“O PKK nunca permitirá a institucionalizaçom do fascismo de Erdogan-MHP na Turquia”

cemil-bayikEntrevista a Cemil Bayik, co-presidente do Conselho Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK)

O co-presidente do Conselho Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK), a organizaçom gardachuva do movimento curdo, Cemil Bayik, falou à ANF sobre os acontecimentos na Turquia, a aliança entre o AKP e o MHP, bem como umha possível operaçom transfronteiriça contra o PKK.

Bayik dixo que umha onda de fascismo estava varrendo a Turquia e que a prisom de parlamentares do Partido Democrático do Povo (HDP) era a última prova disso.

Eles estam fundindo nacionalismo e religiom

“Erdogan e Devlet Bahceli [líder ultra-nacionalista do MHP] uniram-se na Turquia e estam tentando institucionalizar o fascismo. Para fazer isso estam tentando remover todos os obstáculos no seu caminho.

“Se eles estam aprisionando deputados do HPD, bloqueando sedes do HDP para impedi-lo operar, aprisionando membros do HDP, apreendendo municípios no Curdistam através da nomeaçom de administradores, destruindo cidades, deslocando centos de milheiros de pessoas, abusando dos curdos, democratas e intelectuais, torturando presos, executando prisioneiros de Guerra, amarrando-os à parte de trás dos veículos e arrastando os seus cadáveres, expondo os corpos nus das mulheres mortas, permitindo que os animais “dizimem os cadáveres das pessoas que matarom; é porque querem institucionalizar o fascismo.

“Para conseguir isso, precisam silenciar os meios de comunicaçom, intelectuais e artistas. É por isso que eles fecharom as mídias da oposiçom e prenderom jornalistas. Eles querem impor a sua propaganda e fazer as pessoas acreditarem nela. Estam fundindo nacionalismo e religiom para formar as bases sociais para o fascismo. Todo o  mundo precisa estar ciente disso.”

Eles querem tomar a todos como reféns

Bayik continuou a afirmar que o governo e os seus aliados estavam realmente fracos e recorrendo a essas políticas por causa disso.

“Estam praticando umha guerra psicológica muito intensa. Eles estam muito fracos; é por isso que estam fechando associaçons, mídias e partidos e tentando silenciar a todos. Se fossem fortes, eles nom fariam isso.”

A luita intra-curda está a ser provocada

Bayik também observou que o governo e o MHP estavam tentando avançar os sistemas de guarda de aldeia e vigia na regiom curda da Turquia para fortalecer o que el chamou de “traiçom”.

“Eles querem organizar umha força traiçoeira que esteja em colaboraçom com eles e levá-los a atacar curdos. Desta forma, querem transformar a questom curda em umha questom intra-curda, em vez de um problema entre os curdos e o Estado.”

Umha luita alternativa precisa ser desenvolvida

O co-presidente do KCK dixo que o regime na Turquia entraria em colapso se os setores progressistas da sociedade se juntassem.

“Os jovens e as mulheres em particular tenhem um papel importante; intelectuais, artistas, escritores, acadêmicos, jornalistas e trabalhadores também. Alauitas, diferentes grupos nacionais e culturais e democratas sunitas também. Todos os que estam preocupados com este regime precisam de unir-se e formar umha aliança. Se o figeram, esse regime entraria em colapso. Este regime nom tem apoio internacional; o seu apoio interno é fraco. Eles estam tentando retratar-se como tendo um monte de apoio, mas isso nom é verdade.

“Eles tenhem medo de perder o poder, sendo aprisionados e julgados; É por isso que estam recorrendo a essas açons. Erdogan quer transformar o AKP no partido fundador do novo regime e el próprio no seu chefe. Isso significará repressom, prisom, tortura e afrontas para todos os povos e religions. É por isso que todos os círculos que estam contra a institucionalizaçom do fascismo fundado sobre a unificaçom do nacionalismo e a religiom precisam formar umha luita alternativa.

O estado de emergência nom tem legitimidade

Bayik também comentou sobre o estado de emergência na Turquia e dixo que estava sendo armado contra as pessoas.

“O governo usou a tentativa de golpe de Estado do 15 de julho como umha oportunidade para declarar o estado de emergência. Eles figeram isso para adicionar legitimidade às políticas que iriam implementar. Erdogan tem o estado de emergência militar. Está tentando enganar as forças internas e internas dessa maneira. O estado de emergência nom tem qualquer legitimidade.”

Os curdos nom vom cumprimentar o exército turco com flores

Bayık também mencionou declaraçons recentes das autoridades turcas que sugerem umha operaçom em áreas controladas polo PKK na regiom do Curdistam (KRG), ressaltando que Erdoğan nom seria capaz de derrotar o PKK apesar do provável apoio que receberia.

“Erdogan di que vai erradicar o PKK. Com isso, el está tentando fortalecer o nacionalismo, o chauvinismo e o fascismo na Turquia. El quere o genocídio dos curdos. Quere eliminar os círculos seculares, socialistas e democratas para construir um regime baseado no nacionalismo e na religiom. É por isso que Erdogan está a tentar demonizar o PKK e os curdos aos olhos da sociedade turca e da comunidade internacional.

“É claro que el quere erradicar o PKK, que sabe é a única maneira de perpetrar um genocídio curdo e institucionalizar o seu próprio regime fascista. Considera o PKK um grande obstáculo para este objetivo e ataca o PKK e qualquer pessoa relacionada a el com grande raiva. No entanto, Erdogan só trará a sua própria queda dessa maneira, assim como Hitler fixo.

“El nunca poderá erradicar o PKK. El nom é forte o suficiente para fazer isso, mesmo se usa todos os meios do estado e recebe o apoio de algumhas forças internacionais e regionais, e até de alguns curdos. O PKK é um movimento apoiado e formado por milhons de pessoas. Nom está composto apenas por um pequeno quadro, nem por um pequeno movimento de guerrilha. O PKK tem um lugar nos coraçons e mentes do povo curdo, democratas, patriotas e socialistas. O PKK é a esperança dos oprimidos, de todos os oprimidos fora da Turquia também. Se Erdoğan quer erradicar o PKK, terá de massacrar todos os curdos, todos os oprimidos, todos os intelectuais, democratas, escritores e artistas que simpatizam com el.

“Eles [as autoridades turcas] falarom recentemente em conduzir umha operaçom em Qandil (base do PKK). Deixe-os vir, se podem. O povo curdo nom vai cumprimentá-los com flores. A Turquia provavelmente experimentará a maior derrota da sua história.”

O PKK jamais permitirá que o fascismo se torne institucionalizado na Turquia

O co-presidente do Conselho Executivo do KCK, Cemil Bayik, encerrou a entrevista dizendo que nom poderia haver democracia, liberdade ou justiça ou um futuro seguro na Turquia a menos que o AKP e o MHP fossem eliminados.

“Se as pessoas querem garantir o seu futuro, devem luitar contra o fascismo de Erdogan-Bahceli. O PKK jamais permitirá que o fascismo se torne institucionalizado na Turquia. O PKK nom luita apenas para si e para os curdos, mas sim para a humanidade, a democracia e a justiça. Esta é umha luita por todos e haverá umha vitória definitiva se for apoiada por todos.”

Publicada em ANF – Ajansa Nûçeyan a Firatê e KurdishQuestion.

 

‘Erdogan vai seguir os passos de Saddam ou Hitler’: Entrevista a Zubeyir Aydar, líder político curdo

01-zubeyir-aydarPor Figen Gunes

“A maior mostra de solidariedade após a resistência de Kobanê em toda a Europa entre os curdos foi depois que os líderes e deputados do HDP foram presos na Turquia “, dixo Zubeyir Aydar, membro do Comité Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK),  organizaçom a que pertenze o Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK).

Zubeyir Aydar respondeu às perguntas de Figen Gunes sobre a ausência de protestos nas ruas na Turquia, bem como o apoio dos partidos do Governo Regional do Curdistam e as possibilidades de transformá-lo numha oportunidade para consolidar as relaçons nacionais entre os Curdos.

Figen Gunes: O povo do sudeste da Turquia sofreu umha grande destruiçom em todos os níveis desde o colapso do processo de paz. Depois de quase 200 civis terem sido queimados vivos em três sotos de Cizre, Sirnak, seria de esperar fortes protestos públicos. No entanto, nom houvo grandes manifestaços. Mas quando olhamos para a diáspora curda na Europa, especialmente na Alemanha, vemos umha  forte condenaçom do governo turco em grandes protestos de milheiros de pessoas enviando mensagens de apoio para às gente do sudeste da Turquia. Pode nos falar sobre essa dicotomia?

Zubeyir Aydar: Quando o estado está matando as pessoas nas ruas é difícil sacar as pessoas. Há milhons de pessoas em Bakur (norte do Kurdistan-sudeste da Turquia) que, de outra forma, estariam nas ruas protestando contra a opressom dos curdos. Sob as Leis de emergência, há actuaçons limitadas. Além disso, os líderes que organizariam estas mobilizaçons estam todos sob custódia ou presos.

Até 1992, grandes massas protestavam nas ruas. No entanto, quando eu fum a Sirnak no verao de 1992 como deputado da cidade, a gente mirava-nos de longe. Estavam com medo de aproximar-se-me devido à atmosfera no momento. Isso nom significava que eles estiveram contra minha ja que fum escolhido por eles. É porque o estado é muito experiente em como silenciar às pessoas.

As multitudess que vimos na Europa em protestos públicos tenhem as mesmas inclinaçons políticas com aqueles no Curdistam. Aqui na Europa, nom há nem toques de recolher nem limites aos protestos. Esta é a única razom pola qual nom vemos protestos em Diyarbakir, onde as pessoas sabem que pagariam com as suas vidas. Tendo dito que em Adana e Mersin, por exemplo, há menos pressom e as pessoas estavam criticando as decisons do governante AKP.

O Plano Colonialista de Reforma do Leste ainda está em vigor

F.G: Historicamente, o governo turco, que criaram um  espaço para conversaçons bilaterais com os líderes do PKK, classificariam mais tarde estas conversas como atos de traiçom. Pode nos dizer se o governo atual na Turquia tinha umha política para tratar os curdos de umha certa maneira desde o início ou estamos enfrentando umha liderança volátil sem planos concretos do governante AKP?

Z.A: O Plano de Reforma do Leste (Sark Islahat Plani), que chamamos de plano de genocídio, tem sido usado contra os curdos desde 1925. Este era o documento teórico detalhando como os curdos seriam erradicados. Nos últimos anos, a Turquia tentou abordar a questom curda sem recorrer à guerra, mas este discurso nom reconhecia a identidade curda. O governo turco mais umha vez nos últimos anos viu o PKK apenas como portador de armas; Eles pensavam que se o PKK desistisse das armas, a questom curda seria resolvida. Isto foi mencionado em todas as conversaçons, incluindo Oslo (2009) e Imrali [2013-2015] com o governo turco.

O governo nom apresentou um plano político para abordar a questom. Emre Taner, ex-funcionário do Serviço de Inteligência Turco (MIT), repetiu recentemente isso quando deu provas ao comitê de investigaçom do golpe. Taner foi o arquitecto das conversaçons de Oslo e admitiu que o governo turco nom ofereceu um roteiro aos curdos durante as conversaçons de Oslo para resolver a questom.

Além disso, o primeiro objectivo estabelecido no Plano de Reforma Oriental era a assimilaçom dos curdos residentes no Oeste do Eufrates. Portanto, quando o atual governo turco di que o oeste do Eufrates é a sua linha vermelha, isso nom deve ser visto como umha coincidência. Esta fronteira de feito vem deste documento histórico. O governo pensa que se os curdos atravessaram ao oeste do Eufrates em Rojava, também o fariam no Iraque.

Declaraçom de Dolmabahce

F.G: Os curdos forom capazes de negociar um acordo com o atual governo em fevereiro de 2015. Por que entom a Declaraçom de Dolmabahce foi desfeita? 

Z.A: O atual período de guerra veu depois do estado profundo na Turquia: Ergenekon e Gulenistas estenderam a cabeça e questionaram a Declaraçom de Dolmabahce. Esta declaraçom tinha o potencial de resolver a questom curda através de dez pontos práticos. Contudo, estas forças do estado profundo digeram-lhe a Erdogan, “Vostede é o que senta no palácio mas esta declaraçom deve ser bloqueado”. Esta era inerentemente umha decisom de guerra. Queriam buscar umha resoluçom nas negociaçons de paz, ou luitar. No verao, logo da Declaraçom de Dolmabahce ter sido abandonada por Erdogan, o conflito retomou. Agora, mesmo as associaçons curdas estam sendo fechadas. Nom apenas isso, os conselhos locais eleitos e administrados polos curdos estam sendo apreendidos e substituídos por administradores designados polo governo. A prisom dos 10 deputados do HDP é também umha parte deste período de conflito. Nom reconheceremos os guardians designados. No entanto, as declaraçons para o auto-governo curdo nom estam na nossa agenda para o futuro próximo porque o povo nem sequer é capaz de respirar e mover-se livremente.

Ajoelhar-se ou morrer

F.G: Forom abordados polo governo turco para iniciar umha nova fase de negociaçons após a mesa da negociaçom ter sido derrubada.

Z.A: Nom. Nós, como Movimento de Libertaçom do Curdistam somos confrontados com a destruiçom total porque o governo di isso: ou ajoelhar-se ou morrer. Nom nos inclinaremos, portanto estamos sendo atacados. Primeiro, a Turquia apoiou o Daesh (Estado Islâmico) para bloquear os ganhos dos curdos na Síria, e entom entrou el mesmo com o mesmo objetivo. A nossa estratégia é defender-nos em Rojava e Turquia com as armas. O presidente Recep Tayyip Erdogan é um ditador e por esta razom estaremos trabalhando para construir umha frente pola democracia ao lado de outras vozes da oposiçom na Turquia.

Outra prioridade para nós é concentrar-nos com a diplomacia, neste momento particular. Vamos expor os erros da Turquia, especificamente da OTAN e a UE. Nom Imos ajoelhar, mas resistiremos e isso precisa ser explicado ao mundo inteiro.

O objetivo dos curdos umha nova aliança

F.G: A Turquia atravessa um período extraordinário. Como é que o partido no poder preenche os cargos vacios polas grandes purgas? Quem som os novos sócios do Estado?

Z.A: Erdogan formou umha nova aliança com o Ergenekon. Ironicamente, os Gulenistas e Erdogan luitaram juntos contra esta força na última década e aprisionou-nos. No entanto, agora, Erdogan tem umha aliança inversa em vigor. O primeiro objetivo desta aliança é a consolidaçom do governo de Erdogan. A segunda é a eliminaçom total dos gulenistas nas posiçons governamentais. Sob esta nova aliança o objectivo comum de luitar também os curdos.

Erdogan nom descera do seu palácio normalmente; El vai ser preso ou morrer, seguindo os passos de Hitler ou Saddam, que el tentou imitar com as suas políticas expansionistas e opressivas na Turquia e no Oriente Médio em geral. A UE e os Estados Unidos nom estam satisfeitos com esta orientaçom. Eles nom querem umha Turquia instável. Apesar de estar infelizes, ainda nom querem impor sançons contra a Turquia, o que deveria ter sido feito rapidamente.

Os grupos paramilitares de Erdogan

F.G: Como pode esta nova aliança sobreviver em meio disses inimigos?

Z.A: Erdogan tem trabalhado na criaçom dos seus próprios grupos paramilitares. Historicamente, o partido político nacionalista MHP foi dado a esta tarefa e criou os Lobos Cinzentos para usa-los em favor do governo. Mas agora, as Unidades Otomanas (Osmanli Ocaklari) forom formadas e estam sob as ordens diretas do governo e operam como parte das unidades especiais no serviço secreto. No ano passado, houvo uma onda de ataques ao HDP. Este foi trabalho das Unidades Otomanas. Os alemaes alertaram-nos sobre a sua grande existência na Alemanha. Acreditamos que estam organizados em toda a Europa. As informaçons da Alemanha reveladas sobre eles devem ser tidas em conta e tomar medidas.

Unidade Curda

F.G: Alguns pensam que a personalidade alegre e adorável de Selahattin Demirtas pode desempenhar um papel em reunir outras seçons do movimento curdo; Vostede está esperançoso na unidade entre os curdos, especialmente depois que os líderes do HDP foram presos?

Z.A: As prisons dos líderes do HDP criaram umha reaçom entre outros líderes curdos. No entanto, eu encontrei a reaçom do KDP macia. Os problemas atuais nom podem ser resolvidos através da opressom; A liderança do KDP nom condenou as açons da Turquia. Dito isto, outros partidos curdos nas quatro partes do Curdistam mostraram a sua condenaçom da Turquia, o que é importante. Os desenvolvimentos em Mosul e Rojava criam ainda a necessidade de unifidade entre os curdos. Estamos prontos para um diálogo mais desenvolvido; No entanto, é difícil prever se isso levaria a quaisquer ganhos sob a forma de cooperaçom sólida a curto prazo.

Diferenças históricas

F.G: O PKK está perdendo força depois dos recentes ataques?

Z.A: Os curdos gozavam de autonomia sob o domínio otomano desde o início dos anos 1500 até o início do século XIX. Quando isso mudou, começarom os motins contra os otomanos. O primeiro motim foi em 1806 em Sulaymaniah. Desde entom, 210 anos passarom, mas há umha série de revoltas. O ex-presidente da Turquia, Suleyman Demirel, dixo umha vez que o PKK era a 29ª revolta curda, no entanto, de acordo com os documentos do Comandante Geral turco, o PKK é o 39º movimento curdo desde o início do Império Otomano. A diferença é que a existência do levante do PKK é a mais longa do que o total de todas aquelas que forom anteriormente. Os movimentos do passado eram locais e fracos e, portanto, forom suprimidos em um curto espaço de tempo. No entanto, o PKK tem crescido continuamente nos últimos 33 anos.

