“A Unidade no Curdistam do Sul terá um impacto positivo nas 4 Partes do Curdistam”

desmitasO co-presidente do Partido Democrático dos Povos (HDP), Selahattin Demirtaş falou sobre a visita em andamento do seu partido à Regiom do Curdistam (KRG) após a sua reuniom com o ex-líder da PUK (Uniom Patriótica do curdistam, segundo partido histórico da KRG), Jalal Talabani.

Em uma entrevista com Roj News, Demirtaş dixo que a visita tornara-se umha necessidade para abrir o caminho do Congresso Nacional Curdo e acrescentou: “Todos os nossas povos nas quatro partes do Curdistam querem que isso aconteça e querem que as tensons entre curdos diminuam.”

Iniciativa para limpar o caminho para o Congresso Nacional

Demirtaş dixo: “As tensons entre os partidos políticos no Sul do Curdistam tenhem um impacto negativo e reflexo sobre todo  o Curdistam. Sentimos a necessidade de tomar umha iniciativa na abertura do diálogo entre os partidos curdos de acalmar essa tensom e talvez abrir o caminho para o Congresso Nacional Curdo. Em última análise, o HDP tem um projeto e ideias para a resoluçom da questom curda. Também percebemos que todos os problemas estam ligados uns aos outros. Por esta razom, a evoluçom da Rojava e o Curdistam do Sul afeta-nos diretamente. Isso nom significa que estejamos a nos intrometer nos assuntos dos partidos políticos aqui. Nós estamos tentando ajudá-los a criar laços mais estreitos e manter canais de diálogo abertos. Os partidos digerom-nos que valorizam os nossos esforços.”

O co-presidente do HDP também acrescentou que era normal que os partidos políticos curdos pensaram de maneira diferente sobre as questons, mas que todas as questons, Ao final, teriam de ser resolvidas através do diálogo, algo que todos os lados estam dispostos a fazer.

Vimos desejo de umha soluçom para os problemas

“Até agora, em todas as reunions que tivemos, com Masoud e Nechirvan Barzani, o KDP, Komala, Yakgrtu (Uniom Islâmica do Curdistam) e outros partidos políticos e indivíduos, temos visto um grande desejo de resolver os problemas. Há grande desconforto com a forma como estam as cousas. Há muitas razons para os problemas que estam sendo enfrentados e cada umha tem umha abordagem diferente. Isso é compreensível. Mas nós vimos que há o desejo de reiniciar um diálogo, reúnir-se em torno de umha mesa e envolver-se diretamente. Usar a linguagem e abordagem dos partidos “um para o outro é muito importante. Um insulto ao outro e acusaçons através dos mídias tenhem que parar e todos concordam com isso. Este acordo nos faria felizes. É claro que nom é fácil de resolver todo imediatamente. Também nom é possível com umha visita e certamente nom é da responsabilidade do HDP. Os partidos políticos aqui vam resolver as questons entre si. Nós apenas queremos facilitar as cousas e abrir a porta para começar o diálogor”

Barzani assumirá as suas responsabilidades

O co-presidente do HDP também dixo que a abordagem do líder do KDP Masoud Barzani para resolver as questons em torno de unidade nacional foram positivas e que el tinha-se prometido que iria exercer as suas responsabilidades em relaçom ao Congresso Nacional.

As quatro partes do Curdistam estám aqui ‘

Demirtaş também falou sobre os confrontos actuais nas cidades curdas e os ataques do governo do AKP turco ao HDP. “Todo o mundo está ciente da nossa luita contra o governo estadual e o AKP turco. Acreditamos que, se pudermos garantir as relaçons entre os curdos terá um impacto positivo no Norte (Curdistam-Turquia) e Rojava. Por esta razom, é importante que haja unidade dentro de cada parte do Curdistam. Quero enfatizar que nom estamos aqui para resolver os nossos próprios problemas. Estamos a visitar para ajudar a resolver problemas entre os partidos aqui [do Sul do] Curdistam e questons de alianças e de diálogo no Norte e na Rojava. As pessoas tenhem grandes expectativas em nós. Nom so os partidos políticos, mas todo o povo nas quatro partes do Curdistam querem que sejamos bem sucedidos e desejam que as tensons entre curdos diminuam.”

