Turquia e o caminho ao genocídio

Cizre, Curdistam sob administraçom turca em março de 2016. IPPNW Alemanha

Por Djene Bajalan

Há paralelos assustadores entre o genocídio armênio e a situaçom dos curdos na Turquia hoje.

No domingo, 24 de abril do 1915, o ministro Otomano do Interior, Talat Pasha, ordenou a prisom e detençom dos líderes da comunidade armênia que residiam dentro do império. Na primeira noite, mais de duzentas pessoas foram apanhadas polas forças governamentais; com o passar dos dias o número cresceu a mais de dois mil. O ataque de Talat Pasha contra os armênios otomanos fazia parte de umha campanha mais ampla e sistemática de genocídio dirigida à comunidade armênia do império – umha campanha que deixou entre 800.000 e 1.5 milhons de mortos.

Nom é necessário aqui re-litigar a questom de se ou nom os eventos de 1915 – descritos eufemisticamente em fontes turcas oficiais como as “deslocalizaçons (tehcir)” – constituírom genocídio. Em vez disso, ao lembrar o genocídio armênio e, mais especificamente, as detençons do “Domingo Vermelho”, torna-se possível situar as políticas dos líderes atuais da Turquia em relaçom aos representantes do movimento curdo – em particular, a detençom dos líderes de pró-curdo  Partido Democrático do  Povo (HDP), Selahattin Demirtaş e Figen Yuksekdağ, o 4 de novembro – em um contexto histórico mais amplo.

Enquanto isso seria hiperbólico afirmar que os níveis de violência actualmente a ser dirigida a povoaçom curda da Turquia hoje tenham chegado à mesma magnitude que a dirigida contra os armênios pouco mais de um século atrás, inegáveis e assustadores paralelos podem, contudo, elaborar-se.

Erdogan e os curdos

Nom foi há muito tempo que o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan foi elogiado pola sua (relativamente) posiçom progressista em relaçom aos direitos curdos na Turquia. Desde a fundaçom da República da Turquia em 1923, a “questom curda” – o conflito entre as elites nacionalistas turcas em Ancara e aqueles que alegam representar a autêntica vontade nacional dos curdos da Turquia – constituiu umha das principais fontes de instabilidade política do país.

Nas décadas de 1920 e 1930, a jovem república enfrentou umha série de rebelions curdas de inspiraçom nacionalista, principalmente a Rebeliom do Sheikh Said de 1925 e a Revolta Hoybûn de 1929-1931. A postura tomada pola administraçom do pai fundador da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, era de supressom e negaçom. O governo republicano foi enorme para esmagar a resistência curda; por exemplo, em 1925, um terço do orçamento do governo estava direcionado para a supressom militar da insurgência do xeque Said.

No entanto, apesar da intensidade da violência empregada polo Estado durante as décadas de 1920 e 1930, a questom curda nunca foi verdadeiramente resolvida. Começando nas décadas de 1940 e 1950, umha nova geraçom de intelectuais e ativistas curdos começou a mobilizar-se em um processo que culminou com a fundaçom do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (mais conhecido polo seu acrónimo curdo PKK) em 1978, umha organizaçom dedicada à libertaçom nacional nom só dos curdos da Turquia, mas dos curdos em todo o Oriente Médio.

Posteriormente, o Sudeste maioritariamente curdo da Turquia foi mergulhado num estado de guerra civil. Entre 1978 e a prisom do fundador do PKK Abdullah Öcalan em 1999, trinta mil vidas foram perdidas e cerca de quatro mil aldeias curdas destruídas. Ao longo destes anos de conflito, o governo turco sustentou que nom havia “questom curda”; ao invés funcionários do governo enquadram o conflito em termos da luita contra o terrorismo (e, se pressionado, desenvolvimento económico). Como dixo o primeiro-ministro Tansu Çiller durante uma entrevista concedida em 1995 a Daniel Pipes: “Nom há insurreiçom curda na Turquia. Os terroristas do PKK estam a atacar civis inocentes na parte sudeste do meu país sem poupar mulheres, crianças ou idosos.”

No entanto, o sucesso eleitoral do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) em 2002 e a ascensom de Erdoğan ao cargo de primeiro-ministro (umha posiçom que ocupou até a sua eleiçom como presidente em 2014) marcarom umha mudança sutil mas distinta na política oficial para os curdos. No Verao de 2005, o primeiro-ministro Erdoğan viajou para Diyarbakir, um bastiom do nacionalismo curdo, e proclamou que a questom curda era a sua questom e um problema colectivo para a Turquia, confessando que, no passado, ” foram cometidos erros.”

Estas declaraçons foram seguidas por umha série de medidas que facilitarom a fim as restriçons à expressom da cultura curda. Provisons forom feitas para permitir que o curdo fosse ensinado em escolas de idiomas e universidades, a televisom estatal abriu um canal de transmissom em curdo e, em 2009, o governo anunciou a chamada “abertura curda”, processo que o ministro do Interior, Beşir Atalay, Hakan Fidan, chefe da poderosa Agência Nacional de Inteligência da Turquia, estava até em negociaçons com o líder preso do PKK, Abdullah Öcalan, com vista a acabar com o período mais longo de insurgência curda.

É claro que muitas das reformas prometidas permaneceram em grande parte na teoria e o ativismo curdo continuou sendo um negócio arriscado. Em dezembro de 2009, o Partido Democrático da Sociedade (DTP), o antecessor do HDP, foi ilegalizado polo tribunal constitucional da Turquia, alegando que era umha frente para o “terrorismo”. Além disso, os contatos do governo com Abdullah Öcalan nom possuíam umha posiçom legal clara Ou um objectivo definido. No entanto, no início de 2010, parecia que a Turquia estava a avançar lentamente para algum tipo de resoluçom da “questom curda do país.”

Em retrospectiva, parece evidente que a abertura de Erdoğan para com os curdos nasceu nom de qualquer convicçom forte de que a povoaçom curda do país tinha sido vítima de umha injustiça histórica, mas um desejo básico de ganhar votos curdos. No curto prazo, este provou ser bem sucedido, com o AKP aumentando a sua parte do voto no sudeste curdo nas eleiçons gerais de 2007. Entretanto, nas eleiçons locais de 2009 muitos curdos, frustrados com o ritmo lento das reforma, abandonou o AKP, levando ao fracasso do partido para assumir o control do governo municipal de Diyarbakir do DTP pro-curdo.

As reformas lentas também impulsionaram a popularidade da ala parlamentar do movimento curdo, que, em 2014, se fundiu em um novo partido, o HDP. O HDP foi capaz de capitalizar sobre a repulsa sentida por muitos curdos (incluindo os elementos mais conservadores da sociedade curda que geralmente tinham sido solidários com o AKP) em direçom a visom de Erdoğan do movimento curdo sírio, que tinha chegado a proeminência política após a eclosom da Guerra Civil Síria em 2011.

No outono de 2014, quando os combatentes curdos sírios tentaram defender a cidade síria curda de Kobanê das forças do Estado Islâmico, as autoridades turcas se recusaram a permitir que os curdos da Turquia cruzassem a fronteira para ajudar os defensores de Kobanê, apesar de que essas mesmas autoridades tinham sido mais do que dispostas a fechar os olhos para um fluxo constante de jihadistas na Síria desde o território turco. As paixons foram ainda mais inflamadas quando Erdoğan (agora presidente) proclamou, com aparente indiferença fria, que Kobanê estava “à beira da queda”. Umha onda de protestos espalhou-se por toda a Turquia e foi brutalmente reprimida polas autoridades turcas.

A popularidade do HDP também aumentou como resultado da sua postura relativamente progressista em relaçom à economia, aos direitos LGBT e ao meio ambiente. Tais posiçons o ajudarom a construir apoio entre os turcos liberais e esquerdistas, muitos dos quais tinham participado ou simpatizado com os protestos do Parque Gezi em 2013. Assim, sob a co-liderança de Demirtaş, um curdo étnico de Elazığ e Figen Yüksekdağ, umha turca étnico de Adana, o partido conseguiu construir umha coalizom eleitoral que incluía nom apenas curdos, mas liberais turcos, esquerdistas, ambientalistas e ativistas de direitos LGBT. Concedido, a base do partido permaneceu esmagadoramente curda, mas nas eleiçons parlamentares de junho de 2015, esta coalizom pôde impulsionar o HDP após o limiar eleitoral do 10 por cento, umha barreira que em eleiçons precedentes negou-lhe aos partidos pro-Curdo representaçom parlamentar adequada (HDP ganhou o 13,1 por cento).

O sucesso eleitoral do HDP, que veio principalmente à custa do AKP, foi um desafio direto ao crescente poder de Erdoğan, e aparentemente pôs fim às suas ambiçons de reescrever a Constituiçom turca de 1982 e estabelecer umha presidência executiva forte (a Turquia é um sistema parlamentar ). Quase assim que os resultados das eleiçons foram em umha nova ofensiva militar foi lançado contra o PKK.

O estopim para a renovaçom da violência foi o atentadoo, provavelmente orquestrado polo Estado Islâmico, de um grupo de estudantes que se reuniram em Suruç, na fronteira turco-síria, para apoiar os combatentes curdos na Síria. Logo depois, forças de segurança turcas entraram em confronto com militantes curdos em Adiyaman e Ceylanpinar, deixando três soldados mortos. Embora o PKK tenha negado estar envolvido nos combates, essas mortes abriram um espaço para um novo ataque do governo contra o PKK. Sob a capa de perseguir o Estado Islâmico, a força aérea turca atacou posiçons do PKK no Iraque.

Enquanto isso, dentro das fronteiras da Turquia, as autoridades se enfrentaram com militantes curdos em cidades do sudeste. Na primavera de 2016, esta nova rodada de violência custou, segundo as autoridades turcas, 4,571 combatentes curdos, 450 soldados e policiais e polo menos 338 civis. As perdas materiais foram igualmente grandes, com muitas cidades curdas reduzidas a escombros e ruínas, adornadas com bandeiras turcas.

Apesar de alimentar o sentimento nacionalista entre os turcos, estes confrontos nom significarom o fim do HDP. Umha segunda eleiçom realizada em novembro de 2015 viu a queda do voto da HDP, mas nom abaixo do limiar eleitoral do 10%. Na verdade, em termos de assentos parlamentares, o HDP ultrapassou o Partido de Açom Nacional de extrema-direita (MHP), tornando-se o terceiro maior partido parlamentar.

No entanto, após o fracasso golpe de Estado do 15 de julho, a paisagem política na Turquia está mudando rapidamente. Erdoğan usou o caos político para consolidar ainda mais o seu poder, atacando os bastions da oposiçom remanescentes nos meios de comunicaçom, na burocracia, na educaçom e, naturalmente, no movimento curdo.

As fontes de mídia curdas, incluindo a Agência de Notícias Dicle, Azadiya Welat (Naçom Livre) e Evrensel Kültür (Cultura Universal), forom fechadas. Líderes do HDP de governos locais também forom arredondados, incluindo os co-presidentes de câmara de Diyarbakir, Gültan Kışanak e Fırat Anli. Talvez um dos movimentos mais significativos do governo tenha sido o assalto legal à delegaçom parlamentar do HDP.