Na Turquia, os governos venhem e vam e cada um promete erradicar o PKK, mas nom foi esse o caso. Nos anos 90, tínhamos um grupo parlamentar curdo, mas agora, apesar de alguns terem sido presos, temos um grupo muito mais forte. Temos também mais municípios administrados polos curdos e o reconhecimento internacional de Rojava, que nom existia no passado. Mais umha vez na década de 1990, houvo Saddam no Iraque e o Governo Regional do Curdistam era fraco. A OTAN era um partidário proeminente da Turquia. Mas nos últimos anos, a UE e as relaçons da OTAN com a Turquia tenhem azedado. Os curdos também pagarom um preço durante este período, mas imos sair mais fortes. A operaçom de Raqqa ajudará os curdos a ganhar mais reconhecimento.

Trump no Oriente Médio

F.G: Trump vai ser um bom amigo para os curdos? Qual é a sua previsom, dado o seu populismo no período das eleiçons?

Z.A: É difícil prever, como el era um homem de negócios no passado. Nom tem experiência política. Foi eleito presidente, mas um home nom pode mudar o modelo de política da América sozinho. A sua política externa e prática nom muda com um home. Além disso Trump nom está claro sobre como vai implementar as suas políticas. Queremos que a América seja mediadora nas negociaçons de paz e entenda que a política opressiva da Turquia contra os curdos nom pode durar mais tempo.

03-figen-gunesFigen Gunes é umha jornalista de Al Jazeera Inglês com foco na liberdade de expressom, a mudança de propriedade dos mídia e julgamentos de jornalistas na Turquia. Formada em mestrado em Relaçons Internacionais, escreveu a sua tese sobre a viabilidade futura de Rojava.

Publicado em Kurdishquestion.

Acreditar ser um curdo-turco é um engano

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Bandeira do PKK flanqueada pola bandeira Turquia que está cobrindo a bandeira do HDP

Nesta entrevista em profundidade feita por Robert Leonard Corda, Saladdin Ahmed, professor assistente de Filosofia na Mardin Artuklu fala sobre identidade curda, política, religiom, democracia e a situaçom atual na que se encontram os curdos no Oriente Médio.

Robert Leonard Corda (RLR): Descreva resumidamente a sua experiência. Chama-se Saladdin por Saladin, o Grande? Como foi ensinar em umha universidade da Turquia?

Saladdin Ahmed (SA): Eu nunca sei como responder a perguntas sobre o meu passado, principalmente porque a minha identidade sempre foi modelada ao redor de negaçons em vez da promoçom de um determinado conhecimento. Eu nom diria que tenho umha crise de identidade, mas eu diria que a identidade, polo menos no mundo de hoje, é em si umha crise.

Quando ser curdo é visto como algo a ser renunciado, som curdo, nom há dúvida sobre isso. No momento em que que se torna a identidade do governante, só podo estar em oposiçom a ela com os oprimidos. Quer dizer, eu som curdo na medida em que a curdonidade é umha negaçom da opressom. A primeira vez que eu estava em um lugar onde ser curdo era equivalente a ser privilegiado, em 2013, eu encontrei-me em umha grave crise moral, entom comecei a construir laços com as minorias nom-curdas e nom-muçulmanas.

Antes que eu percebesse, criticar o nacionalismo curdo eo Islam tornaram-se as minhas principais atividades intelectuais até que eu deixei o Curdistam iraquiano.

Para lhe dar umha resposta comum, eu nascim em umha família curda em Kirkuk, Iraque, e meu nome era originalmente Sherzad. No entanto, com medo de que um nome tam nitidamente curdo poderia atrair umha investigaçom minuciosa do governo iraquiano, meu pai mudou o meu nome para Saladdin – um nome árabe com conotaçons curdas. Embora o meu mesmo nome é, de umha forma indireta, o do líder curdo Saladdin Ayubi, eu deveria afirmar claramente que, tanto quanto eu me interessei, “Saladdin o Grande” nom era nengum herói, mas sim um notório assassino como tantos outros que vinheeram antes e depois del.

Como umha criança curda, eu crescim em Kirkuk durante o regime do pensamento Baath e era um erro existencial, mas eu gostava de ser um erro. Eu ainda gosto de ser um erro.

Quanto à minha experiência no ensino, na Turquia, a situaçom quando cheguei no outono de 2014 era algo sem precedentes. Por primeira vez em quatro décadas, a regiom curda do país estava desfrutando de umha relativa paz que deu origem a um movimento cultural e intelectual impressionante. Estamos a falar de umha regiom que tem estado tam oprimida que mesmo umha dança curda tradicional é considerada um ato político. O alunado principalmente curdo estava muito envolvido na vida pública dentro e fora da universidade. Foi, em suma, um momento emocionante estar em Mardin.

Infelizmente, o meu tempo ensinando em Mardin Artuklu Universidade foi abreviada. Um par de meses depois da minha chegada do Canadá, o reitor liberal foi deposto e substituído por um islamista apoiado por Erdogan. Logo, foi formalmente nomeado por Erdogan, o novo reitor começou umha campanha para erradicar aos nom-islâmicos da administraçom da universidade. Vários meses depois, el suspendeu unilateralmente o meu contrato e os contratos de 12 professores mais, os quais eram estrangeiros. Para piorar as cousas, a guerra também retomou a regiom curda e com ela veu a opressom violenta dos jovens, vastas operaçons militares, prisons em massa, e assim por diante. O que Erdogan tem feito às universidades turcas em Istambul e Ancara durante as semanas desde o golpe fracassado do 15 de julho de 2016 começou há um ano no sudeste [Curdistam sob administraçom turca].

RLR: Temos estado todos especulando sobre o recente golpe de Estado ao longo das últimas semanas – foi real? Quem estava realmente por trás disso? Como foi Erdogan beneficiado? Será que algum dia conheceremos a verdade completa?

SA: Sim, eu acho que foi umha tentativa de golpe real, mas o fato de que houvera especulaçons de que Erdogan escenificou  o golpe di-nos muito sobre a falta de credibilidade do governo.

Penso que os kemalistas no exército forom a principal força por trás do golpe, e é possível que Gulenistas também se juntaram a eles, sentindo mais de um que a repressom era iminente. Claro, Erdogan nom podia culpar abertamente as forças kemalistas porque o kemalismo continua a ser extremamente popular entre os turcos, funcionando mais ou menos como sinônimo de patriotismo e nacionalismo turco. Assim Gulen, o rival islâmico populista com residência em Filadélfia desde 2004, era o melhor candidato para representar “o inimigo”. Se bem se lembram, quando Erdogan deu o seu primeiro discurso na noite do golpe, algumhas horas após a entrevista na CNN Turca, um enorme retrato de Mustafa Kemal Ataturk foi colocado atrás del. A mensagem, na minha opiniom, era clara: O kemalismo nom é o inimigo.

Para voltar à questom da credibilidade, as pessoas tenhem todos os motivos para desconfiar do regime de Erdogan. Para muitas pessoas na Turquia, tornou-se rotina excluir o cenário, o governo pretende ser a verdade desde o reino das possibilidades.

Em junho de 2014, quando o ISIS tomou o control de Mosul, o governo turco afirmou que o ISIS tomou 49 pessoas do Consulado turco em Mosul como reféns. Na noite da invasom do ISIS de Mosul, fugindo as autoridades iraquianas alertaram o pessoal do consulado e aconselhou-os a deixar a cidade, mas nom o figeram. Durante três meses, a Turquia usou “os reféns” como umha desculpa para nom se juntar à coalizom contra o ISIS. Em contraste com o destino dos outros reféns do ISIS, o ISIS finalmente libertou aos 49 reféns, apesar do feito de que a Turquia nom teria feito nengum pagamento de resgate.

Notavelmente, a própria narrativa do governo turco sobre a libertaçom dos reféns era conflitante, com o único detalhe consistente que era que a Organizaçom Nacional de Inteligência da Turquia (MIT) lidou com a situaçom. Desde o início, a história inteira em torno do cenário era pouco pública. Por exemplo, as pessoas eram esperadas para acreditar que o cônsul-geral conseguiu esconder o seu telefone móvel e usá-lo para fornecer atualizaçons regulares para Ankara ao longo de três meses. Para quem tem acompanhado relatórios sobre a situaçom dos reféns em poder do ISIS, é claro que esta história também era nada mais do que umha invençom destina a promover os objetivos políticos de Erdogan.

Dado todo o que a gente em Turquia e os observadores internacionais já sabem do governo turco, das suas forças armadas e o MIT, nom é surpreendente que a narrativa do governo sobre o fracasado golpe nom fôsse creida.

Som inúmeras as histórias sobre conspiraçons políticas do regime. Por exemplo, em umha reuniom de 2014 entre Ahmet Davutoglu eo chefe do MIT, Hakan Fidan, umha idéia para começar umha guerra com a Síria foi discutida. Com base em umha sugestom de Erdogan, Fidan desenvolveu um plano polo qual o MIT iria organizar um ataque de mísseis contra a Turquia, desde a Síria, dando a Ankara umha desculpa para entrar em umha guerra com a Síria. Umha gravaçom de áudio da reuniom foi divulgada e publicada no YouTube, o que levou o governo turco a lançar um dos seus bloqueios periódicas do site para controlar o fluxo de informaçons.

À luz dos acontecimentos passados, como isso, é possível que o MIT tinha algum conhecimento prévio do golpe de 15 de julho, mas permitiu que isso acontecesse, a fim de criar a oportunidade para as purgas de Erdogan? Talvez, mas o ponto é que os povos, compreensivelmente, nom acreditam a narrativa de um regime nom democrático. De qualquer forma, o que é certo é que Erdogan explorou o fracassado golpe para acabar com deslealdades reais e potenciais no exército, polícia, e no sistema judiciário e educacional.

RLR: Como sabe, existe actualmente um estado de emergência na Turquia – milheiros forom presos, muitos professores e jornalistas por nom mencionar os membros das forças armadas – e há muitas denúncias de tortura. Qual é a sua perspectiva sobre isso: como tudo vai acabar?

SA: Eu acho que os próximos anos na Turquia será umha era de terror. Esta purga vai levar a um colapso completo da confiança já frágil entre os diferentes setores das forças armadas e o MIT. Aqueles em posiçons de poder cada vez mais tentam utilizar o clima de medo e a falta de transparência para se livrar dos rivais.

Como tal, penso que as denúncias de assassinatos e tortura só se tornarám mais comuns. O exército da Turquia sempre foi considerado como o guardiam do Estado, mas agora vai ser forçado a submeter-se ao governo, e isso nom vai acontecer sem problemas.

As tramas de conspiraçom só se tornará mais complicadas e sutis. À medida que a situaçom se agrava, o regime vai atrair cada vez mais islamitas, anti-intelectuais e pessoas que só sabem ganhar a vida vigiando aos outros.

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Saladdin Ahmed

RLR: Qual é a sua opiniom da “democracia turca”? Existiu mesmo umha coisa assim? Será que Erdogan primeiro alimentá-la, e em seguida, destruí-na? Será que as pessoas nom querem a democracia de estilo ocidental? Democracia versus teocracia?

SA: Eu nom acho que tenha existido umha “democracia turca”. Sim, houvo eleiçons, mas até mesmo países como Iram e Paquistam regularmente realizam eleiçons. Há também um parlamento em Ancara, mas é um Parlamento que simboliza a rejeiçom turca da pluralidade.

Deixe-me ser mais precisos e dizer que sempre houvo duas Turquias: a ocidental e a oriental. No oeste da Turquia, estendendo-se desde Istambul, a Izmir, Antalya, Ankara, e Adana, umha sorte europeia da cotidianidade era relativamente viável, polo menos, para as estimativas de um turista típico. Concedido, isso está mudando agora, razom pola qual a actual situaçom na Turquia tem atraído tanto interesse internacional.

Mas o leste da Turquia sempre estivo sob regime militar. Desde Istambul, a brutalidade da vida no leste do país é inimaginável. Milheiros de jovens curdos desaparecerom em operaçons militares turcas ao longo dos anos 1980 e 1990. A visom de tanques e veículos blindados em praças da cidade ou bairros em itinerância, militares e postos de control da polícia entre e dentro das cidades, enormes bases militares nos centros urbanos, e milheiros de aldeias completamente destruídas é a outra face da Turquia. Se um se permite ver essa outra cara, a noçom de “democracia turca” deveria parecer nada mais do que um absurdo.

Os movimentos islâmicos, como a Irmandade Muçulmana ou o partido AK, muitas vezes utilizam os meios democráticos para alcançar os seus fins islâmicos, que som essencialmente anti-democráticos, anti-pluralistas, anti-individualistas, e violentos. Erdogan é um típico demagogo islâmico pragmático que fingiu ser pró-democracia e contra a violência até que el ganhou poder suficiente. El agora está revelando gradualmente as suas verdadeiras crenças. Islamitas nas que acreditam que jogar qualquer truques possíveis e enganar o povo em prol de empoderar o Islam é completamente legítimo. Eles poderiam-se comportar como as pessoas mais tolerantes e pacíficas, mas isso é apenas a fim de ganhar o apoio e, assim, ganhar o poder. No momento em que eles tenhem poder suficiente, espalhar o Islam pola espada torna-se o método preferido simplesmente porque tanto a vida de Maomé e a do Alcoram refletem diretamente essa dualidade pragmática essencial: a paz quando é a única opçom, e a violência quando é umha opçom eficaz.

Para colocar isso de forma muito clara, nom existe um islamita moderado; existem radicais e islâmicos esperando-a-ser-abertamente radicais. Erdogan estivo pacientemente seguindo o caminho ao poder, e o pior ainda está por vir. Além disso, nom nos imos enganar a nós mesmos, se umha força política quer ser democrática, será democrática, nom islâmica.

A sociedade na Turquia, como em qualquer outro lugar, é extremamente complexa, com diversas forças sociais e políticas em desenvolvimento competindo, chocando-se, e assim por diante. Apesar do aumento aterrorizante do islamismo e a história de 100 anos de fascismo kemalista na Turquia, há uma forte tradiçom de movimentos progressistas no país. A democracia liberal nom tem raízes fortes na Turquia, e a dualidade principal nom é a democracia contra a teocracia. Antes a teocracia nos anos 2000 nom era vista como umha possibilidade, mas o país era sem dúvida nom menos antidemocrático.

Como todos sabemos, o secularismo nom é condiçom suficiente para a democracia em todo o mundo. O fascismo pode muito bem ser, e tem sido, historicamente, secular. Turquia tem sido governado polo fascismo kemalista, e agora está caminhando para o fascismo islamista. Ao longo dos últimos dous anos, Erdogan tem umha na longa história de ódio contra o outro na Turquia para apelar a ambos os ultra-nacionalistas e islamitas. Assim, o discurso de umha naçom, um país, um Deus, umha bandeira, um idioma já está crescendo novamente.

RLR:  Como poderíamos no Ocidente pressionar com sucesso a Erdogan e os seus seguidores para restaurar e defender os direitos humanos e o Estado de direito na Turquia?

SA: Os direitos humanos nom podem ser “restabelecidos”, porque nunca forom respeitados em primeiro lugar. Talvez o turismo pode ser recuperado, mas os direitos humanos som algo polo qual todos devemos luitar coletivamente.

Erdogan está a pressionar o Ocidente, e nom vice-versa. Polo que podo ver, Erdogan vai continuar a usar refugiados sírios e iraquianos para chantagear aos políticos europeus, todo continuando a consolidar o seu poder em todo o mundo sunita ao tempo. Como el trabalha para eliminar a oposiçom regional a sua visom de um império islâmico em 2023, devemos esperar mais guerras desastrosas no Oriente Médio, o que resultará em muitos mais refugiados que tentam escapar para a Europa. A Europa nom será capaz de manter a crise fora das suas fronteiras, baseando-se em um guardiam que el próprio é o principal instigador do problema. Vamos enfrentá-lo: o ISIS só tem sido capaz de sobreviver com o fluxo de jihadis, armas, muniçons, e dinheiro através da Turquia.

A ideia de que o chamado regime islâmico moderado em Ancara pode ser usado contra a propagaçom do chamado islamismo radical é talvez a estratégia mais inútil que se poda imaginar. Em vez disso, os chamados moderados continuarám desempenhando tanto no Ocidente como os radicais islâmicos contra o outro. Eles vam continuar a usar ambos os lados para fortalecer ainda mais a si mesmos, ganhando ainda mais força e crescendo cada vez mais radicais.

Turquia aprendeu a maneira saudita de jogar este jogo. Os sauditas som os principais financiadores dos movimentos islâmicos, mas, ao mesmo tempo eles dam aos “aliados” ocidentais informaçons de inteligência apenas o suficiente sobre os movimentos jihadistas e enredos para manter a aparência de cooperaçom. Turquia tem vindo a fazer o mesmo na guerra contra o ISIS. Ambos, o ISIS e o Ocidente tornarom dependentes da Turquia na sua guerra contra o outro; enquanto a Turquia fai o mínimo para satisfazer os seus aliados ocidentais, ao mesmo tempo, el garante que o ISIS nom vai cair. O que pode ser feito agora? O regime de Erdogan deve ser tratados da maneira que deveria Hitler ter sido tratado nos anos anteriores a 1939. Claro, nada na história acontece duas vezes exactamente da mesma forma, mas todos os sinais de um império fascista baseado na rejeiçom violenta da diversidade já estam lá.

RLR: Com relaçom ao ISIS, como achas que esse movimento bárbaro deveria ser destruído?

