Amigos ou inimigos? Um olhar atento sobre as relaçons entre as YPG e o Regime de Assad.

ypg-assad-00-ypg-liberando-complexo-habitacional-da-juventude
Milícias das YPG libertando completamente o Complejo Habitacional da Juventude e partes de Ashrafieh e Bani Zaid em Aleppo.

Por @shellshocked

O 9 de agosto, o comandante major Yasser Abd ar-Rahim do Centro de Operaçons de Fatah Halab em Aleppo fixo umha declaraçons. Incluiu algumhas mensagens drásticas para as Unidades de Proteçom do Pvo (YPG) curdas, que controlam o bairro de Sheikh Maqsood, no norte da cidade. Abd ar-Rahim afirmou que as milícias da oposiçom síria teriam a sua “vingança” e que os curdos “nom iam ter um lugar para enterrar os seus mortos em Aleppo.” Nom só acusou às YPG de matar combatentes rebeldes, mas também de colaborar com as forças de Assad durante a batalha em torno a Aleppo desde o final de junho.

ypg-assad-01-sheikh-maqsoud
Bairro de Sheikh Maqsoud
ypg-assad-01-sheikh-maqsoud-com-a-estrada-castello
Vista de Sheikh Maqsood com a Estrada Castello no fundo.

As suas alegaçons referem-se especificamente aos incidentes que ocorrerom durante a primeira fase da batalha de Junho/Julho do 2016. Quando as forças de Assad abrirom caminho cara o sul da estrada de Castello – até entom a única rota para fornecer a parte leste de Aleppo em mans dos rebeldes. As YPG e os rebeldes entrarom em confronto diversas vezes.

O 8 de julho as YPG figerom um primeiro impulso em direçom ao Complexo da Juventude, vizinho da estrada Castello. Capturar esta área teria, polo menos em parte, dado o control aos curdos ao longo das rotas de abastecimento controladas polos rebeldes no Leste de Aleppo. Por causa da posiçom elevada de Sheikh Maqsood, há anos que já tinham umha boa visom da estrada e o tráfego. Os combates entre as YPG e diferentes grupos rebeldes continuarom durante vários dias, levando as YPG a direcionar fogo de morteiro cara a estrada. O complexo da Juventude acabou por ser conquistado polas forças curdas o 30 de Julho.

ypg-assad-03-operacom-saa-e-ypg-em-castello
Operaçons do SAA e as YPG, ao norte e sul da Estrada Castello
ypg-assad-04-mapa-aleppo-28-de-julho
Mapa da Situaçom de Aleppo a 28 de JUlho do 2016

Como se esta luita nom fôsse para alimentar as alegaçons de umha aliança entre as YPG com as tropas do regime contra as forças rebeldes, no final de julho umha imagem apareceu no Twitter. Originalmente publicada em umha conta pró-regime, um grupo de homens supostamente servindo nas unidades de Assad posavam com um homem vestindo um uniforme das YPG. Já maciçamente criticado e recebendo um tratamento de hostil por levantar armas contra as forças rebeldes, a imagem, embora non seja totalmente verificavel, tornou a situaçom ainda pior.

ypg-assad-04-suposto-ypg-com-assad
Foto dum suposto membro das YPG com forças pró-Assad

No entanto, o cenário da batalha Aleppo nom é a primeira a produzir tais acusaçons. As primeiras escaramuças relatadas ocorrerom em 2012, e também envolveu os grupos que luitam polo control de Sheikh Maqsood em outubro, embora as tropas do regime nom estavam directamente na cena.

Em outubro do mesmo ano as três partes estavam envolvidas na batalha de Ras al-Ayn. Posiçons de regime dentro da cidade, localizada na  governadoria de Hasakah [a 100 km ao aoeste de Qamishlo, 100 ao leste de Girê Spî e 75 ao noroeste de Hesekê] diretamente na fronteira sírio-turca, foram atacados por combatentes do Exército Livre Sírio (FSA) – logo apoiados por jihadistas de Jabhat al-Nusra e Ghuraba ash-Sham. Conseguiram fazer fugir às forças do regime, mas também estavam envolvidos em tiroteios com militantes das YPG. Isto foi seguido por umha série de confrontos e de cessar-fogo que eventualmente resultou em que os curdos assumirom todo Ras al-Ayn no Verao do 2013.

Os rumores de que tropas das YPG podem ter estado de apoio aéreo da Força Aérea Árabe (SyAAF) durante a batalha de Tal Tamer em março do 2015 som difíceis de verificar. No entanto, parece bastante improvável esta história, é inconsistente e nom tem referências a maior escala, por nom mencionar as histórias de 100 combatentes de Hezbollah ajudando às YPG.

