2º Aniversário: Um genocídio sem fim

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Álbum de fotos de umha família Jazidi nas ruínas de um edifício de Shingal (John Moore)

Lalish. Dous anos atrás, os acólitos do Estado Islâmico (ISIS) invadirom o norte do Iraque, capturando a metrópole de Mosul em um curto período de tempo. Desde entom, a milícia nom só tem aterrorizado o Iraque e a Síria. O seu terror é global e já encontrou o seu caminho para a Europa – um terror que a comunidade Jazidi tivo de suportar durante séculos.

Apenas algumhas semanas depois de ter caído Mosul o grupo terrorista, os jihadistas do ISIS perpetrarom um genocídio inimaginável, mas previsível que ja fora anunciado antes contra a povoaçom civil Jazidi de Shingal. Raramente um genocídio foi tam óbvio dado a sua intençom de destruir. Na sua revista intitulada “Dabiq”, o ISIS assumiu a responsabilidade polas suas atrocidades e até mesmo acusou os vizinhos muçulmanos dos Jazidis de nom te-los exterminado há muito tempo. Um genocídio que ainda nom chegou ao fim, desarraigando a comunidade Jazidi e mergulhando-a em umha profunda crise. Resumimos os acontecimentos e as suas consequências:

→ 450.000 refugiados – um de cada dous Jazidis
→ + 5000 mortos (cifras da ONU)
→ 7.000 raptadas (cifras da ONU)
→ até 3.800 mulheres e crianças ainda estam cautivas
→ até 8.000 crianças órfas e meio-órfas
→ mais de 30 valas comuns descobertas até agora
→ várias aldeias permanecem sob control do ISIS

Genocidio

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Jazidis deslocadas ajudadas por umha membro das Unidades de Proteçom das Mulheres (YPG), nos arredores de montanha Sinjar em 10 de Agosto de 2014. Reuters/Rodi Said

 “Um Genocídio ocorreu e ainda está a ocorrer“, Paulo Pinheiro, presidente da Comissom de Investigaçom da ONU.

Na noite do 2 para o 3 de agosto de 2014, quando os primeiros ataques começarom a tomar corpo no sul da regiom de Shingal, os Peshmerga (principalmente milícias do KDP), que vinheram supostamente a implantar-se na regiom para a segurança dos Jazidis já começaram a fugir. Shingal é a área de principal assentamento do povo Jazidi onde cerca de 500.000 dos 900.000 Jazidis de todo o mundo costumavam viver.

Os 11.000 Peshmerga que foram implantados em torno a Shingal fugirom durante a noite e as primeiras horas da manhá sem avisar à povoaçom civil ou, polo menos, proporcionar rotas de fuga. O ISIS invadiu umha aldeia atrás da outra, os vizinhos sunitas do Jazidis apoiarom a ofensiva terrorista. Voluntários Jazidis defenderom as suas aldeias durante horas. Depois de ficar sem muniçom, as pessoas tentarom escapar ao monte onde forom cercados polos terroristas do ISIS a temperaturas de 40 °. Até 60.000 Jazidis tentarom resistir lá fora por dias, muitos morrerom como resultado da falta de comida e água.

[Haveria que dizer também que ajudou a que nom fôsse maior a massacre a operaçom das YPG/YPJ (Yekîneyên Parastinê Gel) para resgatar aos Jazidis nas montanhas de Sinjar transportando comida e água e fazendo um corredor humanitário; e das HPG (Hêzên Parastina Gel), milícia do Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), que frenarom a ofensiva do ISIS em Maxmur; ambas milícias membros da KCK (Uniom de Comunidades do Curdistam].

De acordo com as Naçons Unidas, polo menos 5.000 Jazidis forom assassinados nas cidades e aldeias e até 7.000 mulheres e crianças, incluindo muitas meninas menores de idade, forom sequestradas, escravizadas e posteriormente violadas sistematicamente. Os homens e mulheres capturados forom convidados a se converter ao Islám, por exemplo, em Kojo onde acólitos do ISIS assassinarom cerca de 600 homens e sequestrarom até 1.000 mulheres e crianças depois de terem recusado a se converter. De acordo com umha série de estimativas, 1.000 meninos Jazidis estám sendo treinados militarmente em campos para se tornar futuros suicidas e combatentes do ISIS.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU, o Parlamento Europeu, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, o governo dos EUA e o Parlamento britânico reconhecerom o genocídio. O Conselho de Segurança da ONU, no entanto, ainda nom tomou quaisquer medida. A chamada dos Jazidis para o estabelecimento de um tribunal para julgar os terroristas do ISIS no Tribunal Penal Internacional por cometer crimes de guerra e contra a humanidade.

