“Toda mulher livre é um país livre”: Declaraçom das YPJ polo Dia Internacional da Mulher

O Comando Geral das Unidades de Proteçom da Mulher de Rojava (YPJ) divulgou umha declaraçom polo 8 de março, Dia Internacional da Mulher. A declaraçom foi feita na presença de dúzias de combatentes e comandantes das YPJ em Serêkaniyê este luns.

A declaraçom do Comando Geral das YPJ rendeu homenagem à história da luita das mulheres e começou por comemorar as mulheres que a iniciarom.

“O 8 de março de 1857, 129 trabalhadoras textis [de New York] forom queimadas vivas por causa da sua reaçom às condiçons de trabalho desumanas. Enquanto a mentalidade que queima mulheres está persistindo em algumhas áreas do mundo de hoje, a resistência que as mulheres tenhem iniciado contra el continuam a luitar para destruir essa mentalidade “, di a declaraçom.

“Como YPJ, celebramos o 107º Dia Mundial das Mulheres Trabalhadoras com todas as mulheres do mundo e do Oriente Médio, as maes dos mártires e combatentes da liberdade.

“Quando deixamos para trás o 107º ano, as mulheres estam levando a resistência do 8 de março com muita coragem na liderança de Roza Luxemburgo, Clara Zetkin, Zarif, Besê, Leyla Qasim, Beritán, Sîlan, Zilan, Sara, Arîn Mîrkan, Özgür Efrîn , Jiyan Rojhilat e Destina Başûr.  Neste momento em que a resistência das mulheres está a crescer, como YPJ, repetimos a promessa no aniversário deste ano e expressamos respeito a todas as mártires que caírom nesta luta. A luita vai crescer ainda mais. ”

“Hoje continuamos vendo que a mentalidade masculina e os governos vem às mulheres como propriedades em todo o mundo, especialmente no Oriente Médio, onde os governos consideram as mulheres como despojos de guerra. Essa mentalidade está tentando tornar permanente o sistema patriarcal, impondo-o às mulheres;  o que significa que sempre temos que estar prontas para a luita”.

“As YPJ, com a sua mentalidade libertária, tem luitado incansavelmente na Revoluçom de Rojava por sete anos. As YPJ tomamos passos históricos e fixo progressos significativos.Ganhamos vontade política e está a dar vida à mentalidade de naçom democrática [anti-nacionalista, anti-capitalista e da libertaçom das mulheres], ao mesmo tempo em que cria as bases para umha vida livre e igualitária, as YPJ continuam a criar na revoluçom novas táticas e abordagens na esfera militar, tornando-se em umha força importante.”

“A consciência de que “Toda mulher livre é um país livre “é o princípio e a tarefa mais fundamental das YPJ. As YPJ conseguirom salvar milheiros de mulheres árabes, curdas, siríacas e jazidis da ocupaçom e do fascismo do Daeh (Estado Islâmico). também celebramos o 8 de março com o objetivo de libertar às mulheres e crianças de Raqqa da opressom do Daesh. Agasalhamos esta conquista às mártires do 8 de março e a todas as mulheres.

“É muito melhor entendida agora que a mulher mais forte é a mulher que se organiza e defende. Com a experiência adquirida durante os 7 anos da revoluçom de Rojava e da herdança histórica na que está baseada, as YPJ som capazes de espalhar esse conhecimento a todas as mulheres.”

As YPJ apelarom a todas as mulheres a que unam as suas luitas pola liberdade e digerom que determinaram os princípios desta luita em 7 pontos.

1) Abdullah Öcalan, que tem um papel nacional e histórico na luita polo desenvolvimento da liberdade das mulheres, está a ser mantido cautivo por umha conspiraçom internacional e está sob tortura desumana e isolamento desde há 18 anos [em umha prisom turca]. [Apelamos às mulheres] a levantar a voz contra esta tortura e isolamento e abordar esta questom como umha prioridade.

2) As mulheres no Oriente Médio hoje enfrentam-se a massacres nas esferas existencial, cultural e de segurança. Deve ser estabelecido um mecanismo comum de segurança e de defesa, bem como umha resistência eficaz contra este perigo. Cada mulher deve travar umha luita ideológica contra todos os tipos de soberania e domínio, especialmente contra o Daesh, e deveriam ter o direito de aumentar a defesa das mulheres.

3) As YPJ estam prontas para compartilhar as suas experiências com todas as mulheres que tenhem a coragem de resistir.

