Iram e Turquia estam arrastando os curdos na sua guerra fria no Oriente Médio

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O presidente iraniano, Hassan Rouhani, com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. EPA

Por Abdul-Qahar Mustafa

A rivalidade entre a Turquia e o Iram por dominar o Oriente Médio nom é algo novo. É de feito o legado do conflito histórico entre dous impérios, os persas e os turcos que dominarom o Oriente Médio por várias vezes e sob diferentes nomes e ideologias na história. No entanto, essas duas etnias tenhem desenvolvido os seus impérios e expandido os seus interesses ao custo de violar os direitos humanos de outros grupos étnicos minoritários como curdos, baloches, árabes, assírios, armênios, alavis, jazidis e gregos.

Hoje, vejo que o governo turco e iraniano, as fontes e os herdeiros dos impérios otomano e Safávida estam realizando a mesma missom dos seus antepassados. Eles estam tentando usar a povoaçom curda repetidas vezes como umha ferramenta para minar o poder e a influência de uns e os outros e expandir os seus interesses no Oriente Médio.

Assim como nos séculos passados, esses dous regimes antidemocráticos estam usando todos os meios possíveis, desde as suas capacidades militares e econômicas superiores, a religiom islâmica até o uso da força, ameaça, coaçom, abuso, intimidaçom, prisons ilegais, agressom e exploraçom de grupos de minorias étnicas, como os curdos, para desafiar uns aos outros política, económica e militarmente no Médio Oriente.

Olhando para as suas políticas no Oriente Médio, podedes facilmente notar que ambos os regimes fascistas, Turquia e Iram estam luitando umha guerra fria com o outro. A primeira grande batalha está sendo travada no Iraque e na Síria, onde as suas tradicionais rivalidades e interesses conflitem pode ser visto em pleno vigor. No entanto, o problema aqui é, tanto a Turquia como o Iram estam tentando levar os curdos no seu conflito de interesses. Eles estam arrastando os curdos para os seus conflitos usando a cenoura e a vara com as minorias curdas do Iraque, Síria, Iram e Turquia e conseguindo que eles cooperem e tomem partido nos seus conflitos.

Há momentos em que usam promessas enganosas de recompensar a proteçom dos curdos, incentivos econômicos, independência, autonomia e liberdade se cooperarem. No entanto, quando os curdos se recusam a cooperar com qualquer das partes, eles tomam medidas punitivas contra os curdos, como sançons econômicas, agressons militares, prisons arbitrárias, tortura e até mesmo assassinatos.

Obviamente, há muitas razons para a rivalidade e a guerra fria entre turcos e persas no Oriente Médio. Primeiro, o Iram considera a Turquia como um aliado de Israel e EUA, porque a Turquia já reconheceu Israel como um Estado e tem todo tipo de relaçons com Israel. Portanto, o Iram percebe a Turquia como umha ameaça à sua segurança e interesses econômicos no Oriente Médio, enquanto a Turquia pensa do Iram como um estado que pode ser bom e ruim para a Turquia porque quando os interesses da Turquia entram em conflito com EUA, UE, a Turquia muda o seu curso de imediato e estende as suas maos para países como o Iram, que estam enfrontados com Israel, EUA e países da UE.

Turquia encontra o Iram como umha peza eficaz para negociar alguns acordos com Israel e Arábia Saudita. A Turquia oferece acordos para trabalhar com Israel e Arábia Saudita e ajudá-los a desafiar o poder político e a influência do Iram no Oriente Médio, e possivelmente atrair os sunitas, curdos e turcomanos para unificar a sua voz no Iraque, no futuro parlamento sírio e votar polo reconhecimento do Estado de Israel. Mas, em troca, a Turquia aceita que os EUA, a UE, os sauditas e os israelitas cumpram as suas próprias exigências e expectativas.

