A política anti-alevi da Turquia nos tempos do Estado Islâmico

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Mulheres Alevi-curdas resistem às políticas insidiosas de assentamentos de refugiados do Estado turco em Terolar. Foto: Kurdish Question

Por Dilar Dirik

Os alevis som parte central do movimento de libertaçom curdo e da política de esquerdas e progressistas turcas.

Sob a autoritária, sectária-conservadora política do presidente turco e o seu partido o AKP, Turquia prendeu de refém a Uniom Europeia ao instrumentalizar o sofrimento dos refugiados sírios. El continua a fortalecer o seu governo uni-pessoas com a sua guerra contra o terror paranóico em que, paradoxalmente, junta o movimento curdo, o Estado Islâmico, acadêmicos, setores do exército, e o seu ex-mentor e colaborador Fethullah Gülen em um bloco monolítico.

Parte do plano de Erdogan é opor as comunidades umhas contra as outras para se livrar dos eventuais componentes étnicos, religiosos, ideológicos, sociais ou políticos que poidam desafiar o seu projeto profundamente sectário neo-otomano que consiste em apontar à povoaçom Alevi do país.

Desde março de 2016, os moradores das aldeias Alevi-curdas em Kahramanmaraş ou Maraş (Gurgum em curdo) estiverom a resistir activamente as políticas de assentamentos do estado. O Estado turco quer construir um acampamento da Presidência de Desastres e Gestiom de Emergência de Turquia, ou AFAD, ao redor do val da vila de Terolar – que som principalmente sunitas árabes da Síria. Enquanto fornece umha imagem impecável para o mundo exterior, estes campos de refugiados patrocinados polo Estado geralmente fornecem aos jihadistas um refúgio seguro para o tratamento, recrutamento e abrigo. Casos de abuso sexual e tráfico de seres humanos som amplamente relatados. Para estes acampamentos forom amplamente analisados os lugares onde o AKP conscientemente mobiliza os refugiados para a sua própria agenda política e ideológica. O acampamento planejado em Terolar deveria acolher umha povoaçom de refugiados maior do que a povoaçom local.

As incansáveis manifestaçons dos moradores de aldeias como Terolar e além, que percebem umha perigosa agenda por trás deste novo plano de liquidaçom, forom defrontados com violência policial durante meses. Em umha medida bastante inteligente, o governo e os seus meios retratarom essa resistência legítima como sentimentos anti-refugiados dos moradores, quando na realidade isso é parte de um projeto maior do AKP para incitar conflitos comunitários e impor dramáticas alteraçons demográficas para as regions curdas para os seus próprios ganhos económicos e políticos usando aos refugiados.

Umha história das massacres alevitas

A fim de compreender o significado da resistência em Maras, é importante conhecer a profundamente enraizada história genocida do Estado turco moderno contra a comunidade Alevi-curda, um legado anterior à administraçom abertamente religioso-sectária de Erdogan, apesar das pretensons seculares dos governos anteriores.

A negaçom e aniquilaçom sistemática daqueles que nom som turcos-e-sunitas constituiu um pilar fundador da naçom-estado turco – nom importa quanto isso enquadrada na imagem em termos progressistas, seculares. Assim, os genocídios contra os armênios, gregos pônticos, assírios e curdos – especialmente os Jazidis e alevitas – forom fundamentais e até mesmo existenciais para o paradigma “modernidade” deste estado artificial violentamente imposto , que encontrou um bode expiatório diferente em cada década, em coordenaçom com os militares, a extrema-direita e fundamentalistas islâmicos.

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Marcas em umha casa alevi

Enquanto algumhas massacres ocorrerom como campanhas de linchamento patrocinadas polo Estado ou mortes de indivíduos alevitas, outras forom planejadas operaçons de limpeza étnica em grande escala por parte do Estado. Durante décadas, “marcarom” as casas alevitas como objetivos para ataques de ódio e demonizaçom do modo de vida Alevi através de mitos urbanos, negaçom, mentiras e propaganda sendo umha constante na agenda do estado. A eliminaçom sistemática e islamizaçom forçada do pensamento, cultura, história e valores Alevis que mostram características ecológicas, comunitaristas, anti-autoritarias e muitas vezes centradas nas mulheres som motivaçons profundamente ideologicas, em quanto a filosofia Alevi incorpora umha oposiçom ao Estado autoritário, capitalista e patriarcal.

