Pacifismo feminista ou passivismo?

Protesta polo #BlackLivesMatter em Nova York o 13 de fevereiro de 2017. Créditos: Erik McGregor / PA Images

Por Dilar Dirik

Quando algumhas mulheres brancas louvam a nom-violência das marchas de mulheres contra Trump e depois posam em fotografias com policias enquanto a violência policial atinge especificamente a pessoas de cor, quando os anti-nazis som acusados de nom ser diferentes dos fascistas, quando feministas em relativa segurança acusam a mulheres militantes no Oriente Médio que enfrentam escravidude sexual sob o ISIS de militarismo, devemos perguntarmos pola noçom liberal da nom-violência que ignoram a interseçom dos sistemas de poder e os mecanismos de violência estrutural. Aderindo-se dogmaticamente a um pacifismo (ou passivismo?) que tem um caráter de classe e racial, e demonizando a raiva violenta anti-sistema, as feministas excluem-se de um tam necessário debate sobre formas alternativas de autodefesa cujo objetivo e estética servem a políticas liberadoras. Em umha era global de feminicídio, violência sexual e violaçons, quem se pode dar ao luxo de nom pensar na auto-defesa das mulheres?

O feminismo desempenhou um papel importante nos movimentos anti-guerra e alcançou vitórias políticas na construçom da paz. A crítica feminista ao militarismo como instrumento patriarcal torna compreensível a rejeiçom da participaçom das mulheres nos exércitos estatais em quanto  “empoderamento”. Mas a rejeiçom generalizada das feministas liberais à violência feminina, sem importar o objetivo, nom distingue qualitativamente entre o militarismo estatista, colonialista, imperialista, intervencionista e a necessária legítima defesa.

A polícia dispara para dispersar manifestantes da Black Lives Matter o 9 de julho de 2016 em Saint Paul para protestar contra o assassinato policial de Philando Castile. Créditos: Annabelle Marcovici / PA Imagens

O monopólio da violência como umha característica fundamental do Estado protege a este das acusaçons de injustiça, enquanto que criminaliza as tentativas básicas das pessoas pola auto-preservaçom. Dependendo das estratégias e políticas, atores nom-estatais som rotulados como “perturbadores da ordem pública” na melhor das hipóteses, ou “terroristas” na pior. A tendência de defender exemplos como Mahatma Gandhi ou Martin Luther King para defender a resistência nom-violenta muitas vezes desdibuja feitos históricos ao ponto de satanizar os elementos radicais e às vezes violentos de umha resistência legítima anticolonial ou anti-racista.

Simultaneamente, a tradicional associaçom da violência com a masculinidade e a exclusom sistemática das mulheres da política, da economia, da guerra e da paz reproduzem o patriarcado através de umha divisom sexual dos papéis no domínio do poder. A crítica feminista à violência baseia-se no bem-intencionado, mas profundamente essencialista, discurso de umha moralidade baseada no gênero, que também pode reproduzir a imagem das mulheres como passivas, inerentemente apolíticas e com necessidade de proteçom. Tal reduçom do gênero nom consegue entender que a inclinaçom à violência nom é inerentemente específica do gênero, mas determinada por sistemas interconectados de hierarquia e poder como demonstra o caso das mulheres brancas americanas que torturom homens iraquianos na prisom de Abu Ghraib.

As mulheres curdas tenhem umha tradiçom de resistência; a sua filosofia da autodefesa varia desde exércitos autônomos de guerrilhas femininas ao desenvolvimento de cooperativas autogeridas de mulheres. Nos últimos anos, as vitórias das Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ) em Rojava-Norte da Síria e das YJA Star do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) contra o ISIS tenhem sido inspiradoras. As mulheres curdas, junto com as suas irmás cristians, árabes e siríacas, libertarom milheiros de quilômetros quadrados do ISIS, criando fermosas imagem de mulheres liberando mulheres. Ao mesmo tempo, elas também estavam construindo os alicerces da revoluçom da mulher dentro da sociedade. No entanto, algumhas feministas ocidentais questionavam a sua legitimidade e a descartarom como militarismo ou cooptaçom por grupos políticos. As narrativas dos meios ocidentais retratarom essa luita de umha maneira despolitizada, exótica, ou fazendo suposiçons generalizadas sobre o desinteresse “natural” das mulheres à violência.  Se a reportagem da mídia era dominada por um olhar masculino, isso se devia em parte à recusa das feministas em se envolver com esse relevante tema. Umha nom pode deixar de pensar que as mulheres militantes que tomam as coisas nas suas maos prejudicam a capacidade das feministas ocidentais de falar em nome das mulheres no Oriente Médio, projetadas como vítimas indefesas, pode ser umha das razons para essa hostilidade.

Credito: YPJ Media Team

A luita das mulheres curdas desenvolveu umha filosofia centrada na mulher de autodefesa e situa-se numha análise interseccional do colonialismo, do racismo, do estatismo-naçom, do capitalismo e do patriarcado. A Teoria das Rosas é umha parte do pensamento político liberador do líder do PKK, Abdullah Öcalan. El sugere que, a fim de chegar a formas nom-estatistas de auto-defesa, precisamos nom olhar mais longe do que a própria natureza. Cada organismo vivo, umha rosa, umha abelha, tem os seus mecanismos de autodefesa para proteger-se e expressar a sua existência – com espinhos, picadas, dentes, garras, etc. nom para dominar, explorar ou destruir desnecessariamente outra criatura, mas para preservar-se e satisfazer as suas necessidades vitais. Entre os seres humanos, sistemas inteiros de exploraçom e dominaçom perpetuam a violência além da sobrevivência física necessária. Contra este abuso de poder, a legítima defesa deve basear-se na justiça social e na ética comunitária, com particular respeito à autonomia das mulheres. Se deixarmos de lado as noçons sociais darwinistas de sobrevivência e competiçom que, sob a modernidade capitalista, atingiram dimensons mortais e concentrarmos-nos na interaçom da vida dentro dos sistemas ecológicos, podemos aprender com os modos de resistência da natureza e formular umha filosofia de autodefesa. Para luitar contra o sistema, a autodefesa deve abraçar a açom direta, a democracia radical participativa e as estruturas sociais, políticas e econômicas autogeridas.

Encostado ao Confederalismo Democrático que lidera o movimento da liberdade curdo, um sistema confederal autônomo das Mulheres Democratas foi construído através de milheiros de comunas, conselhos, cooperativas, academias e unidades de defesa no Curdistam e além. Através da criaçom de umha comuna de mulheres autônoma em umha aldeia rural, a identidade, a existência e a vontade das suas membros encontram a sua expressom na prática e desafiam a autoridade do estado patriarcal e capitalista. Além disso, a autonomia econômica e a economia comunitária baseada na solidariedade através do estabelecimento de cooperativas som cruciais para a auto-defesa da sociedade, garantindo o auto-sustento através do mutualismo e da responsabilidade compartilhada, rejeitando a dependência dos Estados e dos homens. O cuidado com a água, as terras, as florestas, o património histórico e natural som partes vitais da auto-defesa contra o Estado-naçom e a destruiçom ambiental orientada ao lucro.

Defender-se também significa ser e conhecer-se a si mesma. Isso implica a superaçom da produçom de conhecimento sexista e racista que a modernidade capitalista defende e que exclui os oprimidos da história. A consciência política constitui umha luita contra a assimilaçom, a alienaçom da natureza e as políticas de Estado genocidas. A resposta à literatura histórica e socialista positivista, colonialista e centrada no homem é, portanto, o estabelecimento de academias de mulheres de base que promovam epistemologias liberacionistas.

Umha luita sem ética nom pode proteger a sociedade. Aos olhos das mulheres curdas, o ISIS nom pode ser derrotado so polas armas, mas por umha revoluçom social. É por isso que as mulheres Jazidis, depois de sofrerem um genocídio traumático sob o ISIS, formarom um conselho de mulheres autônomo por primeira vez na sua história com o lema “A organizaçom das mulheres Jazidi será a resposta a todas as massacres”, ao lado das organizaçons militares femininas. Em Rojava, ao lado das YPJ, até mesmo as avoas aprendem a lidar com o AK47 e rotam entre si a responsabilidade de proteger as suas comunidades dentro das Forças de Autodefesa (HPC), enquanto milheiros de centros de mulheres, cooperativas, comunas e academias visam desmantelar a dominaçom masculina. Contra a guerra hiper-masculina do Estado turco, as mulheres curdas constituem um dos principais desafios para o governo de Erdogan através da sua mobilizaçom autônoma. Crucialmente, mulheres de diferentes comunidades juntaram-se a elas na construçom de alternativas femininas à dominaçom masculina em todas as esferas da vida. Um conceito de autodefesa alternativo que nom reproduza o militarismo estatista deve ser, naturalmente, anti-nacionalista.

YJÊ é umha milícia de mulheres formada no Iraque em 2015 para proteger a comunidade Jazidi no Iraque e no Curdistam iraquiano. Créditos: Wikicommons

Ao contrário da violência que procura subjugar o “outro”, a auto-defesa é umha completa dedicaçom e responsabilidade para a vida. Existir significa resistir. E para existir de forma significativa e livre, é preciso ser politicamente autônoma. Dito sem rodeios, num sistema internacional de violência sexual e racial, legitimado polos Estados-naçom capitalistas, o grito de nom-violência é um luxo para aqueles em posiçons privilegiadas de relativa segurança, que acreditam que nunca acabaram numha situaçom em que a violência será necessária para sobreviver. Embora teoricamente sólido, o pacifismo nom fala à realidade das massas de mulheres e, assim, assume um caráter do primeiro mundo bastante elitista.

Se as nossas reivindicaçons de justiça social som genuínas, num sistema mundial de interseçom de formas de violência, nos temos que luitar.

Publicado em Opendemocracy

Dilar Dirik é do norte do Curdistam (Administrativamente Turquia). Ela é umha ativista do movimento de mulheres curdas e escreve sobre a luita pola liberdade curda para um público internacional. Está atualmente trabalhando no seu doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.

Recuperando a esperança em Rojava

Recobrando a esperanza 01Por Jo Magpie

Em algum momento a começos de de fevereiro, eu estava animada por receber um convite para participar de umha delegaçom de mulheres a Rojava, a regiom autônoma de-facto de maioria curda no norte da Síria. A delegaçom estava aberta a mulheres jornalistas, ativistas e avogadas, e coincidia com o Dia Internacional da Mulher.

Eu ia com duas pessoas que nom tinha visto antes: Ali, umha amiga de umha amiga, e Kimmie quem eu entrevistara via Skype para o meu livro sobre mulheres caronas [NT: que fam dedo]. Ela já tinha carona em todo África Ocidental sozinha e escrivira em blogs sobre questons curdas e do Oriente Médio recentemente, de modo que parecia ser umha boa candidata para umha aventura. Nengumha de nós tinha qualquer ideia do que esperar, nom realmente. Mas todas nós estavaamos muito abertas, flexíveis e prontas para o desafio.

Precisávamos essa determinaçom e flexibilidade para atravessar a fronteira da KRG – o governo regional curdo no norte do Iraque – para Rojava. Fomos informadas de que a fronteira estava “nas maos pessoais de” Massoud Barzani, o primeiro-ministro, e que seria necessário obter um permisso.

Isto foi incrivelmente difícil, pois ninguém dos que podiam dar o permisso estava a atender o telefone ou e-mail. Para acrescentar a isto, na época em que começamos a planejar a nossa viagem, o Partido Democrático do Curdistam de Barzani, que está aliado com a Turquia, decidiu que a passagem da fronteira estivera fechada para jornalistas freelance. Logo fechada a quaisquer jornalista, com exceçom de representantes de grandes e bem conhecidas agências dos mídia. Desde que estivemos lá, a fronteira foi completamente fechada.

Nós finalmente conseguimos permisso após de dous dias de e-mails e telefonemas desde o nosso quarto de hotel em Zakho, e um dia inteiro de espera em um posto pouco antes da passagem oficial da fronteira, um rio que corta entre os dous países. Nom podedes imaginar a emoçom que sentim naquel barco azul enferrujado enquanto nos movíamos através das águas para a Síria.

