Iram e Turquia enfrontam-se por Tal Afar

Members of the Shi'ite Badr Organisation fighters ride on military vehicles during a battle with Islamic State militants at the airport of Tal Afar west of Mosul, Iraq November 18, 2016. REUTERS/Thaier Al-Sudani - RTX2UAJW
Membros das milícias xiitas da Organizaçom Badr em veículos militares durante a batalha com o ISIS no aeroporto de Tal Afar, ao oeste de Mosul o 18 de Novembro do 2016 (Foto de REUTERS / Thaier Al-Sudani)

Resumo: Com a mobilizaçom das unidades predominantemente xiitas das PMU, com o apoio do Iram, expandem o seu control sobre a área recentemente libertada de Tal Afar, que tem umha maioria turcomana, a tensom entre as PMU e a Turquia aumentou.

BAGHDAD — “Tal Afar será o cemitério dos soldados turcos se a Turquia tenta participar da batalha “, dixo Hadi al-Amiri, chefe da Organizaçom Badr e líder das Unidades de Mobilizaçom Popular (PMU), em umha mensagem para o vizinho do norte do Iraque, em caso de que as tropas turcas implantadas em Bashiqa tentem participar na libertaçom de Tal Afar.

O 16 de novembro, Tal Afar foi libertado [Foi-lhe curtada as possibilidades de retirar-se cara Síria]. Trata-se de umha área estratégica para as PMU, umha vez que lhes dá acesso à fronteira síria e permite-lhes cortar as rotas aos luitadores do Estado Islâmico (IS) para escapar para a Síria. Após a libertaçom de Tal Afar, Amiri dixo que o presidente sírio convidou as PMU a luitar contra a oposiçom síria dentro do território sírio.

A declaraçom de Amiri contra a Turquia, que está próxima do Iram, veu em resposta a declaraçons anteriores do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, sobre a cidade de Tal Afar, em que advertiu às PMU de nom cometer “violaçons” contra os civis da cidade.

Durante umha declaraçom de imprensa o 29 de outubro, Erdogan dixo: “A cidade turcomana de Tal Afar é umha questom de grande sensibilidade para nós. No caso que as PMU cometeram atos terroristas na cidade, a nossa resposta será diferente.”

Erdogan acrescentou que recebeu informaçons que confirmam os atos terroristas das PMU na cidade, sem dar mais detalhes sobre o número de reforços ou como a retaliaçom da Turquia seria diferente.

Na mesma linha, o primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, respondeu ao presidente turco o 1 de novembro, dizendo que o governo iraquiano é mais ágil que qualquer outro parte em Tal Afar. Abadi nom escondeu as suas preocupaçons sobre quaisquer ameaças turcas, afirmando: “A ameaça de umha intervençom turca ainda existe.”

Tal Afar é um distrito administrativamente da governaçom de Ninevah e localizado a 63 quilômetros ao oeste de Mosul, perto da fronteira entre o Iraque e a Síria, com umha área de aproximadamente 28 quilômetros quadrados.

Abu Alaa al-Afri, que era adjunto de Abu Bakr al-Baghdadi, era de Tal Afar e foi morto na cidade em um ataque iraquiano no ano passado.

A cidade de Tal Afar, com a sua povoaçom diversa, tornou-se um polêmico campo de batalha para as partes além das fronteiras iraquianas, o que confirma a sua importância geográfica – especialmente para o Iram que busca chegar à Síria através do canal terrestre iraquiano e para a Turquia que busca reavivar a Glória da expansom otomana.

A cidade é o lar de diferentes etnias e tem umha maioria xiita turcomana, que está na base do conflito iraniano-turco (o Iram apoia os xiitas, enquanto a Turquia apóia os turcomanos).

É importante notar o conflito xiita-sunita entre a povoaçom turcomana, o que poderia desencadear umha guerra furiosa dentro do distrito, tornando mais fácil para o Iram e a Turquia obter um apoio na cidade que poderia envolver presença militar.

Para acrescentar combustível ao fogo, houvo conversas de que a libertaçom de Tal Afar, que ainda está sob o controle do IS, estará sob a supervisom do chefe das Força Quds do Iram, Qasem Soleimani. Esta seria umha grande provocaçom para os sunitas lá.

O envolvimento das PMU em Tal Afar também é controverso e é visto como umha reaçom à presença turca em Bashiqa.

O objetivo das PMU é libertar a cidade de Tal Afar e chegar à periferia de Mosul, sem entrar na cidade, a menos que o ordene o comandante em chefe das forças armadas “, dixo Faleh al-Fayad, chefe da PMU e assessor de segurança nacional no Iraque.”

O 30 de outubro, a Frente Turcomana no parlamento da Regiom do Curdistam advertiu contra qualquer mudança demográfica no distrito de Tal Afar como resultado da interferência das PMU na batalha lá e, portanto, recusou a participaçom desta última na libertaçom da cidade.

Harakat Hezbollah al-Nujaba, umha das facçons das PMU afiliadas ao Velayat-e faqih iraniano, espera que a batalha para libertar Tal Afar seja “feroz”, negando que as PMU estejam tentando provocar umha mudança demográfica no distrito, E acusando a Turquia de “manter o nariz nos asuntos dos outros”.”

É muito provável que as PMU e as tropas turcas colidem na cidade, já que estas estam estacionadas a 12 quilômetros de Tal Afar.

A Turquia acredita que a presença das PMU em Tal Afar dá-lhe terreno para entrar na cidade, especialmente após a advertência de Erdogan para interferir “se as PMU espalham o medo entre os cidadaos.”

O que é mais, a Turquia nom deseja que o Iram tenha influência em Tal Afar, que fica ao lado da fronteira com a Síria; e tornaria mais fácil para o Iram transferir armas através da rota terrestre que está procurando estabelecer de leste a oeste do Iraque. Isso também é visto como umha das razons por trás da disputa sobre Tal Afar.

Erdogan teme que Tal Afar, que fica a 60 quilômetros da fronteira turca, tornaria-se um paraíso para as facçons xiitas próximas ao Iraque. O presidente turco também tem preocupaçons sobre umha possível aliança entre as PMU e o Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) no que diz respeito a ataques que poderiam ser lançados na Turquia ou umha possível facilitaçom pelas PMU transferindo armas ao PKK que luita contra o exército turco.

Parece que haverá umha nova escalada turco-iraquiana que se pode transformar em um impasse militar, especialmente porque Abadi afirmou anteriormente: “[o Iraque] nom quer ir à guerra com a Turquia, mas se a Turquia insistir em umha guerra, nós estaremos prontos.”

No entanto, no caso de um confronto militar acontecera entre a Turquia e o Iraque, este último nom envolveria as suas tropas regulares, mas sim as PMU que vem as tropas turcas no Iraque como umha “força de ocupaçom.

Tal Afar tornou-se umha área internacional disputada entre a Turquia e o Iraque, o que está causando umha maior instabilidade em termos de segurança e abre a porta a conflitos civis, pavimentando assim o caminho a qualquer intervençom militar iraniana ou turca.

mustafa_saadoun-bwMustafa Saadoun é um jornalista iraquiano que cobre os direitos humanos e também fundador e diretor do Observatório Iraquiano dos Direitos Humanos. Anteriormente trabalhou como jornalista  do Conselho de Representantes do Iraque.

Publicado em Al-monitor.

 

Os curdos matam e deslocam civis árabes na operaçom de Raqqa?

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Luitadores das SDF na operaçom de Raqqa / ANF

Por Sinan Cudi

As forças da Ira do Eúfrates terminarom a primeira fase da operaçom para libertar Raqqa do  Estado Islâmico (ISIS) o 14 de novembro.

A declaraçom revelando os detalhes dos primeiros 10 dias da operaçom foi na aldeia de Hîşa; há pouco informara-se que fora atacada por avions da Coligaçom anti-ISIS. A declaraçom, lida pola porta-voz Cihan Ehmed dixo que 36 aldeias, 31 povos, 7 outeiros estrategicamente importantes e duas regions importantes que fornecem água e eletricidade foram liberados em umha área de 550 km do ISIS. Também informou-se que 167 militantes do ISIS foram mortos e 4 presos.

A declaraçom acrescentou que o ISIS tinha tentado 12 ataques VBIED [Veículos bomba], mas que todos os veículos tinham sido destruídos. Um grande número de armas e outros veículos também tinham sido eliminados, 240 minas desativadas. A declaraçom dizia que apenas quatro lutadores das Forças Democráticas da Síria (SDF) foram feridos na primeira fase da operaçom.

Mencionou também que o assédio de Raqqa continuava e que as pessoas nas áreas liberadas permitiria-se-lhes retornar às suas casas umha vez que a limpeza das minas terminara.

A declaraçom também se refere à reivindicaçom sobre a Aldeia de Hîşa (Hisah), que é o tema deste artigo e di: “Embora nom tenhamos encontrado nengumha evidência de que os civis foram prejudicados durante a operaçom, continuamos a investigar as alegaçons.”

Deixando de lado o conteúdo da declaraçom sobre a aldeia Hîşa, o fato de que a declaraçom foi feita na aldeia onde o suposto ataque ocorrera é umha mensagem para aqueles que fam essas alegaçons. Que os jornalistas tenham permissão para entrar e investigar na aldeia após o comunicado de imprensa é mais umha prova da confiança do SDF de que as alegaçons som falsas.

