A guerra de Erdogan contra as mulheres

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Ayla Akat Ata, porta-voz do Congresso de Mulheres Livres (KJA), celebraçom do 8 de março de 2014, quando ainda era deputada.

Por Dilar Dirik

As mulheres curdas, um dos movimentos mais fortes e radicais das mulheres no mundo está sendo reprimido polo Estado turco com total impunidade – e Europa mirando para outro lado

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Detençom de Sebahat Tuncel

“Vamos resistir e resistir até ganhar!”, berrava Sebahat Tuncel antes da sua boca ser fechada à força por meia dúzia de policias que a arrastam polo chao e a detiverom a começos de novembro.

Nove anos atrás, um comboio com sinais de vitória, slogans alegres e flores recebeu a Tuncel quando ela foi libertada da prisom para entrar no parlamento, tendo sido eleita ainda dentro. Tuncel, agora presa novamente, é umha das dúzias de políticos curdos do Partido Democrático do Povo (HDP) ou do Partido Regional Democrático (DBP), presos polas forças de segurança turcas desde o final de outubro sob as operaçons “anti-terroristas” contra aqueles que desafiam o governo autoritário do presidente turco, Erdoğan. Essa repressom acompanha a tentativa de golpe de Estado em julho e representa umha re-escalada da guerra entre o Estado e o movimento curdo desde o verao de 2015, terminando um processo de paz de dous anos e meio. Como o conselho dado ao esquadrom anti-terrorista alemao na década de 1980 “Atire as mulheres em primeiro lugar!” A masculinidade tóxica do Estado tornou-se evidente na sua declaraçom de umha guerra contra as mulheres; a força do movimento militante das mulheres curdas representa a maior ameaça ao sistema. O caso de Sebahat Tuncel nom é único.

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Foto de Gulten Kışanak.

No final de outubro, Gültan Kisanak foi detida. Ela foi a primeira co-alcalde do Município Metropolitano de Diyarbakir e ex-parlamentária, que passou dous anos na década de 1980 na famosa prisom de Diyarbakir, onde sobreviveu às formas mais atrozes de tortura, como ter de viver durante meses em umha cabana de cans cheia de excrementos, porque ela recusou a dizer “Eu sou turca”. A sua prisom foi imediatamente seguida pola detençom violenta de Ayla Akat Ata, ex-deputada e agora porta-voz do Congresso de Mulheres Livres (KJA), a maior organizaçom de mulheres no Curdistam e Turquia, que está entre as 370 organizaçons da sociedade civil proibidas polo governo desde meados de novembro. Ela foi hospitalizada várias vezes devido à violência policial durante o seu período parlamentar e sobreviveu a várias tentativas de assassinato.

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Sebahat Tuncel, Ayla Akat Ata, Selma Irmak e Pervin Buldan protestam contra umha lei de segurança no Parlamento. Todas, exceto Pervin Buldan estam agora na prisom. Foto: Murstafa Istemi/Milliyet

Selma Irmak está entre as deputadas eleitas desde a prisom, onde passou mais de 10 anos sob acusaçons de terrorismo e participou de greves de fome. Gülser Yildirim estivo presa durante cinco anos antes das eleiçons. Outra deputada é Leyla Birlik, que ficou com os civis sob fogo militar em Sirnak durante toda a duraçom do bloqueio militar, testemunhando os assassinatos brutais de inúmeros civis polo exército. O seu cunhado, Haci Lokman Birlik, ativista e cineasta, foi executado polo exército turco em outubro de 2015; Seu cadáver estava amarrado a um veículo do exército e arrastado polas ruas. Soldados filmaram isso e enviarom o vídeo para Leyla Birlik com a mensagem “Venha colher o seu cunhado”.

A lista continua. Escolhemos mulheres corajosas como nossas representantes. Elas som agora prisioneiras políticas apesar de serem eleitas por mais de cinco milhons de pessoas.