Acampamento *Makhmour
*[O acampamento de refugiados de Makhmour foi fundado no 1994 com milheiros de curdos que fugirom da repressom na Turquia.]

A umha pergunta de um jornalista sobre a extradiçom de alguns curdos que tinham a sua autorizaçom de residência cancelada e foram entregues à Turquia pola KRG, Demirtaş dixo: “Eu falei esse tema ao Sr. Nechirvan Barzani e dixo que tinha expectativas a esse respeito . El está muito sensível e dixo que iria lidar com o problema. Prometeu que iria atender os problemas que enfrentam as pessoas [do Norte-Turquia] que trabalham aqui e também quaisquer problema no campo de Makhmour.”

“É uma honra estar resistindo para o nosso povo

Em relaçom à prisom de deputados do HDP Demirtaş declarou ter notícias de que o presidente da Turquia Erdogan tinha dado instruçons para isso e comentou: “Quero que o povo saiba que eles nom precisam de se preocupar por nós, polos seus deputados. Assim como todos os outros filhos deste povo sabemos como resistir, nós também imos torná-los orgulhosos. Nem umha soa pessoa vai ajoelhar ou obedecer as suas ordens e nrm umha soa pessoa vai dizer nada [no tribunal]. Este é o nosso dever e é umha honra. É umha honra resistir polo nosso povo.”

As pessoas devem-se levantar ‘

O co-presidente do HDP continuou; “Mas as pessoas também precisam de se levantar polos seus e suas deputadas. Quando há umha prisom, independentemente de quem é, todos devem tomar as ruas e fazer ouvir as suas vozes. Esta questom nom é o nosso problema pessoal. Devemos mostrar a Erdogan de que as cousas nom podem continuar desta forma. Imos resistir, imos resistir com o nosso povo. Imos levar perante os tribunais aos autores dos crimes contra o nosso povo; aqueles que queimarom e destruírom as nossas casas, mataram os nossos jovens e queimarom vivos os nossos companheiros,  nom vam ficar impunes.”

“O Presidente Öcalan fixo um chamado. Dixo que estava pronto [para a resoluçom]. El disse que tinha um projeto que poderia resolver o problema [curdo] em seis meses. Mas el também sabe que o AKP e Erdogan nom quere isso. A única maneira que nós podemos torná-lo possível é mantermos fortes, resistir e mostrar ao estado mais umha vez que eles nom podem nos fazer ajoelhar usando as armas, os bombardeos  e os tanques.”

Falando em curdo

Demirtaş respondeu as críticas de que ele era “o líder de um partido curdo, mas nom sabia falar curdo”, respondeu no dialeto curdo **Kurmancki (Zazaki).
**O zaza é um dialeto falado por 1,5-3 milhons de pessoas dos 15-20 milhons de curdos que vivem em Turquia].

Demirtaş dixo que era um curdo zaza e fala zazaki com a sua família e compreende Kurmanji e Sorani [os dous dialetos maioritários do curdo], mas nom sabe falar o suficientemente bem para fazer discursos políticos. “Por essa razom eu fago os meus discursos em turco”, dixo, antes de passar a perguntar se isso era algo para se envergonhar. “Sim, é algo para se envergonhar. Mas nom é a minha vergonha. É a vergonha do Estado turco. É a vergonha das suas políticas de assimilaçom. Essa política [de dizer que os líderes curdos som incapazes de falar curdo] é guerra suja, psicológica dos meios de comunicaçom controlados polo Estado turco. O nosso povo nom os ouve”, respondeu.

“Eu gostaria de falar todos os dialetos da minha língua materna: Zazaki, Kurmanji, Sorani e os outros dialetos. Ao invés de criticar as políticas de assimilaçom do estado eles estam tentando de nos envergonhar, o que mostra como desonrados eles som. Esta pode ser umha carência para nós, mas para eles é umha fonte de vergonha “.