4) Mulheres e crianças som as maiores vítimas de todas as guerras e conflitos. Som afetadas nas esferas da migraçom, economia, defesa e vida social. A fim de defender os direitos das mulheres e das crianças, toda mulher deve luitar e opor-se a esta vitimizaçom.

5) As YPJ nom som só a força de defesa das mulheres curdas, mas de todas as mulheres em Rojava. Muitas luitadoras de diferentes naçons e grupos de crenças luitam nas fileiras das YPJ e muitas delas foram martirizadas. A essência das YPJ é umha força de defesa internacionalista e isso precisa ser ampliado e fortalecido.

6) Como mulheres que conseguirom muito nós enfrentamos ameaças sérias e graves. Apelamos a todas as mulheres para que reforcem a sua luita pola criaçom de umha naçom democrática eliminando estas ameaças. Cada mulher pode contribuir e alcançar um grande parte.

7) Acreditamos que podemos destruir essa mentalidade masculina dominante apenas luitando juntas e que podemos criar umha mentalidade democrática, cultura moral e vida livre como nós o derrotamos. Celebramos com todas as mulheres o 8 de março.

Traducido de kurdisquestion.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O modelo Rojava

o-modelo-de-rojavaPor Meredith Tax

Como governam os curdos da Síria

Um novo modelo de organização social está tomando forma nas áreas curdas no norte da Síria. Rojava, como ficou conhecida, compreende três cantões na seção ocidental da  histórica terra natal do povo curdo, que está agora dividida entre Irã, Iraque, Síria, e Turquia. No que diz respeito a igualdade social, pluralismo étnico, e anti-sectarismo, o território é uma região sem igual. Esse é especialmente o caso quando falamos dos avanços das mulheres.

A atenção pública do ocidente deu um giro de 2014 a 2015, quando as milícias territoriais, as Unidades de Proteção do Povo (YPG) e as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ), tiveram um papel central na expulsão do Estado Islâmico, ou ISIS, de Kobane, uma cidade no noroeste da Síria. Observadores destacaram duas características do grupo: primeiro seu sucesso contra o ISIS, que as forças de segurança dos EUA e das forças de oposição Síria se esforçaram para derrotar, e segundo, o protagonismo das lutadoras femininas em suas fileiras.

Desde a Segunda Guerra Mundial, guerrilhas femininas fizera parte de lutas armadas ao redor do mundo. Mesmo a maior parte dos grupos militantes alistaram mulheres pois precisavam de soldadas, não porque desejaram empoderar as mulheres, e poucos tem priorizado tanto a igualdade das mulheres como os curdos da Turquia e da Síria.

A ênfase do Rojava sobre o papel de liderança das mulheres, no entanto, não se limita ao plano militar. Isso é definido pelos Curdos Sírios como uma visão societal mais ampla. Quarenta por cento dos membros da sociedade civil ou de qualquer órgão social em Rojava têm que ser de mulheres. Da mesma forma, todos os órgãos administrativos, projetos econômicos e organizações da sociedade civil são obrigadas a ter homens e co-presidentes do sexo feminino. Embora o Partido da União Democrática (PYD) seja dominante em Rojava  e os curdos são a maioria da sua população, Rojava é o lar de uma série de outros partidos políticos e etnias. É a única sociedade em sua região, que baseia-se nos pontos fortes de toda a sua população. Como é que as mulheres conseguiram ganhar tanto poder no meio de uma guerra pela sobrevivência?

Uma exceção regional

A história começa na Turquia em 1978, quando o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) foi fundado para criar um Estado independente curdo. Nos primeiros anos de sua insurgência contra o governo turco, o PKK foi dirigido principalmente por guerrilheiros do sexo masculino. Mas isso mudou na década de 1990. Quando a resistência civil curda mais ampla emergiu nas cidades turcas e os ativistas curdos  começaram a pressionar para ter um partido de representação no parlamento, o Partido Trabalhista Popular (HEP). Em ambos os empreendimentos, as mulheres serviram como líderes. Leyla Zana, uma ex-integrante do HEP, continua atuando no parlamento da Turquia.

Em 1993, de acordo com a jornalista Aliza Marcus, um terço dos novos membros do PKK eram mulheres; muitas delas recrutadas por Sakine Cansiz, uma de suas fundadoras.