Em 1938, a cidade alevi-curda de Dersim foi implacavelmente bombardeada, matando mais de 15.000 civis, depois de umha grande revolta do povo, liderados por Seyît Riza, um respeitado líder tribal e figura política. Entre os pilotos de combate estava a filha adotiva do fundador da república turca Mustafa Kemal,  Sabiha Gökçen, pola que tem o nome o terceiro maior aeroporto da Turquia. Glorificando-a como a primeira piloto de combate feminina no mundo e a primeira mulher piloto na Turquia é umha das muitas tentativas por parte do Estado para cobrir as suas medidas genocidas com a narrativa da modernidade: umha mulher turca moderna bombardea aos curdos atrasados – umha história de modernizaçom perfeita.

Umha das maiores massacres contra os alevitas-curdos tivo lugar em 1978 em Maraş, o mesmo lugar onde o Estado tenta instalar os refugiados árabes sunitas hoje. Em um clima político já tenso cheio de confrontos entre esquerda e direita, antecipando o infame golpe militar de 1980, umha violenta matança varreu Maraş, onde casas alevitas foram atacadas, queimadas, e as pessoas assassinadas nas ruas. Mais de 100 pessoas forom assassinadas e para os alevitas, ficou claro que as autoridades contra-guerrilha do estado tinham provocado os ataques. Após este trauma colectivo, dez milheiros de pessoas fugirom para outras partes da Turquia e Europa. Muitos deixarom de ensinar aos seus filhos curdos por medo e lentamente assimilar-se como um meio de auto-preservaçom.

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Ataque a alevitas no 1993 no Hotel Madimak em Sivas

A era pós-golpe estivo marcada por muitos incidentes, ecoando a grande massacre de  Maraş. Em 1993, umha multitude de linchadores fascista islâmistas atacou o hotel Madimak em Sivas, onde pensadores, artistas, escritores e intelectuais estavam-se preparando para um festival cultural Alevi. A polícia turca, na época secular, observou e, em alguns casos, até mesmo ajudou a multitude fascista que primeiramente atirou pedras ao hotel antes de prender-lhe lume, com o resultado de 33 alevis asfixiados ou queimados vivos e muitos feridos.

Os sangrentos acontecementos do bairro em grande parte alevi de Gazi em Istambul, em Março de 1995 foram mais um episódio de assassinato e violência contra os alevitas, os curdos em geral, e de esquerdas, executado por direitistas e islamistas, patrocinado polo Estado. A polícia disparou às cegas às multitudes de pessoas que se manifestarom pola massacre em Gazi. Ataques, linchamentos, marcaçons de casas para os ter em vista e as perseguiçons de alevitas em Gazi continuam ate hoje.

Como esta cronologia nom exaustiva mostra, militares laicos kemalistas, ultra-nacionalistas de extrema-direita e islamitas conservadores na Turquia sempre deixam as suas diferenças à parte e unem forças contra aqueles a quem veem como ameaças ao autoritário: um Estado, umha bandeira, umha naçom , umha língua, umha doutrina religiosa que eles tenhem em comum, com pequenas diferenças. Por meio de seu islamismo claramente político, Erdogan acaba de traer esse legado a um novo nível, ajudados pola ascensom do Estado Islâmico.

Mas há também umha longa história de resistência. Os alevis som parte central do movimento de libertaçom curdo e da esquerda e as políticas progressistas turcas. Sobretudo as mulheres alevi-curdas, que sofrerom mais que os homes esses ataques violentos, amplamente juntarom às fileiras dos diferentes grupos políticos e, especialmente, no Partido dos Trabalhadores do Curdistam, ou PKK, desde os inícios. Enquanto líder política secular, o movimento de libertaçom curdo sempre enfatizou a repressom histórica específica e as políticas genocidas contra grupos como os alevitas, Jazidis, e armênios na Turquia.

Sakine Cansiz, umha das co-fundadoras do PKK e figura de proa do movimento de mulheres curdas assassinada o 9 de janeiro do 2013, em Paris, juntamente com Fidan Dogan e Leyla Saylemez, era umha mulher alevi-curda. Fidan Dogan, também era umha mulher alevi-curda, de feito era de Maraş.

Dado esse contexto histórico, a questom da legítimidade surge em Maraş hoje como a razom pola qual o governo do AKP, que afirma repetidamente ter o 50 por cento da povoaçom do seu lado, parece nom encontrar lugar para os refugiados sunitas nos seus baluartes, mas ao invés disso, considera necessário estabelece-los no meio de zonas de povoaçom alevi-curdo, que ainda estam sob a sombra das massacres e traumas passados.