Reivindicaçons semelhantes forom feitas antes. Cada vez que o ISIS é atacado, há mentiras do tipo “os árabes estam sendo deslocados”, “há limpeza étnica”, “a demografia está sendo mudada”, “os civis estam sendo assassinados”, som postos em circulaçom para interromper a guerra contra o grupo jihadista.

A mensagem subjacente repetida com estas afirmaçons é a seguinte: “Os curdos estam matando árabes, deslocando-os, apropriando-se das suas terras e tentando criar um estado curdo.” De longe isso pode parecer plausível também. Afinal, vivemos em sociedades onde as pessoas têm bebido do cálice envenenado do nacionalismo e forom infectados polas suas ideias e que, a gente pense que é umha possibilidade fazer o anterior.

No entanto, é importante enfatizar certos feitos.

Em primeiro lugar, a maioria dos combatentes que participam na ofensiva de Raqqa som árabes. Os componentes da força de combate que participam da operaçom som proporcionais à povoaçom de Raqqa. Isto significa que os curdos representam o 25% desta força, em relaçom à povoaçom curda que vivia em Raqqa.

Em segundo lugar, durante mais de um ano, desde a ofensiva de al-Hawl, os curdos nom agem unilateralmente. As forças de comando e combate em todas as operaçons e açons militares som decididas polas SDF. Há umha ordem comum e um centro de comando. O que significa que há um exército administrado conjuntamente por árabes, curdos, assírios e turcomanos.

E, finalmente, se os curdos tivessem pretendido e desejassem deslocar os árabes, teriam começado com a povoaçom árabe movida polo regime Baath para os assentamentos curdos como parte da iniciativa do cordom árabe na década de 1960.

É possível listar muitos mais feitos, mas três som suficientes.

O que é interessante, no entanto, é que aqueles que fam estas afirmaçons estam completamente silenciosos sobre as massacres cometidos por avions de guerra turcos em Afrin e na regiom de Shehba, a destruiçom de aldeias curdas e o deslocamento de milheiros de curdos.

sinan-cudiSinan Cudi é um jornalista curdo atualmente em Rojava-Norte da Síria.

Publicado em  Kurdish Question.

 

 

 

O modelo Rojava

o-modelo-de-rojavaPor Meredith Tax

Como governam os curdos da Síria

Um novo modelo de organização social está tomando forma nas áreas curdas no norte da Síria. Rojava, como ficou conhecida, compreende três cantões na seção ocidental da  histórica terra natal do povo curdo, que está agora dividida entre Irã, Iraque, Síria, e Turquia. No que diz respeito a igualdade social, pluralismo étnico, e anti-sectarismo, o território é uma região sem igual. Esse é especialmente o caso quando falamos dos avanços das mulheres.

A atenção pública do ocidente deu um giro de 2014 a 2015, quando as milícias territoriais, as Unidades de Proteção do Povo (YPG) e as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ), tiveram um papel central na expulsão do Estado Islâmico, ou ISIS, de Kobane, uma cidade no noroeste da Síria. Observadores destacaram duas características do grupo: primeiro seu sucesso contra o ISIS, que as forças de segurança dos EUA e das forças de oposição Síria se esforçaram para derrotar, e segundo, o protagonismo das lutadoras femininas em suas fileiras.

Desde a Segunda Guerra Mundial, guerrilhas femininas fizera parte de lutas armadas ao redor do mundo. Mesmo a maior parte dos grupos militantes alistaram mulheres pois precisavam de soldadas, não porque desejaram empoderar as mulheres, e poucos tem priorizado tanto a igualdade das mulheres como os curdos da Turquia e da Síria.

A ênfase do Rojava sobre o papel de liderança das mulheres, no entanto, não se limita ao plano militar. Isso é definido pelos Curdos Sírios como uma visão societal mais ampla. Quarenta por cento dos membros da sociedade civil ou de qualquer órgão social em Rojava têm que ser de mulheres. Da mesma forma, todos os órgãos administrativos, projetos econômicos e organizações da sociedade civil são obrigadas a ter homens e co-presidentes do sexo feminino. Embora o Partido da União Democrática (PYD) seja dominante em Rojava  e os curdos são a maioria da sua população, Rojava é o lar de uma série de outros partidos políticos e etnias. É a única sociedade em sua região, que baseia-se nos pontos fortes de toda a sua população. Como é que as mulheres conseguiram ganhar tanto poder no meio de uma guerra pela sobrevivência?

Uma exceção regional

A história começa na Turquia em 1978, quando o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) foi fundado para criar um Estado independente curdo. Nos primeiros anos de sua insurgência contra o governo turco, o PKK foi dirigido principalmente por guerrilheiros do sexo masculino. Mas isso mudou na década de 1990. Quando a resistência civil curda mais ampla emergiu nas cidades turcas e os ativistas curdos  começaram a pressionar para ter um partido de representação no parlamento, o Partido Trabalhista Popular (HEP). Em ambos os empreendimentos, as mulheres serviram como líderes. Leyla Zana, uma ex-integrante do HEP, continua atuando no parlamento da Turquia.

Em 1993, de acordo com a jornalista Aliza Marcus, um terço dos novos membros do PKK eram mulheres; muitas delas recrutadas por Sakine Cansiz, uma de suas fundadoras.

Em 1995, o PKK formou um exército de mulheres, que agora é chamado de YJA-Estrela. A resolução que cria o exército deixou claro que iria servir como um modelo para outras organizações de mulheres “em todos os setores da economia, todas as instituições sociais, e até mesmo no campo da cultura.” A decisão foi particularmente notável pelo fato de que, na área rural do Curdistão, a subordinação do pensamento dass mulheres, tal como as práticas misóginas como os chamados assassinatos de honra,  reclusão imposta, e os casamentos de crianças tinham sido a norma. Para muitas mulheres curdas, deixar suas famílias para se juntar a um grupo insurgente foi uma enorme ruptura com a tradição patriarcal. Mulheres guerrilheiras foram pioneiras do movimento de libertação das mulheres como uma sociedade dentro da sociedade  curda.

Alguns dos líderes de Rojava, tais como os co-presidentes do PYD: como o Salih Muslim, foram originalmente membros sírios do PKK, e muitos dos ideais que têm sido postos em prática em Rojava foram testados na Turquia. Desde a fundação do PYD em 2003, a libertação das mulheres tem sido parte do programa do partido. Tal como na configuração da Estrela-Yekitiya, seu braço de organização para as mulheres, em 2005. Em 2012, como o presidente da Síria, Bashar al-Assad retirou suas tropas da maior parte do norte da Síria e dos cantões, Rojava tornou-se efetivamente autônoma e os membros do PYD começaram a se organizar de maneira mais vigorosa, tornando a defesa das mulheres uma parte integral de sua guerra contra o ISIS. A organização logo começou a recrutar novos membros de outros grupos étnicos da região, tratando de incluir assírios, árabes e Yezidis.

O grupo que mudou seu nome para Estrela de Kongreya no início deste ano, se descreveu como uma organização guarda-chuva para o movimento das mulheres de Rojava. Em nível local, a Estrela de Kongreya compreende um número de organizações, conhecidas como a comuna das mulheres, que operam em paralelo às comunas de sexo misto, que organizam tais assuntos como a alocação de energia e o uso do espaço público. O foco das comunas de mulheres sobre a violência doméstica, casamento forçado, e saúde das mulheres e programas econômicos, entre outras coisas; em muitos casos, podem se sobrepor aos seus parceiros organizacionais de sexo misto. Estrela de Kongreya no nível mais alto organiza comitês em cinco áreas: educação, especialmente educação de adultos e aulas de literatura; saúde pública, incluindo clínicas especializadas para mulheres; economia, incluindo a manutenção de cooperativas; resolução de disputas em comunidades, que inclui mediação e manutenção de abrigos para vítimas de violência doméstica; e defesa de cidadãos, que é central para a plataforma do PYD e especialmente para Estrela-Kongreya. Há três forças de defesa de mulheres em Rojava, a YPJ, que luta contra inimigos externos tais como o ISIS; as forças de segurança locais; e as forças de defesa civil atreladas às comunas, que lidam com a segurança da vizinhança, incluindo casos de violência contra as mulheres.

Autonomia e democracia

O crescimento da influência de mulheres na Rojava é parte central da transformação mais ampla da política curda ali e na Turquia. Ao contrário dos curdos iraquianos, os curdos sírios e turcos afastaram-se do nacionalismo. Eles buscam autonomia local ao invés de um arranjo federal. A ideia de longo prazo é a de assegurar a democracia, constituições democráticas que garantam uma autonomia local extensiva e protejam os direitos humanos. (Esta mudança foi executada em paralelo com a evolução ideológica do líder do PKK preso Abdullah Ocalan, um antigo militante que agora é um defensor do que ele chama de Confederalismo Democrático.)

À luz da atual turbulência da região, a visão de Rojava para uma feminista, de uma sociedade diretamente democrática, pode parecer irrealista.

No entanto, o fracasso das negociações para acabar a guerra civil síria mostrou a capacidade limitada da diplomacia para pôr fim a conflitos inflamados por atores não-estatais e financiados por potências externas, e em décadas recentes, tem havido alguns modelos políticos nas cercanias do Curdistão que oferecem muito mais uma promessa para o igualitarismo e paz como a que os curdos chamam de autonomia democrática.