SA: ISIS fai o trabalho sujo para a Turquia e, em troca, Turquia atua como umha rota de abastecimento para o ISIS, além de prestar assistência directa. Enquanto a Turquia tem permisso para continuar dessa maneira, mesmo se o ISIS é destruído, dúzias de outras forças islâmicas continuarám a prosperar na Síria. Eu acho que Erdogan vai continuar a apoiar os islamistas na Síria até que el nom precise mais deles. Naturalmente, as cousas nom vam todas como el deseja. Com cada dia que passa a Turquia torna-se cada vez mais como a Síria em termos de polarizaçom da sociedade, que poderia muito bem levar à eventual erupçom da guerra civil.

A única pior fóbia da Turquia é o chamado “problema curdo”. Erdogan tem vindo a apoiar o ISIS, Jabhat al-Nusra, que recentemente mudou o nome a Jabhat Fatah al-Sham, e inúmeros outros movimentos islamistas principalmente para evitar que os curdos sírios controlem regions do norte da Síria ao longo da fronteira com a Turquia.

Quando se tornou claro que o ISIS nom podia parar as forças curdas depois da guerra de Kobane, Turquia diretamente interveu para evitar que os curdos expulsaram o ISIS dos últimos 100 km de faixa ao longo da fronteira com a Turquia. Ankara instou repetidamente à área umha “linha vermelha” que os curdos nom podiam atravessar. Assim, a área de Jarablus está essencialmente sob controlo do ISIS e protegido pola Turquia.

Erdogan também vem contando com o ISIS para conter a ameaça curda percebida dentro da Turquia. O ISIS tem realizado vários ataques contra objetivos curdos no último ano. Na massacre de Suruç o 20 de julho de 2015, 32 estudantes curdos e turcos que estavam em caminho para Kobane para ajudar a reconstruí-lo forom assassinados em um atentado suicida realizado polo ISIS. Cerca de seis semanas antes, o 5 de junho, houvo outro atentado do ISIS durante umha reuniom eleitoral curda em Diyarbakir que matou quatro pessoas. O 10 de Outubro, de 2015, um atentado do ISIS matou mais de 100 civis e feriu mais de 500 pessoas durante umha marcha pola paz em Ancara organizada polo pró-curdo Partido Democrático do Povo (HDP) e vários sindicatos.

O regime de Erdogan é o aliado ideológico e estratégico dos movimentos sunitas em toda a regiom, e há muitos deles. o ISIS tem atraído mais atençom por causa da quantidade de território que controlam e a sua produçom dos mídia. Acho que o ISIS vai perder a maior parte dos seus territórios talvez dentro de um par de anos, mas o perigo do islamismo está longe de terminar.

A chamada oposiçom islamista na Síria difere muito pouco do ISIS. Erdogan, Arábia Saudita e Qatar têm vindo a apoiar abertamente as forças islamistas, incluindo Fatah al-Sham. Na verdade, os EUA tem estado envolvido em armar muitos desses grupos também, incluindo um que recentemente decapitou um menino de 10 anos de idade.

RLR: Existe algumha maneira significante na que podemos ajudar a  aqueles atualmente encerrados em prisons turcas?

SA: A forma significativa para ajudar as vítimas de qualquer regime despótico é o primeiro, nom apoiar esse regime, quer através da venda de armas ou visitar o país por turismo. Eu acho que o Ocidente tem de libertar-se do ciclo de apoiar os islamistas para livrar-se de ditadores indesejáveis, como Qadafi e Al-Assad, e apoiar regimes militares para depor os islamistas.

É um ciclo mortal no Oriente Médio e a Turquia nom é excepçom. A longa história de opressom na Turquia deu legitimidade popular a Erdogan, e el está-se tornando um ditador opressivo. Nom é que considere que umha terceira opçom democrática nom exista, mas onde e quando o fascismo é relativamente popular, as forças democráticas som fracas precisamente por serem inerentemente contra a violência, o que os impede parar o fascismo.

Na Turquia, há um movimento progressista que está contra o fascismo nacionalista e o fascismo islamista. É um movimento democrático, laico, pluralista, multiétnico e feminista liderado polo HDP. Durante as semanas que antecederom ao golpe de julho o partido AK de Erdogan defendeu umha lei que dá imunidade contra a perseguiçom jurídica aos soldados, a fim de permitir que as forças armadas matem mais livremente na regiom curda. O partido também avançou mais um projeto de lei que retira aos deputados da sua imunidade, principalmente para atingir os deputados do HDP. O HDP é a última esperança na Turquia; se o regime de Erdogan consegue silenciar os seus líderes e ativistas seja por meio de prisom ou outros meios opressivos, a Turquia se tornar um caso de livro de ditadura.

RLR: Os curdos na Turquia tenhem umha longa e atormentada história. Por um tempo houvo um cessar-fogo com o PKK e as negociaçons com o governo. Recentemente, o HDP tem estado na defensiva, e centos de civis curdos forom mortos polas forças governamentais, pré-golpe. Vai Erdogan retomar a sua guerra contra os curdos?

SA: Erdogan nom demonstrou qualquer intençom de retomar o processo de paz. Agora está em umha aliança com os ultranacionalistas, e para sustentar essa aliança el vai manter a guerra contra os curdos. Retomou a guerra em primeiro lugar para apelar aos ultranacionalistas que som inflexiveis contra qualquer reconhecimento dos direitos curdos.

É difícil imaginar um momento em que a Turquia vai concordar em retomar o processo de paz com os curdos, mas acho que o casamento entre Ancara e o ISIS vai desmoronar mais cedo ou mais tarde. Quando isso aconteça, Ankara provavelmente irá fazer um acordo com os curdos. Historicamente, os curdos estam prontos para aceitar qualquer oferta de paz, mas eles nunca tiverom poder suficiente para impor a paz na Turquia.

Mesmo que o Ocidente agora usa os curdos para conter a ascensom do ISIS, há muito pouca cobertura da mídia internacional da brutal repressom dos curdos na Turquia. Também, porque Erdogan está essencialmente chantageando a UE com a questom dos refugiados, ameaçando abrir as portas da Europa aos refugiados sírios, a UE nom se atreve a criticar a Turquia sobre as violaçons dos direitos humanos no Curdistam.

Na Turquia, nom há pressom suficiente sobre o governo para iniciar um processo de paz também. É bastante irônico que, por um lado, os curdos som alienados diariamente, tanto através da violência do Estado e a falta de solidariedade popular suficiente, enquanto que, por outro lado, eles som acusados de nom ter um forte sentido de pertença à Turquia . O único cenário em que Ankara entraria em um processo de paz é, portanto, se e quando a própria Turquia esteja em umha grave crise.

A questom curda é extremamente complicada na Turquia. É umha questom de 100 anos de negaçom, humilhaçom, assimilaçom forçada, e engenharia social. Enquanto estivem na Turquia, diariamente eu testemunhei as consequências dolorosas da política colonial turca. Um dia eu estava montando no microônibus para a universidade quando duas crianças pequenas, juntamente com sua mae e avó entrou no ônibus. O avó falou em curdo com a mae, mas a mae falou em turco aos seus filhos. Presumo que o avó ou nom sabia turco ou sentiu estranho falar com sua filha em umha língua estrangeira. Presumo também que as crianças nom sabiam curdo, como tantas crianças curdas que forom Turkificadas polo Estado. Quando o ônibus continuou, umha das crianças começou a cantar umha música triste em curdo ao olhar para fora da janela. Em um momento ordinário assim, podia-se ver a repressom que atravessa geraçons.

RLR: Como livre – e como restrito – estam as mulheres na Turquia de hoje? As mulheres curdas e as mulheres turcas?

SA: O kemalismo ajudou as mulheres turcas a ganhar muitas das suas liberdades individuais, mas isso está mudando sob o governo islamista de Erdogan. Erdogan deixou claro em várias ocasions que el nom acredita que homes e mulheres sejam iguais. El sempre incentivou às famílias turcas a ter mais filhos e exortou as mulheres a fazer a educaçom dos filhos a sua principal prioridade.

Em umha mudança interessante, muitas feministas turcas agora tomam inspiraçom do movimento feminista curdo. Historicamente, a regiom curda tem sido mais conservadora em termos de direitos das mulheres, que estava agravada polas condiçons políticas e económicas opressivas impostas à regiom curda.

No entanto, o empoderamento das mulheres é um dos pilares do movimento de libertaçom curdo de hoje. O líder preso do PKK, Ocalan, dixo a famosa frase, “Matar o macho”, que agora é o lema da academia para mulheres em Rojava (Curdistam sírio). É claro, a declaraçom é usada metaforicamente, mas marca umha mudança poderosa na consciência. Combatentes curdos na Turquia e na Síria passam por cursos de feminismo radical para desaprender o sistema de valores patriarcal. Além disso, esse mesmo movimento fixo o sistema igualitário de género de co-presidência em todas as posiçons de governo umha regra universal na política curda na Turquia e Síria.

Municípios, partidos políticos, e as forças militares nas regions curdas da Turquia e da Síria devem cumprir os requisitos de assegurar que o poder é compartilhado entre um co-presidente home emulher.

RLR: Como é a vida para as pessoas LGBT na Turquia hoje?

SA: As pessoas LGBT também tenhem enfrentado o aumento da pressom do governo de  Erdogan nos últimos anos. Na verdade, a polícia procurou impedir as paradas do orgulho em Istambul nos últimos dous anos. Claro que, como as liberdades das mulheres, nom é fácil para o governo suprimir totalmente os direitos LGBT, mas esses direitos podem estar completamente perdidos no espaço de poucos anos, como vimos em outros lugares. Ao mesmo tempo, a sociedade iraniana era muito liberal em termos de relaçons pessoais / sexuais, apesar da brutal ditadura. Agora aos iranianos som lhes negadas essas liberdades passadas sob o regime despótico atual.

Turquia parece estar indo polo mesmo caminho: para além da falta de liberdades políticas, haverá cada vez menos liberdades “pessoais” também. O Islam, em todas as suas versons, nom tolera as liberdades individuais, assim com a ascensom do islamismo, as pessoas LGBT estaram,  evidentemente, entre aqueles que vam sofrer mais.

Esta entrevista foi publicada em Open Democracy.

 

“A Paz e umha soluçom da Questom Curda só é possível através da luita”

a-paz-e-a-solucom-da-questom-curdaReproducimos o artigo publicado nos jornais curdos Azadiya Welat e Yeni Özgür Politika, e  traduzido ao inglês por ANF English do co-presidente do Conselho Executivo da Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK), Cemil Bayık sobre a posiçom da KCK (organizaçom garda-chuva que inclue ao PKK) da última mensagem do lider do PKK, Abdullah Öcalan e a apreensom de municípios curdos.

Cemil Bayik escribiu:

“Nom lembro de outro líder fascista na história do mundo que admita abertamente a sua crueldade como o Presidente da Turquia Erdoğan. Erdoğan agora di que vai eliminar o povo curdo, sem necessidade de oculta-lo. Alguns dos adeptos curdos de Erdogan tentam encobrir a sua mentalidade fascista, mas Erdoğan rasga através dessas tampas. El di que vai eliminar os curdos. Di que nom pode haver naçom, vontade política, nem nengumha administraçom na regiom [curda] com exceçom da turca. A repetiçom constante de que existe so umha naçom, umha bandeira, um estado e um pvo todos os dias, Erdoğan desnuda a sua mentalidade monolítica e rejeita os curdos, a sua vontade política e o seu país; o Curdistam. Todos as autoridades turcas estam a dizer agora que eles vam continuar a guerra até que eliminar a todos os guerrilheiro curdos.

Ninguém deve esperar umha soluçom para a questom curda do governo do Partido da Justiça e o Desenvolvimento (AKP). Aqueles que esperam quaisquer passo do AKP seguem esse discurso e essas práticas seram enganandos. Quando o AKP e os seus aliados fascistas [MHP, CHP, Ergenekon], dim que vam destruir e exterminar os curdos, nom se pode cair presa ao descuido ou baixar a guarda. A democratizaçom da Turquia e umha soluçom para a questom curda nom é possível sem dificuldades. A resposta [negativa] do governo aos esforços de Öcalan para a paz estám aí para todos as  verem. Atualmente, a vontade do povo curdo está sob um ataque mais direto. Eles querem completar o genocídio quebrando essa vontade. Nom há dúvida sobre isso. Esta é a decisom, abordagem objetiva, e a prática da política colonialista genocida [do Estado turco].

O que é importante, porém, é a posiçom do povo curdo e as forças democráticas contra esta política. Umha cousa deve ser considerada: A questom curda só pode ser resolvida através de umha luita pola democracia e a administraçom democrática. A mentalidade dominante na Turquia nega os curdos e quer eliminá-los; esta é a política do estado e do governo, portanto, é impossível resolver a questom curda com os partidos políticos e governos atuais. O problema nom é que as reivindicaçons políticas [dos curdos] sejam muito grandes ou pequenas; o problema é a política em curso do Estado turco de negaçom e genocídio. Assim, somente através do estabelecimento de umha administraçom democrática na Turquia, através de umha luita pola democracia e a liberdade, pode a questom curda ser resolvida. Caso contrário, com a mentalidade anti-democrâtica e de governo, esse problema nom pode ser resolvido. Umha abordagem racional nom se pode esperar com esses governos. Neste sentido, é apenas possível aumentar a luita contra eles. Nada se pode fazer pola democracia, a liberdade e a paz antes de compreender este feito e agir em conformidade. Qualquer pessoa com qualquer expectativa fora deste quadro estará enganando a si mesmo e ao povo. E isso permitirá ao colonialismo genocida a implementarem das suas políticas, sem qualquer resistência.

Durante a mais recente visita a Imrali [o 11 de setembro do 2016], Öcalan dixo novamente que, se o estado quisesse, a questom curda poderia ser resolvida em seis meses. Isto é um feito. Öcalan procura resolver a questom curda sem problematizar fronteiras estatais e manifestar essa autonomia democrática no âmbito da democratizaçom da Turquia. Isso é a atribuçom da democracia. Mas a mentalidade na Turquia nom aceita a libertaçom, existência, língua ou cultura dos curdos e, portanto, nom permite a autonomia democrática; e utiliza todas as armas de guerra ao extremo para quebrar a vontade do povo pola liberdade e a democracia.

Há duas maneiras de soluçom para a questom curda e ambas estam interligadas. Umha  é democratizar Turquia em umha luita conjunta com as forças democráticas do país e a outra é que o povo curdo crie a sua própria soluçom democrática e a defenda. Se esta dupla luita é realizado, em seguida, a Turquia irá democratizar e a questom curda será resolvida. Nom podemos esperar na expectativa de que quem está no poder dea os passos.

Sem dúvida, todos querem umha soluçom sem dificuldades, sem conflito e guerra. O Movimento de Libertaçom Curdo tentou esse caminho com paciência, mas nom foi possível. Nós mostramos as abordagens mais razoáveis, mas nom funcionou. Nas condiçons actuais, quem pensa que a liberdade e da paz pode ser alcançada sem resistência, está enganando a si mesmos e colocando o seu pescoço para fora sob a lâmina do colonialismo genocida. A paz e a umha vida livre e democrática nom pode ser conquistada sem resistência.

A paz e umha soluçom só som possíveis através da luita. Tayyip Erdoğan dixo que a opressom e ataques até agora forom so o começo; eles nom estám parando, estám em marcha e vam fazer mais. Assim, todo aquel que fale de outra cousa senom a luita, está a servir os objectivos do colonialismo genocida. Neste sentido, qualquer discurso de paz que nom exija do desenvolvimento da luita ou nom se está esforçando ativamente para desenvolver a luita nom deve ser atendido. Neste sentido, o único pensamento na mente de quem quer a paz e umha soluçom deve ser luita, luita, luita.”

 

 

Abordagem do Estado turco e Por que o Isolamento de Öcalan é motivo de preocupaçom

ypj-com-foto-ocalanPor Amed Dicle

O jornal pró-curdo Özgür Gündem publicou umha entrevista muito importante sobre a situaçom na Ilha Prisom de Imrali e a abordagem do estado sobre Öcalan, vários dias antes de ser fechado (por um tribunal turco). A entrevista datada o 22 de agosto com Çetin Arkas e Nasrullah Kuran, (que estiveram ambos presos em outra seçom da prisom antes de serem forçosamente trasladados) som bastante surpreendentes e informativas em termos da compreensom das condiçons atuais sobre Imrali e a ameaça contra Öcalan.

Outro artigo de Çetin Arkas, publicado por Özgür Gündem antes desta entrevista, o 22 de Julho, mencionou umha carta anônima enviada a Öcalan, que o ameaçava.

Çetin Arkas e Nasrullah Kuran estiverom presos na Ilha de Imrali, até o 25 de Dezembro de 2015, o que torna as suas declaraçons sobre a situaçom lá importantes.

A evoluçom ao longo dos últimos anos e algumhas informaçons trazidas à luz por Arkas e Kuran oferece-nos umha visom sobre os perigos que enfrentamos hoje.

29 de novembro de 2014. À medida que as fortes luitas estavam ocorrendo em Kobanê, um grupo de membros do ISIS tentou entrar dentro do centro da cidade depois de cruzar a fronteira entre Suruç-Kobanê através do passo fornteiriço de Mürşitpınar. Este grupo foi repelido depois de confrontos pesados. Mais tarde, eles refugiaram-se nos celeiros de trigo do governo turco na fronteira. As primeiras imagens em tempo real desde o começo do ataque foram divulgadas pola agência nacional de notícias da Turquia AA (Agência Anadolu).

Logo verificou-se que umha delegaçom do Estado visitara Imrali no mesmo dia e durante as mesmas horas para manter conversaçons com Öcalan. Eles foram para dar-lhe a mensagem, ‘Kobanê caiu’.

No entanto, Kobanê foi salva e as conversas com Öcalan continuarom até o 5 de abril de 2015.

As negociaçons entre a Delegaçom de Imrali do Partido Democrático do Povo (HDP) e Öcalan foram impedidas após esta data.

