O Plano de Erdogan era contra o PKK e o HDP, mas a armadilha falhou

cemil-bayik-kckpor Deniz Yücel

Esta entrevista com Cemil Bayik, co-presidente da Uniom Comunidades do Curdistam (KCK), foi realizada para o alemao Die Welt e publicada o 23 de agosto. Foi republicada no diário turco BirGun e traduzido do turco para o Inglês para ser publicado em Kurdish Question.

– Turquia começou as operaçons contra o PKK e o ISIS há um mês. O ISIS ficou mais fraco desde entom?

Cemil Bayik (CB): O ISIS sofreu pesados golpes. Umha das razons por trás dos ataques da Turquia contra o PKK é defender o ISIS. A Turquia nom está luitando contra o ISIS.

– Nom esta a luitar contra o ISIS?

C.B.: Definitivamente nom. Erdogan pretende ser soberano no Oriente Médio, el quer ser o califa. O ISIS é umha parte da frente sunita contra os curdos, contra Assad. E o ISIS nom é so um instrumento de Erdogan, eles tenhem umha proximidade ideológica. A única cousa é que houvo muita pressom sobre a Turquia e tinham que fazer algumha cousa para salvar a sua reputaçom.

– Mas o ISIS acaba de lançar um vídeo ameaçando a Turquia.

C.B.: Nesse vídeo, o ISIS está dizendo que a Turquia está cercada polo PKK e os “cruzados”. O AKP di quase exatamente as mesmas cousas. O ISIS está protegendo a Erdogan e advertindo a Turquia dos mesmos inimigos.

– O PKK sofreu alguns golpes?

C.B.: Nom. Nós tomamos as precauçons necessárias. No entanto, a guerra afeta-nos e à nossa luita contra o ISIS.

– Quem terminou o cesse-fogo?

C.B.: Erdogan. Esta guerra nom começou com o assassinato de dous policias em Ceylanpinar. Depois do 05 de abril eles cortarom todas as reunions com o nosso líder Ocalan. Erdogan negou e rejeitou todas as medidas que foram tomadas anteriormente: El dixo: “Nom há negociaçom, nom há lados e nengumha questom curda”. Entom el pensou que poderia ganhar as eleiçons, aumentando as tensons. Pensou que os guerrilheiros vingariam-se polo atentado no comício eleitoral do HDP em Amed. El ia usar isso como umha desculpa para cancelar as eleiçons. Mas nós nunca caimos nesse truque. Nas eleiçons o HDP arruinou os sonhos de Erdogan de se tornar presidente e ainda conseguiu garantir que o AKP nom poderia formar governo por si so. Eles agora estam continuando os seus ataques como vingança por isso.

– O PKK matou os policias em Ceylanpinar?

C.B.: Nom. Um grupo que se autodenomina “Apocu” (Apoistas) fixo-o.

– Mas nom condearom os assassinatos.

C.B.: Condenar os assassinatos entre todas aqueles ataques poderia ter tido resultados ruins para nós.

– Mas agora entrarom em umha guerra.

C.B .: Nós ainda nom entramos em umha guerra. Nós só estamos usando o nosso direito de represália.

– Houvo cenas de guerra em algumhas cidades curdas como Silvan.

C.B.: Os civis e os jovens estam tentando de proteger-se dos ataques do estado. O estado está atacá-los com os meios à sua disposiçom. É por isso que advertimos o estado: Se atacam as pessoas como estam fazendo, vamos pedir a guerrilha de entrar nas cidades para defender o povo.

– Isso significa que vam entrar em guerra?

C.B.: Se a Turquia insiste nestas políticas, entom os guerrilheiros poderiam entrar em guerra. Mas isso nom é o que nós desejamos. Porque estamos conscientes de que o principal objetivo por trás desses ataques som anular o projecto do HDP.

– Que quere dizer?

C.B.: Todas as identidades na Turquia estavam prestes a ser aniquiladas com as políticas de negaçom da Turquia. Somente os curdos ficarom. Mas os curdos resistirom e revitalizarom as outras identidades junto com eles mesmos. Finalmente, todas estas identidades forom capazes de representar-se a si mesmas no parlamento. Agora, Erdogan está a comportar-se como se nom existissem as eleiçons e está tentando demonizar o HDP para que nom passe a barreira eleitoral.

– O ganho em importância do HDP significa que o PKK perde significado?

C.B.: Se nós temeramos a ascensom do HDP nom teríamos mostrado qualquer esforço no sentido de assegurar que as eleiçons tiverem lugar. O HDP surgiu como resultado da luita do PKK. O nosso líder Ocalan levou os democratas, esquerdistas e curdos ao Parlamento, a fim de resolver os problemas do país. Esta é a missom da HDP. É por isso que nom pode haver soluçom sem o HDP.

