Em defesa de Rojava

Em defesa de RojavaPor Memed Aksoy

O exército turco, juntamente com umha gentuza de jihadistas e militantes do Exército Livre Sírio, invadiu áreas de Rojava e continua a sua incursom ainda mais no território que já fora liberado do ISIS.

Milicianos apoiados por Turquia, como os Batalhons Nour al-Din al-Zenki, Faylaq al-Sham (A Legiom Sham), Brigada Sultan Murad e Jabhat Fateh al-Sham (antes al-Nusra), entre outros -todos salafistas / grupos islâmicos responsáveis por inúmeros crimes aos direitos humanos – já declararom que iam atacar Manbij, a que celebrou recentemente depois de ser libertada do ISIS polas Forças Democráticas de Síria (SDF). Imagens de mulheres tirando os nicabs e fumando, e homes barbeando-se ainda estam frescas na memória.

Depois do acordo de sustituir  em  Jarablus ao ISSIS sem disparar um so tiro, o exército turco envolveu-se em ataques aéreos e bombardeios de áreas civis, matando polo menos 45 em duas aldeias ao sul de Jarablus. Dúzias de combatentes locais do Conselho Militar de Jarablus, filiados às SDF, forom feitos prisioneiros e torturados frente das câmeras; a maioria deles árabes.

Com a última correria militar, a Turquia tentou camuflar a sua guerra regional contra os curdos, usando o ISIS como um pretexto, tentando impedir a uniom dos três cantons de Rojava. Além disso, esta também a tentativa de reforçar às forças sunitas / Irmandade Muçulmana, alinhados ideologicamente com o governo turco do AKP. Através destes mandatários Erdogan espera reviver as suas aspiraçons neo-otomanas de poder decidir no futuro da Síria e umha influência de longo prazo no Oriente Médio e Norte da África.

O que está em jogo, porém, tanto quanto os ganhos curdos, é a possibilidade de umha política e o sistema progressista, laica e democrática na regiom. Isto é o que Rojava representa e é por isso que o regime sírio, Iram, Rússia e os EUA concordarom na invasom da Turquia. A existência de Rojava nesse sentido é umha ameaça ao status quo e interesses de todos os Estados-naçons e governos no Oriente Médio e, e por extensom, aos saqueadores da regiom. Com um modelo alternativo de governança Rojava provou que pessoas de diferentes etnias e grupos religiosos podem-se organizar a nível local, viver, produzir e luitar juntos, sem um Estado centralizado, mesmo nos tempos de umha guerra sectária. A unidade entre curdos, árabes e turcomanos contra a invasom da Turquia é prova disso.

Por esta razom, o desenvolvimento de Rojava e a uniom dos três cantons -Cezire, Kobanê e Afrîn- está a ser impedido por todos os poderes envolvidos na guerra síria. Além disso, e pola mesma razo, o desenvolvimento de Rojava nom pode ser encarados com a mesma luz que as áreas que estam sendo capturadass polos grupos jihadistas apoiados pola Turquia ou o regime. Estes dous sistemas políticos -Islamista e Baathista- nada tenhem que aportar às pessoas em termos de umha democracia humana, progressista e participativa. Na verdade, eles nem sequer fam qualquer tipo de reivindicaçom.

Ainda que Rojava, com a sua retórica anti-nacionalista já refutou as acusaçons de alguns setores de que os curdos estam tentando capturar terras árabes, também é digno de nota que a área entre Kobanê e Afrin, que está sob ataque de Turquia e jihadistas do FSA, forom sistematicamente arabizadas polo regime sírio na década de 1970. Mesmo se nom fosse este o caso, os curdos, enquanto grupo distinto vivendo em umha parte contínua de território em Turquia, Iram, Iraque e Síria, ainda teria o direito de auto-determinaçom e reconhecimento internacional. Defender o contrário significaria que os estados de acima, que tenhem grandes povoaçons curdas cujos direitos tenhem sido negado durante décadas, devem ser considerados ilegítimos desde o momento em que forom declarados.

Em suma, Rojava tornou-se um facho, umha luz de esperança para todas as pessoas progressistas do mundo; contra a desigualdade, os regimes despóticos e sistemas hierárquicos e o patriarcado, Rojava tem levantado a bandeira da humanidade contra a barbárie. É por isso que a Revoluçom de Rojava deve ser defendida contra a agressom turca e jihadista mais umha vez. Mais umha vez as pessoas revolucionárias, democratas, feministas, laicas e todas as forças progressistas devem-se unir, como figeram em Kobanê, para fazer a Revoluçom de Rojava vitoriosa novamente.

Publicado em Kurdish Question.

 

 

Recuperando a esperança em Rojava

Recobrando a esperanza 01Por Jo Magpie

Em algum momento a começos de de fevereiro, eu estava animada por receber um convite para participar de umha delegaçom de mulheres a Rojava, a regiom autônoma de-facto de maioria curda no norte da Síria. A delegaçom estava aberta a mulheres jornalistas, ativistas e avogadas, e coincidia com o Dia Internacional da Mulher.

Eu ia com duas pessoas que nom tinha visto antes: Ali, umha amiga de umha amiga, e Kimmie quem eu entrevistara via Skype para o meu livro sobre mulheres caronas [NT: que fam dedo]. Ela já tinha carona em todo África Ocidental sozinha e escrivira em blogs sobre questons curdas e do Oriente Médio recentemente, de modo que parecia ser umha boa candidata para umha aventura. Nengumha de nós tinha qualquer ideia do que esperar, nom realmente. Mas todas nós estavaamos muito abertas, flexíveis e prontas para o desafio.

Precisávamos essa determinaçom e flexibilidade para atravessar a fronteira da KRG – o governo regional curdo no norte do Iraque – para Rojava. Fomos informadas de que a fronteira estava “nas maos pessoais de” Massoud Barzani, o primeiro-ministro, e que seria necessário obter um permisso.

Isto foi incrivelmente difícil, pois ninguém dos que podiam dar o permisso estava a atender o telefone ou e-mail. Para acrescentar a isto, na época em que começamos a planejar a nossa viagem, o Partido Democrático do Curdistam de Barzani, que está aliado com a Turquia, decidiu que a passagem da fronteira estivera fechada para jornalistas freelance. Logo fechada a quaisquer jornalista, com exceçom de representantes de grandes e bem conhecidas agências dos mídia. Desde que estivemos lá, a fronteira foi completamente fechada.

Nós finalmente conseguimos permisso após de dous dias de e-mails e telefonemas desde o nosso quarto de hotel em Zakho, e um dia inteiro de espera em um posto pouco antes da passagem oficial da fronteira, um rio que corta entre os dous países. Nom podedes imaginar a emoçom que sentim naquel barco azul enferrujado enquanto nos movíamos através das águas para a Síria.

Fum fazendo-me cada vez mais cética depois de anos de relaçom com os movimentos sociais: ecológicos, anti-militaristas, feministas, pola democracia, campanhas anti rodovias, anti fracking, contra a expansom dos aeroportos e contra as guerras e as guerras e guerras. O que eu tinha aprendido era esto: podemos fazer pequenas mudanças, podemos ter pequenos sucessos, mas contra o que estamos a luitar é muito maior que nós. Eu aprendim a fazer umha acçom porque era positiva por si mesma, em vez de sonhar com o sucesso. Eu aprendim a nom deixar que a derrota me debilitar. Mas agora, eu estava prestes a ver umha revoluçom com os meus próprios olhos?

ConsegRecobrando a esperanza 02uimos chegar a tempo para o Dia Internacional da Mulher e manifestamos-nos ao lado de milhares de mulheres com vestidos coloridos e ornamentados, gritando e cantando, polas ruas de Derbesi – umha aldeia cortada ao meio pola fronteira turco-síria. “Jin! Jiyan! Azadi! “cantávamos – mulher, vida, liberdade! Muitas das mulheres e meninas levavam bandeiras ou cartazes. Todas elas sorriam para nós com carinho nos seus olhos, até mesmo as mulheres que guardavam a marcha com Kalashnikovs envelhecidos, quem nos beijavam e abraçavam como todas as maes, irmás e avoas que conhecemos naquel dia.

Ao longo dos dias seguintes, tivemos um tour relâmpago de projetos. Visitamos o centro de saúde da mulher em Serekaniye gerido por umha jovem médico da Holanda altamente comprometida, som meios muito escassos, ajudada por três companheiras curdas que está treinando. Entre lidar com pacientes, a Dra. Ronahi respondeu pacientemente às nossas perguntas , sempre sorrindo, alternando entre o curdo, inglês, turco e árabe. “Algumhas mulheres caminham muitas milhas para chegar ao centro de saúde desde as aldeias”, dixo-nos, mentres chegava um pequeno grupo de mulheres com chador preto com as crianças nos braços.

O centro de saúde foi aberto por Weqfa Jina Azad a Rojava, a Fundaçom de Mulheres Livres da Rojava, que tenhem o objetivo de abrir um centro de saúde de mulheres e umha pré-escola em cada bairro, em todas as cidades de Rojava. Também visitamos duas pré-escolas que já abriram, assim como umha academia de mulheres.

Tornava-se óbvio após o primeiro par de dias que tínhamos imensamente subestimado a dimensom desta experiência. Eu tinha sabido sobre as forças armadas de mulheres, enquanto tiveram ampla cobertura nos mídias ocidentais, e tinha ouvido falar muito sobre a força dos movimentos feministas da regiom. Mas o que vimos foi muito além do feminismo tal como o conheciamos.

As mulheres na Rojava tomarom completamente o control dos seus próprios sistemas em todos os aspectos das suas vidas, desde a saúde à educaçom,  da legislaçom a justiça, bem como organizando três forças de defesa separadas e um corpo econômico independente.

Recobrando a esperanza 03Em toda a regiom, a sociedade está a organizar-se em um sistema democrático coordenado que funciona de baixo para cima, como umha árvore. Este sistema é chamado Confederalismo democrático, e vem das idéias de Abdullah Ocalan, o líder do PKK preso em Turquia.

Neste sistema, as pessoas primeiro se reúnem a nível de “comuna” local, que pode incluir umha aldeia inteira ou de 30 a 400 ou mais famílias. As comunas enviam entom delegados eleitos rotatórios ao próximo nível o “conselho de vizinhança”, composto por conselhos de coordenaçom de 7 a 30 comunas. De lá, os delegados vam ao Conselho Popular do Distrito. As decisons som tomadas no nível ao que afetam e todos os representantes som eleitos, com um home e umha mulher em cada posto.

Há comissons para lidar com questons como a defesa, economia e justiça. Há um Conselho da Mulher em todos os níveis, e comissons só de mulheres que funcionam em conjunto com as comissons gerais, tais como a comissom de economia. Kongira Star é a organizaçom guarda-chuva do movimento de mulheres que, como todas as outras comissons e órgaos públicos, está representado no Tev Dem, ou Movimento pola Sociedade Democrática.

Muitas leis forom recentemente aprovadas em Rojava, graças à força do movimento das mulheres. Proibiu-se a poligamia e os casamentos forçados e levarom a idade mínima legal para o casamento a 18 anos. As mulheres agora automaticamente obtenhem a custódia dos seus filhos no caso de divórcio. As mulheres que sofrem umha ampla variedade de questons podem ir para a Mala Jin ou Casa da Mulher. Até agora, existem treze Mala Jin só no cantom Cizire.

Os problemas aos que se enfrontam incluem maridos que tomam segundas esposas, casamentos forçados, questons de herança e violência doméstica. Como casa de justiça, as Mala Jin tenhem umha abordagem de mediaçom, envolvendo discussons entre todas as partes sempre que for possível – um casal, umha família, duas ou mais famílias ou tribos – e encontrar umha soluçom juntos. Em casos graves, as mulheres da Mala Jin podem decidir sobre um castigo para o agressor, como um período de desterro, ou podem mandá-lo para o sistema judicial oficial, onde podem enfrentar prisom, embora as mulheres que entrevistamos no Mala Jin expressaram um forte desejo de afastar-se da prisom e outras formas nom-reparadoras de castigo.

Recobrando a esperanza 04A unidade de economia das mulheres, ou Aboriya Jin, esta envolvida na coordenaçom de cooperativas. Elas digerom-nos com orgulho que acabavam de entregar umha concessom de 700 m2 de terra a um grupo de mulheres para uso em comum. Elas também discutiram o projeto de um banco de sementes que está sendo desenvolvido. Mais tarde, tivemos a oportunidade de visitar umha cooperativa que acaba de ser criada.

O Projeto Casa Verde é um pedacinho de céu no que costumava ser a linha da frente. Este é o lugar onde eu vi árvores e até mesmo umha borboleta por primeira vez na Rojava, e onde o ar é mais limpo. Umha mulher com o encanto travesso e umha energia contagiante mostrou-nos o projeto que ela está montando. Quando tudo funcione perfeitamente, as mulheres de dezoito comunas vam-no assumir e cultivar alimentos coletivamente, como umha cooperativa.

Também estam a criar umha escola para ensinar técnicas agrícolas às mulheres, que tradicionalmente tem sido considerado um trabalho de homes.

Da-se-lhe muita importância à educaçom em todos os níveis de cada sistema. Umha enorme percentagem da povoaçom é analfabeta. A língua curda foi proibida polo regime de Assad na Síria, bem como polo vizinho estado turco e mantinha-se a regiom economicamente pobre. Adicione a isso umha cultura extremamente patriarcal com idéias arraigadas sobre as mulheres e podemos começar a ter umha ideia de quam incrível realmente é essa transformaçom.

As mulheres estam agora a frequentar academias, onde elas aprendem sobre umha ampla gama de temas incluindo a história da regiom, liderança e responsabilidade, ética, legislaçom, políticas democráticas, o sistema de Rojava, auto-defesa legal, a autonomia das mulheres, ecologia e mais. Há aulas sobre a história da mulher, com base nas ideas de Ocalan de que “A domesticaçom  da mulher é a mais antiga forma de escravitude”. Isto é realmente radical. As mulheres na comunas, aldeias e campos de refugiados ensina-se-lhes sobre os seus próprios corpos e sistemas reprodutivos, desafiando séculos de vergonha e auto-ódio. As aulas som participativas, envolvendo discussons e debates em vez da dinâmica tradicional professor-aluno. As classes levam-se para a comunidade e organizam-se nas comunas e conselhos.

As mulheres tenhem as suas próprias forças de defesa separadas em três níveis diferentes, que se desenvolvem paralelamente, mas independentemente das forças masculinas. Além das YPJ – força militar das mulheres, que tem sido objecto de muitos documentários e reportagens ocidentais; há a Asayish, que som frequentemente descritas como umha força policial e as HPC, a força de defesa civil recém-formadas.

Recobrando a esperanza 05A crítica e a autocrítica som incorporadas ao sistema em todos os níveis. As mulheres nas organizaçons que visitamos muitas vezes nos perguntarom: “Tendes algumha crítica para nós? Que poderíamos melhorar? “As mulheres na Jineologia ou “ciência das mulheres” analisa criticamente os movimentos feministas de outros países, bem como outros tipos de sistemas sociais, movimentos de libertação e ideologias, incluindo o feminismo, anarquismo, socialismo e movimentos e idéias libertárias. Elas vêem os movimentos feministas ocidentais como altamente reformistas.

A segunda semana

A nossa segunda semana em Rojava foi muito diferente da primeira. Nós já nom eramos tratadas como visitantes, nom havia mais tours, mas faziamos parte do tecido da Rojava. Estávamos na recém-inaugurada International House, participando das atividades diárias como cozinhar refeiçons coletivas, participando de reunions um pouco longas sobre assuntos domésticos, indo para aulas de língua curda e os eventos sociais ao lado de outros europeus que optaram por viver na Rojava – pessoas que estam fazendo documentários, fundando projectos, pessoas que luitarom ou estam em processo de formaçom para luitar.

Este é o lugar onde eu comecei a entender o que poderia ser a vida em Rojava se eu ficasse.

Todas pensamos na possibilidade de ficar. Para mim, esses pensamentos eram sempre passageiros. Tinha um marido esperando-me de volta para casa, compromissos incompletos e responsabilidades que me faziam impossível ficar, ou polo menos altamente irresponsavel. Ali cambiou de idéia várias vezes, mas finalmente decidiu que nom era o momento de tomar umha decisom tam importante espontaneamente. Mas Kimmie decidiu ficar.

Dizer adeus a Kimmie foi difícil. O dia que marchamos, ela veu connosco no carro enquanto Jiyan – a mulher que tinha sido a nossa tradutora, guia e amiga – levava-nos de volta ao longo da estrada aparentemente interminável, através de umha série de cidades e vilas intercaladas com os mesmos poços de petróleo e paisagem sombria, travessar umhas montanhas e, finalmente, o rio que divide a Síria do Iraque.

Lembro sentir que já não era a mesma pessoa que tinha estado no pequeno barco enferrujado duas semanas antes, que parecia ter sido umha vida atrás.

O dia depois de sairmos de Rojava, a fronteira quedou fechada. Desde aquel dia, ninguém foi capaz de entrar ou sair legalmente, exceto um punhado de profissionais médicos. As pessoas que saem de forma irregular som detidas e presas no Iraque.

Rojava está agora enfrentando umha crise crescente: nom só ensanduichado entre o ISIS, Assad e umha Turquia muito irritada, mas a rota de abastecimento foi cortada e umha fome de grande escala está no horizonte. Os fertilizantes químicos dos quais a agricultura depende estam esgotados e a produçom de graos diminuiu drasticamente. Apenas um terço da colheita de costume de trigo seram produzidas este ano. As importaçons de alimentos e fertilizantes cessarom por causa do embargo. A regiom deve tornar-se completamente auto-suficiente, e rápido.

Alguns amigos em Rojava estam agora captando recursos para um ambicioso projeto para transformar a regiom desde um monocultivo de trigo -dependente dos químicos, em umha cultura agricultura biológica diversificada. O plano é que a regiom produça todo o adubo orgânico que necessita através da recolha de resíduos biológicos das cidades, vilas e fazendas, a par de um programa de educaçom integral para ensinar os  moradores como e por que eles deveriam separar os resíduos.

A minha liçom

Todos esses anos de organizaçom dos movimentos sociais na Europa ensinarom-me que a esperança era inútil ¬ mas estava errada. Há umha verdadeira revoluçom acontecendo agora, neste mesmo momento, e é mais bonita do que eu imaginava possível. Nom é perfeita, nada o é, mas a força, amor e determinaçom das mulheres no Rojava tenhem-me mostrado o que a luita significa realmente. Elas mostraram-me o verdadeiro significado da solidariedade, e elas derom-me esperança.