Em 1995, o PKK formou um exército de mulheres, que agora é chamado de YJA-Estrela. A resolução que cria o exército deixou claro que iria servir como um modelo para outras organizações de mulheres “em todos os setores da economia, todas as instituições sociais, e até mesmo no campo da cultura.” A decisão foi particularmente notável pelo fato de que, na área rural do Curdistão, a subordinação do pensamento dass mulheres, tal como as práticas misóginas como os chamados assassinatos de honra,  reclusão imposta, e os casamentos de crianças tinham sido a norma. Para muitas mulheres curdas, deixar suas famílias para se juntar a um grupo insurgente foi uma enorme ruptura com a tradição patriarcal. Mulheres guerrilheiras foram pioneiras do movimento de libertação das mulheres como uma sociedade dentro da sociedade  curda.

Alguns dos líderes de Rojava, tais como os co-presidentes do PYD: como o Salih Muslim, foram originalmente membros sírios do PKK, e muitos dos ideais que têm sido postos em prática em Rojava foram testados na Turquia. Desde a fundação do PYD em 2003, a libertação das mulheres tem sido parte do programa do partido. Tal como na configuração da Estrela-Yekitiya, seu braço de organização para as mulheres, em 2005. Em 2012, como o presidente da Síria, Bashar al-Assad retirou suas tropas da maior parte do norte da Síria e dos cantões, Rojava tornou-se efetivamente autônoma e os membros do PYD começaram a se organizar de maneira mais vigorosa, tornando a defesa das mulheres uma parte integral de sua guerra contra o ISIS. A organização logo começou a recrutar novos membros de outros grupos étnicos da região, tratando de incluir assírios, árabes e Yezidis.

O grupo que mudou seu nome para Estrela de Kongreya no início deste ano, se descreveu como uma organização guarda-chuva para o movimento das mulheres de Rojava. Em nível local, a Estrela de Kongreya compreende um número de organizações, conhecidas como a comuna das mulheres, que operam em paralelo às comunas de sexo misto, que organizam tais assuntos como a alocação de energia e o uso do espaço público. O foco das comunas de mulheres sobre a violência doméstica, casamento forçado, e saúde das mulheres e programas econômicos, entre outras coisas; em muitos casos, podem se sobrepor aos seus parceiros organizacionais de sexo misto. Estrela de Kongreya no nível mais alto organiza comitês em cinco áreas: educação, especialmente educação de adultos e aulas de literatura; saúde pública, incluindo clínicas especializadas para mulheres; economia, incluindo a manutenção de cooperativas; resolução de disputas em comunidades, que inclui mediação e manutenção de abrigos para vítimas de violência doméstica; e defesa de cidadãos, que é central para a plataforma do PYD e especialmente para Estrela-Kongreya. Há três forças de defesa de mulheres em Rojava, a YPJ, que luta contra inimigos externos tais como o ISIS; as forças de segurança locais; e as forças de defesa civil atreladas às comunas, que lidam com a segurança da vizinhança, incluindo casos de violência contra as mulheres.

Autonomia e democracia

O crescimento da influência de mulheres na Rojava é parte central da transformação mais ampla da política curda ali e na Turquia. Ao contrário dos curdos iraquianos, os curdos sírios e turcos afastaram-se do nacionalismo. Eles buscam autonomia local ao invés de um arranjo federal. A ideia de longo prazo é a de assegurar a democracia, constituições democráticas que garantam uma autonomia local extensiva e protejam os direitos humanos. (Esta mudança foi executada em paralelo com a evolução ideológica do líder do PKK preso Abdullah Ocalan, um antigo militante que agora é um defensor do que ele chama de Confederalismo Democrático.)

À luz da atual turbulência da região, a visão de Rojava para uma feminista, de uma sociedade diretamente democrática, pode parecer irrealista.

No entanto, o fracasso das negociações para acabar a guerra civil síria mostrou a capacidade limitada da diplomacia para pôr fim a conflitos inflamados por atores não-estatais e financiados por potências externas, e em décadas recentes, tem havido alguns modelos políticos nas cercanias do Curdistão que oferecem muito mais uma promessa para o igualitarismo e paz como a que os curdos chamam de autonomia democrática.