A entrevista acima mencionada dá detalhes importantes sobre o período posterior ao 5 de abril, quando o isolamento agravado de Öcalan começou. Por tanto;

Umha Delegaçom do Estado encontra-se com Öcalan na Ilha de Imrali o 25 de Junho de 2015, após as eleiçons gerais do 7 de junho.

No mesmo dia (25 de Junho), militantes do ISIS entrar no centro da cidade Kobanê desde a fronteira turca e massacram 243 civis, a maioria delas crianças.

Durante esta reuniom, a delegaçom do Estado pede a Öcalan de escrever umha carta para a Uniom de Comunidades do Curdistam (KCK) para ” diminuir as tensons’. Öcalan dixo-lhes que ia avaliar a sua proposta e depois dixo-lhe a um funcionário, “Quanto tempo mais quere que escreva a Qandil (KCK / PKK)? Pergunte a delegaçom para vir aqui a umha reuniom, se o Estado tem um projeto destinado a umha resoluçom da questom curda. Se o estado quer recorrer ao envio de cartas ou qualquer outra cousa para adiar a questom mais umha vez, eles nom precisam de vir, eu nom me vou reunir com eles “.

Cerca de 4 meses depois desta reuniom, em Outubro de 2015, umha “carta anônima ‘ chega-lhe a Öcalan.

Normalmente, todas as cartas enviadas a Öcalan passam porumha  inspeçom e a maioria nom lhe som entregadas, no entanto, este “carta” foi-no. Está escrito por alguém de Berlim que a introduz como um “oráculo”. A carta di: ‘Erdoğan era de feito umha boa oportunidade [de resoluçom] vocé deveria ter aceitado. Vocé vai morrer de “causas naturais” este ano “.

Çetin Arkas resume a atitude Ocalan como segue;

“Öcalan compartilhou o conteúdo da carta connosco, e pediu a nossa opiniom. Nós [seis presos] digemos que criamos que era umha ameaça. Quando Öcalan pediu informaçom à administraçom da prisom sobre a carta, eles digerom:” Escapou à nossa atençom. Foi um erro porque nom cha teriamos dado umha carta com este tipo de conteúdo “. No entanto, sabemos que nom é possível que algumha cousa escape à atençom no Sistema Penitenciário de Imrali. Todo foi desenhado em conformidade. A carta devia chegar a Öcalan.

A resposta de Öcalan foi: “Seria simplista a tomar essas cousas a sério Somos revolucionários eu já tenho jogado o meu papel até agora e vou continuar a desempenhar o meu papel após a morte, bem como dixo Che Guevera, eu digo. “Onde quer que a morte poda-nos surpreender, bem-vinda seja ‘. Eu sei que eles estam ouvindo a nossa conversa, e eu estou a dizer isto em voz alta para ter certeza de que eles me ouvem.”

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Öcalan e a entrada Prisão de máxima Segurança de Imrali

Vários dias após esta carta o 10 de outubro de 2015, o dia em que a KCK se preparava para declarar um cessar-fogo, polas eleiçons do 1 de novembro, a massacre de Ancara matando 102 pessoas tivo lugar. A declaraçom foi adiada para o dia seguinte.

Vários dias antes das eleiçons do 1 de novembro, a delegaçom do Estado fixo outra visita a Imrali.

A delegaçom estava chefiada polo vice-secretário de Segurança Pública do Estado turco, que fixo a seguinte ameaça a Öcalan:

” Vocé está exagerando a questom de Rojava. Podemos ter 300 avions bombardeando-a  e destrui-la ate o cham, se quigermos “.

Nom é segredo que a Turquia queria sufocar as demandas dos curdos de Rojava ‘ de direitos e liberdades desde o início da guerra na Síria. As massacres em Kobanê e o suporte ao ISIS tinham como objetivo isso. As recentes operaçons de Jarablus e Al-Rai iniciados de acordo com o ISIS estam sendo realizadas como extensons da política mencionada polo Secretário Adjunto.

Claro, nom há nada estranho na política do Estado que ameaçava Öcalan com o esmagamento de Rojava.

O que causa grande preocupaçom entre os curdos agora, porém, é a forma como esta política está sendo implementada em Imrali, especialmente após a tentativa de golpe do 15 de junho de 2016.

Membros do HDP digerom que um helicóptero controlado por golpistas atacou a Ilha de  Imrali e confrontos eclodiram entre eles e os soldados leais ao governo em torno da prisom na noite da tentativa de golpe.

Foi igualmente declarado que os soldados golpistas, em seguida, fugiram para Grécia.

O governo turco nom fixo nengumha declaraçom satisfatória sobre este incidente.

Conforme 50 políticos e ativistas curdos estam em umha greve de fome por tempo indeterminado em Diyarbakir (Amed) com umha única demanda: Um encontro direto com Öcalan, o ministro da Justiça da Turquia Bekir Bozdağ declarou: “Nom há nengum problema com relaçom à segurança de Öcalan”.

El contudo, di que os soldados que fugirom para a Grécia, nom atacarom Imrali.

Quando um estado que envia assassinos do ISIS a Kobanê e, ao mesmo tempo tem umha reuniom com Öcalan; um estado que “permitiu” o envio de umha carta de ameaças anônimas e ameaçou Rojava com 300 avions di: “Nom há nengum problema com a segurança de Öcalan”, isso é um motivo de grande preocupaçom, nom de alívio.

Apesar das exigências básicas dos Curdos sobre Öcalan, o Estado turco vê-o so como um “prisioneiro”. Esta mentalidade, que recentemente declarou que há umha “guerra total, e nengumha soluçom”, vai fazer todo o que poida contra Öcalan em Imrali, em Rojava e em qualquer outro lugar onde poidam.

Publicado por Kurdishquestion.com

 

Movimento curdo: A Turquia precisa tomar medidas para a resoluçom da questom curda

Bandeiras KCK Ocalan e PKKNota: A declaraçom da KCK, organizaçom guarda chuva do Movimento Curdo foi feita no sábado, 20 de agosto, antes do ataque em Gaziantep à um casamento curdo que deixou 51 pessoas mortas e mais de 150 feridos, o ataque foi atribuído ao ISIS.

Devido à sua importância, no que diz respeito à questom curda, estamos publicando-a detalhadamente abaixo.

A Co-Presidência do Conselho Executivo da Uniom das Comunidades do Curdistam (KCK), divulgou umha declaraçom sobre o estágio que a questão curda atingiu, ataques contra o Movimento Curdo (MC), apelam para um retorno às negociaçons (entre o MC e o Estado Turco) e as etapas necessárias de resoluçom a serem tomadas no futuro.

A KCK salientou que o movimento curdo sentiu a necessidade de re-expressar a sua abordagem em meio a demandas e as chamadas feitas por determinados governos, instituiçons internacionais, organizaçons do Governo Regional do Curdistam (KRG), as Forças Democráticas e o Partido Popular Democrático (HDP) na Turquia por um retorno às negociaçons para a resoluçom da questom curda. A KCK enfatizou que é o Estado turco, quem deve dar um passo para a resoluçom do problema.

A KCK listou os seguintes passos de urgência para a resoluçom:

“Como Movimento de Libertaçom Curdo, estamos prontos para cumprir nossas responsabilidades em todos os aspectos, se o governo do AKP demonstra ter a vontade necessária em resolver a questom curda e assegura que o povo turco vai dar um passo para isso, umha delegaçom parlamentar que envolva o HDP teria de dialogar com o nosso líder Abdullah Öcalan e decidir iniciar as negociaçons muito em breve, oportunidades seram criadas para que nosso líder se reúna com todos os partidos políticos dentro e fora do parlamento, incluindo organizaçons comunitárias que tenhem propostas para a democratizaçom e resoluçom de problemas – principalmente com os alevitas, organizaçons nom-governamentais e intelectuais”.

Observando que o fracasso da tentativa de golpe em 15 de julho foi umha grande oportunidade para a Turquia, A KCK dixo que o governo do AKP tirou proveito desta falha mobilizando assim um contra-golpe.

AKP, responsável pola tentativa de golpe na Turquia

A KCK alegou também que o governo do AKP impujo um isolamento agravado ao líder Öcalan desde 05 de abril de 2015 e rejeitou o acordo de Dolmabahçe, feito em 28 de fevereiro de 2015 entre o MC e o Estado turco. Acrescentou que o governo turco “começou a implementar a sua política e mobilizaçom de guerra”, um mecanismo de golpe para suprimir a questom curda após os resultados das eleiçons gerais do 05 de junho de 2015, que deixou o AKP sem maioria no Parlamento.

“Nosso líder Öcalan, lançou um processo de cessar fogo no final de 2012 e declarou um manifesto para a democratizaçom da Turquia no Newroz de 2013. Com um plano de três fases, el projetou a democratizaçom da Turquia, declarou a sua intençom de retirar as forças da guerrilha (PKK) das fronteiras turcas e, o PKK liberou soldados, policias e um governador de distrito. Por ter, o movimento, tomado estes passos, nosso líder tentou encorajar o estado turco a tomar medidas para a democratizaçom. No entanto, o governo do AKP se absteve de tomar medidas de resoluçom da questom curda e sustentou o cessar-fogo apenas em prol das suas próprias decisons “.

‘Plano Colapso’ colocado em açom

“Ao sustentar o cessar-fogo, apesar de todas as abordagens negativas do estado, nosso movimento deu ao governo do AKP umha oportunidade para tomar medidas em prol da resoluçom da questom curda e a democratizaçom. Em cada reuniom com o Estado e as delegaçons do HDP, o líder Öcalan advertiu aos partidos da existência de um “estado paralelo dentro do estado” e enfatizou que estas estruturas com ligaçons exteriores nom queriam a resoluçom da questom curda. Alertou repetidamente que o impasse nessa resoluçom criara um mecanismo de golpe de estado, e que este mecanismo entraria em açom ao menos que se desse um passo para sua resoluçom.

No entanto, Erdoğan e o seu entorno nom levaram em conta os esforços do nosso líder e o ambiente de nom-conflito que el negociara seriamente, nom avançou um passo sequer no fortalecimento de tais esforços.

Como resultado, o governo do AKP, na pessoa de Erdoğan, trouxe em vigor o “mecanismo de golpe” ao decidir pola guerra durante a reuniom do Conselho de Segurança Nacional (MGK), em 30 de outubro de 2014. O “Plano Colapso”, criado para esmagar o Movimento de Libertaçom Curdo, foi decidido nesta reuniom e logo das manifestaçons do 6 e 8 de outubro, ajudando a evitar a queda de Kobane.”

O Conselho de Segurança Nacional propujo que o exército esmagasse o movimento curdo

A KCK enfatizou que se entregara nas maos do exército turco a tentativa de esmagar a luita durante a mesma reuniom do Conselho de Segurança Nacional acima mencionada, e que isto ativou o ‘mecanismo de golpe’ e reforçou a facçom de dentro do exército turco que a efetivou.

Recordando as observaçons do entom primeiro-ministro Ahmet Davutoglu “Solicitei ao exército e à polícia para que se preparassem em 2014”, a KCK disse que isso era umha clara confissom do papel do governo do AKP na formaçom das fundaçons que ativaram o “mecanismo de golpe.”

O isolamento de Öcalan

A declaraçom da KCK lista os principais desenvolvimentos que levarom à ativaçom do “mecanismo de golpe” tais como: a rejeiçom do Acordo de Dolmabahçe, imposiçom de isolamento agravado a Öcalan desde 5 de abril,  rejeiçom dos resultados das eleiçons de 7 de junho e o início de umha “guerra generalizada” o 24 de julho de 2015.

“Entende-se agora que o apoio dos poderes externos dados à política de guerra do AKP, depois da eleiçom do 07 de junho, está relacionado com a ativaçom deste “mecanismo de golpe”. Esta é a razom pola qual as potências externas fecharom os olhos para o governo do AKP. Eles estam queimando cidades curdas e massacrando centos de civis. O plano era que o “mecanismo de golpe” obteria resultados mais breves em um ambiente de conflito onde o AKP e PKK fossem enfraquecidos.”

A tentativa de golpe de 15 de julho começou em dezembro de 2015

A KCK observou que a tentativa de golpe do 15 de julho tivo o seu início o 14 de dezembro 2015, quando entom o governo do AKP deu sinal verde para que o Exército turco entrasse em cidades curdas com tanques, artilharia e armas pesadas “esmagando o povo curdo que declarava a autonomia.”

“Erdoğan e Ahmet Davutoglu comentarom ‘Nosso bravo exército derrotou os terroristas’ [a respeito de Sur, Cizre e Nusaybin] e isso significou que o “mecanismo de golpe” tinha sido ativado e decidiu tomar o poder do Estado. Sua reivindicaçom com esse exército era ‘Nós somos aqueles que luitam contra o PKK, estamos assumindo esse fardo pesado, e, portanto, nós somos os únicos que podem governar e determinar a política’. Os tanques, artilharia, helicópteros e jatos que foram bastante eficazes nas montanhas do Curdistam, agora mudam sua mira para Ancara, Istambul e Izmir. A fracassada tentativa de golpe surgiu como umha consequência das políticas que procuravam respostas para a questom curda e acabou por profundar o impasse. O governo do AKP afirma que este golpe foi encenado polos círculos de [Fethullah] Gülent. A verdade, porém, é que os membros do AKP desempenharom um papel importante no golpe, tanto ideológica quanto politicamente”.

A KCK dixo que sempre houveram círculos democráticos e curdos na Turquia e que os mesmos permaneceram contra os golpes de Estado, “como testemunhamos durante o golpe militar de 1980 e a guerra suja lançada polos militares na década de 90 contra os curdos.” A KCK acrescentou que ambas as partes, tanto os círculos curdos quanto democráticos, foram as que mais sofreram com os golpes.

Notando que o fracasso da tentativa de golpe de 15 de julho foi umha grande oportunidade para o povo turco, A KCK dixo que o governo do AKP nom pensar na resoluçom da questom curda e nem na democratizaçom, através das quais o mecanismo de golpe poderia ter sido eliminado.

A KCK mudou de ideia

A declaraçom da KCK observa que o movimento curdo tinha considerado fazer umha nova avaliaçom da situaçom após a recente tentativa de golpe, mas decidiu nom fazê-la devido à abordagem negativa do governo do AKP, e dixo ainda que tinha concordado que o partido precisava avançar para promover a democracia, a resoluçom da questom curda e mostrar umha verdadeira postura anti-golpe, mas que isso nom ocorreu no pós-golpe.

Em vez disso, o Estado continuou seu discurso chauvinista, declarando o estado de emergência, e anunciou a suspensom das negociaçons com Imrali (ilha turca onde Öcalan está detido) exibindo umha abordagem desfavorável ao HDP com Erdoğan instrumentalizando tudo para se manter no poder.

Resposta aos grupos que pedem negociaçons

“Mas, recentemente, foram publicados, mais umha vez, apelos e declaraçons sobre as  nossas necessidades e abordagens por certos estados, instituiçons internacionais que trabalham em soluçons de conflitos pacíficos, organizaçons cooperativas do Curdistam Iraquiano (KRG), grupos de poder na Turquia, HDP e as forças democráticas.

Nosso líder Öcalan, e nosso movimento tem, desde 20 de março de 1993 feito grandes esforços para umha soluçom política e democrática à questom curda e declaramos cessar-fogo mais de dez vezes para esse fim. Além disso, o movimento mostrou-se favorável em retirar as forças armadas das fronteiras turcas (2013) e quase o 40% das forças de guerrilha foram retiradas com muito mais mobilidade nesse sentido. Mas o Estado e o AKP nom tomarom as medidas necessárias para acabar com a negaçom aos curdos e estenderom as suas políticas genocidas, a situaçom que criou o atual e intenso conflito veio à tona. ”

O AKP tirou proveito do cessar-fogo

A KCK afirmou também que os recentes confrontos tinham se tornado mais violentos do que os anteriores, porque o governo do AKP tirou proveito do acordo de cessar-fogo para os seus próprios fins.

“Erdoğan e o governo do AKP utilizarom todos os cessar-fogos que tinham sido declarados para reforçar a sua permanência no poder. Eles criarom umha falsa esperança de resoluçom para isso. Erdoğan abordou a questom curda, como umha questom fundamental da Turquia de forma irresponsável a fim de promover os seus interesses e os do seu partido. El interrompeu o povo curdo, as forças democráticas, e todo povo turco, embora pudesse ter oferecido todas as condiçons e oportunidades para a soluçom da questom curda. Outros poderes políticos desconfiarom desse abuso de Erdogan e nom oferecerom o apoio necessário.

Portanto, esta experiência mostra-nos que a declaraçom de cessar-fogo, sem um fim para a utilizaçom da mesma só vai manter a política de uso ferramental que o partido fai, portanto, servindo à sua insistência em nom resolver a questom curda. As questons relativas ao cessar-fogo nom devem mais ser abordadas no interesse de um determinado partido, mas vistas como um problema que toda a Turquia enfrenta. Palavras, passos ou açons que nom som em prol de umha soluçom e servem apenas para enganar nom tenhem nengum significado. Repetir isso nom ajudará em nada, além de piorar a situaçom.

Nom foi o PKK nem o Movimento de Libertaçom Curdo quem criarom esse conflito. O PKK foi formado pola falta de umha soluçom para a questom curda, e chamou a atençom para isso, bem como o fortalecimento dos fundamentos de umha soluçom, umha vez que luitou contra as políticas de negaçom e de extermínio”.

O Estado turco deve dar um passo

Na sua declaraçom, a KCK foi inflexível com o feito de que o Estado turco precisa dar o primeiro passo para as negociaçons serem feitas.