A gente perguntam-me se eu acho que essa revoluçom vai durar, se terá sucesso. Nom sei o que o futuro trará. Mas sei que esta revoluçom nom só é de baixo para cima, é também de dentro para fora. Esta é umha revoluçom na consciência, nom só na política, e tem transformado a vida de inúmeras mulheres e homens, talvez por incontáveis geraçons vindouras

Em alguns aspectos, a revoluçom já ganhou.

Jo Magpie é umha jornalista freelance e escritora, com umha paixom pola liberdade de movimento, de carona, do Curdistam e mais amplo do Oriente Médio. Entre escrever sobre fronteiras e revoluçons, está trabalhando em um livro sobre mulheres que fam boleia..

Publicado em Opendemocracy. Todas as fotografias som de Jo Magpie quem possue todos os direitos.

Construindo a Democracia sem Estado

Building Democracy without the Statepor *Dilar Dirik

Quando as primeiras pessoas chegarom a nossa casa há alguns anos atrás para perguntar se a nossa família gostaria de participar nas comunas, eu atirava pedras contra eles para mantê-los longe, ri Bushra, umha jovem de Tirbespiye, Rojava. A mae pertence a umha seita religiosa ultra-conservadora. Antes, ela nunca tinha sido autorizada a sair da sua casa e cobria todo o corpo, exceto os olhos.

“Agora eu formo ativamente parte da minha própria comunidade “, di ela com um sorriso orgulhoso e radiante. “A gente procura-me em busca de ajuda para resolver problemas sociais. Mas, no momento, se tivesses me perguntado, eu nom teria sequer conhecido o que significava “conselho”  ou que fai a gente nas assembléias.”

Hoje, em todo o mundo, as pessoas recorrem a formas alternativas de organizaçom autónoma para dar significado a sua existência mais umha vez, de modo a reflectir a criatividade do desejo humano de expressar-se com liberdade. Estas coletividades, comunas, cooperativas e movimentos de base podem ser qualificadas como mecanismos de auto-defesa do povo contra a invasom do capitalismo, o patriarcado e o estado.

Ao mesmo tempo, muitos povos indígenas, culturas e comunidades que enfrentam a exclusom e a marginalizaçom tenhem protegido os seus caminhos comunalistas de vida até este dia. É surpreendente que as comunidades que protegiam a sua existência contra a ordem mundial evoluindo em torno deles som freqüentemente descritos em termos negativos, como “falta” algo -notavelmente, um estado. As tendências positivistas e deterministas que dominam a historiografia de hoje tornam tais comunidades incomuns, incivilizadas, para trás. A Condiçom de Estado é assumida ser umha consequência inevitável da civilizaçom e a modernidade; um passo natural na evoluçom linear da história.

Há, sem dúvida, algumhas diferenças genealógica e ontológicas entre, por falta de umha palavra melhor, as “modernas” comunas revolucionárias, e as comunidades naturais, orgânicas. As “modernas” estam desenvolvendo-se principalmente entre os círculos radicais nas sociedades capitalistas como revoltas contra o sistema dominante, enquanto as naturais constituem umha ameaça para as potências hegemônicas pola natureza da sua própria sobrevivência. Mas ainda assim, nom podemos dizer que estas comunas orgânicas sejam nom-política, em oposiçom às comunas metropolitanas com a sua intençom política, orientadas a objectivos.

Séculos, talvez milênios de resistência contra a ordem capitalista mundial som, na verdade atos muito radicais de desafio. Para essas comunidades, relativamente neutras para as correntes globais, devido às suas características, geografia singular ou resistência ativa, a política comunal é simplesmente umha parte natural do mundo. É por isso que muitas pessoas em Rojava, por exemplo, onde umha transformaçom social radical está actualmente em curso, referem-se à sua revoluçom como “um retorno à nossa natureza” ou “a conquista da nossa ética social.”

Ao longo da história, os curdos sofrerom todos os tipos de negaçom, opressom, destruiçom, genocídio e assimilaçom. Forom excluídos da ordem estatista em duas frentes: eles nom so lhes foi negado o seu próprio estado, mas forom simultaneamente excluídos dos mecanismos das estruturas dos Estados ao seu redor. No entanto, a experiência de apatridia também ajudou a proteger muita ética e valores sociais, bem como um senso de comunidade, especialmente nas aldeias rurais e montanhosas muito longe das cidades.

Hoje em dia, aldeias curdo-alevi em particular, som caracterizadas por processos de terra comum e constataçom de ritos de conciliaçom para conflitos sociais baseados na ética e o perdom para o benefício da comunidade. Mas enquanto esta forma de vida é bastante prevalente no Curdistam, há também um novo esforço consciente para estabelecer um sistema político centrado em torno de valores comunais do Confederalismo Democrático, construído através da autonomia democrática com a comuna em seu coraçom.

O Confederalismo democrático na Rojava

O Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), como muitos movimentos de libertaçom nacional, inicialmente pensou que a criaçom de um estado independente seria a soluçom para a violência e a opressom. No entanto, com as mudanças no mundo após o colapso da Uniom Soviética, o movimento começou a desenvolver umha auto-crítica fundamental, bem como umha crítica às políticas socialistas dominantes da época, que ainda estava muito focada em tomar o poder estatal. Perto do final da década de 1990. O PKK, sob a liderança de Abdullah Öcalan, começou a articular umha alternativa para o Estado-naçom e o socialismo de estado.

Ao estudar a história do Curdistam e o Médio Oriente, bem como a natureza do poder, o actual sistema económico e as questons ecológicas, Öcalan chegou à conclusom de que a razom para “problema de liberdade” da humanidade nom era a apatridia mas o surgimento do Estado . Em umha tentativa de subverter o domínio do sistema que se institucionalizou em todo o mundo ao longo de 5.000 anos como umha síntese do patriarcado, o capitalismo e o Estado-naçom, este paradigma alternativo baseia-se no opostos – a libertaçom das mulheres, ecologia e democracia de base.

O Confederalismo democrático é um modelo social, político e económico da auto-governo de diferentes povos, desenvolvidos por mulheres e jovens. El tenta na prática expressar a vontade do povo, visualizando a democracia como um método em vez de um objectivo por si só. É democracia sem Estado.

Embora propon novas estruturas normativas para estabelecer um sistema político consciente, o Confederalismo Democrático inspira-se também em formas milenarias de organizaçom social que ainda existem entre as comunidades no Curdistam e além. Este modelo pode parecer muito forçado à nossa imaginaçom contemporânea, mas el realmente ressoa bem com um forte desejo de emancipaçom entre os diferentes povos da regiom. Embora o sistema foi implementado em Bakur (Curdistam do Norte) durante anos, dentro dos limites da repressom estatal turca, foi na Rojava (Curdistam do Oeste) que umha oportunidade histórica surgiu para por o Confederalismo Democrático em prática.

O sistema coloca a “autonomia democrática” no seu cerne: as pessoas organizam-se diretamente na forma de comunas e criam conselhos. Em Rojava, este processo é facilitado polo Tev-Dem, o Movimento para umha Sociedade Democrática. A comuna está composta de umha vizinhança consciente auto-organizada e constitui o aspecto mais essencial e radical da prática democrática. Ela tem comissons de trabalho sobre diferentes temas como a paz e a justiça, a economia, segurança, educaçom, mulheres, jovens e serviços sociais.

As comunas enviam delegados eleitos para os conselhos. Os conselhos de aldeia enviam delegados aos municipios, os municípios enviam delegados às cidades, e assim por diante. Cada umha das comunas é autônoma, mas elas estam ligadas umha a outra através de umha estrutura confederal com o fim de coordenaçom e salvaguarda dos princípios comuns. Só quando os problemas nom podem ser resolvidos na base, ou quando as questons transcendem as preocupaçons dos conselhos de nível mais baixo, elas som delegadas para o próximo nível. As instâncias “superiores” som responsáveis perante os níveis “inferiores” e informam sobre suas açons e decisons.

Enquanto as comunas som as áreas para a resoluçom de problemas e organizar a vida cotidiana, os conselhos criam planos e políticas para a coesom e a coordenaçom da açom. No início da revoluçom e nas áreas recém-libertadas, as assembleias tiveram que erguer os conselhos do povo em primeiro lugar e só mais tarde começou a desenvolver as estruturas organizacionais de base mais descentralizadas na forma de comunas.

As comunas trabalham no sentido de umha sociedade “político-moral”, composta por indivíduos conscientes que entendem como resolver problemas sociais e que cuidam do auto-governo diário, como umha responsabilidade comum, em vez de submeter-se a elites burocráticas. Tudo isso conta com a participaçom voluntária e livre das pessoas, ao invés da coerçom do Estado de Direito.

Claro que é difícil aumentar a consciência da sociedade em um curto espaço de tempo, especialmente quando as condiçons de guerra, embargos, mentalidades internalizadas e antigas estruturas despóticas tenhem sido profundamente institucionalizadas e pode levar a abusos de poder e mentalidades apolíticas. Um sistema de educaçom alternativa, organizada através de academias, busca promover umha mentalidade social saudável, embora a auto-organizaçom na prática reproduz umha sociedade consciente, mobilizando-a em todas as esferas da vida.

As mulheres e os jovens organizam-se autonomamente e incorporam as dinâmicas sociais às que estam naturalmente inclinados para mais democracia e menos hierarquia. Eles posicionam-se “à esquerda” do modelo de autonomia democrática e formulam novas formas de produçom e reproduçom do conhecimento.

Hoje, o movimento de libertaçom curdo reparte o poder igualitariamente entre umha mulher e um homem, desde Qandil a Qamishli e Paris. A idéia por trás do princípio da co-presidencia é tanto simbólico como prático descentralizador do poder e promove a descoberta do consenso, enquanto simboliza a harmonia entre mulheres e homens. Só as mulheres tenhem o direito de eleger a co-presidenta, enquanto o co-presidente é eleito por todos. As mulheres organizam as suas próprias estruturas, mais fortes, mais ideologicamente conscientes em direçom à confederaçom de mulheres, começando com as comunas autônomas de mulheres.

O Princípio da Naçom Democrática

Outro princípio importante articulado por Öcalan é a “naçom democrática”. Ao contrário da doutrina monista do Estado-naçom, que se justifica por meio de um mito machista, este conceito prevê umha sociedade baseada em um contrato social comum e os princípios éticos fundamentais, tais como a igualdade de género. Assim, todos os indivíduos e grupos, étnias, linguas, sexos, identidades e tendências intelectuais e religiosas podem expressar-se livremente e adicionam a diversidade para esta naçom expansiva, a ética baseada, a fim de garantir a sua democratizaçom. Quanto mais diversificada for a naçom, quanto mais forte a sua democracia. Os diferentes grupos e seçons também som responsáveis por si mesmos de democratizar desde dentro.

Em Rojava, curdos, árabes, cristians siríacos, armênios, turcomanos e chechenos tentam criar juntos umha nova vida. A mesma lógica subjacente ao projecto do Partido Democrático do Povo, ou HDP, através da fronteira com Turquia. O HDP uniu todas as comunidades da Mesopotâmia e Anatólia sob a égide da “uniom livre” na naçom democrática.

Entre as suas deputadas conta curdos, turcos, armênios, árabes, assírios, muçulmanos, alevitas, cristians e jazidis -umha maior diversidade do que em qualquer outro partido no Parlamento turco. Contrastando com a monopolismo da ideologia do Estado-naçom, o conceito de naçom democrática serve como um mecanismo de auto-defesa ideológica dos diversos povos.

Apesar de muitas comunidades diferentes participam activamente na revoluçom de Rojava, ressentimentos há muitos pendentes de prevalecer. Confederaçons tribais inteiras de árabes unilateralmente expressarom o seu apoio para a administraçom, mas em algumhas partes, os árabes permanecem desconfiados. Documentaçom dos serviços secretos revelam que já no início de 1960, o partido Baath da Síria fixo planos altamente sofisticados para lançar comunidades diferentes umhas contra as outras, especialmente em Cizire. Em cima das tensons pré-existentes, forças externas, adicionarom combustivel e instrumentalizam o conflito entre diferentes comunidades para promover as suas próprias agendas. A criaçom da unidade entre os diferentes grupos étnicos e religiosos da Síria, e no Médio Oriente em termos mais gerais, seria tornar mais difícil de dividir e governar a regiom.

Um membro árabe da administraçom de Rojava explicou porque este modelo democrático conta com tam pouco apoio por parte dos estabelecidos, bem como grupos políticos recém-formados na regiom e além:

“O sistema de autonomia democrática nos nossos três cantons treme e perturba o mundo inteiro porque o sistema capitalista nom quer liberdade e democracia para o Oriente Médio, apesar de todas as suas pretensons. É por isso que toda a gente ataca Rojava. As diferentes formas de Estado exemplificadas pola República Árabe Síria sob Assad e o Estado islâmico som dous lados da mesma moeda ja que negam e destruem o mosaico da diversidade da nossa regiom. Mas cada vez mais árabes do resto da Síria venhem para Rojava a aprender sobre a autonomia democrática, porque vêem umha perspectiva para a liberdade aqui.”

Um Modelo econômico e Político alternativo

O efetivo sistema de auto-organizaçom, combinado em certa medida com o embargo, que exigiu a autoconfiança e criatividade, assim, alimentou, poupado Rojava da corrupçom económica através de mentalidades capitalistas internas ou exploraçom externa. No entanto, a fim de defender os valores revolucionários além da guerra, umha visom econômica calibrada é necessária para umha sociedade mais justa, economica, ecológica, feminista que pode sustentar umha populaçom empobrecida, traumatizada e brutalizada.

Como envolvem as pessoas ricas, que nom se preocupam polas cooperativas, e evitar ser acusados de autoritarismo? Como organizar os princípios de emancipaçom e de libertaçom na urgência da guerra e umha economia de sobrevivência? Como descentralizar a economia ao mesmo tempo garantir a justiça e a coesom revolucionária? Para as pessoas em Rojava, a resposta está na educaçom.

“Que significa a ecologia para ti? “, Umha mulher na academia das mulheres Ishtar em Rimelan pede as suas companheiras em umha sala decorada com fotos de mulheres como Sakine Cansiz e Rosa Luxemburgo. Umha mulher velha com tatuagens tradicionais nas suas maos e rosto responde: “Para mim, ser mae significa ser ecológica. Viver em harmonia com a comunidade e natureza. As maes sabem melhor como manter e organizar esta harmonia. “Talvez seja a questom ecológica, que ilustra mais claramente em Rojava o dilema de ter grandes princípios e intençons e a vontade de sacrificio, embora muitas vezes sem as condiçons para implementar esses ideais. Por razons óbvias, a sobrevivência, muitas vezes tem prioridade sobre o ambientalismo.

Polo momento, polo menos, é possível falar de um sistema dual de transiçom em que a auto-gestom democrática de Rojava estabelece princípios revolucionários e ecológicos, com cuidado manobrando na guerra e na política real, enquanto o movimento popular organiza a povoaçom desde abaixo. No nível cantonal, especialmente no que di respeito a questons relacionadas com a política externa, práticas centralistas ou polo menos nom revolucionárias som, até certo ponto inevitáveis, especialmente porque Rojava está política e economicamente entre umha rocha e umha espada. É o sistema de autonomia democrática resultante da base ao que as pessoas geralmente se referem quando falam da “revoluçom de Rojava”.

A dinâmica descentralizadora da organizaçom desde a base, principalmente nas comunas, até mesmo servir como umha oposiçom interna aos cantons e facilitar a democratizaçom, que, devido à sua complicada geografia- ainda mais limitada por partidos políticos e grupos nom-revolucionárias – pode tender a umha concentraçom de poder (embora os cantons, como som atualmente, ainda som muito mais descentralizados e democráticos do que estados comuns).

Muito mais importante do que o mecanismo exato por meio do qual a vontade popular se expressa, é o significado e o impacto da autonomia democrática nas próprias pessoas. Se eu tivesse de descrever a “democracia radical”, eu acho nomeadamente as pessoas da classe trabalhadora, as mulheres às vezes analfabetas em bairros que decidiram organizar-se em comunas e que agora fazem política. Risos e jogos de crianças, cacarejar da galinha, sentados em cadeiras de plástico componhem a melodia para a etapa em que as decisons relativas às horas de eletricidade e disputas de bairro som feitas. Deve-se também notar que as estruturas funcionam melhor em áreas rurais e pequenos bairros que nas cidades grandes e complexas, onde som necessários maiores esforços para envolver as pessoas. Aqui, o poder pertence a pessoas que nunca tiveram nada e que agora escrevem sua própria história.

“Queres ver os nossos legumes? “Qadifa, umha mulher velha Jazidi pergunta-me em um centro de Yekîtiya Star, o movimento das mulheres. Ela parece ter pouco interesse em explicar o novo sistema, mas ela está disposta a mostrar os seus frutos no seu lugar. Nós continuamos a nossa conversa sobre as transformaçons da vida cotidiana na Rojava ao comer os deliciosos tomates de umha cooperativa de mulheres no quintal.

A Autodeterminaçom de Rojava está a ser vivida no aqui e agora, na prática quotidiana. Milheiros de mulheres como Qadifa, mulheres previamente completamente marginalizadas, invisíveis e sem voz, agora assumem posiçons de liderança e moldeam a sociedade. Hoje, pola manhá, elas podem, por primeira vez colher os seus próprios tomates da terra que foi colonizada polo Estado durante décadas, enquanto agem como juízes em tribunais populares à tarde.

Muitas famílias dedicam-se totalmente à revoluçom agora; especialmente aquelas que perderom seres queridos. Muitos domicílios familiares começam lentamente a funcionar como casas do povo (“gel mala”) que coordenam as necessidades da povoaçom: as pessoas entram na casa um do outro com os seus filhos para criticar ou discutir ou sugerir idéias sobre como melhorar as suas novas vidas. Os tópicos da mesa do jantar mudarom. As questons sociais tornam-se literalmente sociais, tornando-se responsabilidade de todos. Todos os membros da comunidade tornam-se em líder.

A lenta transiçom da tomada de decisom social a partir de construçons atribuídas às áreas da vida cotidiana é um fruto dos esforços por construir umha nova sociedade moral e política. Para as pessoas de países capitalistas avançados esta maneira direta de comandar a própria vida pode parecer assustador às vezes, especialmente quando as cousas importantes, como a justiça, educaçom e segurança estam agora nas maos de pessoas como si mesmos, em vez de ser entregues aos aparatos estatais anónimos.

Legado da Resistência do Comuna

Umha noite que eu estou sentada perto de Tell Mozan, umha vez o lar de Urkesh, de 6.000 anos, antiga capital dos Hurrians. Nas proximidades está a fronteira entre a Síria e a Turquia, desde há menos de um século. Enquanto bebia chá com Meryem, umha comandante de Kobane, vemos as luzes da cidade de Mardin no Curdistam do Norte, do outro lado da fronteira.