Além disso, a Turquia quer que os EUA e a UE desistam dos seus supostos apoios políticos, militares e econômicos com os curdos no Iraque, na Síria e na Turquia e, segundo, pressionem os cipriotas gregos o suficiente para compartilhar a sua riqueza de recursos naturais com a povoaçom cipriota turca. Terceiro para permitir que a Turquia tenha acesso aos benefícios do maior mercado do mundo da Europa e quarto para conceder aos cidadaos turcos a visa para viajar para a Europa. A Turquia promete aos EUA e à UE distanciar-se da Rússia e do Iram se concordam com as exigências políticas e económicas da Turquia na Europa e no Médio Oriente.

Para alcançar o sucesso no seu plano, a Turquia precisa do apoio dos curdos e outras povoaçons sunitas e turcomanas para fazer qoe os seus planos se tornem realidade. A Turquia está pressionando os curdos iraquianos a abandonar o seu apoio ao governo xiita em Bagdá e, em vez disso, fazer umha frente política unida com turcos e o bloco sunita para mudar o equilíbrio do poder político em Bagdá a favor dos sunitas. No entanto, os curdos querem permanecer neutros nesses conflitos. Mas a Turquia está arrastando os curdos a apoiar o seu plano. Está usando a aproximaçom da puniçom e das recompensas com os curdos no Iraque, Turquia e Siria a fim de ajudar a Turquia e suportar o seu negócio político, econômico e de segurança com Israel e Arábia Saudita no Médio Oriente.

Por exemplo, a Turquia recentemente prendeu vários políticos curdos do HDP e os enviou para a cadeia. Também emitiu um mandado de prisom para o líder sírio curdo Saleh Muslin. Mais as forças militares turcas foram desprazadas para distritos do sudeste perto da fronteira iraquiana, em cima de outras bases militares que já existem no norte do Iraque desde 1997.

Além disso, na recente visita da delegaçom da KRG à Turquia, o primeiro-ministro turco dixo ao primeiro-ministro Nechirvan Barzani, do governo regional do Curdistam, que a Turquia ajudaria financeiramente aos curdos no futuro, enquanto continua bombardeando a zona da fronteira da regiom do Curdistam iraquiano. Centos de aldeans e agricultores curdos abandonarom as suas casas e fazendas e fugirom para as vilas e cidades no norte do Iraque. É claro que a Turquia está usando a abordagem de recompensa e puniçom para conseguir que os curdos abandonem as suas ambiçons e esforços para obter independência, autonomia ou o seu apoio ao bloco xiita. Em vez disso, a Turquia quer que os curdos ouçam e cooperem com a Turquia para alcançar os seus planos estratégicos no Oriente Médio.

Creio que a agenda oculta da Turquia é, querem nom só trazer os curdos da Turquia, Síria e Iraque sob o seu control, e usá-los para atingir o seu objetivo no Oriente Médio. Os turcos em geral nom querem ver nengum tipo de área autônoma curda ou curdistam independente. Eles querem que os curdos sejam subservientes a eles. Eles querem usar os curdos para luitar polos seus interesses contra os seus países rivais no Oriente Médio. Eles tentarom todo para impedir que o governo dos EUA e o Iraque, nom permitiram que os curdos tivessem autonomia no norte do Iraque, e estam fazendo agora também para impedir que os curdos obtenham umha área autônoma no território sírio.

A Turquia também tenta explorar a questom da hegemonia do Iram no Oriente Médio como umha oportunidade para fazer um acordo com os EUA, Israel e a UE e obter concessons a partir deles. O que isto significa na minha opiniom é que a Turquia quer se tornar um  país independente poderoso no mundo livre da influência e ordens de fora. Significa também que a Turquia quer alimentar a sua povoaçom turca às custas dos curdos e dos iranianos. No entanto, o Iram está desafiando a Turquia nesse sentido. O Iram está jogando o mesmo jogo com a Turquia.