Até agora, os Estados Unidos têm tratado os curdos sírios como um aliado militar de curto prazo e dado a eles apoio militar, mas não apoio político ou econômico ostensivos; Washington não insistiu para eles tomarem parte nas conversações de Genebra para acabar com a guerra na Síria. Esta abordagem é um erro. Desde os anos 1990, os Estados Unidos tem se posicionado como um defensor das mulheres e minorias sexuais. Os curdos sírios estão praticando uma forma de democracia que consagra a igualdade de género e se opõe noções de soma zero de étnico e direitos nacionais. Dado os compromissos que assumiu, os Estados Unidos deveriam estar dispostos a apoiar esses fins.

lead-Meredith-TaxMeredith Tax é escritora e ativista política desde o final da década de 1960, foi membro do Bread and Roses, fundadora presidente da Comissom Internacional de Mulheres Escritoras do PEN, presidente fundadora de  Women’s WORLD, e co-fundadora do Centre for Secular Space. Os seus últimos livros som Double Bind: The Muslim Right, the Anglo-American Left, and Universal Human Rights e A Road Unforeseen: Women Fight the Islamic State.

Esse artigo foi primeiramente publicado no website Foreign Affair e tem sido reproduzido com a permissão da autora.

Tradução ao português: Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda – RJ

Esse artigo expressa a visão da autora e não necessariamente está de acordo com os Comitês de Solidariedade à Resistência Popular Curda.

 

Acreditar ser um curdo-turco é um engano

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Bandeira do PKK flanqueada pola bandeira Turquia que está cobrindo a bandeira do HDP

Nesta entrevista em profundidade feita por Robert Leonard Corda, Saladdin Ahmed, professor assistente de Filosofia na Mardin Artuklu fala sobre identidade curda, política, religiom, democracia e a situaçom atual na que se encontram os curdos no Oriente Médio.

Robert Leonard Corda (RLR): Descreva resumidamente a sua experiência. Chama-se Saladdin por Saladin, o Grande? Como foi ensinar em umha universidade da Turquia?

Saladdin Ahmed (SA): Eu nunca sei como responder a perguntas sobre o meu passado, principalmente porque a minha identidade sempre foi modelada ao redor de negaçons em vez da promoçom de um determinado conhecimento. Eu nom diria que tenho umha crise de identidade, mas eu diria que a identidade, polo menos no mundo de hoje, é em si umha crise.

Quando ser curdo é visto como algo a ser renunciado, som curdo, nom há dúvida sobre isso. No momento em que que se torna a identidade do governante, só podo estar em oposiçom a ela com os oprimidos. Quer dizer, eu som curdo na medida em que a curdonidade é umha negaçom da opressom. A primeira vez que eu estava em um lugar onde ser curdo era equivalente a ser privilegiado, em 2013, eu encontrei-me em umha grave crise moral, entom comecei a construir laços com as minorias nom-curdas e nom-muçulmanas.

Antes que eu percebesse, criticar o nacionalismo curdo eo Islam tornaram-se as minhas principais atividades intelectuais até que eu deixei o Curdistam iraquiano.

Para lhe dar umha resposta comum, eu nascim em umha família curda em Kirkuk, Iraque, e meu nome era originalmente Sherzad. No entanto, com medo de que um nome tam nitidamente curdo poderia atrair umha investigaçom minuciosa do governo iraquiano, meu pai mudou o meu nome para Saladdin – um nome árabe com conotaçons curdas. Embora o meu mesmo nome é, de umha forma indireta, o do líder curdo Saladdin Ayubi, eu deveria afirmar claramente que, tanto quanto eu me interessei, “Saladdin o Grande” nom era nengum herói, mas sim um notório assassino como tantos outros que vinheeram antes e depois del.

Como umha criança curda, eu crescim em Kirkuk durante o regime do pensamento Baath e era um erro existencial, mas eu gostava de ser um erro. Eu ainda gosto de ser um erro.

Quanto à minha experiência no ensino, na Turquia, a situaçom quando cheguei no outono de 2014 era algo sem precedentes. Por primeira vez em quatro décadas, a regiom curda do país estava desfrutando de umha relativa paz que deu origem a um movimento cultural e intelectual impressionante. Estamos a falar de umha regiom que tem estado tam oprimida que mesmo umha dança curda tradicional é considerada um ato político. O alunado principalmente curdo estava muito envolvido na vida pública dentro e fora da universidade. Foi, em suma, um momento emocionante estar em Mardin.

Infelizmente, o meu tempo ensinando em Mardin Artuklu Universidade foi abreviada. Um par de meses depois da minha chegada do Canadá, o reitor liberal foi deposto e substituído por um islamista apoiado por Erdogan. Logo, foi formalmente nomeado por Erdogan, o novo reitor começou umha campanha para erradicar aos nom-islâmicos da administraçom da universidade. Vários meses depois, el suspendeu unilateralmente o meu contrato e os contratos de 12 professores mais, os quais eram estrangeiros. Para piorar as cousas, a guerra também retomou a regiom curda e com ela veu a opressom violenta dos jovens, vastas operaçons militares, prisons em massa, e assim por diante. O que Erdogan tem feito às universidades turcas em Istambul e Ancara durante as semanas desde o golpe fracassado do 15 de julho de 2016 começou há um ano no sudeste [Curdistam sob administraçom turca].

RLR: Temos estado todos especulando sobre o recente golpe de Estado ao longo das últimas semanas – foi real? Quem estava realmente por trás disso? Como foi Erdogan beneficiado? Será que algum dia conheceremos a verdade completa?

SA: Sim, eu acho que foi umha tentativa de golpe real, mas o fato de que houvera especulaçons de que Erdogan escenificou  o golpe di-nos muito sobre a falta de credibilidade do governo.

Penso que os kemalistas no exército forom a principal força por trás do golpe, e é possível que Gulenistas também se juntaram a eles, sentindo mais de um que a repressom era iminente. Claro, Erdogan nom podia culpar abertamente as forças kemalistas porque o kemalismo continua a ser extremamente popular entre os turcos, funcionando mais ou menos como sinônimo de patriotismo e nacionalismo turco. Assim Gulen, o rival islâmico populista com residência em Filadélfia desde 2004, era o melhor candidato para representar “o inimigo”. Se bem se lembram, quando Erdogan deu o seu primeiro discurso na noite do golpe, algumhas horas após a entrevista na CNN Turca, um enorme retrato de Mustafa Kemal Ataturk foi colocado atrás del. A mensagem, na minha opiniom, era clara: O kemalismo nom é o inimigo.

Para voltar à questom da credibilidade, as pessoas tenhem todos os motivos para desconfiar do regime de Erdogan. Para muitas pessoas na Turquia, tornou-se rotina excluir o cenário, o governo pretende ser a verdade desde o reino das possibilidades.

Em junho de 2014, quando o ISIS tomou o control de Mosul, o governo turco afirmou que o ISIS tomou 49 pessoas do Consulado turco em Mosul como reféns. Na noite da invasom do ISIS de Mosul, fugindo as autoridades iraquianas alertaram o pessoal do consulado e aconselhou-os a deixar a cidade, mas nom o figeram. Durante três meses, a Turquia usou “os reféns” como umha desculpa para nom se juntar à coalizom contra o ISIS. Em contraste com o destino dos outros reféns do ISIS, o ISIS finalmente libertou aos 49 reféns, apesar do feito de que a Turquia nom teria feito nengum pagamento de resgate.

Notavelmente, a própria narrativa do governo turco sobre a libertaçom dos reféns era conflitante, com o único detalhe consistente que era que a Organizaçom Nacional de Inteligência da Turquia (MIT) lidou com a situaçom. Desde o início, a história inteira em torno do cenário era pouco pública. Por exemplo, as pessoas eram esperadas para acreditar que o cônsul-geral conseguiu esconder o seu telefone móvel e usá-lo para fornecer atualizaçons regulares para Ankara ao longo de três meses. Para quem tem acompanhado relatórios sobre a situaçom dos reféns em poder do ISIS, é claro que esta história também era nada mais do que umha invençom destina a promover os objetivos políticos de Erdogan.

Dado todo o que a gente em Turquia e os observadores internacionais já sabem do governo turco, das suas forças armadas e o MIT, nom é surpreendente que a narrativa do governo sobre o fracasado golpe nom fôsse creida.

Som inúmeras as histórias sobre conspiraçons políticas do regime. Por exemplo, em umha reuniom de 2014 entre Ahmet Davutoglu eo chefe do MIT, Hakan Fidan, umha idéia para começar umha guerra com a Síria foi discutida. Com base em umha sugestom de Erdogan, Fidan desenvolveu um plano polo qual o MIT iria organizar um ataque de mísseis contra a Turquia, desde a Síria, dando a Ankara umha desculpa para entrar em umha guerra com a Síria. Umha gravaçom de áudio da reuniom foi divulgada e publicada no YouTube, o que levou o governo turco a lançar um dos seus bloqueios periódicas do site para controlar o fluxo de informaçons.

À luz dos acontecimentos passados, como isso, é possível que o MIT tinha algum conhecimento prévio do golpe de 15 de julho, mas permitiu que isso acontecesse, a fim de criar a oportunidade para as purgas de Erdogan? Talvez, mas o ponto é que os povos, compreensivelmente, nom acreditam a narrativa de um regime nom democrático. De qualquer forma, o que é certo é que Erdogan explorou o fracassado golpe para acabar com deslealdades reais e potenciais no exército, polícia, e no sistema judiciário e educacional.