As políticas ultra-conservadoras do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) sob Erdogan levarom ao aumento da violência contra as mulheres na Turquia durante a última década e meia. Nom só membros de alto nível da administraçom, incluindo o próprio Erdogan, rejeitam frequentemente a igualdade entre mulheres e homes em favor de atitudes que normalizam a cultura da violaçom, a violência de género e a misoginia, o AKP lança ainda ataques físicos explícitos às mulheres e pessoas LGBTI +. O estado hipermilitar nom só pune coletivamente a comunidade curda como separatistas, terroristas ou conspiradores contra o Estado, retrata as ativistas curdas como “mulheres más”, prostitutas vergonhosas e violadoras do núcleo da família.

Historicamente, a violaçom e a tortura sexual, incluindo os “testes de virgindade” post-mortem, tenhem sido utilizados polo Estado turco para disciplinar e punir os corpos das mulheres como observou Anja Flach no seu livro Frauen in der Kurdischen Guerrilla que nom está ainda traduzido do alemao. Nas prisons, as mulheres som submetidas a buscas íntimas para humilhá-las sexualmente. Recentemente, soldados tiraram as roupas dos cadáveres de militantes curdas e compartilharam essas imagens nas mídias sociais. Outro vídeo brutal mostrou que o exército turco disparava contra mulheres guerrilheiras na cabeça e as atiravam dos penhascos da montanha. Os rifles GermanG3 usados no vídeo ilustram a cumplicidade ocidental nestes crimes de guerra.

Embora essas atrocidades fossem frequentemente cometidas secretamente nos anos 90, compartilhar imagens nas mídias sociais é umha nova tentativa de desmoralizar a resistência das mulheres e demonstrar o poder do Estado. Estes métodos som semelhantes aos que comete o ISIS ao outro lado da fronteira e violam todas as convençons de guerra. Abusar sexualmente de umha mulher ativista, que ousa desafiar a hegemonia masculina, tem como objetivo quebrar a sua força de vontade e impedir o ativismo. Os ataques a mulheres políticas devem ser lidos neste contexto.

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Umha mulher curda que protestava contra o exército turco em Kerboran no ano passado. Imagem: Zehra Dogan / JinHa.

Muito antes dos principais meios de comunicaçom estarem sob fogo na Turquia, as repórteiras de Jinna, a primeira agência de noticias de mulheres do Oriente Médio, foram atacadas. Comprometidas com um objetivo explicitamente feminista no seu trabalho, as trabalhadoras de Jinha expuseram os crimes do Estado sob umha perspectiva de gênero. Agora Jinha está proibida e várias dos seus membros na cadeia.

O HDP é o único partido de oposiçom progressista de esquerda na Turquia com umha agenda baseada na protecçom dos direitos seculares, da diversidade, pró-minorias, pró-dereitos das mulheres e LGBT e ecológicos. Tem, de longe, o maior percentual de mulheres nas suas fileiras. Mesmo sem o sistema de co-presidência, umha política do movimento de liberdade curdo que garante a liderança compartilhada entre umha mulher e um home, a grande maioria das alcaldes estam nas regions curdas. Através de umha luita de décadas, especialmente encorajada polo líder curdo preso Abdullah Öcalan, o papel ativo das mulheres na política é umha parte normal da vida no Curdistam de hoje.

As mulheres do HDP e do DBP nom encarnam idéias burguesas da política representativa e do feminismo corporativo. Quase todas as políticas atualmente sob ataque passaram algum tempo na prisom, foram sujeitas a brutalidade policial, tortura sexualizada, tentativas de assassinato ou algum tipo de tratamento violento por parte do Estado. Elas estam sempre na vanguarda dos protestos contra o Estado e o exército.

As mulheres também forom actores significativos no processo de paz iniciado por Abdullah Öcalan com o Estado turco em Março de 2013. Todas as reunions na Ilha Prisiom de Imrali incluíam mulheres. Em 2014, Öcalan recomendou que as mulheres fossem representadas nas reunions como umha força organizada, e nom apenas como indivíduos. Assim, Ceylan Bagriyanik se juntou às reunions como representante do movimento de mulheres. A Declaraçom de Dolmabahce, a primeira declaraçom conjunta entre as partes em conflito, incluiu a libertaçom das mulheres como um dos dez pontos para a justiça e a paz duradoura. O Estado e os meios de comunicaçom forom incapazes de dar sentido à insistência do movimento curdo sobre a centralidade da libertaçom das mulheres no processo de paz.