Fum fazendo-me cada vez mais cética depois de anos de relaçom com os movimentos sociais: ecológicos, anti-militaristas, feministas, pola democracia, campanhas anti rodovias, anti fracking, contra a expansom dos aeroportos e contra as guerras e as guerras e guerras. O que eu tinha aprendido era esto: podemos fazer pequenas mudanças, podemos ter pequenos sucessos, mas contra o que estamos a luitar é muito maior que nós. Eu aprendim a fazer umha acçom porque era positiva por si mesma, em vez de sonhar com o sucesso. Eu aprendim a nom deixar que a derrota me debilitar. Mas agora, eu estava prestes a ver umha revoluçom com os meus próprios olhos?

ConsegRecobrando a esperanza 02uimos chegar a tempo para o Dia Internacional da Mulher e manifestamos-nos ao lado de milhares de mulheres com vestidos coloridos e ornamentados, gritando e cantando, polas ruas de Derbesi – umha aldeia cortada ao meio pola fronteira turco-síria. “Jin! Jiyan! Azadi! “cantávamos – mulher, vida, liberdade! Muitas das mulheres e meninas levavam bandeiras ou cartazes. Todas elas sorriam para nós com carinho nos seus olhos, até mesmo as mulheres que guardavam a marcha com Kalashnikovs envelhecidos, quem nos beijavam e abraçavam como todas as maes, irmás e avoas que conhecemos naquel dia.

Ao longo dos dias seguintes, tivemos um tour relâmpago de projetos. Visitamos o centro de saúde da mulher em Serekaniye gerido por umha jovem médico da Holanda altamente comprometida, som meios muito escassos, ajudada por três companheiras curdas que está treinando. Entre lidar com pacientes, a Dra. Ronahi respondeu pacientemente às nossas perguntas , sempre sorrindo, alternando entre o curdo, inglês, turco e árabe. “Algumhas mulheres caminham muitas milhas para chegar ao centro de saúde desde as aldeias”, dixo-nos, mentres chegava um pequeno grupo de mulheres com chador preto com as crianças nos braços.

O centro de saúde foi aberto por Weqfa Jina Azad a Rojava, a Fundaçom de Mulheres Livres da Rojava, que tenhem o objetivo de abrir um centro de saúde de mulheres e umha pré-escola em cada bairro, em todas as cidades de Rojava. Também visitamos duas pré-escolas que já abriram, assim como umha academia de mulheres.

Tornava-se óbvio após o primeiro par de dias que tínhamos imensamente subestimado a dimensom desta experiência. Eu tinha sabido sobre as forças armadas de mulheres, enquanto tiveram ampla cobertura nos mídias ocidentais, e tinha ouvido falar muito sobre a força dos movimentos feministas da regiom. Mas o que vimos foi muito além do feminismo tal como o conheciamos.

As mulheres na Rojava tomarom completamente o control dos seus próprios sistemas em todos os aspectos das suas vidas, desde a saúde à educaçom,  da legislaçom a justiça, bem como organizando três forças de defesa separadas e um corpo econômico independente.

Recobrando a esperanza 03Em toda a regiom, a sociedade está a organizar-se em um sistema democrático coordenado que funciona de baixo para cima, como umha árvore. Este sistema é chamado Confederalismo democrático, e vem das idéias de Abdullah Ocalan, o líder do PKK preso em Turquia.

Neste sistema, as pessoas primeiro se reúnem a nível de “comuna” local, que pode incluir umha aldeia inteira ou de 30 a 400 ou mais famílias. As comunas enviam entom delegados eleitos rotatórios ao próximo nível o “conselho de vizinhança”, composto por conselhos de coordenaçom de 7 a 30 comunas. De lá, os delegados vam ao Conselho Popular do Distrito. As decisons som tomadas no nível ao que afetam e todos os representantes som eleitos, com um home e umha mulher em cada posto.

Há comissons para lidar com questons como a defesa, economia e justiça. Há um Conselho da Mulher em todos os níveis, e comissons só de mulheres que funcionam em conjunto com as comissons gerais, tais como a comissom de economia. Kongira Star é a organizaçom guarda-chuva do movimento de mulheres que, como todas as outras comissons e órgaos públicos, está representado no Tev Dem, ou Movimento pola Sociedade Democrática.

Muitas leis forom recentemente aprovadas em Rojava, graças à força do movimento das mulheres. Proibiu-se a poligamia e os casamentos forçados e levarom a idade mínima legal para o casamento a 18 anos. As mulheres agora automaticamente obtenhem a custódia dos seus filhos no caso de divórcio. As mulheres que sofrem umha ampla variedade de questons podem ir para a Mala Jin ou Casa da Mulher. Até agora, existem treze Mala Jin só no cantom Cizire.

Os problemas aos que se enfrontam incluem maridos que tomam segundas esposas, casamentos forçados, questons de herança e violência doméstica. Como casa de justiça, as Mala Jin tenhem umha abordagem de mediaçom, envolvendo discussons entre todas as partes sempre que for possível – um casal, umha família, duas ou mais famílias ou tribos – e encontrar umha soluçom juntos. Em casos graves, as mulheres da Mala Jin podem decidir sobre um castigo para o agressor, como um período de desterro, ou podem mandá-lo para o sistema judicial oficial, onde podem enfrentar prisom, embora as mulheres que entrevistamos no Mala Jin expressaram um forte desejo de afastar-se da prisom e outras formas nom-reparadoras de castigo.

Recobrando a esperanza 04A unidade de economia das mulheres, ou Aboriya Jin, esta envolvida na coordenaçom de cooperativas. Elas digerom-nos com orgulho que acabavam de entregar umha concessom de 700 m2 de terra a um grupo de mulheres para uso em comum. Elas também discutiram o projeto de um banco de sementes que está sendo desenvolvido. Mais tarde, tivemos a oportunidade de visitar umha cooperativa que acaba de ser criada.

O Projeto Casa Verde é um pedacinho de céu no que costumava ser a linha da frente. Este é o lugar onde eu vi árvores e até mesmo umha borboleta por primeira vez na Rojava, e onde o ar é mais limpo. Umha mulher com o encanto travesso e umha energia contagiante mostrou-nos o projeto que ela está montando. Quando tudo funcione perfeitamente, as mulheres de dezoito comunas vam-no assumir e cultivar alimentos coletivamente, como umha cooperativa.

Também estam a criar umha escola para ensinar técnicas agrícolas às mulheres, que tradicionalmente tem sido considerado um trabalho de homes.

Da-se-lhe muita importância à educaçom em todos os níveis de cada sistema. Umha enorme percentagem da povoaçom é analfabeta. A língua curda foi proibida polo regime de Assad na Síria, bem como polo vizinho estado turco e mantinha-se a regiom economicamente pobre. Adicione a isso umha cultura extremamente patriarcal com idéias arraigadas sobre as mulheres e podemos começar a ter umha ideia de quam incrível realmente é essa transformaçom.

As mulheres estam agora a frequentar academias, onde elas aprendem sobre umha ampla gama de temas incluindo a história da regiom, liderança e responsabilidade, ética, legislaçom, políticas democráticas, o sistema de Rojava, auto-defesa legal, a autonomia das mulheres, ecologia e mais. Há aulas sobre a história da mulher, com base nas ideas de Ocalan de que “A domesticaçom  da mulher é a mais antiga forma de escravitude”. Isto é realmente radical. As mulheres na comunas, aldeias e campos de refugiados ensina-se-lhes sobre os seus próprios corpos e sistemas reprodutivos, desafiando séculos de vergonha e auto-ódio. As aulas som participativas, envolvendo discussons e debates em vez da dinâmica tradicional professor-aluno. As classes levam-se para a comunidade e organizam-se nas comunas e conselhos.

As mulheres tenhem as suas próprias forças de defesa separadas em três níveis diferentes, que se desenvolvem paralelamente, mas independentemente das forças masculinas. Além das YPJ – força militar das mulheres, que tem sido objecto de muitos documentários e reportagens ocidentais; há a Asayish, que som frequentemente descritas como umha força policial e as HPC, a força de defesa civil recém-formadas.

Recobrando a esperanza 05A crítica e a autocrítica som incorporadas ao sistema em todos os níveis. As mulheres nas organizaçons que visitamos muitas vezes nos perguntarom: “Tendes algumha crítica para nós? Que poderíamos melhorar? “As mulheres na Jineologia ou “ciência das mulheres” analisa criticamente os movimentos feministas de outros países, bem como outros tipos de sistemas sociais, movimentos de libertação e ideologias, incluindo o feminismo, anarquismo, socialismo e movimentos e idéias libertárias. Elas vêem os movimentos feministas ocidentais como altamente reformistas.

A segunda semana

A nossa segunda semana em Rojava foi muito diferente da primeira. Nós já nom eramos tratadas como visitantes, nom havia mais tours, mas faziamos parte do tecido da Rojava. Estávamos na recém-inaugurada International House, participando das atividades diárias como cozinhar refeiçons coletivas, participando de reunions um pouco longas sobre assuntos domésticos, indo para aulas de língua curda e os eventos sociais ao lado de outros europeus que optaram por viver na Rojava – pessoas que estam fazendo documentários, fundando projectos, pessoas que luitarom ou estam em processo de formaçom para luitar.

Este é o lugar onde eu comecei a entender o que poderia ser a vida em Rojava se eu ficasse.

Todas pensamos na possibilidade de ficar. Para mim, esses pensamentos eram sempre passageiros. Tinha um marido esperando-me de volta para casa, compromissos incompletos e responsabilidades que me faziam impossível ficar, ou polo menos altamente irresponsavel. Ali cambiou de idéia várias vezes, mas finalmente decidiu que nom era o momento de tomar umha decisom tam importante espontaneamente. Mas Kimmie decidiu ficar.

Dizer adeus a Kimmie foi difícil. O dia que marchamos, ela veu connosco no carro enquanto Jiyan – a mulher que tinha sido a nossa tradutora, guia e amiga – levava-nos de volta ao longo da estrada aparentemente interminável, através de umha série de cidades e vilas intercaladas com os mesmos poços de petróleo e paisagem sombria, travessar umhas montanhas e, finalmente, o rio que divide a Síria do Iraque.

Lembro sentir que já não era a mesma pessoa que tinha estado no pequeno barco enferrujado duas semanas antes, que parecia ter sido umha vida atrás.

O dia depois de sairmos de Rojava, a fronteira quedou fechada. Desde aquel dia, ninguém foi capaz de entrar ou sair legalmente, exceto um punhado de profissionais médicos. As pessoas que saem de forma irregular som detidas e presas no Iraque.

Rojava está agora enfrentando umha crise crescente: nom só ensanduichado entre o ISIS, Assad e umha Turquia muito irritada, mas a rota de abastecimento foi cortada e umha fome de grande escala está no horizonte. Os fertilizantes químicos dos quais a agricultura depende estam esgotados e a produçom de graos diminuiu drasticamente. Apenas um terço da colheita de costume de trigo seram produzidas este ano. As importaçons de alimentos e fertilizantes cessarom por causa do embargo. A regiom deve tornar-se completamente auto-suficiente, e rápido.

Alguns amigos em Rojava estam agora captando recursos para um ambicioso projeto para transformar a regiom desde um monocultivo de trigo -dependente dos químicos, em umha cultura agricultura biológica diversificada. O plano é que a regiom produça todo o adubo orgânico que necessita através da recolha de resíduos biológicos das cidades, vilas e fazendas, a par de um programa de educaçom integral para ensinar os  moradores como e por que eles deveriam separar os resíduos.

A minha liçom

Todos esses anos de organizaçom dos movimentos sociais na Europa ensinarom-me que a esperança era inútil ¬ mas estava errada. Há umha verdadeira revoluçom acontecendo agora, neste mesmo momento, e é mais bonita do que eu imaginava possível. Nom é perfeita, nada o é, mas a força, amor e determinaçom das mulheres no Rojava tenhem-me mostrado o que a luita significa realmente. Elas mostraram-me o verdadeiro significado da solidariedade, e elas derom-me esperança.

A gente perguntam-me se eu acho que essa revoluçom vai durar, se terá sucesso. Nom sei o que o futuro trará. Mas sei que esta revoluçom nom só é de baixo para cima, é também de dentro para fora. Esta é umha revoluçom na consciência, nom só na política, e tem transformado a vida de inúmeras mulheres e homens, talvez por incontáveis geraçons vindouras

Em alguns aspectos, a revoluçom já ganhou.