“Nós luitamos em nome da comunidade, dos oprimidos, de todas as mulheres, polas páginas nom escritas da história”, di ela. Meryem é umha das muitas mulheres que se encontrarom com Abdullah Öcalan na sua juventude, quando el chegou a Rojava na década de 1980. Como milheiros de mulheres, em busca de justiça além da sua própria vida, um dia ela decidiu tornar-se umha combatente da liberdade nesta regiom que é ao mesmo tempo o lar de milheiros de crimes de honra e milheiros de deusas, adoradas em todas as formas e tamanhos.

O que atraiu aos movimentos anti-sistêmicos em todo o mundo da histórica resistência em Kobane forom talvez as muitas formas polas quais a defesa da cidade espelhavam umha corrente milenaria da luita humana; as formas em que ela carregava traços universais que ressoam com imaginários coletivos de um mundo diferente. Muitas comparaçons forom feitas com a Comuna de Paris, a Batalha de Stalingrado, a Guerra Civil Espanhola, e outros casos míticos de resistência popular.

Nos zigurates de Sumer, complexos de templos maciços da antiga Mesopotâmia, múltiplos mecanismos hierárquicos começarom a ser institucionalizados por primeira vez: o patriarcado, o estado, a escravitude, o exército permanente e a propriedade privada – o início da formalizaçom da sociedade de classes. Este era propôs umha ruptura social profunda caracterizada pola perda de status social das mulheres e o aumento do homem dominante, especialmente o sacerdote, que tomou o monopólio do conhecimento. Mas também é onde amargi, a primeira palavra para o conceito de liberdade, literalmente “o retorno à mae”, surgiu por volta do 2300 aC

Öcalan propon a ideia de duas civilizaçons: el afirma que, no final do período Neolítico, com o surgimento de estruturas hierárquicas na antiga Sumer desenvolveu-se umha civilizaçom baseada na hierarquia, violência, submissom e monopolismo -o “mainstream” ou “civilizaçom dominante”. Por outro lado, o que el chama de “civilizaçom democrática” representa as luitas históricas dos marginalizados, dos oprimidos, dos pobres e dos excluídos, especialmente as mulheres. O Confederalismo democrático é, portanto, um produto político e manifestaçom desta civilizaçom democrática milenar.

O modelo de autonomia democrática, por sua vez, nom é so umha perspectiva prometedora para umha soluçom justa e pacífica para os conflitos traumáticos da regiom; em muitos aspectos, o surgimento da revoluçom Rojava ilustra como a autonomia democrática pode realmente ser a única maneira de sobreviver. Neste sentido, a comuna revolucionária é um património histórico, umha fonte de memória colectiva para as forças da democracia em todo o mundo, e um mecanismo consciente de auto-defesa contra o sistema estatal. El carrega um legado milenar e manifesta-se em novas formas hoje.

O que une momentos históricos de resistência humana e o desejo de um outro mundo, desde os primeiros combatentes da liberdade da história até a comuna de Paris e a sublevaçom dos Zapatistas às praças da liberdade em Rojava, é o poder inquebrável a ousar imaginar. É a coragem de acreditar que a opressom nom é o destino. É a expressom do desejo antigo da humanidade de se libertar.

Bijî komunên me! Vive la commune!

 Este artigo foi originalmente publicado em Roar Mag e depois em Kurdishquestion.
Dilar-Dirik-140x140*Dilar Dirik, 23 anos, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

 

 

“Imos onde quer que as YPG vaiam”, Al-Sanadid

Sanadid 03As forças Al-Sanadid da tribo Shammar continuam a luitar em colaboraçom com as forças das YPG/YPJ e dim que eles vam seguir as forças das YPG onde quer que elas vaiam.

O 19 de Julho, a Revoluçom da Rojava vai deixar o seu terceiro ano atrás. Durante estes três anos, as forças das YPG/YPJ empreenderom umha maior resistência contra o ISIS e liberarom Kobanê, Til Berek, Til Hemis, Mount Kizwan, Siluk, Eyn Isa e Hesekê.

As YPG conseguiram todas estas vitórias, recebendo o apoio dos povos da regiom. As forças Al-Sanadid filiadas à tribo Shammar, umha das maiores da regiom, tomarom o seu lugar entre as forças que luitam juntamente com as YPG / YPJ desde o início do processo revolucionário em Rojava
.
Sanadid 02A tribo Shammar habita nas regions de Til Kocer e Jazaa do Cantom de Cizîre da Rojava assim como no Iraque. A tribo nom está sob o control de nengumha força no Iraque e só defende as suas próprias terras, enquanto em Rojava as as forças tribais Sanadid combatem em conjunto com as YPG/YPJ. As forças Sanadid dim que eles vam seguir às YPG/YPJ onde quer que vaiam, e que poderiam até mesmo liberar Bagdá conjuntamente.

As forças Sanadid dim que fam os seus planos e preparaçons para as operaçons em conjunto com as YPG. Enfatizam que os membros da tribo Shammar som pessoas das chairas, enquanto os curdos som o povo das montanhas e que as chairas e montanhas reunirom-se na natureza das cousas.

Sanadid 01Dim que a cor vermelha na sua bandeira representa o sangue, enquanto o amarelo representa a luz, chamando-se os que “marcham sobre a morte vermelha”.

Publicado por ANF.

Autodefesa Radical das Mulheres Curdas: Armadas e políticas

ypj1_dilardirik.jpg_1718483346Por Dilar Dirik

A resistência das mulheres curdas funciona sem hierarquia e dominaçom e fai parte da transformaçom e libertaçom social. As poderosas Instituiçons do mundo funcionam pola estrutura do Estado, que detém o monopólio final sobre a tomada de decisom, a economia, e o uso da força. Ao mesmo tempo, somos conhecedoras de que a violência predominante de hoje é a razom pola qual o Estado necessita proteger-nos contra nós mesmos. As comunidades que decidem a defender-se contra a injustiça som criminalizadas. Basta dar uma olhada na definiçom genérica de terrorismo: o uso da força por parte de atores nom-estatais para fins políticos.

Nom importa o terrorismo de Estado. Como resultado, as mulheres, a sociedade e a natureza estam sendo deixados indefesos, nom só fisicamente, mas social, econômica e politicamente. Enquanto isso, os aparatos de segurança do Estado onipresente que abertamente comérciam com armas e beneficiam-se contrapondo às comunidades umhas contra as outras polas suas sujas guerras que dam a ilusom de proteger “nós” contra um misterioso “eles”.

Durante o ano passado, o mundo testemunhou a resistência histórica da cidade curda de Kobane. Que as mulheres de umha comunidade esquecida tornarom-se os inimigos mais ferozes do grupo Estado Islâmico, cuja ideologia está baseada em destruir todas as culturas, comunidades, idiomas e cores do Oriente Médio, a compreensom convencional virada do uso da força e da guerra. Nom era porque os homens estavam protegendo as mulheres ou um estado protegendo os seus “súditos” que Kobane estará escrita na história da humanidade da resistência, mas porque o sorriso de mulheres e homens viraram as idéias e corpos na linha da frente ideológica em que o grupo Estado Islâmico e a sua visom do mundo de violadores desintegrou em pedaços. Especialmente no Oriente Médio, já nom é suficiente que as mulheres “condenem a violência” quando a violência se tornou um fator tam constante nas nossas vidas, quando a nossa percepçom, ou o status construído como “vítimas” é usado como justificativa polos imperialistas para lançar guerras nas nossas comunidades. A ascensom do grupo Estado Islâmico mostrou os desastres que a dependência total em homens e exércitos estatais trae: nada além do femicídio.

Assim, é necessário um mecanismo de auto-defesa radical.

O comportamento da movimento de libertaçom curdo da guerra repousa sobre o conceito de “legítima defesa” e inclui a criaçom de mecanismos sociais e políticos de base para proteger a sociedade além da restrita defesa física. Na natureza, os organismos vivos, tais como rosas com espinhos desenvolvem os seus sistemas de auto-defesa nom para atacar, mas para proteger a vida. Abdullah Öcalan, o representante ideológico do PKK, ou Partido dos Trabalhadores do Curdistam, chamou-lhe a isto a “teoria da rosa”.

Para que a sociedade resista de forma semelhante sem ser militarista, deve abster-se de imitar conceitos para-estatais de força e, em vez, proteger os valores comunalistas, derivando o seu poder a partir da base. A sociedade, especialmente as mulheres, reclama Ocalan, deve-se antes de tudo a “xwebûn”, ou seja a si mesma. Apenas com a realizaçom da existência própria de um e do seu significado, pode-se reivindicar o direito de viver e defender-se a um e à comunidade. Esta deve estar baseada em umha sociedade que está politizada, autoconsciente, consciente e ativa, enquanto internaliza a ética comunitária amorosa – incluindo os valores fundamentais, como o compromisso com a libertaçom das mulheres, em vez de depender da lei imposta polo Estado capitalista e o seu aparato policial. O que transformou o Curdistam em um lugar de peregrinaçom para as mulheres e os movimentos anti-sistema de todo o mundo foi essa postura ideológica que defendeu a vida, em face de um exército de morte.

As forças de defesa em Rojava ilustram como a auto-defesa pode funcionar sem hierarquia, control e dominaçom: No meio da guerra, as unidades de defesa do Povo Curdo, ou YPG, e a brigada de mulheres, a YPJ, bem como as unidades de segurança interna, Asayish, focalizarom na educaçom ideológica. A metade dela é sobre a igualdade de gênero. As Academias educam aos luitadores para entender que eles nom som uma força de vingança e que a mobilizaçom atual é umha necessidade devido à guerra. As academias Asayish trabalham na direçom a umha comunidade com umha Asayish sem armas, que verbalmente intercede nas disputas nos bairros com o objectivo final de abolir completamente as Asayish através da construçom de umha “sociedade ético-política” que vai resolver os seus próprios problemas. Eles rejeitam o rótulo de polícia, porque em vez de servir o Estado, eles servem o povo, porque eles som do povo. A academia Asayish em Rimelan costumava ser um centro do serviço secreto do regime sírio. Alguns alunos foram torturados polo regime como prisioneiros políticos lá. Os Comandantes som eleitos polos integrantes do batalhom em base à sua experiência, compromisso e vontade de assumir a responsabilidade. Essa idéia de liderança no espírito de sacrifício é a razom pola qual muitos dos mártires das YPG/YPJ eram experimentados, amados comandantes.

Para as mulheres, a auto-defesa é mais umha questom de vida ou morte: As mulheres jáziges de Shengal (Sinjar), que som retratadas como passivas vítimas lamentáveis polos meios de comunicaçom irresponsáveis, agora rejeitam ser essencializadas quanto vítimas de violaçom e, semelhante às YJA Estrela (o exército das mulheres do PKK) e as YPJ, Forças de Defesa da Mulher de Rojava, construírom o seu próprio exército autônomo de mulheres chamado YPJ-Shengal, a força de auto-defesa das mulheres jáziges, paralelamente às suas emergentes estruturas de auto-governança autónomas.

Nom é umha coincidência que os primeiros exércitos permanentes surgiram com a ascensom da acumulaçom da riqueza, que também marcou a institucionalizaçom do patriarcado e os antecessores do Estado. O Estado-naçom insidiosamente afirma a sua existência através da elaboraçom das fronteiras entre as comunidades, criando paranóia e genofobia, onde houvo mosaicos de culturas durante séculos. Assim, se estamos empenhados em defender a sociedade, devemos também filosoficamente combater todos os ataques contra a sociedade, desde os primeiros sistemas de dominaçom e hierarquia estabelecidos nos nossos pensamentos.

Dualismos como homem-mulher, estado-sociedade, humano-natureza visam retratar relaçons hierárquicas quanto naturais. O que Thomas Hobbes chamou de “homo homini lupus est” para legitimar o leviatam incontestável chamado estado, é praticada ao estilo big-brother nos nossos tempos modernos. Temos de desafiar a história escrita-fascista que deprecia a sociedade e objetiviza a natureza e, e praticamente ao invés buscar soluçons para os problemas sociais com umha “sociologia da liberdade” centrada em torno das vozes e experiências dos oprimidos.

Contra as premissas racistas do ordem do Estado-naçom separatista e as suas fronteiras físicas e mentais, a sociedade deve reforçar a noçom de “naçom democrática”, conceituada por Öcalan com dissociar a idéia de naçom a partir de formas étnicas de sentido de pertença, para fortalecer a unidade ética mais significativa com base em princípios como a liberdade das mulheres, especialmente nestes tempo do Estado Islâmico. A Revoluçom da Rojava, onde os curdos, árabes, sírios, turcomanos e chechenos tentam criam um novo sistema alternativo juntos, repousa sobre essa noçom política.

A auto-defesa deve, assim, nom só luitar contra, mas também por algo, especialmente no Oriente Médio, onde todas as formas de violência som realizados em uma escala insuportável. Assim, a auto-defesa é umhaa tentativa radical em dissociar a energia do sistema militarista patriarcal – e as mulheres devem ser a vanguarda militante na auto-defesa da auto-determinaçom, ou mais bonito, de umha vida livre. Auto-defesa, acompanhada de pensamento revolucionário, tem o potencial de gerar umha mudança social radical. A Revoluçom da Rojava com seu modelo de “Confederalismo democrático”, proposto por Öcalan, é um exemplo brilhante do poder do povo.

Como a luitadora das YPJ Amara Kobane me dixo:

“Mais umha vez, os curdos aparecerom no palco da história. Mas desta vez com um sistema de auto-defesa e auto-governaçom, especialmente para as mulheres, que agora pode, após milênios, escrever a sua própria história por primeira vez. Os nossos pontos de vista filosóficos nos fai as mulheres conscientes do feito de que só podemos viver resistindo. A nossa revoluçom vai muito além desta guerra. Para ter sucesso, é vital saber por que luitas. ”

Dilar Dirik 24Dilar Dirik,  fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge.

Publicado originalmente em telesur e traduzido com com o permisso expresso da sua autora .

 

Dr. Jeffrey Miley: Um Oriente Médio Além da opressiva Estado-Naçom e o imperialismo é Possível: Rojava

JeffreyO *Dr. Thomas Jeffrey Miley  é entrevistado por Rosa Burc para Kurdish Question.

Quando o paradigma do Estado-naçom esta falhando e o federalismo já nom é umha soluçom: o modelo do Confederalismo democrático é a única alternativa viável.

Quanto viável é o paradigma do Estado-naçom no mundo de hoje? É hora de ir além do conceito de Estado-naçom?

Bem, o conceito de Estado-naçom é de dois gumes. Historicamente, surge com umha promessa emancipatória, associado com a transferência da noçom de soberania que se encontra nas maos do monarca e os aristocratas para as maos do povo, daí a naçom entendida como o povo. Isso está muito associado com a Revoluçom Francesa. Isto tem um espécie de apelo emancipatório em grande parte do século 19. O nacionalismo na Europa estivo associada a este apelo democrático: a naçom é umha fonte de legitimaçom democrática para o exercício do poder político. No entanto, ao longo do século 19, transformou-se em um apelo para um grupo étnico particular, umha espécie particularista da história por um lado e por outro lado, tornou-se utilizada por pessoas no poder para justificar e para obter apoio popular para projetos imperiais em muitos dos países imperiais. Assim ve-se a Gram Bretanha apelando a um conceito de anglicismo, para obter que a classe trabalhadora identificara-se com projetos imperiais. Este também é o caso, por exemplo, na Rússia, onde um nacionalismo oficial de estado foi propagado. Esta é umha problemática histórica que culminou na Europa de entreguerras com a ascensom do fascismo e com atores estatais que utilizam este recurso para o país mobilizar as massas do povo.

Mobilizar massas, a fim de manipular para um projeto nacionalista?

É isso mesmo, utilizar massas do povo para projetos reacionários. Agora, essa transiçom de ‘povo’ causa “meu povo” todos os tipos de problemas em um mundo que estám inevitavelmente misturadas. Portanto, há comunidades linguísticas heterogêneas, comunidades étnicas, comunidades religiosas e similares, que podem ser considerados como componhentes culturais de identificaçom nacional. A criaçom do Estado-naçom após a separaçom de umha entidade imperial nom resolve o problema das minorias étnicas, daí o problema da maioria-minoria. Apenas cria novas fronteiras, que criam novas minorias e maiorias.

Podemos dizer que esses mecanismos de criaçom de novas fronteiras, portanto, re-executam umha dicotomia maioria-minoria ou sistematicamente marginalizam certos grupos dentro da sociedade som inerentes ao paradigma do Estado-naçom?

Sim, em alguns aspectos. Isso é com relaçom aos projetos de construçom nacional dos Estados. Isto é principalmente uma questom de cima para baixo na construçom da naçom. Sim, as pessoas que estam no control do estado usam qualquer tipo de ideologia, a fim de legitimar a sua permanência no poder. Este é o outro lado do estado ideal – o elemento histórico do mesmo. Entom eu diria que há um elemento contemporâneo particular, que está associado com o âmbito de governança que o Estado-naçom fornece. Qual é, por um lado demasiado grande de um espaço para a participaçom democrática, mas por outro lado muito pequeno de uma margem para o controle democrático sobre as forças de dominaçom do mundo. O período de dominaçom neo-liberal global, em particular é algo que nós sempre temos que ter em mente. Temos uma muito coesa classe capitalista organizada, que é transnacional no seu âmbito e do próprio Estado-naçom é, como eu disse, muito grande para a participaçom direta eficaz e, certamente, muito pequena para regular governar e controlar as forças da dominaçom capitalista.

Que dirias sobre a tentativa de construir estados mais descentralizados, usar o federalismo como um meio de democratizar a instituiçom estatal. Achas que esta é umha alternativa para os limites do Estado-naçom ou o federalismo também segue os mesmos paradigmas?

Nos lugares onde tenha territorialmente concentradas as minorias étnico-nacional, o federalismo pode fornecer talvez uma soluçom, mas digamos um paradigma de trabalho a partir do qual as instituiçons democráticas representativas tanto pode ter um apelo a maiorias globais no estado, mas também criar maiorias locais. O problema que as minorias nacionais tenhem frequentemente é que elas podem ser umha minoria permanente. Umha estrutura federal pode dar um espaço, onde essas minorias nacionais estam concentradas territorialmente – um espaço onde elas podem constituir umha maioria. Entom, com isso em relaçom o federalismo pode ser associado a, e alguns dos defensores das idéias federais vai associá-lo, superar um projeto nacionalista nacional ou mono-nacional unitário em abraçar umha concepçom mais multi-nacional de pertencimento o estado.

Será que a criaçom de maiorias locais dentro de um sistema federal rompem com a problemática da hegemonia e da hierarquia ou realmente cria tensons semelhantes, daí reconstrue as mesmas problemáticas a nível local?