– Existe umha relaçom hierárquica entre o PKK e a HDP?

C.B.: Nom há. O movimento curdo está constituído por três unidades fundamentais: o nosso líder Ocalan, o PKK e a HDP. Cada um tem um papel diferente.

– Quando di “o nosso direito de represália” nom está prejudicando à HDP?

C.B.: Nom. Foi o plano de Tayyip Erdogan: “Eu podo atacar eo PKK nom pode fazer nada contra isso. Se isso acontece, vou usar isso contra os curdos. “Em outras palavras, o plano era tanto contra o HDP e o PKK, que ganharam reconhecimento internacional polo seu sucesso contra o ISIS. Eles pensam que nós puxaramos dentro de umha armadilha. Eles estam enganados.

– Este é um plano bem sucedido.

C.B.: Nom. Porque todo mundo entendeu por que Erdogan começou a atacar o PKK. Mas el involuntariamente deu início a um novo processo. O desprezo do parlamento por Erdogan tem empurrado o povo estabeleçam as suas próprias democracias locais.

– O co-presidente do HDP Selahattin Demirtas instou a ambas as partes a levar os seus dedos fora dos gatilhos.

C.B.: Nós acreditamos que todas as chamadas som valiosas. Porque estamos bem do feito de que nem nós, nem a Turquia podem resolver os problemas através da guerra. Até agora, temos declarado oito cesse-fogo unilateral, durante a última até começamos a retirar os nossos guerrilheiros. No entanto, primeiro o estado atrasou todo, em seguida, negou todos os passos que tinham sido tomados como parte do processo de soluçom.

– Que precisa acontecer para que declaredes um cesse-fogo?

C.B.: A partir de agora nom haverá mais cesse-fogo unilateral. O Estado também deve declarar um cesse-fogo oficial. Deve formar-se umha comissom para monitorar o cesse-fogo em ambos os lados. Depois disso, as negociaçons devem ser realizadas em umha atmosfera livre e igual, o nosso líder Ocalan precisa ser aceito como o principal negociador. É preciso haver um terceiro envolvido, também. Todas as operaçons devem cessar e todas as pessoas detidas em operaçons recentes ser liberadas. Caso contrário, como podemos ter a certeza de que a Turquia nom só vai negar tudo como fazia antes?

– Quem pode ser esse terceiro? Os Estados Unidos?

C.B.: Propusemos isso em inúmeras ocasions.

– Realmente acredita nisso?

C.B.: Por que nom? Os EUA forom intermediários na Irlanda do Norte.

– Tenhem relaçons com os EUA?

C.B.: Sim.

– O governo americano rejeitou essa possibilidade.

C.B.: O EUA está tentando persuadir o Governo turco a tomar parte na guerra contra o ISIS e é por isso que eles estam usando linguagem diplomático, a fim de acomodar as sensibilidades da Turquia.

– Os EUA aprovam as operaçons contra o PKK?

C.B.: Eles nom estam aceitando isso abertamente, mas acho que se eles nom tivessem dado luz verde, em seguida, a Turquia nom poderia ter realizado umha operaçom tam abrangente. Por outro lado, o EUA sabem que a força mais eficaz contra o ISIS é o movimento de libertaçom do Curdistam. A coalizom internacional precisa tanto de nós: a Turquia e o PKK. Este é o ponto onde a contradiçom é que vem.

– Como pode ser alcançada umha soluçom permanente?

C.B.: Antes de todo, a Turquia tem de aceitar que há umha questom curda. Erdogan sempre falou “dos problemas dos meus cidadaos curdos”, mas nunca reconheceu que esta é umha questom de liberdade de um povo.

– Mas hoje há canais de TV estatais que estam transmitindo em curdo, o curdo é falado em conselhos locais …

C.B.: Nós temos luitado por quase 40 anos. Claro, o Estado turco tivo que tomar algumhas medidas. No entanto, todos estes eram pequenos passos para evitar passos maiores. Em outras palavras, a questom curda tem de ser constitucionalmente reconhecida. A cultura curda deve ser permitida a florescer, o curdo deve ser aceite como língua na educaçom e os curdos devem ser autorizados a administrar-se por meio do governo local. Nós nom queremos so esto para os curdos, queremos este modelo para toda a Turquia.

– Se todo isso acontece, vam-se desarmar?

