Revoluçom de Lapis de Labios

liprevolution3Por Naila Bozo

Um dia, elas som terroristas, ao dia seguinte som femme fatales que luitam ao Estado Islâmico (Daesh). A discussom sobre se as luitadoras curdas som a primeira, a segunda ou umha terceira cousa é dinâmica, e a percepçom pública delas muda facilmente devido à falta de investigaçons a fondo sobre as mulheres reflexadas como seres humanos políticos, as idéias políticas simplesmente nom se retwuiteam tanto quanto umha mulher mata-ISIS. O poder de influenciar a sua imagem está nas maos de quase qualquer pessoa, mas também nas mulheres curdas nas próprias linhas de frente.

Ontem, a estrela de pop curda Helly Luv lançou o seu mais recente vídeo da música chamado “Revolution”. Ele abre com cenas da vida cotidiana em umha aldeia curda, quando de repente acontece umha explosom. Homes, mulheres e crianças caem no chao, mortos ou feridos, enquanto os sobreviventes fogem de um inimigo vestido de preto conducindo um tanque para a aldeia. É em resumo à realidade da vida como tem sido durante meses no Curdistam, no Iraque e na Síria.

Umha única pessoa nom está fugindo dos disparos do tanque: Helly Luv, vestindo tacóns dourados, pulseiras de tornozelo e jóias à cabeça ligada a um keffiyeh vermelho que cobre o rosto com exceção dos fortes olhos. Durante todo o resto do vídeo, ela está dançando em carros abandonados, atirando o inimigo e resgatando umha criança.

O caráter hipersexual de Helly Luv em umha zona de guerra reforça a interpretaçom das luitadoras curdas como umhas femme fatale o que é irônico ja que as suas chamadas na cantiga Revolution é o que as combatentes curdas já estam realizando diariamente e tenhem posto os alicerces há décadas ainda que no vídeo acrescenta às noçons equivocadas das luitadoras curdas.

Um descriçom digerível após o outro tornar umha luita complexa e os seus combatentes igualmente complexos em vários artigos, media metragens e discussons como esta introduçom a “Seven women peacemakers who should be on your radar”: “Quando se trata de mulheres e conflitos, os mídias muitas vezes oferecem duas narrativas. Em um extremo do restritivo espectro, as mulheres som vítimas e sob o cerco – vulneráveis, isoladas, e indefesas. E do outro lado, como evidenciado pola recente cobertura de combatentes curdas na Síria e no Iraque, vemos umha famosa, se nom feticeira, imagem da mulher como guerreira- a sexi, rude empunhando um arma”

É como se as luitadoras curdas deveramm ser entendidas dentro dos limites da seduçom oriental, porque é muito difícil para as pessoas de fora das regions curdas compreendê-las no seu verdadeiro contexto das suas luitas individuais e coletivas. Ao invés de reconhecer um espírito guerreiro inerente às mulheres, som reduzidas a pedaços em umha estratégia mediática e militar construída polo home curdo.

Já houvo acusaçons nos mídias que destacam as combatentes curdas como comunistas bonitas mata-Daesh, um argumento que ignora às mulheres soldados de outras nacionalidades, outro que algumhas dessas combatentes som crianças. Eu concordo com as objecçons, na medida em que a decisom das mulheres curdas para luitar e sua vontade de continuar devem ser interpretadas como específicas a cada mulher e como parte de um longo processo de libertar-se de umha sociedade curda tradicional e dominada polos homes. Elas nom som um instrumento de propaganda e nom devem ser menosprezadas por tais afirmaçons.

Embora o argumento usado por pessoas a milheiros de quilômetros da linha da frente pode ser que as mulheres curdas estam feitizadas e exploradas para efeitos de relaçons públicas, é preciso também considerar que a guerra ofereceu umha maneira para que as mulheres coletivamente e ao mesmo tempo deixaram o rol de dona de casa tradicional, pegar em armas e luitar polas suas crenças; crenças que cobrem tudo, desde o feminismo à proteçom dos direitos humanos à implementaçom da democracia.

É umha preocupaçom legítima que as mulheres curdas sejam retratadas como vítimas, quer terroristas ou sensuais mata-Daesh e, em vez de romper com esta posiçom redutora, Helly Luv e a sua equipe tenhem jogado na fascinaçom bipolar com as luitadoras curdas.

O videoclipe foi concebido para ser um ponto de encontro inofensivo para os curdos para lembrar os caídos e ser inspirador no que já foi um período de pesadelo para nom só o povo curdo, mas o povo sírio e o iraquiano também. No entanto, ele nom provoca essa resposta em mim. Vem transversalmente como umha espécie de revoluçom músical de Lapis de labios devido à sua história simplista amosando umha mulher hipersexual gritando palavras como “unidade” e “revoluçom” e, mais ainda, após um comentário de Helly Luv feito no making of do vídeo e as pessoas que aparecem nos primeiros minutos: “Eu sentim-me tam emocionada filmando esta parte. Todas estas belas pessoas inocentes eram as mesmas pessoas que escaparam do ISIS! Eu nom queria atores. Eu queria que eles contaram a história e a dor que viram e sentiram.”

Eu nom vejo a sua história, nem a sua dor. Eu nom estou  conmovida nem inspirada. Eu vejo o contraste entre umha zona de guerra com crianças mortas e umha mulher em tacons de ouro e, unhas vermelhas longas dançando em um carro. Eu vejo a estrela pop de Los Angeles perpetuando a percepçom das luitadoras curdas como ” sexis, rudes empunhando um arma.” Eu vejo umha revoluçom de lapis de labios.

Publicado em kurdishrights.org