O curioso Golpe de Estado da Turquia e as Narrativas Pós-Golpe

POst PutschPor Gareth H. Jenkins

 Muitos dos detalhes do golpe de estado falido na Turquia o 15 de julho de 2016 ainda permanecem oscuros. Mas, embora seja possível que haja algum tipo de envolvimento, encontramos problemas com a narrativa a ser divulgada polo no governante Partido da Justiça e o Desenvolvimento (AKP) que era umha questom só dos Gülenistas. O que está claro é que, dirigido por umha combinaçom de oportunismo e medo, o presidente Tayyip Erdoğan aproveitou-se do golpe para lançar umha repressom em massa que poderia desestabilizar fortemente um país já muito frágil.

INTRODUÇOM: O 20 de julho de 2016, Erdoğan anunciou o estado de emergência em toda a Turquia por três meses, alegando que eram necessárias medidas especiais para “limpar” a Turquia dos seguidores do clérigo islâmico Fethullah Gülen, que vive nos EUA desde 1999 e a quem el acusa de planejar o golpe falido.

O movimento Gülen começou a infiltrar-se nas forças armadas turcas (TAF) no final de 1980, animando a adolescentes que foam recrutados através das suas instituiçons de ensino de se inscrever nas escolas de formaçom de oficiais. Durante a década de 1990, conforme os Gülenistas intensificarom os esforços, o TAF começou a esticar os seus procedimentos de investigaçom de novos membros, enquanto que a inteligência militar constantemente arrastom o oficialato para tentar identificar quaisquer Gülenistas já dentro do sistema. A partir de meados da década de 1990, o TAF começou expulsar centos de oficiais, principalmente nas reunions bianuais do Conselho Militar Supremo (YAŞ), por suspeitas de simpatias Gülenistas. O processo foi muitas vezes brutal e ineficiente. Muitos daqueles que expulsou eram culpados de nada mais do que ser muçulmanos piedosos. Mas com as expulsons houve umha reduçom significativa – embora nom erradicados completamente – o número de Gülenistas que conseguiu infiltrar-se no corpo de oficiais. Havia também ocasions em que a inteligência militar utilizou as expulsons do YAŞ para os seus próprios fins. Na época, o estigma social anexo a ser licnciados por suposto ativismo islâmico, significava que normalmente so as empresas islâmicas ou municípios administrados por partidos políticos islâmicos permitiam empregar aos oficiais expulsos. Ocasionalmente, haveria agentes secretos entre os oficiais expulsos, no conhecimento de que eles seriam entóm captados por empresas islâmicos e poderia, retroalimentar a inteligência militar.

Depois que o Partido da Justiça e o Desenvolvimento (AKP) chegou ao poder em novembro do 2002, os seus líderes deixarom claro que eles estavam incomodados com as expulsons do YAŞ. O general Hilmi Özkök, que foi nomeado Chefe do Estado Maior do Exército em agosto de 2002, estava consideravelmente menos preocupado do que a maioria dos seus colegas pola ameaça que representava o islamismo para o Kemalismo – o legado ideológico de Kemal Atatürk (1881-1938), que fundou a moderna República turca em 1923. Embora inicialmente continuou, no tempo que Özkök se retirou em agosto de 2006, os procedimentos de investigaçom tinham-se relaxado e as expulsons do YAŞ por alegado “fundamentalismo” tinham diminuído a quase nada. Mas nom houvera um declínio no número de Gülenistas que tentavam penetrar no exército. Polo contrário, animados polo que era na época era umha estreita aliança com Erdoğan, os Gülenistas aumentarom os seus esforços.

A passividade de Özkök diante da perceçom da ameaça islâmica conduziu ao mal-estar generalizado no corpo de oficiais. Através de 2003 e 2004 membros do alto mando sondarom os seus colegas sobre a tentativa de forçar a Özkök a umha reforma. A idéia recebeu consideraveis simpatias, mas poucos estavam preparados para agir – e foi finalmente, a contra gosto, abandonado. No entanto, apesar das reivindicaçons posteriores ao contrário, nunca houvo umha trama concreta para derrubar o governo. Nem foi considerada necessária.