Valas comuns

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Jazidis analisam os restos ósseos de umha vala comum.

Mais de 30 valas comuns contendo os restos mortais de homens, mulheres mas também de crianças até agora forom descobertos nas regions libertadas de Shingal. A ONU, apesar dos pedidos da comunidade Jazidi, nom forneceu nengum perito em preservaçom de provas ou documentou as valas comuns para futuros processos contra os terroristas do ISIS. Os cientistas forenses do governo curdo estam tentando faze-lo o melhor possível, mas nom tenhem o equipamento necessário. Umha das valas comuns, que foi descoberta no sul da regiom, continha os restos de 80 mulheres. Até 120 restos mais forom descobertos em outra perto da cidade Shingal. As sepulturas estam, no entanto, muitas vezes inspeccionados por luitadores, jornalistas ou Jazidis à procura dos seus parentes, o que torna difícil preservar as provas no futuro.

Escravitude

“Ela tem 12 anos. Hweida nom sabia o que era a violaçom, mas acordou com sangue entre as suas pernas.”, NBC Report.

Jazidis escravasAté 7.000 Jazidis, a maioria das quais eram mulheres e crianças, forom sequestradas. Na sua revista Dabiq, o ISIS referiu o seu rapto como a reintroduçom da “tradiçom islâmica da escravidude”. As Jazidis sequestradas forom levadas para outras partes do Iraque e da Síria. 3.200 mulheres e crianças forom libertadas ou conseguiram escapar. Elas relatarom violaçons em massa, tortura e assassinatos nas prisons do ISIS. Crianças nascidas em cautiveiro do ISIS forom entregues a famílias muçulmanas. As mulheres e crianças Jazidis raptadas som oferecidas para a venda por terroristas do ISIS através das redes sociais ou nas ruas. O ISIS usa a violaçom sistemática como umha arma psicológica contra toda a comunidade Jazidi.

3.500 outras Jazidis ainda permanecem, desde há dous anos, no cautiveiro do ISIS. O genocídio continua com o seu cativeiro e nom permite que os Jazidis poidam descansar. Até agora nom há medidas concretas para a sua libertaçom, tais como operaçons militares especiais. As famílias Jazidis pagam somas de cinco dígitos para resgatar os seus parentes, caso a opçom esteja disponível. O ISIS reforçou as medidas de segurança após umha série de tentativas de fuga bem-sucedidas, é por isso que cada vez menos mulheres e crianças podem ser resgatadas ou som capazes de escapar. Muitas das mulheres e crianças escravizadas crê-se que estam nos redutos do ISIS de Mosul e Raqqa.

Mas mesmo depois da sua libertaçom, o seu calvário nom chega ao fim. Fortemente traumatizadas, muitas delas resistem nos campos de refugiados sem ter acesso à assistência professional. Nada abalou a comunidade Jazidi nas suas bases, como os seqüestros e as violaçons. A maioria também perderam os seus familiares nas massacres de Shingal.

Órfaos

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Crianças Jazidis do campo de refugiados de Esiya (EzidiPress)

A campanha de destruiçom do ISIS transformou milheiros de crianças em órfaos e meio-órfaos, muitos dos quais forom testemunhas de como as suas maes e/ou pais foram mortos polos terroristas do ISIS diante dos seus olhos. Há 3.000 órfaos, de acordo com dados oficiais. Estimativas nom oficiais, no entanto, indicam que há 8.000 crianças e jovens órfaos e meio-órfaos. Os que muitas vezes encontram aos seus parentes que, no entanto, também carecem de tudo. portanto os Jazidis procuramos construir orfanatos.

Êxodo em massa

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Crianças refugiadas de Shingal perto de Semel, Duhok (Ezidi Press)

“Esta terra é a nossa tumba “, refugiado Jazidi.