Pode criar tensons semelhantes no nível local, sim. É por isso que eu digem que nom resolve o problema. Além disso, há sempre a tentaçom das maiorias locais para utilizar os seus poderes federais, a fim de construir o Estado-naçom a partir de dentro do estado existente. Vemos certas tentaçons para este na Catalunha, por exemplo. Mas de modo mais geral, eu diria, o federalismo com a descentralizaçom pode levar a democracia mais perto, mas também está ligada a umha certa afinidade entre a descentralizaçom de poder e de dominaçom capitalista – quando pensamos do ponto de vista da democracia. A democracia tem dous elementos diferentes, tem a igualdade de participaçom, e, nesse aspecto quanto menor o nível de governança, melhor – em um assembleia que poida a minha voz ser ouvida diretamente por exemplo. Por tanto, há esse elemento participativo da democracia, mas há também a questão do âmbito da governabilidade. Em um assembleia, é difícil regular eficazmente as cooperaçons multinacionais. Vimos nas últimas décadas que há uma afinidade entre um projeto neo-liberal e umha tentativa de enfraquecer os Estados, descentralizando-os – porque um estado enfraquecido é mais fácil de controlar. Podes pensar na divisom do mundo em estados nacionais em um momento de um control capitalista coordenado globalmente – como dividir e conquistar a lógica e o trabalho. Aqui eu acho que a federalizaçom de todos os tipos de control econômico ou de tomada de decisons, por exemplo, sobre a divisom dos recursos a nível nacional nos Estados Unidos, onde os estados ricos nom querem compartilhar com os estados pobres – estados entendidos como subunidades federais. Portanto, nom há essa afinidade entre o federalismo, por um lado e a descentralizaçom, do outro, bem como a dinâmica de dividir e conquistar. Apesar dessas dinâmicas do federalismo nom oferecem um certo atrativo à participaçom democrática. Mas a unidade federal também é muitas vezes demasiado grande para a participaçom local eficaz. Os tipos de cousas que as pessoas falam em assembléias populares estam no município ou mesmo no nível de bairro local. Entom o federalismo apresenta diversos níveis de governaçom, no entanto, ainda pode ser umha estrutura em que as pessoas estam efetivamente marginalizados e sem poder – especialmente se estamos a falar da unidade federativa ter milhons de pessoas na mesma.

Menciona-ches a tentaçom de usar os poderes federais para construir um Estado-naçom dentro de um Estado-naçom, ou a construçom de uma maioria crescente em favor de uma agenda separatista, como é o caso da Catalunha, por exemplo.

Nom é uma coincidência que a vaga de separatismo na Catalunha, que é uma das regions mais ricas da Espanha, está associada com a política do neoliberalismo na Catalunha – nom exclusivamente, é claro, mas, hegemonicamente. Em um momento de difíceis, dolorosas medidas de austeridade que estám a ser implementadas, o aumento deste apelo popular que todos os problemas venhrm de Madrid, por exemplo – o que nom quer dizer que nom existam problemas com relaçom ao nacionalismo espanhol. Eu acho que existe cumplicidade entre as autoridades da Catalunha culpando a Madrid e as autoridades de Madrid culpando os catalans e mobilizando o resto da Espanha contra os catalans. Ao mesmo tempo, as autoridades de ambos os lugares estám igualmente comprometidas com a implementaçom de medidas de austeridade. Assim umha espécie de cortina de fume dinâmica pode surgir dentro das unidades federais. Novamente, isto nom quer dizer que umha re-centralizaçom ou um modelo centralista seria mais viável. Em verdade, seria menos viável. No entanto, é interessante notar que muitos movimentos nacionalistas realmente aspiram a um Estado-naçom concebido como umha linha nacionalista unitária.

Com relaçom às transiçons democráticas e do que dixo sobre o caso catalam, que conduze à conclusão de que o federalismo tem também os seus limites para alcançar umha transiçom democrática e também em propor um modelo alternativo à dominaçom capitalista, bem como ir além do paradigma de estados-naçom. Assim que poderia ser um sistema alternativo, entóm?

Deixe-me ser claro sobre o que eu acho que o caso espanhol tem que oferecer, se olhas para el a partir do ponto de vista dos curdos na Turquia. O Estado turco tem um forte tipo de idéia unitária nacionalista, que é muito semelhante ao nacionalismo unitário do regime de Franco. Essencial para a transiçom para uma democracia e o êxito dessa transiçom foi um acordo entre os representantes democráticos da oposiçom democrática e consagrados no pacto constitucional de 1978 para a descentralizaçom e o surgimento de estruturas quase-federal. Assim, umha acomodaçom das minorias nacionais, reconhecimento da pluralidade nacional e linguística e similares, o que foi crucial para o pacto constitucional, que permitiu a transiçom para a democracia representativa. A esse respeito eu acho que do ponto de vista dos curdos na Turquia, que nom tenhem direitos linguísticos, nom tenhem nengumha instituiçom historica de control, a construçom de um movimento autônomo seria certamente um avanço. Também é um avanço na medida em que el se move em direçom a re-conceptualizar o que significa pertencer a Espanha ou a Turquia. O processo de re-conceptualizaçom é um projeto longo de superar esse ideal nacionalista unitário. Eu acho que o nacionalismo turco realmente poderia aprender com o nacionalismo espanhol em termos de que a reforma. Mas, obviamente, os temores de que a federalizaçom e acomodaçom ao longo destas linhas podem levar ao separatismo é algo que os recentes acontecimentos na Catalunha – embora tenha 30-40 anos de paz e democracia representativa – mais umha vez mostra que nom existe tal cousa como umha panacéia institucional ou de salvaguarda para o representante democrático “viver juntos”.

Acha que o modelo do Confederalismo democrático que está sendo estabelecido em Rojava está oferecendo umha alternativa para os problemas dos Estados-naçom e federalismos lideradas polo Estado?

O Modelo do Confederalismo democrático de Öcalan tem em algum aspecto algumhas afinidades com a noçom federal, para ser visto em particular na idéia de garantir a representaçom política de diferentes minorias nacionais. Mas em outros aspectos, fica longe de umha noçom territorial de constituir maiorias territoriais e também, claro, oferece umha alternativa democrática participativa radical ao ideal democrático representativo. Eu acho que o modelo de Öcalan está realmente mais perto de – digamos, por exemplo, compreensom Austro-marxista de como lidar com as diversidades e desvincula-lo de aspiraçons territoriais completamente. O ideal federal ainda é um ideal que está construído em cima de umha noçom de ‘neste território que constituem a maioria’. O ideal de Öcalan está mais ligado aos direitos como membros de umha comunidade. Está tentando acabar com esta lógica da maioria contra minoria, consagrando a representaçom das minorias, da participaçom e organizaçom de grupos minoritários. No Oriente Médio, este é um modelo muito importante e promissorio. Vemo-lo a ser implementado em Rojava. Desde Israel-Palestina, em todo o Oriente Médio, o modelo confederal democrático de Öcalan fornece a única alternativa viável para uma luita entre nacionalismos diferentes, projetos hegemônicos exclusivos e excludentes. Deixe-me ser mais claro, eu acho que é umha oportunidade muito promissor que surge, no entanto, no meio de um desastre que é a guerra e o colapso do estado na Síria e no Iraque. Em muitos aspectos, tinhas regimes tirânicos, mas eles também eram estados. O colapso e a destruiçom do estado no Iraque e na Síria levou a catástrofes humanas. É fora dessa catástrofe – pesadelo hobbesiano por assim dizer – que surge essa possibilidade alternativa encarnada na revoluçom da Rojava, mas é importante entender que está emergindo no cenário de umha tragédia.

Apesar do feito de que a luita contra o ISIS em Kobanê e Shengal continua, as pessoas começaram a reconstruçom das cidades e também com a implementaçom do modelo do Confederalismo democrático de Öcalan. Estiveches em Rojava, como viches a situaçom atual?

Fiquei extremamente impressionado com a disciplina revolucionária e a mobilizaçom coletiva de um povo em armas contra uma ameaça existencial para a sua existência. Com os tipos de tragédias humanitárias que estam no contexto em torno deles ver essas pessoas mobilizando-se para a sua sobrevivência na busca de ideais muito nobres e admiráveis de alojamento multi-cultural, multi-étnico, multi-religioso e emancipaçom das mulheres, que é umha parte muito importante deste projeto revolucionário e no contexto do Oriente Médio, em particular, é algo que é extremamente admirável. Dadas as justificativas para a dominaçom imperial sobre a regiom com base nos tipos de afirmaçons como “No Oriente Médio, eles nom sabem como tratar as suas mulheres ‘etc. iste revela-se crucial.

Podemos dizer que é a revoluçom da Rojava – por primeira vez – ajudou-nos a superar a narrativa orientalista? Será que a revoluçom da Rojava é um momento emancipatório além do Curdistam?

Em termos de questom da emancipaçom das mulheres, a questom da existência ou nom de ‘essas pessoas som capazes de governar-se a si mesmos “, a revoluçom da Rojava demonstrou um projeto de auto-governo, em que a emancipaçom e participaçom das mulheres está institucionalmente consagrado e garantido. Este tipo de constitucionalismo revolucionário que é um desenvolvimento interessante também, porque nós tendemos a pensar no constitucionalismo associado com estados democráticos representativos que som ricos em representaçom e baixos em democracia. Aqui nós temos um modelo direto de democracia participativa que ao mesmo tempo constitucionaliza os direitos das mulheres, os direitos das minorias étnicas e religiosas. Eu acho que isso sem dúvida sobressai como umha terceira via entre os tiranos autocráticos que governavam toda a regiom nas últimas décadas, por um lado e por outro lado a ascensom do islamismo político, de umha inclinaçom decididamente reacionária que está sendo propagada polos sauditas e Qatar, em particular. O modelo de Confederalismo democrático de Öcalan é umha terceira via, umha alternativa que é muito mais atraente do que quaisquer outros desenvolvimentos no Oriente Médio, na última década ou assim após a invasom criminosa do Iraque.

Falando nom só sobre a regiom do Curdistam, mas de modo mais geral – por exemplo, olhando para o conflito em Israel e na Palestina ou semelhantes – acha que o modelo do Confederalismo democrático de Öcalan que actualmente está a ser implementado em Rojava tem o potencial para iniciar umha soluçom ou até mesmo a paz?

Com relaçom à questom de Israel-Palestina, a soluçom de dous estados nom parece estar no horizonte, apesar de ter sido empurrado por tanto tempo. Nesse mesmo tempo vê-se a expansom de um nacionalismo sionista por um lado e por outro lado é preciso questionar o que a realizaçom de um estado palestino realmente significaria para a liberdade da Palestina. Eu acho que o modelo confederal democrático é umha alternativa, o que podemos dizer em um sentido está ligada a umha soluçom de um Estado, ou, talvez, umha soluçom de nengum estado. É umha ‘soluçom ao Estado “, na medida em que nom é umha forma independentista de lidar com o conflito, mas ao mesmo tempo nom é necessariamente um modelo de estado, porque está ligado à participaçom democrática radical, portanto, umha” soluçom de nengum estado ‘.

Entom, potencialmente conduze à liberdade em um sentido mais amplo?

Com certeza, eu acho que isso é como umha alternativa viável e desejável seria semelhante para conflitos como o de Israel-Palestina, por exemplo. No entanto, obviamente, é muito difícil de obter em particular que os israelenses tornem-se razoáveis, eles preferem o seu projeto nacionalista de dominaçom. É bastante semelhante na Turquia, em relaçom ao nacionalismo turco. Eu acho que a Turquia e o nacionalismo turco tem muito a aprender com o modelo confederal democrático de Öcalan. Com relaçom ao Médio Oriente, temos de pensar na populaçom árabe e a maioria sunita, em particular, penso que este é realmente o desafio para a revoluçom da Rojava, para o modelo do Confederalismo democrático de se envolver no mundo árabe. Aqui eu vejo umha das principais dificuldades para os revolucionários em Rojava. Como é que a revoluçom da Rojava vai espalhar esta mensagem para o mundo árabe? Aqui é onde eu acho o dilema para os revolucionários curdos, em particular, surge e é mais emblematicamente representada pola muito estreita colaboraçom entre as autoridades americanas, a aliança da OTAN e o governo regional curdo no Iraque – em especial na defesa de Kobanê. Por um lado, esta colaboraçom tem sido obviamente útil para as forças revolucionárias no terreno, em termos de ajudar a defender a cidade a partir do assalto do ISIS, mas, por outro lado, uma coordenaçom muito estreita com as forças imperialistas é algo que nom pode ser muito atraente para a maioria árabe e pode criar problemas políticos, no que respeita à credibilidade da revoluçom nos olhos da maioria árabe e o mundo sunita. Eu acho que temos que deixar claro que as fontes de recursos do ISIS tem que ver com a sua aparentemente – e digo aparentemente – oposiçom implacável ao imperialismo que o ISIS representa. Digo “aparentemente” porque por trás ISIS tes a Arábia Saudita, Qatar e as evidências – que muitos dos revolucionários em Rojava foram consistentemente apontar – das autoridades turcas facilitando os ataques do ISIS que é um dilema interessante para a NATO, dado o feito de que a Turquia é um membro da OTAN. Entom, eu acho que é muito importante ressaltar que muitos dos sunitas árabes, que som talvez simpatizantes com o ISIS como umha força aparentemente anti-imperialista, as ligaçons entre o ISIS e o imperialismo. Penso que é umha questom crucial na medida em que a sustentabilidade futura da revoluçom depende da sua capacidade de se espalhar para além da Rojava, além do Curdistan em um projeto mais amplo para o Oriente Médio – que é a mensagem visionária de Öcalan.

Nom é o modelo do Confederalismo democrático que Öcalan propom por natureza já algo anti-imperialista e polo que as potências imperialistas se sentam ameaçadas? Especialmente olhando como el derruba sistematicamente todos os tipos de estruturas hierárquicas e hegemônicas, indo para o nível muito local e comunitário da governaçom democrática, portanto, por exemplo, a implementaçom da democracia de base etc.

Bem, certamente. Como cidadao americano, é muito claro para mim que a razom pola qual a regiom está em chamas tem que ver com o feito de que a regiom, é muito rica em recursos naturais, petróleo em particular. Certamente, as potências imperialistas nom tenhem interesse em o povo da regiom que tem o control sobre os recursos da regiom. Especialmente se as pessoas tenhem a idéia de estabelecer um modelo confederal democrático, que é ao mesmo tempo amigável para o meio ambiente e às questons ecológicas. Esta é umha outra dimensom crucial também. Por outro lado, as exigências da guerra conduziram a esta colaboraçom, mesmo que às vezes as autoridades curdas no Iraque traíram a sua etnia em Rojava quando pressionados polas autoridades turcas para o fazer. Esta colaboraçom com as potências imperialistas pode ser umha ferramenta útil a curto prazo na defesa da revoluçom, mas a longo prazo, pode criar grandes problemas para a legitimaçom do projeto revolucionário em Rojava além do Curdistam.

Concordas que o modelo do Confederalismo democrático de Öcalan nom é apenas umha alternativa ao paradigma das naçons-estados centralizados, portanto, para as realidades dos Estados-naçom anti-democráticos, mas também oferece umha oportunidade para minimizar a influência imperialista na regiom?

Essa é a esperança do mesmo. Na medida em que os ideais democráticos radicais da revoluçom da Rojava estam incorporados e postos em prática, eles exigiriam umha oposiçom implacável ao imperialismo, sim. A implementaçom desses ideais certamente significam o oposto da dominaçom e control imperial.

Portanto, esta “terceira via”, que foi proposta por Öcalan e até agora vem sendo discutida como umha alternativa para o Curdistam e mais amplo no Oriente Médio, também poderia servir de exemplo para superar essas dinâmicas de poder opressivas que ocorrem em todo o mundo?

Sim, o modelo do Confederalismo democrático de Öcalan é a superaçom dos limites do Estado-naçom, superando as fronteiras das limitaçons da democracia representativa e oferecendo umha alternativa ao capitalismo, que é crucial se nós, como humanidade imos lidar com o grandes problemas que temos que lidar com o fim de sobreviver: a sustentabilidade ambiental sendo uma questom urgente, as questons de lidar com as tecnologias de destruiçom ser outra questom – e muito menos com a questom da emancipaçom humana, por usar a velha terminologia marxista – estas som todas as coisas que estam consistentes com o modelo confederal democrático e inconsistente com a hegemonia capitalista liberal-democrática.

Muito obrigado Dr. Miley.

jmiley* Dr. Thomas Jeffrey Miley é professor de Sociologia Política no Departamento de Sociologia na Universidade de Cambridge. Ele recebeu seu B.A. do U.C.L.A. (1995) e seu doutorado na Universidade de Yale (2004). Foi um investigador contratado M. García-Pelayo at the Centro de Estudios Políticos y Constitucionales em Madrid (2007-2009). Os seus interesses de investigaçom incluem nacionalismos comparativos, a política de migraçom, religiom e política e teoria democrática.

Revolução Curda na Síria: Construindo autonomia no Oriente Médio

Sardar 01Por Sardar Saadi – ROAR Magazine | Fotos: Yann Renoult

Rebeldes curdos estão estabelecendo o autogoverno, em plena guerra na Síria. Similar a experiência zapatista no México, os curdos fornecem uma nova alternativa democrática para a região.

Os curdos são conhecidos por ser a maior nação do mundo sem o seu próprio Estado. A história dos curdos é frequentemente associada com inúmeras revoltas em face da opressão sistemático pelos Estados-nação que controlam suas terras. Desde a criação dos Estados-nação, após o colapso do Império Otomano por colonialistas britânicos e franceses, o Curdistão foi dividido entre quatro países: Irã, Iraque, Síria e Turquia. Os curdos foram as primeiras vítimas de acordos colonialistas.

Sardar 02O acordo secreto Sykes-Picot em 1916 ignorou o direito dos curdos para governar sua própria terra. Isso levou a muitas décadas de massacres e opressão. A língua dos curdos foi banida, seus direitos foram negados, e eles foram deslocados de suas terras ancestrais.

Pessoas que necessitam de alimentos e medicamentos na região curda da Síria não podem receber qualquer ajuda de suas famílias que vivem do outro lado da fronteira. Enquanto a maioria das armas e equipamentos militares foram entregues a rebeldes sírios através da Turquia, a fronteira entre as duas regiãos curdas foi fechada, e muitos novos postos militares foram construídos.

A Síria está testemunhando a manifestação mais aterrorizante dessas políticas históricos de dividir para reinar no Oriente Médio. A situação sócio-política na Síria não deixa espaço para a imaginação. Portanto, é crucial para a esquerda procurar uma alternativa para reforçar sua frente. Com a convicção em mente que nos lugares mais inesperados as alternativas mais realistas podem emergir, a região de Rojava na Síria pode propor uma alternativa para o futuro da região.