Em maio de 2016, dois meses antes do golpe de Estado, o parlamento turco votou para remover a imunidade parlamentar dos membros do HDP, umha medida apoiada nom só polo AKP, mas também polo maior partido da oposiçom da Turquia, o Partido Popular Kemalista (CHP) . Na noite do 4 de novembro, as autoridades turcas figeram uso desse novo poder para, de feito, “decapitar” o movimento curdo; um movimento que lembra misteriosamente o ataque de Talat Pasha contra a intelligentsia armênia 101 anos antes.

Assim como os “jovens turcos” usaram a capa da Primeira Guerra Mundial para “resolver” a questom armênia, Erdoğan parece estar usando o pós-golpe para “limpar” a oposiçom curda.

Racializaçom do Conflito Curdo

Um aspecto significativo, mas muitas vezes ignorado, dos desenvolvimentos relacionados com a “questom curda” da Turquia é a mudança gradual na última década para a institucionalizaçom da identidade curda na Turquia. À primeira vista, isso pode parecer um desenvolvimento positivo. No entanto, à medida que a República Turca avançou para o reconhecimento, embora apenas implicitamente, de que os curdos constituem umha comunidade distinta, a comunidade curda, paradoxalmente, tornou-se mais vulnerável à violência dirigida.

A este respeito, a comparaçom com o caso arménio é particularmente relevante. Apesar dos esforços das sucessivas geraçons de reformadores otomanos no século XIX e início do XX para forjar umha “naçom” otomana através do estabelecimento de um conjunto comum de direitos e responsabilidades para todos os sujeitos otomanos, independentemente das suas afiliaçons étnicas ou religiosas, característica persistente da política otomana tardia. Isto foi particularmente verdade em comunidades predominantemente nom-muçulmanas como os armênios que gozavam de um tipo de reconhecimento oficial devido à existência do chamado sistema de milheto, umha estrutura administrativa que proporcionava às minorias religiosas umha forma de autonomia legal.

Na segunda metade do século XIX, essa autonomia institucional foi reforçada polo surgimento de um animado movimento político armênio que impulsionou (às vezes através de umha atividade revolucionária violenta) o reconhecimento dos direitos nacionais armênios (embora nom necessariamente a independência nacional). As elites políticas otomanas consideravam cada vez mais a comunidade armênia nom como “cidadaos” otomanos em potencia, mas como umha ameaça existencial à unidade imperial – umha quinta coluna trabalhando ativamente para minar a ordem política otomana.

Essa tendência foi exacerbada pola proliferaçom de idéias social-darwinistas entre a liderança do Comitê de Uniom e Progresso (mais conhecido no Ocidente como os Jovens Turcos), umha cabala secreta de funcionarios e militares que lideraram o Império Otomano durante a I Guerra Mundial. Esta tendência serviu para racializar umha comunidade que, historicamente, tinha sido compreendida principalmente em termos religiosos. Como dixo o Dr. Nazim, membro da Organizaçom Especial da CUP (Teşkilât-ı Mahsusat), umha organizaçom semi-oficial de inteligência diretamente responsável polas brutalidades contra os armênios, declarou em umha reuniom da CUP em 1915:

Se permanecermos satisfeitos. . . Com massacres locais. . . Se esta purga nom é geral e final, inevitavelmente levará a problemas. Portanto, é absolutamente necessário eliminar o povo armênio na sua totalidade, de modo que nom haja mais armênios nesta terra e o próprio conceito da Armênia seja extinto. . .

Assim, mesmo a conversom ao Islã (um movimento que salvara a muitos armênios da morte durante um conjunto anterior de pogroms em meados da década de 1890), nom era suficiente para salvar os infelizes moradores arménios da deportaçom para o deserto sírio ou o assassinato.

Como poderíamos entom comparar a situaçom dos armênios há um século com a situaçom dos curdos hoje?

A atitude das elites políticas na Turquia republicana em relaçom aos curdos tem sido, historicamente, um pouco diferente da atitude mostrada para os armênios polos arquitetos do genocídio. Isso nom quer sugerir que as noçons racializadas de identidade étnica nom tenham sido significativas na Turquia republicana. A lei das indemnizaçons de 1934, desde que os mecanismos legais para a deportaçom daqueles de “cultura”  nom-turca das suas casas; Umha lei usada com grande efeito para deportar curdos e outros “indesejáveis”, como os judeus da Trácia.

Ao mesmo tempo, o governo de Mustafa Kemal Atatürk estava mais do que disposto a tolerar as atividades dos supremacistas raciais turcos como Nihal Atsiz, um indivíduo que recuperou a propaganda nazista para o consumo turco e descreveu a nacionalidade turca como “umha questom de sangue”. A nível popular, os curdos forom muitas vezes considerados polos turcos como sendo um povo bestial, de pel escura, suja.

No entanto, o discurso “kemalista” oficial nom reconheceu os curdos como um povo distinto. Eles foram descritos como “turcos da montanha”; um povo que era de origem turca, mas que vinhera falar umha forma de “persa quebrado” (curdo, como o persa, é umha língua indo-iraniana). Assim, a política da Turquia para os curdos foi muitas vezes ditadas pola noçom de que a Curdicidade era umha forma de falsa consciência e que qualquer manifestaçom de descontentamento político curdo era o resultado da agitaçom externa.

Assim, os kurdos foram considerados polas elites kemalistas como sendo, para tomar um termo do estudioso Mesut Yegen “turcos prospectivos”; umha comunidade que poderia, por meio da educaçom, ser atraída para o círculo da “civilizaçom” turca moderna. Na verdade, os nacionalistas kemalistas, com a quase obsessom patológica de usar as palavras de Mustafa Kemal, muitas vezes tentavam negar a exclusividade étnica do nacionalismo turco, feita polo fundador da Turquia: “Feliz é aquel que se chama turco”, nom “Feliz é aquel que é turco”; um ponto usado para demonstrar a aparente inclusividade da identidade turca.

É claro que os “nacionalismos cívicos” assimilacionistas, como variedade do nacionalismo turco exposta polos kemalistas seculares, som muitas vezes menos perniciosos do que o chamado nacionalismo étnico (se de feito umha divisom firme entre essas duas categorias pode mesmo ser feita). A missom civilizadora kemalista, apropriadamente descrita por Welat Zeydanoğlu como “o fardo do homem branco turco”, resultou na repressom da língua curda, na prisom de ativistas curdos e em políticas como o rapto em massa de crianças curdas e o seu internamento forçado polo governo em Internatos.

No entanto, a negaçom do estado turco da existência curda também isolou os curdos de um ataque genocida. Embora a violência contra determinadas comunidades de curdos tenha, às vezes, atingido proporçons genocidas – principalmente durante a campanha de Dersim de 1937 e 1938 – enquanto os curdos fossem considerados “turcos em potencia”, ficava fora da agenda a erradicaçom física total da comunidade curda. Afinal, como se pode destruir umha naçom que o Estado se recusa a aceitar que existe?

A situaçom evoluiu no âmbito do AKP. O reconhecimento oficial parcial e imperfeito dos curdos como umha comunidade distinta ao longo da última década criou ironicamente condiçons nas quais o genocídio contra os curdos da Turquia é agora, se nom necessariamente, provável,.

Escrevendo em 2009, Mesut Yeğen observou que “o status dos curdos em relaçom à turquia está à beira de umha grande mudança”. O ponto de Yeğen era que a crença popular de que os curdos poderiam se tornar turcos estava em declínio; no seu lugar, surgiu umha nova narrativa emanando tanto das Forças Armadas turcas como da imprensa nacionalista, que retratava os curdos como pseudo-cidadaos (sözde vatandaşlar) e muitas vezes os ligava a comunidades há muito consideradas fora do círculo turco através do uso de termos como judeus-curdos ou armênios-curdos.

A tendência para ver os curdos como o “outro” claramente definido para o turco tem sido inadvertidamente reforçada por concessons oficiais (por mais escandalosas e superficiais) à identidade curda. É agora impossível para os líderes políticos turcos voltar à política de negaçom que, durante grande parte da história moderna da Turquia, definiu a atitude oficial em relaçom aos curdos. Em vez disso, os curdos som agora considerados polos círculos governamentais e por grandes setores do público turco, como ingratos que, apesar dos esforços do governo, continuam empenhados em destruir o país.

Assim, o castigo coletivo do tipo dos armênios há um século é – talvez por primeira vez na história da Turquia moderna – agora possível. Como os armênios em 1915, os curdos emergiram como um novo “outro” – um grupo distinguível da maioria turca.

A este respeito, a prisom dos co-líderes do HDP, bem como centenas de outros intelectuais e ativistas curdos, parece notavelmente semelhante aos esforços de Talat Pasha para “decapitar” a comunidade armênia. Os apologistas de Erdoğan podem muito bem tentar enquadrar essas prisons em termos da “guerra contra o terrorismo”; especialmente ao justificar as suas açons para os Estados Unidos e Europa.

No entanto, as declaraçons do ministro da Economia Nihat Zeybekçi, em que el comparou os membros do HDP a “ratos”, sugere as atitudes racistas e desumanizantes mantidas pola elite governante da Turquia. Tais declaraçons, feitas num momento em que o conflito militar entre o PKK e o exército turco estam aumentando, servem apenas para endurecer as fronteiras ideológicas que separam os curdos dos turcos e, ao fazê-lo, podem muito bem estar lançando as bases de umha campanha até entom sem precedentes Violência contra a povoaçom curda da Turquia.

Isso resultará em genocídio? Talvez seja cedo demais para dizer. Mas este é 2016, um ano em que muitas coisas que umha vez pensou impossível tornaram-se muito reais.

Djene Bajalan é professor assistente no Departamento de História da Universidade Estadual de Missouri.A sua pesquisa centra-se sobre assuntos do Oriente Médio e ensinou e estudou no Reino Unido, na Turquia e no Curdistam iraquiano.

Publicado em Jacobinmag.

 

 

 

 

 

 

 

“O PKK nunca permitirá a institucionalizaçom do fascismo de Erdogan-MHP na Turquia”

cemil-bayikEntrevista a Cemil Bayik, co-presidente do Conselho Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK)

O co-presidente do Conselho Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK), a organizaçom gardachuva do movimento curdo, Cemil Bayik, falou à ANF sobre os acontecimentos na Turquia, a aliança entre o AKP e o MHP, bem como umha possível operaçom transfronteiriça contra o PKK.

Bayik dixo que umha onda de fascismo estava varrendo a Turquia e que a prisom de parlamentares do Partido Democrático do Povo (HDP) era a última prova disso.

Eles estam fundindo nacionalismo e religiom

“Erdogan e Devlet Bahceli [líder ultra-nacionalista do MHP] uniram-se na Turquia e estam tentando institucionalizar o fascismo. Para fazer isso estam tentando remover todos os obstáculos no seu caminho.

“Se eles estam aprisionando deputados do HPD, bloqueando sedes do HDP para impedi-lo operar, aprisionando membros do HDP, apreendendo municípios no Curdistam através da nomeaçom de administradores, destruindo cidades, deslocando centos de milheiros de pessoas, abusando dos curdos, democratas e intelectuais, torturando presos, executando prisioneiros de Guerra, amarrando-os à parte de trás dos veículos e arrastando os seus cadáveres, expondo os corpos nus das mulheres mortas, permitindo que os animais “dizimem os cadáveres das pessoas que matarom; é porque querem institucionalizar o fascismo.