 

Publicado em Roj News

 

 

O novo ano escolar em Rojava

Escola Rojava 03A transformaçom social da Rojava (Curdistam da Síria), quer revoluçom quer mudança, quer evoluçom tem umha pedra fundamental na educaçom. No dia a dia, olhamos para os movimentos militares, as vitórias, derrotas, mortes ou declaraçons políticas. Mas Rojava nom só está sendo construída nas trincheiras. É nas aulas, onde o movimento de libertaçom curdo quer ampliar a sua mudança social. A máxima é clara: a paz é construída nas escolas.

Escola Rojava 01 cPor isso houvo um triplo esforço que vai dar resultados nas próximas semanas com o início do curso. Primeiro com novos livros de ensino. Assad proibiu qualquer outra língua que nom fôsse o árabe. Após 52 anos de proibiçom haverá livros em língua curda, e a língua assíria vai ser ensinada, umha variante do aramaico, perseguido polo pai de Assad depois do seu golpe de Estado no 1970. E também por Assad filho depois de ter sido escolhido a dedo polo seu pai golpista em 2000. Agora, depois de dous anos sombrios, estream-se os primeiros livros de ciência em curdo, nomeadamente em dialeto Kurmanji.

Escola Rojava 02 bEm segundo lugar forom construídas novas escolas. Emblematicamente em Kobanê, a cidade destruída polo Estado Islâmico entre Setembro 2014 e Janeiro de 2015. Construirom-se escolas com a recolhida de fundos solidários.

Escola Rojava 04E, finalmente, formarom mais professores e, acima de tudo, professoras. Aos 700 do Cantom de Cizire agora se juntam mais alguns centos. Como aqueles que concluíram umha formaçom abrangente em Tell Temir, para ensinar árabe. Professoras e professores que ensinam seguindo o modelo de Rojava que foi introduzido há dous anos. Sem memorizaçom. Com um diálogo permanente professor-aluno. Com o convite aos  “mais velhos” para manter umha sinergia constante e a transferência de conhecimento para os estudantes.

Escola Rojava 06Baseado no artigo de Cristina Torrent para Kurdiscat.

Nom há um problema curdo na Turquia, apenas um problema com as letras X, W e Q

There is no Kurdish problem in Turkey, just a problem with X, W, Q letters

Umha família curda do distrito de Sason na província de Batman no Curdistam turco no sudeste do país, queria registrar o nome de sua filha recém-nascida como “Helqîs”, mas o secretário recusou-se a permitir o nome porque continha a letra ‘Q ‘, que nom existe em turco. O nome do bebê foi assim registado como ‘Helkız’., relatou a Agência de notícias ANF.

“Pode ter um nome curdo, mas com letras turcas”.

A família Aydın tivo umha menina este mês e desejava nomear à criança como a montanha Helqîs de Sason. No entanto, forom informados que a letra ‘Q’ estava proibida.

A família Aydın tem outros três filhos, cujos nomes são Nefel, Beritan e Siyabend.

O ‘Q’ nom é possível, imo-lo escrever com ‘K’.

Os Funcionários da Direcçom de Povoaçom digerom-lhe à família que, que nom havia nengumha letra ‘Q’ no alfabeto turco o nome Helqîz nom pôdia ser registrado. O pai, Davut Aydın, dixo: “Pensei em dar-lhe esse nome há muito tempo. Tinha fé no pacote de democratizaçom, mas parece que continua a mesma mentalidade de proibiçom. Eles digerom-me que poderia por um nome curdo, mas com letras turcas. Nós pensamos que a proibiçom do curdo fora levantada. Queríamos chamar ao nosso bebê Helqîz, nom Helkız. Mesmo se o seu nome no bilhete de identidade é Helkız vamos continuar a chamá-la Helqîz “.

O alfabeto curdo ainda nom é reconhecido na Turquia, e a utilizaçom das letras curdas X, W, Q que nom existem no alfabeto turco levou à perseguiçom judicial em 2000 e 2003.

Mesmo que as letras de “X, Q, W” estám no alfabeto latino e outras muitas línguas, o uso dessas letras em nomes curdos está proibido na Turquia com umha legislaçom de 1928. Algumhas normas legais realizadas no âmbito do “pacote de Democratizaçom” pola AKP, mas estas letras ainda estam bloqueadas. Os partidos políticos curdos também estam sendo investigados de forma contínua. As famílias, que querem dar nomes curdos para suas crianças, proibe-se-lhes polos serviços de registo de nascimentos.