É fundamental compreender que a raiva entre os alevitas nom está dirigida contra os refugiados, mas contra as motivaçons tão sutis como insidiosas do Estado. Os moradores da aldeia de Terolar ponhem ênfase nas suas manifestaçons de que a sua comunidade, que está bem familiarizada com o significado da guerra, deslocamento, desenraizamento e ameaças existenciais, som solidárias com os refugiados sírios que precisam de asilo, mas luitam contra o governo que aproveita a miséria humana para impor novamente um genocídio cultural contra os alevitas. Receiam que as tentativas do Estado de incitar o conflito por motivos religiosos asentando refugiados árabes sunitas nas regions curdo alevitas, e para obrigar os alevitas deixar as suas casas. Considerando que o Governo turco recebeu 6 mil milhons de euros da Uniom Europeia para ajudar aos refugiados e a imensa quantidade de recursos que o Estado e o exército destinam à destruiçom das cidades curdas, resultando na massacre de centos de civis, nom parece que os recursos, logística e meios económicos constituam um problema para a política de assentamentos de refugiados prevista por Erdogan.

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Protestos em Saras

Mudança demográfica, desenvolvimento capitalista e guerra total

Dentro deste contexto, as motivaçons ideológicas, políticas e religiosas das políticas anti-alevitas do estado parecem óbvias. No entanto, nom se podem entender esses desenvolvimentos sem considerar os interesses políticos e econômicos a longo prazo do AKP que tenta alcançar através de mudanças demográficas.

Desde o Verao do 2015, o Estado turco lançou umha cruel campanha militar no Curdistam, que nom só matou centos de civis em frente aos olhos da comunidade internacional, mas também destruiu sistematicamente casas, lugares históricos significativos e infra-estruturas. Logo, torna-se claro que um dos objectivos do Estado é criar edifícios da Administraçom para o Desenvolvimento de Habitage (TOKI) nestas áreas, gentrifica-los ou instalar os refugiados sírios lá, depois de aniquilar os curdos destas regions. Este é especialmente o caso do distrito de Sur de Amed (Diyarbakir), que é património mundial da UNESCO e que foi transformado em pó e cinzas polo exército turco, forçando a mais de vinte mil pessoas a fugir. Ao mesmo tempo que  extermina fisicamente os habitantes dessas áreas, re-ajustes de infra-estrutura radicais e a elitificaçom do turismo impom umha segunda medida genocida sobre eles aniquilando a sua cultura da face da terra.

Além disso, Erdogan há muito que insinua a concessom aos refugiados sírios da cidadania turca para angariar apoio na regiom e mobilizar potenciais votos. Ao mesmo tempo, que ameaça despojar os “simpatizantes dos terroristas”, umha descriçom que abrange um amplo espectro de pessoas, incluindo acadêmicos, da sua cidadania. O objetivo deste duplo movimento é claro: umha grande mudança demográfica lado-a-lado com ambiciosos projectos de infra-estruturas capitalistas para recolonizar economicamente o Curdistam.

Ademais opor os refugiados contra os curdos em geral e os alevitas em particular, é umha questom muito delicada que o AKP tenta explorar para os seus próprios ganhos. É fácil acusar alguém de racismo anti-refugiados aos que resistem essas táticas especiais de guerra quando estas incluem a construçom de campos de refugiados. O assentamento de  refugiados sírios em áreas específicas e até mesmo prometer-lhes a cidadania é umha estratégia inteligente de Erdogan para subornar Europa, aumentar a sua popularidade com o bloco sunita-conservador na regiom, e engaja-se em um ataque genocida cultural e físico em grande escala sobre todo mundo que nom combina com a sua narrativa neo-otomana – especialmente as pessoas que prejudicam o casamento entre nacionalismo turco e islamismo conservador.

É por isso que é impossível analisar as políticas de refugiados da Turquia isoladas da sua guerra total com o Curdistam como regiom e a cultura alevi em particular.

Da mesma forma, nom é realista tratar o assassinato físico dos curdos do plano mestre económico neoliberal do AKP, combinado com a sua nostalgia imperial. Assim como as leis militares e decretos governamentais que legitimarom a devastaçom militarista de Dersim, em 1938, os bloqueios  militares e matanças  extrajudiciais em lugares como Cizre, Nusaybin, Yüksekova, Sur e Silopi hoje som continuaçons da síntese turca da política nacionalista, militarista, capitalista, patriarcal e religiosa. Dentro do espírito do ISIS, Erdogan está promovendo umha mudança demográfica mortal no Médio Oriente, atacando a culturas antigas que incluem identidades e estilos de vida ecológicos e centrados nas mulheres. O feito de que especialmente as mulheres estam na vanguarda da resistência em Terolar é ilustrativo do apego das mulheres alevi-curdas para as suas terras e os valores ecológicos associados a elas.