“É o Estado turco, que deve dar um passo para a soluçom da questom curda e garantir umha soluçom duradoura. Se o governo nom consegue fazer isso, o povo curdo irá criar a sua própria soluçom e continuará a luitar por umha vida livre e democrática. Ninguém deve esperar umha abordagem diferente do povo curdo e do Movimento de Libertaçom. No entanto, o Estado turco nem sequer dá um passo, nem tolera a criaçom da própria soluçom do povo curdo. O Estado turco nom pode sair deste ciclo vicioso se nom abandona as suas políticas e alianças anti-curdas.”

A saúde e segurança de Öcalan

“Como Movimento de Libertaçom Curdo, sabe-se que tivemos de recorrer à guerra por necessidade. A história tem provado que a paz na Turquia virá com a soluçom da questom curda, e que isso só é possível com a libertaçom dos povos curdos e do líder Abdullah Öcalan, que iram desempenhar um papel importante na realizaçom desta soluçom. Nosso líder é a ponte fundamental entre os povos turcos e curdos. O líder Öcalan tem apresentado a abordagem mais razoável para a soluçom da questom curda, mas a sua abordagem nom foi correspondida, polo contrário, foi colocado sob isolamento mais rigoroso.

Enquanto era sabido que os golpistas estavam muito irritados com o nosso líder por causa dos seus análises, as preocupaçons do nosso povo a respeito da sua saúde e segurança nom foram respondidas, assim como a nom concessom ao acesso polos avogados da sua família e garantia dos seus direitos mais básicos. Nom respondendo a essa demanda urgente isso prova que ainda nom existem políticas para a soluçom democrática da questom curda. Se houvesse qualquer intençom de umha soluçom política democrática, umha reuniom com Öcalan teria sido estabelecida. Neste contexto, o isolamento agravado imposto ao nosso líder é, na sua essência, um isolamento da soluçom política democrática.”

Possível soluçom caso o Estado turco tome medidas

A KCK enfatizou que umha soluçom para a questom curda poderia acontecer em um curto espaço de tempo, caso o Estado turco e o governo tomassem iniciativas. “Se desenvolverem umha política para essa soluçom, a questom curda será resolvida dentro de um mês, e a paz virá para a Turquia. Como movimento de libertaçom, a nossa preferência é por umha soluçom política democrática. É claro que vamos fazer todos os sacrifícios necessários para isso, o que requer umha postura do estado e do governo que garanta que eles nom vam instrumentalizar os cessar-fogos e períodos livres de conflito. Ninguém deve esperar um passo so unilateral nesta questom.

No entanto, se o governo do AKP mostra ter vontade de resolver a questom curda e selar um compromisso com o povo turco tomando assim as medidas necessárias tais como dar início às negociaçons para umha soluçom imediata com reunions entre a Comissom Parlamentar incluindo o HDP e o nosso líder, garantirem que Öcalan terá a oportunidade de se reunir com a sua organizaçom [KCK / PKK] e todas as partes dentro e fora do Parlamento, todos os grupos dentro da Turquia que tenhem pontos de vista sobre a democratizaçom e soluçons para os seus próprios problemas, principalmente os alevitas, ONGs e organizaçons intelectuais; nós, como Movimento de Libertaçom estamos preparados para cumprir todos os deveres no âmbito das medidas a serem tomadas e os compromissos recíprocos.

Esta nom é uma imposiçom, nem umhas pre-condiçons. Estas som as etapas necessárias para certificar de que nom retornaremos às condiçons terríveis em que nos encontramos hoje. Grandes perdas e dor forom causadas polas políticas que instrumentalizarom assuntos relacionados com a soluçom da questom curda.

Se as políticas de negaçom e extensom genocidas [contra os curdos] foram descartadas, nós, como Movimento de Libertaçom seremos os defensores mais destacados e praticantes de umha soluçom que permitirá ao povo turco viver em fraternidade. Este tem sido o nosso objetivo em todas essas décadas de longa luita, e vamos concretizar isso.

Publicado em Kurdish Question baseando-se na declaraçom da KCK publicada em ANF.

 

 

 

2º Aniversário: Um genocídio sem fim

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Álbum de fotos de umha família Jazidi nas ruínas de um edifício de Shingal (John Moore)

Lalish. Dous anos atrás, os acólitos do Estado Islâmico (ISIS) invadirom o norte do Iraque, capturando a metrópole de Mosul em um curto período de tempo. Desde entom, a milícia nom só tem aterrorizado o Iraque e a Síria. O seu terror é global e já encontrou o seu caminho para a Europa – um terror que a comunidade Jazidi tivo de suportar durante séculos.

Apenas algumhas semanas depois de ter caído Mosul o grupo terrorista, os jihadistas do ISIS perpetrarom um genocídio inimaginável, mas previsível que ja fora anunciado antes contra a povoaçom civil Jazidi de Shingal. Raramente um genocídio foi tam óbvio dado a sua intençom de destruir. Na sua revista intitulada “Dabiq”, o ISIS assumiu a responsabilidade polas suas atrocidades e até mesmo acusou os vizinhos muçulmanos dos Jazidis de nom te-los exterminado há muito tempo. Um genocídio que ainda nom chegou ao fim, desarraigando a comunidade Jazidi e mergulhando-a em umha profunda crise. Resumimos os acontecimentos e as suas consequências:

→ 450.000 refugiados – um de cada dous Jazidis
→ + 5000 mortos (cifras da ONU)
→ 7.000 raptadas (cifras da ONU)
→ até 3.800 mulheres e crianças ainda estam cautivas
→ até 8.000 crianças órfas e meio-órfas
→ mais de 30 valas comuns descobertas até agora
→ várias aldeias permanecem sob control do ISIS

Genocidio

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Jazidis deslocadas ajudadas por umha membro das Unidades de Proteçom das Mulheres (YPG), nos arredores de montanha Sinjar em 10 de Agosto de 2014. Reuters/Rodi Said

 “Um Genocídio ocorreu e ainda está a ocorrer“, Paulo Pinheiro, presidente da Comissom de Investigaçom da ONU.

Na noite do 2 para o 3 de agosto de 2014, quando os primeiros ataques começarom a tomar corpo no sul da regiom de Shingal, os Peshmerga (principalmente milícias do KDP), que vinheram supostamente a implantar-se na regiom para a segurança dos Jazidis já começaram a fugir. Shingal é a área de principal assentamento do povo Jazidi onde cerca de 500.000 dos 900.000 Jazidis de todo o mundo costumavam viver.

Os 11.000 Peshmerga que foram implantados em torno a Shingal fugirom durante a noite e as primeiras horas da manhá sem avisar à povoaçom civil ou, polo menos, proporcionar rotas de fuga. O ISIS invadiu umha aldeia atrás da outra, os vizinhos sunitas do Jazidis apoiarom a ofensiva terrorista. Voluntários Jazidis defenderom as suas aldeias durante horas. Depois de ficar sem muniçom, as pessoas tentarom escapar ao monte onde forom cercados polos terroristas do ISIS a temperaturas de 40 °. Até 60.000 Jazidis tentarom resistir lá fora por dias, muitos morrerom como resultado da falta de comida e água.

[Haveria que dizer também que ajudou a que nom fôsse maior a massacre a operaçom das YPG/YPJ (Yekîneyên Parastinê Gel) para resgatar aos Jazidis nas montanhas de Sinjar transportando comida e água e fazendo um corredor humanitário; e das HPG (Hêzên Parastina Gel), milícia do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), que frenarom a ofensiva do ISIS em Maxmur; ambas milícias membros da KCK (Uniom de Comunidades do Curdistam].

De acordo com as Naçons Unidas, polo menos 5.000 Jazidis forom assassinados nas cidades e aldeias e até 7.000 mulheres e crianças, incluindo muitas meninas menores de idade, forom sequestradas, escravizadas e posteriormente violadas sistematicamente. Os homens e mulheres capturados forom convidados a se converter ao Islám, por exemplo, em Kojo onde acólitos do ISIS assassinarom cerca de 600 homens e sequestrarom até 1.000 mulheres e crianças depois de terem recusado a se converter. De acordo com umha série de estimativas, 1.000 meninos Jazidis estám sendo treinados militarmente em campos para se tornar futuros suicidas e combatentes do ISIS.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU, o Parlamento Europeu, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, o governo dos EUA e o Parlamento britânico reconhecerom o genocídio. O Conselho de Segurança da ONU, no entanto, ainda nom tomou quaisquer medida. A chamada dos Jazidis para o estabelecimento de um tribunal para julgar os terroristas do ISIS no Tribunal Penal Internacional por cometer crimes de guerra e contra a humanidade.

Valas comuns

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Jazidis analisam os restos ósseos de umha vala comum.

Mais de 30 valas comuns contendo os restos mortais de homens, mulheres mas também de crianças até agora forom descobertos nas regions libertadas de Shingal. A ONU, apesar dos pedidos da comunidade Jazidi, nom forneceu nengum perito em preservaçom de provas ou documentou as valas comuns para futuros processos contra os terroristas do ISIS. Os cientistas forenses do governo curdo estam tentando faze-lo o melhor possível, mas nom tenhem o equipamento necessário. Umha das valas comuns, que foi descoberta no sul da regiom, continha os restos de 80 mulheres. Até 120 restos mais forom descobertos em outra perto da cidade Shingal. As sepulturas estam, no entanto, muitas vezes inspeccionados por luitadores, jornalistas ou Jazidis à procura dos seus parentes, o que torna difícil preservar as provas no futuro.

Escravitude

“Ela tem 12 anos. Hweida nom sabia o que era a violaçom, mas acordou com sangue entre as suas pernas.”, NBC Report.

Jazidis escravasAté 7.000 Jazidis, a maioria das quais eram mulheres e crianças, forom sequestradas. Na sua revista Dabiq, o ISIS referiu o seu rapto como a reintroduçom da “tradiçom islâmica da escravidude”. As Jazidis sequestradas forom levadas para outras partes do Iraque e da Síria. 3.200 mulheres e crianças forom libertadas ou conseguiram escapar. Elas relatarom violaçons em massa, tortura e assassinatos nas prisons do ISIS. Crianças nascidas em cautiveiro do ISIS forom entregues a famílias muçulmanas. As mulheres e crianças Jazidis raptadas som oferecidas para a venda por terroristas do ISIS através das redes sociais ou nas ruas. O ISIS usa a violaçom sistemática como umha arma psicológica contra toda a comunidade Jazidi.

3.500 outras Jazidis ainda permanecem, desde há dous anos, no cautiveiro do ISIS. O genocídio continua com o seu cativeiro e nom permite que os Jazidis poidam descansar. Até agora nom há medidas concretas para a sua libertaçom, tais como operaçons militares especiais. As famílias Jazidis pagam somas de cinco dígitos para resgatar os seus parentes, caso a opçom esteja disponível. O ISIS reforçou as medidas de segurança após umha série de tentativas de fuga bem-sucedidas, é por isso que cada vez menos mulheres e crianças podem ser resgatadas ou som capazes de escapar. Muitas das mulheres e crianças escravizadas crê-se que estam nos redutos do ISIS de Mosul e Raqqa.

Mas mesmo depois da sua libertaçom, o seu calvário nom chega ao fim. Fortemente traumatizadas, muitas delas resistem nos campos de refugiados sem ter acesso à assistência professional. Nada abalou a comunidade Jazidi nas suas bases, como os seqüestros e as violaçons. A maioria também perderam os seus familiares nas massacres de Shingal.

Órfaos

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Crianças Jazidis do campo de refugiados de Esiya (EzidiPress)

A campanha de destruiçom do ISIS transformou milheiros de crianças em órfaos e meio-órfaos, muitos dos quais forom testemunhas de como as suas maes e/ou pais foram mortos polos terroristas do ISIS diante dos seus olhos. Há 3.000 órfaos, de acordo com dados oficiais. Estimativas nom oficiais, no entanto, indicam que há 8.000 crianças e jovens órfaos e meio-órfaos. Os que muitas vezes encontram aos seus parentes que, no entanto, também carecem de tudo. portanto os Jazidis procuramos construir orfanatos.

Êxodo em massa

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Crianças refugiadas de Shingal perto de Semel, Duhok (Ezidi Press)

“Esta terra é a nossa tumba “, refugiado Jazidi.

O plano pérfido do ISIS para destruir a comunidade Jazidi aparentemente provou ser bem sucedida. Cerca de 100.000 Jazidis já deixarom o Iraque / Regiom Autónoma do Curdistam – que é cerca do 20% da povoaçom total Jazidi. Atravessa a Turquia e o Mediterrâneo, muitos estam tentando alcançar porto seguro na Europa. Um número estimado de 30.000 Jazidis já solicitarom asilo só na Alemanha – com umha tendência crescente. Os 900.000 Jazidis já vivem nos quatro continentes, em mais de 20 países.

 Destruiçom e luita polo poder político

Um camiom com forças de segurança curdas fai o seu caminho através das ruínas de Sinjar. (John Beck / Al Jazeera)
Um camiom com forças de segurança curdas fai o seu caminho através das ruínas de Sinjar. (John Beck / Al Jazeera)

O lar tradicional do Jazidis tornou-se um lugar de luita polo poder político. Dúzias de partidos políticos e forças militares estám tentando exercer a sua influência no vazio de poder que foi deixado lá. Bandeiras de Partidos e militares som içadas acima das ruínas dos edifícios destruídos. A regiom está de facto dividida em duas zonas: os grupos ligados ao PKK [KCK em realidade], como as Jazidis YBŞ que controlam o oeste da regiom. Eles estam em umha luita de poder com o KDP, e os seus aliados Peshmergas e Jazidis que controlam o leste da regiom.

Cerca do 85% das infra-estruturas da regiom, vilas e cidades forom destruídas. O Conselho de Representantes iraquiano declarou a regiom como zona de catástrofe. De acordo com as avaliaçons fornecidas polas autoridades, seram necessários 150 milhons de euros para a reconstruçom da área. O retorno dos refugiados parece, portanto, impossível – também devido à situaçom de segurança.

 Aldeias ocupadas

Dúzias de aldeias no sul da regiom, como Kojo, permanecem sob control do ISIS. Há diferentes opinions sobre por que a regiom ainda nom foi liberada.

Crise que Ameaça a Existência

Crianças jazidis em um campo de refugiados em Midyat (Reuters)
Crianças jazidis em um campo de refugiados em Midyat (Reuters)

O genocídio, a traiçom dos Peshmerga, bem como a luita polo poder político sobre a regiom desarraiga a comunidade Jazidi e mergulhou-na em umha profunda crise, a ameaça da existência. As frentes políticas que estiveram latentes durante décadas tenhem-se endurecido, o tom entre os diversos grupos tornou-se mais forte. Acusaçons mútuas e condenaçons ameaçam com dividir a comunidade nas décadas futuras. O Conselho Religioso Jazidi parece paralisado à luz dos desafios e pressons políticas.

Os partidos políticos estam a tentar impor a sua agenda por e com os Jazidis. Especialmente as geraçons mais velhas nom parecem compreender que esta crise pode realmente levar à queda da comunidade Jazidi e, portanto, da antiga herdança da cultura mesopotâmica.

Mais umha vez, heróis no começo acabarom por ser membros leais do partido – que é umha das razons que permitirom em primeiro lugar esta crise. É, portanto, jovens activistas, como Nadia Murad que dam umha nova esperança para os Jazidis e assumem a responsabilidade pola sua comunidade.

Publicado por Êzîdî Press.

 

 

O Inimigo do meu inimigo. Receita para o abismo

Cierzo 00Por Cierzo Bardenero

Recomendamos a leitura deste artigo para aqueles que “querem saber, entender e opinar” além de “bons e maus” no grande conflito no Oriente Médio. Titulares exagerados, e o sectarismo na imprensa e redes, fam desanimar o leitor ou resultam tendências xenófobas quando se afronta este conflito. E este artigo contribui como poucos a construir umha opiniom fundamentada.
Zabaltzen

[Este artigo de começos do outubro do 2014, quase dous, mantem as linhas gerais do que aconteceu, e está aconcento no Oriente Médio. Às vezes fam falha artigos que mais que analissar os feitos pontuais elevem o foco e deam a visom global do por que se chegou a esta situaçom. Logo de andar tempo perdido pola computadora penso que segue tendo a mesma claridade e interesse que quando foi escrito]

Só depois que Sinjar no qual dúzias de milheiros de pessoas pertencentes a minoria religiosa Jazidi foram condenados a conversom ou extermínio, e especialmente após a execuçom do jornalista americano James Foley, a opiniom pública ocidental descobriu a existência do Estado Islâmico (EI), ISIS, ou ISIL. O EI é umha organizaçom que usa a violência extrema para implementar o seu programa político-religioso sobre os territórios que ocupa na Síria e no Iraque, cujo objetivo declarado é a criaçom de um califado islâmico nos territórios pertencentes ao Iraque, Síria, Líbia, Palestina , Sinai e Chipre prévio ao estabelecimento do califado global. Mas chegar a esta situaçom foi trabalho de todos os protagonistas da área nas décadas anterioas em umha absurda estratégia política baseada em: “O inimigo do meu inimigo nom é meu amigo … mas pode ser útil. O que levou a umha contenda em múltiplas frentes que seguem a ocorrer na Síria, Iraque e Líbano com potencial para expandir-se para outros países do Oriente Médio. ”

Oriente Médio
Mapa do Oriente Medio

IraqueSíria

 Um dos pilares fundadores dessa estratégia é a divisom entre os ramos sírio e iraquiano do partido Baath nesses países que governarom depois de umha fusom entre elas e o Egito (Nasser) em 1963, que falhou pouco depois do nascimento. Ao longo do tempo as relaçons entre eles forom provocando cada vez mais purgas freqüentes de militantes Baath em ambos os ramos de militantes acusados de simpatizar com o ramo do outro país. A cousa intensificou a meados dos anos 70 em que umha organizaçom terrorista misteriosa ligada à Irmandade Muçulmana começou a atentar contra políticos, militares e pessoas de profissons liberais de confissao alawi (o mesmo que Al Assad e a cúpula do partido Baath sírio) e suspeitava-se que estava financiado polo ramo iraquiano do partido Baath (do deposto Saddam Hussein). Esta campanha terrorista foi ainda mais dura e transformada em guerra aberta desde 1979 em que foi visto como umha clara tentativa de exterminar a povoaçom alawi síria, que foi sangrentamente esmagada na massacre de Hama em 1982, enviando a prisom ou ao exílio ao islamistas sobreviventes.