Havia muito que existia consciência no TAF de que a era do regime militar tinha acabado. Também nom houvo muitos desejos para seu retorno. Os três anos de governo militar após o golpe de 1980 tinham danificado fortemente a image pública dos militares – e, detestavam como muitos turcos agora estam a lembrar que, desde o início de 1990 a popularidade pública dos militares tornou-se o principal instrumento através do qual o alto mando foi capaz de moldar as políticas dos governos eleitos. Houvo também a crença de que a crescente integraçom do país na economia mundial e o seu status desde Dezembro de 1999 como candidato à adesom à UE fazia que um ataque direto ao poder fôsse quase impossível. Na época, o apoio público à adesom à UE estava indo ao 70-75 por cento. O alto mando estava convencido de que, se eles davam um golpe, a economia entraria em colapso e a candidatura da Turquia à UE seria cancelada – lidando assim um duro golpe para o prestígio popular do exército. Em vez disso, aqueles que tinham estado planejando substituir a Özkök estavam confiantes de que tudo o que precisavam era um chefe agressivo de Estado Maio, a fim de dobrar o AKP à vontade do exército. No final de agosto 2006, eles tinham um, quando Özkök foi sucedido pelo general Yasar Büyükanıt.

Em abril de 2007, Büyükanıt emitiu um comunicado alertando o AKP contra a nomeaçom do entom ministro de Relaçons Exteriores Abdullah Gül à presidência, algo que temiam daria os islamistas um domínio sobre o aparelho do Estado. O AKP respondeu chamando a eleiçons antecipadas o 22 de julho de 2007. Nem Büyükanıt nem ninguém no exército fixo plano algum de tomar o poder. A suposiçom era de que, após a declaraçom de Büyükanıt, o AKP sofreria perdas maciças nas urnas. O oposto aconteceu. Quando as eleiçons se realizarom, o AKP voltou ao poder com umha maioria de votos. Um Alto Mando atordoado apenas conseguirom ver ao Gül tornar-se presidente em agosto de 2007.

 IMPLICAÇONS: Quando el chegou ao poder, o AKP sinceramente temia que pudesse ser derrubado por um golpe a qualquer momento. Isso mudou com as eleiçons de Julho do 2007. Os Gülenistas também ficarom encorajados. A partir de setembro do 2007, Gülenistas no sistema judicial e a polícia lançarom um bombardeio de investigaçons criminais – mais notoriamente as investigaçons de Ergenekon e Sledgehammer – que levou a centos de militares em serviço e retirados presos sob a acusaçons manifestamente fabricadas. Nom só foi o alto mando incapaz de libertá-los, mas, sob o general Necdet Özel, que foi chefe de Estado Maior entre o 2011-2015, fixo poucos esforços por fazê-lo. Os oficiais só forom liberados após a queda da aliança de Erdoğan com os Gülenistas no final de 2013. O resultado foi um ressentimento considerável no corpo de oficiais contra o Alto Mando. Anteriormente os oficiais estavam confiantes de que os seus comandantes sempre os protegiam. Agora nom era simplesmente desconfiança. Se o alto mando ordenasse às forças armadas como instituiçom realizar um golpe o 15 de julho, a esmagadora maioria dos 130.000 do corpo de oficiais teria recusado.

No momento da tentativa de golpe, os Gülenistas já tinham umha presença estável nas forças armadas mesmo que eles ainda representam apenas umha minoria do corpo de oficiais. Além disso, a presença Gülenista era piramidal, com umha concentraçom consideravelmente mais elevada entre os escalons mais baixos – especialmente entre os oficiais ascendidos após a chegada do AKP ao poder. A partir do 22 de julho, um total de 7.423 militares forom detidos sob a acusaçom de cumplicidade na tentativa de golpe. Estes incluem recrutas, muitos dos quais parecem ter acreditado que estavam participando de um exercício. No entanto, 118 dos 358 generais e almirantes da Turquia forom detidos, dos quais 99 estám oficialmente presos.