“Para conseguir isso, precisam silenciar os meios de comunicaçom, intelectuais e artistas. É por isso que eles fecharom as mídias da oposiçom e prenderom jornalistas. Eles querem impor a sua propaganda e fazer as pessoas acreditarem nela. Estam fundindo nacionalismo e religiom para formar as bases sociais para o fascismo. Todo o  mundo precisa estar ciente disso.”

Eles querem tomar a todos como reféns

Bayik continuou a afirmar que o governo e os seus aliados estavam realmente fracos e recorrendo a essas políticas por causa disso.

“Estam praticando umha guerra psicológica muito intensa. Eles estam muito fracos; é por isso que estam fechando associaçons, mídias e partidos e tentando silenciar a todos. Se fossem fortes, eles nom fariam isso.”

A luita intra-curda está a ser provocada

Bayik também observou que o governo e o MHP estavam tentando avançar os sistemas de guarda de aldeia e vigia na regiom curda da Turquia para fortalecer o que el chamou de “traiçom”.

“Eles querem organizar umha força traiçoeira que esteja em colaboraçom com eles e levá-los a atacar curdos. Desta forma, querem transformar a questom curda em umha questom intra-curda, em vez de um problema entre os curdos e o Estado.”

Umha luita alternativa precisa ser desenvolvida

O co-presidente do KCK dixo que o regime na Turquia entraria em colapso se os setores progressistas da sociedade se juntassem.

“Os jovens e as mulheres em particular tenhem um papel importante; intelectuais, artistas, escritores, acadêmicos, jornalistas e trabalhadores também. Alauitas, diferentes grupos nacionais e culturais e democratas sunitas também. Todos os que estam preocupados com este regime precisam de unir-se e formar umha aliança. Se o figeram, esse regime entraria em colapso. Este regime nom tem apoio internacional; o seu apoio interno é fraco. Eles estam tentando retratar-se como tendo um monte de apoio, mas isso nom é verdade.

“Eles tenhem medo de perder o poder, sendo aprisionados e julgados; É por isso que estam recorrendo a essas açons. Erdogan quer transformar o AKP no partido fundador do novo regime e el próprio no seu chefe. Isso significará repressom, prisom, tortura e afrontas para todos os povos e religions. É por isso que todos os círculos que estam contra a institucionalizaçom do fascismo fundado sobre a unificaçom do nacionalismo e a religiom precisam formar umha luita alternativa.

O estado de emergência nom tem legitimidade

Bayik também comentou sobre o estado de emergência na Turquia e dixo que estava sendo armado contra as pessoas.

“O governo usou a tentativa de golpe de Estado do 15 de julho como umha oportunidade para declarar o estado de emergência. Eles figeram isso para adicionar legitimidade às políticas que iriam implementar. Erdogan tem o estado de emergência militar. Está tentando enganar as forças internas e internas dessa maneira. O estado de emergência nom tem qualquer legitimidade.”

Os curdos nom vom cumprimentar o exército turco com flores

Bayık também mencionou declaraçons recentes das autoridades turcas que sugerem umha operaçom em áreas controladas polo PKK na regiom do Curdistam (KRG), ressaltando que Erdoğan nom seria capaz de derrotar o PKK apesar do provável apoio que receberia.

“Erdogan di que vai erradicar o PKK. Com isso, el está tentando fortalecer o nacionalismo, o chauvinismo e o fascismo na Turquia. El quere o genocídio dos curdos. Quere eliminar os círculos seculares, socialistas e democratas para construir um regime baseado no nacionalismo e na religiom. É por isso que Erdogan está a tentar demonizar o PKK e os curdos aos olhos da sociedade turca e da comunidade internacional.

“É claro que el quere erradicar o PKK, que sabe é a única maneira de perpetrar um genocídio curdo e institucionalizar o seu próprio regime fascista. Considera o PKK um grande obstáculo para este objetivo e ataca o PKK e qualquer pessoa relacionada a el com grande raiva. No entanto, Erdogan só trará a sua própria queda dessa maneira, assim como Hitler fixo.

“El nunca poderá erradicar o PKK. El nom é forte o suficiente para fazer isso, mesmo se usa todos os meios do estado e recebe o apoio de algumhas forças internacionais e regionais, e até de alguns curdos. O PKK é um movimento apoiado e formado por milhons de pessoas. Nom está composto apenas por um pequeno quadro, nem por um pequeno movimento de guerrilha. O PKK tem um lugar nos coraçons e mentes do povo curdo, democratas, patriotas e socialistas. O PKK é a esperança dos oprimidos, de todos os oprimidos fora da Turquia também. Se Erdoğan quer erradicar o PKK, terá de massacrar todos os curdos, todos os oprimidos, todos os intelectuais, democratas, escritores e artistas que simpatizam com el.

“Eles [as autoridades turcas] falarom recentemente em conduzir umha operaçom em Qandil (base do PKK). Deixe-os vir, se podem. O povo curdo nom vai cumprimentá-los com flores. A Turquia provavelmente experimentará a maior derrota da sua história.”

O PKK jamais permitirá que o fascismo se torne institucionalizado na Turquia

O co-presidente do Conselho Executivo do KCK, Cemil Bayik, encerrou a entrevista dizendo que nom poderia haver democracia, liberdade ou justiça ou um futuro seguro na Turquia a menos que o AKP e o MHP fossem eliminados.

“Se as pessoas querem garantir o seu futuro, devem luitar contra o fascismo de Erdogan-Bahceli. O PKK jamais permitirá que o fascismo se torne institucionalizado na Turquia. O PKK nom luita apenas para si e para os curdos, mas sim para a humanidade, a democracia e a justiça. Esta é umha luita por todos e haverá umha vitória definitiva se for apoiada por todos.”

Publicada em ANF – Ajansa Nûçeyan a Firatê e KurdishQuestion.

 

‘Erdogan vai seguir os passos de Saddam ou Hitler’: Entrevista a Zubeyir Aydar, líder político curdo

01-zubeyir-aydarPor Figen Gunes

“A maior mostra de solidariedade após a resistência de Kobanê em toda a Europa entre os curdos foi depois que os líderes e deputados do HDP foram presos na Turquia “, dixo Zubeyir Aydar, membro do Comité Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK),  organizaçom a que pertenze o Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK).

Zubeyir Aydar respondeu às perguntas de Figen Gunes sobre a ausência de protestos nas ruas na Turquia, bem como o apoio dos partidos do Governo Regional do Curdistam e as possibilidades de transformá-lo numha oportunidade para consolidar as relaçons nacionais entre os Curdos.

Figen Gunes: O povo do sudeste da Turquia sofreu umha grande destruiçom em todos os níveis desde o colapso do processo de paz. Depois de quase 200 civis terem sido queimados vivos em três sotos de Cizre, Sirnak, seria de esperar fortes protestos públicos. No entanto, nom houvo grandes manifestaços. Mas quando olhamos para a diáspora curda na Europa, especialmente na Alemanha, vemos umha  forte condenaçom do governo turco em grandes protestos de milheiros de pessoas enviando mensagens de apoio para às gente do sudeste da Turquia. Pode nos falar sobre essa dicotomia?

Zubeyir Aydar: Quando o estado está matando as pessoas nas ruas é difícil sacar as pessoas. Há milhons de pessoas em Bakur (norte do Kurdistan-sudeste da Turquia) que, de outra forma, estariam nas ruas protestando contra a opressom dos curdos. Sob as Leis de emergência, há actuaçons limitadas. Além disso, os líderes que organizariam estas mobilizaçons estam todos sob custódia ou presos.

Até 1992, grandes massas protestavam nas ruas. No entanto, quando eu fum a Sirnak no verao de 1992 como deputado da cidade, a gente mirava-nos de longe. Estavam com medo de aproximar-se-me devido à atmosfera no momento. Isso nom significava que eles estiveram contra minha ja que fum escolhido por eles. É porque o estado é muito experiente em como silenciar às pessoas.

As multitudess que vimos na Europa em protestos públicos tenhem as mesmas inclinaçons políticas com aqueles no Curdistam. Aqui na Europa, nom há nem toques de recolher nem limites aos protestos. Esta é a única razom pola qual nom vemos protestos em Diyarbakir, onde as pessoas sabem que pagariam com as suas vidas. Tendo dito que em Adana e Mersin, por exemplo, há menos pressom e as pessoas estavam criticando as decisons do governante AKP.

O Plano Colonialista de Reforma do Leste ainda está em vigor

F.G: Historicamente, o governo turco, que criaram um  espaço para conversaçons bilaterais com os líderes do PKK, classificariam mais tarde estas conversas como atos de traiçom. Pode nos dizer se o governo atual na Turquia tinha umha política para tratar os curdos de umha certa maneira desde o início ou estamos enfrentando umha liderança volátil sem planos concretos do governante AKP?

Z.A: O Plano de Reforma do Leste (Sark Islahat Plani), que chamamos de plano de genocídio, tem sido usado contra os curdos desde 1925. Este era o documento teórico detalhando como os curdos seriam erradicados. Nos últimos anos, a Turquia tentou abordar a questom curda sem recorrer à guerra, mas este discurso nom reconhecia a identidade curda. O governo turco mais umha vez nos últimos anos viu o PKK apenas como portador de armas; Eles pensavam que se o PKK desistisse das armas, a questom curda seria resolvida. Isto foi mencionado em todas as conversaçons, incluindo Oslo (2009) e Imrali [2013-2015] com o governo turco.

O governo nom apresentou um plano político para abordar a questom. Emre Taner, ex-funcionário do Serviço de Inteligência Turco (MIT), repetiu recentemente isso quando deu provas ao comitê de investigaçom do golpe. Taner foi o arquitecto das conversaçons de Oslo e admitiu que o governo turco nom ofereceu um roteiro aos curdos durante as conversaçons de Oslo para resolver a questom.

Além disso, o primeiro objectivo estabelecido no Plano de Reforma Oriental era a assimilaçom dos curdos residentes no Oeste do Eufrates. Portanto, quando o atual governo turco di que o oeste do Eufrates é a sua linha vermelha, isso nom deve ser visto como umha coincidência. Esta fronteira de feito vem deste documento histórico. O governo pensa que se os curdos atravessaram ao oeste do Eufrates em Rojava, também o fariam no Iraque.

Declaraçom de Dolmabahce

F.G: Os curdos forom capazes de negociar um acordo com o atual governo em fevereiro de 2015. Por que entom a Declaraçom de Dolmabahce foi desfeita? 

Z.A: O atual período de guerra veu depois do estado profundo na Turquia: Ergenekon e Gulenistas estenderam a cabeça e questionaram a Declaraçom de Dolmabahce. Esta declaraçom tinha o potencial de resolver a questom curda através de dez pontos práticos. Contudo, estas forças do estado profundo digeram-lhe a Erdogan, “Vostede é o que senta no palácio mas esta declaraçom deve ser bloqueado”. Esta era inerentemente umha decisom de guerra. Queriam buscar umha resoluçom nas negociaçons de paz, ou luitar. No verao, logo da Declaraçom de Dolmabahce ter sido abandonada por Erdogan, o conflito retomou. Agora, mesmo as associaçons curdas estam sendo fechadas. Nom apenas isso, os conselhos locais eleitos e administrados polos curdos estam sendo apreendidos e substituídos por administradores designados polo governo. A prisom dos 10 deputados do HDP é também umha parte deste período de conflito. Nom reconheceremos os guardians designados. No entanto, as declaraçons para o auto-governo curdo nom estam na nossa agenda para o futuro próximo porque o povo nem sequer é capaz de respirar e mover-se livremente.