Jo Magpie é umha jornalista freelance e escritora, com umha paixom pola liberdade de movimento, de carona, do Curdistam e mais amplo do Oriente Médio. Entre escrever sobre fronteiras e revoluçons, está trabalhando em um livro sobre mulheres que fam boleia..

Publicado em Opendemocracy. Todas as fotografias som de Jo Magpie quem possue todos os direitos.

Revoluçom de Lapis de Labios

liprevolution3Por Naila Bozo

Um dia, elas som terroristas, ao dia seguinte som femme fatales que luitam ao Estado Islâmico (Daesh). A discussom sobre se as luitadoras curdas som a primeira, a segunda ou umha terceira cousa é dinâmica, e a percepçom pública delas muda facilmente devido à falta de investigaçons a fondo sobre as mulheres reflexadas como seres humanos políticos, as idéias políticas simplesmente nom se retwuiteam tanto quanto umha mulher mata-ISIS. O poder de influenciar a sua imagem está nas maos de quase qualquer pessoa, mas também nas mulheres curdas nas próprias linhas de frente.

Ontem, a estrela de pop curda Helly Luv lançou o seu mais recente vídeo da música chamado “Revolution”. Ele abre com cenas da vida cotidiana em umha aldeia curda, quando de repente acontece umha explosom. Homes, mulheres e crianças caem no chao, mortos ou feridos, enquanto os sobreviventes fogem de um inimigo vestido de preto conducindo um tanque para a aldeia. É em resumo à realidade da vida como tem sido durante meses no Curdistam, no Iraque e na Síria.

Umha única pessoa nom está fugindo dos disparos do tanque: Helly Luv, vestindo tacóns dourados, pulseiras de tornozelo e jóias à cabeça ligada a um keffiyeh vermelho que cobre o rosto com exceção dos fortes olhos. Durante todo o resto do vídeo, ela está dançando em carros abandonados, atirando o inimigo e resgatando umha criança.

O caráter hipersexual de Helly Luv em umha zona de guerra reforça a interpretaçom das luitadoras curdas como umhas femme fatale o que é irônico ja que as suas chamadas na cantiga Revolution é o que as combatentes curdas já estam realizando diariamente e tenhem posto os alicerces há décadas ainda que no vídeo acrescenta às noçons equivocadas das luitadoras curdas.

Um descriçom digerível após o outro tornar umha luita complexa e os seus combatentes igualmente complexos em vários artigos, media metragens e discussons como esta introduçom a “Seven women peacemakers who should be on your radar”: “Quando se trata de mulheres e conflitos, os mídias muitas vezes oferecem duas narrativas. Em um extremo do restritivo espectro, as mulheres som vítimas e sob o cerco – vulneráveis, isoladas, e indefesas. E do outro lado, como evidenciado pola recente cobertura de combatentes curdas na Síria e no Iraque, vemos umha famosa, se nom feticeira, imagem da mulher como guerreira- a sexi, rude empunhando um arma”

É como se as luitadoras curdas deveramm ser entendidas dentro dos limites da seduçom oriental, porque é muito difícil para as pessoas de fora das regions curdas compreendê-las no seu verdadeiro contexto das suas luitas individuais e coletivas. Ao invés de reconhecer um espírito guerreiro inerente às mulheres, som reduzidas a pedaços em umha estratégia mediática e militar construída polo home curdo.

Já houvo acusaçons nos mídias que destacam as combatentes curdas como comunistas bonitas mata-Daesh, um argumento que ignora às mulheres soldados de outras nacionalidades, outro que algumhas dessas combatentes som crianças. Eu concordo com as objecçons, na medida em que a decisom das mulheres curdas para luitar e sua vontade de continuar devem ser interpretadas como específicas a cada mulher e como parte de um longo processo de libertar-se de umha sociedade curda tradicional e dominada polos homes. Elas nom som um instrumento de propaganda e nom devem ser menosprezadas por tais afirmaçons.

Embora o argumento usado por pessoas a milheiros de quilômetros da linha da frente pode ser que as mulheres curdas estam feitizadas e exploradas para efeitos de relaçons públicas, é preciso também considerar que a guerra ofereceu umha maneira para que as mulheres coletivamente e ao mesmo tempo deixaram o rol de dona de casa tradicional, pegar em armas e luitar polas suas crenças; crenças que cobrem tudo, desde o feminismo à proteçom dos direitos humanos à implementaçom da democracia.

É umha preocupaçom legítima que as mulheres curdas sejam retratadas como vítimas, quer terroristas ou sensuais mata-Daesh e, em vez de romper com esta posiçom redutora, Helly Luv e a sua equipe tenhem jogado na fascinaçom bipolar com as luitadoras curdas.

O videoclipe foi concebido para ser um ponto de encontro inofensivo para os curdos para lembrar os caídos e ser inspirador no que já foi um período de pesadelo para nom só o povo curdo, mas o povo sírio e o iraquiano também. No entanto, ele nom provoca essa resposta em mim. Vem transversalmente como umha espécie de revoluçom músical de Lapis de labios devido à sua história simplista amosando umha mulher hipersexual gritando palavras como “unidade” e “revoluçom” e, mais ainda, após um comentário de Helly Luv feito no making of do vídeo e as pessoas que aparecem nos primeiros minutos: “Eu sentim-me tam emocionada filmando esta parte. Todas estas belas pessoas inocentes eram as mesmas pessoas que escaparam do ISIS! Eu nom queria atores. Eu queria que eles contaram a história e a dor que viram e sentiram.”

Eu nom vejo a sua história, nem a sua dor. Eu nom estou  conmovida nem inspirada. Eu vejo o contraste entre umha zona de guerra com crianças mortas e umha mulher em tacons de ouro e, unhas vermelhas longas dançando em um carro. Eu vejo a estrela pop de Los Angeles perpetuando a percepçom das luitadoras curdas como ” sexis, rudes empunhando um arma.” Eu vejo umha revoluçom de lapis de labios.

Publicado em kurdishrights.org

 

 

 

 

 

O Feminismo e o Movimento de Libertaçom Curdo

Dilar Dirik centralEste artigo é uma versom editada de umha apresentaçom na Conferência “Dissecioando a Modernidade Capitalista. Construindo o Confederalismo Democrático” na Universidade de Hamburgo, o 3-5 de Abril do 2015.

O feito de que estamos a debater aproximaçons do movimento de libertaçom curdo, idéias e re-conceptualizaçons da liberdade hoje nesta conferência com pessoas de tantas diversas origens é bastante revelador dos impactos da resistência de Kobanê, que vam muito além dos seus aspectos militares .

Em Março deste ano mulheres do mundo estiverom na fronteira entre o Curdistam Norte (Bakur) e Oeste (Rojava), a linha artificial que separa as cidades gêmeas de Qamişlo e Nisêbin. O comitê tomou esta decisom, a fim de prestar homenagem à resistência das Unidades de Defesa das Mulheres, YPJ, em Kobanê contra o Estado Islâmico (ISIS). Isto, entre muitos outros exemplos, ilustra o crescente interesse das feministas ao redor do mundo no movimento de mulheres curdo.

Assim, neste momento crucial em que as mulheres curdas contribuírom a umha rearticulaçom da libertaçom das mulheres, rejeitando cumprir as premissas de ordem do Estado-naçom capitalista patriarcal global, quebrando o tabu da militância das mulheres (que é um tabu em todo o mundo, ja que quebra barreiras sociais), através da recuperaçom da autodefesa legítima, ao dissociar o monopólio do poder do Estado, e luitando contra umha força brutal nom em nome das forças imperialistas, mas, a fim de criar os seus próprios termos de libertaçom , nom só das organizaçons estatais ou fascistas, mas também da sua própria comunidade, que podem os movimentos feministas aprender com a experiência das mulheres curdas?

Em primeiro lugar, deve-se mencionar que a relaçom das mulheres curdas com os feminismos na regiom tem sido muitas vezes bastante complicada. As feministas turcas por exemplo tinham a tendência a marginalizar as mulheres curdas, que elas percebiam como atrasadas, e tentarom assimilá-las à força no seu nacionalista “projeto de modernizaçom”. Na prática, isso significava que todas as mulheres em primeiro lugar tinham que ser “Turcas”, a fim de se qualificar para a libertaçom. A sua luita política, especialmente a armada, muitas vezes encontrou-se com a violência de Estado, que usou uma combinaçom bruta de racismo e sexismo, centrada em torno da tortura sexualizada, a violaçom sistemática, e campanhas de propaganda que retratavam as mulheres militantes como prostitutas, porque se atreverom a colocar-se como inimigas de exércitos hiper-masculinos. No discurso ocidental, a capacidade de decidir das mulheres curdas na sua luita foi desmentido, por alegaçons de que elas estam “a ser instrumentalizadas para a causa nacional” ou que participam na luita de libertaçom, a fim de escapar das suas vidas tristes como “vítimas de umha cultura atrasada”. Além de ser inerentemente chauvinista e sexista, esses tipos de argumentos som ainda incapazes de explicar o feito de que o movimento curdo criou um movimento feminista de base popular, que desafiou a tradiçom e a sociedade transformando-a numha medida surpreendente. Hoje, quando olhamos para a forma como o mainstream trata a resistência das mulheres curdas contra do ISIS, podemos ver abordagens muito simplistas e problemáticas que incidem sobre a guerra em termos de só umha luita militar física, até mesmo um certo Schadenfreude dizia que o ISIS está sendo derrotado por mulheres, um tipo de atitude clássico de “meninas batendo em meninhos”. As motivaçons políticas das mulheres, as suas ideologias som ignoradas ou cooptadas neste contexto, até mesmo polas feministas. Nom muitas investigam os ideais que orientam a sua luita, quase ninguém questiona o feito de que a ideologia com a qual as mulheres estam luitando contra do ISIS está de feito na lista de terroristas de muitos países ocidentais.

O objetivo desta palestra nom é dizer que o feminismo e o movimento das mulheres curdas som duas cousas separadas. Em vez disso, quero investigar as suas relaçons e focar as aproximaçons originais do movimento de mulheres curdas que poderiam fornecer algumhas perspectivas para outros movimentos.

É claro que nom há um feminismo singular, mas várias vertentes que às vezes som muito diferentes umhas das outras. As especificidades da experiência das mulheres curdas que criou a consciência vivida direta do feito de que diferentes formas de opressom estam inter-relacionadas, devido à sua posiçom opressiva -multiplicada como membros de umha naçom sem Estado em um mundo dominado por estados excluintes, socio-económicos e a violência patriarcal polo Estado e a comunidade, bem como a crítica do movimento de libertaçom curdo do colonialismo, o capitalismo, e do Estado, possivelmente sugerem o anarquismo, os movimentos de feministas socialistas e anti-coloniais a ser o mais próximo à experiência do movimento das mulheres curdas.

No entanto, ao reivindicar o feminismo como umha parte importante da sociedade histórica e o seu legado como um patrimônio, as discussons dentro do movimento de mulheres curdas hoje pretendemos investigar os limites do feminismo e superar isso. Isso nom é de todo umha abordagem pós-feminista clássica, nem rejeitar o feminismo. Indo além dos meios para sistematizar umha alternativa para o sistema dominante através de umha crítica radical sistêmica e a comunalizaçom da luita multi-frente, especialmente por politizar a base, dirigir umha revoluçom mental, e transformando ou figurativamente matando o masculino e as suas múltiples expressons, bem como questionar e resistir a toda a ordem global, a fase dessa violência e opressom. Kobanê, bem como os outros dous cantons de Rojava – Cizîre e Afrîn – som um exemplo da aplicaçom prática do presente. Como eu argumento, a resistência de Kobanê, onde as mulheres corajosas derrotarom as forças fascistas dos nossos dias, tem muito a ver com a ideologia política do povo e o modelo imaginado. A vitória de Kobanê é um resultado direto da organizaçom social e política dos cantons, bem como o conceito do movimento de liberdade, muito além do nacionalismo, do poder e o Estado.