Sardar 03Os curdos na Síria têm demonstrado a sua capacidade e vontade de ser uma voz alternativa no meio da turbulência na região. Desde que o conflito sírio intensificou e se transformou em uma guerra civil, o movimento curdo, liderado pelo PYD (Partido União Democrática) na Síria tomou o controle da maior parte da região curda no país. Em Novembro de 2013, a PYD anunciou que tinha terminado todos os preparativos para a declaração de autonomia, e uma constituição chamada de Carta de Contrato Social foi proposta.

A revolução do povo em Rojavana resultou na construção de uma região autónoma dividida em três territórios autônomos, cada um com auto-gestão democrática. O Cizre (Al-Jazeera) Canton declarou autonomia em 21 de Janeiro, seguido pelo Kobane Canton em 27 de Janeiro, e Efrin Canton em 29 de Janeiro.
Sardar 04O PYD insiste em formar uma alternativa para todos e não perseguir demandas e interesses de qualquer outro grupo étnico. Ao mesmo tempo, eles rejeitaram a tornar-se parte da guerra civil na Síria, e declararam que apenas usariam suas forças militares para defender-se contra quaisquer ataques provenientes – tanto do regime do Assad como de grupos de oposição apoiados pelo NATO, incluindo os grupos jihadistas como a ISIS e a Frente Al-Nusra. No entanto, as três regiões têm estado sob imensos ataques constantes pelo ISIS.

Neste momento, o ISIS tem concentrado seus ataques contra a região Kobane onde as forças de auto-defesa curdas YPG (Unidades de Defesa dos Povos) estão lutando contra os radicais do ISIS, um ato histórico de resistência.

Sardar 05Sardar Saadi é um ativista e PhD em Antropologia na Universidade de Toronto – escritor pela ROAR Magazine.

Publicado o 25 de Julho do 2014 em RoarMag e em português em guerrilhagrr.

Depois da Revolta: Liçons da Rojava para Baltimore

Baltimorepor Ben Reynolds para RoarMag

A revolta de Baltimore mostrou que a açom direta pode forçar concessons do Estado. O que ainda falta é umha estratégia coerente para a mudança radical.

O 19 de abril, Freddie Gray morreu de graves lesons na coluna vertebral em um centro de traumatismo em Baltimore. Umha semana antes, Gray fora detido por oficiais do Departamento de Polícia de Baltimore depois que el “figera contato visual” com um policia e votou correr.

Um vídeo do incidente mostra à polícia arrastando o corpo mole de Gray para um furgom à espera enquanto el gritava de dor. Com 25 anos derom-lhe um “mau bocado” para a delegacia de polícia – umha prática em que os detidos som deliberadamente abusados, tornando-os a bater contra as paredes do furgom a alta velocidade.

Os protestos depois da morte de Gray, e os confrontos entre manifestantes e polícia eclodirom após a resposta da polícia de mao pesada. Milhares encheram as ruas, e alguns manifestantes incendiaram e destruíram carros da polícia.

O governo da cidade decretou um toque de queda e chamou à Guarda Nacional para “restaurar a ordem”. A revolta de Baltimore foi a mais intensa agitaçom que a cidade tinha testemunhado desde o assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968.

Umha visom do futuro

A revolta provocou ondas de choque através dos Estados Unidos e fascinou a imaginaçom dos oprimidos de todo o mundo. Nos EUA, o evento foi intensamente polarizador. Moderados brancos torciam as maos sobre um CVS [um manual de forças humanas e virtudes] na queimas de umha tenda de empréstimo saqueada enquanto os meios de comunicaçom e os políticos vendiam tropas racistas e criticavam os manifestantes polo seu desafio.

O Baltimore Sun sugeriu “rezar pola paz,” em essência orar porque a violência do Estado continue sem oposiçom. Por outro lado, Ta-Nahesi Coates – um colunista liberal do New York Times – defendeu a revolta em um artigo intitulado “A nom-violência como Cúmplice“.

As reaçons a nível popular, foram igualmente intensas. Imagens heróicas de estudantes do ensino médio expelindo a polícia dos seus bairros inspirou protestos de solidariedade em cidades de todo o país. Em Nova York, umha força policial assustada carregava contra os manifestantes, espancando e prendendo mais de cem manifestantes, incluindo jornalistas e crianças.

As expressons de solidariedade nom se limitarom aos Estados Unidos. O espancamento de um soldado etíope em Israel desencadeou protestos em Tel Aviv, onde manifestantes alegadamente gritavam “Baltimore é aqui”

A revolta de Baltimore evocou essas reaçons porque era o símbolo essencial da luita da nossa era: a batalha entre os setores mais oprimidos da sociedade e os agentes do Estado que defendem a supremacia branca e o capitalismo.

Nom é por acaso que as luitas mais intensas no ano passado surgiram em cidades como Ferguson, Oakland e Baltimore, que forom devastadas pola desindustrializaçom e o complexo penitenciário-industrial. Estes lugares nom som ecos de um passado moribundo, mas é umha visom do futuro de toda a classe operária – umha sociedade carcerária projetada para controlar umha força de trabalho cada vez mais supérflua.

Os negros americanos forom a primeira povoaçom a sofrer a permanente substituiçom de trabalho em virtude de sua posiçom na parte inferior da hierarquia da América supremacista branca. Esse “selecto” status nom lhes foi preservado por muito tempo. Durante as últimas quatro décadas, os ganhos de produçom forom apropriados completamente polos donos do capital, enquanto a chamada “classe média” está cada vez mais endividada e empobrecida.

Os economistas estimam que cerca de 47% dos postos de trabalho actualmente existentes podem ser automatizados ao longo dos próximas duas décadas. Isto nom é umha boa notícia para os jovens do mundo desenvolvido, umha proporçom enorme dos quais já nom podem encontrar emprego sólido. Os estudantes do ensino médio em Baltimore que quebrarom e incendiarom carros de polícia simplesmente reconhecerom que eles nom tenhem futuro no actual sistema.

Umha estratégia viável para mudanças significativas

Por todo o seu simbolismo heróico, no entanto, a revolta deixou-nos perguntando: “E agora que ”

Aprendemos que a polícia pode ser flanqueada e atropelada por adolescentes armados com pedras. Aprendemos que a açom direta é a única maneira confiável para forçar concessons do Estado.

Mas ainda nom temos umha estratégia coerente para desmantelar um sistema social que permite o assassinato em massa, prisons e opressom de negro e trabalhadores. Nós podemos bloquear pontes e estradas, mas ainda nom podemos expulsar a polícia inteiramente das nossas comunidades.

Nós ainda nom temos umha estratégia para substituir o capitalismo com um sistema que valorize a humanidade sobre as mercadorias. Nós tornamos-nos conscientes da nossa força, mas ainda temos de desenvolver os meios para utilizá à sua plena potencia.

As Marchas [manifestaçons] nunca fam alteraçons por conta própria. Umha revolta como a de Baltimore pode forçar o Estado a fazer reformas simbólicas, mas polo geral, muitas vezes retorna tam pronto as chamas se apagam. Este problema nom é de nengumha maneira exclusiva dos Estados Unidos.

Na Bósnia, por exemplo, os protestos massivos em 2014 resultou em edifícios estatais queimados, mas o governo corrupto continua no poder. A revoluçom egípcia de 2011 mobilizou milhons de pessoas, mas nom conseguiu desmontar nem o estado profundo nem a economia capitalista do Egito. O Egito está umha vez mais sujeito a umha ditadura militar.

O principal problema enfrentando polos ativistas radicais de hoje é como transformar a raiva e a frustraçom na rua em umha expressom mais permanente do poder popular. A nossa tarefa nom é institucionalizar ou “canalizar” a raiva popular, em saidas gerenciáveis, mas amplificar o seu impacto através da criaçom de umha base política radical durável. Devemos constituir um desafio sustentado à autoridade do Estado. Nom podemos efetuar a mudança sistêmica na nossa sociedade se nom somos capazes de construir umha estrutura de poder alternativa.

Isso é importante para pensar agora, porque é óbvio que a atual fase ascendente no ciclo da luita nom vai diminuir tam cedo. Há um longo verao à frente de nós, e o estado vai continuar assassinando e encarcerando inocentes com quase total impunidade.

As causas subjacentes da agitaçom generalizada – racismo institucionalizado, inestabilidade econômica e crescente desigualdade – nom pode ser resolvido polo actual sistema, porque eles som pilares fundamentais do capitalismo contemporâneo. Umha cada vez maior parcela da povoaçom necessariamente estaram radicalizados por essas pressons. Se eles se voltam para a esquerda ou para a direita radical ultra-nacionalista e fascista dependerá da nossa capacidade de oferecer umha estratégia viável para produzir mudanças significativas na estrutura da sociedade.

Rojava da um exemplo …

Como podemos criar a mudança fundamental que tam desesperadamente precisamos? Precisamos de umha estratégia superior às estratégias fracassadas do passado; precisamos de um meio para transformar umha insurreiçom em umha revoluçom.

A história oferece alguns exemplos bem sucedidos de organizaçom popular que podemos tirar. Durante a Revoluçom Francesa, as assembleias populares das secçons de Paris formaram umha base radical que empurrou a revoluçom em desenvolvimento para a frente. A Revoluçom Russa de 1917 viu corpos deliberativos populares conhecidos como “sovietes” derrubar o governo provisório em nome do pam e a paz.

Esses tipos de sistemas – com base em conselhos deliberativos e assembléias – freqüentemente aparecem em qualquer período de agitaçom ou revolta, e emergirom recentemente na Argentina, na Espanha e em outros lugares.

No presente, o movimento curdo na Turquia e Síria emprega umha versom desenvolvida do sistema conhecido como “Confederalismo democrático.” Assembléias de bairros cara a cara formam a base da tomada de decisons políticas, enquanto conselhos sucessivos operam no distrito, cidade e em níveis regionais. Os conselhos e assembleias deliberam sobre todas as questons que enfrenta a comunidade e tentam organizar os meios para efetuar as alteraçons necessárias.

Na Turquia, onde a repressom do Estado é intensa e incessante, estes conselhos populares ainda se organizam de forma eficaz e som um locus de política democrática radical. Em Rojava (norte da Síria), estes conselhos formar um sistema político autônomo para os povos da regiom.

Rojava tem eliminado nomeadamente os impostos, reconstruído umha economia baseada em cooperativas e desenvolveu um programa feminista radical multifaceta. Existem contradiçons e falhas em ambos os sistemas, mas estas estratégias tenhem-se mostrado muito mais eficazes no breve período após a sua adopçom em 2005 do que qualquer cousa convocada pola esquerda ocidental.

Que Rojava sobrevivira três anos de guerra civil, um embargo internacional e cercos constantes é umha prova da força das suas assembléias de base.

… E o resto a vir

Organizaçons radicais nos Estados Unidos e no resto do mundo desenvolvido deveriam aprender essas estratégias. Podemos começar por organizar assembleias de bairro em comunidades da classe trabalhadora onde já temos umha forte presença. Estes conjuntos podem-se reunir para permitir discussons cara a cara das questons relacionadas com a comunidade, racismo e violência policial aos despejos, gentrificaçom e exploraçom no local de trabalho.

As assembleias devem estar destinadas a identificar formas nas que a comunidade resolva os seus próprios problemas. Por exemplo, as assembleias poderam coordenar grupos de trabalho para bloquear as expulsons, controlar a polícia e intervir se passam por cima das linhas vermelhas, e organizar asociaçons de inquilinos. A agitaçom dos organizadores e os sucessos de outras assembelias poderiam ser utilizados para inspirar a mais comunidades para formar as suas próprias assembléias.

Estas assembleias de bairro podem entom formar redes com as outras, a criaçom de conselhos com o fim de coordenar-se e da tomada de decisons conjunta. Porque eles som o nível mais imediato e democrático de associaçom política, o poder deve ser colocado em primeiro lugar nas assembléias de bairros.

As assembléias devem ser capazes de se abster de decisons coletivas das quais discordem. Estas redes confederais permitirám assim os bairros manter a sua autonomia, facilitando a cooperaçom em questons de interesse comum. Embora possamos estabelecer algumhas regras básicas para a organizaçom do conselho, incluindo umha adesom estrita aos princípios democráticos participativos e a descentralizaçom da autoridade, devemos permitir que as regras que regem o sistema evoluir organicamente a partir do agir no dia-a-dia.

Umha das vantagens deste sistema confederal é que nom há limites para o alcance geográfico dos conselhos. Conselhos de nivel superior podem ser organizados nos bairro, cidade, regions, nacional e até internacional, todo isso mantendo um sistema democrático que maximiza a autodeterminaçom das comunidades e indivíduos. Tal sistema permitiria equilibrar a necessidade absoluta de solidariedade e de cooperaçom internacional, com umha abordagem que protege contra o autoritarismo.

A culminaçom desta estratégia seria a criaçom de um sistema dual de poder, onde umha rede de assembleias democráticas populares e conselhos compete polo o poder com um estado oligárquico e autoritário. Como nengumha das estrutura poderia finalmente cumprir a usurpaçom do seu poder pola outra, esta contradiçom seria necessariamente acabar com a supressom das assembléias populares ou o colapso do Estado.

O sistema de conselho deve ser nom-sectário e completamente aberto à participaçom de todas as partes dispostas a respeitar os seus princípios democráticos. A grande maioria das pessoas nom se preocupam com disputas seculares entre obscuras seitas da esquerda. Eles preocupam-se com a exploraçom, a dívida, o desemprego, a violência policial, a degradaçom do meio ambiente e no futuro que eles vam deixar ao seus filhos.

Os conselhos permitiriam às diferentes partes a trabalharem em conjunto sobre estas questons, a partilha de ideias e de recursos humanos, mantendo a sua independência e permitindo umha ampla gama de táticas e estratégias. Assim, podemos forjar umha “esquerda unida” sem um acordo a priori impossível em todos os princípios políticos.
É hora de parar de pensar sobre a revoluçom em termos hipotéticos e começar a construir umha alternativa revolucionária agora. O mundo está em um estado de crise política e econômica permanente durante sete longos anos. Milhons de pessoas tomarom as ruas, forjarom novas conexons e alianças, e organizarom novas iniciativas nas suas comunidades.

As nossas acçons até o momento, no entanto, ainda nom proferirom o tipo de mudanças revolucionárias que tam desesperadamente necessitam. A degradaçom ambiental tem continuado sem oposiçom, os ricos apropriarom-se de umha proporçom ainda maior da riqueza do mundo, os Estados continuam a matar e encarcerar milhons, o desemprego continua a ser intoleravelmente alto, e as pessoas que trabalham estam sendo sufocados sob o fardo das enormes dívidas e os baixos salários.

Nós nom temos o luxo de poder esperar para a mudança. Devemos fazer um esforço consciente para construir a revoluçom que precisamos agora. Todo o poder aos conselhos, e Viva a revoluçom!

Ben Reynolds é um escritor e ativista de Nova Iorque. O seu artigo apareceu em CounterPunch e outros fóruns. Para segui-lo no Twitter em @bpreynolds01

Traduzido ao galego e publicado com o consentimento esplícito do autor.

 

A autonomia curda entre sonho e realidade

A autonomia curda entre sonho e realidadepor Alex de Jong

Nesta entrevista, Joost Jongerden reflexiona sobre a revoluçom da Rojava, o papel de liderança de Öcalan, a posiçom das mulheres na luita curda e o PKK.

A defensa da cidade curda de Kobane contra o Estado islâmico chamado (IS) chamou a atençom em todo o mundo. No meio da guerra civil síria, o movimento curdo está a tentar um experimento de democracia e auto-governo em três áreas no norte do país, em conjunto chamado Rojava. A principal força política neste experimento é o PYD (Partido da Uniom Democrática).

O PYD e suas organizaçons irmás na Turquia (PKK) e Iram (PJAK) luitam pola autonomia para a povoaçom curda. Nessas áreas, os movimentos afirmam estar pola construçom de umha sociedade com igualdade de direitos entre homens e mulheres, democracia direta e justiça social. No “contrato social” de Rojava, umha espécie de constituiçom, os recursos e terra som declarados propriedade comum, enquanto as liberdades democráticas, o direito à educaçom gratuita e de um meio de subsistência estam explicitamente reconhecidos.

O processo revolucionário em Rojava é umha experiência única e umha fonte de esperança. Ao mesmo tempo ainda há muito por incerto sobre os desenvolvimentos locais. Enquanto o PYD recebe o apoio de potências ocidentais na sua luita contra o IS, a sua organizaçom irmá – o PKK – ainda está proibido nos países ocidentais como umha “organizaçom terrorista”. Muitas pessoas na Síria criticam fortemente o PYD. Que tipo de movimento é o PYD? E quais som os desenvolvimentos em Rojava?

Nesta entrevista, Joost Jongerden aborda essas questons – e outras. Jongerden ensina sociologia rural na Universidade de Wageningen, na Holanda e publicou vários livros e artigos sobre o Curdistam e o movimento curdo. Entre outras obras, escreveu Radicalising Democracy: Power, Politics, People and the PKK e co-editou um artigo em the European Journal of Turkish Studieson ‘Ideological Productions and Transformations: the Kurdistan Workers’.

A entrevista foi feita e traduzida do holandês por Alex de Jong.

Imos começar com a evoluçom política do PYD. Esse movimento baseia-se na mesma ideologia que o PKK, umha organizaçom que começou como um movimento de libertaçom nacional marxista-leninista. Minha impressom é que, desde meados da década de 1990, e especialmente desde a prisom do líder do PKK, Abdullah Öcalan, em 1999, umha metamorfose ideológica vem ocorrendo em que a democracia direta e autonomia forom colocadas no centro do discurso do movimento.

Deixe-me começar por abordar a caracterizaçom do PKK. Esta organizaçom foi oficialmente fundada como um partido em 1978, mas já a partir de 1972 em diante, no 73 houvo um processo de formaçom do grupo que levou ao nascimento do PKK. Portanto, este grupo começou a se formar logo do golpe militar na Turquia, em 1971. Este foi um momento em que a esquerda radical na Turquia foi violentamente reprimida, dirigentes e quadros dos movimentos de esquerda forom condenados à morte ou morreram durante as operaçons militares, e muitos outros ativistas foram presos.

O que seguiu foi um período em que ativistas tentaram reconstruir a esquerda e estavam procurando um novo ponto de referência. As pessoas que mais tarde iriam formar o PKK já estavam ativos durante esses anos e estavam procurando também. Na primeira, as separaçons entre os grupos eram lenes – houvo muita discussom interna – mas, mais tarde, esses grupos evoluíram para organizaçons claramente separadas.