A UE é cúmplice nessa guerra quer através da vendas de armas dos Estados individualmente a Turquia, quer através do silêncio sobre as violaçons dos direitos humanos e o fascismo mália ser bem conscientes, ou através dos futuros interesses de investimento económico e jogos de guerra. Os chamados “valores europeus” estam a ser vendidos no tráfico e mercados sexuais de escravos humanos na Turquia, no trabalho de crianças refugiadas, na contínua perda de património cultural mundial, e no mar Mediterrâneo, o cemitério conjunto europeu-turco de milheiros de refugiados afogados.

A renúncia aos refugiados polos mesmos estados, instituiçons e sistemas que tenhem causado todas essas guerras é umha vergonha para todos os que crem na liberdade, a democracia e os direitos humanos. Mas desde o ponto de vista dos oprimidos, a resistência e auto-defesa continuam.

Nas palavras de Seyit Riza, que liderou a rebeliom alevi-curda na Dersim e foi executado polo Estado turco em 1937: “Eu nom podia lidiar com os seus truques e mentiras, isso volveu-se um problema para mim. Mas, eu nom me ajoelhei frente sua. Que isso lhes quite o sono”.

Dilar Dirik 34Dilar Dirik, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. O seu trabalho analisa o papel da luita das mulheres na articulaçom e construçom da liberdade no Curdistam. Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional.

Publicado em TeleSurtv.

 

Um terrorista vive em Turquia

Erdogan ISSipor Naila Bozo

Desde o Verao do ano passado as forças armadas turcas estiverom a sitiar bairros e distritos inteiros em povos e cidades curdas sob o pretexto de toques de recolher impostos polo Estado, matando mais de 250 civis e deslocando 350.000 pessoas na regiom curda no sudeste da Turquia.

A jornalista curda Asya Tekin da Agência de Notícias de Mulheres escreveu umha carta desde a cidade sitiada de Cizre em dezembro, descrevendo as condiçons inumanas sob as que viviam: “[…] Os feridos estám com medo de ir para o hospital porque temem ser baleados polos atiradores [da polícia e exército turco]. Mesmo aqueles que vam com bandeiras brancas som baleados e mortos. Duas mulheres que entraram em parto prematuro perderom os seus bebês recém-nascidos e ainda nom tinham o permisso para enterrá-los. […] As escolas som usadas como bases para as operaçons militares.

“O bebê de três meses Miray Ince foi baleado por um franco-atirador e morreu nos braços da sua tia. A polícia e os militares continuam atacando as pessoas que queremam enterrar os seus parentes mortos. As pessoas estám ficando sem comida. Nom houvo electricidade durante os últimos 15 dias […]”

Os toques de recolher tenhem dificultado aos jornalistas e observadores independentes ganhar acesso às áreas sob cerco, o que complica os esforços para dar um relato detalhado dos ataques contínuos do Estado turco. Os jornalistas locais som impedidos no seu trabalho enquanto som regularmente detidos pola polícia turca por fazer “propaganda de umha organizaçom ilegal”, geralmente significa propaganda do PKK, o movimento armado que luita por maiores direitos para os curdos na Turquia.

Os ataques indiscriminados das forças armadas turcas contra civis e combatentes armados curdos vêm na esteira do colapso das chamadas “negociaçons de paz” entre o Estado turco e representantes do povo curdo, que começou no início de 2013.

Normalmente disse que o PKK causou o final das negociaçons de paz quando os seus combatentes matarom um soldado turco e dous policiais o 21 e 22 de julho do 2015, como vingança polo atentado suicida do Estado islâmico na cidade de Suruç, perto da fronteira turca com a Síria, que matou 32 pessoas e feriu mais de 100, a maioria delas estudantes universitários.

Os curdos tenhem repetidamente salientado que a Turquia também carrega culpa pola massacre Suruç, pois deixou permanecer porosa a fronteira com a Síria que permitiu que combatentes estrangeiros uniram-se ao Estado islâmico e que os seus membros atravessara-na para voltar e ficar na Turquia.