Nós enfrentamos a puniçom coletiva para passar o limite eleitoral o mais elevado no mundo que exige que um partido político ganhe polo menos o 10 por cento do voto nacional para entrar no parlamento. As nossas cidades forom arrasadas, nossos seres queridos assassinados, queimados vivos, bombardeados, atirados ou espancados até a morte. O nosso património cultural e meio ambiente forom eliminados para sempre, nossos deputados arrastados nas ruas, nossos prefeitos substituídos por administradores governamentais contra a nossa vontade, nossos meios de comunicaçom censurados, as nossas mídias sociais bloqueadas. Ao destruir a possibilidade de políticas pacíficas e legais dentro dos marcos democráticos, a Turquia deixou os curdos sem outra opçom senom a da autodefesa. As instituiçons internacionais, sobretudo a Uniom Européia, falharom ao povo curdo em apaziguar a Erdogan. Em outras palavras, os governos ocidentais apoiam a eliminaçom sistemática de um dos mais fortes e radicais movimentos de mulheres no mundo.

A filosofia do movimento das mulheres curdas propom que todo organismo vivo tem os seus mecanismos de autodefesa, como a rosa com as suas espinhas. Este conceito nom é definido em um sentido físico rigoroso, mas inclui a criaçom de estruturas autônomas de autogoverno para organizar a vida social e política. A protecçom da própria identidade contra o Estado através da autodefesa é parcialmente possibilitado pola construçom de instituiçons políticas auto-suficientes.

Em umha época em que os corpos nus das mulheres som expostos nas mídias sociais polo exército e as candidatas eleitas estam sujeitas à tortura polo Estado capitalista-patriarcal, as mulheres estam luitando para demostrar que a sua honra nom está para ser definida polos homes porque a honra nom fica entre as pernas das mulheres; reside na nossa resistência, na cultura de resistência estabelecida polas pioneiras do nosso movimento. As nossas políticas encarceradas som as que defendem essa honra.

Desde a prisom, a co-presidente do HDP Figen Yüksekdag enviou esta mensagem: “Apesar de todo, eles nom podem erradicar a nossa esperança ou quebrar a nossa resistência. Seja na prisom ou nom, o HDP e nós, ainda somos a única opçom da Turquia para a liberdade e a democracia. E é por isso que eles tenhem tanto medo de nós. Nom, nem um só de vos, deixede-vos desmoralizar; Nom deixar cair a sua guarda, nem enfraquecer a resistência. Nom esqueçades que este ódio e agressom está enraizada no medo. O amor e a coragem ao final vam ganhar. “.

Dilar Dirik 34Dilar Dirik, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. O seu trabalho analisa o papel da luita das mulheres na articulaçom e construçom da liberdade no Curdistam. Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

Publicado em Opendemocracy.

 

 

Por que Jinealogia? Re-Construindo as Ciências para umha vida em comum e Livre

JinealogiaPor Gönül Kaya

O Movimento de Mulheres Livre do Curdistam avalia a jinealogia como um passo importante na sua luita intelectual, político-ideológica de auto-defesa e mobilizaçom em curso de cerca de 30 anos. Eu gostaria de apresentar – ainda que brevemente – os principais princípios da jinealogia, que o movimento das mulheres curdas oferece aos movimentos de mulheres de todo o mundo.