A oportunidade para a vingança (e por duas vezes) viu depois da morte de Hafez al-Assad e a sua substituiçom à frente do país começou na última década. Bashar al-Assad, numha tentativa de tímida abertura abriu a porta para os Irmaos Muçulmanos presos e até brincou a legalizar esta organizaçom e outras, para transformar o país em umha democracia de estilo ocidental, mas em um gesto incompreensível de EUA, naquela época estava envolvido na derrubada de Saddam Hussein, em vez de atrai-lo a coligaçom, dedicou-se a torpedear a abertura e impor sançons à Síria que fecharom a porta a umha transiçom para a democracia e levou a segurança da Síria a promover a transferência de membros da Irmandade Muçulmana liberadoa a fazer a jihad contra os americanos que ocupavam o Iraque e acessoriamente facilitar a entrada de membros da Al Qaeda ao Iraque pola província de Al Anbar.

Apesar de que ao princípio Al Qaeda recebeu um forte apoio da povoaçom árabe sunita na sua luita contra os americanos e o governo de Bagdá (nas maos da maioria xiita) ao longo do tempo e devido ao seu o sectarismo e intolerância transformou-se em um problema tam grande que até mesmo as tribos sunitas e o governo dos EUA juntaram forças para combatê-los e reduzir à prática marginalizaçom AQI [AlQaeda de Iraque], e a cousa teria seguido assim se nom for porque na Síria o mesmo que erguerom em 1964 e 1976 -82 novamente erguerom em 2011 aproveitando a demandas populares contra a inflaçom, o custo de vida e a falta de alimentos devido às más colheitas que derivarom em um conflito armado aberto contra o governo, tanto assim que a Irmandade Muçulmana já em 2011-2012 representavam mais do 30% do FSA [Exército Livre Sírio], ao que há de sumar dúzias de brigadas independentes de grupos mais extremistas, como os salafistas, Takfiris e até mesmo um ramo da Al Qaeda chamado Jabhat Al Nusra.

É neste momento em que os EUA e a Europa também começavam a participar da doutrina do inimigo do meu inimigo, enviando armas e equipamentos pesados em colaboraçom com a Turquia, Qatar e Arábia Saudita, e Ocidente alegando que as armas iam destinadas às maos a moderados, a composiçom do FSA fazia que se estivesse equipando com armas pesadas (conscientemente) a brigadas que tinham fortes laços com grupos extremistas e até mesmo Jabhat Al Nusra com a esperança de domar o dragom umha vez que caíra Bashar Assad.

O que ninguém foi quem de prever é um problema na hierarquia do comando dentro da Al Qaeda ia provocar a cisom do ramo iraquiano da Al Qaeda e ista, com o tempo, varrera ou absorvera as restantes brigadas rebeldes, recebendo grandes quantidades de armas modernas, com as que pouderom assaltar o norte do Iraque (de povaçom árabe sunita) que esperava qualquer milícia que poidera enfrentar-se a um governo iraquiano em maos xiitas e curdas e retornar um poder que tinha monopolizado desde o estabelecimento do Iraque apesar de só representar o 25 % da povoaçom.

Em semanas, o Estado Islâmico com um número muito pequeno de homens liderou umha coalizom militar com os restos do baathismo iraquiano que tomou todas as províncias de povoaçom árabe sunita, chegando às portas de Bagdá enquanto limpavam etnicamente de xiitas, cristiaos e jazidis os territórios tomados. O avanço foi tam rápido e o colapso do Estado iraquiano tam alto que a Jordânia e a Arábia Saudita pugeram-se em alerta máxima para prevenir umha possível invasom dos seus respectivos países.

Cierzo 01 Extensom do ISIS a 22 de Setembro do 2014
Extensom do ISIS a 22 de Setembro do 2014

Umha vez consolidado o território no Iraque e proclamado o Califado, o ISIS voltou os seus olhos para a Síria lançando umha ofensiva total com o material de guerra iraquiano (recém doado polos EUA), tanto contra os restantes rebeldes, curdos como contra o Estado sírio, ofensiva que no momento parece imparável quando a suspeita e o ódio das muitas facçons em conflito impede aceitar umha estratégia conjunta para lidar com o ISIS.

Também no Iraque o sectarismo prevaleceu ao feito de parar o ISIS, e assim os curdos aproveitarom para ocupar militarmente os seus territórios históricos no norte do Iraque e em Bagdá era impossível formar um governo ante o impasse de Al Maliki e a divisom dos outros partidos.

Nesta situaçom os EUA e o Iram chegarom a um acordo para substituir al-Maliki como primeiro-ministro e por um candidato do seu próprio partido, também de confissom xiita pero mais diplomático, que resultou na chegada de equipamentos militares e homens do Iram e apoio aéreo norte-americano e que conseguiu deter o avanço do ISIS às portas de Bagdá (onde começa a área do país de maioria xiita) e umha ofensiva contra os curdos, que ameaçava chegar às portas da Regiom Autónoma Curda e a sua capital Erbil e polo caminho fazia um rastro de massacres contra as minorias xiitas, cristians e jaziguis.

Jordânia

O exemplo da Jordânia é um caso de como um país pode ser engolido por um turbilhom que el ajudou a criar e que, em virtude das suas alianças internacionais, no início da guerra civil síria, ofereceu as suas bases para que os Estados Unidos e outros paises treinaram contingentes de jovens sírios o que se chamou o Exército Livre Sírio (FSA) e permitir que a sua fronteira servesse como retaguarda e zona desde onde lançar ataques às províncias do sul de Daraa e Quneitra.

Diante da chamada para a Jihad na Síria centos de jovens radicais dos baluartes radicais de Ma’an e Zarqa e outras grandes cidades juntarom-se às brigadas da Irmandade Muçulmana do  FSA ou a grupos mais radicais como os salafistas de Ahrar al-Sham ou al Nusra. Isso começou a alarmar os serviços secretos jordanianos que temerom o retorno do contingente de milheiros de homes para casa para continuar a jihad.

O surgimento do ISIS terminou por complicar as cousas porque provocou o fracasso das organizaçons rebeldes e assim centos de homes que tinham sido treinados na Jordânia junto com os próprios jihadistas da Jordânia e toneladas de armas passarom a maos do ISIS cujo objetivo declarado era o estabelecimento um Estado islâmico transfronteiriço que incluia Jordânia entre outros.

Enquanto em 2012-2013 os protestos contra o alto custo de vida e a repressom do estado levou a manifestaçons contínuas convocadas pola Irmandade Muçulmana e organizaçons salafistas, muitos deles violentos, em 2014 e com o surgimento do ISIS os protestos resultarom em confrontos armados entre as forças de segurança e partidários do ISIS, como no caso da cidade de Ma’an onde jovens armados expulsarom por dias a polícia e o exército.

Cierzo 02
Manifestaçom pró-ISIS em Ma’an Jordânia

Durante os primeiros meses deste ano, as forças de segurança contemplarom o ISIS como um perigo certo embora que geograficamente longínquo e preocuparom-se da repressom interna, mas a apreensom do norte do Iraque ate a passagem fronteiriço Jordâno-Iraquiano e as contínuas deserçons rebeldes cara o ISIS fam aumentar os temores de que estes obtenham as bases para atacar o país desde o norte e leste agindo coordenado com apoiantes internos do ISIS, de modo que os serviços de segurança procederom a rusgas contínuas e de olhar para trás a Israel e tentar reativar os acordos de ajuda mútua em caso de conflito.

Curdistam

Outro cenário onde as rivalidades podem ter levado à catástrofe tem sido a longa luita pola supremacia política no Curdistam entre Barzani e o seu partido (KDP), que governa junto à UPK (PUK) a Regiom Autônoma Curda contra este mesmo partido ao longo da década dos 90 na Regiom Autónoma curda do Iraque, e mais tarde contra o KCK (coordenadora de organizaçons curdas dlideradas polo pensamento de Abdullah Ocalan, preso na prisom turca de Inrali) e que som maioritárias tanto na Turquia como na Síria e no Iram.

Depois de uma breve experiência de autonomia curda no Iraque desde 1970 até o seu colapso em 1974, os curdos do Iraque tiverom que esperar até a primeira Guerra do Golfo para iniciar uma insurreiçom geral curda (e xiita no sul do Iraque) que levou à restauraçom da regiom autônoma curda. Umha vez alcançado o objetivo comum dos curdos iraquianos de todas as ideologias logo começarom as diferenças entre eles, especialmente depois de umhas eleiçons realizadas e um  território nom delimitado povoado por curdos e em que tanto o KDP de Barzani como a PUK de Talabani considerarom ter ganhado, começando em 1994 umha guerra em que tanto um partido como o outro ajudarom-se dos governos e exércitos dos países que os ocupavam.

Cierzo 03Assim em 1996 Barzani recorreu ao exército de Saddam Hussein para ajudá-lo a derrotar as milícias da PUK em áreas onde eles eram minoria causando umha retirada destes para a fronteira com o Iram a partir da qual eles procurarom a ajuda da Guarda Revolucionária e o PKK curdo (que na época já levava umha década de luita contra o estado turco) conseguendo recuperar o território perdido. Dado o envolvimento do PKK no conflito, o exército turco lançou umha ofensiva na Regiom Autónoma curda contra o PKK causando pesadas baixas e estabelecendo um precedente de invasons do norte da regiom autônoma curda com o consentimento do seu governo para acabar com as bases do PKK.

Em 1998, após o bombardeio do Iraque polos EUA para parar a ofensiva iraquiana contra a PUK, foi estabelecida umha zona de segurança no norte do Iraque, a retirada das suas tropas ao sul da zona de segurança, e aprovado um programa da ONU chamado Petróleo por alimentos que forneceu de enormes quantidades de dinheiro a ser geridos pola Regiom Autónoma. A possibilidade de ver fluir grandes quantidades de dinheiro que poderiam gerir conjuntamente o KDP e a PUK levaram a fazer a paz esse ano e compartilhar o poder na Regiom Autónoma curda, um acordo que dura até hoje.

Umha vez que ficou claro supremacia do KDP na Regiom Autónoma Barzani só tinha um rival importante para fazer-lhe fronte como líder dos curdos: Ocalan e o PKK que levava anos de luita contra o Estado turco, e, após a queda do bloco soviético que financiou as suas atividades contra o estado turco através de umha Síria que forneceu umha retaguarda segura e serviu como um intermediário entre o PKK e Moscovo, viu como, ao ver-se sem super-potência protetora contra umha possível agressom turca finalmente assinou um acordo de segurança que implicou a expulsom do PKK da Síria. Assim, Ocalan começou umha turnê por diferentes países na busca de asilo até que foi sequestrado polos serviços secretos turcos na Quênia e preso em uma prisom de máxima segurança.

No início deste século, e depois de alguns anos de prisom, Ocalan abandonou o marxismo-leninismo abraçando o Confederalismo Democrático em umha tentativa de unir os curdos de diferentes países em umha estrutura política sem remover as fronteiras existentes.

Para isso dissolveu o PKK e criou um guarda-chuva em que as organizaçons sectoriais, os partidos políticos e as milícias que aceitaram o Confederalismo democrático estiveram representados e servir como órgao político do povo curdo no seu conjunto chamado KCK (Confederaçom de Comunidades do Curdistam/ Koma Civakên Kurdistán.

Assim, a partir dos pontos propostos por Ocalan forom surgindo um partido político para cada estado (Kongra Gel e formaçons sucessivas que tentam lidar com as ilegalizaçons na Turquia, o PYD na Síria, o PJAK no Iram e no Iraque o PÇDK), um braço armado para cada estado, se a situaçom política o requeria (todos encontrarom as suas milícias necessárias para proteger a povoaçom curda), organizaçons de mulheres, jovens e migrantes fora do Curdistam.

E enquanto a milícia do partido trasladava-se para as montanhas no norte do Curdistam iraquiano, onde sofreu represálias contínuas do exército turco, com a aprovaçom do governo da Regiom Autônoma Curda liderada por Barzani, durante a primeira década deste século, quando se sucederom as tréguas e o retorno às armas até que o governo turco e Ocalan sentarom a negociar umha paz duradoura, negociaçom esta que veu junto com a marcha de todas as milícias do PKK às montanhas de Qandill no Curdistam iraquiano.

O novo discurso de Ocalan logo prendeu nas minorias curdas na Síria e no Iram que sofriam um nível de repressom semelhante ao turco e o PYD e o PJAK tornarom-se em opçons maioritárias nas suas respeitivas comunidades. Tanto assim, que na Síria, como resultado do vácuo de poder pola guerra civil que assola o país desde 2011, o PYD conseguiu atrair a maioria da povoaçom de Rojava de todos os credos e etnias com o seu discurso e erguer um governo autónomo composto por três cantões federais com base nos princípios do Confederalismo Democrático, apesar das reticências do ramo sírio do PDK que manobrou para torpedear o processo, e a recusa em reconhecer a autonomia curda na Síria por Barzani e os órgaos políticos da Regiom Autônoma curda do Iraque.

Outro sinal de hostilidade de Barzani ao projeto político de Ocalan que sofreu o povo curdo, foi o fechamento contínuo da fronteira entre a província de Hassakah e a KRG no mais duro da ofensiva das milícias islâmicas e do ISIS contra os curdos de Rojava aos que qualificavam de apóstatas e militantes do PKK. Este processo vergonhoso culminou em 2014, quando o KRG sumou-se a Turquia ao escavar fossos profundos ao longo da fronteira para impedir a marcha dos curdos (e árabes e assírios) que fugiam da ofensiva do ISIS que pretendia erradicar a autonomia curda de Rojava.

Mas às vezes a história é caprichosa e toma a vingança, no mês de Julho de 2014, e depois de frear  o exército iraquiano a ofensiva do ISIS nas aforas de Bagdá, isso virou os olhos do ISIS contra o Curdistam iraquiano, lançando umha ofensiva contra territórios curdos do norte do Iraque protegidos por Peshmerga mas que nom som a Regiom Autónoma em sentido estrito, forçando a retirar-se aos Peshmergas quase ate as portas de Erbil e deixando à sua sorte a centos de milheiros de curdos que viveram desde tempos imemoriais nessas áreas reivindicadas pola Regiom Autónoma e com a grande desgraça de pertencer a grupos religiosos considerados heréticos polo ISIS, assim que sacrificando as forças de combate das suas respectivas frentes, membros da milícia da KCK da Turquia, Síria e do Iram chegarom à zona para combater o ISIS e evitar a certa massacre da minoria curda e umha vez afastado o perigo formar e armar umha milícia de auto-defesa dos curdos da zona de Sinjar.

Assim, a resposta solidária e altruísta às repetidas mostras de mesquinhez de Barzani trouxa enorme popularidade para a KCK no Curdistam iraquiano, onde o seu braço político (PÇDK) era bastante marginal, e isso tem forçado Barzani a colaborar com as milícias do KCK na luita contra o ISIS, a burlar o veto, a armar as milícias do KCK por estar incluídas na lista de organizaçons terroristas Ocidentais (via carregamentos de armas à PUK que esta reparte entre as outras milícias), a reconsiderar a declaraçom de independência da Autonomia curda do Iraque que baralhava meses antes (depois de receber o apoio turco e israelense a umha possível declaraçom unilateral) e assim promover a coordenaçom entre a Regiom Autónoma curda e a KCK de cara à auto-determinaçom do Curdistam e a enviar Peshmerga para ajudar às YPG a frear a  ofensiva do ISIS para erradicar o cantom autônomo curdo de Kobanê e eliminar fisicamente os seus 400.000 habitantes.

A este dia, apesar do apoio militar da Regiom Autónoma do Curdistam do Iraque e dos jovens vindos da Turquia e do exílio na Europa a situaçom em Kobanê é desesperada porque o cantom foi praticamente reduzido à cidade sofrendo ataques diários desde o oeste, sul e leste com armas pesadas, enquanto Turquia dificulta a saida de refugiados curdos e a entrada da pequena ajuda militar que recebem os curdos como armas ligeiras e voluntários. [Desde outubro de 2014, as YPG pararom e depois expulsarom da cidade o ISIS em janeiro de 2015 logo de que tomaram o 80% desta. Passando à ofensiva na luita contra o ISIS e, progressivamente, recuperando todo Canton. Criando umha força conunta com árabes, turcomanos, assírios e siriacos, as SDF que cpnseguirom unificar territorialmente o Cantom de Kobanê com o de Cizire polo Oeste; levar a linha da frente a 60 km de Kobanê no sul, e atravessando o rio Eúfrates polo oeste ate Manbij].

Líbano

Se há um lugar no Oriente Médio que melhor encarna a máxima de “O inimigo do meu inimigo …” Este é o Líbano. Desde o seu nascimento em 1920, resultado de romper o território costeiro da Síria, povoado na maior parte por maronitas que reivindicavam um Estado própria que mantivesse relaçons com o Ocidente, o Líbano viu-se arrastado a conflitos armados polas alianças regionais das diferentes minorias que componhem o país (cristians de diferentes tipos, sunitas, xiitas e drusos).

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Minorias religiosas em Líbano.