Dizer que o PKK levou ao colapso o processo de paz é uma versom simplificada dos feitos, que, infelizmente favorece a Turquia e reforça a sua legitimidade nas operaçons militares contra o PKK, e que deliberadamente tem como objetivo os civis curdos. Embora houvesse algumha atençom ao conflito armado na regiom curda, a Turquia conseguiu matar centos de civis e combatentes armados, arrasar edifícios e destruir bairros inteiros com impunidade devido à simplificaçom retórica do seu conflito com o PKK e os curdos que limitou com sucesso a questom curda a ser uma questom terrorista. Por causa do estatus da Turquia como um membro da OTAN, a sua aplicaçom arbitrária da lei anti-terrorista e a inclussom politicamente motivada do  PKK nas listas de organizaçons terroristas e agora a crise de refugiados transformou os países europeus em aliados dóceis, a Turquia tem sido bem sucedida em exportar intencionalmente issa interpretaçom defeituosa dos bons turcos contra os maus curdos para o resto do mundo, culpando o PKK de pôr fim ao processo de paz. Além do que já foi mencionado, há dous problemas principais com o processo de paz que a Turquia estava explorando para sair como defensor da paz.

Tentativas fingidas em um processo de paz

Em primeiro lugar, pode-se perguntar se as conversaçons entre o PKK e a Turquia foram realmente feitas com o objetivo de trazer a paz para a Turquia e a regiom curda e por isso merecem ser chamadas “negociaçons de paz”. O tratamento dos civis curdos é um bom indicador da autenticidade das intençons. Como o Estado é capaz de rever a sua constituiçom e conceder aos curdos maiores direitos políticos, sociais e culturais que forom exigidos, a Turquia deveria ter-se movido a frente e fazer concessons que satisfizeram às pessoas. No entanto, a situaçom dos povos jamais foi aliviada e as suas queixas nom forom suficientemente abordadas. O pacote de reformas sensacionalistas a partir de 2013 foi uma tática destinada a melhorar a imagem da Turquia na comunidade internacional.

A estratégia empregada polo Estado turco foi umha abordagem defeituosa de cima para baixo com dois níveis básicamente para el. O primeiro, ou superior, era como desarmar e punir o PKK, ao mesmo tempo, enquanto o segundo, ou inferior, é o que realmente importava para o processo de paz: as pessoas. A reconciliaçom com os curdos teria sido mais bem sucedida se o Estado turco em vez empregara umha abordagem de baixo para cima: conceder maiores direitos civis, parar a perseguiçom de jornalistas curdos e pró-curdos, permitir aos curdos a reunir-se em assembléias e em protestos sem ser gaseados, atacados com canhons de água e detidos ou mortos.

Em vez disso, as reivindicaçons do presidente turco Erdogan das negociaçons de paz e de apoio e promoçom dos seus “corajosos passos para a paz” dos estados aliado tenhem corrido paralelamente às imagens sombrias de massas curdas portando ataúdes, famílias sendo atacadas fora dos hospitais e necrotérios pola polícia turca ao tentar encontrar os seus seres queridos feridos polas forças armadas turcas e um jovem assassinado sendo arrastado atrás de um veículo da segurança armada.

Consequentemente, as conversaçons de paz parecem bastante mais umha tentativa de negociaçons de paz que negociaçons de paz reais – umha tentativa fingida.

O partido político pró-curdo, cujos membros tenhem luitado duro para superar os obstáculos estabelecidos polo AKP, o partido do governo na Turquia, para luitar a batalha pola liberdade no parlamento, mas eles continuam a topar com a resistência mais feroz do AKP e o Presidente Erdogan , fundador do AKP, que estam actualmente a tentar levantar a imunidade dos deputados pró-curdos para processá-los por “insultar” a el, por “promover a inimizade” e por ser o porta-voz do PKK, todos os esforços feitos para evitar que os curdos sejam participantes legítimos no discurso político. Que sinal envia-se ao povo curdo quando vêem que as pessoas que votarom para o parlamento estam sendo empurrados para fora da esfera política e acusados de terroristas?

AKP ErdogamTurquia está luitando contra os curdos em todos os campos da sociedade. Turquia luitou contra os civis curdos que fundarom a sua própria escola em língua curda. Eles matarom umha criança que ia da casa ao trabalho. Eles negarom justiça aos 34 civis assassinados ao tentar sustentar as suas famílias através do contrabando porque a Turquia tem mantido a regiom curda empobrecida. Há inúmeros exemplos de como a Turquia está tornando a vida umha luita diária para os curdos e mantê-los aterrorizados e com medo do que vai acontecer com eles. Eles tenhem feito que alguns curdos tornaram-se oposiçom ao movimento de resistência curda porque virom o que a Turquia fai com aqueles que se oponhem as suas violaçons dos direitos humanos.

Mas que acontecerá se a Turquia consegue o silenciamento dos civis, sufocar o movimento de resistência e levar os políticos eleitos à prisom?