RLR: Como sabe, existe actualmente um estado de emergência na Turquia – milheiros forom presos, muitos professores e jornalistas por nom mencionar os membros das forças armadas – e há muitas denúncias de tortura. Qual é a sua perspectiva sobre isso: como tudo vai acabar?

SA: Eu acho que os próximos anos na Turquia será umha era de terror. Esta purga vai levar a um colapso completo da confiança já frágil entre os diferentes setores das forças armadas e o MIT. Aqueles em posiçons de poder cada vez mais tentam utilizar o clima de medo e a falta de transparência para se livrar dos rivais.

Como tal, penso que as denúncias de assassinatos e tortura só se tornarám mais comuns. O exército da Turquia sempre foi considerado como o guardiam do Estado, mas agora vai ser forçado a submeter-se ao governo, e isso nom vai acontecer sem problemas.

As tramas de conspiraçom só se tornará mais complicadas e sutis. À medida que a situaçom se agrava, o regime vai atrair cada vez mais islamitas, anti-intelectuais e pessoas que só sabem ganhar a vida vigiando aos outros.

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Saladdin Ahmed

RLR: Qual é a sua opiniom da “democracia turca”? Existiu mesmo umha coisa assim? Será que Erdogan primeiro alimentá-la, e em seguida, destruí-na? Será que as pessoas nom querem a democracia de estilo ocidental? Democracia versus teocracia?

SA: Eu nom acho que tenha existido umha “democracia turca”. Sim, houvo eleiçons, mas até mesmo países como Iram e Paquistam regularmente realizam eleiçons. Há também um parlamento em Ancara, mas é um Parlamento que simboliza a rejeiçom turca da pluralidade.

Deixe-me ser mais precisos e dizer que sempre houvo duas Turquias: a ocidental e a oriental. No oeste da Turquia, estendendo-se desde Istambul, a Izmir, Antalya, Ankara, e Adana, umha sorte europeia da cotidianidade era relativamente viável, polo menos, para as estimativas de um turista típico. Concedido, isso está mudando agora, razom pola qual a actual situaçom na Turquia tem atraído tanto interesse internacional.

Mas o leste da Turquia sempre estivo sob regime militar. Desde Istambul, a brutalidade da vida no leste do país é inimaginável. Milheiros de jovens curdos desaparecerom em operaçons militares turcas ao longo dos anos 1980 e 1990. A visom de tanques e veículos blindados em praças da cidade ou bairros em itinerância, militares e postos de control da polícia entre e dentro das cidades, enormes bases militares nos centros urbanos, e milheiros de aldeias completamente destruídas é a outra face da Turquia. Se um se permite ver essa outra cara, a noçom de “democracia turca” deveria parecer nada mais do que um absurdo.

Os movimentos islâmicos, como a Irmandade Muçulmana ou o partido AK, muitas vezes utilizam os meios democráticos para alcançar os seus fins islâmicos, que som essencialmente anti-democráticos, anti-pluralistas, anti-individualistas, e violentos. Erdogan é um típico demagogo islâmico pragmático que fingiu ser pró-democracia e contra a violência até que el ganhou poder suficiente. El agora está revelando gradualmente as suas verdadeiras crenças. Islamitas nas que acreditam que jogar qualquer truques possíveis e enganar o povo em prol de empoderar o Islam é completamente legítimo. Eles poderiam-se comportar como as pessoas mais tolerantes e pacíficas, mas isso é apenas a fim de ganhar o apoio e, assim, ganhar o poder. No momento em que eles tenhem poder suficiente, espalhar o Islam pola espada torna-se o método preferido simplesmente porque tanto a vida de Maomé e a do Alcoram refletem diretamente essa dualidade pragmática essencial: a paz quando é a única opçom, e a violência quando é umha opçom eficaz.

Para colocar isso de forma muito clara, nom existe um islamita moderado; existem radicais e islâmicos esperando-a-ser-abertamente radicais. Erdogan estivo pacientemente seguindo o caminho ao poder, e o pior ainda está por vir. Além disso, nom nos imos enganar a nós mesmos, se umha força política quer ser democrática, será democrática, nom islâmica.

A sociedade na Turquia, como em qualquer outro lugar, é extremamente complexa, com diversas forças sociais e políticas em desenvolvimento competindo, chocando-se, e assim por diante. Apesar do aumento aterrorizante do islamismo e a história de 100 anos de fascismo kemalista na Turquia, há uma forte tradiçom de movimentos progressistas no país. A democracia liberal nom tem raízes fortes na Turquia, e a dualidade principal nom é a democracia contra a teocracia. Antes a teocracia nos anos 2000 nom era vista como umha possibilidade, mas o país era sem dúvida nom menos antidemocrático.

Como todos sabemos, o secularismo nom é condiçom suficiente para a democracia em todo o mundo. O fascismo pode muito bem ser, e tem sido, historicamente, secular. Turquia tem sido governado polo fascismo kemalista, e agora está caminhando para o fascismo islamista. Ao longo dos últimos dous anos, Erdogan tem umha na longa história de ódio contra o outro na Turquia para apelar a ambos os ultra-nacionalistas e islamitas. Assim, o discurso de umha naçom, um país, um Deus, umha bandeira, um idioma já está crescendo novamente.

RLR:  Como poderíamos no Ocidente pressionar com sucesso a Erdogan e os seus seguidores para restaurar e defender os direitos humanos e o Estado de direito na Turquia?

SA: Os direitos humanos nom podem ser “restabelecidos”, porque nunca forom respeitados em primeiro lugar. Talvez o turismo pode ser recuperado, mas os direitos humanos som algo polo qual todos devemos luitar coletivamente.

Erdogan está a pressionar o Ocidente, e nom vice-versa. Polo que podo ver, Erdogan vai continuar a usar refugiados sírios e iraquianos para chantagear aos políticos europeus, todo continuando a consolidar o seu poder em todo o mundo sunita ao tempo. Como el trabalha para eliminar a oposiçom regional a sua visom de um império islâmico em 2023, devemos esperar mais guerras desastrosas no Oriente Médio, o que resultará em muitos mais refugiados que tentam escapar para a Europa. A Europa nom será capaz de manter a crise fora das suas fronteiras, baseando-se em um guardiam que el próprio é o principal instigador do problema. Vamos enfrentá-lo: o ISIS só tem sido capaz de sobreviver com o fluxo de jihadis, armas, muniçons, e dinheiro através da Turquia.

A ideia de que o chamado regime islâmico moderado em Ancara pode ser usado contra a propagaçom do chamado islamismo radical é talvez a estratégia mais inútil que se poda imaginar. Em vez disso, os chamados moderados continuarám desempenhando tanto no Ocidente como os radicais islâmicos contra o outro. Eles vam continuar a usar ambos os lados para fortalecer ainda mais a si mesmos, ganhando ainda mais força e crescendo cada vez mais radicais.

Turquia aprendeu a maneira saudita de jogar este jogo. Os sauditas som os principais financiadores dos movimentos islâmicos, mas, ao mesmo tempo eles dam aos “aliados” ocidentais informaçons de inteligência apenas o suficiente sobre os movimentos jihadistas e enredos para manter a aparência de cooperaçom. Turquia tem vindo a fazer o mesmo na guerra contra o ISIS. Ambos, o ISIS e o Ocidente tornarom dependentes da Turquia na sua guerra contra o outro; enquanto a Turquia fai o mínimo para satisfazer os seus aliados ocidentais, ao mesmo tempo, el garante que o ISIS nom vai cair. O que pode ser feito agora? O regime de Erdogan deve ser tratados da maneira que deveria Hitler ter sido tratado nos anos anteriores a 1939. Claro, nada na história acontece duas vezes exactamente da mesma forma, mas todos os sinais de um império fascista baseado na rejeiçom violenta da diversidade já estam lá.

RLR: Com relaçom ao ISIS, como achas que esse movimento bárbaro deveria ser destruído?

SA: ISIS fai o trabalho sujo para a Turquia e, em troca, Turquia atua como umha rota de abastecimento para o ISIS, além de prestar assistência directa. Enquanto a Turquia tem permisso para continuar dessa maneira, mesmo se o ISIS é destruído, dúzias de outras forças islâmicas continuarám a prosperar na Síria. Eu acho que Erdogan vai continuar a apoiar os islamistas na Síria até que el nom precise mais deles. Naturalmente, as cousas nom vam todas como el deseja. Com cada dia que passa a Turquia torna-se cada vez mais como a Síria em termos de polarizaçom da sociedade, que poderia muito bem levar à eventual erupçom da guerra civil.

A única pior fóbia da Turquia é o chamado “problema curdo”. Erdogan tem vindo a apoiar o ISIS, Jabhat al-Nusra, que recentemente mudou o nome a Jabhat Fatah al-Sham, e inúmeros outros movimentos islamistas principalmente para evitar que os curdos sírios controlem regions do norte da Síria ao longo da fronteira com a Turquia.

Quando se tornou claro que o ISIS nom podia parar as forças curdas depois da guerra de Kobane, Turquia diretamente interveu para evitar que os curdos expulsaram o ISIS dos últimos 100 km de faixa ao longo da fronteira com a Turquia. Ankara instou repetidamente à área umha “linha vermelha” que os curdos nom podiam atravessar. Assim, a área de Jarablus está essencialmente sob controlo do ISIS e protegido pola Turquia.