Turquia, que ainda nega a existência constitucional dos curdos, recusa-se a reconhecer a sua populaçom curda como umha minoria distinta. Os curdos pedem mais direitos culturais para os curdos étnicos que constituem a maior minoria na Turquia, uns 22,5 milhons. Os curdos recramam levantar a proibiçom sobre a educaçom em curdo, abrindo o caminho para um sistema curdo democratico autónomo dentro de Turquia.

There is no Kurdish problem in Turkey, just a problem with X, W, Q letters

Suruç: Os refugiados de Kobane e a política lingüística

por Yvo Fitzherbert

All photographs by Yvo Fitzherbert (c)Crianças no acampamento de Şehit Gelhat em Suruç. Foto de Yvo Fitzherbert (c)

Estám saindo do acampamento da AFAD e vindo para este campo, porque eles nom querem aprender árabe,” Pervin, um organizador de acampamento no acampamento de Şehit Gelhat em Suruç explicou-me. Şehit Gelhat, o mais novo dos seis campos administrados polo pró-curdo PAD (Partido Democrâtico das Regions), vem recebendo centenas de refugiados de Kobane que chegarom polo funcionamento do acampamento do governo, o AFAD. Muhammad e sua família, que estivo no acampamento da AFAD depois que foi construído, e veu ao acampamento Şehit Gelhat a começos de Fevereiro. “Nós nom fomos bem tratados. Eles nom nos permitem ser livres e mantiverom-nos como prisioneiros”, Muhammad explicou como nos sentamos fora da sua tenda- alojamento,” sempre tinhamos que falar com eles através de tradutores de árabe. Preferimos ficar com os nossos irmaos curdos neste campo.

O acampamento de Şehit Gelhat está dirigido polo partido pró-curdo local e os curdos da Turquia, que vinherom a apoiar o grande afluxo de refugiados que fugirom de Kobane por volta de outubro. Na medida em que entramos no campo de refugiados, temos umha sensação de relaxamento, de co-habitação entre as autoridades dos campos e os refugiados. Na entrada, os refugiados entram e saem do campo, muitos recolhem folhas silvestres comestíveis que crescem nas proximidades do campo. Um mercado foi criado polos refugiados, e um banho turco está em construção. Na sala há umha aula improvisada, o professor explicou-me que todo o ensino é feito em curdo, algo polo que os curdos da Turquia tenhem luitado muito. Ninguém parece sem jeito, e os refugiados som livres para fazer o que quigerem.

Afad 03Acampamento da AFAD em Suruç

Em contraste, no campo AFAD há um sentimento de impotência. Chegando ao acampamento, onde os soldados e gendarmes guardam a cerca em torno dela, a atmosfera entre os funcionários e os refugiados carece de co-habitação. É necessário permisso para qualquera entrar. Umha vez lá dentro, fomos escoltados ao redor do imaculado campo. A AFAD, o órgao do governo responsável da ajuda humanitária na Turquia, dirige um total de 23 campos para além da fronteira da Turquia com a Síria. No entanto, este acampamento, que foi inaugurado o dia 25 de janeiro é o maior da Turquia, com umha capacidade de 35.000. Até o momento, apenas 7.000 refugiados estam no campo, já que muitos refugiados optam por ficar nos acampamentos do município.

Afad 02A razom de que o acampamento da AFAD nom atingiu a plena capacidade é que, para muitos curdos, o campo da AFAD representa algo que pensavam que tinham deixado para trás: a educação em árabe. Junto com a educação básica em turco, a escola no campo da AFAD é toda em árabe. Durante décadas, os curdos sírios forom obrigados a estudar em árabe, em vez de na sua língua materna, o curdo. No entanto, quando Kobane e os outros cantons curdos de Cezire e Afrin afirmarom a sua autonomia em julho de 2013, começarom a educar às crianças em curdo.

“Ela representa um retrocesso para nós”, salientou Muhammad quando el me ofereceu um cigarro, “Eu fum educado em árabe, mas é por isso que eu nom quero que os meus filhos tenham que passar polo mesmo calvário.”