Abdullah Öcalan, o representante ideológico do PKK, afirma explicitamente que o patriarcado, juntamente com o capitalismo e a mentira do estado estam na raiz da opressom, dominaçom e poder e fai umha conexom clara entre elas: “Todas as ideologias de poder e estatais derivam em atitudes e comportamentos sexistas […]. Sem a escravitude das mulheres os outros tipos de escravitude nom podem existir e muito menos desenvolver-se. Capitalismo e Estado-naçom denotam a institucionalizaçom do macho dominante. Com mais ousadia e falando abertamente: O Capitalismo e o Estado-naçom som o monopolio do macho despótico e explorador”[1] El afirma ainda: “Nada no Oriente Médio é tam horrível como o status social da mulher. A escravizaçom da mulher é semelhante à escravizaçom dos povos, exceto que é ainda mais antiga “[2] Em outro lugar: “O projeto de libertaçom das mulheres vai muito além da igualdade entre os sexos, mas, além disso, descreve a essência da democracia em geral, dos direitos humanos, da harmonia com a natureza e a igualdade comunal “(Öcalan, 2010, 203).

A perspectiva do movimento de libertaçom curdo na libertaçom das mulheres é de natureza explícita comunalista. Ao invés de desconstruir os papéis de gênero ao infinito, trata os conceitos das condiçons atuais por trás da feminilidade como fenômenos sociológicos e pretende redefinir tais conceitos pola elaboraçom de um novo contrato social. El critica a análise comum do mainstream feminista do sexismo em termos de gênero único, bem como a sua incapacidade para alcançar mais amplas mudanças sociais e a justiça, limitando a luita para o quadro de ordem persistente. Umha das principais tragédias do feminismo é cair na armadilha do liberalismo. Sob a bandeira da libertaçom, o individualismo extremo e o consumismo som muitas vezes propagados como emancipaçom e empoderamento, que levanta obstáculos claros para qualquer açom coletiva ou até mesmo tocar as questons de pessoas reais. É claro que as liberdades individuais som cruciais para a democracia, mas o fracasso de mobilizaçom popular requer umha auto-crítica fundamental do feminismo. O termo feminista de “intersetorialidade” claramente sublinha que as formas de opressom estam interligadas e que o feminismo tem de ter umha abordagem holística para enfrentá-los. Mas, muitas vezes, os círculos feministas que se dedicam a estes debates deixam de tocar as vidas reais de milhons de mulheres afetadas, gerando ainda umha outra discussom aspirada no radicalismo, inacessível para a maioria. Por que o radical ou interseccional é umha luita que nom consegue espalhar-se?

Essas atitudes, de acordo com o movimento de mulheres curdas, estam ligadas à subscriçom à ciência positivista e da relaçom entre conhecimento e poder, o que desfoca as ligaçons explícitas entre as formas de dominaçom, eliminando, assim, a crença em um mundo diferente, retratando o sistema global como a ordem natural, imutável das cousas. Devido às suas condiçons específicas sócio-políticas e económicas, bem como a umha posiçom ideológica firme, acompanhadas de muito sacrifício, o movimento das mulheres curdas foi capaz de mobilizar em um movimento de massas por chegar a certas conclusons nom apenas através de debates teóricos, mas experiências e práticas reais vividas, que nom só criou a consciência política direta, mas também um anexo para encontrar soluçons coletivamente, contra todas as adversidades.

Assim, incentivadas por sugestom de Öcalan para desenvolver um método científico que desafia a compreensom hegemônica das ciências, especialmente as ciências sociais, que reproduzem mecanismos de violência, exclusom e opressom -um que nom se limite à categorizaçom de fenômenos ao redor dos seres humanos e comunidades sem considerar o feito de que estes estam vivos e potencialmente capazes de resolver os seus problemas, e que as áreas de divisom da vida de um e do outro, criando umha infinidade de ramos científicos, mas em vez disso propom umha ciência que praticamente procura fornecer soluçons para os problemas sociais, umha “sociologia da liberdade “, centrada nas vozes e experiências dos oprimidos –o movimento das mulheres tem se envolvido em debates teóricos e propôm o conceito de” jineologia “(jin, em curdo:” mulher “). As discussons e debates realizados nas montanhas Qandil, na linha da frente em Rojava, bem como em bairros pobres em Diyarbakir – cada esquina pode ser transformada em umha academia. Perguntas “Como reler e re-escrever a história das mulheres? Como é o conhecimento alcançado? Que métodos podem ser usados em uma busca libertadora da verdade, que produçons de ciência e conhecimento de hoje levam os conhecimentos para longe de nós e servem para manter o status quo?” Surgem em intensas discussons. A desconstruçom do patriarcado e outras formas de submissom, dominaçom e violência som acompanhadas por discussons sobre a construçom de alternativas com base em valores e soluçons libertadoras para a questom da liberdade.

Ao definir-se como a ciência das mulheres ou a procura das mulheres para o próprio conhecimento, uma objeçom que a jineologia representa para o feminismo é que muitas vezes se ocupa com a análise de questons sociais apenas através de lentes de gênero. Enquanto os papéis de gênero e desconstruçom patriarcal tem contribuído imensamente para a nossa compreensom do sexismo e outras formas de violência e opressom, este propôs nem sempre com sucesso o tipo de alternativa, podemos criar coletivamente em vez disso. Se conceitos como homem e mulher, nom importa o quam socialmente construída que poidam ser, olha como eles vam persistir nas mentes das pessoas por um tempo, talvez devemos tentar definir as novas condiçons de existência, proporcionar-lhes umha essência libertadora na tentativa de superá-los? Nom esqueçamos o fundo por trás da qual essas discussons estam sendo realizadas – e em torno de sociedades ultra-conservadoras com espaço limitado para a auto-expressom individual que consideram as mulheres como indignas, funcionárias sem voz dos homens, num contexto de violência normalizada, abertamente institucionalizada contra as mulheres . Se é possível para re-imaginar conceitos de identidade, tais como a “naçom”, desassociando-o de implicaçons étnicas e com o objetivo de formar umha unidade baseada em princípios, Ou seja umha unidade de pensamento, composta por sujeitos políticos em vez de objetos servindo ao estado (que é a idéia de que é defendida na multi-cultural Rojava, a “naçom democrática”, como define Öcalan), podemos também criar umha nova liberdade, capacitando radicalmente a identidade das mulheres, com base na autonomia e liberdade para dar forma a um novo sentido da comunidade, livre de hierarquia e dominaçom? A Jineologia nom pretende perpetuar um conceito essencialista da feminilidade, umha nova atribuiçom de um papel social com espaço limitado para o movimento, também nom se considera umha provedora de respostas, mas propom-se como um método para explorar tais questons suscitadas em umha maneira coletivista. Ao pesquisar a história e a história escrita, a jineologia tenta aprender desde as mitologias e religions, compreender as formas de organizaçom comunalistas na era neolítica e mais além, investigar as relaçons entre meios de produçom e de organizaçom social, e a ascensom do patriarcalismo com o surgimento da acumulaçom e da propriedade.

E, no entanto, ao criticar a fixaçom do feminismo no gênero, o movimento das mulheres curdas, ao mesmo tempo, devido à sua própria experiência, reconhece a necessidade urgente de prestar atençom às opressons específicas. Na verdade, o elemento central da estrutura organizativa deste movimento é a auto-organizaçom autónoma de grupos e comunidades a fim de reforçar a democracia radical. Diferentemente da maioria das lideranças de movimentos de libertaçom nacionais clássicos, Öcalan enfatiza a necessidade da luita feminista autônoma e consciente [3] e ainda prioriza a libertaçom das mulheres: “O século XXI deve ser a era de despertar; a era da mulher liberada, emancipada […]. Eu acredito que [a libertaçom das mulheres] deve ter prioridade sobre a liberaçom das terras e a mao de obra “(Öcalan, 2013, p.59). Há uma abundância de exemplos de como o movimento das mulheres curdas tenta viver essa autonomia na prática, aqui e agora, em vez de projetá-la a um momento no futuro – mesmo um breve olhar sobre a participaçom e o poder das mulheres curdas na política da Turquia poderia-se falar volumes. A libertaçom das mulheres nom é apenas visto como um objetivo, mas como um método que precisa ser praticado em uma base diária. Nom é algo que será alcançado em umha democracia, mas é a democracia na prática.

Hoje, o movimento divide o poder igualitariamente entre umha mulher e um homem desde a presidência do partido aos conselhos de bairro através do princípio da co-presidencia. Além de fornecer as mulheres e os homens com igual poder de decisom, o conceito de co-presidência visa descentralizar o poder, evitar o monopolismo, e promover um consenso de feitos. Isto demonstra novamente a associaçom de libertaçom com a tomada de decisons comunalista. O movimento de mulheres é autonomo organizacional, social, política e militarmente. Embora esses princípios organizacionais tentam garantir a representaçom das mulheres, a massiva mobilizaçom social e aumentar a consciência política da sociedade, o que exige umha revoluçom radical da mentalidade, porque a hierarquia e a dominaçom primeiro estabelece-se nos pensamentos.

Inspirado por estes princípios, os cantons da Rojava aplicam a co-presidência e quotas, e criarom unidades de defesa das mulheres, comunas das mulheres, academias, tribunais e cooperativas no meio da guerra e sob o peso de um embargo. O movimento de mulheres Yekîtiya-Estrela é organizado de forma autônoma em todas as esferas da vida, desde a defesa à economia à educaçom para a saúde. Conselhos de mulheres autônomas existem paralelos junto dos conselhos do povo e podem vetar decisons deste último. Os homes que cometem violência contra as mulheres nom fam parte da administraçom. Discriminaçom com base no género, os casamentos forçados, violência doméstica, crimes de honra, poligamia, casamento infantil, e dote estam tipificados como delito. Muitas mulheres nom-curdas, especialmente árabes e assírias, juntam-se às fileiras armadas e à administraçom em Rojava e som incentivadas a organizar-se de forma autônoma também. Em todas as esferas, incluindo as forças internas de segurança (Asayish) e Unidades da Defesa do Povo (YPG) e as Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ), a igualdade de género é umha parte central da educaçom e da formaçom. Como Ruken, um ativista do movimento de mulheres em Rojava dixo: “Nós nom batemos nas portas das pessoas e dizemos-lhes que eles estam errados. Em vez disso, nós tentamos explicar-lhes que eles se podem organizar e dar-se os meios para determinar as suas próprias vidas “.

Curiosamente, embora a libertaçom das mulheres sempre foi parte da ideologia do PKK, a organizaçom autônoma das mulheres surgiu simultaneamente com a mudança geral do objectivo político do Estado-naçom no sentido de mobilizaçom local popular-democrática. Tal como foi identificada a relaçom entre as diferentes formas de opressom, quanto as premissas opressoras e os mecanismos do sistema estatal foram expostos, as soluçons alternativas forom procuradas, resultando na articulaçom da libertaçom das mulheres como um princípio firme.

Ao invés de aspirar a busca da justiça dentro de conceitos concedido polo Estado, como os direitos legais, o que é umha das pré-ocupaçons do mainstream feminista, o movimento das mulheres curdas chegou à conclusom de que o caminho para a libertaçom requer umha crítica fundamental do sistema. Em vez de colocar a carga sobre as mulheres, a libertaçom das mulheres torna-se umha questom de responsabilidade para toda a sociedade, porque se torna umha medida para a ética e a liberdade da sociedade. Para umha luita significativa pola liberdade, a libertaçom das mulheres deve ser um objectivo, mas também um método activo no processo de libertaçom. Na verdade, esperar qualquer mudança social significativa dos próprios mecanismos que perpetuam a cultura do estupro e da violência contra as mulheres, tais como o estado, significaria recorrer ao liberalismo com suas pretensons feministas e democráticas. Um slogan que já vi em Rojava, muitas vezes, “Vamos derrotar os ataques do Estado Islâmico, assegurando a libertaçom das mulheres no Oriente Médio”. Porque nom se pode apenas derrotar militarmente ao ISIS sem também derrotar a mentalidade que está subjacente, a cultura persistente do estupro mundial que lhe dá umha plataforma. Essa mentalidade nom esta apenas encarnada polo ISIS, mas é também, em parte, expressa nas nossas próprias mentes, nas nossas próprias comunidades – a violência do Estado liberal, a violência do ISIS, e os crimes de honra na nossa própria comunidade nom som tam diferentes uns dos outros. Contra todas as probabilidades, após décadas de longas luitas e sacrifícios, as mulheres curdas estabelecerom umha cultura política e em torno do PKK em que o sexismo e a violência contra as mulheres vam ao ostracismo social.