O plano pérfido do ISIS para destruir a comunidade Jazidi aparentemente provou ser bem sucedida. Cerca de 100.000 Jazidis já deixarom o Iraque / Regiom Autónoma do Curdistam – que é cerca do 20% da povoaçom total Jazidi. Atravessa a Turquia e o Mediterrâneo, muitos estam tentando alcançar porto seguro na Europa. Um número estimado de 30.000 Jazidis já solicitarom asilo só na Alemanha – com umha tendência crescente. Os 900.000 Jazidis já vivem nos quatro continentes, em mais de 20 países.

 Destruiçom e luita polo poder político

Um camiom com forças de segurança curdas fai o seu caminho através das ruínas de Sinjar. (John Beck / Al Jazeera)
Um camiom com forças de segurança curdas fai o seu caminho através das ruínas de Sinjar. (John Beck / Al Jazeera)

O lar tradicional do Jazidis tornou-se um lugar de luita polo poder político. Dúzias de partidos políticos e forças militares estám tentando exercer a sua influência no vazio de poder que foi deixado lá. Bandeiras de Partidos e militares som içadas acima das ruínas dos edifícios destruídos. A regiom está de facto dividida em duas zonas: os grupos ligados ao PKK [KCK em realidade], como as Jazidis YBŞ que controlam o oeste da regiom. Eles estam em umha luita de poder com o KDP, e os seus aliados Peshmergas e Jazidis que controlam o leste da regiom.

Cerca do 85% das infra-estruturas da regiom, vilas e cidades forom destruídas. O Conselho de Representantes iraquiano declarou a regiom como zona de catástrofe. De acordo com as avaliaçons fornecidas polas autoridades, seram necessários 150 milhons de euros para a reconstruçom da área. O retorno dos refugiados parece, portanto, impossível – também devido à situaçom de segurança.

 Aldeias ocupadas

Dúzias de aldeias no sul da regiom, como Kojo, permanecem sob control do ISIS. Há diferentes opinions sobre por que a regiom ainda nom foi liberada.

Crise que Ameaça a Existência

Crianças jazidis em um campo de refugiados em Midyat (Reuters)
Crianças jazidis em um campo de refugiados em Midyat (Reuters)

O genocídio, a traiçom dos Peshmerga, bem como a luita polo poder político sobre a regiom desarraiga a comunidade Jazidi e mergulhou-na em umha profunda crise, a ameaça da existência. As frentes políticas que estiveram latentes durante décadas tenhem-se endurecido, o tom entre os diversos grupos tornou-se mais forte. Acusaçons mútuas e condenaçons ameaçam com dividir a comunidade nas décadas futuras. O Conselho Religioso Jazidi parece paralisado à luz dos desafios e pressons políticas.

Os partidos políticos estam a tentar impor a sua agenda por e com os Jazidis. Especialmente as geraçons mais velhas nom parecem compreender que esta crise pode realmente levar à queda da comunidade Jazidi e, portanto, da antiga herdança da cultura mesopotâmica.

Mais umha vez, heróis no começo acabarom por ser membros leais do partido – que é umha das razons que permitirom em primeiro lugar esta crise. É, portanto, jovens activistas, como Nadia Murad que dam umha nova esperança para os Jazidis e assumem a responsabilidade pola sua comunidade.

Publicado por Êzîdî Press.

 

 

“A resistência é vida, o silêncio é morte”: Entrevista exclusiva com Faysal Sariyildiz

Faysal Sariyildiz 01O deputado Faysal Sarıyıldız do Partido Democrático do Povo por Şırnak foi a única fonte de informaçom desde dentro do distrito sitiado de Cizre nos últimos dous meses. El informou à opiniom pública através das mídias sociais e fixo muitos apelos a organizaçons internacionais para acabar com o cerco em Cizre e impedir a massacre de civis.

Sarıyıldız foi eleito por primeira vez para o Parlamento em 2011 como candidato do Partido da Paz e a Democracia (BDP), o antecessor do HDP, enquanto el estava na prisom por alegada pertença a umha organizaçom terrorista. Foi preso em 2009, como parte das operaçons conra a KCK e liberado em 2014 sem ter sido julgado ou condenado. Foi re-eleito para o Parlamento em 2015.

Kurdish Question entrevistou o Sr. Sarıyıldız na esteira das massacres dos sotos para ter umha imagem mais clara, sem censura e imediata da situaçom em Cizre.

Onde está agora Mr. Sarıyıldız?

Estou no distrito de Cizre de Şırnak, onde há um toque de recolher durante 62 dias sob as ordens do governo do AKP e a decisom do Governador de Şırnak.