Desde a perspectiva do governo turco, a sua decisom de educar aos refugiados de Kobane em árabe e turco é umha tentativa da parte deles de negar a identidade curda dos refugiados. O AKP tentou publicitar-se a si mesmo como um campeom da ajuda humanitária aos seus irmaos sírios. Enquanto eu visitou o acampamento da AFAD, eles continuamente referem-se aos refugiados como sírios, ao invés de curdos. O Estado turco preferiria ver a crise de refugiados de Kobane como parte da mesma crise que enfrenta aos milhons de outros refugiados sírios, dissociando-a assim do seu próprio problema com os seus cidadaos curdos.

Afad 01No entanto, a recusa em ver estes refugiados como curdos saiu pola culatra com centos de famílias deixando o acampamento da AFAD para os campos do município, mais relaxados e amigaveis, que mantenhem um forte sentido da solidariedade curda transfronteiriça. Além disso, de todos os refugiados Kobane com quem falei, eles enfatizarom como a Turquia habitualmente fai vista grossa para o fluxo de jihadistas do ISIS que atravessam a fronteira. Em contraste, a Turquia impom um rigoroso embargo sobre os cantons autônomos curdos da Rojava (dos quais Kobane é um), e freqüentemente disparam às pessoas que tentam atravessar ilegalmente. O que parece claro é que a agenda humanitária da Turquia fai parte da sua política mais ampla de subestimar as aspiraçons curdas em toda a regiom. Como um comerciante de Suruç me explicou, “a tentativa da Turquia de fazer valer a sua agenda sobre o sofrimento dos refugiados é prova de como eles som indignos de confiança quando se trata dos curdos.”

Yvo Fitzherbert é um jornalista freelance que vive em Istambul, concentra-se na política turca e curda. Escreve umha coluna semanal para o Internacional Times e também escreve para o MiddleEastEye. Pode ser seguido no Twitter em @yvofitz.

http://kurdishquestion.com/index.php/kurdistan/west-kurdistan/suruc-kobane-refugees-and-language-politics.html

Se Perdemos a Nossa Língua, Perdemo-lo Todo: A Política da Língua Curda na Turquia

Por Yvo Fitzherbert

Aulas 01Proibido por décadas na República de Turquia, a língua curda estava à beira de se perder. Mas com os avanços recentes na educação em curdo, esta agora a língua renacendo?

O livro de memórias de Helîm Yûsiv é umha história, umha história de curdos, em curdo. Para os curdos, separados artificialmente polas fronteiras da Turquia, Iram, Iraque e Síria; a batalha pola lingua tem estado na vanguarda da sua resistência. A língua foi sempre um instrumento essencial na preservaçom da cultura, um modo de compreender um povo. E na Turquia, onde a pressom sobre o curdo foi a pior, a dolorosa verdade é que, para muitos, o curdo é uma língua esquecida. A lingua do passado. Esta realidade é algo do que a muitos da vergonha. E para aqueles que saben curdo, há desespero sobre porque muitos nom o fazem: “. Se perdermos a nossa língua, perdemo-lo todo. Turquia tem uma maneira completamente diferente de pensar em relaçom ao curdo,” um amigo curdo chamado Rıdvan dixo-me. “Se nós nom o sabemos, se somos assimilados, entom esta assimilaçom é um feito, nom apenas mudar o que pensamos, mas a forma em como pensamos.”

Em um café em Diyarbakir, eu conhecim um jovem curdo estudante chamado Fırat. Ele nom sabia falar a sua língua materna. “Tenho vergonha disso”, dixo el. “Quando eu era voluntário na fronteira de Kobani, umha criança perguntou como eu podia ser curdo e nom conheçer a língua curda. Eu sentim-me estranho.” Para a criança, a linguagem e a identidade estavam intrinsecamente ligadas, de uma uniom inseparável. E a criança apresenta um ponto, Fırat dixo-me: “nom sei curdo e estou muito assimilado, o que, infelizmente, me fai menos curdo.”