Sem dúvida o maior evento para desencadear as acusaçons de cooperaçom entre as YPG e o regime de Assad ocorreu por volta do final do 2015 / começos do 2016. Em primeiro lugar, umha disputa irrompeu entre vários grupos rebeldes (nom todos eles ligados ao FSA) e as YPG sobre se este último tinha um acordo com o regime de fornecimento de Sheikh Maqsood por terra. Essas acusaçons forom apresentadas por Yasser Abd ar-Rahim entre outros. O comandante já mencionado no início do artigo. Ironicamente, todo isso aconteceu depois que as Forças Democráticas da Síria (SDF) forom fundadas: umha coligaçom das YPG curdas, unidades de antigos grupos afiliados ao FSA com homens em sua maioria árabes sunitas nas suas fileiras, homens das tribos sunitas e algumhas milícias cristians.

Enquanto isso, tanto as YPG como os rebeldes trocavam ocasionalmente fogo perto do isolado Canton de Afrin até que começarom em fevereiro do 2016. O 1 de fevereiro umha coalizom de tropas pró-regime constituidas polo Exército Árabe Sírio (SAA), as Forças de Defesa Nacional (FDN), os libaneses de Hezbollah, xiitas iraquianos e milícias afegans, assim como tropas iranianas começarom o ataque para liberar às cidades sitiadas de Nubl e az-Zahraa.

ypg-assad-06-ofensiva-norte-aleppo
Mapa que mostra a evoluo do Norte 2016 Alepo ofensivo. Linha pontilhada mostra linha de frente governo vermelho antes da linha laranja ofensivo, pontilhada mostra Linha de frente das YPG antes da ofensiva (Ofensiva começou o 1 de fevereiro de 2016; Mapa criado por MrPenguin20, Wikimedia Commons, Creative Commons Attribution-Share Alike Licença Internacional 4.0).

Este ataque constituía umha ameaça real para os rebeldes, porque, eventualmente, cortaria a rota de abastecimento vital desde Turquia a Aleppo. Assim como as forças rebeldes precisavam tanta força quanto for possível para lidar com os atacantes, as SDF / YPG lançarom o seu próprio ataque cara o leste, finalmente, alcançarom e capturarom a cidade de Tel Rifaat e a Base Aérea de Menagh. Isso efetivamente cortou a rota de abastecimento dos rebeldes e em um segundo momento levou a críticas generalizadas das empresas de informaçom e observadores ocidentais.

A Anistia Internacional afirma que, entre fevereiro e abril do 2016 nada menos que 83 civis, 30 deles crianças, morrerom em ataques de retaliaçom indiscriminados contra Sheikh Maqsood. A organizaçom acusa a vários grupos da facçom de Fatah Halab por isso. Além disso, novas armas foram usadas contra o bairro curdo. Por exemplo, em abril 2016 a Brigada dos Falcons das Montanhas financiada polos EUA atacarom várias posiçons das  SDF / YPG nos arredores de Sheikh Maqsood.

No entanto, a situaçom é muito mais complicada do que se poderia pensar que é. As acçons referidas nom devem distrair do feito de que as forças das SDF / YPG e o regime de Assad também tenhem umha história de ataques os uns contra os outros.

Disputas em Aleppo datam de setembro do 2012, quando Sheikh Maqsood ficou sob fogo. Ativistas curdos culparom o governo sírio e afirmarom que este foi um ataque de retaliaçom por hospedar membros da oposiçom que levou à morte de 21 civis. Um ataque semelhante aconteceu novamente o 26 de fevereiro de 2013, mais umha vez, causando danos e matando civis.

Por mais de dous anos, a situaçom manteve-se bastante calma até que as SDF assinarom umha trégua com as facçons rebeldes islamistas de Fatah Halab o 19 de Dezembro do 2015. Alguns dias mais tarde, as tropas das SDF e do regime de Assas entrarom em confrontos, e o mesmo Sheikh Maqsood tornou-se objetivo dos ataques da SyAAF.

Desde entom, nengumha luita importante tem ocorrido entre as duas partes na área da cidade de Aleppo. Mas, na verdade, ambos os lados luitarom entre si em outras ocasions, especialmente na governadoria nordeste de Hasakah. O governo de Assad mantém exclaves em duas grandes cidades lá: Hasakah e Qamishli. Ambos repetidamente tornou-se a definiçom de engajamentos mortais de intensidade diferente, a última sendo iniciada o 16 de agosto do 2016, envolvendo a milicianos das NDF de um lado e as tropas Asayish e YPG curdas do outro. Após umha semana de luita, o regime tivo de reconhecer umha amarga derrota: forçado a um acordo, onde todas as NDF dentro da cidade forom dissolvidas ou levadas a bases fora sem autorizaçom para entrar na cidade novamente. As únicas unidades do régime de Assad som forças policiais, que podem agir dentro do chamado quadrado de segurança, umha área que abrange nom mais do 5% da própria cidade.