Em quais bairros estam ocorrendo as operaçons e assédios?

As operaçons e assédios nom estam limitados a certos bairros. O assédio está a ser implementado em cada canto do centro do distrito. No entanto, há umha concentraçom nos bairros de Nur, Cudi, Sur e Yafes, que estam sob intenso ataque e assédio.

Qual é a povoaçom que vive nesses bairros neste momento?

De acordo com o censo do 2015 a povoaçom de Cizre é de 131, 816. Os quatro bairros que mencionei componhem os 2/3. Devido aos ataques devastadores e extra-legais do estado, as pessoas que vivem nos bairros Cudi, Nur e Sur forom totalmente deslocadas, enquanto mais da metade da povoaçom em Yafes também deixarom as suas casas. Além disso, a política de deslocamento forçado do estado também foi implementado em bairros onde os ataques nom se estam concentrando. Podemos dizer que mais de 100.000 pessoas forom deslocadas.

Há mais de 2 meses que Cizre estivo sob assédio; que estam comendo e bebendo a gente, ou seja, como estam vivendo?

As pessoas consumirom tudo do que se tinham abastecido durante este tempo. Em Cizre, as relaçons sociais e de vizinhança som fortes. Além disso, há solidariedade coletiva porque as pessoas pertencem à mesma identidade política. No entanto, há sérias dificuldades por causa da duraçom do cerco. Por exemplo, o estado permitiu somente um par de lojas abertas determinados dias. Mas só as pessoas que vivem perto destas lojas poderiam tirar proveito disso. As pessoas que vivem longe dessas lojas nos bairros sob fortes ataques nom podem acessar as suas necessidades. Porque se saes da casa para comprar pam podes ser baleado ou atingido por estilhaços de um morteiro; em suma, morrer. O preço de sair a rua é a morte. Além disso, a polícia recentemente impediu que estas lojas abram.

Ao mesmo tempo, as forças estatais impedirom a dúzias de camions que continham alimentos e outras necessidades enviadas de todo o país como ajuda entrar no distrito.

Por causa dos ataques a infra-estrutura do distrito foi destruída. As forças do estado conscientemente atacarom o sistema de água e de águas residuais, bem como os transformadores de energia elétrica. Houvo falta de água durante dias. Um trabalhador do município foi para amanhar os tanques de água danificados, mas foi baleado no braço polas forças estatais; o seu braço tivo que ser cortado.

As pessoas chamam-no pedindo ajuda? Que tipo de cousas pedem?

O pedido mais comum durante o cerco foi polos cadáveres e feridos para ser levados os hospitais. Os pedidos de ajuda das pessoas retidas nos edifícios, as pessoas que estam sob ameaça de morte e as pessoas cujas casas forom queimadas também som comuns. Isso ocorre porque o Estado desligou todos os canais de comunicaçom entre as instituiçons e as pessoas; nom há nengumha via de diálogo. Os municípios nom som capazes de levar os serviços para as pessoas devido ao cerco e toque de recolher.

As pessoas pensam que porque eu som deputado eu poderei atender os seus pedidos. No entanto por causa de ser da oposiçom e a linha política que represento, os pedidos que eu fago nom deve som levados em consideraçom. Os cadáveres e feridos forom deixados nas ruas durante dias apesar dos repetidos apelos para que poidam ser recuperados. Pedidos como estes seriam atendidos imediatamente em países onde há umha democracia enraizada e a justiça e o direito está em vigor. Mas os pedidos humanos som ignorados na Turquia, que é administrado por um governo anti-democrático e totalitário.

Onde é que as pessoas que migrarom de Cizre forom? Tem algumha informaçom sobre a sua situaçom?

As pessoas que tiveram que deixar as suas casas e meios de subsistência por causa dos constantes e graves ataques por parte das forças estatais. Quando os curdos falam de devastaçom e desastre fam referência a Kobanê e Sinjar. Dous terços de Cizre em verdade nom som diferentes de Kobanê e Sinjar. As casas forom viradas em ruínas. Quase nom há casas que os bombardeios de tanques e morteiros nom bateram. Esta foi umha política consciente para deslocar as pessoas. As forças do governo violarom o direito à vida.