Erdogan também vem contando com o ISIS para conter a ameaça curda percebida dentro da Turquia. O ISIS tem realizado vários ataques contra objetivos curdos no último ano. Na massacre de Suruç o 20 de julho de 2015, 32 estudantes curdos e turcos que estavam em caminho para Kobane para ajudar a reconstruí-lo forom assassinados em um atentado suicida realizado polo ISIS. Cerca de seis semanas antes, o 5 de junho, houvo outro atentado do ISIS durante umha reuniom eleitoral curda em Diyarbakir que matou quatro pessoas. O 10 de Outubro, de 2015, um atentado do ISIS matou mais de 100 civis e feriu mais de 500 pessoas durante umha marcha pola paz em Ancara organizada polo pró-curdo Partido Democrático do Povo (HDP) e vários sindicatos.

O regime de Erdogan é o aliado ideológico e estratégico dos movimentos sunitas em toda a regiom, e há muitos deles. o ISIS tem atraído mais atençom por causa da quantidade de território que controlam e a sua produçom dos mídia. Acho que o ISIS vai perder a maior parte dos seus territórios talvez dentro de um par de anos, mas o perigo do islamismo está longe de terminar.

A chamada oposiçom islamista na Síria difere muito pouco do ISIS. Erdogan, Arábia Saudita e Qatar têm vindo a apoiar abertamente as forças islamistas, incluindo Fatah al-Sham. Na verdade, os EUA tem estado envolvido em armar muitos desses grupos também, incluindo um que recentemente decapitou um menino de 10 anos de idade.

RLR: Existe algumha maneira significante na que podemos ajudar a  aqueles atualmente encerrados em prisons turcas?

SA: A forma significativa para ajudar as vítimas de qualquer regime despótico é o primeiro, nom apoiar esse regime, quer através da venda de armas ou visitar o país por turismo. Eu acho que o Ocidente tem de libertar-se do ciclo de apoiar os islamistas para livrar-se de ditadores indesejáveis, como Qadafi e Al-Assad, e apoiar regimes militares para depor os islamistas.

É um ciclo mortal no Oriente Médio e a Turquia nom é excepçom. A longa história de opressom na Turquia deu legitimidade popular a Erdogan, e el está-se tornando um ditador opressivo. Nom é que considere que umha terceira opçom democrática nom exista, mas onde e quando o fascismo é relativamente popular, as forças democráticas som fracas precisamente por serem inerentemente contra a violência, o que os impede parar o fascismo.

Na Turquia, há um movimento progressista que está contra o fascismo nacionalista e o fascismo islamista. É um movimento democrático, laico, pluralista, multiétnico e feminista liderado polo HDP. Durante as semanas que antecederom ao golpe de julho o partido AK de Erdogan defendeu umha lei que dá imunidade contra a perseguiçom jurídica aos soldados, a fim de permitir que as forças armadas matem mais livremente na regiom curda. O partido também avançou mais um projeto de lei que retira aos deputados da sua imunidade, principalmente para atingir os deputados do HDP. O HDP é a última esperança na Turquia; se o regime de Erdogan consegue silenciar os seus líderes e ativistas seja por meio de prisom ou outros meios opressivos, a Turquia se tornar um caso de livro de ditadura.

RLR: Os curdos na Turquia tenhem umha longa e atormentada história. Por um tempo houvo um cessar-fogo com o PKK e as negociaçons com o governo. Recentemente, o HDP tem estado na defensiva, e centos de civis curdos forom mortos polas forças governamentais, pré-golpe. Vai Erdogan retomar a sua guerra contra os curdos?

SA: Erdogan nom demonstrou qualquer intençom de retomar o processo de paz. Agora está em umha aliança com os ultranacionalistas, e para sustentar essa aliança el vai manter a guerra contra os curdos. Retomou a guerra em primeiro lugar para apelar aos ultranacionalistas que som inflexiveis contra qualquer reconhecimento dos direitos curdos.

É difícil imaginar um momento em que a Turquia vai concordar em retomar o processo de paz com os curdos, mas acho que o casamento entre Ancara e o ISIS vai desmoronar mais cedo ou mais tarde. Quando isso aconteça, Ankara provavelmente irá fazer um acordo com os curdos. Historicamente, os curdos estam prontos para aceitar qualquer oferta de paz, mas eles nunca tiverom poder suficiente para impor a paz na Turquia.

Mesmo que o Ocidente agora usa os curdos para conter a ascensom do ISIS, há muito pouca cobertura da mídia internacional da brutal repressom dos curdos na Turquia. Também, porque Erdogan está essencialmente chantageando a UE com a questom dos refugiados, ameaçando abrir as portas da Europa aos refugiados sírios, a UE nom se atreve a criticar a Turquia sobre as violaçons dos direitos humanos no Curdistam.

Na Turquia, nom há pressom suficiente sobre o governo para iniciar um processo de paz também. É bastante irônico que, por um lado, os curdos som alienados diariamente, tanto através da violência do Estado e a falta de solidariedade popular suficiente, enquanto que, por outro lado, eles som acusados de nom ter um forte sentido de pertença à Turquia . O único cenário em que Ankara entraria em um processo de paz é, portanto, se e quando a própria Turquia esteja em umha grave crise.

A questom curda é extremamente complicada na Turquia. É umha questom de 100 anos de negaçom, humilhaçom, assimilaçom forçada, e engenharia social. Enquanto estivem na Turquia, diariamente eu testemunhei as consequências dolorosas da política colonial turca. Um dia eu estava montando no microônibus para a universidade quando duas crianças pequenas, juntamente com sua mae e avó entrou no ônibus. O avó falou em curdo com a mae, mas a mae falou em turco aos seus filhos. Presumo que o avó ou nom sabia turco ou sentiu estranho falar com sua filha em umha língua estrangeira. Presumo também que as crianças nom sabiam curdo, como tantas crianças curdas que forom Turkificadas polo Estado. Quando o ônibus continuou, umha das crianças começou a cantar umha música triste em curdo ao olhar para fora da janela. Em um momento ordinário assim, podia-se ver a repressom que atravessa geraçons.

RLR: Como livre – e como restrito – estam as mulheres na Turquia de hoje? As mulheres curdas e as mulheres turcas?

SA: O kemalismo ajudou as mulheres turcas a ganhar muitas das suas liberdades individuais, mas isso está mudando sob o governo islamista de Erdogan. Erdogan deixou claro em várias ocasions que el nom acredita que homes e mulheres sejam iguais. El sempre incentivou às famílias turcas a ter mais filhos e exortou as mulheres a fazer a educaçom dos filhos a sua principal prioridade.

Em umha mudança interessante, muitas feministas turcas agora tomam inspiraçom do movimento feminista curdo. Historicamente, a regiom curda tem sido mais conservadora em termos de direitos das mulheres, que estava agravada polas condiçons políticas e económicas opressivas impostas à regiom curda.

No entanto, o empoderamento das mulheres é um dos pilares do movimento de libertaçom curdo de hoje. O líder preso do PKK, Ocalan, dixo a famosa frase, “Matar o macho”, que agora é o lema da academia para mulheres em Rojava (Curdistam sírio). É claro, a declaraçom é usada metaforicamente, mas marca umha mudança poderosa na consciência. Combatentes curdos na Turquia e na Síria passam por cursos de feminismo radical para desaprender o sistema de valores patriarcal. Além disso, esse mesmo movimento fixo o sistema igualitário de género de co-presidência em todas as posiçons de governo umha regra universal na política curda na Turquia e Síria.

Municípios, partidos políticos, e as forças militares nas regions curdas da Turquia e da Síria devem cumprir os requisitos de assegurar que o poder é compartilhado entre um co-presidente home emulher.

RLR: Como é a vida para as pessoas LGBT na Turquia hoje?

SA: As pessoas LGBT também tenhem enfrentado o aumento da pressom do governo de  Erdogan nos últimos anos. Na verdade, a polícia procurou impedir as paradas do orgulho em Istambul nos últimos dous anos. Claro que, como as liberdades das mulheres, nom é fácil para o governo suprimir totalmente os direitos LGBT, mas esses direitos podem estar completamente perdidos no espaço de poucos anos, como vimos em outros lugares. Ao mesmo tempo, a sociedade iraniana era muito liberal em termos de relaçons pessoais / sexuais, apesar da brutal ditadura. Agora aos iranianos som lhes negadas essas liberdades passadas sob o regime despótico atual.

Turquia parece estar indo polo mesmo caminho: para além da falta de liberdades políticas, haverá cada vez menos liberdades “pessoais” também. O Islam, em todas as suas versons, nom tolera as liberdades individuais, assim com a ascensom do islamismo, as pessoas LGBT estaram,  evidentemente, entre aqueles que vam sofrer mais.

Esta entrevista foi publicada em Open Democracy.

 

A Jazidi Nadia Murad e o final de umha tradiçom desumana

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Nadia Murad Basee Taha, ativista curda-Jazidi dos direitos humanos e sobrevivente da escravitude do ISIS/DAESH. Foto: EPA

A consultora jurídica, escritora e jornalista curda Chiman Salih analisa a recente nomeaçom de Nadia Murad Basee Taha como Embaixadora de Boa Vontade da ONU. Salih também destaca a iniciativa do Reino Unido, para levar os terroristas do ISIS à justiça por cometer crimes graves e insta a ONU a tomar mais medidas contra a organizaçom terrorista.