Ajoelhar-se ou morrer

F.G: Forom abordados polo governo turco para iniciar umha nova fase de negociaçons após a mesa da negociaçom ter sido derrubada.

Z.A: Nom. Nós, como Movimento de Libertaçom do Curdistam somos confrontados com a destruiçom total porque o governo di isso: ou ajoelhar-se ou morrer. Nom nos inclinaremos, portanto estamos sendo atacados. Primeiro, a Turquia apoiou o Daesh (Estado Islâmico) para bloquear os ganhos dos curdos na Síria, e entom entrou el mesmo com o mesmo objetivo. A nossa estratégia é defender-nos em Rojava e Turquia com as armas. O presidente Recep Tayyip Erdogan é um ditador e por esta razom estaremos trabalhando para construir umha frente pola democracia ao lado de outras vozes da oposiçom na Turquia.

Outra prioridade para nós é concentrar-nos com a diplomacia, neste momento particular. Vamos expor os erros da Turquia, especificamente da OTAN e a UE. Nom Imos ajoelhar, mas resistiremos e isso precisa ser explicado ao mundo inteiro.

O objetivo dos curdos umha nova aliança

F.G: A Turquia atravessa um período extraordinário. Como é que o partido no poder preenche os cargos vacios polas grandes purgas? Quem som os novos sócios do Estado?

Z.A: Erdogan formou umha nova aliança com o Ergenekon. Ironicamente, os Gulenistas e Erdogan luitaram juntos contra esta força na última década e aprisionou-nos. No entanto, agora, Erdogan tem umha aliança inversa em vigor. O primeiro objetivo desta aliança é a consolidaçom do governo de Erdogan. A segunda é a eliminaçom total dos gulenistas nas posiçons governamentais. Sob esta nova aliança o objectivo comum de luitar também os curdos.

Erdogan nom descera do seu palácio normalmente; El vai ser preso ou morrer, seguindo os passos de Hitler ou Saddam, que el tentou imitar com as suas políticas expansionistas e opressivas na Turquia e no Oriente Médio em geral. A UE e os Estados Unidos nom estam satisfeitos com esta orientaçom. Eles nom querem umha Turquia instável. Apesar de estar infelizes, ainda nom querem impor sançons contra a Turquia, o que deveria ter sido feito rapidamente.

Os grupos paramilitares de Erdogan

F.G: Como pode esta nova aliança sobreviver em meio disses inimigos?

Z.A: Erdogan tem trabalhado na criaçom dos seus próprios grupos paramilitares. Historicamente, o partido político nacionalista MHP foi dado a esta tarefa e criou os Lobos Cinzentos para usa-los em favor do governo. Mas agora, as Unidades Otomanas (Osmanli Ocaklari) forom formadas e estam sob as ordens diretas do governo e operam como parte das unidades especiais no serviço secreto. No ano passado, houvo uma onda de ataques ao HDP. Este foi trabalho das Unidades Otomanas. Os alemaes alertaram-nos sobre a sua grande existência na Alemanha. Acreditamos que estam organizados em toda a Europa. As informaçons da Alemanha reveladas sobre eles devem ser tidas em conta e tomar medidas.

Unidade Curda

F.G: Alguns pensam que a personalidade alegre e adorável de Selahattin Demirtas pode desempenhar um papel em reunir outras seçons do movimento curdo; Vostede está esperançoso na unidade entre os curdos, especialmente depois que os líderes do HDP foram presos?

Z.A: As prisons dos líderes do HDP criaram umha reaçom entre outros líderes curdos. No entanto, eu encontrei a reaçom do KDP macia. Os problemas atuais nom podem ser resolvidos através da opressom; A liderança do KDP nom condenou as açons da Turquia. Dito isto, outros partidos curdos nas quatro partes do Curdistam mostraram a sua condenaçom da Turquia, o que é importante. Os desenvolvimentos em Mosul e Rojava criam ainda a necessidade de unifidade entre os curdos. Estamos prontos para um diálogo mais desenvolvido; No entanto, é difícil prever se isso levaria a quaisquer ganhos sob a forma de cooperaçom sólida a curto prazo.

Diferenças históricas

F.G: O PKK está perdendo força depois dos recentes ataques?

Z.A: Os curdos gozavam de autonomia sob o domínio otomano desde o início dos anos 1500 até o início do século XIX. Quando isso mudou, começarom os motins contra os otomanos. O primeiro motim foi em 1806 em Sulaymaniah. Desde entom, 210 anos passarom, mas há umha série de revoltas. O ex-presidente da Turquia, Suleyman Demirel, dixo umha vez que o PKK era a 29ª revolta curda, no entanto, de acordo com os documentos do Comandante Geral turco, o PKK é o 39º movimento curdo desde o início do Império Otomano. A diferença é que a existência do levante do PKK é a mais longa do que o total de todas aquelas que forom anteriormente. Os movimentos do passado eram locais e fracos e, portanto, forom suprimidos em um curto espaço de tempo. No entanto, o PKK tem crescido continuamente nos últimos 33 anos.

Na Turquia, os governos venhem e vam e cada um promete erradicar o PKK, mas nom foi esse o caso. Nos anos 90, tínhamos um grupo parlamentar curdo, mas agora, apesar de alguns terem sido presos, temos um grupo muito mais forte. Temos também mais municípios administrados polos curdos e o reconhecimento internacional de Rojava, que nom existia no passado. Mais umha vez na década de 1990, houvo Saddam no Iraque e o Governo Regional do Curdistam era fraco. A OTAN era um partidário proeminente da Turquia. Mas nos últimos anos, a UE e as relaçons da OTAN com a Turquia tenhem azedado. Os curdos também pagarom um preço durante este período, mas imos sair mais fortes. A operaçom de Raqqa ajudará os curdos a ganhar mais reconhecimento.

Trump no Oriente Médio

F.G: Trump vai ser um bom amigo para os curdos? Qual é a sua previsom, dado o seu populismo no período das eleiçons?

Z.A: É difícil prever, como el era um homem de negócios no passado. Nom tem experiência política. Foi eleito presidente, mas um home nom pode mudar o modelo de política da América sozinho. A sua política externa e prática nom muda com um home. Além disso Trump nom está claro sobre como vai implementar as suas políticas. Queremos que a América seja mediadora nas negociaçons de paz e entenda que a política opressiva da Turquia contra os curdos nom pode durar mais tempo.

03-figen-gunesFigen Gunes é umha jornalista de Al Jazeera Inglês com foco na liberdade de expressom, a mudança de propriedade dos mídia e julgamentos de jornalistas na Turquia. Formada em mestrado em Relaçons Internacionais, escreveu a sua tese sobre a viabilidade futura de Rojava.

Publicado em Kurdishquestion.

A KRG continua a ocultar a cumplicidade de Comandantes Peshmerga no genocídio jazedi 2 anos mais tarde

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3 de agosto do 2014: As forças Peshmerga fugem de Shingal, deixando os civis nas maos do ISIS (Ronahi TV)

“Imos morrer, todos imos morrer”, dixo um Jazidi a câmera enquanto milheiros de soldados do Governo Regional do Curdistam (KRG) estavam fugindo do campo de batalha. Era o 3 de agosto de 2014, o dia em que o Estado Islâmico invadiu a área de assentamento autoctono da minoria Jazidi de Shingal e cometeu um genocídio. Os comandantes Peshmerga, juntamente com os seus 11.000 soldados a cargo da regiom fugiram no meio da noite e as primeiras horas da manhaá, deixando os civis para os executores do ISIS. Nom teria havido nengum genocídio se os Peshmerga do Partido Democrático do Curdistam (KDP) cumpriram o seu dever e responsabilidade. Poucas horas de resistência teria sido suficiente para salvar milheiros de pessoas da morte e outras milheiras de mulheres e crianças da escravitude. Inicialmente dixo-see que houvera um “recuo tático” ou que as forças Peshmerga nom possuiam acesso a suficientes armas para a defesa da regiom. Ambas as alegaçons provarom-se falsas.

O presidente curdo e comandante supremo dos Peshmerga, Massoud Barzani, anunciou a sua intençom de levar os comandantes responsáveis à justiça e puni-los. Os membros do Comité Central do KDP anunciarom, além disso, abrir umha investigaçom sobre a fuga dos Peshmerga de Shingal, incluindo a Ali Awni: “Os Peshmerga deixarum os seus deveres e abandonarom as suas posiçons quando nom deviam”. Palavras claras, que nunca forom seguidas por açons. Logo Barzani elogiou os seus Peshmerga e sua coragem em Shingal – a coragem daqueles que tinham anteriormente abandonado mulheres e crianças.

Um suposto comitê de investigaçom aprovado por Barzani interrogarom, de acordo com o KDP, 200 comandantes Peshmerga que tinham estado destacados em Shingal o 3 de agosto e fugirom da área quando o Estado Islâmico lançou a sua ofensiva. Nom houvo nengum resultado nem consequências.

Os comandantes que tinham sido implantados em torno a Shingal ainda estam livres – fiéis membros do KDP que podem contar com o governo para evitar os processos. Quando os Peshmerga, a maioria dos quais estavam filiados ao Partido Democrático do Curdistam, abandonarom as suas posiçons, combatentes Peshmerga que se dirigiam a Duhok abrirom fogo e assassinarom vários membros Jazidis Peshmerga que tinham parado o seu comboio e pedirom-lhes que luitaram ou deixaram polo menos armas para trás a fim ser capaz de se defender. Antes disso, os Jazidis tinha sido desarmados polos Peshmerga do KDP que lhes prometeram cuidar da sua segurança.

O governo curdo, no entanto, nom abordou a questom e comprometeu-se a tentativa de reabilitar a Aziz Waysi, comandante superior da Brigada Peshmerga Zerevani que fugiu de Zumar e abriu a porta para o ISIS, no leste de Shingal, em novembro do 2015, com a ajuda de “jornalistas” que cobriam a libertaçom da cidade de Shingal. Waysi foi teatralmente retratado por VICE News como um comandante sem medo, como se el nunca fora responsável pola queda da region. El nom enfrentou umha condena pola infraçom voluntária ou negligente do seu dever, nem umha investigaçom séria.

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Aziz Waysi (VICE News)

Hoje, dois anos após o genocídio, o Governo Regional do Curdistam dirigido polo KDP (KRG) está tentando tudo para esconder a cumplicidade dos seus Peshmerga. Apesar de apoiar abertamente os esforços para o reconhecimento do genocídio contra os Jazidis, a KRG estivo, ao mesmo tempo tentando pôr o seu selo pessoal sobre a narrativa do que aconteceu em Shingal.