A Jinealogia é descrita como a “criaçom do paradigma das mulheres” na luita pola liberdade das mulheres curdas. Isso representa umha nova fase desde a perspectiva do movimento das mulheres curdas. O movimento de mulheres curdas surgiu e desenvolveu-se dentro da luita de libertaçom nacional curdo. Desde 1987, começou com trabalhos de organizaçom específica e autônoma das mulheres. Depois deste desenvolvimento, muitas mudanças e transformaçons importantes ocorrerom no Curdistam, que também determinarom a luita social. Por um lado, o movimento de mulheres curdas avançou na sua organizaçom específica e autónoma internamente, mas, por outro lado, transmitiu e, portanto, compartilhou as suas conclusons com todas as áreas da luita social. As revoltas do povo contra a colonizaçom do Curdistam (em curdo: “Serhildan”), que começarom depois de 1989, forom dirigidas por mulheres. Do ponto de vista da sociedade curda, este foi o início de umha fase de resistência nacional, com um caráter novo focado nas mulheres. Nesse sentido, o movimento das mulheres avançou o seu trabalho teórico e prático em campos como do intelecto, política, sociedade, cultura e auto-defesa. As seguintes etapas-chave forom: 1993 – formaçom de um exército de mulheres, 1996 – teoria e prática para a emancipaçom do sistema patriarcal, depois de 1998 – ideologia da libertaçom das mulheres, 1999 – formaçom do partido, a partir do 2000 – construçom de um sistema social democrático no interior do quadro de um paradigma da sociedade democrática, ecológica e igualitário de gênero. A criaçom de conselhos, academias, e cooperativas de mulheres forom alcançados neste contexto. Sob o lema “A libertaçom das mulheres é a libertaçom da sociedade”, o movimento das mulheres focou o trabalho ideológico, filosófico e intelectual. Dentro do quadro da unidade entre teoria e prática, trabalharom no sentido de umha transformaçom do pensamento das mulheres e da sociedade, bem como para umha maior consciência. Forom à procura de respostas a perguntas como “Quem é a mulher? De onde é que vem? Onde é que foi? Como viveu até hoje? Como as mulheres devem viver? Em que tipo de sociedade?” e desenvolveu umha crítica do campo científico vigente.

Como todos sabem, na história, os governantes e detentores do poder estabelecerom os seus sistemas primeiro no pensamento. Como umha extensom do sistema patriarcal, um campo das ciências sociais foi criado, que é masculino, de classe, e sexista. Este campo é, a vez dividido em partes diferentes que som despedaçados longe um do outro. A implementaçom das interpretaçons dessas ciências levou a consequências devastadoras para a natureza, a sociedade e os seres humanos: A normalizaçom do militarismo e da violência, o aprofundamento do sexismo e do nacionalismo, o desenvolvimento desenfreado da tecnologia, especialmente a tecnologia do armamento para o control da sociedade e dos indivíduos, a destruiçom da natureza, a energia nuclear, a cancerígena urbanizaçom, problemas demográficos, industrialismo anti-ecológico, nós que se encontram questons sociais, como a individualizaçom extrema, o aumento das políticas e práticas sexistas contra as mulheres, os direitos e liberdades que só existem no papel.

Neste ponto, propomos a Jinealogia. Observe-se que é necessária para superar o sistema dominante no campo da ciência e para a construçom de um sistema alternativo de ciência. Além disso, entendemos que os campos existentes das ciências sociais devem ser libertados do sexismo.

O termo jinealogia foi usado por primeira vez polo representante do povo curdo Abdullah Öcalan nos seus escritos a partir do 2003, na sua obra “A Sociologia da Liberdade”. Öcalan expressa que as mulheres e todos os indivíduos, sociedades e povos que nom som portadores do poder e o estado precisam desenvolver as suas próprias e livres ciências sociais, que estas ciências poderiam chamar-se Sociologia da Liberdade, que estes, a vez poderia estar baseada na Jinealogia, porque os movimentos que visam umha sociedade livre comunal, igualitária e democrática têm umha forte necessidade da Jineologia.

O termo Jinealogia significa “ciência das mulheres”. “Jin” é curdo e significa “mulher”. Logia derivada do termo grego “logos”, conhecimento. “Jin”, a sua vez vem do termo curdo “Jiyan”, que significa “vida”. No grupo de línguas indo-europeu e no Médio Oriente as palavras Jin, Zin ou Zen, todos significam “mulher”, e muitas vezes som sinônimo de vida e vitalidade.