O Iram também quer que os curdos trabalhem com todas as forças xiitas no Iraque, na Síria e no Iram, para negar à Turquia a chance de desafiar o poder dos blocos de xaque no Oriente Médio ou obter quaisquer concessons de Israel e da Arábia Saudita às custas de ferir os interesses do Iram no Oriente Médio. Na verdade, o Iram já está lidando com as ameaças à segurança da Arábia Saudita, Israel e ISIS, por isso quer fazer tantos aliados quanto puder no Oriente Médio para se fortalecer contra essas ameaças e garantir que o regime islâmico sobreviva.

O Iram prometeu aos curdos da Síria e Iram proteçom, ajuda financeira e autonomia, desde que nom combatam o regime de Assad ou se rebelem contra o regime islâmico em Teeram e os seus aliados no Líbano e no Iraque. O Iram prometeu aos curdos da Síria e Iram proteçom, ajuda financeira e autonomia, desde que nom combatam o regime de Assad ou se rebelem contra o regime islâmico em Teeram e os seus aliados no Líbano e no Iraque. O Iram também exigiu que os curdos continuem aliados na luita contra o ISIS. Prometeu aos iraquianos e sírios ajuda econômica e apoio político se os curdos nom iam contra os seus interesses no Oriente Médio. No entanto, advertiu os curdos a se absterem de mostrar qualquer apoio ou estabelecer qualquer tipo de relaçom com Israel, ou entom eles (os curdos) enfrentariam umha dura puniçom polo Iram.

O Iram quer fazer negócios com os curdos iraquianos, mas sob a mesma condiçom de os curdos tomarem partido em um conflito com a Turquia. Na verdade, o Governo Regional do Curdistam (KRG) teria concordado com um plano para construir dous oleodutos de petróleo de Kirkuk para o Iram para que a KRG se tornasse menos dependente da Turquia. No entanto, tanto a Turquia como Israel nom estam felizes com tal porque em primeiro lugar, Israel é um comprador do petróleo da KRG que é enviado através do porto turco de Ceyhan e, em segundo lugar, a Turquia rendimentos do oleoduto que atravessa o seu solo, e terceiro Israel nom quer que o Iram benefice do petróleo da KRG , e a quarta, Turquia sabe que os curdos som mais dependentes economicamente da Turquia, quanto mais control a Turquia pode ter sobre eles em todas as formas possíveis.

Quando os curdos permanecem neutros nos seus conflitos de interesses ou quando fazem negócios com os opositores do Iram, como Turquia e Israel, o Iram rebela-se contra os interesses dos curdos e usa a sua força militar e econômica superior e a sua influência no Iraque e na Síria e persegue os curdos bombardeando as zonas curdas da fronteira com o Iram, ou ordena que as forças de Assad bombardearem as áreas civis curdas na Síria ou congela o orçamento anual dos curdos do iraque, para tipicamente fazer que os curdos se movam na sua linha de ditados.

Estes dous regimes fascistas sabem muito bem que os curdos nom tenem capacidade económica e militar suficientemente fortes para resistir à sua pressom política e económica, e que nom se podem defender contra as agressons militares da Turquia ou do Iram, aproveitando os pontos fracos dos curdos e chantageá-los até que eles os obrigam a ceder às suas demandas e trabalham para eles. Eles vêem os curdos como umha raça inferior que nom serve para nada, exceto para servir os interesses dos persas e dos turcos, como se os seus milhons de povoaçom persa e turca, e o seu poder econômico e militar superior nom fosse suficiente para realizar as suas missons por si mesmos, sem vitimizar os curdos nos seus conflitos de interesses e luitas no Oriente Médio.

Nom há dúvida de que os curdos nom querem ser chantageados ou intimidados para trabalhar de um lado contra o outro. Os curdos iraquianos tenhemm tentado todos os meios possíveis para permanecer neutrais na rivalidade e guerra fria entre xiitas e sunitas no Oriente Médio. Os curdos já pagarom um alto preço, perdendo milheiros de vidas na luita contra o ISIS e a sua povoaçom sofrendo a crise econômica. Eles certamente nom precisam ser arrastados para outro conflito no Oriente Médio.