Visto como um todo, as avaliaçons absolutas som impossíveis de ser feitas. O campo de batalha sírio deve ser visto como um acúmulo de muitos campos de batalha menores que nom estam necessariamente ligados uns com os outros de umha forma direta. Dous partes que estam ferozmente luitando entre si em um cenário nom é improvável que vivam lado a lado em um outro. Na sua essência, é umha forma de combater na guerra que se caracteriza por umha escassez de homens em todos os lados. As batalhas som luitas quando parecem inevitaveis. Razons para escaramuças começando ativamente podem variar, mas muitas vezes incluem determinar umha certa fraqueza do lado do adversário ou contra algum tipo de provocaçom. Embora difícil de verificar, os confrontos anteriores pareciam estar desencadeados por eventos como a detençom de rivais, ignorando checkpoints e fortalecendo as suas próprias posiçons. Ao invés de ter a vontade de expulsar aos grupos rivais umha vez por todas, esses confrontos som sobre estabelecer limites e apontar os limites que umha das partes está disposta a aceitar: umha prova de força.

Na verdade, quando se trata de levar suprimentos, ambos os lados som um tanto dependentes do outro. Polo menos desde abril de 2016, Sheikh Maqsood tem estado sob cerco do lado dos rebeldes em Aleppo. Ainda nom está claro que bens e em que cantidade podem ser contrabandeados para o distrito curdo através da linha de frente. Medicina e géneros alimentícios estam, principalmente, entrando polos corredores que ligam as áreas curdas e seguras do regime mas nom som suficientes para satisfazer as necessidades. Considerando os grupos rebeldes, como Fastaqim Kama Umirt,  isso como sinal dum pacto YPG-regime, os curdos dim que estes corredores forom abertos por curdos e sírios da Crescente Vermelha.

A SDF e o regime de Assad tenhem ambos outros inimigos principais: Considerando que o regime está luitando principalmente contra grupos rebeldes diversos desde o ponto de vista político e religioso, tentando construir um estado sírio truncado, as SDF têm os olhos sobre a ligaçom doa três cantons auto-declarado no norte da Síria. Ambos os objetivos realmente nom os fam entrar em caminho um do outro. Assad abandonou as áreas curdas no início do levante sírio, resultando no SAA fora das principais áreas e quando menos nom mostra muito interesse em recapturar issas áreas anteriormente perdidas. É por isso que territórios detidos polas SDF ou Assad e os seus aliados só compartilham quatro fronteiras: A regiom de  Qamishli (1), regiom de Hasakah (2), campo de Aleppo / Canton Afrin (3), o Oeste da cidade de Aleppo / Sheikh Maqsood (4).

ypg-assad-07-zonas-ypg-regime
Regiom de Qamishli (1), Regiom Hasakah (2), Rural de Aleppo / Canton Afrin (3), cidade ocidental de Aleppo / Sheikh Maqsood (4).

Politicamente e ainda mais militarmente a respectiva situaçom nessas quatro linhas de frente nunca foi o mesma. Quando houvo confrontos em Sheikh Maqsood, o estado de cousas na governadoria de Hasakah normalmente permaneceu bastante calma e vice-versa. Por uma questom de feito, as tensons e brigas ocasionais entre as forças curdas e as forças pró-Assad de Gozarto em Qamishli durante janeiro do 2016 aconteceu apenas duas semanas antes do duplo corte de linhas de abastecimento dos rebeldes na regiom norte de Aleppo.

Todo isso leva à conclusom de que, em termos gerais nom há um pacto das SDF e o regime de Assad. Ambos os lados podem, por vezes, agir de umha maneira que os benefíce tanto durante determinadas operaçons, no entanto, ainda nom está claro até que ponto isso é planejado ou arranjado. Algum tipo de plano mestre de Assad e SDF / YPG  nom existe em umha escala mais ampla. O sistema de ambos os lados é que som especialistas em ser oportunistas. Sempre que serve os seus objectivos eles vam manter o cessar-fogo e aceitar a presença um do outro. No entanto, se um competidor se está tornando demasiado fraco ou muito forte, um ataque é provável que siga. Ainda assim, especialmente com a Turquia e a Rússia aproximando-se novamente, nom fica claro se os curdos e o regime sírio seram capazes e estaram dispostos a defender as suas respectivas estratégias.

Especial agradecemento a @SerioSito e @QalaatAlMudiq

Este artigo apareceu em  Offiziere.ch e logo em bellingcat.