Na história da humanidade, a mulher foi avaliada como a primeira existência que adquiriu conhecimento sobre o seu próprio eu. A vida e a sociabilidade forom a malha com base em princípios morais e políticos com a mulher no centro. A sociedade natural com os seus valores morais e políticos foi construído pola mulher. Há um vínculo inquebrável entre as mulheres e a vida. A mulher representa umha parte importante da natureza social no seu corpo e no seu significado. Esta é a razom para a associaçom da mulher com a vida. A mulher representa a vida, a vida simboliza à mulher. Por esta razom, a Jinealogia como a ciência das mulheres também é referida como a ciência da vida.

Após um exame das etapas do sistema patriarcal, começando com a civilizaçom suméria, é evidente que os governantes, até hoje, tenhem estabelecido as suas posiçons de poder inicialmente no pensamento. Por exemplo, a distinçom entre sujeito e objeto para as estruturas sociais foi estabelecido por primeira vez polas ciências modernas nas mentes. Esta ficçom imposta à sociedade que o homem é sujeito, a mulher é objeto, Sr. Sujeito, Sra Objecto, dono sujeito, objeto escravo, estado sujeito, sociedade objeto. Esta lógica do poder feai que as mulheres e a sociedade acreditem nessa distinçom de opressores e oprimidos. Usava a mitologia, filosofia e a ciência para esta finalidade. O paradigma do sexismo foi construído neste sentido.

As estruturas do conhecimento exigem debates livres. Mas se olharmos para a relaçom entre conhecimento e poder, isso é difícil de detectar. Neste contexto, o questionamento das estruturas patriarcais, centrada no poder é necessário. Da mesma forma, começando com umha epistemologia em favor dos seres humanos, mulheres, natureza e sociedade, há umha necessidade de umha nova investigaçom, interpretaçom, renovaçom, e consciência. Os princípios, hipóteses e resultados das ciências sociais existentes devem ser re-discutidas e analisadas criticamente. As informaçons correctas e incorrectas devem ser separadas umhas das outras. É de grande importância chegar a umha interpretaçom verdadeira da sociedade histórica.

Hoje, a mulher também representa umha entidade em que umha série de políticas estam a ser feitas. Estas políticas nom estam projetadas para libertar a mulher ou para fortalecer a sua vontade. Devido a estas políticas, a mulher é suprimida, morta e de umha maneira dura ou mole que obscurece o seu passado e presente. Hoje, o conhecimento e a ciência estam nas primeiras fileiras das esferas fundamentais do poder. Com a reproduçom constante de ideologias e políticas nas áreas da política, sociedade, economia, religiom, tecnologia, filosofia, etc., hostis às mulheres e da sociedade, as ciências desempenham um papel importante. A ligaçom entre conhecimento e poder, juntamente com a exclusom da ética, tem empurrado indefinidamente, especialmente na idade de hoje. A natureza sexista da ciência aprofundou e explicou problemas insolúveis, principalmente nesta época.

As ciências sociais em um sentido geral encobrem o fato de que as mulheres som umha realidade social. O entendimento predominante da ciência nom revela tudo aquilo que pertence às mulheres, começando com a sua história. Ao descrever as mulheres e o seu papel na sociedade, o entendimento dominante da ciência determina estatutos sobre as diferenças biológicas entre homens e mulheres. Por exemplo, com base a sua capacidade de dar à luz, afirma-se que as mulheres agem puramente “com base a emocionalidade”. Ou por causa dos atributos físicos dos homens, alega-se que a violência é parte da sua natureza. Estas declaraçons devem ser comprovadas por conceitos científicos e experimentos. Desta forma, as mulheres som feitas para desempenhar o papel passivo, enquanto aos homens lhe som atribuídos um papel activo. A subjugaçom e a violência som retratados como pertencentes à natureza da humanidade e som apresentados como fatos insuperáveis. A ciência é explorada para esta finalidade e os pilares do sistema som, assim, reforçados.