Recentemente, o Comité das Naçons Unidas sobre Drogas e Crimes nomeou a Nadia Murad Basee Taha como Embaixadora de Boa Vontade das Naçons Unidas (Embaixadora pola Dignidade sobreviventes do tráfico de seres humanos). A cerimónia tivo lugar em Nova York o 16 de setembro de 2016.

A avogada internacional de direitos humanos Amal Clooney expressou os meus pensamentos precisamente quanto ela se manifestou contra a ONU por nom levar o ISIS à justiça por alguns dos crimes mais graves, cometidos contra a povoaçom Jazidi. Sim, se a ONU estiver realmente comprometida com o seu dever fundamental, estaria fazendo tudo para trazer o ISIS à justiça.

Perguntei à Embaixadora para as questions de crimes de guerra dos Estados Unidos Stephen J. Rapp como poderia ser conseguido isso no Curdistam contra membros do ISIS, ja que o terrorista maliano Ahmed Faqi Mehdi foi condenado polo Tribunal Penal Internacional (TPI) por levar a cabo atentados terroristas e planejamento de destruir alguns monumentos do seu país.

Ele respondeu-me: “Realmente é um crime, que também poderia ser julgado no Curdistam. No entanto, o Parlamento da KRG em Erbil ou o Parlamento iraquiano em Bagdá seria necessário alterar o Código Penal para ‘adaptar’ o direito penal internacional incluindo o artigo 8 (2) (e) (iv) do Estatuto de Roma. Isso nom exige que o Iraque assine o ICC. Além disso, a criaçom interna do direito penal internacional pode ser feito de forma retroativa sob umha disposiçom especial do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos. Eu falei isso com a comissom de todos os partidos no Parlamento em Erbil em abril e acreditava que iria ajudar e nom impedir eventuais processos internacionais.”

Além disso, falou sobre a iniciativa britânica, que foi apresentado ao Conselho de Segurança das Naçons Unidas sobre este assunto: “Quanto esses crimes cometidos no Curdistam poderiam ser processados antes no ICC ou outro tribunal internacional, a situaçom atual é o mesmo que com crimes de genocídio cometidos por membros do Daesh (ISIS). No momento, nom há nengum tribunal internacional que tenha jurisdiçom sobre o território. Espero que isso vai mudar. O forte apoio do Reino Unido no Conselho de Segurança da ONU por criar [umha] comissom “internacional independente de investigaçom” para os crimes cometidos polo Daesh nesta área pode abrir o caminho.”

Recentemente, o Reino Unido apresentou a sua iniciativa ao Conselho de Segurança durante a reuniom anual da Assembleia Geral da ONU. O Reino Unido tomou esta ocasiom para recordar os líderes mundiais dos crimes cometidos polo ISIS. Enquanto a nomeaçom de Murad é umha grande realizaçom para a luita contra estes crimes, a ONU deve fazer mais a fim de restaurar a dignidade de todas as vítimas da organizaçom terrorista, apoiando o projeto do Reino Unido.

Apesar da importância desta nomeaçom, o que tem sido observado por muitas personalidades, tem outra influência profunda e crucial na sociedade do Curdistam e em toda a regiom.

Por quê? Muitas pessoas falarom sobre a decisom no aspecto do sofrimento humano e a brutalidade do ISIS, mas eu gostaria de acrescentar um outro aspecto de importância.

Nadia sofreu muito. Ela tinha apenas 21 anos quando estava vivendo com sua família na aldeia de Kocho perto de Sinjar. Em agosto de 2014, o ISIS invadiu a aldeia e ninguém foi capaz de escapar. O 15 de agosto, a organizaçom terrorista separou os homens das mulheres. Afinal, os terroristas do ISIS disparom os homes, meninos e muitas mulheres sem piedade. Seis dos irmaos de Nadia e a sua mae forom assassinados nesse dia, enquanto três dos seus irmaos conseguirom escapar.

Nadia foi traficada como escrava sexual polo ISIS antes que fora capaz de escapar. Ela estava entre as milheiras de mulheres seqüestradas polos terroristas do ISIS quando eles assumirom isses territórios. Muitas dessas mulheres foram vendidas como sabiá (escravas) e aquelas que escaparam descreveram brutais violaçons coleitivas e sendo passadas entre os terroristas do ISIS e vendidas. Nadia escapou depois de três meses de prisom e violaçom contínua. Ela foi para umha casa em Mosul onde a família ajudou-na a chegar a Kirkuk e depois à regiom do Curdistam, onde se reuniu com os seus irmaos em um dos campos de refugiados. Atualmente, ela reside na Alemanha e passou por tratamento sicológico lá.

Durante muito tempo, a justiça social tem estado ausente para as mulheres que sofrerom como Nadia por causa de umha longa tradiçom. É razoável rescatar as vítimas e punir os criminais? Ao longo da história, algumhas tradiçons sociais promoverom a morte das mulheres que eram violadas. De acordo com essas tradiçons, a mulher trazia a vergonha e o estigma à sua família, tribo, distrito e comunidade se ela revelava o que  fora forçada a fazer. Em algumhas comunidades, estas tradiçons e crenças ainda se mantemhem. Mesmo que o home é o verdadeiro criminoso que violou a mulher, el tem a oportunidade de escapar da puniçom, pagando umha quantia de dinheiro e reconciliando com a família da mulher violada.

Na maioria das sociedades, estas tradiçons desaparecerom. No entanto, mesmo onde a tradiçom de matar a mulher violada desapareceu, ainda pode ser a desgraça para a sua comunidade. Essas mulheres nunca vam ser capazes de viver umha vida normal, desde que esta é a forma como elas som vistas.

O Governo Regional do Curdistam, em 2008, através do Parlamento do Curdistam, que tem o poder de legislar, ousou alterar alguns artigos do Código Penal iraquiano e a Lei do Estatuto Pessoal, restringindo a poligamia e alterando o estatuto jurídico dos crimes de honra para assassinato. Esta alteraçom poderia ter ajudado a punir alguns dos criminosos, mas por causa das tradiçons sociais e as reconciliaçons tribais que forom mencionados acima, a revisom da lei nom poido realmente entrar em vigor.

Por primeira vez, Murad e aquelas mulheres que sofrerom como ela já nom som considerados um estigma polas suas sociedades. Ela tem sido reconhecida como símbolo de dignidade. Este reconhecimento global é certamente um duro golpe para umha das mentalidades mais irracionais e desumanas, que se reflete neste má tradiçom.

À medida que as forças iraquianas, juntamente com a ajuda internacional estam-se preparando para expulsar o ISIS do seu último reduto no Iraque, devemos garantir a expulsom das mentalidades do ISIS mais inquietantes que têm sido a causa de sofrimento por muito tempo.

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Chiman Salih

Escrito por Chiman Salih e publicado em ekurd e thekurdishproject entre outros.

 

 

A incursom em Síria significa a Guerra perpétua da Turquia contra os Curdos

vinheta01Por Hawzhin Azeez

Nas últimas horas informaçons emergerom que o exército turco está bombardeando a aldeia de  Til-Emarne (al-Amarne) de Jarablus com fogo de artilharia e avions e também ataca às SDF em Ain Diwar (leste de Rojava) e Afrin (oeste Rojava). Fontes curdas relatarom que dúzias de civis foram feridos e mortos. A incursom da Turquia na Síria já confirmou o que muitos pensavam que era, umha agressom contra os curdos.

A propaganda pro-turcaa é abundante, afirmando que Jarablus foi “libertada” polo exército turco sem derramamento de sangue, em oposiçom às “YPG” – o que implica que as YPG som um exército invasor e selvagem que mata e assassina pessoas inocentes desnecessariamente, em oposiçom ao mais “legítimo” exército turco. Mas a realidade é que nom houvo “luita” para libertar Jarablus porque claramente havia um acordo entre o ISIS eTurquia. A relativa facilidade com que a Turquia tomou Jarablus suscitou importantes questons estratégicas e políticas. Por que combateu o ISIS tanto para manter Kobane ou Manbij mas nom Jarablus? Por que atravancarom-se, pugerom centos de minas e armadilhas em toda Kobanê e Manbij, perderom milheiros dos seus combatentes envolvidos em umha guerra de guerrilha e luitarom pola território casa por casa, rua por rua, mas nom há sinais das suas estratégias em Jarablus? Por que abandonarom tam facilmente e sem derramamento de sangue Jarablus?

Talvez a resposta pode ser encontrada em que os combatentes do ISIS forom vistos simplesmente trocando as suas roupas polos ‘uniformes’  dos geupos que apoia Turquia?

Seja qual for a verdade, a este respeito, a realidade é, o cerne do acordo ISIS eTurquia foi que após a perda espetacular de Manbij,  estrategicamente era melhor permitir que Turquia controlara Jarablus, o que efetivamente cortaria a possibilidade de uniom entre os cantons de Kobane e Cezire com o cantom de Afrin e estabelecer a “zona tampom” que a Turquia levava tempo procurando. Deixando nesse processo que o ISIS se recupere e contine os seus ataques em Afrin, no leste e sul do cantom de Kobane e em Cezire, o sudoeste de Rojava, norte da Síria. Esta estratégia também envolve o aumento de ataques suicidas e carros-bomba em Cezire, enquanto a inexistência de um corredor humanitário imposto pola Turquia e apoiado polo governo de Barzani na KRG (norte do Iraque) assegura um ambiente de pressom para as zonas autônomas assediadas.