Houvo migraçom interna no primeiro mês do cerco. Os ataques estavam concentrados nos bairros Cudi, Nur, Yafes e Sur. As pessoas forçadas a se deslocar destas áreas migrarom para o centro do distrito ou bairros onde os ataques eram menos graves. Alguns forom morar com parentes e outros forom acolhidos por pessoas. No entanto, quando os ataques começarom a se espalhar para esses bairros, mais umha vez migrarom, desta vez para as aldeias vizinhas, o centro de Şırnak, Idil, Diyarbakir e cidades turcas. Na década de 1990 os ataques do Estado provocarom que os curdos migraram das zonas rurais para as zonas urbanas, agora está ocorrendo o oposto; porque o estado está a transformar as cidades curdas no inferno.

Por que o estado está atacando Cizre tam severamente?

Se analisarmos o significado histórico e político da Cizre, pode-se ver que tem umha qualidade simbólica, tanto para o estado como também para o povo curdo. Para compreender por que o Estado declarou o mais longo cerco e toque de recolher e cometerom atrocidades, impedindo as pessoas de enterrar os seus seres queridos e a queima de pessoas vivas, deve-se olhar para a história da resistência em Cizre.

Durante toda a década de 90 Cizre foi o lugar de maior tirania e repressom. Os feitos na celebraçom do Newroz (Ano Novo curdo), em 1992 ainda estam frescas na nossa memória. Mais de 100 civis forom mortos e centos feridos em ataques para evitar as celebraçons do Newroz. Nos mesmos anos as aldeias forom arrasadas, as migraçons forçadas, execuçons extrajudiciais e as valas comuns forom moeda diária em Cizre. O Estado viu os direitos humanos e as liberdades básicas como luxos para as pessoas deste distrito.

No entanto, apesar de toda a violência e repressom, entom e agora, o povo de Cizre nom deu nengumha concessom e nom se ajoelhou. A demanda de Cizre pola liberdade e igualdade e a resistência contra as políticas do Estado turco de negaçom e assimilaçom foi sempre inquebrável. Apesar da política de assimilaçom do estado Cizre resistiu a turquificaçom e protegeu a sua autêntica identidade cultural e política independente. É por isso que sempre foi um alvo para quem está no poder. Assim como Cizre estava no coraçom da rebeliom contra o Império Otomano em 1847, tornou-se símbolo da resistência para o povo curdo na década de 1990.

Portanto, o estado acredita que se Cizre, como um dos centros de resistência, é liquidado, entom podem fortalecer a sua soberania nas outras cidades do Curdistam. Mas eu acredito que a barbárie do Estado em Cizre durante o cerco foi gravada na memória coletiva do povo tam profundamente que vai criar raiva e umha reaçom organizada. As pessoas aqui forom obrigadas a umha experiência desumana e tirânica que vai passar de geraçom em geraçom.

Faysal Sariyildiz 02Que significam as barricada e trincheiras?

Significa umha forma de auto-defesa contra a política de negaçom e aniquilaçom do Estado. É claro que o povo curdo nom está feliz com a vida atrás das trincheiras, no meio de batalhas, deixando as suas casas e enterrando os seres queridos todos os dias. No entanto, há umha insistência em que os curdos vivem como escravos. Aqueles por trás das trincheiras se oponhem a isso. A maioria deles estiverom discriminados polo Estado; detidos, presos e torturados ou perderom um parente na guerra ou incendiarom a sua aldeia. Eles nom confiam no Estado. Eu sei disso porque me reunim com os jovens o ano passado, quando as negociaçons (entre o movimento curdo e o estado) ainda estavam em andamento, para que eles fecharam as trincheiras. Eles escutarom o chamado de Öcalan e figerom-no. No entanto, o mesmo dia as forças estatais dispararom e matarom umha criança, Nihat Kazanhan, desde um veículo blindado. É o conceito de guerra do estado que obrigou a Cizre a cavar trincheiras.

Há diálogo entre você e os funcionários / instituiçons estaduais?

Apesar das muitas tentativas de fazer contato e atender durante todo o cerco, o governador de distrito Cizre nom respondeu o telefone nem respondeu aos nossos pedidos para umha reuniom. O diálogo com a polícia nom evoluiconou além das constantes ameaças que nos fam.

Quem acha que está comandando as operaçons militares em Cizre? As forças de Ancara ou as locais? Quantas equipes das forças especiais, soldados, policiais etc. há em Cizre no momento?