Até hoje, pesquisadoras feministas figerom um trabalho importante salientando as ligaçons entre o conhecimento e o sexismo da sociedade deesde diferentes perspectivas. Com o seu trabalho, tenhem mostrado que a ciência moderna, desde o século 17 em diante, tem umha linguagem e estrutura masculina. Mostrarom que o problema na relaçom entre sujeito e objeto, como base do conhecimento científico, foi fundado com base a metáforas sexistas desde o início. Por exemplo, eles nos mostrarom o quanto da ciência moderna no pensamento de Francis Bacon, que é considerado um dos pioneiros da ciência moderna, mostra umha atitude e linguagem sexista. Bacon considerou a relaçom de conhecimento entre natureza e espírito humano realmente como umha relaçom de dominaçom. Ele gostava de usar a família patriarcal e o casamento como metáforas e estivo envolvido na caça às bruxas. Desde o ponto de vista de Bacon, que é responsável da cita “conhecimento é poder”, a razom é do sexo masculino, enquanto a natureza é do sexo feminino. De acordo com Bacon, a relaçom entre a razom abstrata e a natureza, que foi descartada como matéria sem alma, só poderia estar no control, conquista, seduçom. E por isso que a sua utopia de Nova Atlantis consiste em umha ilha de homens, que tornam o conhecimento e a ciência a base do seu poder.

No conceito moderno do conhecimento do ego, é construído como um sujeito de control pola separaçom do “outro”, isto é, da natureza e do feminino, enquanto estes “outros” som objetivados. Por esta razom, o “outro” é controlado e colocado sob a tirania. Por exemplo, Descartes exclui, elementos empáticos intuitivos de ciência e filosofia. Isso expressa um entendimento masculinizado da ciência. O Positivismo, também, ilustra a partir do entendimento do conhecimento. As Realidades estam desconectados umhas das outras, os problemas som privados de qualquer definiçom, as razons dos problemas som procurados dentro das atuais fronteiras, as raízes históricas estam desconsideradas. De acordo com este ponto de vista, a história está morta. Ela foi vivida e chegou ao fim. Além disso, o positivismo, que aplica leis universais para a sociedade, apresenta os feitos como única verdade imutável.

Esta ciência sexista e preconceituosa explica a história, política, sociedade, economia, cultura, arte, estética e outros temas de ciências sociais de acordo com a sua compreensom do poder. A atitude das ciências existentes em relaçom às mulheres, a natureza, e todos os oprimidos é tendenciosa.

Mulheres cientistas, movimentos feministas e acadêmicas figerom contribuiçons importantes com as suas pesquisas e análises críticas, o que fortalece o nosso trabalho sobre Jinealogia. Importante trabalhos tenhem exposto a análise masculina da história. Além disso, existem universidades das mulheres, departamentos de estudos da mulher, centros de investigaçom das mulheres em todo o mundo. É um dos principais objectivos da Jinealogia construir umha ponte entre essas importantes conquistas. Do ponto de vista das mulheres, é importante trabalhar em conjunto para construir um campo alternativo de ciências sociais, para estabelecer o sistema de estudos das mulheres, para superar a actual dispersom, para fortalecer o fluxo científico e as intersecçons.

O Movimento de Mulheres Livres do Curdistam considera o século 21 como o século das mulheres e dos povos. A questom da igualdade de gênero e a igualdade para todos os oprimidos nunca pressionou tanto antes. A organizaçom correspondente e o desenvolvimento de sistemas e estruturas alternativas é inevitável. Umha análise do sistema extensivo e a superaçom do sexismo som na nossa opiniom metas importantes. Neste contexto, o movimento das mulheres Livres do Curdistam sugere a Jinealogia tanto como soluçom dos maiores paradoxo do nosso tempo, bem como, um método para o desenvolvimento do mundo espíritual de mulheres.

A Jinealogia apresenta umha proposta de intervençom radical na mentalidade patriarcal e o paradigma patriarcal. Neste sentido, a Jeneologia é um processo epistemológico. O objetivo é o acesso direto às mulheres e a sociedade no domínio do conhecimento e da ciência, que está actualmente controlada polos governantes. O objetivo é preparar o caminho para as raízes e identidade das mulheres e da sociedade, que forom separados da sua verdade. As mulheres devem criar as suas próprias disciplinas, chegar as suas próprias interpretaçons e significados, e compartilhá-los com toda a sociedade.