Até agora, os Estados Unidos têm tratado os curdos sírios como um aliado militar de curto prazo e dado a eles apoio militar, mas não apoio político ou econômico ostensivos; Washington não insistiu para eles tomarem parte nas conversações de Genebra para acabar com a guerra na Síria. Esta abordagem é um erro. Desde os anos 1990, os Estados Unidos tem se posicionado como um defensor das mulheres e minorias sexuais. Os curdos sírios estão praticando uma forma de democracia que consagra a igualdade de género e se opõe noções de soma zero de étnico e direitos nacionais. Dado os compromissos que assumiu, os Estados Unidos deveriam estar dispostos a apoiar esses fins.

lead-Meredith-TaxMeredith Tax é escritora e ativista política desde o final da década de 1960, foi membro do Bread and Roses, fundadora presidente da Comissom Internacional de Mulheres Escritoras do PEN, presidente fundadora de  Women’s WORLD, e co-fundadora do Centre for Secular Space. Os seus últimos livros som Double Bind: The Muslim Right, the Anglo-American Left, and Universal Human Rights e A Road Unforeseen: Women Fight the Islamic State.

Esse artigo foi primeiramente publicado no website Foreign Affair e tem sido reproduzido com a permissão da autora.

Tradução ao português: Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda – RJ

Esse artigo expressa a visão da autora e não necessariamente está de acordo com os Comitês de Solidariedade à Resistência Popular Curda.

 

“Cobertura da mídia sobre mulheres na revolução curda é superficial”, diz militante

Movimento das Mulheres no Curdistão tem se firmado como uma das mais belas iniciativas de empoderamento feminino

José Eduardo Bernardes

Brasil de Fato | São Paulo (SP), 21 de Setembro de 2016
Militantes da União de Proteção das Mulheres na frente de batalha do exército curdo / Wikicommons
Militantes da União de Proteção das Mulheres na frente de batalha do exército curdo / Wikicommons

O Curdistão é a maior nação sem um Estado do mundo. Sua população está espalhada pelo Iraque, Síria, Turquia e Irã, mas, na verdade, é como se não pertencessem a nenhum desses lugares. Enquanto lutam para serem reconhecidos de fato, os curdos resistem às tentativas de extermínio de seu povo pelo governo turco e pelo Estado Islâmico.

Na frente de batalha dessa revolução está o Movimento de Libertação das Mulheres no Curdistão, que tem se firmado como uma das mais belas iniciativas de empoderamento feminino. Tanto como parte integrante do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta pela independência curda, quanto na linha de frente armada que combate os turcos e o grupo extremista radical, as mulheres são pilares da revolução. Em 2015, elas estavam no fronte de batalha que expulsou o Estado Islâmico da cidade síria de Kobani.

Em setembro deste ano, a morte da combatente curda Asia Ramazan Antar, de 19 anos, que também era militante da União de Proteção das Mulheres (YPJ), brigada feminina do exército do PKK, foi transformada pela imprensa mundial em um espetáculo de objetificação da mulher curda, deixando de lado a importância da luta que elas travam por autodeterminação.

Para *Jinda Nurhak, integrante do Movimento das Mulheres do Curdistão, essa é uma clara tentativa de “esvaziar o contexto ideológico da real luta dessas mulheres”, afirma.

“Para nós, a beleza vem de dentro e, por isso, essas mulheres estão sempre sorrindo: porque a ideia de que a beleza vem de dentro as torna mais felizes”, completou Jinda.

A militante do PKK, que falou com exclusividade ao Brasil de Fato, destaca a abordagem negativa da mídia ocidental durante a cobertura dos acontecimentos no fronte de batalha contra o Estado Islâmico.

“A ideologia por trás da cobertura da mídia sobre a presença feminina na revolução é sempre superficial. A CNN [canal de notícias norte-americano] inclusive fez uma reportagem questionando porque elas não se maquiam”, diz.

Jinda também comentou sobre a questão feminina no Curdistão e como ela mesma ingressou na revolução curda. Confira alguns trechos da entrevista:

Brasil de Fato: Como nasceu a Unidade de Proteção das Mulheres?

Jinda Nurhak: O que aconteceu em Rojava, no Curdistão da Síria, mostrou que os curdos devem ter seu próprio sistema de defesa. A Unidade de Proteção das Mulheres veio de um contexto de mulheres que já lutavam no PKK. É uma rica história de mulheres tomando poder na Revolução Curda, nos últimos quatro anos.

Como as mulheres têm lutado para garantir seus direitos no Curdistão? 