As políticas dos curdos parecem ser claras e justas em relaçom aos seus vizinhos. Pode-se dizer que tenhem umha atitude amigável e açons razoáveis que tomam ao lidar com os seus vizinhos. Acredito firmemente que os curdos nom querem tomar partido ou favorecer aos xiitas sobre os sunitas ou vice-versa. Eles preferem ter boas relaçons com a Turquia e o Iram sem discriminaçom.

Os curdos da Turquia e da Síria também querem permanecer neutros no conflito e nos confrontos entre o exército de Assad e o exército sírio livre. Na verdade, todos os partidos curdos, do Iraque, da Turquia, do Iram e da Síria tenhem a mesma opiniom de nom tomar um ou outro lado na guerra fria entre xiitas e sunitas ou entre o Iram e a Turquia. Os curdos estam bastante focados em ter uma coexistência pacífica com árabes, turcos e persas igualmente.

Nom acho razoável se os curdos tomam partido por algum de ambos os regimes, a Turquia ou o Iram, especialmente quando se sabe que esses dous regimes nom só som  antidemocráticos, mas também tenhem um alto registro histórico de violaçom dos direitos humanos dos curdos?

Se a Europa e os Estados Unidos realmente defendem a democracia, os direitos humanos e nom os interesses partculares, nom devem permitir que a Turquia ou o Iram devorem os curdos polos seus próprios ilegítimos interesses políticos e econômicos no Oriente Médio. E se realmente acreditam na justiça, devem aplicar duras sançons econômicas e um boicote ao turismo tanto no Iram quanto na Turquia imediatamente, encerrar as negociaçons de adesom à UE e congelar participaçom da Turquia da OTAN até que volte a democracia.

Abdul-Qahar Mustafa é um estudante graduado da High School de Saint Louis em Canadá. Ele é defensor da justiça, democracia e direitos humanos. Atualmente vive em Sarsang / Duhok, no Curdistam iraquiano.

Publicado em ekurd.

http://ekurd.net/iran-turkey-dragging-kurds-2016-11-28

Turquia: caminho à ditadura e a responsabilidade de Ocidente

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Thanassis Stavrakis AP / Press Association Images

Por Mehmet Ugur

As recentes detençons dos co-presidentes e deputados do HDP som outro episódio perigoso no caminho turco rumo a umha ditadura absoluta.

Imos parar de fingir o contrário: a Turquia está agora sob um regime ditatorial estabelecido passo a passo sob o olhar e com o apoio tácito dos governos e instituiçons ocidentais. As forças curdas e democráticas dentro do país estam pagando um preço muito alto, nom só por causa da brutalidade da governante AKP por umha combinaçom de políticas econômicas neoliberais e islamismo político, mas também polo fracasso dos governos e instituiçons ocidentais para ler corretamente o roteiro e desenvolver umha resposta de princípio. A falha de hoje do Ocidente é semelhante ao apaziguamento de Hitler na década de 1930.

No momento da redaçom, polo menos 11 deputados do Partido Democrático do Povo (HDP), incluindo os co-presidentes Figen Yuksekdag e Selahattin Demirtas, forom detidos e a sede do partido invadida. Estas atrocidades seguiram-se de longas interrupçons da Internet na regiom curda. Trata-se de umha puniçom coletiva em grande escala com o objetivo de espalhar o medo entre a povoaçom em geral. Pode-se apenas imaginar como um membro da OTAN e um candidato a UE podem interromper comunicaçons, transaçons comerciais e serviços públicos, incluindo provisons de saúde sem qualquer desafio dos governos ocidentais.