O que aconteceu em Cizre nom é umha questom local. O mesmo aconteceu e continua a acontecer em muitas outras vilas e cidades curdas. Os funcionários do governo também afirmarom em várias ocasions que esta é umha operaçom global. Por isso, é claro que estas operaçons estam sendo planejadas e usam as instituiçons burocráticas e instrumentos políticos de todo o estado. Em março do 2015, quando o processo de resoluçom ainda estava em curso, o governo do AKP aprovou o projeto “Paquete de Segurança Interna” no Parlamento como preparaçom para o que está acontecendo hoje. Todas as operaçons que som implementadas aqui som suportadas, incitadas, e dirigidas por autoridades estaduais e do governo, incluindo o presidente, primeiro-ministro, ministro do Interior, ministro da Defesa, chefe de gabinete, governadores provinciais, governadores etc. Aqueles que executam a operaçom no terreno som pessoal do Estado. Eles estam pagos polo Estado e estám usando equipamento militar do estado. Há mais de 10.000 soldados e forças policiais especiais participando activamente na operaçons em Cizre. Se levarmos em conta todos os tipos de artilharia pesada, existem suficientes soldados e forças especiais para verificar cada casa em Cizre.

Houvo massacres em 3 sotos. Poderia dar-nos algumha informaçom concreta sobre estas massacres?

Havia cerca de 130 pessoas nos ‘3 sotos da morte’, a metade deles mortos ou feridos. Eu e as famílias dos presos falamos com a delegacia da polícia Cizre e a equipe de saúde do estado inúmeras vezes de levá-los para o hospital. Mas cada solicitaçom foi recusada por motivos de “segurança”. Os edifícios com os feridos presos forom atacados por vários dias. Eles forom deixados sob os escombros, sem comida e água por vários dias. O Estado violou todas as regras humanas e legais e massacrou os feridos de umha forma selvagem.

Nom temos informaçons concretas sobre o primeiro soto. Mas as ambulâncias do município recuperarom os corpos que forom tirados a rua polas forças estatais a 50 m de distância do soto. Nom sabemos ao certo se forom retirados do prédio. No entanto, temos a certeza de que polo menos 110 pessoas que se refugiarom nos edifícios forom massacrados, a maioria deles queimados vivos. Há polo menos 28 pessoas desaparecidas. (Umha vez que a entrevista rematara confirmou-se, que polo menos, 145 pessoas morreram).

Umha vez que o bloqueio marcial começou 62 dias atrás 209 pessoas forom mortas, as identidades de 80 pessoas forom confirmadas, enquanto o resto ainda nom estam claras. Nós acreditamos que o número de vítimas vai subir. Há muitos mais cadáveres nas ruas e nas casas.

O Estado e a imprensa turca afirmou que essas pessoas nom evacuarom os sotos apesar dos apelos. Por que essas pessoas nom deixarom os sotos?

As afirmaçons de funcionários do Estado e os meios de comunicaçom de que as pessoas nom evacuarom os sotos apesar de ter a oportunidade som para enganar a opiniom pública internacional. Se isso fosse verdade eles poderiam prova-lo. Tivem contato por telefone com as pessoas assediadas, falamos muitas vezes. Conheço muitos deles do seu trabalho na esfera social, política e de mulheres. Quase 50 estudantes universitários que tinham viajado a Cizre em solidariedade também estavam entre os feridos. Quando as ambulâncias tentarom alcançar os sotos as forças do estado tiroteiarom a cena e nom lhes permitirom a entrada na área por razons de “segurança”. Em vez de permitir que eles foram levados para o hospital, desde o início o estado abandonou à morte e queria massacrá-los. Eles figerom isso, queimarom-os vivos.

Com esta massacre do estado, à sua maneira, queriam ensinar aos que resistem a liçom e também o castigo e intimidar as pessoas de outras cidades curdas; isso também era umha ameaça para os que estám contra o estado nas cidades ocidentais da Turquia. Usando a retórica “Estamos perdendo o país polos terroristas”, o governo tentou esconder as suas práticas extra-legais e consolidar o bloco nacionalista e conservador.

Além disso, devido à crescente supressom dos meios de comunicaçom nos últimos anos, é impossível falar de uns mídias livres que informaram do que está acontecendo aqui. Os meios de comunicaçom atuais estam no lugar para legitimar todas as açons do governo e do estado. Um pequeno grupo de meios de comunicaçom livres som constantemente reprimidas com os jornalistas sendo mortos, presos e impedidos de fazer o seu trabalho. Portanto, nom é possível obter informaçom imparcial ou detalhada sobre o que está acontecendo nas cidades curdas nos mídia. Em suma, o Estado está a implementar todos os métodos de guerra psicológica à sua disposiçom.