C.B.: Chamar o fim da luita armada e o desarmamento som cousas diferentes. Sem umha soluçom para a questom curda e a erradicaçom da ameaça ISIS, ninguém deve esperar que nos desarmemos. Nós nom estamos so luitando para o povo curdo. Luitamos contra o ISIS, e luitamos pola humanidade.

– Levantarom-se para estabelecer um Curdistam independente, unido e socialista. Que resta desses objectivos?

C.B.: Naquela época havia um paradigma de socialismo-real que dominou o mundo e o PKK aceitou este paradigma. No entanto, na prática, vimos os defeitos desse paradigma e desenvolvimos um novo paradigma. Por exemplo, vimos que para formar umha sociedade livre, de pessoas livres, o Estado nom é um instrumento adequado, a ditadura do proletariado nom o é definitivamente.

– Qual é o maior sucesso do PKK ate a data?

C.B.: O maior sucesso é a libertaçom das mulheres.

– Por outro lado, o seu maior erro?

C.B.: Todo mundo que luita está obrigado a cometer erros.

– De acordo com o ex-comandante do PKK Selim Curukkaya, mais militantes do PKK morrerom em execuçons internas do que por guerra ou tortura.

C.B.: Nom é verdade. Sim, as execuçons internas acontecerom. No entanto, a maioria dos nossos amigos que foram vítimas dessas execuçons tiverom os seus nomes e status restaurado. E sabes quem conduziu a maior parte destas execuçons? Aqueles que agora estam-nos acusando destes. Mas, na época, eles estavam no PKK. No entanto, assumimos a responsabilidade por eles.

– Também assume a responsabilidade polos vigilantes de aldeia e as suas famílias que forom mortos, assim como professores?

C.B.: Nengumha dessas pessoas que forom responsáveis polas mortes dos guardas de aldeia estam no PKK hoje. No nosso 4º Congresso, em 1990, demos uma extensa auto-crítica para todas essas açons e abertamente desculparamos-nos. Estamos agora a propor umha comissom da verdade, assim como a que existia na África do Sul. Queremos que estes sejam investigados: Que fixo o PKK? Que fixo o Estado? Que figerom os agentes secretos infiltrados no PKK? Mas só nós traemos estas propostas à mesa, nom o Estado.

– Que língua se fala no PKK?

C.B.: Antes costumava ser principalmente o turco. Hoje, o 70% dos estudos estam redigidos em língua curda.

– Os relatórios escritos som frequentes no PKK?

C.B.: Sim. Todo o mundo escreve relatórios: Administradores, luitadores … eu também.

– Som estes relatórios, em seguida, destruídos ou estam guardados em um arquivo?

C.B.: Som a nossa história. Como poderiamos destruí-los?

– É verdade que você mesmo aprendeu curdo de adulto?

C.B.: Sim. Estudei em um colégio interno e eu estava Turkificado. No entanto, após o meu amigo Kemal Pir apresentou-me o nosso líder Ocalan eu aprendim que eu era curdo. Eu sempre sentim-me em débito com Kemal Pir por isso.

– Kemal Pir era turco e morreu em uma greve de fome na prisom em 1982.

C.B.: Esse é o momento em que eu sentim mais dor.

– Quixo chorar?

C.B .: Um pouco. Mas eu nom queria mostrar isso para os nossos amigos.

– Você estivo nas montanhas por 35 anos. Você já esqueceu o seu país?

C.B.: Eu nom deixei o meu país. Mas gostaria de ir à minha aldeia.

– Você tinha 23 quando foi fundado o PKK. Qual é a diferença entre a sua geraçom e os jovens de hoje?

C.B.: Diferentes do nosso tempo, os efeitos das tribos e o feudalismo é quase inexistente no Curdistam. Os jovens de hoje estam mais conscientes do que está acontecendo no mundo, tenhem mais autoconfiança. Eles às vezes enfrontam-se muito com nós. Esta geraçom é mais radical. Muitos deles forom obrigados a fugir das suas aldeias, juntamente com as suas famílias e crescerom na pobreza. É por isso que eles estam cheios de raiva e às vezes canalizam essa raiva na direçom errada.

– Nessa guerra, polo menos 35 mil pessoas perderom as suas vidas, dos quais a maioria eram das suas fileiras. Assumes a responsabilidade por isso?

C.B.: As pessoas morrerom por os nossos erros, assumimos a responsabilidade por estes. Mas, fundamentalmente, o Estado turco é responsável. Se a Turquia nom tivera negado a existência do povo curdo, nengumha mágoa teria ocorrido.

Publicado em Die Welt em alemao, em turco por BirGun e Kurdish Question em inglês.