Umha diferença importante entre o PKK e outros grupos que se foram formando durante esse tempo foi que permaneceu independente dos modelos políticos existentes. Eu quero suavizar a impressom de que o PKK era muito “ortodoxo”. Era um partido marxista-leninista, com a hierarquia e pontos de referência ideológicos que se esperaria de tal partido. Como tal, nom foi muito diferente da maior parte da esquerda no momento.

Mas a diferença foi que o PKK nom considerou nengum dos países “socialistas” existentes para ser umha luz – nom China, nem Cuba, nom Albânia, nem a Uniom Soviética. Estes países aspiravam a realizar o socialismo, mas nengum deles foram considerados exemplos adequados. Esta foi umha importante diferença entre o PKK e muitos outros partidos de esquerda na época, os quais tendem a ver certos países como a personificaçom da sua concepçom do socialismo – como o seu modelo.

Que implicaçons tivo isto para o PKK?

O PKK tinha umha visom mais crítica da sua própria ideologia. Eles nom adoptarom um modelo existente, mas forom capazes de interrogar-se criticamente. Eles estavam mais auto-suficientes ideologicamente. Eles sempre deram muita atençom à auto-avaliaçom e à educaçom ideológica; depois de tudo eles nom tinham um modelo ou estado-guia, entom forom forçados a pensar mais para si mesmos.

A metamorfose ideológica do PKK está relacionado a isso. A meados dos anos 80, o PKK formulou umha crítica a Uniom Soviética, o que fixo que fossem atacados por partidos pró-Moscou. Hoje em dia, o PKK afirma que este período foi o início de um processo de interrogatório auto-ideológico.

Se analisarmos essa crítica hoje existe o risco de projetar coisas para el, mas é provavelmente seguro dizer que há umha relaçom entre a crítica e os desenvolvimentos posteriores. O PKK observou que a realidade nos países onde os movimentos de libertaçom nacional, ou o “socialismo real existia”, tomarom conta que era muito diferente das promessas polas que as pessoas tinham luitado.

Se falas sobre isso com os membros do PKK hoje, eles iriam dizer que é errado pretender que essas luitas nom trouxeram ganhos – mas eles também enfatizaram que os resultados ficarom aquém das promessas. Mesmo assim, perguntas sobre as razons disso já se foram conectar a umha crítica do Estado-naçom. Mas naquela época, enquanto eles tinham essa crítica, eles nom tinham umha alternativa. A mudança de paradigma na forma de pensar sobre o estado foi um processo a longo prazo que foi concluído em algum lugar em 2003-’05.

Seria correto dizer que o processo de questionar a ideologia marxista-leninista vem de mais longe, mas que no início do 2000 as respostas adequadas foram formuladas?

Sim, exatamente.

E essa crítica, foi ao estado como tal, ou a certos Estados-naçom existentes?

Ambos, na verdade. É umha crítica do Estado-naçom no sentido de que questiona como em tal estado umha certa identidade torna-se a medida de quem tem direitos – excluindo as pessoas que nom se encaixam em umha identidade particular ou empurrando-os para assimilar em graus variados. É parte da essência do nacionalismo turco, do Kemalismo, assimilar as pessoas com umha identidade cultural diferente, e os curdos formularam umha crítica feroz de tais políticas. De certa forma, isso é auto-explicativo, mas muitos movimentos de libertaçom nacional ainda criticaram o estado em que eles viviam enquanto que procuram umha soluçom na criaçom de um Estado-naçom próprio. O problema retorna como a soluçom!

Dentro do PKK, a crítica do Estado-naçom Turco levou a um questionamento da desejabilidade de um Estado-naçom curdo no qual as minorias poderiam mais umha vez ser prejudicadas. O estado, como tal, é acusado de ter penetrado nos micro-níveis da vida social e de suplantar capacidades próprias e potencialidades das pessoas para a auto-organizaçom. Nós todos relacionamos-nos com o Estado como indivíduos separados, enquanto as formas de coletividade, em grande medida, foram desmanteladas. A sociedade está estilhaçada. Em vez de voltar-se para o estado como umha soluçom, as capacidades das pessoas para a auto-organizaçom devem ser reforçadas.

Mas em muitos dos escritos de Ocalan, o líder ideológico, fala do movimento sobre umha cultura curda imutável essencial. E mesmo que isso nom está relacionado com a meta de um Estado-naçom curdo, é questionável quanto o espaço que esta deixa ao pluralismo social, para os grupos que estam fora desta categoria – tanto mais assim porque, de acordo com Öcalan, a política do PKK é supostamente com base no que el considera ser a essência desta cultura curda, que é a sua natureza igualitária e amante da liberdade.

Eu acho que os escritos de Öcalan som ambíguos. Lermos referências a umha certa concepçom da história curda, mas ao mesmo quando el discute a categoria dos “curdos”, reconhece que este é um grupo variado – por exemplo, nas línguas que som faladas, ou em termos de religiom. Portanto, se alguém iria tentar criar um estado naçom curdo, qal seria a língua nacional? Esses som o tipo de perguntas que o PKK levanta e que levam a muita discussom dentro do movimento curdo em geral. Mas nos próprios textos quase nunca encontra um interrogatório sobre a identidade curda.

A partir de mais ou menos na virada do século em diante, parece que o movimento encontrou algumhas das respostas para as perguntas que tinham na obra de Murray Bookchin, um socialista libertário dos EUA. Por que Bookchin? A minha impressom é que este começou com Öcalan que começou a ler muito depois de sua prisom, encontrando Bookchin – e o resto da organizaçom seguido depois del. Isso é correto?

Tes que considerar que Öcalan defendeu-se a si mesmo, no juiço do Estado turco contra el. Isto deu-lhe acesso quase ilimitado a literatura. Há listas dos livros que el solicitou ler na prisom e aqueles som muito extensos e variados. Bookchin é um dos autores que constam nessas listas, mas el nom é muito proeminente. Ainda assim, era claramente umha inspiraçom para Öcalan. Ocalan fala regularmente com seus avogados e essas conversaçons som gravadas, editadas e publicadas polo PKK.

Em um certo ponto durante essa conversa, Öcalan recomenda os membros dos conselhos municipais nas áreas curdas do sudeste da Turquia ler Bookchin. Claramente, a teoria espalhou-se a partir de si mesmo, de Öcalan. Ao mesmo tempo, acho que o PKK tem procurado coletivamente novas idéias, mas neste processo Öcalan permanece dominante. Ainda este papel nom é completamente incontestavel, e em 2004 houvo umha separaçom. um distânciamento do PKK de pessoas que nom concordavam com a nova orientaçom de Öcalan.

Alguns anos antes, já houvo umha cisom após as declaraçons de Öcalan no tribunal turco. Um número de militantes do PKK na época afirmou que Öcalan tinha abandonado os objetivos do movimento, por exemplo, ao afirmar que o PKK já nom queria criar um Estado curdo. Esses membros queria ficar com a velha orientaçom. A declaraçom de Öcalan no tribunal foi como um choque para muitos membros do PKK.

Sim, de feito.

Mas isso indicaria que o próprio Öcalan, como indivíduo determina este desenvolvimento. Parece haver contradiçom dentro do PKK: esta organizaçom e os seus aliados tenhem desenvolvido em um movimento reivindicando umha espécie de democracia direta como meta, mas ao mesmo tempo esse objetivo da democracia a partir de baixo parece estar baseado nas instruçons de cima, do Öcalan?

Öcalan certamente desempenha um papel predominante. A primeira vista poderia ver-se como moi forte, mas certamente poderiamos falar de motivaçom. Mas tome o movimento anarquista na Holanda no início do século XX como um exemplo: Domela Nieuwenhuis era claramente predominante neste movimento e deixou umha impressom muito forte sobre el. Ao mesmo tempo, há diversas formas auto-organizaçom em curso. Há umha certa tensom entre estes desenvolvimentos, mas um papel de destaque de um determinado indivíduo nom exclui a participaçom ativa dos outros.

O PYD alega nom ter laços organizacionais com o PKK, mas eles tenhem a mesma inspiraçom ideológica e desenvolvem-se de maneira semelhante. Os dous compartilham um objetivo comum. Esse objetivo passa por nomes diferentes. Na sua declaraçom no tribunal, Öcalan fala de umha ‘república democrática’; hoje o ênfase é sobre algo chamado “autonomia democrática”. Ambos estám cobertos por um terceiro termo, “civilizaçom democrática”. Que significam esses termos em concreto?

Eu faço umha distinçom entre república democrática, autonomia democrática e Confederalismo democrático. A república democrática é o projeto de reconstruçom da Turquia, com o seu núcleo em umha nova constituiçom que iria separar os direitos civis da identidade. Na atual Constituiçom da Turquia, os direitos civis som dependentes de ser turco e esta identidade é até certo ponto definida etnicamente. A república democrática é o nome de umha república em que os direitos civis nom som mais privilégio de um determinado grupo étnico; umha república em que os demos som separados da etnia.

A autonomia democrática significa dar-se as pessoas a si mesmas o poder de decidir sobre questons que os afetam. O Confederalismo democrático é umha estrutura administrativa dos órgaos locais, conselhos, em que este poder está organizado. Eu acho que esses som os elementos centrais. A modernidade democrática ou civilizaçom democrática é, eu diria, um termo genérico para esses princípios.

YPGE o objetivo é estender redes confederalistas democráticas através das fronteiras estaduais existentes?

Sim, o objectivo é formar a autonomia democrática a partir de baixo, pola tomada de decisons de baixo. O Confederalismo democrático significa que tais decisons nom som tomadas isoladamente dos outros e nom se limitam a interesses e deliberaçons locais. A autonomia local precisa ser forjada em conexom com outros, caso contrário, podes acabar em umha situaçom em que umha comunidade só está interessada em si mesma e, basicamente, ignora o resto do mundo.

Partes da Rojava som ricas em petróleo. Sem ligaçons entre localidades, pode-se acabar em umha dinâmica em que a comunidade que vive no topo do petróleo di que “é nosso”, e as desigualdades existentes entre as regions acabam sendo reproduzidas. No entanto, em declaraçons de Öcalan se encontra muito pouca discussom de tais questons sócio-económicas; ele se concentra principalmente sobre os direitos e liberdades culturais. El argumenta que, nas regions curdas nom há cristalizaçom de classes sociais e que nom há luita de classes lá. Quam realista é isso?

Há algumhas contradiçons nítidas especialmente relacionadas com à terra. Cizîrê, o maior dos três cantons em Rojava, está composto predominantemente de terras agrícolas. Ou podes tomar o sudeste da Turquia, o norte do Curdistam, que também é umha regiom predominantemente agrícola, com apenas alguns bolsons de indústria, semelhante ao Curdistom iraniano. A exceçom é o sul do Curdistam no Iraque, que é umha economia de consumo baseada na exportaçom de petróleo e importaçom de quase todas as necessidades básicas.

No sudeste da Turquia, em particular, a classe média está-se formando e as contradiçons sociais e as luitas sociais som os principais problemas enfrentados polo movimento nas cidades. Talvez nom se pode realmente dizer que há umha classe trabalhadora, porque a economia local está relativamente pouco desenvolvida, mas há umha subclasse. E a pergunta é: como é que o movimento se relaciona com isso? Em teoria, esta questom nom é realmente abordada.

Mas no ano passado houve umha série de reunions no sudeste da Turquia para discutir como umha economia poderia estar organizada no âmbito da autonomia democrática. Assim, a questom de nom receber atençom, mas é mais fácil para o movimento de organizar as pessoas em torno de questons culturais ou linguísticas do que é em torno da classe. Quando o Estado turco nom oferece educaçom em língua curda, podes organizar isso mesmo – e, em seguida, o Estado pode proibir isso, mas, polo menos, as contradiçons estam claras. A reorganizaçom da economia é mais complicada.

Nom é que essa discussom também se torna mais difícil porque há umha tendência dentro do movimento de falar em termos de curdos em geral, como luitando contra umha forma externa de opressom? Afinal, se queres discutir a questom social, como contradiçons entre camponeses sem terra e proprietários, basicamente estás falando de contradiçons entre curdos, entre o povo curdo, ou qualquer termo que desejes usar.

Isto é claramente um problema que recebe menos atençom polo momento. O antigo PKK considerada ambas, as questons sociais e de libertaçom nacional, como temas centrais em torno dos quais organizar as pessoas. Sob a autonomia democrática, na ideologia atual, a libertaçom nacional nom toma a forma de construir um Estado independente, mas sim de auto-organizaçom. A questom social deve ser umha parte disso, mas em um contexto de guerra como em Rojava hoje, isso seria muito diferente da situaçom no norte do Curdistam, por exemplo.

Em Rojava, a distribuiçom da energia e alimentos está organizado através dos órgaos de autonomia democrática. No contrato social da Rojava, a terra foi declarada sob propriedade comum -, mas a terra dos grandes proprietários de terras nom foi expropriada porque o movimento “nom quer usar a força”. Ainda assim, se as contradiçons sociais se aprofundar, qual é a alternativa? No momento em que o movimento em Rojava realmente nom foi confrontado com esta questom ainda. Muitos dos proprietários fugirom e nom está claro o que vai acontecer quando a guerra terminar, e se estes latifundiários vam voltar. Acho que foi umha escolha do movimento manter a cautela de momento.

O antigo PKK via a sua revoluçom como um projecto que se desenvolvia em duas etapas: a primeira, a libertaçom nacional, através da formaçom de um Estado curdo independente, e em seguida a libertaçom social e a igualdade. Será que a diminuiçom da centralidade da questom social hoje ainda refletem a influência dessa seqüência?

Eu nom acho. Em princípio, o movimento vê como as duas em simultâneo, mas também como processos que estám em curso. É o mesmo para a questom de gênero: o movimento nom di: “primeiro, estabelecer a autonomia democrática e cuidar das questons culturais e linguísticas e só depois é que lidamos com a posiçom das mulheres na sociedade”. Em vez disso, eles trabalham simultaneamente sobre estas questons. Em Rojava, por exemplo, algumhas famílias mantenhem as suas filhas em casa e nom lhes permitem ir para a escola. O movimento nom força essas famílias a enviar as filhas à escola; eles falam com eles para tentar convencê-los. Que a libertaçom nom acontece durante a noite – é um processo contínuo.

No caso destas famílias conservadoras, pode ser contraproducente, se o movimento tenta, de cima para baixo, forçar de mudar tais hábitos culturais.

Mas é o mesmo com a questom da terra, e de quem é o dono – que é também umha questom cultural.

Mas, no caso da terra há umha clara contradiçom entre os interesses dos grandes latifundiários e dos camponeses sem terra. A força torna-se inevitável.

É verdade, mas se um movimento camponês forte surgira para expropriar a terra eu nom acho que – e estou especulando aqui – que o PKK ou PYD se voltaria contra el. Se estes latifundiários voltam depois de anos e exigem a sua terra de volta, as pessoas que venhem cultivando a terra provavelmente nom a vam ceder facilmente. Eu acho que é possível que a realidade diária produza um processo de expropriaçom, mas isso nom é seguro.

Todo isso fala de umha certa concepçom da revoluçom; ela nom é mais como o velho PKK, que viu a sua tarefa conforme tomar o poder e, em seguida, implementar o socialismo por decreto. Em vez disso, a revoluçom é vista como um processo de conscientizaçom e dando orientaçom ideológica. O PKK hoje em dia nom di que é o “partido de vanguarda”, mas o catalisador e inspiraçom ideológica. Assim, o PKK / PYD tem como objetivo preencher essas estruturas democráticas com a sua própria ideologia.

Eu acho que sim, daí o forte ênfase na educaçom ideológica.

Um dos elementos centrais d a ideologia é a libertaçom das mulheres. Mas, como já mencionaches, há também fortes tradiçons patriarcais na regiom. Onde é que vem esta ênfase na libertaçom das mulheres?

Aqui, novamente Öcalan desempenhou um papel significativo por ter levantado esta questom dentro da organizaçom. Mas ele nom começou com ela. As mulheres desempenharam um papel importante no início do PKK já – Talvez elas nom eram muitas mas tinham influência. Que distinguiu o PKK de outros partidos de esquerda na época, que nom tinha mulheres em cargos de liderança. E a atençom para a libertaçom das mulheres cresceu ao longo do tempo. Desde o início, a luita do PKK desde um espaço em que as mulheres podem desempenhar um papel social e político, e como a influência do PKK cresceu esse espaço cresceu junto com el.

O papel de Öcalan era levantar a libertaçom das mulheres como umha questom teórica dentro do partido. Ao mesmo tempo, as mulheres do partido frequentemente se referem a el. Por volta de 2003 / ’04 houvo umha luita interna dentro do PKK após a liderança do partido decidiu que os movimentos de mulheres deveriam estar subordinados ao partido. O movimento de mulheres opujo-se fortemente e usaram os argumentos de Öcalan, o líder, para fortalecer o seu caso. Elas ganharom esta batalha. Assim, as declaraçons de Öcalan também som usadas polos membros para luitar por umha certa autonomia para si próprios.

O PKK tem umha concepçom peculiar da libertaçom das mulheres. Quase nunca se referem a pensadoras feministas ou correntes fora da sua própria organizaçom e tendem a pensar em termos de umha dicotomia entre homens e mulheres – e de priorizar essa contradiçom sobre os outros.

É verdade, mas este é umha tentativa de formar umha determinada matéria. A contradiçom colonizado-colonizador é umha contradiçom que permite a formaçom de um grupo. A questom social é outro, ainda que esta é dada menos atençom agora), e a contradiçom entre homens e mulheres – a questom de gênero – é outra. Existem vários campos de luita e a tentativa é formular um tipo de política que nom prioriza umha luita sobre a outra.

Mas muitos textos do PKK debatem ‘a mulher’, enquanto umha das percepçons dos movimentos feministas é que nom existe tal cousa como umha única categoria, homogênea de ‘a mulher’ – as mulheres estam divididas em nacionalidade, identidade sexual, de classe e etc..

Eu acho que a luita das mulheres está formulada em um nível muito político e ideológico e ocorre ao longo de linhas que som, em parte, o resultado da divisom do trabalho entre homens e mulheres, e, em parte, o resultado de concepçons culturais e religiosas sobre os papéis de homens e mulheres . As discussons sobre como dar forma a que campo de luita está a ser seguido por pessoas que estam próximas ao movimento, mas eu nom sei o impacto que isso tem no seio do partido. As pessoas que nom som afiliadas a organizaçom ou que nom som membros do partido, muitas vezes desempenham um papel importante nas discussons sobre política de esquerda, e com o PKK como bem podes ver que as pessoas tornam-se ativos em torno de umha determinada questom e discutem essas questons fora do partido também.

Será que o PKK se interessar por esse tipo de discussom?