O movimento de mulheres produz independentemente teorias e críticas sofisticadas, mas é surpreendente que um líder masculino de um movimento do Oriente Médio coloque a libertaçom das mulheres como umha medida fundamental da liberdade. Isto levou a muitas feministas -que muitas vezes nom tenhem realmente lido os livros de Öcalan a criticar que o movimento das mulheres curdas está centrada em torno de um homem em umha posiçom de liderança. Mas se analisarmos o problema da liberdade das mulheres além de entendimentos estreitos no âmbito do género, mas em vez disso tratamo-lo como questom da liberdade da sociedade, como fundamentalmente vinculado à reproduçons centenárias de poder e hierarquia, quando rearticulamos a nossa compreensom da libertaçom fora dos parâmetros do sistema dominante, com os seus pressupostos e comportamentos patriarcais, mas procuramos propor umha alternativa radical que, por tanto, perceba a libertaçom das mulheres como um efeito colateral percevido de umha revoluçom ou liberaçom geral que pode nunca vir, mas em vez disso reconhecemos que a luita radical pola liberdade das mulheres e a sua auto-organizaçom autónoma deve ser um método central e o mecanismo do processo para a liberdade aqui e agora, se ligamos a crítica radical dos próprios métodos que utilizamos para dar sentido ao mundo para o processo de concepçom de umha vida mais justa, em suma – se ampliamos e sistematizamos, portanto, a nossa luita pola libertaçom, e reconhecemos que o caminho para a liberdade exige auto-reflexom e interiorizaçom dos valores democráticos libertadores, talvez nom seria surpreendente depois de tudo que umha das feministas mais sinceros pode na verdade ser um homem. Em vez de nos preocuparmos com o sexo ou gênero de Öcalan, talvez devêssemos tentar entender o que significa para um homem de umha sociedade feudal extremamente patriarcal tomar tal posiçom em relaçom a escravizaçom das mulheres. Que significa quando umha pessoa em umha posiçom de liderança, fai tais chamadas para “matar o homem”? Talvez este seja o radicalismo que precisamos para resolver os nossos problemas…

A Marcha Mundial das Mulheres que eu mencionei na introduçom juntou nas comemoraçons do 8 de março deste ano em Amed (Diyarbakir). Enquanto as fotos de mártires de mulheres curdas militantes estam acenas ao vento, eu vim um grupo de pessoas cantando formando um círculo de danças tradicionais curdas. Umha mulher estava tocando o daf em que ela tinha desenhado o A anarquista, enquanto umha mulher maior velada em roupa tradicional com os dedos formando o sinal da vitória estava dançando ao seu ritmo, ao lado de umha jovem que acompanha a sua alegria acenando umha grande bandeira LGBT. Completamente umha visom incomum para dizer o mínimo, mas de feito revelador do caráter do movimento das mulheres curdas.

Aqueles que querem saber se o movimento das mulheres curdas “é, na verdade, feminista ou nom” precisa perceber o radicalismo que oscila entre os dous dedos levantados para o sinal da vitória por mulheres idosas com vestes coloridas e tatuagens tradicionais em seus rostos na Rojava hoje. Que estas mulheres agora participem nos programas de TV, conselhos do povo, economia, que agora aprendam a ler e a escrever na sua própria língua, que, umha vez por semana, umha mulher de 70 anos relate contos populares tradicionais na recém-criada Academia de Ciências Sociais da Mesopotâmia para desafiar a história-escrita dos poderes hegemônicos e a ciência positivista, é um ato radical de rebeldia contra o antigo regime monista, porque em vez de substituir a pessoa no topo, recusam-se os parâmetros do sistema por completo e constrói os seus próprios padrons . E esta plataforma acabará por derrotar o ISIS no longo prazo.

As mulheres que luitam em Kobanê tornarom-se umha inspiraçom para as mulheres em torno do mundo. Neste sentido, se queremos contestar o patriarcado global, a naçom-estado, o racismo, militariso, neo-colonialismo e o ordem sistêmico capitalista, devemos-nos perguntar que tipo de feminismo este sistema pode aceitar e quais os que nom podem. Um “feminismo” imperialista pode justificar guerras no Oriente Médio para “salvar as mulheres da barbárie”, enquanto que as mesmas forças alimentam esta chamada barbárie polas suas políticas externas ou negócios armamentísticos etiquetam as mulheres que defendem Kobanê hoje como terroristas.

O sistema dominante considera um dos mais mobilizados e capacitados dos movimentos de mulheres como umha ameaça inerente ao seu status quo. Assim, torna-se claro que o movimento de libertaçom curdo nom representa umha ameaça para a ordem internacional, devido à sua capacidade potencial de criaçom de um novo estado – de feito, opom-se ao paradigma estado, mas por causa da sua alternativa radical para el, umha vida alternativa explicitamente centrada em abolir 5000 anos de escravitude sistemática física e mental.

Quando olhamos para os dois lados que luitam em Kobanê hoje – mulheres sorrindo esperançosas de um lado, e assassinos, estupradores violentos, que criam a sua hegemonia das trevas sobre a destruiçom e brutalidade fascista por outro lado, parece um papel num filme, a história de um romance. Mas é de nengumha maneira umha coincidência que estas duas linhas estam luitando em Rojava. A ordem atual pode ser o legado de milênios de sistemas de dominaçom e subjugaçom, pode ter sido sempre a opressom, mas, ao mesmo tempo, há também sempre houvo revolucionárias, rebeldes, luitas de resistência. O Estado Islâmico nom é umha mala coincidência, mas um resultado da ordem mundial, e essa ordem, com todos os seus mercenários, cumpre o seu maior inimigo nos sorrisos radicais de mulheres luitando. Sorrir é um ato ideológico. E estas mulheres som as guardians da nossa opçom à liberdade.

As mulheres curdas forom sempre excluídos da história-escrita, mas agora o seu poder desceu na história. Estamos orgulhosas de pertencer a umha geraçom de jovens mulheres curdas, que crescerom tendo testemunhado e identificado com umha luta tam gloriosa. Nom é um orgulho vazio em cousas sem sentido como o nacionalismo, mas um orgulho em resistir e sacrificar-se polos princípios fundamentais, para a vida. Nós nom precisamos de nengum mito ou romanticizaçons para justificar as nossas reivindicaçons para a liberdade. E eu nom podo imaginar qualquer mitologia, qualquer texto religioso, qualquer conto de fadas que poderia ser mais épico, libertador, e poderoso que a resistência exibida polas mulheres de Kobanê contra o fascismo. Todas nós renascimos com a resistência de Kobanê.

Dilar Dirik 24Dilar Dirik, estudante PhD focada sobre o movimento das mulheres curdas

NOTES
Öcalan, Abdullah, 2010, Jenseits von Staat, Macht und Gewalt (Cologne: Mesopotamien Verlag).
Öcalan, Abdullah, 2011, Democratic Confederalism (Cologne: International Initiative “Freedom for Abdullah Öcalan – Peace in Kurdistan),
Available online at http://www.freeocalan.org/wp-content/uploads/2012/09/Ocalan-Democratic-Confederalism.pdf
Öcalan, Abdullah, 2013, Liberating Life: Woman’s Revolution(Cologne: International Initiative “Freedom for Abdullah Öcalan – Peace in Kurdistan), Available online at http://www.freeocalan.org/wp-content/uploads/2014/06/liberating-Lifefinal.pdf
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[1](Öcalan, 2011, p.17)
[2](Öcalan, 2010, p.267)
[3](Öcalan, 2013, p.53)

http://kurdishquestion.com/index.php/insight-research/feminism-and-the-kurdish-freedom-movement.html

Socialismo, Igualdade de Gênero e Ecologia Social nas Montanhas do Curdistão

socialismo curdistamKCK (Koma Civakên Kurdistán, União de Comunidades do Curdistão) é o nome dado a esta organização social. O nome – e a preparação do seu quadro teórico – foi proposto pelo líder do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), Abdullah Öcalan, na sua cela da prisão da ilha Imrali, na Turquia; apesar disto, tanto Öcalan como o PKK reconhecem, sem qualquer dúvida, os indispensáveis e inestimáveis contributos proporcionados por Murray Bookchin.

A KCK é uma organização “guarda-chuva”, democrática, confederal, livre de Estado, da hierarquia e da exploração, do Curdistão Livre.

No interior da organização social KCK existente nas montanhas do Curdistão o conceito de dinheiro é supérfluo. As necessidades econômicas dos habitantes são satisfeitas internamente através da gestão partilhada dos recursos. Não obstante, o dinheiro é utilizado nas relações comerciais com o exterior; internamente o dinheiro é impensável. Ninguém, nem nenhuma comunidade no interior da KCK tem necessidade de gerar reservas de dinheiro ou de recursos. As reservas são distribuídas constantemente e, deste modo, utilizadas. Relativamente às sociedades pré-hierárquicas e pré-exploração a organização KCK acrescenta a cultura do dar mais do que a do trocar.

A gestão partilhada da agricultura assegura uma produção e um autoconsumo auto-suficiente dos recursos humanos, tornando irrelevantes as reservas, o valor de troca e a mercantilização dos bens.

A tentativa de emancipação feminina por parte dos membros do PKK e dos seus dirigentes começou com a “destruição da virilidade”. Um ataque aos conceitos de falsa virilidade inoculada nos sujeitos masculinos por parte do sistema patriarcal. Esta falsa virilidade funcionava de forma a que, enquanto cada homem era oprimido e explorado pelo sistema capitalista em cada célula do seu corpo, não se coibia de explorar a sua própria mãe, irmã, filha ou esposa.

Esta estratégia deriva das interrogações teóricas de Abdullah Öcalan, que chegou a dizer que “as mulheres são as primeiras colônias” e que a primeira exploração não foi produzida sobre a classe trabalhadora, mas sim sobre a mulher. Este é o motivo pelo qual a igualdade de gênero nas montanhas do Curdistão foi obtida através de esforços paralelos de reforço dos poderes da mulher e de purificação dos homens das doenças do patriarcado e da organização hierárquica da sociedade.

As consequências práticas deste facto são: a representação equitativa das mulheres em todas as instâncias administrativas através de um sistema copresidencial e a organização ideológica, política, social e militar das mulheres numa organização autônoma: a KBJ (A União Suprema de Mulheres).

No interior do Curdistão livre, as comunidades estão organizadas de modo a não serem consideradas uma ameaça para o meio-ambiente. Sempre que possível são favorecidas as fontes de emergia renováveis; por suas vez, os recursos energéticos como a a água e o gás são consumidos de modo conjugado a fim de tornarem sustentáveis tanto a sociedade como o meio-ambiente.

O vegetarianismo foi promovido e a caça foi completamente proscrita, assim como a desflorestação (só é permitido queimar ramos e árvores secos). Tudo isto baseia-se na premissa de que o meio-ambiente não é uma fonte de negócio, mas sim de vida; a utilização do meio-ambiente como origem de lucros sucumbe face ao seu reconhecimento como fonte de vida.

Os acontecimentos em Rojava (norte da Síria) mostram que a filosofia do líder do PKK, Abdullah Öcalan, em vez de tornar mais moderadas as reivindicações, põe a fasquia cada vez mais alta. Este é o motivo pelo qual em Rojava não se está a combater apenas para proteger a actual organização social dos grupos extremistas, mas também para se protegerem dos ataques do sistema do capitalismo global como o KDP (Partido Democrático do Curdistão), do governo turco, do regime de Assad e do ensurdecedor silêncio do Ocidente!

O movimento de libertação do Curdistão, dirigido pelo PKK, já não está a exigir um Estado nacional curdo, que apenas iria reproduzir a exploração, as estruturas hierárquicas e a desigualdade de gênero; está a fazer um chamamento para um sistema alternativo de organização social no qual a questão curda seja resolvida em paralelo com as questões da exploração, da emancipação de gênero e da libertação de todos os seres humanos. Neste sentido, a sua proposta é a KCK, a União de Comunidades do Curdistão.

Giran Ozcan

FONTE: “PORTAL ANARQUISTA – EX-COLECTIVO LIBERTÁRIO DE ÉVORA”

https://www.nodo50.org/tierraylibertad/318articulo6.html

http://anarquiaoubarbarie.noblogs.org/2015/01/08/socialismo-igualdade-de-genero-e-ecologia-social-nas-montanhas-do-curdistao/

A promessa das Mulheres de Kobane

The Promise of the Women of Kobane Poucos anos atrás, uns desenhos animados estavam dando voltas nas redes sociais. Nel mostra-se umha mulher em um micro-biquíni branco e umha mulher muçulmana em umha burka completo, cada umha, pensando que a outra está oprimida. As duass estam certas.