É indiscutível que, apesar de todas as abordagens políticas utópicas e extremistas, o PKK desempenhou um papel histórico ao apresentar o problema e a necessidade de umha soluçom de maneira mais notável e ao tornar necessária a soluçom”, Abdullah Öcalan, um dos fundadores do PKK, escreveu em 1999, no seu livro, “Declaraçom sobre a Soluçom Democrática da questom curda.”

Nom é de surpreender que o PKK nom poida desarmar-se e render-se. Será que um Estado-naçom cede o seu exército porque um “diálogo pacífico” é o melhor caminho a seguir? Nom. Entom, por que um povo que tem os direitos severamente limitados e que estam sujeitos aos ataques da Turquia o devera fazer? Por que deveriam tornar-se ainda mais vulneráveis? Há umha necessidade inerente dentro de nós em saber que estamos protegidos. E a Turquia nunca quis proteger os curdos. A Turquia é o assassino do povo curdo. Nom pode ser o seu protetor também.

Terrorismo de Estado

Há um segundo problema com o chamado processo de paz. Digamos que essa aproximaçom fora acontecendo de verdade. Por que quebrar com o PKK por matar dous soldados turcos? Por que o fim definitivo às negociaçons de paz nom aconteceu com os inúmeros casos de violaçons dos direitos humanos contra os curdos?

Porque seria prejudicial para a Turquia e os seus aliados se fora reconhecido que a Turquia nom só estava exagerando o seu uso da força contra combatentes armados e civis curdos, mas estivo perpetuando o conflito com os curdos. Nom se pode imaginar que um membro da OTAN iria admitir que um grupo armado nom-estatal foi criado como umha reaçom às suas políticas abusivas e acçons brutais contra um povo que compom mais do 18% da sua povoaçom. O tratamento do povo curdo da Turquia pode ser facilmente caracterizado como terrorismo – exceto oficialmente, nom há tal cousa de terrorismo de Estado, porque isso deslegitimaria muitos estados poderosos.

Erdogan é Gollum

Gollum ErdoganMesmo a menor crítica é considerada como separatismo, Abdullah Öcalan escreveu sobre a Turquia que tem um aguçado senso da integridade territorial; um separatista é por definiçom um terrorista.

É por isso que a Turquia detivo 27 acadêmicos no início deste ano depois de terem assinado umha petiçom de paz com mais de 1.000 outros signatários de universidades turcas exigindo o fim da “massacre deliberada e deportaçom dos curdos polo governo.” Todos os signatários estam sob investigaçom e podem enfrentar penas de prisom se fossem considerados culpaveis.

“O título de deputado, acadêmico, escritor, jornalista nom muda o feito de que eles som realmente terroristas”, Erdogan dixo o martes. “Nom é so a pessoa que puxa o gatilho, mas aqueles que figeram isso possível que também devem ser definidos como terroristas.”

Nom há diferença, acrescentou, entre “um terrorista segurando umha arma ou umha bomba e aqueles que usam a sua posiçom e caneta para servir os mesmos objectivos.”

Estudantes nacionalistas turcos marcarom as portas dos escritórios dos signatários com x vermelho para indicar que este é o lugar onde um “simpatizante do terrorismo” vivia. Polo menos 30 acadêmicos forom despedidos, 27 forom suspensos polas suas universidades pendentes investigaçom e, em alguns casos, a polícia tem buscado nas suas casas e escritórios, escreveu Human Rights Watch.

Os princípios e programas tenhem um valor, se existem para melhorar ainda mais a vida, escreveu Öcalan. O oposto exato é a realidade na Turquia no momento. O Presidente Erdogan está constantemente sufocando vozes que proferiam preocupaçom e crítica da repressom do governo sobre os curdos e as tentativas flagrantes de Erdogan para expandir a sua autoridade presidencial para ganhar mais poder. Os seus princípios e programas nom se destinam a proteger vidas civis; estimular a educaçom, o conhecemento e a liberdade. O seu objetivo é pessoal, o que o favoreça a el e aos bos turcos (como os define el mesmo). Os acadêmicos que assinaram a petiçom paz som maus turcos e as mídias leais ao Erdogan está a estigmatiza-los como tais.

Um tribunal turco permitiu os meios de comunicaçom fazer comentários depreciativos sobre os acadêmicos utilizando termos como “certificado perverso”, “professora lésbica gay” e “amantes armênios”, entre outros, afirmando que era “no âmbito da liberdade de imprensa” . É revelador a mentalidade dos simpatizantes do AKP que consideram os dous últimos termos como insultos.