Eles confiam fortemente na sua própria educaçom e ideologia. Ao mesmo tempo, quando das umha volta a regiom e procuras, por exemplo, em livrarias que estam perto do movimento e que vende livros que som publicados localmente, verás umha ampla gama de pensadores. Pense em pessoas como Wallerstein e Chomsky, mas Adorno e Gramsci som traduzidos também.

O que eu achei interessante foi a carta escrita por Suphi Nejat Agirnasli, que era supostamente umha membro do MLKP turco, e que caiu na defesa de Kobane. Ela referiu-se a um número de feministas de esquerda – algo que você nom esperaria a partir de um membro de umha organizaçom maoísta como o MLKP. E, recentemente, círculos que estam perto do PKK organizarom umha grande conferência na cidade alemá de Hamburgo para o qual convidou a diferentes pensadores de esquerda como John Holloway e David Harvey.

Será que o envolvimento de vários grupos turcos de esquerda com Rojava conduzira a mudanças dentro da esquerda turca?

Eu nom posso avaliar o significado disso. O que é mais importante é o desenvolvimento do partido curdo legal HDP -esquerda, e em que medida el terá êxito em encontrar apoio no oeste da Turquia. Os partidos curdos legais sempre tentaram formar alianças às eleiçons com a esquerda e, muitas vezes entraram junto a turcos, mas essas partes permaneceram pequenas. O HDP está agora a tentar construir umha estrutura partidária que pode apelar para esquerdistas turcos bem e que é mais amplo do que os existentes, grupos radicais normais. Se eles conseguem isso, há umha possibilidade de um avanço político.

YPJRojava chamou muita a atençom durante a luita contra o IS em Kobane. Mas a experiência em Rojava foi possível graças a guerra civil na Síria. O PYD é acusado de ter um acordo com o regime de Assad: o regime retirou as suas tropas e o PYD nom abriria umha nova frente contra o regime, criando um tipo de situaçom win-win para Assad e os curdos.

Mas também é verdade que, desde 2005, já, as pessoas venhem a trabalhar sobre a idéia da autonomia democrática. Na Turquia, essas estruturas também estam sendo formadas e eles estam tentando iniciar o mesmo processo no Iram. Mas em Rojava este projecto foi capaz de tomar umha forma muito diferente, na verdade, em parte por causa da guerra. As pessoas trabalham no mesmo projeto e estam tentando moldar o projeto dentro das estruturas de poder existentes. A guerra civil na Síria constituiu umha oportunidade para desenvolver este projeto, mas nom se pode dizer que o movimento o quis assim. Desde o início o PYD dixo que se opunha a luita armada contra o regime de Assad. O PYD apoiou os protestos pacíficos – mas quando a luita armada começou e havia o perigo de que o Exército Sírio Livre ou os jihadistas entraram na Rojava, rapidamente se armarom.

O PYD reivindica que o YPG e as YPJ nom som a sua milícia, que formam as forças de defesa da Rojava. Outros grupos curdos nom acho isso muito credível; eles consideram estas organizaçons, o partido-milícia do PYD.

É verdade que estas forças militares estám ideologicamente intimamente relacionadas com o PYD, mas também existem grupos dentro da YPG-YPJ que nom som necessariamente membros do PYD, como as unidades de árabes ou cristians. Acho que foi umha decisom sábia do PYD limitar o número de milícias na área. E além do YPG / YPJ, as unidades locais representadas na estrutura de comando também. Estas unidades locais defendem as suas próprias vilas, mas nom som móveis; elas nom podem ser expedidas a outras áreas.

Mas há claramente contradiçons entre o PYD, por um lado, e os partidos sírios que estám ligados ao Partido Democrático Curdo do Iraque do Presidente Barzani do outro. Da mesma forma, mas em um grau um pouco menor, existem tensons com a Uniom Patriótica do Curdistam do Iraque. Esses partidos tenhem umha concepçom muito diferente de poder, do futuro e do desenvolvimento do auto-governo curdo. Eles som muito mais conservadores.

Há também contradiçons agudas entre, por um lado, o PYD e, por outro lado, para simplificar as coisas, a oposiçom árabe. O PYD nom apoiou a luita armada contra Assad, mas este tipo de luita nom era umha opçom livremente escolhida pola oposiçom – era umha questom de auto-defesa. O PYD é acusado de beneficiar o regime de Assad, nom só impedindo a formaçom de umha nova frente, mas também ao reprimir as manifestaçons anti-Assad dentro de Rojava. Pessoas foram mortas polas YPG durante tais protestos. Como vês o desenvolvimento desta relaçom?

Existe algumha cooperaçom a nível local – um número de tribos árabes juntarom-se a luita do PYD. Mas a relaçom com a oposiçom politicamente organizada é muito mais difícil, mesmo se nom houver cooperaçom com partes do FSA. Os jihadistas tenhem crescido muito forte na oposiçom árabe e a sua visom do mundo está em oposiçom direta à do PYD.

Existem outras denúncias de violaçons de direitos humhanos. Recentemente, houvo alegaçons de que o YPG obrigavas a povoaçom árabe de umha série de aldeias sob a cobertura da luita contra o Estado islâmico.

O PYD representa umha Rojava que é a expressom da diversidade cultural e étnica. Por exemplo, Efrin é o lar de muitos alevitas e a co-presidenta é Alevite. Em Cizîrê, há umha grande populaçom árabe e um dos co-presidentes é árabe. O mesmo em um nível local. Umha das principais diferenças entre o PYD e os aliados sírios do KDP é a sua atitude para com a populaçom árabe em Rojava. O atual KDP di: “Aquelas pessoas que foram trazidos aqui como parte de umha política de arabizaçom do regime Baath -eles teram que marchar, mesmo se eles estam aqui há geraçons “O PYD di que toda a gente que vive agora em Rojava deve estar envolvido na construçom de umha nova sociedade.

A defesa de Kobane foi um sucesso, em parte como resultado da ajuda polas potências ocidentais, sobretudo os ataques aéreos dos EUA. Alguns críticos dim que o PYD tornou-se em umha ferramenta do Ocidente – como respondes a isso?

Esse tipo de crítica vem da tentativa de permanecer ideologicamente puro. É mais difícil de permanecer puro, umha vez que estás envolvido na luita. Se estas envolvido, tes que navegar um campo determinado por relaçons de forças que nom forom selecionadas, e tes que fazer escolhas dentro desse campo. Nom houvo opçons reais exceto pressionar os EUA para bombardear o IS. E isso foi feito de umha maneira muito inteligente. Os EUA nom estavam ansiosos de intervir: pouco antes dos ataques aéreos a Casa Branca ainda declarou que Kobane “nom era um ativo estratégico”. O feito de que eles começaram os bombardeios, e cada vez mais intensamente, é porque o PYD fixo da defesa de Kobane em certo sentido, umha questom estratégica: se a cidade tivesse caído, teria sido um imenso golpe moral que teria afetado os EUA também . O IS seria reforçado. Poderia-se até dizer que os curdos forçarom a Ocidente para se envolver lá. Havia poucas outras opçons. Um dos defensores da Kobane twittou que se a esquerda internacional tivesse umha força aérea, eles teriam-lhe pedido ajuda.

Mas mesmo se reconheces que o PYD nom tinha outras opçons, pode-se perguntar se – contra a sua própria vontade – eles nom se tornarom dependentes dos EUA.

Mas eu nom vejo essa dependência. Talvez tenha havido acordos dos que eu nom sei nada, mas o PYD nom só se mantém a si mesmo; a sua posiçom é agora mais forte do que antes. Kobane tornou-se em um símbolo do seu sucesso.

Mas é provável que os EUA vam-se voltar contra o projeto da Rojava se, por exemplo, o PYD insiste no princípio de que os recursos como o petróleo deveram ser propriedade comum.

Isso é provável, mas é possível questionar quanta influência os EUA teram na regiom no futuro. Desde 2003, com a invasom do Iraque, a influência dos EUA tem vindo a diminuir lá. Os poderes locais, como Turquia, Qatar e Arábia Saudita desempenham um papel muito mais importante nos desenvolvimentos locais que antes. Os EUA ainda som um fator, mas já nom é tam poderoso quanto antes.

Turquia, especialmente, é actualmente um inimigo do movimento curdo.

Turquia está a fazer tudo ao seu alcance para marginalizar o PKK e o PYD, sem sucesso. Mas a relaçom da Turquia com os partidos do governo no sul do Curdistam, no norte do Iraque, é muito diferente. Eles tinham um bom relacionamento por um longo tempo, mas esses laços foram recentemente danificado. Quando a cidade de Erbil, no norte do Iraque estava em perigo de ser tomado polo IS, Barzani pediu a Turquia para ajudar, mas obtivo o indiferença.

O PYD afirma que o Estado turco apoia activamente grupos como IS e Jabhat al-Nusra. Qual é a credibilidade destas acusaçons?

Eu penso que há boas razons para acredita-las. Há muitos indícios de que a Turquia está a dar apoio directo e indirecto a grupos jihadistas. Por exemplo, existem gravaçons que mostram soldados turcos que interagem com luitadores ao longo da fronteira nas áreas controladas por jihadistas. O serviço secreto turco, MIT está envolto na entrega de armas. Existem muitos exemplos deste tipo. Recentemente soubo-se que o exército turco tinha dado apoio de artilharia a jihadistas quando eles atacaram um vilarejo armênio no norte da Síria, Kassab. Líderes de grupos jihadistas podem viajar sem problemas a Ancara; jihadis forom atendidas em hospitais turcos – podes comprova-lo ti mesmo.

Está organizado polo chamado “Estado profundo” na Turquia, ou é a política ativa do governo?

Eu acho que isso é discutido e decidido no nível governamental. A política externa da Turquia, sob o governo do AKP, os chamados neo-otomanistas, está baseado em umha política de identidade entre sunitas e, no apoio a movimentos sunitas na Síria e no Iraque. Qatar e Arábia Saudita também estám tentando ganhar influência através dos movimentos sunitas, assim como Morsi tentou fazer quando era presidente do Egito. A Turquia tem tentado, sem sucesso, reprimir o PYD ao apoiar a grupos sunitas que som hostis a el.

Esta política significa que o Estado turco está brincando com lume, apoiando grupos jihadistas. O IS já ameaçou em várias ocasions de atacar Turquia se o seu governo muda a sua atitude. Muitos luitadores do IS tenhem origem turca e eles podem no futuro tornar-se um fator de risco dentro da própria Turquia; tanto mais porque o apoio para o IS tem crescido dentro a Turquia.

Algumhas semanas atrás, o regime de Assad declarou que nom tem objeçons à bandeira curda – umha ruptura simbólica com a ideologia nacionalista árabe do Baath. Isso é umha amostra do que está por vir, umha regiom curda autônoma dentro da Síria?

A autonomia curda já é umha realidade – e mesmo se o regime de Assad decidira-se voltar contra ela, eu duvido que figera muita diferença.

As últimas semanas tenhem visto alguns confrontos muito intensos entre a YPG e o exército do governo sírio. Existe umha chance de que isso poderia levar a umha verdadeira guerra entre os dous?

É difícil de dizer, mas Assad nom tem nengum interesse em tal guerra: o seu regime já está enfraquecido. O interesse de Assad está em um acordo.

O PYD também nom tem nada a ganhar com tal confronto: eles tenhem as suas forças completas luitando o IS e al-Nusra. Mas a situaçom atual é volátil e nom vai permanecer o mesmo por muito tempo..

JoostAlex de Jong é editor da revista socialista Grenzeloosand da Holanda. Esta entrevista foi publicada originalmente em holandês em Actie voor Rojava.

Publicado em Kurdishquestion em inglês.

 

 

O Feminismo e o Movimento de Libertaçom Curdo

Dilar Dirik centralEste artigo é uma versom editada de umha apresentaçom na Conferência “Dissecioando a Modernidade Capitalista. Construindo o Confederalismo Democrático” na Universidade de Hamburgo, o 3-5 de Abril do 2015.

O feito de que estamos a debater aproximaçons do movimento de libertaçom curdo, idéias e re-conceptualizaçons da liberdade hoje nesta conferência com pessoas de tantas diversas origens é bastante revelador dos impactos da resistência de Kobanê, que vam muito além dos seus aspectos militares .

Em Março deste ano mulheres do mundo estiverom na fronteira entre o Curdistam Norte (Bakur) e Oeste (Rojava), a linha artificial que separa as cidades gêmeas de Qamişlo e Nisêbin. O comitê tomou esta decisom, a fim de prestar homenagem à resistência das Unidades de Defesa das Mulheres, YPJ, em Kobanê contra o Estado Islâmico (ISIS). Isto, entre muitos outros exemplos, ilustra o crescente interesse das feministas ao redor do mundo no movimento de mulheres curdo.

Assim, neste momento crucial em que as mulheres curdas contribuírom a umha rearticulaçom da libertaçom das mulheres, rejeitando cumprir as premissas de ordem do Estado-naçom capitalista patriarcal global, quebrando o tabu da militância das mulheres (que é um tabu em todo o mundo, ja que quebra barreiras sociais), através da recuperaçom da autodefesa legítima, ao dissociar o monopólio do poder do Estado, e luitando contra umha força brutal nom em nome das forças imperialistas, mas, a fim de criar os seus próprios termos de libertaçom , nom só das organizaçons estatais ou fascistas, mas também da sua própria comunidade, que podem os movimentos feministas aprender com a experiência das mulheres curdas?

Em primeiro lugar, deve-se mencionar que a relaçom das mulheres curdas com os feminismos na regiom tem sido muitas vezes bastante complicada. As feministas turcas por exemplo tinham a tendência a marginalizar as mulheres curdas, que elas percebiam como atrasadas, e tentarom assimilá-las à força no seu nacionalista “projeto de modernizaçom”. Na prática, isso significava que todas as mulheres em primeiro lugar tinham que ser “Turcas”, a fim de se qualificar para a libertaçom. A sua luita política, especialmente a armada, muitas vezes encontrou-se com a violência de Estado, que usou uma combinaçom bruta de racismo e sexismo, centrada em torno da tortura sexualizada, a violaçom sistemática, e campanhas de propaganda que retratavam as mulheres militantes como prostitutas, porque se atreverom a colocar-se como inimigas de exércitos hiper-masculinos. No discurso ocidental, a capacidade de decidir das mulheres curdas na sua luita foi desmentido, por alegaçons de que elas estam “a ser instrumentalizadas para a causa nacional” ou que participam na luita de libertaçom, a fim de escapar das suas vidas tristes como “vítimas de umha cultura atrasada”. Além de ser inerentemente chauvinista e sexista, esses tipos de argumentos som ainda incapazes de explicar o feito de que o movimento curdo criou um movimento feminista de base popular, que desafiou a tradiçom e a sociedade transformando-a numha medida surpreendente. Hoje, quando olhamos para a forma como o mainstream trata a resistência das mulheres curdas contra do ISIS, podemos ver abordagens muito simplistas e problemáticas que incidem sobre a guerra em termos de só umha luita militar física, até mesmo um certo Schadenfreude dizia que o ISIS está sendo derrotado por mulheres, um tipo de atitude clássico de “meninas batendo em meninhos”. As motivaçons políticas das mulheres, as suas ideologias som ignoradas ou cooptadas neste contexto, até mesmo polas feministas. Nom muitas investigam os ideais que orientam a sua luita, quase ninguém questiona o feito de que a ideologia com a qual as mulheres estam luitando contra do ISIS está de feito na lista de terroristas de muitos países ocidentais.

O objetivo desta palestra nom é dizer que o feminismo e o movimento das mulheres curdas som duas cousas separadas. Em vez disso, quero investigar as suas relaçons e focar as aproximaçons originais do movimento de mulheres curdas que poderiam fornecer algumhas perspectivas para outros movimentos.

É claro que nom há um feminismo singular, mas várias vertentes que às vezes som muito diferentes umhas das outras. As especificidades da experiência das mulheres curdas que criou a consciência vivida direta do feito de que diferentes formas de opressom estam inter-relacionadas, devido à sua posiçom opressiva -multiplicada como membros de umha naçom sem Estado em um mundo dominado por estados excluintes, socio-económicos e a violência patriarcal polo Estado e a comunidade, bem como a crítica do movimento de libertaçom curdo do colonialismo, o capitalismo, e do Estado, possivelmente sugerem o anarquismo, os movimentos de feministas socialistas e anti-coloniais a ser o mais próximo à experiência do movimento das mulheres curdas.

No entanto, ao reivindicar o feminismo como umha parte importante da sociedade histórica e o seu legado como um patrimônio, as discussons dentro do movimento de mulheres curdas hoje pretendemos investigar os limites do feminismo e superar isso. Isso nom é de todo umha abordagem pós-feminista clássica, nem rejeitar o feminismo. Indo além dos meios para sistematizar umha alternativa para o sistema dominante através de umha crítica radical sistêmica e a comunalizaçom da luita multi-frente, especialmente por politizar a base, dirigir umha revoluçom mental, e transformando ou figurativamente matando o masculino e as suas múltiples expressons, bem como questionar e resistir a toda a ordem global, a fase dessa violência e opressom. Kobanê, bem como os outros dous cantons de Rojava – Cizîre e Afrîn – som um exemplo da aplicaçom prática do presente. Como eu argumento, a resistência de Kobanê, onde as mulheres corajosas derrotarom as forças fascistas dos nossos dias, tem muito a ver com a ideologia política do povo e o modelo imaginado. A vitória de Kobanê é um resultado direto da organizaçom social e política dos cantons, bem como o conceito do movimento de liberdade, muito além do nacionalismo, do poder e o Estado.

Abdullah Öcalan, o representante ideológico do PKK, afirma explicitamente que o patriarcado, juntamente com o capitalismo e a mentira do estado estam na raiz da opressom, dominaçom e poder e fai umha conexom clara entre elas: “Todas as ideologias de poder e estatais derivam em atitudes e comportamentos sexistas […]. Sem a escravitude das mulheres os outros tipos de escravitude nom podem existir e muito menos desenvolver-se. Capitalismo e Estado-naçom denotam a institucionalizaçom do macho dominante. Com mais ousadia e falando abertamente: O Capitalismo e o Estado-naçom som o monopolio do macho despótico e explorador”[1] El afirma ainda: “Nada no Oriente Médio é tam horrível como o status social da mulher. A escravizaçom da mulher é semelhante à escravizaçom dos povos, exceto que é ainda mais antiga “[2] Em outro lugar: “O projeto de libertaçom das mulheres vai muito além da igualdade entre os sexos, mas, além disso, descreve a essência da democracia em geral, dos direitos humanos, da harmonia com a natureza e a igualdade comunal “(Öcalan, 2010, 203).