Agora, existem sugestons de que a Turquia e os seus co-conspiradores estam decididos a “libertar” Manbij utilizando a presença das YPG como um pretexto para a guerra -quando é bem sabido que as YPG deixarom a cidade, so os conselhos locais das Forças Democrâticas da Síria e o Conselho Militar de Manbij, composto por luitadores locais quedarom lá. Este processo descarrila eficazmente o argumento de que os curdos estam “apropriando terras”, por nom mencionar que as Forças Democráticas da Síria (SDF) tenhem um grande número de árabes e outros grupos etno-religioso que se juntarom na libertaçom das cidades sob o control do ISIS, e os quais forom os responsáveis da libertaçom de Manbij.

Mas a história se repete novamente, entom pretensa guerra da Turquia sobre o ISIS na Síria com o nome de “Escudo do Eufrates”, é simplesmente umha tentativa mal disfarçada para atacar os curdos, como foi o caso no ano passado, quando em vez de atacar o ISIS atacou o PKK nas montanhas de Qandil no Curdistam do Sul. Naquela época, também os EUA tinham combinado com os curdos para o acesso à base militar de Incirlik (Adana). Mas agora as implicaçons geoestratégicas desta incursom na Síria som muito maiores do que o conflito turco-curdo. Aludindo a isto, o primeiro-ministro da Turquia, Binali Yildirim, afirmou que a invasom da Síria basea-se em “defender a integridade territorial da Síria” – mas o governo de Assad condenou fortemente a incursom como umha clara violaçom da sua soberania; pois reflete as aspiraçons crescentes da Turquia para a liderança e hegemonia regional.

A ascensom do neo-otonomanismo da Turquia foi apoiado pola absoluta incapacidade da Europa em lidar com o fluxo de pessoas na Europa, resultando, paradoxalmente, no fluxo de milheiros de milhons de euros cara Turquia para “parar os refugiados”. À vez, a Turquia respondeu transportando os refugiados de volta a território sírio, atirando, matando, e batendo nos refugiados na fronteira com a Síria. Ainda mais paradoxalmente, os EUA ajudarom e incitarom a Turquia na sua invasom e violaçom da integridade territorial da Síria e a entrada em Jarablus com apoio aéreo, apesar do feito de que a Turquia tem sido aliada com a filial de Al-Qaeda, Jabhat Fatah al-Sham (antes Al Nusra) e o ISIS na Síria e Turquia. A recente visita de Joe Biden e as declaraçons de começos desta semana em apoio da Turquia aludiu à presença da Turquia na Síria sendo umha idéia a longo prazo. A consequência resultante era umha invasom apoiada polos EUA de Jarablus, quando menos de umha semana antes os EUA estavam a fornecer apoio aéreo para a libertaçom de Manbij às SDF. Enquanto isso pode ser visto como umha mensagem clara dos EUA aos curdos, esta mudança de aliança também deve ser vista como um lembrete oportuno para que os curdos mantenham a integridade ideológica e militar e continuem nom alinhados com qualquer umha das partes em conflito.

A invasão do Jarablus é também um reflexo da recente reforço do poder político de Erdogan e o seu controle do país após a recente tentativa fracassada de golpe. Os EUA tem recompensado a Erdogan pola enorme purga de militares e civis que ocorreu e reafirmou o férreo control sobre o país, fornecendo cobertura aérea para a sua invasom da Síria. Os EUA estam alinhando-se claramente com a autocracia de Erdogan, talvez em umha tentativa equivocada de controlar a situaçom na Síria, evitando “soldados em território inimigo”, um erro que fjá cometeu na invasom do Iraque em 2003 e que lhe custou muito em diversas maneiras .

Mas os EUA está muito enganado se acredita que pode manter umha guerra delegada na Síria e controlar o regime cada vez mais inestável de Erdogan. O visível envolvimento de Iram, Arábia Saudita e os seus estados aliados menores complica mais a situaçom geopolítica. Do mesmo modo, a UE permanece completamente paralisada desenrolar umha abordagem coerente e concisa em relaçom à Turquia, nom só à luz da recente invasom, o tratamento cada vez mais abusivo dos refugiados na Turquia, mas também as violaçons dos direitos humanos contra as minorias, como os curdos, alevitas e outros, que estam ocorrendo na Turquia.

Em vez de conter a Turquia e apoiar continuamente aos curdos e as Forças Democráticas da Síria (SFD , nas suas siglas em inglês, umha combinaçom de árabes, curdos, armênios, assírios e outros grupos étnico-religiosos), na luita e rejeiçom do ISIS – algo que tenhem feito com sucesso- os EUA ea UE continuam a mostrar fraca vontade, escolhendo o que parece ser a  realpolitik sobre a política ética e democrática. No entanto, esta abordagem é questionável, considerando a ampla opiniom pública global e o feito inegável que, até à data, forom as forças mais bem sucedidas na eliminaçom do ISIS, mas também na criaçom de regions pacíficas, inclusivas e democráticas.

O que está claro é que os curdos estaram em um estado de guerra perpétua para os tempos vindouros, tanto se o conflito inclui a Turquia, o ISIS ou as suas outras filiais, a Assad, ou a todos simultaneamente. Parece que a situaçom de paz para os curdos passou a significar um estado perpétuo de resistência e auto-defesa. Mas se há umha cousa que o último ano tem demonstrado, é que os curdos som muito bons na arte da guerra e na auto-defesa. Sem mencionar que nos últimos anos o terrorismo de Estado e os abusos contra os curdos já nom podem permanecer ocultos, o que levou a umha condena crescente do terrorismo de Estado da Turquia e o apoio ao regime polos EUA e a UE. Isto, combinado com o suporte global visível para as forças curdas e as SDF na sua heróica resistência contra o ISIS asseguram um interesse internacional contínuo e a visibilidade da questom.

O que está claro é o próximo movimento na Turquia: a invasom e desestabilizaçom de Rojava com ataques contra o três cantons e “recuperar” o território para os seus aliados islamistas. A açom militar e estratégica mais difícil dos curdos ainda está por vir.

Hawzhin AzeezHawzhin Azeez tem um doutorado em Ciência Política e Relaçons Internacionais. Ela é defensora dos direitos das mulheres e dos refugiados. Está atualmente trabalhando na reconstruçom de Kobane através do Conselhode  Reconstruçom de  Kobane.

Publicado originalmente por Kurdish Question.

 

 

Por que a Turquia invade a Síria agora?

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Mapa da Situaçom da Síria a Junho do 2016

Por Mark Campbell

O objetivo da Turquia som os curdos nom o ISIS.

A drástica invasom das forças turcas em Jarablus é apenas a mais recente reviravolta dramática na guerra já complicada na Síria, mas por que a Turquia escolheu agora para fazer este calculado movimento?

Turquia di que o seu objetivo é atacar o ISIS e as forças curdas das YPG mas nom há provas suficientes de ataques ao ISIS.

O movimento vem curiosamente semanas depois da libertaçom da importante cidade estratégica de Manbij, ao sul de Jarablus do ISIS. As forças das SDF (Forças Democráticas Sírias) que incluem árabes sírios, luitarom fortes batalhas intensas com o ISIS pola cidade. Batalhas que virom as SDF perder mais de 400 luitadores.

A libertaçom de Manbij foi a última gota para a Turquia que vêem às forças curdas liberando faixas de território do ISIS e estabelecendo a sua própria forma de autonomia em conjunto com tribos árabes e comunidades étnicas do norte da Síria ao longo da fronteira da Turquia.

Umha rápida olhada no mapa acima mostra por que a Turquia está determinada a parar isso. Os curdos estam tentando juntar as duas áreas povoadas curdas marcadas em amarelo. (Ambos, Manbij e Jarablus estam na zona cinzenta, perto da fronteira com a Turquia entre as duas áreas curdas amarelas.) A Turquia quer parar com isso. Os curdos acreditam que a Turquia tem estado a apoiar o ISIS nos últimos 4 anos e juntando os cantons de Rojava interromperia o abastecimento do ISIS e a passagem dos seus combatentes provenientes da Turquia.

Por que a Turquia se importa tanto que os curdos liberem a sua própria terra do ISIS?

Um deles, como já foi dito, porque deteria o abastecimento do ISIS que os curdos acreditam que têm sido apoiado pola Turquia apesar dos desmentidos oficiais da Turquia.

Mas em segundo lugar, porque, desde o estabelecimento do Estado turco, a Turquia tem estado constantemente tentando assimilar à força os curdos e pacificar os seus sonhos de autogoverno. Umha regiom autônoma curda de Rojava, di Turquia, poderia motivar aos curdos no sudeste da Turquia para empurrar para a autonomia também. Mas curdos no sudeste da Turquia já estam empurrando para a autonomia e a Turquia está a realizar umha brutal guerra que inclue crimes de guerra contra civis. A incursom da Turquia em Jarablus só vai desestabilizar ainda mais a zona.

No dia depois da incursom de Jarablus, forças curdas na cidade curda de Cizre, no sudeste da Turquia, explodiu umha base do exército matando dúzias de soldados. Os confrontos armados entre o exército turco e combatentes curdos levam desde meados dos anos 90 meados e é notória a ‘Guerra Suja’ contra os curdos.