Seguindo o Autoritarismo crescente do AKP

O sistema multipartidário turco tinha sido um verniz para um regime essencialmente centralizado e autoritário desde 1947. O regime sempre oscilou entre eleiçons parlamentares e golpes militares. A vitória eleitoral do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) em 2002 foi apresentada como um avanço. No entanto, o AKP logo se tornou um arquiteto do autoritarismo crescente e atuou recentemente como parteira de um golpe frustrado. Esta trajetória tem estado sustentado por uma crença islamo-calvinista na economia de mercado que ressoa com os dogmas econômicos neoliberais. Exige a adesom a umha ordem política islâmica em que as eleiçons som dispositivos para confirmar aqueles que estam no poder, e nom meios de responsabilizá-los e garantir os direitos das minorias.

De feito, a transiçom para o atual regime ditatorial começou em 2005, logo depois que a elite do AKP sentiu-se confiante de que tinham apoio suficiente para a concepçom de democracia de Recep Tayyip Erdogan. Em março de 2005, menos de seis meses depois de umha vitória eleitoral municipal, Erdogan marcou manifestaçons contra a brutalidade policial contra as mulheres em Istambul como “euro-informadores” – isto é, traidores cuja lealdade é para as potências estrangeiras e nom para o Estado turco. Esta declaraçom iniciou um processo de 10 anos de consolidaçom autoritária, durante o qual toda dissidência política foi equiparada a traiçom e conspiraçom.

A primeira vítima desse processo de consolidaçom forom as instituiçons de boa gestom de governança. Entre 2005 e 2015, a Turquia permaneceu no 50% dos Indicadores de Governança do Banco Mundial. A qualidade da governança caiu ao 48%  e ao 35% no que se refere à informaçom e à responsabilidade; E do 28% ao 10% em relaçom à estabilidade política. A sua classificaçom quando se trata do Estado de direito estagnou em torno do 57% e eventualmente caiu para cerca do 50% até 2016. Escândalos de corrupçom em grande escala envolvendo funcionários do governo e os seus apoiadores políticos forom encobertos e aqueles que os expuseram forom silenciados.

A liberdade de imprensa foi reduzida ano após ano. De acordo com dados da Freedom House, a Turquia era “parcialmente livre” em relaçom à liberdade de imprensa em 2005. Em 2015, tornou-se “nom livre”. Em 2016, o ambiente legal e político da liberdade de imprensa na Turquia foi do 10-15%, um dos piores do mundo.

A Turquia nunca foi conhecida pola liberdade acadêmica. A tutela estatal sobre o sistema de ensino superior foi consagrada tanto na Constituiçom como na Lei do Ensino Superior. Os acadêmicos sempre forom forçados a seguir a linha do governo sob sucessivos governos do AKP; E aqueles que assinarom umha carta pedindo paz e monitoramento internacional da violência do Estado nas cidades curdas foram perseguidos desde o final de 2015.

Após o fracassado golpe de julho de 2016, dezenas de milhares de acadêmicos e educadores forom demitidos e o presidente recebeu o poder de escolher todos os vice-reptores das universidades públicas, levando a umha atmosfera de medo sem precedentes no sistema. De acordo com o relatório de 2016 da Scholars at Risk, as açons do governo turco “prejudicaram a reputaçom do setor de educaçom superior da Turquia como um parceiro confiável para projetos de pesquisa, intercâmbios de ensino e estudo e conferências e reunions internacionais.”

Apesar das pressons políticas internas e das recomendaçons dos advogados internacionais de direitos humanos desde 2005, sucessivos governos do AKP evitaram negociaçons de paz significativas com os curdos. Por fim, entre junho e a segunda volta das eleiçons de novembro de 2015, o governo do AKP usou a violência orquestrada polo Estado para silenciar o Partido Democrático do Povo ( HDP). Após as eleiçons de novembro, o AKP desencadeou um ataque militar sem precedentes contra os curdos, destruindo povos e cidades, matando civis inocentes e provocando uma onda maciça de deslocamento interno. O uso ilícito e desproporcionado da violência estatal foi documentado num relatório da Human Rights Watch e reconhecido polo Comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa.

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11 deputados do HDP foram detidos o 4 de novembro de 2016, incluindo os co-presidentes Demirtas e Yuksekdag. Imagem de Lefteris Pitarakis AP / Press Association Images.