Ou, Ambas se equivocam.

Por que isso? Esta é umha ultra-simplista falsa binária que devemos evitar como a peste. Hoje, a permissividade liberal hedonista e a adesom religiosa primitiva som os dous lados da mesma moeda. O um privilégios materiais e liberdades sem compromisso e o outro os privilégios dos compromissos sem liberdade material – e a ideologia da ordem global está bem com ambos. A alternativa é encontrar a liberdade radical através do compromisso, o compromisso em favor de um autêntico projeto emancipatório. E isso é algo que nem o liberal nem a hedonista motivaçom religiosa pode oferecer.

Mas isto é precisamente o que as mulheres em Kobane estam luitando para levar a bom termo. O filósofo francês Alain Badiou dixo que segundo el, “algo é universal, se é algo que está para além das diferenças estabelecidas.” E se há algo a ser aprendido da luita das mulheres em Kobane, é que conscientemente esforçam-se por superar todas as diferenças estabelecidas e fetiches particularistas.

Rejeitando tanto a modernidade capitalista niilista e a primitiva religiosidade e o pensamento sectário, as combatentes das YPJ curda (Unidades de Proteçom das Mulheres) estam construindo umha democracia radical que visa quebrar os preconceitos de gênero há muito tempo mantidos r de promover umha divisom igualitária do trabalho nas esferas públicas e privadas, com ênfase no auto-governo local e na construçom de um sistema econômico que nom esteja nem baseado na exploraçom do trabalho humano, nem sobre o furto dos recursos naturais.

A cobertura em geral dessas mulheres revolucionárias nos mídias ocidentais tem sido miserável por dizer o mínimo. Ou se usa a ignorância, ou a exotizaçom bizarra – algo na linha de “Aqui estam os belos anjos curdos que luitam contra os diabos do ISIS”. A acadêmica feminista curda denuncia justamente esses pontos de vista porque ” depreciam a luita legítima pola projeçom das suas fantasias orientalistas bizarras sobre elas -. E simplificam as razons que motivam às mulheres curdas a se juntar à luita”. As mulheres curdas nom estam apenas envolvidas em uma luita contra o islamismo – elas também estam luitando por algo mais. E essa é a verdadeira beleza – a beleza da sua política – que escapa aos olhos liberais ocidentais.

Qual é essa política? Esta é a política do Confederalismo Democrático que foi exposta polo líder do PKK, Abdullah Ocalan. Umha experiência inovadora para as regions curdas que, como um sistema de governo, vai confiar mais em consensos coletivos dos povos envolvidos e na participaçom voluntária dos indivíduos. Rejeitando o tradicional estado-central, o Confederalismo Democrático pretende ser “flexível, multi-cultural, anti-monopolista, e orientado para o consenso”, onde “a Ecologia e o feminismo som pilares centrais.”

Ocalan está a anos-luz adiante de diversos acadêmicos pós-coloniais na sua coragem de observar que “a percepçom do Islam do sexismo tem produzido resultados muito mais negativos que na civilizaçom ocidental em termos de profunda escravizaçom das mulheres e dominaçom masculina.” Ele também rejeita a modernidade capitalista como “um sistema baseado na negaçom do amor”, cujo individualismo desenfreado corrompe a sociedade, transformando os indivíduos em autômatas. E é umha sociedade que está corrompida ou por fanatismos feudais ou polas brutalidades do Estado capitalista industrial.

É essa a política que as mulheres das YPG estam pondo em prática em Kobane. E é esta política a que está sendo ignorada no Ocidente. É bastante irônico que mália às suas reivindicaçons ser contrárias ao Islamo-fascismo, muitos governos ocidentais ainda consideram ao PKK e às suas afiliadas – as organizaçons que travam a guerra mais decidida e com princípios contra o islamismo – como terroristas. Umha é obrigada a pensar que o Ocidente- tanto conservadores, liberais como esquerdas tradicionais – tenhem mais medo ao polo que o PKK está luitando que contra quem está luitando.

A coisa mais sensata para a esquerda fazer seria rejeitar a ordinária exotizaçom à que os mídia ocidental se entregam, e tentar sondar as implicaçons teóricas e práticas da luita curda para o movimento feminista global. Além disso, a esquerda no Ocidente deve pressionar pola saída do PKK da “lista de organizaçons terroristas” e também exortar aos governos ocidentais para onter a libertaçom do líder do PKK Ocalan, que está em confinamento solitário em umha prisom turca por mais de 15 anos. O mais importante, temos de apreciar às mulheres da YPJ pola beleza das suas políticas e a promessa que mantenhem.

A promessa das mulheres revolucionárias de Kobane é contundente. É a promessa de que a democracia, a liberdade radical e a justiça social nom som termos sem sentido, mas som realidades vividas. É umha promessa de umha sociedade onde a igualdade é umha prática, e nom umha palavra no papel. É promessa pola que geraçons de mulheres ativistas progressistas venhem luitando em todo o mundo. As mulheres curdas de Kobane estam luitando por esta promessa e elas estam estendendo a mao do universalismo, um universalismo que é desesperadamente necessário nestes tempos. Vamos reciprocar com a solidariedade que elas merecem.

por Karthick Ram Manoharan
Doutorando e Professor Auxiliar de Ensino de Pós-Graduaçom da University of Essex

Publicado originalmente em:

http://www.huffingtonpost.co.uk/karthick-ram-manoharan/kobane_b_6832960.html
http://kurdishquestion.com/index.php/kurdistan/west-kurdistan/the-promise-of-the-women-of-kobane.html

Reescrevendo a história das mulheres em Rojava – Parte 2

Por Rojda Serhat-Şevin Şervan-Cahide Harputlu – JINHA

Tradução  Eliete Floripo

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ROJAVA – este ano em Rojava, as mulheres estão se preparando para o 8 de Março com tanta excitação como dor. Apesar da intensificação dos ataques contra as mulheres, elas fizeram um histórico ano para as mulheres através de seu trabalho de defesa de Shengal e Kobane e da construção de Rojava. Nossa série continua hoje com a história da ativista de uma base da organização que precedeu a revolução; reflexões das mulheres sobre o seu trabalho no governo; e uma entrevista com a comandante do YPJ Meryem Kobane.

As raízes da revolução Rojava: décadas de organização para a libertação de curda

Henife Husen, co-presidente do movimento político democrático, guarda-chuva do Movimento para uma Sociedade Democrática (PEV-DEM), diz que a resistência e luta das mulheres tinham uma história muito antes de Rojava. Com a supervisão de Apo (Abdullah Öcalan), a busca da liberdade no Curdistão, chegou a Rojava também. As mulheres de Rojava aceitaram isto desde o início; elas abriram suas casas, deixaram seus filhos para esta luta. “Para a revolução chegar até aqui, houve muito apoio moral e material,” incluindo o combate na linha de frente da Frente Nacional de Libertação do Curdistão (ERNK) e apoio de Apo , disse Henife”.

Abdullah Öcalan passou um tempo em Rojava na década de 1990. “A estadia do líder do Curdistão em Rojava tinha três projetos principais,” disse. O mais importante deles foi o projeto de libertação das mulheres. Em Rojava, muitas mulheres participaram de suas reuniões.

Henife disse que as reuniões resultaram em uma série de mudanças na sociedade. Enquanto as primeiras mulheres juntaram-se a guerrilha uma a uma, as revoltas populares no Curdistão do Norte na década de 1990 resultaram em uma explosão de voluntários para a guerrilha. “O primeiro mártir por ser uma mulher, teve um enorme eco. Cada mártir prepararam o terreno para mais pessoas no voluntariado”.

A filosofia de Öcalan propagou, as mulheres começaram a organizar todas as suas atividades econômicas, incluindo o trabalho doméstico. “As mulheres começaram a fazer o que ninguém mais poderia fazer,” disse Henife. Mas depois que Abdullah Öcalan foi feito prisioneiro pelo Estado turco, disse Henife, a repressão começou a tornar-se intensa em Rojava. O estado facilitou uma gama de políticas sujas que se assemelhavam muito a aquelas implementadas pelo Estado turco contra o povo do norte do Curdistão.

“Começaram políticas de fome. Desemprego ampliado. Nestes dez anos causou imensa devastação, especialmente contra as mulheres,”disse Henife. “Havia uma aliança entre os dois Estados,” ambos facilitaram o crime e a corrupção.

Em um curto período de tempo, prostituição, drogas e espionagem tornaram-se generalizadas em Rojava. “Homens mais velhos que vinham do Norte (Turquia) para comprar mulheres jovens para ‘casamento’. “Depois disso, mudou o entendimento local do Islã, disse Henife. As mulheres também participaram deste novo Islã. Sociedades religiosas apareceram em todos os lugares.

A atividade Pro-curdo foi proibida, e diz Henife que dezenas de seus amigos foram presos e torturadas. Alguns foram mortos por seus torturadores. Narziye Keçe foi preso em 2004 e desapareceu sob custódia do estado.

As pessoas começaram a temer a atividade política. Henife diz que as organizações islâmicas cresceram para preencher a lacuna, quando as pessoas ficaram com medo de organizar a luta de libertação curda e as detenções do estado. Para as mulheres resultou em mais repressão no nível das famílias, onde mulheres ativas foram ameaçadas a serem jogadas para fora de casa ou com o divórcio se permanecem ativas na luta.

Mas, diz Henife, nunca deixaram de se organizar, formando a organização Tevgera Jinan (Movimento de Mulheres) em 2005. Organizadoras formaram parlamentos locais e comitês em cada cidade, mesmo quando a participação foi baixa, inclusive por meio de Tevgera Azad (Movimento Livre). Este nível de organização continuou até a revolução de 2011.

Com o período de 2010-2011 veio uma explosão de atividade e organização. O primeiro Congresso de TEV-DEM, teve a decisão de abertura das casas de mulheres em cada cidade, a decisão da organização das mulheres Yekitiya Estrela, foi de organizar-se em discussões de base — parlamentos de discussões e decisões importantes tiveram lugar um após o outro. Comitês foram organizados para cuidar da educação, imprensa, relações públicas e econômicas, e, mais recentemente, as Academias Femininas, criadas em 2012.

As mulheres foram a chave para tudo isso, tendo papel importante e organizando-se durante o período da revolução. As mulheres eram parte dos Conselhos revolucionários e órgãos de decisão.

O sistema de co-presidente, no qual cada posição tem dois representantes (um homem e uma mulher), foi implementado nos parlamentos locais e comunas. Um cota de 40% para as mulheres também foi implementado.

“Nestes desenvolvimentos de maior participação popular, as mulheres tinham um papel de liderança na sociedade”, disse Henife. Yekitiya Estrela tornou-se um espaço para as mulheres. No início da revolução, as mulheres estavam participando do PYD, onde o sistema de co-presidente estava em asayiş.

Yekitiya Estrela começou a dar suporte para o YPG. Depois as mulheres se organizaram como o YDH em segredo, e então, formaram o YPJ. Kobane tornou-se um exemplo para as mulheres de Rojava e do mundo, com sua mais famosa mártir sendo Arîn Mîrxan, que sacrificou-se para a cidade. “O que libertou Kobane foi o espírito do camarada Arîn” e aqueles como ela, disse Henife.

No governo de Rojava, as mulheres resolvem seus próprios problemas

Ministra de mulheres Hiva Irabu diz que o Ministério foi uma das primeiras instituições fundadas após a declaração de autonomia no Cantão de Cizîre. Somente mulheres no Ministério — o primeiro no mundo.

“Quando começamos a trabalhar, analisamos e pesquisamos experiências em muitos países, mas não conseguimos encontrar um Ministério formado especificamente para resolver os problemas das mulheres,” disse Hiva”. Começamos os projetos nas áreas de interesse para as mulheres: economia, política, educação, desenvolvimento, violência contra as mulheres, a cultura, a lei.” Muitos projetos realizam-se em colaboração com grupos do movimento de mulheres.

“Fizemos um relatório sobre as mulheres que sofreram violência e que vieram para as casas de mulheres,” disse Hiva. “Como resultado, começamos os projetos de solidariedade e abrigos de mulheres. Mulheres em perigo de morte vivem aqui. Também temos projetos para ajudar a resolver os problemas econômicos das mulheres que vivem em abrigos.”

