O som de mil tambores curdos em Sna

dafO castelo de Khosro Abad em Sna (Sanandaj em farsi, em Rojhelat, Curdistam Iraniano) reuniu um milheiro de daf ou tambores curdos (semelhante à nossa pandeira). Tocarom ao tempo cerca de 1000 homes e mulheres no sexto festival do daf, também chamado dap, um instrumento fundamental da cultura curda, , muitas vezes tocado em mesquitas ou em cerimônias religiosas Sufis.

Revoluçom de Lapis de Labios

liprevolution3Por Naila Bozo

Um dia, elas som terroristas, ao dia seguinte som femme fatales que luitam ao Estado Islâmico (Daesh). A discussom sobre se as luitadoras curdas som a primeira, a segunda ou umha terceira cousa é dinâmica, e a percepçom pública delas muda facilmente devido à falta de investigaçons a fondo sobre as mulheres reflexadas como seres humanos políticos, as idéias políticas simplesmente nom se retwuiteam tanto quanto umha mulher mata-ISIS. O poder de influenciar a sua imagem está nas maos de quase qualquer pessoa, mas também nas mulheres curdas nas próprias linhas de frente.

Ontem, a estrela de pop curda Helly Luv lançou o seu mais recente vídeo da música chamado “Revolution”. Ele abre com cenas da vida cotidiana em umha aldeia curda, quando de repente acontece umha explosom. Homes, mulheres e crianças caem no chao, mortos ou feridos, enquanto os sobreviventes fogem de um inimigo vestido de preto conducindo um tanque para a aldeia. É em resumo à realidade da vida como tem sido durante meses no Curdistam, no Iraque e na Síria.

Umha única pessoa nom está fugindo dos disparos do tanque: Helly Luv, vestindo tacóns dourados, pulseiras de tornozelo e jóias à cabeça ligada a um keffiyeh vermelho que cobre o rosto com exceção dos fortes olhos. Durante todo o resto do vídeo, ela está dançando em carros abandonados, atirando o inimigo e resgatando umha criança.

O caráter hipersexual de Helly Luv em umha zona de guerra reforça a interpretaçom das luitadoras curdas como umhas femme fatale o que é irônico ja que as suas chamadas na cantiga Revolution é o que as combatentes curdas já estam realizando diariamente e tenhem posto os alicerces há décadas ainda que no vídeo acrescenta às noçons equivocadas das luitadoras curdas.

Um descriçom digerível após o outro tornar umha luita complexa e os seus combatentes igualmente complexos em vários artigos, media metragens e discussons como esta introduçom a “Seven women peacemakers who should be on your radar”: “Quando se trata de mulheres e conflitos, os mídias muitas vezes oferecem duas narrativas. Em um extremo do restritivo espectro, as mulheres som vítimas e sob o cerco – vulneráveis, isoladas, e indefesas. E do outro lado, como evidenciado pola recente cobertura de combatentes curdas na Síria e no Iraque, vemos umha famosa, se nom feticeira, imagem da mulher como guerreira- a sexi, rude empunhando um arma”

É como se as luitadoras curdas deveramm ser entendidas dentro dos limites da seduçom oriental, porque é muito difícil para as pessoas de fora das regions curdas compreendê-las no seu verdadeiro contexto das suas luitas individuais e coletivas. Ao invés de reconhecer um espírito guerreiro inerente às mulheres, som reduzidas a pedaços em umha estratégia mediática e militar construída polo home curdo.

Já houvo acusaçons nos mídias que destacam as combatentes curdas como comunistas bonitas mata-Daesh, um argumento que ignora às mulheres soldados de outras nacionalidades, outro que algumhas dessas combatentes som crianças. Eu concordo com as objecçons, na medida em que a decisom das mulheres curdas para luitar e sua vontade de continuar devem ser interpretadas como específicas a cada mulher e como parte de um longo processo de libertar-se de umha sociedade curda tradicional e dominada polos homes. Elas nom som um instrumento de propaganda e nom devem ser menosprezadas por tais afirmaçons.

Embora o argumento usado por pessoas a milheiros de quilômetros da linha da frente pode ser que as mulheres curdas estam feitizadas e exploradas para efeitos de relaçons públicas, é preciso também considerar que a guerra ofereceu umha maneira para que as mulheres coletivamente e ao mesmo tempo deixaram o rol de dona de casa tradicional, pegar em armas e luitar polas suas crenças; crenças que cobrem tudo, desde o feminismo à proteçom dos direitos humanos à implementaçom da democracia.

É umha preocupaçom legítima que as mulheres curdas sejam retratadas como vítimas, quer terroristas ou sensuais mata-Daesh e, em vez de romper com esta posiçom redutora, Helly Luv e a sua equipe tenhem jogado na fascinaçom bipolar com as luitadoras curdas.

O videoclipe foi concebido para ser um ponto de encontro inofensivo para os curdos para lembrar os caídos e ser inspirador no que já foi um período de pesadelo para nom só o povo curdo, mas o povo sírio e o iraquiano também. No entanto, ele nom provoca essa resposta em mim. Vem transversalmente como umha espécie de revoluçom músical de Lapis de labios devido à sua história simplista amosando umha mulher hipersexual gritando palavras como “unidade” e “revoluçom” e, mais ainda, após um comentário de Helly Luv feito no making of do vídeo e as pessoas que aparecem nos primeiros minutos: “Eu sentim-me tam emocionada filmando esta parte. Todas estas belas pessoas inocentes eram as mesmas pessoas que escaparam do ISIS! Eu nom queria atores. Eu queria que eles contaram a história e a dor que viram e sentiram.”

Eu nom vejo a sua história, nem a sua dor. Eu nom estou  conmovida nem inspirada. Eu vejo o contraste entre umha zona de guerra com crianças mortas e umha mulher em tacons de ouro e, unhas vermelhas longas dançando em um carro. Eu vejo a estrela pop de Los Angeles perpetuando a percepçom das luitadoras curdas como ” sexis, rudes empunhando um arma.” Eu vejo umha revoluçom de lapis de labios.

Publicado em kurdishrights.org