na rádio do país. Usando a palavra “imigrante” em vez de “refugiado” por razons óbvias, el falou sobre como o mundo precisava de incentivar a países como o Sudam e a Somália a se desenvolver para que as pessoas nom sentam a necessidade de migrar.

El evitou mencionar a Síria ou Afeganistam, os dous países que produzirom o maior número de refugiados a nível mundial.

A omissom de Hancock, intencional ou nom, é apenas um sintoma de umha tendência mais ampla. De certa forma, o mundo imaginou que a Síria nom existia há anos. Um país de renda média, nom muito longe das fronteiras da Europa foi autorizado a descer até umha guerra civil atroz. Cidades inteiras forom destruídas, cerca da metade da povoaçom fugirom das suas casas, quatro milhons de refugiados sírios estam agora registrados. O processo de paz, por falta de umha melhor expressom, tem sido praticamente inexistente. O secretário de Estado dos EUA John Kerry passou tanto tempo à procura de um acordo palestino-israelense que nunca trabalhou em umha soluçom para síria.

A política ocidental parece ser a de conter tantos refugiados sírios quanto for possível nos países vizinhos e esperar que o problema permaneza longe. Enquanto a Turquia está acomodando 1,9 milhons de sírios, os Estados Unidos estam tomando so entre 1.000 e 2.000 este ano – aproximadamente 0,0005 por cento do total – e a Gram-Bretanha conseguiu realocar apenas 216.

As três D

Ao longo dos últimos anos, quanto a crise na sua terra natal aprofundava, tenho observado a muitos sírios passar por várias camadas de angústia antes de tomar a dolorosa decisom de sair e tentar chegar à Europa.

A primeira etapa foi a denegaçom***. Os sírios estam incrivelmente orgulhosos do seu país e que eu saiba nom queriam sair. Inicialmente, muitas vezes recusavam aceitar a magnitude da crise, movimentando-se internamente dentro da Síria se era necessário.

A segunda fase foi a determinaçom. Quando finalmente fugiram para países vizinhos, todos estavam desesperados para fazer o trabalho para que eles poidessem voltar para casa o mais rápido possível. Em 2012 e mesmo em 2013, os refugiados com quem falei esmagadoramente acreditava que seriam apenas umha questom de tempo – apenas o necessário para sobreviver nos próximos meses.

Finalmente, veu o desespero. No Líbano, os refugiados sírios foi-lhes recentemente proibido trabalhar. Na Jordânia, nunca forom autorizados a fazê-lo. Em Turquia também está começando a limitar a liberdade de movimento dos refugiados. A resposta humhanitária – sempre apenas um esparadrapo sobre umha ferida aberta – tem sido devastada pola escassez de financiamento. Quatro anos e meio depois do início do conflito, as esperanças de voltar, extinguirom-se, para a maioria dos refugiados sírios. Mesmo que a guerra acabasse amanhá, milhons nom tenhem casa a que regressar. Com um futuro sombrio nos países vizinhos, cada vez mais refugiados sírios optam por correr o risco de sair para a Europa, para ter chance de umha vida adequada.

Noha e Omar

Muitos, como a mae solteira Noha **, queria esperar e ir legalmente. Várias vezes ela foi informada por várias embaixadas ocidentais que a decisom relativa o seu pedido de reassentamento era “iminente”. Várias vezes a decisom nunca chegou. O luns, ela tomou um vôo do Líbano para a Turquia com seus dous filhos pequenos. A partir daí, como milheiros antes dela, ela vai tomar o barco de um contrabandista para a Grécia e, em seguida, fazer umha longa viagem por terra para a Europa setentrional, através da Sérvia, Macedônia e Hungria.

Líbano, um país de pouco mais de quatro milhons de cidadans, está hospedando mais de um milhom de refugiados. Até março deste ano – período para o que a Organizaçom das Naçons Unidas tem estatísticas – so 7620 daqueles forom aceites para o reassentamento a outros países.

Esta é a verdadeira questom dirigindo a crise da Europa. Por enquanto Noha nom pode conseguir umha embaixada para lhe dar umha visa ou status de refugiada, ela sabe que se ela chega a porta da Europa, o direito internacional dá-lhe o direito de requerer asilo lá. Os sírios apresentam umha taxa de aprovaçom do estatuto de refugiado quase do 100 por cento em toda a Europa – contanto que eles poidam chegar lá primeiro.

Isto nom só é ilógico, mas profundamente errado quanto o asilo destina-se a serem outorgadas aos mais necessitados primeiro.

Tome Omar. De dez anos é o mais velho de quatro irmaos forçados a sobreviver mendigando nas ruas da maior cidade da Turquia, Istambul. À noite, como os icónicos barcos que cruzam o Bósforo à noite, el corre de volta para o porto. Enquanto fecham as persianas, el e os seus irmaos entram em um barco e tenhem camas sobre as tábuas duras. Omar nunca será capaz de ter o dinheiro suficiente para apanhar o barco para a Europa – o seu futuro está nas ruas.

Se o Ocidente estivera mais aberta a aceitar mais sírios através dos canais formais, como o reassentamento de refugiados, reuniom famíliar e visas humhanitárias, entom talvez nós nom estaríamos vendo tantas famílias desesperadas forçadas a confiar em traficantes para chegar à Europa.

Ao tentar manter a crise dos refugiados sírios cruzando-se de braços esperando que os refugiados vam ficar parados nos países vizinhos, o Ocidente só tornou a crise pior. Sem umha resposta adequadamente gerida, a crise na Síria vai continuar a lavar-se na costa da Europa.

Em BEIRUTE, a 2 de setembro de 2015 (IRIN).

Joe Dyke é editor do Middle East IRIN. El vive no Líbano desde 2011, ano no que a guerra síria começou.
A foto é de András D Hajdú/IRIN.

* A IOM ainda nom tem números de nacionalidade para julho, portanto, as estimativas baseiam-se nos números até o final de junho, quando mais do 55 por cento das chegadas eram de sírios.
** Os nomes estam alterados para proteger suas identidades
*** [Nota de traduçom: Utilizei a palavra denegaçom para manter o significado das tres D que só a nivel metafórico e cacafónico poderia ser traduzido polo inglês denial, negaçom.]

Publicado em IRIN News.

http://www.irinnews.org/report/101948/europe-doesn-t-have-a-migrant-crisis-it-has-a-syrian-crisis