Umha linguagem subterrânea

O curdo foi durante muitos anos umha lingua proibida. A publicaçom e uso do Kurmanji, o principal dialeto curdo, estava estritamente proibido em 1924, e forom aplicadas multas em qualquer um que se atrevera a quebrar essa lei. Devido a isso, o curdo foi confinado à casa, um refúgio seguro onde podiam falar livremente a sua língua. Para muitas crianças, que saiam de casa de manhá e tinham que usar o turco na escola, chegar a casa e falar curdo era um grande alívio. A necessidade do turco era óbvia, a fim de sobreviver na vida pública, mas o curdo ainda mantinha um destaque na esfera doméstica como esta era a única área que o Estado nom podia tocar.

“No passado, nós falavamos curdo [em casa], porque os nossos pais nom sabiam turco”, dixo-me Ziya, “mas isso está mudando. A geraçom de curdos cuja educaçom foi toda turco cresceu;. Falavam turco na vida familiar. “Por que eles nom se passavam à língua curda? A reproduçom natural da lingua na casa está sob ameaça, ja que o nível de turco é significativamente maior do que o do curdo. Mesmo se o Kurmanji é falado em casa, poucos sabem-no tam bem quanto o turco porque nunca tiverom umha educaçom nel. “Quando eu era criança, nós só usamos 300-400 palavras curdas na nossa aldeia, porque era todo o que precisávamos.” Explicou-me Ahmet, um estudante curdo. “Agora que eu tenho quinze anos de educaçom em turco, em que língua você acha que eu soom melhor falando?”

De 1924 em diante, Ancara recusou a reconhecer a lingua curda como diferente -ou até mesmo umha etnia diferente. O seu objetivo era assimilar totalmente aos curdos na identidade turca, e o Estado turco fai isso por se recusar a reconhecer a existência dos curdos, em vez referindo-se a eles como ” turcos das montanhas” que perderam a sua língua, devido à inacessibilidade das montanhas. “Fomos ensinados a pensar em nossa cultura, o curdo, como um sinal de incivilizados e indisciplinados”, dixo-mo Mehmet, um ativista curdo. “Para chegar a algum lugar neste país, tivemos de assumir umha identidade turca. Mesmo falar curdo foi visto como um sinal de atraso.” A repressom da língua curda polo Estado turco pode ser visto como um componente crucial na assimilaçom da cultura curda na sociedade turca, criando umha identidade mono-linguística homogeneizada. “Se perdermos a nossa língua, que temos?” continuou Mehmet. “Podemos continuar chamando-nos curdos se só sabemos turco?”

Mesmo em Diyarbakır- umha antiga fortaleza cuja povoaçom de dous milhons, inchado de refugiados, tornou-se no maior centro povocional do curdo do mundo – o Turco é a lingua nas ruas. “A triste realidade de Diyarbakir é que a política de assimilaçom destinada a esmagar a língua curda foi bem sucedida. Eu vejo diante o turco em todos os lados”, explicou um jovem escritor curdo chamado Ömer Faruk Baran. “A primeira cousa que penso quando eu acordo é se eu vou pensar hoje em turco ou curdo.”

Apesar de tudo isso, tem havido alguma melhoria ao longo da última década. Já nom há curdos presos por falar Kurmanji em público. Há jornais em curdo, livrarias curdas, até mesmo um canal de TV curda. Por que Ankara relaxou? Muitos curdos apontam ao PKK e a sua resistência armada, cuja recusa a ceder à opressom do Estado forçou aos governos turcos a procurar outras soluçons. Outros som mais cínicos. Depois de duas longas décadas de guerra civil, o Partido da Justiça e o Desenvolvimento (AKP) chegou ao poder com um novo mandato em 2001. Os seus líderes – Recep Tayyip Erdoğan e Abdullah Gül – virom o potencial apoio da povoaçom curda e imediatamente começarom a fazer campanha no sudeste. Eles enfatizarom o islamismo sunita como um laço que une aos curdos e turcos, enquanto ao mesmo tempo levantava as restriçons aos direitos civis curdos e ao uso do Kurmanji. Umha inovaçom nas eleiçons do 2007, o AKP regularmente agora ganha mais de um terço dos votos curdos e é umha séria ameaça para o partido dominante da esquerda curda, o DBP.