Mais recentemente, o governo do AKP prendeu e emprissionou os co-alcaldes de Diyarbakir (Amed), a maior cidade curda, alegando que eles eram membros de umha organizaçom terrorista. As provas contra eles consistem em discursos que figeram a favor da autonomia local democrática e da prestaçom de serviços municipais para o enterro de combatentes do PKK mortos em confrontos armados com as forças de segurança. Isto é, apesar do feito de que os serviços de enterro estam entre os deveres e responsabilidades dos municípios em toda a Turquia. Os co-alcaldes foram detidos e enviados para a cadeia na prisom de Kandira Tipo F, na província de Izmit – a mais de 800 milhas [ quase 1.300 km] de Diyarbakir!

Além de dezenas de meios de comunicaçom ser encerrados nas últimas duas semanas de outubro de 2016, o governo do AKP ordenou a invasom do principal jornal da oposiçom Cumhuriyet e as casas dos seus jornalistas, editores e administradores. Atualmente, 15 jornalistas e altos executivos do jornal estam sob custódia policial sem acesso a avogados.

A repressom geral após o golpe fracassado é implementada através de decretos sob o estado de emergência. Embora o artigo 15.º da Convençom Europeia dos Direitos Humanos (CEDH) prevê derrogaçons à Convençom nos estados de emergência, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos continua a ser a autoridade final para determinar se as medidas tomadas durante o estado de emergência estam em conformidade com a Convençom. Esta última prevê claramente que as derrogaçons sejam estritamente necessárias e proporcionadas. Mesmo no início do estado de emergência, o Comissário para os Direitos Humanos declarou que o primeiro decreto suscitava questons muito graves de compatibilidade com a CEDH e com os princípios do Estado de direito, mesmo tendo em conta a derrogaçom em vigor.

Desde entom, o alcance, a modalidade e a arbitrariedade das açons do governo e o estado de decretos de emergência pioraram além de qualquer cousa que os últimos governos turcos figeram.

Este estado de terror nom pode ser justificado invocando derrogaçons da CEDH sob o estado de emergência. Em França, foi introduzido um estado de emergência, mas os controlos e contrapesos necessários foram instituídos polo poder judicial, polo Parlamento francês, pola Instituiçom Nacional dos Direitos Humanos e polo Valedor do Povo. Além disso, as medidas adoptadas polo Governo francês forom muito mais limitadas do que as da Turquia. Neste último, o Parlamento é totalmente disfuncional, o judiciário sob o control total do governo, que já tinha introduzido legislaçom que garante a imunidade das forças de segurança para as suas açons na repressom contra os curdos.

Em geral, o regime atual na Turquia tem as características de um regime ditatorial. Erdogan e a AKP, juntamente com os militares, estam construindo defesas que faram com que o regime seja totalmente inexplicável e talvez irreversível. Umha dessas defesas é a prestaçom de umha cultura de turbas civis nos meios de comunicaçom, mesquitas, bairros, universidades, etc. Esta cultura da multitude consiste em: (i) demonizar e criminalizar todos os adversários políticos; (ii) incentivos centrados no estado de linchamento político através de vários meios, incluindo prisons, ataques de negócios, campanhas de hostilidade cibernética e mediática, ódio étnico e religioso contra os curdos, alevis e outras minorias, incluindo a comunidade LGBTQ; (iii) as exigências da reintroduçom da pena de morte, para as quais Erdogan declarou apoio várias vezes após o fracassado golpe; E (iv) as teorias de conspiraçom que apresentam a Ocidente como o inimigo da Turquia.

O outro nível de defesa é a transiçom para um “sistema presidencial unitário” no qual o presidente nomearia o Judiciário, os reitores universitários, e estaria no control do aparelho de segurança. É muito provável que seja adotado em breve, com o apoio dos deputados do AKP e do Partido de Açom Nacional (MHP).