Sabemos que os sotos em Cizre tenhem um significado especial. Desde os anos 90 as pessoas refugiarom-se nos sotos. Poderia contar mais sobre isso?

Um soto ou adega é um espaço onde as pessoas se refugiam dos ataques do estado. Este espaço é, especialmente para Cizre, histórico. Tendo experimentado a tirania do estado, a soluçom de Cizre forom os sotos. Se o povo de Cizre nom tivera construído sotos para defender e proteger-se, massacres maiores poderiam ter ocorrido.

Você é deputado por Şırnak. Umha criança desta cidade. Sabemos que perdeu muitos amigos recentemente. Como descreveria o seu estado de ánimo? Poderia nos contar o momento em que mais luitou?

O sofrimento em Cizre foi indescritível. Como podoo distinguir entre a dor causada pola morte da mae Hediye, que depois de me pedir ajuda durante umha semana, foi morta por um projetil de tanque, ou o assassinato do bebê de 3 meses Miray e o seu avô em umha emboscada sangrenta ou a morte do meu amigo Aziz, que foi morto por um único tiro na cabeça quando se dirigia salvar a umha mulher ferida, ou a perda do meu camarada Seve, que escondeu a sua convicçom na revoluçom no seu sorriso? Mas umha criança escreveu “A resistência é vida, o silêncio é morte” em umha parede com carvom em meio do bombardeio de tanques também me afetou profundamente. Porque este foi o grito de Cizre …

Eu acho que essas palavras e frases explicam Cizre e o meu estado mental; silêncio, gritos desoladores, resistência, vida, destroços, água, tirania, migraçom, coragem, liberdade, rostos ensangüentados, jovens com rostos luminosos, esperança…

Fixo chamadas a muitas organizaçons internacionais recentemente. Recebeu algumha resposta?

Nom houvo resposta significativa ou medidas tomadas em resposta às cartas escritas e as chamadas feitas por mim e o Partido Democrático dos Povos até agora.

Como podem ser paradosos ataques do Estado ?

Tanto quanto nós podemos dizer as forças estatais nom tenhem a intençom de cessar os ataques no futuro próximo. O estado quer encobrir o seu fracasso político na Síria e Rojava com esses ataques. Além disso, quer desacreditar, criminalizar e suprimir a motivaçom criada polos desenvolvimentos em Rojava, bem como as exigências feitas polos curdos durante o processo de soluçom, que forom vistas polo mundo como legítimas. A oposiçom unificada e organizada formada polas forças democráticas é a única cousa que pode enfraquecer os ataques do Estado. O apoio da opiniom pública internacional também é muito importante.

Onde acha que os desenvolvimentos nos estam levando?

A situaçom actual da economia capitalista significa que os recursos energéticos e as suas vias tornarom-se questons importantes. As potências imperialistas estam constantemente fazendo novos movimentos devido às consideráveis reservas de petróleo e gás na regiom. Os desenvolvimentos aqui, especialmente desde a primeira Guerra do Golfo, estam criando novas contradiçons, novas alianças, novos problemas e novas oportunidades todos os dias. Além disso o sectarismo está sendo aprofundado usando o Daesh (ISIS). Junto com isso nós igualmente temos os desejos democráticos e as luitas dos povos da regiom contra os regimes autoritários.

Um dos exemplos mais importantes disso som os curdos. Os curdos querem a democracia e o auto-governo. Há umha luita ativa por isso em Rojava. As demandas na Turquia dos curdos estam a ser recusadas; a sua luita criminalizada, suprimida e deslegitimiçada. No entanto, nesta era da comunicaçom nom vai ser tam fácil como era antes negar a demanda do povo pola democracia, a igualdade e a liberdade. Os curdos continuarám luitando por isso; a sua demanda por umha “cidadania igual e livre” na Turquia é significativa e preciosa. É umha exigência universal, legítima e democrática. Entom, até que um regime democrático no que os curdos tenham um estatus e opiniom vai continuar esta luita.

Obrigado por dar-nos esta entrevista e polo seu tempo.

Obrigado.

Esta entrevista foi publicada em duas partes 1 e 2 em Kurdish Question.