Educaçom curda na Mardin Artuklu University e o governo

Em resposta à nova postura liberal de Ancara, o curdo fai umha espécie de retorno. Umha série de instituiçons começaram a florescer, e promover a língua. Umha dessas instituiçons é a Mardin Artuklu University. O ” Departamento de Línguas Vivas ” ensina literatura e língua curda como um programa de mestrado. Instituído no 2010, o programa foi projetado especificamente para treinar professores curdos para o ensino secundário. A prestaçom deste tipo de educaçom tem sido umha das principais reivindicaçons do movimento curdo na Turquia; este governo, que parece, aceitou a reforma como inevitável se o processo de paz é para ser bem sucedido.

A partir do momento em que o departamento foi inaugurado em 2010, tem sido um sucesso estrondoso. Mais de 1.000 alunos se formaram a partir do programa, a criaçom de umha asociaçom pronta de professores treinados em curdo à espera de ser atribuídos a escolas para ensinar. A cabeça amplamente respeitado do departamento, Kadri Yıldırım, é um dos primeiros professores curdos na Turquia. Como um homem que vem de um fundo religioso e que nom tem conexons imediatas com o movimento curdo, Kadri era ideal para as mentes religiosas do AKP, que tinham receio de empregar alguém envolvido na política curda.

Mas o relacionamento do departamento com o governo azedou quando foi preso no final de novembro. Junto com setenta e oito quadros burocráticos, Kadri foi detido sob a acusaçom de corrupçom e passou cinco dias na delegacia da polícia. Em uma entrevista, Kadri dixo-me que, durante a sua detençom a única cousa que lhe preguntarom em relaçom às acusaçons de corrupçom foi sobre as 50 Liras Turcas do exame de admissom dos alunos. “O governo basicamente está tentando encontrar um motivo para me prender. A razom pola qual eu fum levado pola polícia era político, sem dúvida”, afirmou Kadri. “Eles queriam humilhar e desacreditar o nome deste instituto, porque o nosso éxito nom é agradável para eles.”

Para Kadri, este tem sido uns bons tempos. Acredita que está sendo seguido. “Nos últimos anos, a polícia exigiu que os meus choferes apresentaram um relatório detalhando onde tenho as reunions. Eles forom à procura de umha desculpa para me prender.

“Depois de cinco dias de prisom, Kadri acabou por ser libertado sem acusaçons. Eles non conseguiram encontrar umha única acusaçom contra Kadri que poidera justificar a sua demissom na universidade. Muitos dos seus alunos foram estimulados polo episódio dramático a avançar com a sua investigaçom. “este departamento é vital para o desenvolvimento dos estudos de língua curda como um campo”, dixo-mo Ahmet, um estudante de mestrado no departamento. “eu vejo isso como umha forma direta de resistência à supressom do estado dos direitos dos curdos.”

Greves de fame e a questom dos professores curdos

Tais atos de resistência tiverom umha abordage mais forte em agosto, quando dezoito graduados do departamento figerom umha greve de fame em Mardin. “Nós estávamos protestando porque o governo falhou na sua promessa de nos fornecer escolas para ensinar curdo”, dixo o Ömer Öncel, um dos grevistas. Após oito dias, o governo admitiu e, finalmente atribuíu escolas para os dezoito professores- os primeiros professores curdos a ser empregados em escolas estatais em Turquia.

Enquanto o emprego destes dezoito professores foi saudado por muitos como um avanço para a educaçom em curdo, os críticos afirmarom que nom era mais que simbólico. Mikail Bülbül, o vice-diretor do programa de curdo, afirma que “empregando a 18 professores, quando há mais de mil em espera nom é exatamente um registro muito bom, que levanta sérias questons sobre o compromisso deste governo para integrar ao curdo no sistema de ensino. “Mikail e Kadri sugerirom que a única forma de garantir o progresso é continuar luitando. Mikail acrescentou: “As greves de fame forom um sucesso. Eles recusaram a desistir do seu protesto até que as nomeaçons foram feitas. O próprio fato de que as nomeaçons forom entom feitas mostra que os curdos tenhem de forçar a questom.”