A implosom do sistema mundial unipolar como fator explicativo

Dado que as evidências acima som de conhecimento comum, é seguro assumir que os governos e instituiçons ocidentais também tenhem conhecimento da deriva ditatorial na Turquia. Isso levanta duas questons: (i) por que a sua resposta foi silenciada; E (ii) teriam sido capazes de responder de forma diferente?

A resposta a ambas as perguntas reside na crise do sistema mundial unipolar que os Estados Unidos, com a Europa, estam tentando estabelecer desde o colapso da Uniom Soviética. Com exceçom da década de transiçom na década de 1990, os EUA foram totalmente infrutíferos em se estabelecer como um poder de monopólio. Por outro lado, os políticos europeus tiveram que andar na linha, sem quaisquer benefícios visíveis, com exceçom da falsa sensaçom de poder que no Reino Unido levou ao Brexit. Esse triste resultado tem sido associado ao custo humano e à ruína econômica no Iraque, na Líbia e na Síria; E com percepçons contínuas de insegurança apesar da expansom oriental da OTAN.

A falha foi devida a três fatores: (i) a ascensom da China e da Rússia como sérios candidatos para o estatus de potência mundial; (ii) o alto preço que as potências regionais, como a Turquia, a Arábia Saudita, a Índia, etc., exigiram o seu papel como subcontratas no projeto; E (iii) o surgimento de grupos terroristas islâmicos transnacionais das cinzas da destruiçom causada por intervençons ocidentais visando a mudança de regime. A combinaçom destes factores levou a dous resultados. Primeiro, o projeto do sistema mundial unipolar provou ser a experiência de vida mais curta da política mundial. Em segundo lugar, as incertezas atuais sobre como passar a um sistema multipolar forom associadas a custos, que podem ser esperados ser ainda mais altos a menos que os eleitorados desafiem os dogmas políticos prevalecentes no Ocidente.

Visto desta perspectiva, o silêncio do Ocidente contra o autoritarismo crescente na Turquia nom pode ser explicado polo medo dos refugiados sírios ou como um preço para garantir a luita da Turquia contra o ISIS. Estas som apenas manifestaçons de um mal-estar mais profundo – isto é, a obsessom com a idéia de um sistema unipolar – que se baseou em duas falácias: (i) crença na supremacia dos sistemas econômicos e de segurança ocidentais; E (ii) a crença na capacidade deste último de escolher seus aliados de um conjunto de atores secundários, como a Turquia, para alcançar os objetivos regionais.

Hoje, ambas as crenças provaram ser infundadas: o sistema econômico ocidental tem entregue altos níveis de desigualdades de renda e riqueza dentro do país, e mais fragilidade; O sistema de segurança, por outro lado, tem beneficiado apenas a indústria de armamento para um aumento do apetite para gastos militares sem reduzir os riscos de segurança percebidos. Em suma, o investimento no projeto do sistema mundial unipolar tem sido verdadeiramente desastroso para o público ocidental, que financiou o projeto quer por meio de baixos salários para a maioria ou por aumento de encargos fiscais sobre os assalariados de renda média.

A incapacidade dos governos ocidentais de reagir eficazmente ao autoritarismo crescente na Turquia pode e deve ser lida a partir desta anomalia subjacente. Os EUA e a Europa nom tiveram influência sobre a Turquia porque esta última (como outras potências regionais emergentes) estava disposta a apoiar as ambiçons de um sistema unipolar apenas em troca de aumentar a sua influência no Oriente Médio. Os EUA e a Europa concordaram com este acordo, preparado clandestinamente junto com “especialistas” embutidos de academicismo.

Parte do acordo tem sido apresentar a Turquia como um modelo para o Oriente Médio, apesar da crescente evidência de autoritarismo e degradaçom institucional. Quando o argumento ‘modelo’ perdeu a sua credibilidade após o fracasso do golpe, o oeste começou a medir o “valor” da Turquia com umha nova moeda: a estabilidade do regime. É por isso que tanto o Secretário-Geral do Conselho da Europa, Thorbjørn Jagland, como o ex-comandante supremo da OTAN, James Stavridis, apelaram a um apoio ocidental mais forte ao governo turco – com pouca ou nengumha atençom ao risco de violaçons dos direitos humanos. O estado de emergência. Este foi um indicador nauseabundo de até que ponto o poder superou o justiça na formaçom da política externa no Ocidente.