Tendo obtido a independência em 1942, nom demorou mais de umha década para se tornar envolvida na agitaçom que cercou o Médio Oriente na sequência da nacionalizaçom do Canal de Suez e a subsequente guerra que envolveu Israel, Gram-Bretanha e França, por um lado, e Egito polo outro. Se a constante dos países árabes foi romper as relaçons diplomáticas com o Ocidente, o presidente recém-eleito Chaoum (de onfissom cristiam) opta por nom fazer parte da República Árabe Unida e aproximar-se diplomaticamente o Ocidente , como represália Egito e outros países árabes armam aos palestinos que foram expulsos de Israel na década passada para que este tomem o Libano estalando umha guerra civil que é sufocada polos cristians com a ajuda dos EUA.

Uma paz relativa é estabelecida no Líbano até o final dos anos 60, mas depois da Guerra dos 6 Dias e o Setembro Negro de Jordania a situaçom no Líbano polariza-se, conforme os palestinos aproveitando um acordo de extraterritorialidade usam os campos de refugiados como campos de treinamento e base para lançar ataques contra Israel sem que o exército libanês poida intervir. De 1970 a 1975, a situaçom vai gradualmente degradandp e dividindo o país em dous blocos, um conservador cristiam defensor de reprimir os palestinos e de ter ligaçons com Israel e um bloco muçulmano progressista defensor de apoiar os palestinos.

A partir de 1975 começou um conflito intermitente entre as diferentes facçons libanesas (e palestinas) apoiadas por potências estrangeiras acompanhadas por invasons do Líbano, dos países vizinhos para tentar fazer a paz, ou simplesmente evitar ataques terroristas no seu território do Líbano que durou até os Acordos de Taif em 1989.

Assim, ao longo desses 15 anos viu-se como a Síria invadiu o norte do Líbano para defender os maronitas (e assim limpar as bases terroristas islâmicas desde onde se lançava a campanha terrorista de extermínio do partido Baath e os intelectuais sírios alawítas), e posteriormente mudar de aliança e juntar-se ao bloco palestino/muçulmano/esquerdista, como Israel invadiu o território libanês repetidamente para criar zonas de segurança dentro do Líbano para acabar com as campanhas terroristas no norte do seu país, como o Iram estava envolvido no conflito organizando política e militarmente ao Hizbullah xiita ou mesmo como umha segunda frente na guerra Iram-Iraque, Saddam Hussein armava os maronitas para enfrentar-se o Hizbullah, tudo isso apesar da existência de forças de interposiçom da ONU.

Os Acordos de Taif eram básicos para alcançar a paz no Líbano e consistiu na reforma do sistema eleitoral libanês, polo que os escanos no parlamento estariam divididos ao 50% entre cristians e muçulmanos, o reparto de cargos institucionais também realizada com base a critérios religiosos polo qual o presidente sempre seria um cristiam, o primeiro-ministro sunita e o porta-voz do Parlamento xiita, também todas as facçons libanesas e palestinas concordaram em desarmar-se (exceto o Hizbullah), o exército libanês ia ser o garante da segurança nacional e despregava-se pola maior parte do estado. Apesar destes acordos os combates entre o Hizbullah e Israel e o seu aliado (Exército do Sul do Líbano) continuarom ate a marcha israelense e a derrota militar do seu aliado no 2000.

Embora a paz chegara no início dos anos 90 com a assinatura dos Acordos de Taif e a derrota das milícias cristians anti-Sírias do general Michel Aoun, a ocupaçom síria continuou até o 2005, quando as mobilizaçons após a morte em atentado do Primeiro-Ministro libanês Rafiq Hariri, e conhecida como a Revoluçom dos Cedros, levou à saída do exército e dos serviços de inteligência sírios do território libanês.

À marcha síria do Líbano e a vitória eleitoral da coalizom anti-Síria liderada por Saad Hariri nas eleiçons legislativas, foi seguido por umha campanha de atentados contra os chefes das formaçons anti-Sírisa, que tinham ganhado as eleiçons o que elevou as tensons no país, até que um acordo entre Michel Aoun e Hizbullah estabeleceu os fundamentos de entendimento entre os blocos e ainda servem de base para acordos nacionais.

Apesar da partida da Síria e Israel de território libanês, os conflitos armados e o terrorismo continuarom a assolar o país, e a meados do 2006 o rapto de dous soldados israelenses na fronteira entre o Líbano e Israel resultou em umha escalada de confrontos que levou a fortes combates entre elas por semanas e só terminou após a intervençom do Conselho de Segurança das Naçons Unidas. Se em 2006 o conflito foi devido a Hizbullah, em 2007 eram militantes salafistas acampamentos palestinos, quem quase levou à guerra civil no Líbano, ao enfrontar-se  ao exército libanês por meses em um conflito onde houvo 500 mortos e cerca de mil feridos, quando as forças de segurança libanesas forom deterr em um acampamentoo perto de Tripoli os responsáveis de explodir vários autocarros em umha cidade cristiam nas proximidades. Depois de vencer militarmente, os primeiros brinquedos de erigir governos islâmicos salafistas, os anos seguintes no Líbano tenhem decorrido entre governos provisórios, crises políticas e atentados terroristas dirigidos contra líderes políticos e indiscriminados contra a povoaçom civil.

Se esta situaçom era instável em si foi agravada com o início da guerra civil síria em 2011 em que xiitas, sunitas e alawitas libaneses estiverom envolvidos na guerra civil na Síria diante de umha inibiçom incompreensível dos cristians que considerou a guerra como algo alheio a eles, enquanto observavam as milícias sunitas ligadas aos rebeldes sírios cometer massacres de cristians na vizinha província síria de Homs.

Assim que por 3 anos houvo confrontos armados entre jovens de confessom alawíta e salafistas em Trípoli e arredores, ataques indiscriminaaos bairros de maioria xiita em Beirute efectuados por grupos terroristas ligados ao ramo sírio da Al Qaeda ou ISIS, umha insurreiçom Salafi em Sidon que foi reprimida polo exército após 25 horas de combate, e o desmantelamento das milícias do xeque Ahmed Assir e a invasom direta por militantes islâmicos de Al Nusra (Al Qaeda na Síria) e ISIS à cidade de Arsal (que acolhia a dúzias de milheiros dos  milhons de refugiados sírios no Líbano) da regiom síria de Qalamoun e que resultou na expulsom das milícias fundamentalistas d a Síria, levando consigo 20 soldados libaneses reféns.

Esta invasom e outras planejadas polo ISIS, com a intençom de integrar o Líbano como regiom do Estado Islâmico finalmente começarom a preocupar e envolver à maioria cristiam na luita contra o fundamentalismo islâmico que está sangrando a vizinha Síria e o Iraque e começa a abundar campanhas multireligiosa de repúdio ISIS como o surgimento de grupos de autodefesa mistas formados por cristians e xiitas e drusos que estam sendo armados e treinados por Hizbullah.

Qatar – Arábia Saudita

Surgida após a implosom do califado otomano e da uniom pola força das armas dos vários reinos da Península Arábica, Arábia Saudita pola legitimidade que lhe deu a custódia de duas das três cidades santas do Islam (Meca e Medina) erigiu-se por anos como líder e mediador de conflitos entre estados com maioria muçulmana, enquanto se apresentava como ideólogo e financiador mundial de umha versom radical do Islam (wahhabismo), que é a religiom oficial do país (por exemplo, Ben Laden).

Durante décadas Arábia gostava desta posiçom privilegiada graças à tolerância de países ocidentais que permitiam abusos dos direitos humanos no seu país e o financiamento de organizaçons terroristas que atentavam objetivos ocidentais em troca de petróleo barato; mas a estrela Saudita minguou após a Guerra do Golfo, na que Arábia tivo que recorrer a Ocidente para resolver umha guerra que, na opiniom de Bin Laden poderia ser resolvida entre os muçulmanos. Assim, enquanto Arabia declinava, Qatar foi emergindo como umha potência econômica e política na regiom disposta a disputar a liderança saudita.

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Conselho de Cooperaçom do Golfo (GCC)

Embora a financiar por anos a semelhantes ou os mesmos grupos terroristas fundamentalistas em todo o mundo, a rivalidade entre os dous países cresceu ao longo do tempo, ja que patrocinavam duas correntes islamistas antagônicas (a Irmandade Muçulmana Qatar e Arábia o wahhabismo), sendo o detonante a descoberta de umha conspiraçom da Irmandade Muçulmana para tomar o poder nos Emirados Árabes Unidos, naquel tempo outro membro do Conselho de Cooperaçom do Golfo (GCC), do qual Qatar e Arábia fam parte.

A partir desse momento o CCG dividiu-se entre os partidários do Qatar (basicamente Kuwait), os partidários da Arábia Saudita (EAU que era a que sofrera a tentativa de golpe e Bahrein, com o seu trono dependente da presença do exército de Arábia para nom ser derrubado pola maioria xiita) e Omam quem advertiu que se eles marchavam se continuavam os conflitos internos. Ao ser maioria os pró-sauditas (ao que também se sumava Jordânia como um candidato a participar do GCC), estabelecerom um bloqueio por terra, mar e ar a Qatar até que abandonara a sua posiçom de promover golpes pró-Irmandade Muçulmana na zona.

Qatar e Kuwait com outro estado governado por um ramo da Irmandade Muçulmana como éTurquia (aliados do Ocidente) som os financiadores das milícias que procuram impor governos islâmicos do Norte de África (Tunísia, Líbia e Egito) ou em Oriente Médio (Líbano, Síria e Iraque); e som mesmo suspeitos de financiar o ISIS através de fundos privados e ONGs amplamente subsidiadas por esses governos, o que levou, à sua vez a umha ruptura de Arábia com o terrorismo islâmico e apoiar os governos seculares que enfrentam às milícias patrocinadas por Qatar , Kuwait e Turquia como nos casos da Líbia e do Egipto.

Assim, mália nom descobrer-se ligaçom entre Qatar e Turquia com o ISIS, tanto Arábia como Jordânia e outros membros do CCG que os apóiam tornaram-se em objectivo prioritário do ISIS e nom é de excluir que em um curto espaço de tempo campanhas terroristas em Jordânia e Arábia ou até mesmo sofrer invasons de milícias do ISIS dos seus territórios.

Conclusom

A situaçom no Médio Oriente é muito complicada após o surgimento do Estado Islâmico (ISIS) e a proclamaçom do Califado mais tarde em junho deste ano e é improvável que seja resolvida à luz dos acontecimentos relatados anteriormente devido a ressentimentos pessoais e históricos de agentes diferentes na área que impedem um acordo mínimo para combater umha organizaçom que começa a expandir os seus tentáculos ao Norte de África, Ásia Central e o Extremo Oriente, absorvendo pequenas organizaçons salafistas existentes, a excisom de franquias regionais de Al Qaeda ou a deserçom em massa de militantes destas para se juntar ao Estado Islâmico.

A cimeira em Paris para forjar umha coalizom internacional para combater o Estado islâmico é a demonstraçom prática da incapacidade, ja que parte dos envolvidos na luita nom forom convidados a ela e a maioria daqueles que comparecerom não se comprometerom com nada mais de fornecer apoio logístico para bombardear as bases do ISIS que, embora que enfraquecem a organizaçom nom a derrotam completamente, como sim o faria umha operaçom militar no terreno que estam fazendo casualmente os que nom forom convidados a cimeira, nomeadamente o Iram, Síria, Hizbullah e as milícias curdas ligadas à KCK.

Portanto, a curto prazo, nom é de excluir que, sem ter abortado o califado, o cenário do Oriente Médio se repete em outras áreas problemáticas do mundo que também estam orientadas pola máxima de que o inimigo do meu inimigo e que o caos no que está assolada Líbia desde a derrubada de Gaddafi se torne em umha plataforma para criar um califado abrangendo aos seus vizinhos Mali, Chade, Tunísia e Egito.

Publicado em outubro do 2014 em Zabaltzen.

Cierzo Bardenero, residente na Ribera de Navarra é um apaixonado pola política, história e fascinado por Catalunha e o MENA (Oriente Médio e Norte da África). Tem publicado em Zabaltzen e Endavant entre outros, e é muito ativo e atinado nas redes sociais, pode-se seguer em twitter em @Cierzo_bardener

 

“Nós nom seremos levados ao matadouro.” Entrevista com Cemil Bayik co-lider do KCK

Nós não serão Conduzido até ao matadouro Artigopor Wieland Schneider, Qandil

O líder curdo Cemil Bayık compara a Erdoğan com Assad, critica a ajuda militar da OTAN para a Turquia, e demanda que a UE exerza pressom para parar a guerra.

As ruas acabam entre os campos em curvas estreitas. Em seguida, a visom abre-se a umha cadeia de montanhas cobertas de neve. Penhascos marrons escuros sobre nós. Em um deles está pendurado umha grande imagem do líder curdo Abdullah Öcalan. Aqui nas montanhas Qandil do norte do Iraque, perto da fronteira iraniana, entramos no território da organizaçom guerrilheira PKK.

Desde 1999 o líder ideológico do PKK está em umha prisom turca. Em 2013 Öcalan, desde a sua cela na prisom, pediu um cessar-fogo. Seguido de um processo de paz, que pretendia acabar com a guerra de décadas entre o Estado turco e a organizaçom clandestina curda PKK. Agora esse processo encontra-se em um caos tremendo com o o governo turco tentando destruir o PKK com umha ofensiva militar. Avions de combate turcos conduzem repetidamente ataques aéreos contra os refúgios do PKK nas montanhas de Qandil.

“Cerca de duas vezes por semana eles venhem e lançam bombas. Pode durar até seis horas “, di um jovem luitador do PKK. Um Kalashnikov e um mais velho rifle de assalto americano M-16 encostar num canto da pequena casa. Nas paredes cinzentas penduram cartazes com fotos de combatentes do PKK martirizados. Os homens bebem chá para se aquecer antes de retornar os seus postos no exterior do recinto. Este edifício é a primeira estaçom em um caminho para a área dos combatentes clandestinos curdos. Em um lugar secreto, a nossa entrevista com Cemil Bayık, o chefe do PKK- realizara-se.

Depois de umha hora de espera, o porta-voz de imprensa internacional do PKK aparece. Os nossos telefones celulares, mochilas e laptops devem ser entregues. Empilhando em um veículo todo-o-terreno, somos levados para as montanhas. Dirigimos-nos ao longo de pistas cujos profundos sulcos som preenchidos com a água marrom das choivas de inverno. Umha vez que sair, imos esperar mais umha hora em outro abrigo do PKK. Caminhamos a pé por montanhas cobertas de florestas e através dos pequenos vales que se encontram entre elas. Finalmente chegamos ao ponto onde o líder do PKK, Cemil Bayık nos espera com os seus guarda-costas.

* * *

Die Presse: Desde o Verao, forom atacados pola força aérea turca. Como conseguem sobreviver aqui nas montanhas?

CB: Nós resistimos a esses ataques porque o nosso movimento tem umha vontade forte. A Turquia nom pode quebrá-lo. A Turquia nunca vai obrigar-nos a nos submeter. Queremos viver em liberdade e de acordo com os nossos próprios valores, ou nom imos viver. Podemos pagar um preço elevado e sofrer perdas, mas o nosso movimento vai-se tornar mais forte. A Turquia é um país da OTAN e quer aderir-se à UE. Os EUA, a UE e os Estados membros da OTAN dim que cumprem certos valores. Turquia, com sua açom militar contra os curdos, está violando todos esses valores. No entanto, os EUA e a UE permanecem em absoluto silêncio e nom condenam os ataques turcos.

O que exatamente querem dos membros da Uniom Europeia, como a Áustria e a Alemanha que fagam?

Eles tenhem que intervir e avisar o governo de Ancara contra a continuaçom das violaçons dos valores europeus. Os membros da OTAN nom devem dar nengum apoio militar mais a Turquia. Áustria e Alemanha devem exercer pressom sobre o Estado turco para umha soluçom pacífica para a questom curda. A Turquia isolou o nosso líder, Abdullah Öcalan, na prisom desde abril de 2015. Desde entom, nom recebemos nengumha informaçom sobre el.

Como maciços som os ataques?

Turquia está atacando cidades no Norte do Curdistam [sudeste da Turquia] com tanques, artilharia e helicópteros. O exército turco está destruindo casas e matando qualquer pessoa que nom observe o toque de recolher. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, umha vez condenou o presidente sírio, Bashar al-Assad, por ter feito isso, por infligir terror de Estado na sua própria povoaçom. Mas agora Erdoğan está usando os mesmos métodos que Assad.

Realmente quer comparar a Erdoğan com Assad?

Sim. A Áustria e a Alemanha devem enviar delegaçons para as cidades sitiadas, como Silopi e Cizre. Dessa forma, eles vam testemunhar em primeira mao os crimes que forom cometidos lá contra os curdos. Se a UE nom intervém, esso significa que considera a devastadora situaçom nas cidades curdas como normal. A UE condenou as políticas de Assad. Por que nom fazer o mesmo com a Turquia?

Mas a Turquia é um parceiro mais importante para a UE, especialmente agora, para evitar umha emigraçom de mais refugiados sírios para a Europa. A chanceler alemá, Angela Merkel visitou o Presidente Erdoğan antes das eleiçons na Turquia. A UE precisa da Turquia.

Nós nom queremos que os membros da Uniom Europeia ou da OTAN cortem os seus laços com a Turquia. E esperamos que os países da UE cuidem dos seus próprios interesses vis-a-vis com Ankara. Mas eles nom podem promover os seus interesses à custa dos curdos.

Como pode a OTAN acabar com a sua colaboraçom militar com a Turquia? A Turquia é também um importante aliado na guerra contra o ISIS. Jatos turcos decolam de bases aéreas militares turcas e lançam bombas aqui em Qandil. Nom só isso, avions de combate norte-americanas decolam de Incirlik, como fazem os Tornados alemaes, para as suas missons contra o ISIS na Síria.