O Ministro de Relaçons Exteriores curdo Falah Mustafa, que por um acaso é membro do KDP, apresentou um relatório sobre Shingal ao escritório do Tribunal Penal Internacional, em Den Haag. O relatório foi elaborado polas organizaçons Jazidis Yazda e FYF que figerom um incrível trabalho para a comunidade Jazidi. O relatório que Falah Mustafa apresentou ao TPI, no entanto, nom menciona umha soa vez a debandada das forças Peshmerga diante o ISIS, sublinhando a pressom que o KDP tem buscado colocar em Jazidis. Em um novo relatório, detalhado e escrito de forma independente, no entanto, Yazda chamou a atençom da debandada das forças Peshmerga diante o ISIS que levou à queda de Shingal e permitiu ao ISIS realizar um genocídio. Pedindo justiça para os Jazidis, como Falah Mustafa fai, enquanto cobrendo aos responsáveis deve ser visto como umha absoluta paródia.

Umha comissom nomeada polo Conselho dos Direitos Humanos da ONU sob Paulo Pinheiro para investigar os crimes do ISIS classificam as atrocidades da organizaçom terroristas contra os Jazidis como genocídio e divulgou um relatório salientando o papel central dos Peshmergas para que caira a regiom e, finalmente, o genocídio. Os Peshmerga, que eram a única força de segurança na regiom, fugirom, sem advertir os civis, deixando a regiom e o seu povo aos jihadistas do Estado islâmico que enfrentarom pouca ou nengumha resistência, como di o relatório.

Assim, a Comissom solicita ao Conselho de Segurança da ONU de tomar medidas apropriadas: “Umha preocupaçom especial e um exame das circunstâncias da retirada dos Peshmerga da regiom de Sinjar quando o ataque do ISIS começou. […] Realizar umha investigaçom pública e transparente sobre as circunstâncias da retirada das forças Peshmerga da regiom de Sinjar a começos de agosto de 2014, e assegurar que a comunidade Jazidi está envolvida e assim mantida regularmente informada dos trabalhos de investigaçom “, afirma o relatório.

Muhammed Yusuf Sadik, presidente do parlamento curdo e membro do Movimento para a Mudança (Gorran), tem, juntamente com outros partidos, constantemente apelado para castigar aos comandantes Peshmerga que forom os responsáveis do genocídio.

Nechirvan Barzani, o primeiro-ministro da KRG, dixo a umha delegaçom de membros do Congresso dos Estados Unidos que o reconhecimento do genocídio contra os Jazidis e cristians era “um dos esforços mais importantes do Governo Regional Curdo” – umha farsa. Os partidos da oposiçom e pessoas independentes, por outro lado, continuam a abordar a cumplicidade dos Peshmerga, pedindo umha condena dos responsáveis.

Como sabera o governo do KDP, o reconhecimento do genocídio pola ONU também levaria à puniçom dos responsáveis e a umha investigaçom sobre os acontecimentos de Agosto do 2014. Os membros do KDP responsáveis teriam assim de prestar contas das suas atividades diante do Tribunal Penal Internacional. Iraque, da que a regiom curda é parte, no entanto, nom ratificou o Estatuto de Roma. Isso vai-lhe bem ao KDP e diminue as possibilidades de estabelecer um Tribunal Especial.

Mentres o governo KDP continua defendendo o reconhecimento do genocídio, os seus funcionários devem primeiro cumprir o seu dever e chamar aos seus comandantes responsáveis a prestar contas. O governo curdo nom será capaz de recuperar a confiança, mas deveriam conhecer melhor o que é o valor da justiça depois de décadas de pedir justiça por Halabja. A questom continua porque as forças Peshmerga correrom diante do ataque do ISIS e – como o vídeo mostra – aparentemente tomarom umha estratégia coordenada.

Além Aziz Waisi, os seguintes comandantes e políticos forom diretamente responsáveis do genocídio em Shingal:

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Seid Kestayi

Seid Kestayi, comandante do Peshmerga (Zerevani) do KDP em Shingal, fugiu da regiom e abriu a frente de Shingal ocidental para os terroristas do ISIS. A sua fugida permitiu ao ISIS sitiar aos Jazidis que tinham procurado refúgio nas montanhas, onde centos de pessoas morrerom de sede. Kestayi e os seus soldados tinham fugido para o norte, sem advertir os civis. El, também, nem enfrentou umha condena pola infraçom voluntária ou negligente do dever, nem umha investigaçom séria. Kestayi continua a estar livre e desfrutar da sua vida.

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Serbest Bapiri

Serbest Bapiri, chefe da seçom 17do KDP em Shingal, deliberadamente nom respondeu a chamadas telefônicas de civis Jazidi armados que tinham pedido ajuda e reforços durante a noite do 3 de Agosto de 2014. Enquanto os Jazidis estavam pedindo ajuda aos Peshmerga no sul da regiom, Bapiri estava fugindo para as montanhas antes deque os  terroristas do ISIS chegaram à cidade. A sua recusa em responder os telefonemas permitiu ao ISIS avançar desde o sul e acabar com os poucos defensores Jazidi que figeram resistência. O comandante do KDP foi finalmente libertado depois de passar alguns dias em prisom domiciliar. Até agora nom há mais investigaçons. Bapiri tem estado a viver na Alemanha desde entom e vai e vem entre a Alemanha e o Iraque.

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Shewkat Duski

Shewkat Duski, responsável das forças de segurança (Asayesh) do KDP em Shingal, também fugiram durante a noite do 3 de agosto de 2014 da cidade Shingal. El foi supostamente informado por Bapiri. As forças de segurança que fugiram com o seu comandante provocarom um vazio de segurança que os vizinhos sunitas aproveitarom para atacar e escravizar Jazidis antes de que o ISIS chegasse à cidade. Duski, quem assim como Bapiri foi chamado por ajuda, nom reagiu. O ISIS foi, assim, capaz de capturar as estradas que levam para as montanhas e atacar civis inocentes. El também, foi libertado depois de passar alguns dias em prisom domiciliar e nom precisa a recear de consequências judiciais.

Outros comandantes do KDP como Tariq Sileman Herni e Musa Gerdi que fugirom do norte da regiom em Rabia e permitirom ao ISIS atacar e cercar cidades Jazidis como Khanasor e Sinune no norte, também continuam livres.

Publicado em Azidi Press

 

 

“A Paz e umha soluçom da Questom Curda só é possível através da luita”

a-paz-e-a-solucom-da-questom-curdaReproducimos o artigo publicado nos jornais curdos Azadiya Welat e Yeni Özgür Politika, e  traduzido ao inglês por ANF English do co-presidente do Conselho Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK), Cemil Bayık sobre a posiçom da KCK (organizaçom garda-chuva que inclue ao PKK) da última mensagem do lider do PKK, Abdullah Öcalan e a apreensom de municípios curdos.

Cemil Bayik escribiu:

“Nom lembro de outro líder fascista na história do mundo que admita abertamente a sua crueldade como o Presidente da Turquia Erdoğan. Erdoğan agora di que vai eliminar o povo curdo, sem necessidade de oculta-lo. Alguns dos adeptos curdos de Erdogan tentam encobrir a sua mentalidade fascista, mas Erdoğan rasga através dessas tampas. El di que vai eliminar os curdos. Di que nom pode haver naçom, vontade política, nem nengumha administraçom na regiom [curda] com exceçom da turca. A repetiçom constante de que existe so umha naçom, umha bandeira, um estado e um pvo todos os dias, Erdoğan desnuda a sua mentalidade monolítica e rejeita os curdos, a sua vontade política e o seu país; o Curdistam. Todos as autoridades turcas estam a dizer agora que eles vam continuar a guerra até que eliminar a todos os guerrilheiro curdos.

Ninguém deve esperar umha soluçom para a questom curda do governo do Partido da Justiça e o Desenvolvimento (AKP). Aqueles que esperam quaisquer passo do AKP seguem esse discurso e essas práticas seram enganandos. Quando o AKP e os seus aliados fascistas [MHP, CHP, Ergenekon], dim que vam destruir e exterminar os curdos, nom se pode cair presa ao descuido ou baixar a guarda. A democratizaçom da Turquia e umha soluçom para a questom curda nom é possível sem dificuldades. A resposta [negativa] do governo aos esforços de Öcalan para a paz estám aí para todos as  verem. Atualmente, a vontade do povo curdo está sob um ataque mais direto. Eles querem completar o genocídio quebrando essa vontade. Nom há dúvida sobre isso. Esta é a decisom, abordagem objetiva, e a prática da política colonialista genocida [do Estado turco].

O que é importante, porém, é a posiçom do povo curdo e as forças democráticas contra esta política. Umha cousa deve ser considerada: A questom curda só pode ser resolvida através de umha luita pola democracia e a administraçom democrática. A mentalidade dominante na Turquia nega os curdos e quer eliminá-los; esta é a política do estado e do governo, portanto, é impossível resolver a questom curda com os partidos políticos e governos atuais. O problema nom é que as reivindicaçons políticas [dos curdos] sejam muito grandes ou pequenas; o problema é a política em curso do Estado turco de negaçom e genocídio. Assim, somente através do estabelecimento de umha administraçom democrática na Turquia, através de umha luita pola democracia e a liberdade, pode a questom curda ser resolvida. Caso contrário, com a mentalidade anti-democrâtica e de governo, esse problema nom pode ser resolvido. Umha abordagem racional nom se pode esperar com esses governos. Neste sentido, é apenas possível aumentar a luita contra eles. Nada se pode fazer pola democracia, a liberdade e a paz antes de compreender este feito e agir em conformidade. Qualquer pessoa com qualquer expectativa fora deste quadro estará enganando a si mesmo e ao povo. E isso permitirá ao colonialismo genocida a implementarem das suas políticas, sem qualquer resistência.

Durante a mais recente visita a Imrali [o 11 de setembro do 2016], Öcalan dixo novamente que, se o estado quisesse, a questom curda poderia ser resolvida em seis meses. Isto é um feito. Öcalan procura resolver a questom curda sem problematizar fronteiras estatais e manifestar essa autonomia democrática no âmbito da democratizaçom da Turquia. Isso é a atribuçom da democracia. Mas a mentalidade na Turquia nom aceita a libertaçom, existência, língua ou cultura dos curdos e, portanto, nom permite a autonomia democrática; e utiliza todas as armas de guerra ao extremo para quebrar a vontade do povo pola liberdade e a democracia.

Há duas maneiras de soluçom para a questom curda e ambas estam interligadas. Umha  é democratizar Turquia em umha luita conjunta com as forças democráticas do país e a outra é que o povo curdo crie a sua própria soluçom democrática e a defenda. Se esta dupla luita é realizado, em seguida, a Turquia irá democratizar e a questom curda será resolvida. Nom podemos esperar na expectativa de que quem está no poder dea os passos.

Sem dúvida, todos querem umha soluçom sem dificuldades, sem conflito e guerra. O Movimento de Libertaçom Curdo tentou esse caminho com paciência, mas nom foi possível. Nós mostramos as abordagens mais razoáveis, mas nom funcionou. Nas condiçons actuais, quem pensa que a liberdade e da paz pode ser alcançada sem resistência, está enganando a si mesmos e colocando o seu pescoço para fora sob a lâmina do colonialismo genocida. A paz e a umha vida livre e democrática nom pode ser conquistada sem resistência.