Consciente deste arranjo, o governo turco tem: (i) reforçado a sua política externa sectária e intervencionista em relaçom à Síria e ao Iraque; (ii) forneceu armas a organizaçons terroristas como Al-Nusra, fechando os olhos às atividades do ISIS dentro e fora de suas fronteiras; iii) adoptou umha abordagem hostil ao movimento político curdo na Turquia e na Síria; E (iv) suprimiu todas as fontes potenciais de dissidência doméstica.

Ao fazê-lo, a elite do AKP desfrutou de umha mistura de apoio tácito e explícito dos governos e instituiçons ocidentais, que criticaram mutavelmente e seguiram umha sólida confirmaçom da importância estratégica da Turquia como aliada.

A política de apaziguamento, no entanto, foi um tiro pola culatra. A Turquia é agora um passivo e nom um ativo para a segurança ocidental. As suas açons no Iraque e Síria foram além do apoio ou cumplicidade com grupos terroristas e começaram a sinalizar ambiçons irredentista que complicam os objetivos de Ocidente na regiom. A Turquia também está jogando a carta russa para empurrar os EUA e os decisores políticos europeus para apoiar a sua ambiçom de destruir a realidade curda emergente na Turquia e além. A próxima fase pode muito bem ser uma situaçom em que a Turquia “aumenta” a responsabilidade da ameaça à segurança europeia – principalmente devido a níveis mais elevados de instabilidade política sob um regime ditatorial.

Já é tempo de que os governos e instituiçons ocidentais confessarem ao seu público e admitir que a política de apaziguar a Turquia em troca do seu apoio à idéia do sistema unipolar implodiu. Também é altura de admitir que o Ocidente perdeu o argumento moral contra a Rússia. Nom é preciso subscrever umha concepçom benigna do regime russo para ver que é a Rússia quem defende a adesom ao direito internacional no combate ao terrorismo. Além disso, é a Rússia quem defende das intervençons unilaterais que visam a mudança de regime, cujas consequências foram: (i) a proliferaçom de redes terroristas transnacionais; (ii) perda de vidas e ruína econômica nos países afetados; E (iii) a imposiçom de contas de guerra ao público ocidental cujas inseguranças percebidas apenas aumentaram.

Assim, é necessário e racional para o eleitorado ocidental parar de legitimar e financiar as falácias sobre um sistema mundial unipolar, que só levaram a níveis mais elevados de insegurança econômica e existencial. Em vez disso, devemos forçar os nossos governos e instituiçons a participar de um debate genuíno, nacional e internacional, sobre como avançar para um sistema mundial multipolar no qual as pessoas – e nom os estados estrangeiros com os seus próprios interesses e agendas – estam capacitadas para combater tendências e práticas autoritárias nos seus próprios países.

O novo regime exige regras mais rígidas contra as intervençons unilaterais, um mandato mais forte para as Naçons Unidas e um regime de direitos humanos mais eficaz que nom seja esvaziado polo excepcionalismo regional / cultural. Em resumo, precisamos de umha transformaçom semelhante em escala à experiência pós-guerra de construçom de instituiçons internacionais. Devemos empurrar para este cálculo nom só para mostrar solidariedade com os luitadores contra o regime ditatorial na Turquia, mas também para aumentar a chance de um sistema democrático, secular, igualdade de gênero e justo na Turquia e em outros lugares.

Mehmet Ugur é professor de Economia e Instituiçons e membro do Greenwich Political Economy Research Center (GPERC) no Departamento de Negócios Internacionais e Economia , da Universidade de Greenwich.

Publicado em Opendemocracy.