Embora nunca estiveram completamente homogeneizados, o corpo de oficiais atual é muito mais divers do que há umha geraçom, quer em termos de níveis de compromisso religioso, atitudes em relaçom ao poder político e opinions sobre o lugar da Turquia no mundo. Mas grande parte dessa diversidade é altamente fluida e individualizada (com, por exemplo, um oficial concordando com um colega em umha questom, mas discordando em outra) ao invés de fragmentar o corpo de oficiais em um mosaico de facçons distintas. É só entre Gülenistas e kemalistas da linha dura que o grau de compromisso ideológico compartilhado é rígido suficiente para formar a espinha dorsal para a criaçom de uma quadrilha que poderia realizar um golpe.

Nom há dúvida de que a tentativa de golpe do 15 de Julho era séria e realizada em nome dos kemalistas da linha dura. Os golpistas que divulgarom um comunicado justificando as suas açons descreverom-se como “Yurtta Sulh Konseyi”, ou “Conselho da Paz na Casa”, umha clara referência à famosa máxima de Atatürk “Yurtta Sulh, Cihanda Sulh”, ou “Paz em casa, paz no mundo”. A palavra usada em turco moderno para a paz é “barış” nom “sulh”.

Também nom há dúvida de que, embora eram suficientes para assassinar Erdoğan, as forças implantadas na noite do 15 de julho eram só umha pequena fraçom daquelas que teriam sido necessárias para tomar todo o país. O AKP alegou que o golpe foi planejado originalmente para as 3 horas do 16 de julho, mas foi antecipada para as 22 do 15 de julho em meio a temores de que a trama tinha sido descoberta. Isso explicaria por que nom todas as forças planejadas polos golpistas foram mobilizadas. Mas ainda há umha disparidade demasiado grande entre as forças que participarom da tentativa de golpe e aqueles que teriam sido necessárias para o seu êxito. A explicaçom mais lógica é que as açons iniciais dos golpistas foram projetadas para servir como um catalisador, na expectativa de que outras pessoas que nom faziam parte da conspiraçom original – entre os militares e a povoaçom -, entom, reunir o seu apoio. Ninguém o fixo. Mas, mesmo que o figessem, dado que o golpe de estado foi feito em nome do Kemalismo, seria promovido polos Kemalistas nom polos Gülenistas. Isto significa que, se fosse umha operaçom clandestina dos Gülenistas, eles deveriam ter pensado que nom havia apoio suficiente para que um golpe pró-kemalista obteria sucesso. Esse engano está presente na Turquia, mas entre um pequeno número de kemalistas obstinados, nom de Gülenistas.

CONCLUSONS: Muitos dos detalhes do golpe de estado do 15 de julho ainda permanecem claros. Embora seja difícil entender como umha organizaçom que passou décadas criando umha vasta rede global de fundaçons com um compromisso com a nom-violência e o diálogo iria arriscar tudo organizando um golpe – mesmo um de falsa bandeira – é, no entanto teoricamente possível que o Movimento Gülen fora o responsável. Também é possível, embora nom provado, que um punhado de oficiais Gülenistas entraram em pânico polos rumores que começarom a circular de que iam ser purgados na próxima reuniom do YAŞ o 01 de agosto de 2016 – e agiu de forma independente do movimento no seu conjunto. Mas há problemas com a narrativa simplista do AKP que o golpe de estado foi um assunto puramente Gülenista – especialmente porque, polo menos, alguns dos oficiais que confessaram desempenhar um papel activo som conhecidos por serem kemalistas da linha dura.

No entanto, depois de anos em que Erdoğan repetidamente tentou atribuir os seus fracassos políticos a conspiraçons imaginárias, agora confrontou com umha real. A sua resposta – o que parece ser motivado por umha combinaçom de oportunismo e verdadeiro medo – purgar nom só supostos Gülenistas mas a qualquer pessoa que nom considerava suficiente fiel a el mesmo. Como Erdoğan continue a destripar o aparelho de Estado, a preocupaçom é que as purgas vam-se expandir a perseguiçons em massa que podem desestabilizar ainda mais um país já muito frágil.

Gareth H. Jenkins é um Investigador nom residente do Central Asia-Caucasus Institute & Silk Road Studies Program Joint Center.

Publicado em Turkey Analyst.

Atribuiçom do debujo a bloomberg.com, acessado o 22 de julho de 2016