A perspectiva do movimento de libertaçom curdo na libertaçom das mulheres é de natureza explícita comunalista. Ao invés de desconstruir os papéis de gênero ao infinito, trata os conceitos das condiçons atuais por trás da feminilidade como fenômenos sociológicos e pretende redefinir tais conceitos pola elaboraçom de um novo contrato social. El critica a análise comum do mainstream feminista do sexismo em termos de gênero único, bem como a sua incapacidade para alcançar mais amplas mudanças sociais e a justiça, limitando a luita para o quadro de ordem persistente. Umha das principais tragédias do feminismo é cair na armadilha do liberalismo. Sob a bandeira da libertaçom, o individualismo extremo e o consumismo som muitas vezes propagados como emancipaçom e empoderamento, que levanta obstáculos claros para qualquer açom coletiva ou até mesmo tocar as questons de pessoas reais. É claro que as liberdades individuais som cruciais para a democracia, mas o fracasso de mobilizaçom popular requer umha auto-crítica fundamental do feminismo. O termo feminista de “intersetorialidade” claramente sublinha que as formas de opressom estam interligadas e que o feminismo tem de ter umha abordagem holística para enfrentá-los. Mas, muitas vezes, os círculos feministas que se dedicam a estes debates deixam de tocar as vidas reais de milhons de mulheres afetadas, gerando ainda umha outra discussom aspirada no radicalismo, inacessível para a maioria. Por que o radical ou interseccional é umha luita que nom consegue espalhar-se?

Essas atitudes, de acordo com o movimento de mulheres curdas, estam ligadas à subscriçom à ciência positivista e da relaçom entre conhecimento e poder, o que desfoca as ligaçons explícitas entre as formas de dominaçom, eliminando, assim, a crença em um mundo diferente, retratando o sistema global como a ordem natural, imutável das cousas. Devido às suas condiçons específicas sócio-políticas e económicas, bem como a umha posiçom ideológica firme, acompanhadas de muito sacrifício, o movimento das mulheres curdas foi capaz de mobilizar em um movimento de massas por chegar a certas conclusons nom apenas através de debates teóricos, mas experiências e práticas reais vividas, que nom só criou a consciência política direta, mas também um anexo para encontrar soluçons coletivamente, contra todas as adversidades.

Assim, incentivadas por sugestom de Öcalan para desenvolver um método científico que desafia a compreensom hegemônica das ciências, especialmente as ciências sociais, que reproduzem mecanismos de violência, exclusom e opressom -um que nom se limite à categorizaçom de fenômenos ao redor dos seres humanos e comunidades sem considerar o feito de que estes estam vivos e potencialmente capazes de resolver os seus problemas, e que as áreas de divisom da vida de um e do outro, criando umha infinidade de ramos científicos, mas em vez disso propom umha ciência que praticamente procura fornecer soluçons para os problemas sociais, umha “sociologia da liberdade “, centrada nas vozes e experiências dos oprimidos –o movimento das mulheres tem se envolvido em debates teóricos e propôm o conceito de” jineologia “(jin, em curdo:” mulher “). As discussons e debates realizados nas montanhas Qandil, na linha da frente em Rojava, bem como em bairros pobres em Diyarbakir – cada esquina pode ser transformada em umha academia. Perguntas “Como reler e re-escrever a história das mulheres? Como é o conhecimento alcançado? Que métodos podem ser usados em uma busca libertadora da verdade, que produçons de ciência e conhecimento de hoje levam os conhecimentos para longe de nós e servem para manter o status quo?” Surgem em intensas discussons. A desconstruçom do patriarcado e outras formas de submissom, dominaçom e violência som acompanhadas por discussons sobre a construçom de alternativas com base em valores e soluçons libertadoras para a questom da liberdade.

Ao definir-se como a ciência das mulheres ou a procura das mulheres para o próprio conhecimento, uma objeçom que a jineologia representa para o feminismo é que muitas vezes se ocupa com a análise de questons sociais apenas através de lentes de gênero. Enquanto os papéis de gênero e desconstruçom patriarcal tem contribuído imensamente para a nossa compreensom do sexismo e outras formas de violência e opressom, este propôs nem sempre com sucesso o tipo de alternativa, podemos criar coletivamente em vez disso. Se conceitos como homem e mulher, nom importa o quam socialmente construída que poidam ser, olha como eles vam persistir nas mentes das pessoas por um tempo, talvez devemos tentar definir as novas condiçons de existência, proporcionar-lhes umha essência libertadora na tentativa de superá-los? Nom esqueçamos o fundo por trás da qual essas discussons estam sendo realizadas – e em torno de sociedades ultra-conservadoras com espaço limitado para a auto-expressom individual que consideram as mulheres como indignas, funcionárias sem voz dos homens, num contexto de violência normalizada, abertamente institucionalizada contra as mulheres . Se é possível para re-imaginar conceitos de identidade, tais como a “naçom”, desassociando-o de implicaçons étnicas e com o objetivo de formar umha unidade baseada em princípios, Ou seja umha unidade de pensamento, composta por sujeitos políticos em vez de objetos servindo ao estado (que é a idéia de que é defendida na multi-cultural Rojava, a “naçom democrática”, como define Öcalan), podemos também criar umha nova liberdade, capacitando radicalmente a identidade das mulheres, com base na autonomia e liberdade para dar forma a um novo sentido da comunidade, livre de hierarquia e dominaçom? A Jineologia nom pretende perpetuar um conceito essencialista da feminilidade, umha nova atribuiçom de um papel social com espaço limitado para o movimento, também nom se considera umha provedora de respostas, mas propom-se como um método para explorar tais questons suscitadas em umha maneira coletivista. Ao pesquisar a história e a história escrita, a jineologia tenta aprender desde as mitologias e religions, compreender as formas de organizaçom comunalistas na era neolítica e mais além, investigar as relaçons entre meios de produçom e de organizaçom social, e a ascensom do patriarcalismo com o surgimento da acumulaçom e da propriedade.

E, no entanto, ao criticar a fixaçom do feminismo no gênero, o movimento das mulheres curdas, ao mesmo tempo, devido à sua própria experiência, reconhece a necessidade urgente de prestar atençom às opressons específicas. Na verdade, o elemento central da estrutura organizativa deste movimento é a auto-organizaçom autónoma de grupos e comunidades a fim de reforçar a democracia radical. Diferentemente da maioria das lideranças de movimentos de libertaçom nacionais clássicos, Öcalan enfatiza a necessidade da luita feminista autônoma e consciente [3] e ainda prioriza a libertaçom das mulheres: “O século XXI deve ser a era de despertar; a era da mulher liberada, emancipada […]. Eu acredito que [a libertaçom das mulheres] deve ter prioridade sobre a liberaçom das terras e a mao de obra “(Öcalan, 2013, p.59). Há uma abundância de exemplos de como o movimento das mulheres curdas tenta viver essa autonomia na prática, aqui e agora, em vez de projetá-la a um momento no futuro – mesmo um breve olhar sobre a participaçom e o poder das mulheres curdas na política da Turquia poderia-se falar volumes. A libertaçom das mulheres nom é apenas visto como um objetivo, mas como um método que precisa ser praticado em uma base diária. Nom é algo que será alcançado em umha democracia, mas é a democracia na prática.

Hoje, o movimento divide o poder igualitariamente entre umha mulher e um homem desde a presidência do partido aos conselhos de bairro através do princípio da co-presidencia. Além de fornecer as mulheres e os homens com igual poder de decisom, o conceito de co-presidência visa descentralizar o poder, evitar o monopolismo, e promover um consenso de feitos. Isto demonstra novamente a associaçom de libertaçom com a tomada de decisons comunalista. O movimento de mulheres é autonomo organizacional, social, política e militarmente. Embora esses princípios organizacionais tentam garantir a representaçom das mulheres, a massiva mobilizaçom social e aumentar a consciência política da sociedade, o que exige umha revoluçom radical da mentalidade, porque a hierarquia e a dominaçom primeiro estabelece-se nos pensamentos.

Inspirado por estes princípios, os cantons da Rojava aplicam a co-presidência e quotas, e criarom unidades de defesa das mulheres, comunas das mulheres, academias, tribunais e cooperativas no meio da guerra e sob o peso de um embargo. O movimento de mulheres Yekîtiya-Estrela é organizado de forma autônoma em todas as esferas da vida, desde a defesa à economia à educaçom para a saúde. Conselhos de mulheres autônomas existem paralelos junto dos conselhos do povo e podem vetar decisons deste último. Os homes que cometem violência contra as mulheres nom fam parte da administraçom. Discriminaçom com base no género, os casamentos forçados, violência doméstica, crimes de honra, poligamia, casamento infantil, e dote estam tipificados como delito. Muitas mulheres nom-curdas, especialmente árabes e assírias, juntam-se às fileiras armadas e à administraçom em Rojava e som incentivadas a organizar-se de forma autônoma também. Em todas as esferas, incluindo as forças internas de segurança (Asayish) e Unidades da Defesa do Povo (YPG) e as Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ), a igualdade de género é umha parte central da educaçom e da formaçom. Como Ruken, um ativista do movimento de mulheres em Rojava dixo: “Nós nom batemos nas portas das pessoas e dizemos-lhes que eles estam errados. Em vez disso, nós tentamos explicar-lhes que eles se podem organizar e dar-se os meios para determinar as suas próprias vidas “.

Curiosamente, embora a libertaçom das mulheres sempre foi parte da ideologia do PKK, a organizaçom autônoma das mulheres surgiu simultaneamente com a mudança geral do objectivo político do Estado-naçom no sentido de mobilizaçom local popular-democrática. Tal como foi identificada a relaçom entre as diferentes formas de opressom, quanto as premissas opressoras e os mecanismos do sistema estatal foram expostos, as soluçons alternativas forom procuradas, resultando na articulaçom da libertaçom das mulheres como um princípio firme.

Ao invés de aspirar a busca da justiça dentro de conceitos concedido polo Estado, como os direitos legais, o que é umha das pré-ocupaçons do mainstream feminista, o movimento das mulheres curdas chegou à conclusom de que o caminho para a libertaçom requer umha crítica fundamental do sistema. Em vez de colocar a carga sobre as mulheres, a libertaçom das mulheres torna-se umha questom de responsabilidade para toda a sociedade, porque se torna umha medida para a ética e a liberdade da sociedade. Para umha luita significativa pola liberdade, a libertaçom das mulheres deve ser um objectivo, mas também um método activo no processo de libertaçom. Na verdade, esperar qualquer mudança social significativa dos próprios mecanismos que perpetuam a cultura do estupro e da violência contra as mulheres, tais como o estado, significaria recorrer ao liberalismo com suas pretensons feministas e democráticas. Um slogan que já vi em Rojava, muitas vezes, “Vamos derrotar os ataques do Estado Islâmico, assegurando a libertaçom das mulheres no Oriente Médio”. Porque nom se pode apenas derrotar militarmente ao ISIS sem também derrotar a mentalidade que está subjacente, a cultura persistente do estupro mundial que lhe dá umha plataforma. Essa mentalidade nom esta apenas encarnada polo ISIS, mas é também, em parte, expressa nas nossas próprias mentes, nas nossas próprias comunidades – a violência do Estado liberal, a violência do ISIS, e os crimes de honra na nossa própria comunidade nom som tam diferentes uns dos outros. Contra todas as probabilidades, após décadas de longas luitas e sacrifícios, as mulheres curdas estabelecerom umha cultura política e em torno do PKK em que o sexismo e a violência contra as mulheres vam ao ostracismo social.

O movimento de mulheres produz independentemente teorias e críticas sofisticadas, mas é surpreendente que um líder masculino de um movimento do Oriente Médio coloque a libertaçom das mulheres como umha medida fundamental da liberdade. Isto levou a muitas feministas -que muitas vezes nom tenhem realmente lido os livros de Öcalan a criticar que o movimento das mulheres curdas está centrada em torno de um homem em umha posiçom de liderança. Mas se analisarmos o problema da liberdade das mulheres além de entendimentos estreitos no âmbito do género, mas em vez disso tratamo-lo como questom da liberdade da sociedade, como fundamentalmente vinculado à reproduçons centenárias de poder e hierarquia, quando rearticulamos a nossa compreensom da libertaçom fora dos parâmetros do sistema dominante, com os seus pressupostos e comportamentos patriarcais, mas procuramos propor umha alternativa radical que, por tanto, perceba a libertaçom das mulheres como um efeito colateral percevido de umha revoluçom ou liberaçom geral que pode nunca vir, mas em vez disso reconhecemos que a luita radical pola liberdade das mulheres e a sua auto-organizaçom autónoma deve ser um método central e o mecanismo do processo para a liberdade aqui e agora, se ligamos a crítica radical dos próprios métodos que utilizamos para dar sentido ao mundo para o processo de concepçom de umha vida mais justa, em suma – se ampliamos e sistematizamos, portanto, a nossa luita pola libertaçom, e reconhecemos que o caminho para a liberdade exige auto-reflexom e interiorizaçom dos valores democráticos libertadores, talvez nom seria surpreendente depois de tudo que umha das feministas mais sinceros pode na verdade ser um homem. Em vez de nos preocuparmos com o sexo ou gênero de Öcalan, talvez devêssemos tentar entender o que significa para um homem de umha sociedade feudal extremamente patriarcal tomar tal posiçom em relaçom a escravizaçom das mulheres. Que significa quando umha pessoa em umha posiçom de liderança, fai tais chamadas para “matar o homem”? Talvez este seja o radicalismo que precisamos para resolver os nossos problemas…

A Marcha Mundial das Mulheres que eu mencionei na introduçom juntou nas comemoraçons do 8 de março deste ano em Amed (Diyarbakir). Enquanto as fotos de mártires de mulheres curdas militantes estam acenas ao vento, eu vim um grupo de pessoas cantando formando um círculo de danças tradicionais curdas. Umha mulher estava tocando o daf em que ela tinha desenhado o A anarquista, enquanto umha mulher maior velada em roupa tradicional com os dedos formando o sinal da vitória estava dançando ao seu ritmo, ao lado de umha jovem que acompanha a sua alegria acenando umha grande bandeira LGBT. Completamente umha visom incomum para dizer o mínimo, mas de feito revelador do caráter do movimento das mulheres curdas.

Aqueles que querem saber se o movimento das mulheres curdas “é, na verdade, feminista ou nom” precisa perceber o radicalismo que oscila entre os dous dedos levantados para o sinal da vitória por mulheres idosas com vestes coloridas e tatuagens tradicionais em seus rostos na Rojava hoje. Que estas mulheres agora participem nos programas de TV, conselhos do povo, economia, que agora aprendam a ler e a escrever na sua própria língua, que, umha vez por semana, umha mulher de 70 anos relate contos populares tradicionais na recém-criada Academia de Ciências Sociais da Mesopotâmia para desafiar a história-escrita dos poderes hegemônicos e a ciência positivista, é um ato radical de rebeldia contra o antigo regime monista, porque em vez de substituir a pessoa no topo, recusam-se os parâmetros do sistema por completo e constrói os seus próprios padrons . E esta plataforma acabará por derrotar o ISIS no longo prazo.

As mulheres que luitam em Kobanê tornarom-se umha inspiraçom para as mulheres em torno do mundo. Neste sentido, se queremos contestar o patriarcado global, a naçom-estado, o racismo, militariso, neo-colonialismo e o ordem sistêmico capitalista, devemos-nos perguntar que tipo de feminismo este sistema pode aceitar e quais os que nom podem. Um “feminismo” imperialista pode justificar guerras no Oriente Médio para “salvar as mulheres da barbárie”, enquanto que as mesmas forças alimentam esta chamada barbárie polas suas políticas externas ou negócios armamentísticos etiquetam as mulheres que defendem Kobanê hoje como terroristas.

O sistema dominante considera um dos mais mobilizados e capacitados dos movimentos de mulheres como umha ameaça inerente ao seu status quo. Assim, torna-se claro que o movimento de libertaçom curdo nom representa umha ameaça para a ordem internacional, devido à sua capacidade potencial de criaçom de um novo estado – de feito, opom-se ao paradigma estado, mas por causa da sua alternativa radical para el, umha vida alternativa explicitamente centrada em abolir 5000 anos de escravitude sistemática física e mental.

Quando olhamos para os dois lados que luitam em Kobanê hoje – mulheres sorrindo esperançosas de um lado, e assassinos, estupradores violentos, que criam a sua hegemonia das trevas sobre a destruiçom e brutalidade fascista por outro lado, parece um papel num filme, a história de um romance. Mas é de nengumha maneira umha coincidência que estas duas linhas estam luitando em Rojava. A ordem atual pode ser o legado de milênios de sistemas de dominaçom e subjugaçom, pode ter sido sempre a opressom, mas, ao mesmo tempo, há também sempre houvo revolucionárias, rebeldes, luitas de resistência. O Estado Islâmico nom é umha mala coincidência, mas um resultado da ordem mundial, e essa ordem, com todos os seus mercenários, cumpre o seu maior inimigo nos sorrisos radicais de mulheres luitando. Sorrir é um ato ideológico. E estas mulheres som as guardians da nossa opçom à liberdade.

As mulheres curdas forom sempre excluídos da história-escrita, mas agora o seu poder desceu na história. Estamos orgulhosas de pertencer a umha geraçom de jovens mulheres curdas, que crescerom tendo testemunhado e identificado com umha luta tam gloriosa. Nom é um orgulho vazio em cousas sem sentido como o nacionalismo, mas um orgulho em resistir e sacrificar-se polos princípios fundamentais, para a vida. Nós nom precisamos de nengum mito ou romanticizaçons para justificar as nossas reivindicaçons para a liberdade. E eu nom podo imaginar qualquer mitologia, qualquer texto religioso, qualquer conto de fadas que poderia ser mais épico, libertador, e poderoso que a resistência exibida polas mulheres de Kobanê contra o fascismo. Todas nós renascimos com a resistência de Kobanê.

Dilar Dirik 24Dilar Dirik, estudante PhD focada sobre o movimento das mulheres curdas

NOTES
Öcalan, Abdullah, 2010, Jenseits von Staat, Macht und Gewalt (Cologne: Mesopotamien Verlag).
Öcalan, Abdullah, 2011, Democratic Confederalism (Cologne: International Initiative “Freedom for Abdullah Öcalan – Peace in Kurdistan),
Available online at http://www.freeocalan.org/wp-content/uploads/2012/09/Ocalan-Democratic-Confederalism.pdf
Öcalan, Abdullah, 2013, Liberating Life: Woman’s Revolution(Cologne: International Initiative “Freedom for Abdullah Öcalan – Peace in Kurdistan), Available online at http://www.freeocalan.org/wp-content/uploads/2014/06/liberating-Lifefinal.pdf
________________________________________
[1](Öcalan, 2011, p.17)
[2](Öcalan, 2010, p.267)
[3](Öcalan, 2013, p.53)

http://kurdishquestion.com/index.php/insight-research/feminism-and-the-kurdish-freedom-movement.html