Os Estados Unidos, a UE, e a OTAN todos dim que estam luitando contra o ISIS. Eles também aceitarom a Turquia nesta aliança e usam Incirlik. Mas há aqui umha contradiçom: a Turquia é um importante apoio do ISIS, e os que luitam mais efetivamente o ISIS som os curdos.

Foi inteligente que a juventude do PKK iniciara umha rebeliom nas cidades do sudeste da Turquia? Agora todos os moradores civis estam sofrendo lá sob condiçons onerosas.

As açons do PKK nas cidades nom justificam que os militares turcos matem civis. Que o PKK apoia os rebeldes nas cidades nom dá ao Estado turco o direito de cometer os crimes que se cometem. Se se cometeu um erro, esso nom dá direito a Ankara para cometer outro erro. Os jovens nas cidades nom começarom a guerra. Eles defenderom o povo lá contra as massacres do exército. Öcalan e o PKK tenhem tentado resolver a questom curda por meio de negociaçons. Ao mesmo tempo apoiamos grupos democráticos que participam das eleiçons para entrar no parlamento e ser capazes de resolver a questom curda lá.

As eleiçons saiurom-lhe pola culatra a Erdoğan.

As eleiçons do 7 de junho foi um ponto de viragem. É privou a Erdoğan, com as suas idéias anti democráticas, da sua república presidencial. E do outro lado o HDP e outros grupos democráticos trabalharom para construir umha república democrática. O resultado das eleiçons foi que o AKP de Erdogan perdeu a maioria absoluta. El nom aceitou esse resultado e, basicamente, decidiu, dar um golpe de Estado.

Mas simpatizantes do PKK matarom dous policiais turcos em vingança polo ataque do ISIS em Suruç. E Ancara acusa o PKK e os seus seguidores da criaçom de umha administraçom paralela nas áreas curdas.

Quando vimos que Erdoğan estava a criar dificuldades à democracia em Ancara, tentamos construir estruturas democráticas ao nível local. Nom é sobre a separaçom da Turquia-é umha luita contra as idéias neo-otomana de Erdogan. O Estado turco usou a auto-gestom democrática e os políciais assassinados como umha desculpa para atacar os curdos. O planeamento militar para isso vinha acontecendo desde setembro do 2014.

Rússia tem-lhes oferecido ajuda?

Rússia compreende que os curdos som umha das forças mais importantes na regiom. Se a Rússia tivera a ajuda dos curdos, poderia aplicar as suas próprias políticas na Síria de forma mais eficaz e, ao mesmo tempo exercer pressom sobre a Turquia. O caos prevalece no Oriente Médio agora, e todo poder regional ou internacional está tentando promover os seus próprios interesses. Há, por exemplo, umha frente xiita e umha frente sunita. Rússia apoia a frente xiita, e os EUA a sunita. Os curdos nom apoiam nengum frente – nós temos o nosso próprio terceiro caminho. Mas nós queremos manter laços com integrantes individuais dessas frentes.

Se a Rússia oferecesse armas o PKK, a fim de enfraquecer Erdoğan, iriam aceitá-los?

Nós aceitaremos qualquer companheiro que aceite a soluçom democrática para a questom curda.

Se a situaçom no leste da Turquia agrava-se ainda mais, o PKK vai enviar as suas forças de guerrilha às cidades?

A Turquia já intensificou a guerra. Ninguém nesta situaçom pode negar-nos o nosso direito de autodefesa. Mesmo quando um animal é levado ao matadouro, el luita pola sua vida até o último momento. As unidades da guerrilha tenhem o direito de ir as cidades. Se as pessoas estám sendo assassinadas diante dos seus olhos, eles nom podem ficar de braços cruzados e observar.

O que deve ser feito para reiniciar o processo de paz?

Turquia deve terminar a sua política de guerra. O exército turco deve cessar os seus crimes nas cidades e regressar à mesa de negociaçons.

O presidente do Governo Regional do Curdistam, Massoud Barzani, exigiu que o PKK se retire das áreas jáziges em Sinjar, no norte do Iraque. Mas o PKK quere ficar. Nom existe o perigo de que esta situaçom poderia levar a umha luita entre o PKK e os Peshmerga da KRG?

Turquia quer provocar um conflito entre os curdos, mas nós nom imos deixar que aconteça. Já faz tempo que um congresso de unidade nacional, em que todos os partidos curdos participem.

Mas Barzani deixou claro que Sinjar deve continuar a ser parte do KRG.

Shengal [nome curdo para Sinjar] é a pátria dos jazidis, que som os curdos ancestrais. A questom de Shengal é, portanto, umha questom de todos os curdos- nom é umha questom apenas de Barzani, o KDP ou o PKK. Quando o ISIS atacou os Jazidis em Shengal, eles foram deixados indefesos. Nem os Peshmerga da KRG nem o exército iraquiano tomou a sua defesa. Foi o PKK quem enviou as suas forças guerrilheiras a Shengal para resgatar essas pessoas. Sem o PKK, todos os Jazidis teriam perecido. Sem o PKK também, os Peshmerga nom estariam em umha posiçom para depois poder voltar para Shengal.

Como apoiam os Jazidis agora?

Shengal ainda nom está inteiramente libertado. Ainda existem aldeias controladas polo ISIS. E o ISIS ainda está por perto, em Tal Afar e Mosul. Queremos ajudar os Jazidis lá para construir a sua própria administraçom e as suas próprias forças de defesa. Até que isso seja implantado, as nossas forças guerrilheiras permanecerám no lugar.

Qual lhe parece que deveria ser o futuro político da regiom?

Oficialmente, o governo central iraquiano ainda é responsável por Shengal. De facto, no entanto, a área está administrada pola KRG no norte do Iraque. O status de Shingle é, portanto, claro. Em nossa opiniom, seria bom se Shengal continua a fazer parte do Curdistam. Mas isso vai significar que adoptem um tipo de auto-administraçom. As pessoas de lá tenhem que decidir sobre o futuro estatuto de Shengal. Nengum partido curdo pode determinar um modelo para os Yazidis.

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Cemil Bayık. Sob o nome de guerra de Cuma, co-lidera, com Bese Hozat, a KCK (Coordinadora de comunidades do Curdistam), a principal organizaçom global do PKK e os seus partidos irmaos na Síria e no Iram. As forças militares da guerrilha do PKK estam subordinadas ao KCK. Bayık é a cabeça do movimento e é o número dois, após o líder ideológico preso Abdullah Öcalan.

Bayık tem sido um membro do PKK desde a sua fundaçom, em 1978, por isso é um dos seguidores mais longos de Öcalan. O PKK originalmente marxista luitou na Turquia por um Estado curdo. Agora procuram um tipo de autonomia a nível local.

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Este artigo foi publicado em alemao em Die Presse, 16 de janeiro de 2016 e traduzido por Janet Biehl e publicado em Kurdishquestion.

 

Criminalizando o Nosso Povo: Impacto Social da Proibiçom do PKK

Criminalizando 01Por Dilar Dirik

A inclussom do PKK na lista de organizaçons terroristas polos estados ocidentais criminaliza aos curdos. No entanto, a sua hipocrisia também criou umha comunidade ativa, mobilizada e consciente.

No ano passado, quando os grandes mídias ocidentais estavam confusos sobre os “terroristas do PKK” luitando aos “terroristas do Estado Islâmico,” isso evocou um cansado sorriso no rosto dos curdos que, além da opressom em casa, som estigmatizados e criminalizados em toda a Europa.

A denominaçom terrorista frequentemente demonizam um lado de um conflito, enquanto que imunizam o outro. Isso aplica-se especialmente para o conflito curdo-turco, com o segundo maior exército da NATO, de um lado, e um movimento armado de libertaçom nacional, por outro. Mas, neste caso, a designaçom de terrorismo também criminaliza a toda umha comunidade de pessoas, negando-lhes direitos fundamentais.

O ligado e desligado das listas dos grupos e estados, como o Iraque de Saddam Hussein, de acordo com a situaçom política do dia, som exemplos de como as listas negras som políticas, nom morais, independentemente das suas pretensons. Na realidade, as listas reforçam a violência patrocinada polo Estado, reforçando o monopólio do Estado sobre o uso da força, ignorando a legitimidade da resistência e nom fazendo distinçom moral entre grupos como o ISIS e movimentos que reagem à injustiça.

O Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK) foi designado como grupo terrorista polos Estados Unidos em 1997 e pola UE em 2002. Enquanto membros do PKK cometeram atos violentos na Alemanha na década de 1990, a violência nom foi o motivo para justificar a proibiçom, mas sim o PKK “perturbando os interesses da OTAN no Oriente Médio.” Ainda hoje, os políticos europeus afirmam que, enquanto a posiçom da Turquia sobre o PKK continua sendo a que é, eles vam-sese abster de levantar o embargo. Sempre que os governos parecem reconsiderando a inscriçom, é devido a tensons com a Turquia. Enquanto a listagem apazigua Turquia, também é um comodim de sinal que a proibiçom do seu inimigo pode ser removida se a Turquia se comporta mal.

Um nom tem que ser simpatizante do PKK para ver a proibiçom como um anacronismo. Em uma época em que o PKK nom só mudou o seu ponto de vista político, anunciou vários cessar-fogo unilaterais, e iniciou um processo longo paz de dous anos, é também a garantia de vida para muitas comunidades étnicas e religiosas no Oriente Médio como o mais forte inimigo do Estado Islâmico. Os antigos argumentos falham.

Criminalizando 03Mas, deixando de lado argumentos jurídicos e políticos, quais som as implicaçons sociais que as listas negras tenhem?

Na Europa, o povo curdo constitue umha das comunidades mais organizadas e políticas. O conceito de autonomia democrática é implementado sob a forma de assembleias das pessoas e das mulheres na diáspora. IIste potencial democrâtico por si mesmo é visto como umha ameaça.

Os governos europeus pretendem deslegitimar organizaçons entendidas como terrorista pola segmentaçom e “curtar” as bases de apoio através da criminalizaçom em umha tentativa de despolitizar as comunidades e quebrar os seus laços com a política em casa..

Mas os governos ocidentais som muitas vezes cúmplices na opressom que força a essas comunidades no exterior. Os mesmos estados que rotulam o PKK como terrorista som os principais fornecedores de armas de guerra da Turquia contra os curdos. A inteligência fornecida polos drones dos EUA matarom 34 civis curdos em 2011, tanques alemans destruíram 5.000 aldeias curdas na década de 1990 a maos do exército turco. Ironicamente, ao apoiar a guerra da Turquia contra os curdos, os Estados europeus também aceitavam milheiros de refugiados curdos, devido à perseguiçom política na década de 1990. A natureza geopolítica explícita dessas listas reforça a injustiça; assim, para a comunidade curda, a lista de organizaçons terroristas nom é um padrom para a moralidade ou a legitimidade, conforme os curdos morrem activamente sob a sua implicaçons. O que ela é, porém, é o assédio e abuso a umha comunidade de milhons de pessoas.

Na Europa, as pessoas nom precisam realmente cometer delitos para ser presos por adesom o PKK. Na Alemanha, que prossegue a criminalizaçom mais agressiva devido à longa tradiçom de colaboraçom política e econômica turco-alemana, os critérios de participaçom pode ser a mera simpatia percebida, que leva a escutas telefónicas, violência psicológica e física em manifestaçons, incursons em casas, e fechamento de instituiçons sociais e políticas. Participaçom em eventos sociais e políticos, que som normalmente os direitos democráticos protegidos ao abrigo dos acordos internacionais, é suficiente como critérios de adesom. Estâncias legalmente registradas, organizaçons estudantis e centros comunitários estam sob suspeita constante.

Pessoas som detidas sem ver provas contra eles devido à natureza secreta dos procedimentos de combate ao terrorismo. No caso de Adem Uzun, um proeminente político curdo e ativista, um motivo para prendê-lo foi ativamente fabricado polas autoridades Francesas.

Jovens curdos na Alemanha, França e Reino Unido, sem estatuto de residente ou cidadania, som objetivos por causa da sua vulnerabilidade e coagidos a colaborar com as autoridades como espias contra as suas próprias comunidades. Eles enfrentam ameaças de deportaçom quando recusam. Hoje em dia, os refugiados do Curdistam que escaparam do grupo Estado Islâmico som ameaçados e perseguidos polas polícias europeas para ingressar nas atividades políticas.

Repressons simultâneas som muitas vezes coordenada em toda a Europa e coincidem com a evoluçom do Curdistam. Pouco depois de anunciadas as negociaçons de paz entre o PKK e o Estado turco em 2013, a repressom contra ativistas curdos ocorreu sobretudo em Espanha, Alemanha e França.

A visita de Angela Merkel ao Presidente Turco Erdogan antes das eleiçons antecipadas de novembro expressou o apoio o seu regime autoritário-fascista e significava que a Europa iria fechar os olhos diante das massacres turcas se Erdogan mantinha os refugiados fora da UE. Enquanto as cidades curdas sitiadas como Silvan enfrentavam massacres polo exército turco, Alemanha realizava incursons em casas de curdos e detinha ativistas, enquanto eu escrevo.

Ao mesmo tempo, depois de ter passado a maior parte do ano em prisom, Shilan Özcelik, umha mulher curda de 18 anos, está sendo julgada em um tribunal britânico sob a acusaçom de terrorismo por supostamente querer participar da luita contra o Estado Islâmico. Ativistas acreditam que o Reino Unido, que criminalizava os curdos durante mais de umha década, quer definir a precedência com o caso da Shilan, especialmente depois de que o voluntário britânico Konstandinos Erik Scurfield morreu luitando contra o grupo terrorista islâmico ao lado dos curdos na Síria, o seu funeral foi recebido por multitudes louvando-o como um herói. O governo britânico está em aliança tácita com as forças curdas na frente, mas criminaliza a mesma luita internamente.

A estatísticas sobre simpatizantes do PKK na Europa baseiam-se só em suposiçons selvagens por parte das autoridades, porque a desconfiança mútua entre as pessoas curdas e as autoridades dos Estados europeus torna impossível de expressar as opinions políticas abertamente. O Reino Unido, França, Alemanha, Dinamarca quando fecharom vários canais de TV curdos, acusando-os de pesadas multas por supostamente apoiar o PKK. No caso de ROJ TV, o entom primeiro-ministro da Dinamarca, Anders Fogh Rasmussen, acredita-se ter proibido o canal para ganhar o favor da Turquia para o cargo de secretário-geral da OTAN, em 2009, de acordo com documentos revelados.

Que mensagem de aqueles que se orgulham com a liberdade de imprensa e a democracia enviam a centos de milheiros de curdos da diáspora que vêem esses canais como a sua única voz e conexom à sua terra natal?

Que ninguém é imune contra o sofrimento kafkiano constante da criminalizaçom é exemplificado polo caso de Nicole Gohlke, membro do Parlamento alemaode Die Linke. Em novembro de 2014, durante o cerco do Estado Islâmico a Kobane, ela falou em umha manifestaçom em Munique. Levantou a bandeira do PKK durante 15 segundos, dizendo: “Exorto o governo alemao a nom criminalizar símbolos como estes, porque a luita pola liberdade, os direitos humanos e a democracia está sendo conduzido sob esta bandeira em quanto nós falamos. Levantem a proibiçom do PKK! “Ela foi detida, obrigada a pagar umha multa e levantarom a sua imunidade parlamentar. Isso aconteceu em um ambiente político em que o PKK era aplaudido internacionalmente depois de resgatar dez mil Jazidis presos no Monte Sinjar.

Claramente, a designaçom de terrorismo é um véu atrás do qual esconde a Europa a sua própria maldade. É umha ferramenta de control para silenciar dissidentes e aniquilar consciência política. Mas o PKK é legítimo aos olhos de milhons de curdos; é impossível fazer qualquer distinçom entre “organizaçom” e “base social”. Quem assistiu a umha manifestaçom curda vai ter ouvido o slogan: “. PKK é o povo – e o povo está aqui”. Kobane, o bastiom da resistência contra o Estado Islâmicol, foi libertada com o slogan “Viva Abdullah Öcalan.”

Hoje, o movimento de libertaçom curdo em torno do PKK, especialmente com o paradigma pioneiro da libertaçom das suas mulheres, apela nom só aos curdos, mas para todos os povos oprimidos da regiom. Em Rojava e norte do Curdistam, a idéia da autonomia democrática baseada na coexistência de todos os compostos étnicos está tomando forma prática.

Criminalizando 02Quando Kobane estava sob cerco no ano passado, todo o mundo viu o poder de mobilizaçom da comunidade curda; centos de mobilizaçons espontâneas, greves de fome, ocupaçons e manifestaçons foram organizadas simultaneamente em toda a Europa em questom de horas. Ao mesmo tempo, a própria política de duas caras da Europa foram expostas quando o PKK salvou comunidades inteiras no Oriente Médio, enquanto o membro da OTAN- Turquia, apoiava grupos jihadistas, querendo ver os curdos cair diante do Estado Islâmico, tornando-se assim um dos principais fatores causais da crise dos refugiados, pola qual a UE agora puxa saco a Turquia.

Independentemente das suas pretensons moralistas, a repressom polas armas – que vendem os governos que apoiam estados opressivos como o da Turquia, que som realizados na esperança de assimilar especialmente os jovens curdos em acríticas partes, pacificadas do sistema por meio do isolamento e roubando-lhes as suas opinions, direitos democráticos, meios de comunicaçom e senso de comunidade, atingiu exatamente o contrário: cada vez mais autónoma, umha comunidade politicamente consciente, crítica que queimou as pontes com o sistema e está disposta a dedicar-se plenamente à sua luita legítima.

Dilar Dirik 34Dilar Dirik, 23 anos, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.

Publicado em Tele sur e KurdishQuestion.