Enquanto isso, o Ministério da Justiça turco aprovou a abertura de 1.845 casos contra pessoas acusadas de insultar o presidente Erdogan, um dos insultos compara-o a Gollum, a criatura do Senhor dos Anéis. A sua pessona egomaníaca é um catalisador para a deterioraçom da situaçom na Turquia e no Ocidente tem desempenhado o seu papel, encorajando a repressom sobre activistas dos direitos humanos, avogados, jornalistas e políticos, permitindo-lhe continuar sem condenaçom suficiente.

Desde golpe do governo a Zaman´s Today, a comunidade internacional tem estado visivelmente indignada com o presidente Obama falando sobre o “caminho preocupante” que a Turquia tomou, mencionado logo após detalhes da segurança de Erdogan perseguindo jornalistas e manifestantes fora da Brookings Institution, um think tank com sede em Washington.

O que é verdadeiramente preocupante é o feito de que Erdogan e a Turquia nom tenham recentemente aventurado por este caminho de restriçons de liberdade. Qual é a situaçom atual do povo curdo quando nom um indicador das tendências da Turquia? É o aspecto mais preocupante da Turquia e nom que continue a matar civis? Que nunca foi responsabilizado pola massacre de Roboski em 2011, para nom mencionar as muitas outras massacres, execuçons, deslocamentos forçados e desaparecimentos do passado?

Só porque a matança de curdos é umha ocorrência regular nom significa que seja menos importante, menos reveladora do que o governo turco é capaz de fazer. A área do poder inclui pistas escorregadias quando já estás mantendo milhons de pessoas reprimidas.

Por isso é que é tam surpreendente quando as pessoas falam de métodos inquientantes na Turquia. Nós passamos o ponto de inquietante há muitos anos.

Seguer o assédio do movimento de resistência, Erdogan, vá em frente e expulsa os seus líderes do parlamento e vai ver que a resistência vai continuar apesar de nom só você, mas pola sua causa.

 Publicado em Kurdishrights.

 

Turquia: Onde Chamar pola Paz é terrorismo

Turkey Where Calling for Peace Is Terrorism Artigopor Rosa Burç, este artigo foi publicado originalmente em telesurtv.net

Turquia atraíu a atençom internacional depois de que umha carta assinada por Noam Chomsky e mais de 1.100 acadêmicos condenaram a violenta repressom do governo.

Umha declaraçom assinada por mais de 1.100 acadêmicos, incluindo o famoso linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky, pediu ao governo turco “abandonar a sua massacre deliberada” da povaçom curda do país.

O documento, que foi viral, irritou a Ancara, Recep Erdogan, o presidente, chamou a todos os signatários “escuros, desonestos e brutais.”

O documento está chamando a atençom internacional para um aliado dos EUA e membro da OTAN que está se tornando cada vez mais autoritário e empregando a violência estatal e a repressom para criar um clima de terror no país.

“O que os meios de comunicaçom estám dizendo é muito diferente do que estamos experimentando. Consulte-nos, por favor, escuite-nos ouvir e ofereça-nos ajuda”, dixo Ayse Çelik, um professor da província de Diyarbakir, que chamou o Beyaz Show – um dos programa de televisom de entretenimento mais bem cotados na Turquia. “Nom deixem que as pessoas morram, nom deixem que as crianças morram e nom deixem que as maes chorem.”

A Turquia é, provavelmente, um dos poucos países no mundo onde este tipo de declaraçons é julgadas como terrorismo, o programa de TV foi investigados por “propaganda terrorista”, e onde o apresentador do programa tivo que pedir desculpas publicamente polas suas declaraçons e manifestar o seu total apoio às operaçons militares do estado.

O chamado de Çelik era umha tentativa desesperada de romper o silêncio no país, principalmente no Oeste de Turquia. Enquanto o Ocidente se envolve com o nacionalismo e firme apoio para as narrativas que saem de Ankara nas que as operaçons militares nas províncias curdas se justificam como umha operaçom anti-terrorista em defesa do estado, a realidade política no sudeste curdo evoca umha zona de guerra, onde os toques de recolher, a tortura e as execuçons tornarom-se comuns.

O conflito turco-curdo leva mas de três décadas, e ainda atingiu novos níveis de violência recentemente. Hoje, o Estado continua a implicar a mesma lógica que há 20 anos: cortar qualquer exigência política curda através da aplicaçom de duras políticas de segurizaçom e coerçom sob as leis anti-terroristas vagamente definidas e umha constituiçom escrita em 1982 por umha junta militar liderada polo general Kenan Evren .
Depois de rematar o processo de paz com o Partido dos Trabalhadores do Curdistam ou PKK, em agosto de 2015, o governo Erdogan lançou umha ofensiva militar em cidades curdas no sudeste da Turquia. Forom impostos dúzias de toques de recolher, a mais longa está sendo a do distrito de Sur na cidade de Diyarbakir, que agora está no seu 49 dia. Os toques de recolher mais pesados forom imposta notavelmente nas cidades curdas, onde o AKP de Erdogan, ou Partido da Justiça e o Desenvolvimento, tivo poucos votos nas últimas eleiçons.