Por que o governo se voltar contra o departamento? Mikail dixo que o governo ainda nom está pronto para dar à academia total independência. “Eles querem que o departamento e os estudos estexam perto deles ideologicamente como um meio para controlar as universidades.” E este é o ponto: Kadri Yıldırım representava para os ideólogos do AKP alguém que poderia caber na sua narrativa ideológica de umha sociedade religiosamente conservadora. Kadri e os seus colegas, no entanto, recusou a jogar este jogo quando desafiou a este governo na sua incapacidade de nomear quaisquer professores de curdo. É claro que o AKP estam felizes em fazer algumas novas concessons os curdos- tais como o estabelecimento deste departmento -mas apenas nos seus termos.

Aulas 02A Escola Ferzad Kemanger

Ao lado da Mardin Artuklu University, há muitos outros projectos que estam a promover a educaçom em língua curda. A Escola Ferzad Kemanger, umha escolade primária em Diyarbakir, é umha das três escolas, que forom criadas em setembro, para ensinar todas as disciplinas em língua curda. Cerca de 130 crianças se inscreveram aqui, incluindo 50 crianças refugiadas de Kobani. Quando me sentei na sala do diretor, um jovem entrou na sala, sorrindo, com os braços estendidos. “Como posso enviar ao meu filho a esta escola? Eu quero que o meu filho tenha umha educaçom em curdo.”

A Escola Ferzad Kemange, junto com outras duas escolas nas cidades de Cizre e Yüksekova, som um novo ponto de partida para o movimento curdo. Muitos dos professores tenhem um fundo como professores turcos; como as regras afrouxarom, eles aplicaram a estudar no instituto língua curda, Kurdi-Der. Um professor, Şeymuş, descreveu o ensino em língua curda como um “sonho tornado realidade.” O Congresso da Sociedade Democrática (DTK), que ajudou a financiar essas escolas, planeja introduzir mais. “Estes som apenas os pilotos: se for bem sucedido, o programa será implementado em toda as áreas de língua curda da Turquia”, um membro da comissom de lingua do DTK explicou. “Eventualmente, todas as crianças curdas teram a opçom de umha educaçom em curdo.

“A polícia tentou fechar a Escola Ferzad Kemanger nas primeiras semanas da sua inauguraçom, em setembro, no entanto, eles rapidamente recuarom e permitiu-se-lhe continuar em Kurmanji, confinado por tanto tempo, agora está explodindo na esfera pública, a Comissom de lingua do DTK tem o plam de introduzir as sinalizaçons e instruçons em curdo o 21 de fevereiro, Dia Mundial das Línguas: “Vamos instruir a todos os trabalhadores do município a escrever e usar o curdo. As facturas seram escritas em curdo, bem como as placas da rua. Vamos fazer as nossas cidades visivelmente cidades curdas.

“Tal projeto do DTK é uma tentativa de trazer o curdo aos conhecemento público, e muitos acreditam que o governo nom terá outra opçom senom aceitá-lo. O incremento do apoio a educaçom em curdo mostra a importância crescente que o Kurmanji retém na mente dos curdos. Para eles, é uma afirmaçom constante do que os separa dos turcos.

E como este impulso para a educaçom em curdo continua, há uma crescente pressom sobre o governo para mostrar o seu compromisso, tomando a iniciativa. A nomeaçom de professores de curdo, a prisom de Kadri Yıldırım, e o estabelecimento da Escola Ferzad Kemanger desconcertou ao governo. Eles tentarom fechar a escola e silenciar aos grevistas de fame, mas nom o conseguiu. A razom pola qual eles nom o conseguirom é porque a educaçom em curdo é umha concessom natural que o governo tem que fazer no processo de paz. Esmagar essa evoluçom seria um sinal de renunciar ao processo de paz. Para os curdos há uma recém descoberta auto-crença. Como Selim Temo, um escritor curdo distinguido de Mardin, dixo-me: “o governo permite-nos falar curdo, porque eles sabiam que nom podiam oprimir-nos para sempre. Nada vai parar o desenvolvimento natural do curdo agora.”

Yvo Fitzherbert é um escritor que reside em Istambul, onde escreve sobre política turca e curda

Este artigo foi publicado no https://www.contributoria.com/issue/2015-01/545e315e38dcd6c951000014

E em http://kurdishquestion.com/index.php/kurdistan/north-kurdistan/the-politics-of-the-kurdish-language-in-turkey.html

Traduzido com o permisso do autor.

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