A sociedade curda, na verdade, é diferente das outras na região, e as mulheres sempre ocuparam um lugar significativo. Enquanto as outras sociedades foram atingidas pelas leis islâmicas, na sociedade curda, muitas tribos são conhecidas por terem uma mulher como liderança. Mas, assim como os curdos são oprimidos por países estrangeiros, as mulheres também o são.

Assim que o movimento de revolução começou, desde o primeiro dia, as mulheres tomaram lugar nesse processo. Mas, antes disso, não havia conhecimento o bastante dos direitos das mulheres. Então, não existiam movimentos autônomos feministas e forças militares. Isso tudo veio somente depois.

Desde o início do PKK, o líder do partido, Abdullah Ocalan, dizia que o papel das mulheres nessa revolução não é apenas por questões nacionais, somente pela independência curda, mas sim para debater seus problemas como mulheres. Então, a partir daí, o nosso papel ficou cada vez mais relevante na revolução curda.

O caso da morte da jovem combatente Asia Ramazan Antar mostrou como a mídia tem reagido às mulheres que estão na linha de frente de batalha na Síria e no Iraque. Como o movimento vê essa abordagem e os questionamentos sobre a União de Proteção das Mulheres?

Desde o início, a mídia ocidental, especialmente, tem abordado a União de Proteção das Mulheres de uma maneira muito popularesco, de um jeito consumista. A ideologia por trás da cobertura da mídia sobre a presença feminina na revolução é sempre superficial. A CNN, inclusive, fez uma reportagem questionando porque elas não se maquiam e fazendo outras perguntas desse gênero.

Até mesmo a cultura ocidental consumista tentou alcançar as mulheres curdas, quando uma marca de roupas chamada H&M lançou uma linha de roupas utilizadas pelas curdas. As vendas só foram interrompidas pela quantidade de protestos que geraram.

O que eles querem fazer é esvaziar o contexto ideológico da luta dessas mulheres. Para nós, a beleza vem de dentro, e por isso essas mulheres estão sempre sorrindo: porque a ideia de que a beleza vem de dentro as torna mais felizes. Então, nós criticamos a maneira que o Ocidente aborda as nossas mulheres revolucionárias.

Como você ingressou na revolução curda, mais precisamente na União de Proteção das Mulheres?

Eu venho de uma família patriótica. Quando era mais jovem, eu não tinha ideia do que representava ser uma mulher e da luta das mulheres. Era movida por um sentimento nacionalista. Mas um livro que eu li que explicava como as mulheres curdas eram torturadas quando eram capturadas pelo governo turco me afetou bastante.

Depois de entrar no movimento e ver os treinamentos políticos da organização, para mim, os aspectos nacionais da luta passaram a segundo plano e deram lugar à luta ideológica das mulheres.

*A pedido da fonte, seu nome foi alterado.

Edição: Camila Rodrigues da Silva

Publicado em Brasil de Fato.

Por que Jinealogia? Re-Construindo as Ciências para umha vida em comum e Livre

JinealogiaPor Gönül Kaya

O Movimento de Mulheres Livre do Curdistam avalia a jinealogia como um passo importante na sua luita intelectual, político-ideológica de auto-defesa e mobilizaçom em curso de cerca de 30 anos. Eu gostaria de apresentar – ainda que brevemente – os principais princípios da jinealogia, que o movimento das mulheres curdas oferece aos movimentos de mulheres de todo o mundo.