O Ministério reuniu um conjunto de estatísticas não disponíveis anteriormente sobre as mulheres por meio de pesquisa em Cantão de Cizîre . Além da população total de mulheres, as estatísticas também registraram o número de mulheres que sofreram violência, a poligamia, o casamento infantil; que estão em dificuldades econômicas; que se divorciaram; e que são deficientes. Segundo a pesquisa, houve 2.250 casos de violência contra a mulher em 2004.
Agora, o Ministério tem ajudado no desenvolvimento de uma lei que tome medidas contra uma variedade de formas de violência contra as mulheres, do casamento infantil, poligamia, deserdação de mulheres e a troca noiva e a violência doméstica.Essas práticas variam entre os diferentes grupos em Rojava, como a poligamia (por exemplo) generalizada entre os cidadãos árabes, presentes entre curdos e ausente entre assírios e sírios.

Foco principal em 2015 do Ministério é a atividade econômica. O Ministério planeja treinar mulheres com habilidades que eles já têm, então elas poderão se sustentar sem depender de parentes do sexo masculino. Outro projeto cria centros para crianças deficientes e juventude.

Revda Hesen, co- prefeita da cidade de Qamişlo, no Cantão de Cizîre, têm visto as mulheres tomar seus lugares em uma variedade de projetos desde o início da revolução em Rojava há três anos — incluindo os membros da equipe de 30 mulheres no governo municipal. Mulheres dirigem uma série de projetos municipais só para mulheres. Zin Xelil, da força de Asayiş (manutenção da paz) do governo da cidade, diz que as mulheres desempenham um papel importante na defesa da cidade. Ela diz que a autodefesa da revolução liderada por mulheres Rojava é crítica.

Luta do YPJ para a autodefesa das mulheres em todas as áreas da vida

Meryem Kobane, uma comandante da YPJ, tem sido parte da resistência Kobane desde o início.

“Não há nada na natureza sem mecanismos para a sua própria autodefesa”, diz Meryem do projeto de autodefesa das mulheres. Ela diz que a dominação das mulheres não é natural. Militarismo e exploração começaram com o sistema tribal e a ideia de que as mulheres não podem tomar parte na defesa da comunidade, mas só podem servir os homens, mas o Estado formalizou essa mentalidade, de acordo com Meryem.

“Ao longo da história, como as mulheres são descritas? “Sua natureza opõe-se à guerra”. Sim, é claro que isto é verdade, mas para as guerras de dominação. Mas autodefesa é diferente.” Ela observou que a legítima defesa é uma propriedade fundamental e natural. A guerra é uma arte, Meryem diz, e as mulheres em particular, abordam dessa forma.

“Dizem as mulheres, “vocês não tem força de vontade, vocês não são fortes, vocês não podem ser uma liderança, vocês não podem proteger suas próprias vidas”, disse Meryem. “As mulheres tomaram parte em muitas revoluções na história, mas seu papel sempre foi suprimido”.

Ela observou que houve algumas dificuldades para as mulheres no início da defesa de Kobane, apesar da longa história de luta das mulheres em Rojava e no Curdistão em geral.

“Um número de camaradas da resistência Kobane, incluindo os mártires Sozdar e Roza, queriam as posições YPJ para ser separado dos homens — porque nossos pais e irmãos nos disseram ‘não pode fazer isso’, disse Maryem. Mas as mulheres lutaram contra os homens que lhes disseram que não tinham nada na frente. Agora, seu papel é famoso. Mulheres mártires como Viyan e Peyman, deram suas vidas para Kobane. Mulheres do YPJ tem estado na vanguarda da guerra em locais como Serêkaniye e Efrîn.

“O Daesh fez uma maratona de Mosul para cá, mas eles foram parados em Kobane”, disse Meryem. Dizendo que elas sentiram a necessidade de mostrar que as mulheres geradas na filosofia de Abdullah Öcalan nunca iriam desistir, disse ela “, enquanto houvesse um curdo ainda vivo, Kobane não iria cair.”

As mulheres não estão apenas resistindo na guerra, de acordo com Meryem, mas na vida cotidiana. “Em qualquer lugar na sociedade que há um grupo que quer resistir a sua própria exploração, deve haver um mecanismo de autodefesa — em cada rua, cada casa, cada local de trabalho.

“Por exemplo, as mulheres que trabalham em fábricas tem que se organizar. Elas precisam se reunir regularmente e se houver um ataque a uma mulher, elas precisam se unir.” Meryem disse que a solidariedade feminina contra a exploração econômica e todas as outras formas de exploração precisa ser um reflexo de base.

“As mulheres são empurradas para a prostituição, como se elas não tivessem outra opção. As mulheres estão sendo apedrejadas quando elas próprias são vítimas de estupro. Estamos dizendo que há outra forma de viver. E a solução não é só as armas.

“A luta começa com o conhecimento de si mesmo,” disse Meryem, salientando a importância da educação na luta do YPJ. “Nós avisamos os camaradas para que viessem até nós para aprender tudo o que eles queriam, incluindo como usar armas. Sua mente precisa estar aberta a tudo”, disse. Desde o início, o estudo da filosofia de Abdullah Öcalan tem sido crucial para os esforços das mulheres para se organizar.

Meryem diz que, estupro, apedrejamento, rapto, femicídio e outros crimes contra mulheres aumentam na ausência da autodefesa. Em Dera Zor, 700 mulheres e crianças foram decapitadas diante dos olhos do mundo. Crimes contra a humanidade, como a campanha de Anfal de Saddam Hussein e do ataque Daesh em Shengal foram evitadas em Rojava somente graças à luta dos mártires. Ela observou os nomes das mulheres muitos mártires que se sacrificaram nas fileiras da frente: Revan, Gulan, Ozgur, Roza e outras milhares que deram suas vidas para viver livremente suas identidades.

A história está cheia de mulheres que lutaram, de acordo com Meryem, de Rosa Luxemburgo a Leyla Qasim e as três militantes curdas mortas em Paris. Meryem saudou as mulheres que continuam sua luta nas ruas no 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Ela cumprimentou particularmente as mulheres que vão se reunir em Nusaybin, no norte do Curdistão na Marcha Mundial das Mulheres.

“As mulheres têm que se unir” disse. Ela diz que espera um dia para ver uma Assembléia Internacional de Mulheres.

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TEXTO ORIGINAL EM: http://kurdishquestion.com/index.php/kurdistan/west-kurdistan/rewriting-women-s-history-in-rojava-part-2.html

http://www.cabn.libertar.org/reescrevendo-a-historia-das-mulheres-em-rojava-parte-2/

JINHA Agencia de Noticias de Mulheres

JinhaO Curdistam está cheo de açons heroícas, mas nom o heroismo de Hollywood dumha açom e ponto, que também há, mas desse outro heroismo do cotiam, onde por ser no dia a dia nom perde a heroicidade de ser consequentes com a sua ideologia um dia e outro tambem.

A Agência de Notícias de Mulheres JINHA fixo 4 anos o 8 de Março, porque considero que é umha interesante experiência umha pequena resenha.

Este 08 de março, a agência de notícias de mulheres Jinha, com sede em Diyarbakir no norte do Curdistam, vai entrar no seu quarto ano de produção de notícias por e sobre as mulheres nas quatro partes do Curdistam, Turquia e mas alá, aumento cum serviço de novas em Inglês. Além das notícias diárias em curdo, turco e Inglês, a agência vai abrir um serviço árabe em breve.

Jinha é a única agência de notícias de mulheres no Curdistam e umha das poucas agências de notícias de mulheres do mundo. Um grupo de mulheres fundou Jinha no 2012 para abordar a compreensom e deturpação das mulheres nos mídias. A agência tem oficinas em Diyarbakir, Van, e Istambul, jornalistas em Izmir, Batman, Şırnak, Antalya e Siirt, e equipas em Rojava e o Sul Curdistam (KRG).

O Princípio operativo de Jinha é produzir notícias através da solidariedade das mulheres, em lugar da competição, é projeta-lo para combater um sistema capitalista e patriarcal que individualiza as mulheres. Dos câmeras às jornalistas ate chefes de departamento, as notícias de Jinha som produzidas inteiramente por mulheres. Na sua declaração original, as jornalistas fundadoras de Jinha diziam que ficaram frustradas com as imagens de mulheres que iam desde o miserável para o monstruoso ate o pornográfico, mas consistentemente reduzindo às mulheres a umha posição objetivada.

Quatro anos mais tarde, a deturpação das mulheres e especialmente das mulheres curdas continua sendo um problema, com as mulheres curdas que aparecem amplamente na imprensa mundial devido ao seu papel na revolução da Rojava e a defesa de Kobanê do Daesh (ISIS, ISIL, Estado Islâmico).

A Editora de Jinha Zehra Doğan, umha das fundadoras da agência, di que elas se propugerom trabalhar contra a mentalidade masculina nos meios de comunicação que definem às mulheres como “malditas e pornográficas”.

“O sistema masculino orquestrou todas as reaçons em relação às mulheres, até agora. As mulheres som definidas nos meios de comunicação pró-masculinos como quer sujeitos pornográficos, vítimas ou vilans”, explicou Zehra. “Estamos tentando montar a nossa alternativa contra isso. Estamos trabalhando e dizer ‘Parar’. O nosso objetivo é alterar o idioma dos mídia. ”

A jornalista de Jinha Asya Tekin sublinha que fundarom esta agência através da luita das mulheres em todo o mundo a partir de mulheres como Virginia Woolf, Rosa Luxemburg e Clara Zetkin ou jornalistas e luitadoras curdas como Gurbetelli Ersöz, Şilan Aras, Sakine Cansız e Deniz Firat.

“Estamos produzindo as nossas notícias em um contexto onde os meios masculinos perguntam constantemente: ‘que negócio vai fazer disso'”, disse Asya. “Vamos continuar a luitar contra esta mentalidade.”

Web: http://www.jinha.com.tr/en/
Facebook: https://www.facebook.com/jinhanewsagency?fref=ts
Twitter (inglês): https://twitter.com/JinhaWomensNews

A resistência é a vida!

Texto de Abdullan Ocalan, militante curdo e preso político, no livro “Liberando a vida: a revoluçom das mulheres”

Tradução: Lorena Castillo

A modernidade democrática: a era da revolução das mulheres

A liberdade da mulher desempenhará um papel estabilizador e igualador na formação da nova civilização e ocupará seu lugar em condições de respeito e igualdade. Para conseguir isso, temos que trabalhar no nível teórico, programático, de organização e implementação. A realidade da mulher é um fenômeno ainda mais concreto e analisável do que conceitos como “proletariado” e “nações oprimidas”. O grau de transformação possível da sociedade está determinado pelo grau de transformações que consigam as mulheres. Da mesma forma, o nível de liberdade e igualdade da mulher determina a liberdade e igualdade de todos os setores da sociedade. Por isso, o nível de democracia que alcance as mulheres é decisivo para o estabelecimento permanente da democratização e secularização. Para uma nação democrática, a liberdade da mulher tem uma grande importância, já que uma mulher livre constitui uma sociedade livre. A sociedade livre constitui por sua vez uma nação democrática. Por outra parte, a necessidade de mudar o papel do homem é de uma importância revolucionária.

Foto da página Kurdish Female Fighters Y.P.J

O amanhecer de uma era de civilização democrática representa não somente o renascimento de todos os povos, se não também, de forma mais específica o auge da liberdade das mulheres. A mulher, que foi a deusa criativa da sociedade neolítica, sofreu perdas incessantes no decorrer das sociedades de classes. Inverter esta história acarretará inevitavelmente transformações sociais mais profundas. A mulher, renascida para a liberdade, se somará a liberdade e justiça no âmbito geral da sociedade, em todas as instituições, em todos seus níveis. Convencerá a todos que a paz, e não a guerra é mais valiosa e desejável. O triunfo da mulher é o triunfo da sociedade e do indivíduo em todos os níveis. O século XXI deve ser a era do despertar, a era da mulher livre e emancipada. Isto é mais importante ainda que libertação de classes ou de nação. A era da civilização democrática deve ser a era em que a mulher se alce e triunfe completamente.

É realista considerar nosso século como o século em que a vontade da mulher livre florescerá. Por isso é preciso estabelecer instituições permanentes para as mulheres e mantê-las quem sabe por século. Se necessitam partidos para a liberdade das mulheres. É vital também que se formem círculos ideológicos políticos e econômicos baseados na liberdade das mulheres.