Assim, a incursom da Turquia em Jarablus e no Norte da Síria para atacar os curdos vai ter consequências graves e destabilizara a própria Turquia.

Nom há soluçom militar para aquilo que se tornou conhecido como “questom curda” mais guerra e sofrimento para os curdos nom é a resposta nem vai trazer a paz.

A pressom internacional sobre a Turquia é necessária urgentemente para suspender as operações militares contra os curdos e iniciar negociações políticas com os curdos para umha soluçom pacífica para a questom curda começando com um cessar-fogo em ambos os lados e umha retomada das negociaçons com o  lider curdo Abdullah Ocalan e o comando do PKK nas montanhas de Qandil.

No entanto, se a Turquia som autorizados a continuar a sua invasom de terras curdas na Síria a guerra está prestes a explodir e saltar sobre a fronteira para a Turquia.

E se isso acontecer, o ISIS seria o vencedor final.

As suas linhas de abastecimento permanecerám abertas e militantes do ISIS seram livres de viajar ao longo da fronteira da Turquia e daí para a Europa.

A aposta dificilmente poderia ser mais alta.

Publicado em Kurdish Question.

 

 

 

Por que nom devemos abandonar os curdos

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Celebraçom do Dia Internacional da Mulher, Qamishli, Rojava / Joey L (c)

Por Will TG Miller

Os curdos do norte da Síria sofrerom imensamente ao longo da história. Autóctonos da regiom nunca tiverom concedido qualquer nível significativo de autonomia ou auto-governo. Durante toda a existência da República Árabe da Síria, mantiverom o status de um dos grupos mais marginalizados, de acordo com Minority Rights International, e também forom sujeitas a níveis de detençom chocantes arbitrários, e tortura aprovados polo governo, e a apropriaçom ilegal dos seus bens.

Esta foi a pior sob o pan-arabismo durante o regime de Hafez al-Assad. Um relatório da Chatham House detalha a gravidade da situaçom; a língua curda foi proibida em público, e o seu uso, bem como a música e publicaçons curdas, eram estritamente ilegais. No entanto, pouco mudou, mesmo depois de que Assad herdasse o trono no 2000, em detrimento da minoria curda.

Isso fai que o recente ressurgimento dos curdos no quadro da mesma Síria, que reprimiu qualquer expressom de identidade curda, muito incrível. A regiom autônoma de Rojava veu a existir em 2013 conforme as milícias curdas regionais formadas após o Exército Árabe da Síria evacuaara rapidamente vastas áreas de território em face das bandas de terroristas islâmicos, bem como outras organizaçons mais importantes, como a FSA, Jabbhat Al Nursa, e o ISIS. As milícias curdas assumirom a infra-estrutura governamental e militar deixadas para trás quando os Assadistas evacuarom.

Rojava tivo pouco tempo para se alegrar na sua independência nominal da Síria, umha vez que foi imediatamente atacada de todas as direcçons. Os ataques de grupos terroristas dentro da Síria continuou, e as pessoas de Rojava encontrarom a sua determinaçom testada na longa e sangrenta batalha de Kobanî. A vitória improvável adquirida pola ala militar do governo de Rojava, as YPG, foi à custa de muitas vidas de civis mortos por carro-bomba e bombardeios indiscriminados polo ISIS. Apesar das perdas, a derrota do ISIS sublinhou a determinaçom dos curdos de Rojava para o mundo e mostrou que eles nom iam renunciar à sua independência há muito desejada tam facilmente.

Desde entom, no entanto, parece que, embora a situaçom tem a concluir só que a pior. Apesar do feito de que Salih Muslim, co-presidente do PYD, tem declarado repetidamente que o governo de Rojava nom busca a independência da Síria, e em vez disso procura manter o seu estatuto de umha regiom autónoma semelhante ao Curdistam iraquiano, o governo sírio tem efetivamente cortado os laços com a regiom e recusa a conceder-lhe ajuda militar, econômica ou qualquer outra. Isto é apesar das repetidas aberturas de Muslim para o governo sírio e declaraçons de apoio contra os grupos islâmicos que fazem umha guerra terrorista contra as duas entidades.

A partir da sua fronteira norte com a Turquia, Rojava está sob ataque constante. O governo turco afirmou a sua intençom de nom aceitar qualquer tipo de entidade autônoma curda dentro Síria, independente ou nom, e levarom a cabo ataques regulares de bombardeio contra alvos civis a fim de enfraquecer a vontade do povo curdo. Estes ataques intensificarom no início deste ano, à frente da força oficial de invasom, que entrou no Curdistam sírio em agosto.

Assim, o incipiente governo regional de Rojava encontrou-se luitando umha guerra em três frentes; contra o o ISIS, contra a Turquia, e às vezes até mesmo contra o governo sírio. Apesar das repetidas tentativas de umha paz significativa, este estado de hostilidades diretas tem visto pouca mudança nos últimos anos. Enquanto os EUA se envolveu em lançamentos aéreos esporádicos para ajudar a Rojava nos últimos dous anos, a sua assistência (e promessas de ajuda) tem sido evasiva e indecisa. A Rússia, por outro lado, tem-se revelado um aliado muito mais eficaz, permitindo às YPG chamar por ataques aéreos identificando posiçons, dando-lhe algumha superioridade aérea muito necessária na luita contra o ISIS e outros grupos terroristas.

No entanto, qualquer apoio dado pola Rússia – em outras palavras, qualquer apoio substancial -tem sido constantemente prejudicado por Ocidente em cada turno. O ex-secretário de Relaçons Exteriores britânico Philip Hammond dixo no início deste ano que estava “perturbado” com os relatos de ajuda russo para as forças curdas no norte da Síria, pouco antes dos britânicos juntaram-se aos americanos em chamar os russos para ‘sair’ da Síria. No entanto, eles nom fornecem nengumha alternativa eficaz, condenando a Rojava à extinçom nas maos de Turquia e o ISIS.

O comportamento dos Estados Unidos tem sido particularmente perturbador. Após a tentativa separatista de Kosovo nos Balcás, os EUA enviaram a sua força aérea para deixar cair umha quantidade surpreendente de bombas sobre a Sérvia, a fim de garantir a independência do estado incipiente. Assegurar os direitos humanos do povo do Kosovo e impedir o genocídio estavam entre as razons usadas para legitimar esta campanha. Diante disso, as açons norte-americanas na Síria som difíceis de racionalizar. Elas som inconsistentes, nom só com as suas decisons anteriores ao enfrentar circunstâncias similares, mas também com a ideia da América como umha naçom em busca de manter a ordem internacional, evitar o genocídio e os crimes contra a humanidade, e garantir a paz no mundo.

Os Estados Unidos e a Gram-Bretanha optarom por ver Rojava e de feito o povo curdo nom como qualquer outra naçom ou merecedor das liberdades fundamentais, os direitos humanos, e direito às normas mínimas de dignidade, mas em vez disso como peons em umha espécie retorcida de Grande Jogo que está sendo jogado por políticos de Washington contra a Rússia de Putin. Como peons, os curdos estam a ser utilizados quando é conveniente e descartados quando se tornam um inconveniente. E dada a resposta silenciosa dos EUA à invasom turca de Rojava no mês passado, parece ser o caso que o ‘inconveniente’ está aumentando.

Cada vez mais, as vozes de políticos ocidentais, grupos de reflexom e os chamados “analistas políticos” parecem estar a aumentar. A condenaçom das instituiçons de Rojava polos ocidentais é cada vez mais dura. Eles criticam a regiom autónoma por nom ser plenamente democrática, apesar do fato de que está envolvida em umha guerra com os adversários genocidas cujo objetivo é nom só a destruiçom da estrutura administrativa, mas também do povo curdo como um todo. Eles exigem que o governo cesse a sua política de recrutamento, ignorando o conflito existencial, e ao mesmo tempo nom oferecendo absolutamente nada em termos de umha alternativa.

Claro, algumhas críticas sobre o governo e as forças armadas de Rojava som legítimas. Há algumhas evidências que sugerem que aconteceu em algumha ocasioom o recrutamento de menores de 18 anos, apesar de ser ilegal sob as leis de Rojava. Há também razons para criticar a estrutura do governo e o domínio total do PYD à custa de outros partidos.

Mas essas críticas estam ultrapassando nas suas conclusons. Sugerem que, desde que existem problemas como esses, o Ocidente deveria abandonar os curdos sírios aos lobos.

A fazer isso seria desastroso. Nom só seria fortalecer o Estado Islâmico, a posiçom totalitária do governo Assad, mas também umha Turquia cada vez mais islâmista e autocrática. Isso representaria umha grave traiçom das promessas anteriores de apoio feita aos curdos, e, assim, fazer que os EUA a sofrer um golpe enorme ao seu prestígio internacional. Mas o mais importante, constituiria umha traiçom dos princípios que nos som tam caros; os dos direitos humanos universais, o direito internacional e o princípio da auto-determinaçom, conforme descrito na Carta da ONU.

Abandonando os curdos nom imos ganhar nada e reforçariamos os nossos inimigos. Devemos apoiá-los contra os nossos inimigos mútuos como a única pedra de estabilidade no turbulento Oriente Médio.

Will TG Miller é um analista político e ativista da causa curda. O seu trabalho incide sobre o Oriente Médio, Islamismo, e os direitos humanos.

Publicado em Kurdish Question.