O movimento de mulheres curdas começou a construçom do campo de Jinealogia em 2011. Construindo um sistema educacional para as mulheres e a sociedade, bem como academias de mulheres. As discussons som realizadas sobre temas como as mulheres e as ciências sociais, mulheres e economia, as mulheres e história, mulheres e política, mulheres e demografia, ética feminina e estética.

É necessário expressar cientificamente a existência de mulheres com todas as suas dimensons, bem como para criticar e interpretar quaisquer estruturas de conhecimento relacionados com a história, a sociedade, a natureza e o universo de forma abrangente e sistemático. Porque a mulher é umha existência social, histórica e integral, que tem a sua origem na natureza, a definiçom de existência feminina exige umha mudança radical e profunda do conhecimento e o espírito. A partir da história da colonizaçom do espírito feminino através da colonizaçom económica, social, política, emocional e física, é necessária situar a mulher. É necessário aprofundar e mesclar os dados e interpretaçons científicas que forom alcançados no domínio das estruturas de conhecimento, psicologia, fisiologia, antropologia, ética, estética, economia, história, política, demografia, etc., e levá-los a um sistema científico. A soluçom do problema da liberdade das mulheres será possível com organizaçons e estruturas com base em um extenso campo tal, integrante do conhecimento e as ciências.

Em toda a história da humanidade, as mulheres e os oprimidos resistirom como atores para a liberdade e a democracia. No entanto, nom foi possível ultrapassar o sistema existente dominante. O principal problema é que as forças da liberdade e da democracia nom conseguirom criar um sistema para os seus valores de liberdade, igualdade e justiça, historicizar e tirá-los da parábola do poder. A necessidade de sistematizaçom e historicizar, sobretudo, a construçom de um paradigma mental alternativo.

Por esta razom, é de grande importância para nós, como movimento de libertaçom das mulheres, criar umha mentalidade, ou seja, um campo das ciências sociais que coloca as mulheres e a sociedade no centro. Precisamos ser capazes de criar o espírito do nosso sistema alternativo. E se isso nom acontecer? Em nome da alternativa, os mesmos padrons mentais, métodos e instrumentos do sistema dominante, o próprio sistema poderia ser repetido e reproduzido novamente, desta vez em nome das mulheres e oprimidos.

Esta é outra razom para a Jinealogia. O seu objetivo é decifrar o paradigma do poder, por um lado, mas por outro lado, fazer avançar a soluçom. Nom é suficiente criticar somente o sistema existente, decifrar as insuficiências deste campo ou dizer que umha alternativa deve ser parecida. É importante libertar-se da doença do liberalismo que di “praticar a crítica. Digam-me, como deve ser. Digam-me, qual é a soluçom, mas nom implementar a soluçom, basta fingir que o fas”. Para umha boa, justa e bela vida, o conhecimento nom é suficiente. É necessário superar o sistema existente e construir o novo além dos limites do antigo.

Como os movimentos de mulheres e os movimentos sociais que luitam contra o sistema capitalista e patriarcal, temos que passar por umha nova fase de mudança e transformaçom. O questionamento da influência do sistema existente no nosso pensamento e nas nossas açons deve ser aprofundado. Sem dúvida, a experiência, a mudança, transformaçom e processos de renovaçom dos movimentos feministas abriram o caminho para esse questionamento. Nesse sentido, a Jinealogia é um resultado e continuaçom das experiências e esforços dos movimentos feministas. Surge como umha realidade, que também inclui o feminismo. Enquanto define o objectivo de ir um passo mais longe, é o seu princípio caminhar na trilha das experiências do movimento de mulheres.

Há umha necessidade de conceitualizar a mulher como umha realidade social, para definir a sua existência de acordo com a sua própria realidade, explicar o que nom pertence a ela, determinar o “como” da sua libertaçom e expressar as especificidades da condiçom de mulher para este propósito.