As mulheres em geral, mas, mais especificamente as mulheres do Oriente Próximo, são a força mais enérgica e ativa da sociedade democrática, devido as características anteriormente descritas. A vitória definitiva da sociedade democrática só será possível com a mulher. Os povos e as mulheres são devastados pela sociedade de classes desde a era neolítica. Serão eles, como agentes fundamentais do progresso democrático, os que agora não só se vingaram da história, senão que também formaram a antítese necessária posicionando-se a esquerda da nascente sociedade democrática. As mulheres são verdadeiramente os agentes sociais mais confiáveis no caminho para uma sociedade igualitária e libertária. No Oriente Próximo, vai depender das mulheres e jovens assegurar a antítese necessária para a democratização da sociedade. O despertar da mulher e o fato de será força social líder neste cenário histórico, tem um valor de autentica antítese.

Devido às características de classes das civilizações, seu desenvolvimento está baseado pela dominação masculina. Isto é o que situa a mulher na posição de antítese. De fato, para superar a divisão de classes da sociedade e a superioridade masculina, sua posição adquire o valor de uma nova síntese. Por conseguinte, a posição de liderança dos movimentos de mulheres na democratização do Oriente Próximo possui características históricas que as constituem tanto como uma antítese (pelo fato de se desenvolverem no Oriente Próximo) e uma síntese (a nível global). Esta área de trabalho é a obra mais importante que jamais tinha feito. Acredito que deveria ter prioridade na liberdade das pátrias e a liberação do trabalho. Mas, se quero ser um lutador pela liberdade, não posso ignorar isso: a liberdade das mulheres é a revolução dentro da revolução.

A missão final fundamental da nova liderança é proporcionar o poder intelectual e a vontade necessária para conseguir os três aspectos cruciais para a conformação de um sistema de modernidade democrática, assim como ética desde um ponto de vista tanto econômico como ecológico. Para conseguir isso, devemos estabelecer um número suficiente de estruturas acadêmicas com uma qualidade adequada. Não é suficiente criticar o mundo acadêmico moderno, temos que desenvolver uma alternativa. Estas unidades acadêmicas alternativas deveriam ser criadas sobre as prioridades e necessidades de todos os campos sociais, tais como a economia e a tecnologia, ecologia e agricultura, políticas democráticas, segurança e defesa, cultura, história, ciência e filosofia, a religião e as artes. Sem um marco acadêmico forte os elementos da modernidade democrática não podem ser construídos. Os marcos acadêmicos e os elementos da modernidade democrática são igualmente importantes para alcançar êxito. A inter-relação é uma necessidade para alcançar êxito.

A luta pela liberdade (não só das mulheres, senão de todas as etnias e todos os setores da comunidade) é tão antiga quanto a história da escravidão e exploração da humanidade. O anseio pela liberdade é intrínseco à natureza humana.

Temos aprendido muito destas lutas, também da que estamos mantendo nos últimos quarenta anos. A sociedade democrática tem coexistido com diferentes sistemas de civilizações dominantes. A modernidade democrática, o sistema alternativo ao capitalismo moderno, é possível por meio de uma mudança radical da nossa mentalidade e as correspondentes mudanças, radicais e apropriadas, na nossa realidade material. Estas mudanças, devemos criar em conjunto.

Para terminar, eu gostaria de assinalar que a luta pela liberdade das mulheres deve ser levada a cabo através do estabelecimento de seus próprios Partidos Políticos, conseguindo um movimento popular de mulheres, construindo suas próprias organizações não governamentais e estruturas políticas democráticas. Tudo isso deve ser trabalhado ao mesmo tempo, simultaneamente. As melhores mulheres são capazes de escapar das garras da dominação masculina e da sociedade. As melhores serão capaz de viver e atuar de acordo como sua livre iniciativa e independência. Quanto mais as mulheres se empoderarem, mais reconstituirão sua personalidade e identidade em liberdade. Por conseguinte, apoiando a ira das mulheres, o movimento de conhecimento e liberdade é o maior aporte de companheirismo e prova de humanidade. Tenho plena confiança de que as mulheres, a margem de suas diferenças culturais e étnicas, todas as que têm sido excluídas do sistema, triunfarão. O século XXI será o século da libertação das mulheres.

Espero fazer minhas contribuições não só escrevendo, mas ajudando a colocar em prática estas mudanças.

http://jornalismob.com/2015/02/26/a-resistencia-e-a-vida-texto-de-abdullan-ocalan-militante-curdo/

A revolução dentro da revolução e o protagonismo feminino no Curdistão

Lorena Castillo*, especial para o Jornalismo B

Somente há pouco tempo ficamos sabendo que em uma determinada região do Oriente Médio, mais precisamente no oeste do território curdo (Rojava), existe um processo revolucionário que se desenlaça e coloca no cerne da questão política a liberdade das mulheres e a negação do Estado-Nação. A luta revolucionária hoje no Curdistão é algo que recoloca no debate político da esquerda mundial a possibilidade de fazer a ruptura com a podridão do sistema capitalista e patriarcal. Hoje, o povo curdo, que está em luta contra os regimes opressivos da região, dá o exemplo de como é possível viver em uma sociedade baseada na democracia de base, no poder popular e no alto nível de liberdade das mulheres.

Fotos: Kurdish Female Fighters Y.P.J

A toda essa proposta política elas e eles dão o nome de Confederalismo Democrático. Essa proposta surge a partir das leituras do militante curdo Abdullan Ocalan, que é uma figura de referência para toda a esquerda curda, sendo um dos fundadores do Partido Trabalhista Curdo (PKK), e que está preso há 16 anos, com pena perpétua para ser cumprida em uma ilha-prisão da Turquia.  Na prisão, Ocalan aprofundou suas leituras dos textos anarquistas de Bakunin, Kropotkin e Proudhon, e, como proposta de modelo político para ser trilhado na revolução social do Curdistão, ele rebatiza o Municipalismo Libertário do também anarquista Murray Bookchin. Esse projeto político, o Confederalismo Democrático, vê o Estado como o principal oponente às ideias de autodeterminação dos povos e sua independência. A independência que é proposta pelo projeto do Confederalismo Democrático não busca obter fronteiras de um Estado-Nação. Pelo contrário, a luta curda hoje é qualquer coisa exceto nacionalista.

Nas montanhas acima de Erbil, no antigo coração do Curdistão, passando pelas fronteiras da Turquia, Irã, Iraque e Síria, nasce uma revolução social, uma proposta radical de democracia de base esfrega na cara da esquerda mundial que o caminho para a superação deste modelo injusto e assassino começou a ser trilhado longe do que tradicionalmente se esperava.

A luta revolucionária do povo curdo está construindo uma sociedade livre do Estado, e isso coloca em cena a antiga e maior polêmica entre a esquerda centralista e a federalista, que é a questão do Estado e também o tema já tão conhecido por nós, anarquistas, de que o socialismo é com liberdade ou não é socialismo. E o que está acontecendo por lá, no Curdistão revolucionário, é isso mesmo: desde os conselhos mais locais, sejam eles em bairros, municípios ou distritos, se pratica formas de democracia direta, onde todas as pessoas podem deliberar sobre as diferentes questões da nova sociedade que estão construindo. As ferramentas de organização específicas para as mulheres, jovens e para toda a comunidade encarnam fortemente no dia a dia os princípios de democracia radical de base e liberdade. O federalismo do ponto de vista anarquista, como um conceito de descentralização de poder encontra nesta experiência terreno fértil para fazer defesa desta concepção. O que temos hoje no Curdistão é o desenlace de um povo forte, que neste momento está em armas contra as terríveis ideias e ações do Daesh (ISIS, ou Estado Islâmico).

Algo extremamente importante de ressaltar nesse processo todo é a conformação, em todos os níveis de organização, da inserção das mulheres curdas nessa luta revolucionária, onde as mulheres estão desempenhando um papel determinante no combate ao Estado Islâmico. Elas não estão ali somente porque as condições da guerra contra o Estado Islâmico requeira isso, não porque sejam “símbolos de propaganda”, as mulheres curdas estão metidas nesse processo como grandes protagonistas de um duro combate às forças que mais matam, escravizam e massacram os povos oprimidos da região. Elas carregam no seu “núcleo duro” político-ideológico uma proposta de ruptura ao sistema capitalista-patriarcal, e estão atuando dessa forma naquela região do mundo, onde já escutamos milhares de vezes que os direitos das mulheres são terrivelmente negados. Isso também é o que torna essa experiência revolucionária com caráter feminista ainda mais entusiasmante.

O movimento de mulheres no Curdistão sabe que a proposta de um Estado-Nação não é a solução para a vida dos mais oprimidos e que sim, a solução está fora do Estado, a despeito do Estado, em combate à lógica do Estado-Nação, capitalista e patriarcal. E é no fortalecimento de uma lógica democrática de baixo para cima que temos visto os curdos levando adiante sua revolução social, fortalecendo suas cooperativas, conselhos e assembleias.

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O Estado Islâmico e as grandes potências ocidentais são as principais ameaças, ao menos por hora, para os revolucionários curdos. O E.I. é uma força ultraconservadora de interpretação do islamismo que está tentando se conformar como um Estado nas regiões do Iraque e Síria. Eles têm como principal objetivo dos seus ataques pessoas desarmadas, e se utilizam de métodos de terror para capturar e massacrar os povos dessas regiões. Com uma certa prioridade, o E.I. quer massacrar o povo curdo, sem falar que contra as mulheres eles praticam um verdadeiro feminicídio.

É importante contextualizar que, apesar das confusões sugeridas pelos interesses das potências dominantes e os seus meios de comunicação, o E.I. é um agente que tem origens na Al-Qaeda, vindo a ser uma cisão desta. Então, é bom lembrar que a Al-Qaeda e os Estados Unidos têm relações históricas de negócios entre as famílias Bush e Bin Laden.  Portanto, é ilusório e ignorante acreditar na afirmação de que exista combate contra o E.I. a não ser o que dá o povo curdo em armas.

Os desafios de defesa desse processo revolucionário são gigantes, pois os interesses das grandes potências são, em grande medida, os mais preocupantes. Todavia, não sabemos em que momento o povo curdo pode ser alvo de artilharia pesada vinda também da parte Ocidental do mundo, sem falar que para a esquerda, a nível internacional, ainda falta maior engajamento na defesa dessa revolução. Não podemos cometer o erro histórico, como organizações de intenção revolucionária, de largar à própria sorte os povos em armas que se erguem pelos cantões do Curdistão.

O papel que essa experiência cumpre para os demais povos oprimidos do mundo é imensurável, a revolução social em marcha no Curdistão é a prova viva de que podemos destruir esse sistema de opressões com organização desde a base, sem hierarquia político-econômica e social e com real protagonismo dos oprimidos.

No que diz respeito à luta das mulheres, o que vemos por lá, como falado anteriormente, é ainda mais empolgante, pois o projeto do Confederalismo Democrático busca em prioridade a liberdade e autodeterminação das mulheres, sendo essa premissa o “medidor” para uma sociedade realmente livre e democrática. Com isso, me atreveria a dizer que, por mais que em outros processos revolucionários tenhamos visto uma grande participação das mulheres, como é o exemplo da Comuna de Paris com suas “incendiárias” e um papel destacado para a companheira Louise Michel, na Revolução Espanhola com as valentes “Mujeres Libres” e nas demais revoluções sociais, nada se compara ao que estamos vendo fazer, aqui e agora, essas mulheres e homens das montanhas do Curdistão.

Dentro do debate político que fazem por lá, os companheiros homens podem opinar sobre tudo, menos sobre a vida das mulheres e sua livre determinação. Já viram isso antes? Acredito que não. Pois bem, está em prática por lá, também, o fim derradeiro dos casamentos de crianças, da poligamia e da violência sexual ou de qualquer outra ordem contra as mulheres e, se um homem cometer algum tipo de violência contra as mulheres, este será afastado de qualquer cargo que possa estar ocupando na organização dessa nova sociedade. Isto prova que a liberdade das mulheres não é conquista para depois da revolução social, e sim é parte constitutiva no processo da mesma.

*Lorena Castillo é militante da Federação Anarquista Gaúcha e do Ateneu Libertário A Batalha da Várzea.

http://jornalismob.com/2015/02/23/a-revolucao-dentro-da-revolucao-e-o-protagonismo-feminino-no-curdistao/