A paz e umha soluçom só som possíveis através da luita. Tayyip Erdoğan dixo que a opressom e ataques até agora forom so o começo; eles nom estám parando, estám em marcha e vam fazer mais. Assim, todo aquel que fale de outra cousa senom a luita, está a servir os objectivos do colonialismo genocida. Neste sentido, qualquer discurso de paz que nom exija do desenvolvimento da luita ou nom se está esforçando ativamente para desenvolver a luita nom deve ser atendido. Neste sentido, o único pensamento na mente de quem quer a paz e umha soluçom deve ser luita, luita, luita.”

 

 

2º Aniversário: Um genocídio sem fim

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Álbum de fotos de umha família Jazidi nas ruínas de um edifício de Shingal (John Moore)

Lalish. Dous anos atrás, os acólitos do Estado Islâmico (ISIS) invadirom o norte do Iraque, capturando a metrópole de Mosul em um curto período de tempo. Desde entom, a milícia nom só tem aterrorizado o Iraque e a Síria. O seu terror é global e já encontrou o seu caminho para a Europa – um terror que a comunidade Jazidi tivo de suportar durante séculos.

Apenas algumhas semanas depois de ter caído Mosul o grupo terrorista, os jihadistas do ISIS perpetrarom um genocídio inimaginável, mas previsível que ja fora anunciado antes contra a povoaçom civil Jazidi de Shingal. Raramente um genocídio foi tam óbvio dado a sua intençom de destruir. Na sua revista intitulada “Dabiq”, o ISIS assumiu a responsabilidade polas suas atrocidades e até mesmo acusou os vizinhos muçulmanos dos Jazidis de nom te-los exterminado há muito tempo. Um genocídio que ainda nom chegou ao fim, desarraigando a comunidade Jazidi e mergulhando-a em umha profunda crise. Resumimos os acontecimentos e as suas consequências:

→ 450.000 refugiados – um de cada dous Jazidis
→ + 5000 mortos (cifras da ONU)
→ 7.000 raptadas (cifras da ONU)
→ até 3.800 mulheres e crianças ainda estam cautivas
→ até 8.000 crianças órfas e meio-órfas
→ mais de 30 valas comuns descobertas até agora
→ várias aldeias permanecem sob control do ISIS

Genocidio

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Jazidis deslocadas ajudadas por umha membro das Unidades de Proteçom das Mulheres (YPG), nos arredores de montanha Sinjar em 10 de Agosto de 2014. Reuters/Rodi Said

 “Um Genocídio ocorreu e ainda está a ocorrer“, Paulo Pinheiro, presidente da Comissom de Investigaçom da ONU.

Na noite do 2 para o 3 de agosto de 2014, quando os primeiros ataques começarom a tomar corpo no sul da regiom de Shingal, os Peshmerga (principalmente milícias do KDP), que vinheram supostamente a implantar-se na regiom para a segurança dos Jazidis já começaram a fugir. Shingal é a área de principal assentamento do povo Jazidi onde cerca de 500.000 dos 900.000 Jazidis de todo o mundo costumavam viver.

Os 11.000 Peshmerga que foram implantados em torno a Shingal fugirom durante a noite e as primeiras horas da manhá sem avisar à povoaçom civil ou, polo menos, proporcionar rotas de fuga. O ISIS invadiu umha aldeia atrás da outra, os vizinhos sunitas do Jazidis apoiarom a ofensiva terrorista. Voluntários Jazidis defenderom as suas aldeias durante horas. Depois de ficar sem muniçom, as pessoas tentarom escapar ao monte onde forom cercados polos terroristas do ISIS a temperaturas de 40 °. Até 60.000 Jazidis tentarom resistir lá fora por dias, muitos morrerom como resultado da falta de comida e água.

[Haveria que dizer também que ajudou a que nom fôsse maior a massacre a operaçom das YPG/YPJ (Yekîneyên Parastinê Gel) para resgatar aos Jazidis nas montanhas de Sinjar transportando comida e água e fazendo um corredor humanitário; e das HPG (Hêzên Parastina Gel), milícia do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), que frenarom a ofensiva do ISIS em Maxmur; ambas milícias membros da KCK (Uniom de Comunidades do Curdistam].

De acordo com as Naçons Unidas, polo menos 5.000 Jazidis forom assassinados nas cidades e aldeias e até 7.000 mulheres e crianças, incluindo muitas meninas menores de idade, forom sequestradas, escravizadas e posteriormente violadas sistematicamente. Os homens e mulheres capturados forom convidados a se converter ao Islám, por exemplo, em Kojo onde acólitos do ISIS assassinarom cerca de 600 homens e sequestrarom até 1.000 mulheres e crianças depois de terem recusado a se converter. De acordo com umha série de estimativas, 1.000 meninos Jazidis estám sendo treinados militarmente em campos para se tornar futuros suicidas e combatentes do ISIS.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU, o Parlamento Europeu, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, o governo dos EUA e o Parlamento britânico reconhecerom o genocídio. O Conselho de Segurança da ONU, no entanto, ainda nom tomou quaisquer medida. A chamada dos Jazidis para o estabelecimento de um tribunal para julgar os terroristas do ISIS no Tribunal Penal Internacional por cometer crimes de guerra e contra a humanidade.

Valas comuns

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Jazidis analisam os restos ósseos de umha vala comum.

Mais de 30 valas comuns contendo os restos mortais de homens, mulheres mas também de crianças até agora forom descobertos nas regions libertadas de Shingal. A ONU, apesar dos pedidos da comunidade Jazidi, nom forneceu nengum perito em preservaçom de provas ou documentou as valas comuns para futuros processos contra os terroristas do ISIS. Os cientistas forenses do governo curdo estam tentando faze-lo o melhor possível, mas nom tenhem o equipamento necessário. Umha das valas comuns, que foi descoberta no sul da regiom, continha os restos de 80 mulheres. Até 120 restos mais forom descobertos em outra perto da cidade Shingal. As sepulturas estam, no entanto, muitas vezes inspeccionados por luitadores, jornalistas ou Jazidis à procura dos seus parentes, o que torna difícil preservar as provas no futuro.

Escravitude

“Ela tem 12 anos. Hweida nom sabia o que era a violaçom, mas acordou com sangue entre as suas pernas.”, NBC Report.

Jazidis escravasAté 7.000 Jazidis, a maioria das quais eram mulheres e crianças, forom sequestradas. Na sua revista Dabiq, o ISIS referiu o seu rapto como a reintroduçom da “tradiçom islâmica da escravidude”. As Jazidis sequestradas forom levadas para outras partes do Iraque e da Síria. 3.200 mulheres e crianças forom libertadas ou conseguiram escapar. Elas relatarom violaçons em massa, tortura e assassinatos nas prisons do ISIS. Crianças nascidas em cautiveiro do ISIS forom entregues a famílias muçulmanas. As mulheres e crianças Jazidis raptadas som oferecidas para a venda por terroristas do ISIS através das redes sociais ou nas ruas. O ISIS usa a violaçom sistemática como umha arma psicológica contra toda a comunidade Jazidi.

3.500 outras Jazidis ainda permanecem, desde há dous anos, no cautiveiro do ISIS. O genocídio continua com o seu cativeiro e nom permite que os Jazidis poidam descansar. Até agora nom há medidas concretas para a sua libertaçom, tais como operaçons militares especiais. As famílias Jazidis pagam somas de cinco dígitos para resgatar os seus parentes, caso a opçom esteja disponível. O ISIS reforçou as medidas de segurança após umha série de tentativas de fuga bem-sucedidas, é por isso que cada vez menos mulheres e crianças podem ser resgatadas ou som capazes de escapar. Muitas das mulheres e crianças escravizadas crê-se que estam nos redutos do ISIS de Mosul e Raqqa.

Mas mesmo depois da sua libertaçom, o seu calvário nom chega ao fim. Fortemente traumatizadas, muitas delas resistem nos campos de refugiados sem ter acesso à assistência professional. Nada abalou a comunidade Jazidi nas suas bases, como os seqüestros e as violaçons. A maioria também perderam os seus familiares nas massacres de Shingal.

Órfaos

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Crianças Jazidis do campo de refugiados de Esiya (EzidiPress)

A campanha de destruiçom do ISIS transformou milheiros de crianças em órfaos e meio-órfaos, muitos dos quais forom testemunhas de como as suas maes e/ou pais foram mortos polos terroristas do ISIS diante dos seus olhos. Há 3.000 órfaos, de acordo com dados oficiais. Estimativas nom oficiais, no entanto, indicam que há 8.000 crianças e jovens órfaos e meio-órfaos. Os que muitas vezes encontram aos seus parentes que, no entanto, também carecem de tudo. portanto os Jazidis procuramos construir orfanatos.

Êxodo em massa

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Crianças refugiadas de Shingal perto de Semel, Duhok (Ezidi Press)

“Esta terra é a nossa tumba “, refugiado Jazidi.

O plano pérfido do ISIS para destruir a comunidade Jazidi aparentemente provou ser bem sucedida. Cerca de 100.000 Jazidis já deixarom o Iraque / Regiom Autónoma do Curdistam – que é cerca do 20% da povoaçom total Jazidi. Atravessa a Turquia e o Mediterrâneo, muitos estam tentando alcançar porto seguro na Europa. Um número estimado de 30.000 Jazidis já solicitarom asilo só na Alemanha – com umha tendência crescente. Os 900.000 Jazidis já vivem nos quatro continentes, em mais de 20 países.

 Destruiçom e luita polo poder político

Um camiom com forças de segurança curdas fai o seu caminho através das ruínas de Sinjar. (John Beck / Al Jazeera)
Um camiom com forças de segurança curdas fai o seu caminho através das ruínas de Sinjar. (John Beck / Al Jazeera)

O lar tradicional do Jazidis tornou-se um lugar de luita polo poder político. Dúzias de partidos políticos e forças militares estám tentando exercer a sua influência no vazio de poder que foi deixado lá. Bandeiras de Partidos e militares som içadas acima das ruínas dos edifícios destruídos. A regiom está de facto dividida em duas zonas: os grupos ligados ao PKK [KCK em realidade], como as Jazidis YBŞ que controlam o oeste da regiom. Eles estam em umha luita de poder com o KDP, e os seus aliados Peshmergas e Jazidis que controlam o leste da regiom.

Cerca do 85% das infra-estruturas da regiom, vilas e cidades forom destruídas. O Conselho de Representantes iraquiano declarou a regiom como zona de catástrofe. De acordo com as avaliaçons fornecidas polas autoridades, seram necessários 150 milhons de euros para a reconstruçom da área. O retorno dos refugiados parece, portanto, impossível – também devido à situaçom de segurança.

 Aldeias ocupadas

Dúzias de aldeias no sul da regiom, como Kojo, permanecem sob control do ISIS. Há diferentes opinions sobre por que a regiom ainda nom foi liberada.

Crise que Ameaça a Existência

Crianças jazidis em um campo de refugiados em Midyat (Reuters)
Crianças jazidis em um campo de refugiados em Midyat (Reuters)

O genocídio, a traiçom dos Peshmerga, bem como a luita polo poder político sobre a regiom desarraiga a comunidade Jazidi e mergulhou-na em umha profunda crise, a ameaça da existência. As frentes políticas que estiveram latentes durante décadas tenhem-se endurecido, o tom entre os diversos grupos tornou-se mais forte. Acusaçons mútuas e condenaçons ameaçam com dividir a comunidade nas décadas futuras. O Conselho Religioso Jazidi parece paralisado à luz dos desafios e pressons políticas.