A Jinealogia é descrita como a “criaçom do paradigma das mulheres” na luita pola liberdade das mulheres curdas. Isso representa umha nova fase desde a perspectiva do movimento das mulheres curdas. O movimento de mulheres curdas surgiu e desenvolveu-se dentro da luita de libertaçom nacional curdo. Desde 1987, começou com trabalhos de organizaçom específica e autônoma das mulheres. Depois deste desenvolvimento, muitas mudanças e transformaçons importantes ocorrerom no Curdistam, que também determinarom a luita social. Por um lado, o movimento de mulheres curdas avançou na sua organizaçom específica e autónoma internamente, mas, por outro lado, transmitiu e, portanto, compartilhou as suas conclusons com todas as áreas da luita social. As revoltas do povo contra a colonizaçom do Curdistam (em curdo: “Serhildan”), que começarom depois de 1989, forom dirigidas por mulheres. Do ponto de vista da sociedade curda, este foi o início de umha fase de resistência nacional, com um caráter novo focado nas mulheres. Nesse sentido, o movimento das mulheres avançou o seu trabalho teórico e prático em campos como do intelecto, política, sociedade, cultura e auto-defesa. As seguintes etapas-chave forom: 1993 – formaçom de um exército de mulheres, 1996 – teoria e prática para a emancipaçom do sistema patriarcal, depois de 1998 – ideologia da libertaçom das mulheres, 1999 – formaçom do partido, a partir do 2000 – construçom de um sistema social democrático no interior do quadro de um paradigma da sociedade democrática, ecológica e igualitário de gênero. A criaçom de conselhos, academias, e cooperativas de mulheres forom alcançados neste contexto. Sob o lema “A libertaçom das mulheres é a libertaçom da sociedade”, o movimento das mulheres focou o trabalho ideológico, filosófico e intelectual. Dentro do quadro da unidade entre teoria e prática, trabalharom no sentido de umha transformaçom do pensamento das mulheres e da sociedade, bem como para umha maior consciência. Forom à procura de respostas a perguntas como “Quem é a mulher? De onde é que vem? Onde é que foi? Como viveu até hoje? Como as mulheres devem viver? Em que tipo de sociedade?” e desenvolveu umha crítica do campo científico vigente.

Como todos sabem, na história, os governantes e detentores do poder estabelecerom os seus sistemas primeiro no pensamento. Como umha extensom do sistema patriarcal, um campo das ciências sociais foi criado, que é masculino, de classe, e sexista. Este campo é, a vez dividido em partes diferentes que som despedaçados longe um do outro. A implementaçom das interpretaçons dessas ciências levou a consequências devastadoras para a natureza, a sociedade e os seres humanos: A normalizaçom do militarismo e da violência, o aprofundamento do sexismo e do nacionalismo, o desenvolvimento desenfreado da tecnologia, especialmente a tecnologia do armamento para o control da sociedade e dos indivíduos, a destruiçom da natureza, a energia nuclear, a cancerígena urbanizaçom, problemas demográficos, industrialismo anti-ecológico, nós que se encontram questons sociais, como a individualizaçom extrema, o aumento das políticas e práticas sexistas contra as mulheres, os direitos e liberdades que só existem no papel.

Neste ponto, propomos a Jinealogia. Observe-se que é necessária para superar o sistema dominante no campo da ciência e para a construçom de um sistema alternativo de ciência. Além disso, entendemos que os campos existentes das ciências sociais devem ser libertados do sexismo.

O termo jinealogia foi usado por primeira vez polo representante do povo curdo Abdullah Öcalan nos seus escritos a partir do 2003, na sua obra “A Sociologia da Liberdade”. Öcalan expressa que as mulheres e todos os indivíduos, sociedades e povos que nom som portadores do poder e o estado precisam desenvolver as suas próprias e livres ciências sociais, que estas ciências poderiam chamar-se Sociologia da Liberdade, que estes, a vez poderia estar baseada na Jinealogia, porque os movimentos que visam umha sociedade livre comunal, igualitária e democrática têm umha forte necessidade da Jineologia.

O termo Jinealogia significa “ciência das mulheres”. “Jin” é curdo e significa “mulher”. Logia derivada do termo grego “logos”, conhecimento. “Jin”, a sua vez vem do termo curdo “Jiyan”, que significa “vida”. No grupo de línguas indo-europeu e no Médio Oriente as palavras Jin, Zin ou Zen, todos significam “mulher”, e muitas vezes som sinônimo de vida e vitalidade.

Na história da humanidade, a mulher foi avaliada como a primeira existência que adquiriu conhecimento sobre o seu próprio eu. A vida e a sociabilidade forom a malha com base em princípios morais e políticos com a mulher no centro. A sociedade natural com os seus valores morais e políticos foi construído pola mulher. Há um vínculo inquebrável entre as mulheres e a vida. A mulher representa umha parte importante da natureza social no seu corpo e no seu significado. Esta é a razom para a associaçom da mulher com a vida. A mulher representa a vida, a vida simboliza à mulher. Por esta razom, a Jinealogia como a ciência das mulheres também é referida como a ciência da vida.