Além disso, é importante nom separar a ciência e o conhecimento do domínio social, para nom elitize, nom para torná-los a base do poder e manter as conexons da sociedade sempre forte. Nas sociedades naturais antes da civilizaçom patriarcal, conhecimento e ciência eram parte da sociedade ética e política. Enquanto as necessidades vitais da sociedade nom exigem isso, nom foi possível explorar o conhecimento para outros fins. Juntamente com a civilizaçom patriarcal, as mulheres e a sociedade forom roubados fora do conhecimento e da ciência. Detentores do poder e as forças governamentais se tornou mais forte com a ajuda do conhecimento e da ciência. Isto levou à separaçom radical do conhecimento da sociedade, especialmente da mulher. Jinealogia tem por finalidade restabelecer esta ligaçom.

Pesquisando a história da colonizaçom das mulheres exigirá a re-escrita da história da humanidade e terá um caráter esclarecedor desta forma. Juntamente com a avaliaçom ampla e profunda do abismo escravizador das mulheres, a soluçom das cifras da sua escravitude martelada também será possível.

Jinealogia irá torná-lo possível para que possamos restabelecer os laços entre conhecimento e liberdade que forom rasgados e afastados uns dos outros. Pois, existe umha relaçom importante entre o conhecimento e a liberdade. O conhecimento requer a liberdade, a liberdade, a sua vez requer conhecimento e sabedoria. A participaçom da mulher na vida social será julgado polo seu grau de liberdade. O desejo da mulher para o conhecimento e a liberdade é também umha aspiraçom pola verdade.

A verdade é a primeira e verdadeira forma de natureza social. Tudo o que foi substancial antes do sistema patriarcal ter sido distorcido por ela. Os estágios de desenvolvimento normal no sistema da sociedade natural representam o que chamamos de verdade. Por este motivo, Jinealogia também descreve o desejo por estas verdades distorcidas. Este esforço está combinado com a nossa busca polo conhecimento, sabedoria e a liberdade.

Importantes tarefas esperam-nos no século 21: o quadro filosófico-teórico e científico da libertaçom das mulheres, o desenvolvimento histórico da libertaçom e resistência das mulheres, diálogos complementares mútuos dentro dos movimentos feministas, ecológicos e democráticos, a descriçom renovada de todas as instituiçons sociais (por exemplo, família) de acordo com os princípios da libertaçom, as estruturas básicas da uniom livre, a construçom de um entendimento alternativo da ciência social com base na libertaçom das mulheres. O campo de umha nova ciência social para todos aqueles círculos que nom fazem parte do poder e do Estado devem ser construídas. Esta é a tarefa de todos os anti-colonialistas, anti-capitalistas, movimentos anti-poder, indivíduais, mulheres. Referimo-nos a estas ciências sociais alternativas como a sociologia da liberdade. Jenealogia pode construir e desenvolver a base dessas ciências sociais. É umha vanguarda a este respeito. Vai tanto construir a sociologia da liberdade e fazer parte dessa própria sociologia.

O movimento de mulheres curda, que tem trabalhado em Jinealogia desde 2011 e que colocou este tema em discussom atribui grande valor aos resultados obtidos até o momento sobre o tema em todo o mundo. Está muito interessado em discutir, compartilhar os resultados, cooperando e aprendendo com todas aquelas que luitam pola liberdade das mulheres.

Como mulheres curdas, dizemos: “O século 21 será o século da revoluçom das mulheres e dos povos”. Acreditamos que a tecnologia vai desempenhar um dos papéis históricos para o estabelecimento de umha mentalidade da libertaçom, estruturas éticas e políticas e umha sociedade livre que coloque a libertaçom das mulheres no centro. Acreditamos que ao desenvolver a Jinealogia e a sociologia da liberdade como umha nova ciência social, transformando-as na base base das nossas luitas sociais, será possível desfiar nós e pontos cegos da história que ainda aguardam a descoberta desde há 5000 anos.

Gönül Kaya é jornalista e representante do movimento de mulheres curdas. Este artigo é a transcriçom do seu discurso sobre Jinealogia na Conferência de março do 2014 em Colônia, Alemanha.

Publicado em Kurdish Question.