Os partidos políticos estam a tentar impor a sua agenda por e com os Jazidis. Especialmente as geraçons mais velhas nom parecem compreender que esta crise pode realmente levar à queda da comunidade Jazidi e, portanto, da antiga herdança da cultura mesopotâmica.

Mais umha vez, heróis no começo acabarom por ser membros leais do partido – que é umha das razons que permitirom em primeiro lugar esta crise. É, portanto, jovens activistas, como Nadia Murad que dam umha nova esperança para os Jazidis e assumem a responsabilidade pola sua comunidade.

Publicado por Êzîdî Press.

 

 

Chamada do Conselho de Mulheres Jazidis de Shingal às mulheres no mundo

Mulheres Jazidis conselhoO Conselho das Mulheres Jazidis de Shengal convida as mulheres do mundo a declarar o 3 de agosto como “Dia Internacional da Açom contra o Feminicídio e o Genocídio” através de um texto com o apoio das organizaçons de mulheres.

A Assembléia das Mulheres Jazidîs de Shengal enviou um texto às mulheres do mundo intitulado “Chamada para o Dia Internacional da Açom contra o feminicídio das Mulheres jazidis “. O texto é apoiado por muitas organizaçons de mulheres:

“O 3 de agosto de 2016 marca o segundo aniversário do feminicídio e Genocídio polo Estado Islâmico (ISIS) contra o povo jazidi em Sinjar / Shengal. O 3 de agosto de 2014 o ISIS atacou e capturou Sinjar, que é a pátria histórica dos jazidis, umha minoria religiosa curda cuja antiga religiom está ligada ao zoroastrismo. O ISIS destruiu santuários jazidis, executou os resistentes e exigiu os moradores jurar fidelidade ou morrer.

“Durante a massacre do ISIS em Sinjar até 5.000 jazidis forom executados. Quase 200.000 pessoas conseguirom fugir. 50.000 jazidis fugirom para as Montanhas de Sinjar, onde estavam encurraladas sem comida, água nem assistência médica, enfrentando a fome e a desidrataçom. Ao mesmo tempo, cerca de 5.000 mulheres e crianças jazidis forom capturadas. Elas forom apropriadas como espólio de guerra e vendidas como escravas sexuais a homens muçulmanos ou entregues aos comandantes do ISIS. Aquelas que recusarom converter-se forom torturadas, violadas e, eventualmente assassinadas. Os bebés nascidos na prisom, onde as mulheres estám detidas forom-lhes retirados às suas maes a um destino desconhecido. As mulheres supostamente violadas polos combatentes do ISIS cometerom o suicídio saltando para a morte no Monte Sinjar. Enquanto um grande número de mulheres conseguiu fugir ou conseguiu ser libertadas, aproximadamente cerca de  3.000 mulheres ainda estám em cativeiro do ISIS.

Embora a campanha do ISIS contra o povo jazidi muitas vezes é descrita como umha massacre, ela mostra todas as características do genocídio. Mas além disso, o ISIS realizou atos de feminicídio. Sequestro de mulheres jazidis como espólio de guerra, escravitude, violaçons sistemática, conversom forçada nom som só partes de umha guerra sistemática contra as mulheres, é feminicídio.

O povo jazidi, especialmente as mulheres em Sinjar responderom os atos de genocídio e feminicídio do ISIS através da auto-organização e auto-defesa. Hoje Monte Sinjar marca o centro da auto-organizaçom jazidi por meio das unidades de auto-defesa so povo e os conselhos de mulheres como expressom da sua vontade coletiva.

Mas a ameaça do ISIS sobre o povo jazidi em Sinjar continua. E ainda inúmeras mulheres permanecem nas maos do ISIS. Para a sua libertaçom é necessária umha açom nacional e internacional de solidariedade.

Além disso, a Comissom Especial das Naçons Unidas declarou no seu relatório publicado o 16 de Junho de 2016, que os incidentes que aconteceram em Sinjar equivale a genocídio e crimes contra a humanidade. Continuaremos a nossa luita até que os responsaveis sejam julgados e paguem polos seus crimes.

Por isso chamamos para o Dia Internacional da Açom contra o feminicídio e genocídio com motivo do segundo aniversário da campanha do ISIS contra o povo jazidis em Sinjar o 03 de agosto de 2016 com actos de protesto que vejam oportunos nas suas localidades. O movimento das mulheres curdas organizará minutos de silêncio e açons de protesto em diferentes partes do Curdistam e na Europa nesse dia. Nós chamamos para te juntar a nós e levantar a voz da liberdade.”

Conselho de Mulheres Jazedis de Shengal

Apoios:
Basur /Curdistam sob administraçom Iraquiana:
Kurdish Women’s Relation Organization (REPAK)
Kurdistan Free Women’s Organization (RJAK)
Rassan Organization for Defending Woman Rights
Social Development Organization
Sazan Women and Human Rights Reunion Organization
Saya Organization Strives Against Violence and Gender Discrimination
Work Institute for the Development of Democracy (WID)
Kurdistan Women’s Alliance
Women’s Union of Kurdistan – Zhinan
Zhindrusty Organization to Obtain Better Health Services for Women

Rojava / Curdistam Oeste:
Star Congress
Free Women’s Foundation
Women’s Commission
Sara Association to End Violence Against Women
Democratic Union Party (PYD) Women’s Branch
Syria Kurdish Left Party Women’s Branch
Syria Kurdish Democratic Left Party Women’s Branch
Kurdistan Communist Party Women’s Branch
Kurdistan Liberal Union Women’s Branch
Syria Kurdistan Democratic Party Women’s Branch
Kurdistan Green Party Women’s Branch
Free National Party Women’s Branch

Bakur / Curdistam sob administraçom turca:
Struggle Platform for Women Forcefully Seized
Free Women’s Congress (KJA)
Democratic Regions Party (DBP) Women’s Council
Democratic Society Congress (DTK) Women’s Council
Selis Women’s Association
Ceren Women’s Association
Rainbow Women’s Association

Rojhelat / Curdistam sob administraçom Iraniana
Doğu Kürdistan Özgür Kadınlar Topluluğu (KJAR) (East Kurdistan Free Women’s Community)

Europe
Umbrella Organization of Yazidi Women’s Councils in Germany
Yazidi Youth Union
Central Council of Yazidi Associations
Ceni Kurdish Women’s Peace Office
Hevi Education and Integration Association
Yazidi Kevnas Association
Kahniya Sîpî Association
Union of Students from Kurdistan (YXK)
Union of Female Students from Kurdistan (JXK)
Kurdish Peace House Bielefeld
Democratic Allawi Federation (FEDA)
Democratic Union Bielefeld
Socialist Women’s Union (SKB)
Kurdish Women’s Movement in Europe (TJKE)
Femmes Solidaires

Turkey
People’s Democratic Congress (HDK) Women’s Council
People’s Democratic Party (HDP) Women’s Council
Socialist Women’s Councils (SKM)
Women’s Freedom Council (KÖM)
Foundation for Solidarity with Women (KADAV)

Cyprus
Association for Migrant Rights (MHD)
Feminist Atelier (FEMA)
Free Women’s Academy (ÖKA)

Recolhido por Jinha (Agência de Mulheres).

 

Jazidis em Iraque: “Este país é a nossa tumba”

EzidischeFlüchtlingskinderEsiya

Crianças Jazedis refugiadas de Shingal no campo de refugiados de Esiya, 2015

Dohuk – “Até aqui”, di Hewas e mostra com a mao direita, a borda exterior da mao no seu antebraço esquerdo. “Até este ponto, ate o osso. É suficiente, estamos no final “, continua el. O Jazidi de 26 anos está no campo de refugiados de Esiya perto da cidade curda de Duhok, onde cerca de 18.000 Jazidis de Shingal encontrarom refúgio. El está rodeado por crianças com roupas usadas, sapatos gastos, alguns deles com os pés descalços.

Desde o genocídio da milícia terrorista “Estado islâmico” (IS) em agosto do ano passado, que continua com a prisom de milheiros de mulheres e crianças, o povo Jazidi está em um estado de emergência. A milícia terrorista bateu no meio do coraçom da alma Jazidi – Shingal, a principal área de assentamento da minoria no norte do Iraque. Civis indefesos forom invadidos, massacrados e seqüestrados pelos sequazes da milícia terrorista. Os 8.000 Peshmergas em Shingal e outros 3.000 estacionados na regiom fugiram antes mesmo de que a povoaçom civil suspeitara de que um genocídio os aguardava. Quando despertarom no início da manhá, os Peshmerga tinham fugido desde havia muito tempo, e a bandeira negra dos terroristas estava-se aproximando desde três lados. Centos de milheiros fugirom, dúzias de milheiros à procura de protecçom nas montanhas, onde eles acabarom por ser sitiados por dias e morrerom de fome e sede. Todo o mundo aqui fala em sussurros de traiçom – mesmo firmes defensores do Partido Democrático do Curdistam (PDK), que é acusado do desastre, porque poderiam ter evitado isso.

“Eles simplesmente retirarom-se. Eles nom estavam pola nossa vontade, certamente nom. Mas também nom muda nada agora. Eles nom só oferecer o nosso povo aos terroristas do Daesh [ISIS], mas eles também quebrarom o nosso orgulho “, di um alto funcionário Jazidi do PDK, que dirige um dos principais departamentos. El nom quere ser identificado. Até mesmo os funcionários do PDK nom Jazidis assentem e acatam o parecer, mas aqui ninguém se atreve a dizer isso publicamente. Isso equivaleria a umha derrota.

Remnants of a traditional garb of Yezidis from Shingal in Hardan: here, ISIS abducted over 600 women and children and killed hundreds of men

Restos de vestimenta tradicional dos Jazedis de Shengal em Hardan: aqui, o ISIS secostrou mas de 600 mulheres e crianças e matou centos de homes.

Hewas leva-nos de campo de refugiados a campo de refugiados, de Sharya a Esiya e Khanke, e de volta para Baadrê. A acampamentos selvagens, passando fora dos campos oficiais, a edifícios inacabados onde várias famílias estam hospedadas. “Nom só nós perdemos as nossas famílias, todo o nosso modo de vida foi destruído”, di um homem que vive com outras três famílias em Baadrê em um desses edifícios. El mesmo cimentou a parte inferior. A sua sobrinha de 15 anos estivo vários meses em cautiveiro dos terroristas do IS, e foi violada repetidamente. Um rapaz pequeno, cerca de cinco anos, empurra de trás do avó. Ele também escapou junto com sua avó do cautiveiro do IS. Seu pai foi morto em Shingal, sua mae capturada. O tio agora tem todo o peso da família.

Continuamos, no acampamento de refugiados oficial de Sharya, passando polas intermináveis fileiras de tendas. Do terror ao terror: Tenda No. 1791, pai e dous filhos mortos; No. 1793, Mae em cautiveiro, pai e filho morto; No. 1801, várias filhas em cautiveiro, um filho morto; No. 1823, quatro órfaos. Genocídio.