Os curdos no entanto, emanciparom-se da abordagem do estado para a questom curda na redefiniçom do conceito de democracia e luitando por umha paz digna. Hoje nom é unicamente o PKK quem desafia o Estado turco na primeira linha, mas é umha organizaçom ad-hoc de civis – mulheres, crianças, idosos – que defendem as suas vidas atrás de trincheiras e barricadas.

Resistindo um estado que conduze a sua força por meio de armas pesadas, artilharia, veículos blindados, helicópteros e detençons caprichosas sobrevivir so é possível tornando-se invisível para o Estado. Trincheiras e barricadas, portanto, som espaços de sobrevivência e nom o resultado de umha agenda separatista curda, como falsamente proclama o Estado turco.

Em impor violentos toques de recolher em um estado de emergência de facto, o Estado turco nom só coloca as cidades curdas sob assédio, mas também tem sabotado qualquer possibilidade de negociar pacificamente umha soluçom política.

A autonomia curda dentro das fronteiras turcas unicamente está sendo discutida e, assim, criminalizada como parte das chamadas “trincheiras-políticas” por colunistas e políticos tradicionais, em vez de avaliar a demanda de autodeterminaçom como um direito fundamental. Por isso, o governo do AKP nom tem nengum problema em militarizar ainda mais o conflito. Colocando as demandas curdas sob assédio, a ofensiva contra a vida de civis, certamente demonstra umha tentativa de isolar a questom curda de outras discussons em torno as deficiências democráticas da Turquia.

Embora a estratégia de isolamento do governo parecia ser bem sucedida no que di a respeito ao silenciamento das vozes críticas na parte ocidental da Turquia, foi a iniciativa dos acadêmicos chamando pola paz imediata a fim de pôr fim ao crescente número de mortes na Regiom Sudeste do país o que desencadeou umha discussom sobre a guerra da Turquia contra os seus cidadaos, nom só na Turquia ocidental, mas até mesmo internacionalmente.

A declaraçom foi inicialmente assinada por 1.128 acadêmicos de 89 universidades turcas, bem como por mais de 300 cientistas de fora do país. Noam Chomsky, Judith Butler, Etienne Balibar, David Harvey e Tariq Ali estam entre os nomes mais populares dos muitos apoiantes.

“O direito à vida, à liberdade e a segurança, e, em particular, a proibiçom da tortura e maus-tratos protegidos pola Constituiçom e as convençons internacionais forom violados”, dizia a declaraçom. “Exigimos que o estado abandone a sua massacre deliberada e deportaçom do povo curdo e outros na regiom.”

A declaraçom também pede umha delegaçom independente de observadores internacionais para ir a regiom, bem como um fim dos toques de recolher. Certamente, em um país como a Turquia, que reforça o nacionalismo através dos conceitos de traidores e terroristas, os intelectuais derom um passo à fronte, dizendo: “Nós nom formaremos parte deste crime”.

Agora todos os signatários acadêmicos estam enfrentando represálias penais e profissionais depois de que o presidente Erdogan os chamou de ” escuros traidores ” e o Conselho de Educaçom Superior (YÖK) anunciou umha investigaçom contra os estudiosos que apóiam a iniciativa. Mais de 20 acadêmicos já foram detidos por “propaganda terrorista.”

A descida da Turquia num crescente Estado autoritário está marcada polo que qualquer dissidência pacífica, apelando pola paz com os curdos, bem como difundir o conhecimento das mortes de civis, é estigmatizado como traiçom.

Em uma resposta ao ataque do AKP à liberdade acadêmica, Judith Butler afirmou que “a denominaçom da análise crítica como traiçom é umha antiga e indefensável tática dos governos que desejam ampliar os seus poderes à custa da democracia.”

Quando a prerrogativa da interpretaçom está nas maos de um estado que está em umha perigosa deriva autoritária, nom é nengumha surpresa que chamar pola paz seja percebido como umha grande ameaça para o poder do Estado.

Rosa Burç, 25 anos, é estudante pre-doutoral e Assistente de Investigaçom no Department of Comparative Government, da Universidade de Bonn. A sua investigaçom é sobre Estados-Naçom e Teorias do (pós-)Nacionalismo.

Publicado por Kurdishquestion.