An Yezidi mother bakes bread in front of her tent in the refugee camp of Sharya

Umha mae Jazidi coze pam na frente da sua tenda no campo de refugiados de Sharya

O Hewas próprio nom é de Shingal, mas tivo que fugir rapidamente quando os terroristas também ameaçarom de conquistar a sua comunidade de Sheikhan perto de Duhok. E a linha da frente de Sheikhan ainda pode ser visto a olho nu. Nuvens de fumaça sobre umha aldeia da minoria Shabak, em que a milícia terrorista queima tudo. Nada além de terra queimada permanecerá, mesmo após a derrota.

FrontlinieNaheSheikhanRauchwolkenÜberDörferDerShabakMinderheit

A Fumaça ergue sobre aldeias da comunidade Shabak onde o ISIS marca a sua presença com as chamas

Hewas, um jovem de forte constituíçom olha com uma expressom séria em nós; sempre que el vê as condiçons dos Jazidis, como vivem todos os refugiados. “Aqui nom temos futuro, acredite em mim. Nom importa o que fagamos, este país é a nossa tumba”, explica. A família de Hewas pertence à classe média, diferente da maioria dos refugiados el voltará em breve para a Europa. Contrabandistas por somas de cinco dígitos e tratores contrabandearam-me para a Europa, di el. Nom através do mortal Mediterrâneo, mas sobre a terra. Mas por isso pagas o dobro do preço sem que toda a família afunda com o dinheiro.

Campo de refugiados em Baadrê. Alguns dias antes, uma mae de cinco crianças conseguiu escapar do cautiveiro da milícia terrorista. Sozinha, seus filhos ainda estam no cautiveiro do IS. Onde eles estam sendo mantidos em cautiveiro, ela nom o sabe. Seu marido foi morto na aldeia de Til Ezer em Shingal. “Eu nom quero nada mais que o retorno dos meus filhos”, di ela. Ela já ouviu falar sobre o programa na Alemanha. Que as mulheres e meninas traumatizadas recebem atendimento psicológico em Baden-Württemberg, ela também pode registrar-se na lista. “Sem os meus filhos?”, Ela responde. “Eu vou ficar aqui e esperar até que eles estexam de volta comigo.”

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Crianças de Shingal refugiados em umha obra perto de Semel, Duhok

A comunidade Jazidi está praticamente sem liderança durante este tempo difícil. Também os mais altos representantes estam impotentes diante dos enormes problemas e desafios que enfrentam. Eles nom tenhem nengum plano para o futuro, a sociedade está provavelmente mais dividida do que nunca. “Todos aqueles que nos defender, poderiam promover-nos e apoiar-nos, querem emigrar. Os fracos e os pobres som deixados para trás “, lamenta um juiz Jazidi, que trabalha na magistratura curda. El pertence à classe alta da pequena povoaçom Jazidi que pode comprar umha vida segura. Mas nom importa o quam qualificado el está no seu trabalho, el nunca será juiz principal. Para isso, el teria que fazer um juramento sobre o Alcoram na toma de posessom. Para os cristians, Jazidis e outras minorias nom-muçulmanas é inimaginável.

Isso poderia mudar com a nova Constituiçom, que está actualmente a ser elaborada por umha Comissom de 21 membros para a regiom autónoma curda. Sem Jazidis pertencentes à Comissom, só depois de protestos o PDK deixou um dos seus sete lugares. O nomeado foi o retirado juiz Jazidi Nemir, que se queixou em umha reuniom com o Conselho religioso dos Jazidis em Lalish sobre a discriminaçom. “Eles excluem-me deliberadamente, virando as costas para mim e nom querem que eu participe”, di Hakim Nemir. De novo e outra vez houvo disputas verbais no seio da Comissom, sempre o representante Jazidi tivo de se defender. “Sem o seu apoio nom vou ser capaz de fazer qualquer cousa”, dirige-se aos representantes Jazidi.

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Umha criança no campo de refugiados de Sharya. Os pais fugiram dos sequazes do ISIS para a regiom curda perto de Dohuk
Quer na regiom curda ou no resto do Iraque. Praticamente nengum Jazidis se sente seguro aqui. Apesar de ser a terra sagrada para eles em cujo solo estam os seus santuários, o val de Lalish perto Duhok ou a artéria carótida da história e da cultura Jazidi, Shingal. Para muitos, é certo que um abandono da regiom Shingal anuncia o fim do Jazidismo. Milheiros de combatentes Jazidi oferecerom-se diariamente em Shingal para evitar isso. As vítimas da guerra gravemente traumatizadas, mas so querem viver em um país seguro onde nom sexam perseguidos e massacrados por causa da sua religiom. A milícia terrorista matou mais de 5.000 Jazidis em Shingal, seqüestrou até 7000. E grande parte da regiom ainda está sob a autoridade dos auto-proclamados santos guerreiros.
Os Jazidis forom umha vez umha grande naçom, poderosa, que governou sobre grandes e influentes principados de todo o Oriente Médio. Em seguida, as conversons forçadas e as campanhas de extermínio vinherom. No entanto, umha das mais antigas religions puido salvar-se até o momento presente. O preço por isso: hoje a comunidade Jazidi conta com menos de um milhom de seguidores, distribuídos por quatro continentes em todo o mundo.

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Um mecha queimando em uma parede no santuário Jazidi de Lalish: servidores do templo acendem 366 “velas” o dia

Na memória coletiva dos Jazidis, todas as massacres últimas queimam profundamente. Nas últimas décadas, no entanto, começarom a chegar a um acordo da sua história e os seus traumas, para escrever a sua religiom e torná-lo acessível a um público amplo. Até que eles forom abalados por umha nova massacre, o genocídio em Shingal, que mais umha vez joga de volta à comunidade por anos. Milheiros de mulheres Jazidi, crianças e meninas forom raptadas, no século 21.

“Durante séculos, sempre foi o mesmo. Cada 50 anos umha nova massacre, é suficiente”, di Hewas que já está caminho para a Europa. Assim como centos de outros Jazidis que a cada mês tentam escapar do campo de batalha no Iraque.

O artigo foi traduzido e publicado com o permisso explicito de EzidiPress.

Halabja é o nosso presente e o nosso futuro

por Naila Bozo

Halabja 1988 de Kamal HaraqiPintura intitulada Halabja 1988 do pintor Jazedi Kamal Haraqi

Eu queria escrever umha peça comovedora. Eu queria escrever em comemoraçom da Massacre de Halabja que custou a vida de mais de 5.000 civis curdos em um ataque com gás venenoso em 1988, realizado sob as ordens de Saddam Hussein, entom presidente do Iraque. Eu queria escrever sobre isso de umha maneira que honrara as vidas inocentes perdidas e figera aos leitores visualizar os fatais momentos e a destruiçom deixada no rastro da carnificina.

Porque assim como qualquer outro curda Tenho uma urgência para contar ao mundo sobre Halabja apesar de que eu nunca tenha estado lá. Eu tenho umha necessidade de explicar o que aconteceu durante a Massacre de Halabja embora eu nom estava lá. Sinto-me obrigada a enfatizar sobre a sua relevância no mundo de hoje apesar de que eu nunca experimentei umha massacre.

Mas eu nom consigo encontrar as palavras para escrever sobre ela. As palavras som insuficientes.

Halabja nom é umha história mítica que move ao povo curdo à reivindicaçom da sua independência. Nom é o nosso passado, mas é o nosso presente e o nosso futuro, porque molda a nossa resistência contra regimes opressivos e propaganda discriminatória, molda a nossa juventude e prepara-nos para mais umha massacre como Roboski.

Halabja é o nosso presente e o nosso futuro, porque cada curdo que morreu por um opressor no Iraque, Iram, Síria ou Turquia permanece vivo na terra e as montanhas curdas. Ninguém dixo melhor isso que o poeta curdo Serko Bekes:

De que estam o Tigris e o Eufrates feitos?
Água, naturalmente,
mas mesmo que a água é sem cor estám sempre vermelhos.
A água nom tem gosto, mas o seu sabor persistente
é o dos lumes da história.
A água nom tem cheiro, ainda que há este perfume
do cabelo das nossas filhas e filhos assassinados.

http://kurdishrights.org/2015/03/16/halabja-is-our-present-and-our-future/

A Massacre de Halabja: Milheiros morrerom em minutos

HalabjaA selvageria cometida pelo regime Ba’ath no Iraque liderado pelo falecido ditador Saddam Hussein deixou umha marca negra no século com um ataque com gás químico contra civis em Halabja, há 27 anos. O ataque deixou mais de 5.000 mortos, milheiros deficientes e forçou a milheiros de pessoas a migrar.

As feridas da massacre do 16 de março de 1988 ainda estam frescas, depois de 27 anos. Os sobreviventes digerom à ANF sobre a massacre, que lhes vinha o cheiro de maçá.

Mahsume Gul dixo o seguinte; “Vou tentar e falar sobre isso. Mas, pode ser compreendido por aqueles que nom o experimentarom? Um cheiro cobriu todos os lugares. Nós ficamos chocados e nom sabiamos o que fazer. Eu estava vendo cadáveres em todos os lugares que olhei. Corrim para a casa do meu irmao. Nom ouvim vozes de dentro. Dez pessoas morrerom de repente. Fui para as ruas, estavam cheias de cadáveres e pessoas que luitavam polas suas vidas. O respirar tornou-se difícil. eu ainda nom podo acreditar que eu sobrevivisse”.

Um homem idoso, chamado Abdurrahman Reşit Emin perdeu à sua mae e dous irmaos na massacre que descreve como “momentos de umha severidade que nom terminam”. Reşit Emin dixo que o ar estava coberto com o cheiro de maçá; “Ficamos estarrecidos. Os céus de Halabja forom agitados com sons de 10-15 avions de guerra, eu nom lembro o número exato. Todo aconteceu tam rápido. Milheiros de pessoas tirarom o seu último suspiro em dez minutos. Os cadáveres estavam deitados em todos os lugares que mirou. O resto da esquerda da cidade, migrado. Os que ficarom permanecerom em situaçom de pobreza e doença, eram tantos quanto os mortos. Todo o mundo se tornou miserável. alguns perderom a sua mente, algumhas ficarom cegas.”

Outra testemunha Hasan Ali, dixo: “A nossa ferida está sempre fresca. Nós nunca esquecimos aquel dia e nós nunca imos esquecê-lo, mentres vivamos. Hoje é o 27º aniversário da massacre. Um dos feridos na massacre morreu ontem à noite. Era como a fim do o mundo num momento. Toda a minha família desmoronou, todos forom para um lugar diferente. um meu filho ainda está por ser encontrado. Olhamos e olhamos todos os lugares para encontrá-lo, mas nom o atopamos. Alguns perderom aos seus filhos, alguns aos pais e alguns aos seus irmaos. Halabja foi destruída em pouco tempo. Perpetrou-se umha massacre. Saddam queria destruir Halabja nom só com o seu povo, mas com todo o que tinha. Foi um desastre num momento.”

Editado por Kurdish Question

http://kurdishquestion.com/index.php/kurdistan/south-kurdistan/the-halabja-massacre-thousands-died-in-minutes.html