Após um exame das etapas do sistema patriarcal, começando com a civilizaçom suméria, é evidente que os governantes, até hoje, tenhem estabelecido as suas posiçons de poder inicialmente no pensamento. Por exemplo, a distinçom entre sujeito e objeto para as estruturas sociais foi estabelecido por primeira vez polas ciências modernas nas mentes. Esta ficçom imposta à sociedade que o homem é sujeito, a mulher é objeto, Sr. Sujeito, Sra Objecto, dono sujeito, objeto escravo, estado sujeito, sociedade objeto. Esta lógica do poder feai que as mulheres e a sociedade acreditem nessa distinçom de opressores e oprimidos. Usava a mitologia, filosofia e a ciência para esta finalidade. O paradigma do sexismo foi construído neste sentido.

As estruturas do conhecimento exigem debates livres. Mas se olharmos para a relaçom entre conhecimento e poder, isso é difícil de detectar. Neste contexto, o questionamento das estruturas patriarcais, centrada no poder é necessário. Da mesma forma, começando com umha epistemologia em favor dos seres humanos, mulheres, natureza e sociedade, há umha necessidade de umha nova investigaçom, interpretaçom, renovaçom, e consciência. Os princípios, hipóteses e resultados das ciências sociais existentes devem ser re-discutidas e analisadas criticamente. As informaçons correctas e incorrectas devem ser separadas umhas das outras. É de grande importância chegar a umha interpretaçom verdadeira da sociedade histórica.

Hoje, a mulher também representa umha entidade em que umha série de políticas estam a ser feitas. Estas políticas nom estam projetadas para libertar a mulher ou para fortalecer a sua vontade. Devido a estas políticas, a mulher é suprimida, morta e de umha maneira dura ou mole que obscurece o seu passado e presente. Hoje, o conhecimento e a ciência estam nas primeiras fileiras das esferas fundamentais do poder. Com a reproduçom constante de ideologias e políticas nas áreas da política, sociedade, economia, religiom, tecnologia, filosofia, etc., hostis às mulheres e da sociedade, as ciências desempenham um papel importante. A ligaçom entre conhecimento e poder, juntamente com a exclusom da ética, tem empurrado indefinidamente, especialmente na idade de hoje. A natureza sexista da ciência aprofundou e explicou problemas insolúveis, principalmente nesta época.

As ciências sociais em um sentido geral encobrem o fato de que as mulheres som umha realidade social. O entendimento predominante da ciência nom revela tudo aquilo que pertence às mulheres, começando com a sua história. Ao descrever as mulheres e o seu papel na sociedade, o entendimento dominante da ciência determina estatutos sobre as diferenças biológicas entre homens e mulheres. Por exemplo, com base a sua capacidade de dar à luz, afirma-se que as mulheres agem puramente “com base a emocionalidade”. Ou por causa dos atributos físicos dos homens, alega-se que a violência é parte da sua natureza. Estas declaraçons devem ser comprovadas por conceitos científicos e experimentos. Desta forma, as mulheres som feitas para desempenhar o papel passivo, enquanto aos homens lhe som atribuídos um papel activo. A subjugaçom e a violência som retratados como pertencentes à natureza da humanidade e som apresentados como fatos insuperáveis. A ciência é explorada para esta finalidade e os pilares do sistema som, assim, reforçados.

Até hoje, pesquisadoras feministas figerom um trabalho importante salientando as ligaçons entre o conhecimento e o sexismo da sociedade deesde diferentes perspectivas. Com o seu trabalho, tenhem mostrado que a ciência moderna, desde o século 17 em diante, tem umha linguagem e estrutura masculina. Mostrarom que o problema na relaçom entre sujeito e objeto, como base do conhecimento científico, foi fundado com base a metáforas sexistas desde o início. Por exemplo, eles nos mostrarom o quanto da ciência moderna no pensamento de Francis Bacon, que é considerado um dos pioneiros da ciência moderna, mostra umha atitude e linguagem sexista. Bacon considerou a relaçom de conhecimento entre natureza e espírito humano realmente como umha relaçom de dominaçom. Ele gostava de usar a família patriarcal e o casamento como metáforas e estivo envolvido na caça às bruxas. Desde o ponto de vista de Bacon, que é responsável da cita “conhecimento é poder”, a razom é do sexo masculino, enquanto a natureza é do sexo feminino. De acordo com Bacon, a relaçom entre a razom abstrata e a natureza, que foi descartada como matéria sem alma, só poderia estar no control, conquista, seduçom. E por isso que a sua utopia de Nova Atlantis consiste em umha ilha de homens, que tornam o conhecimento e a ciência a base do seu poder.

No conceito moderno do conhecimento do ego, é construído como um sujeito de control pola separaçom do “outro”, isto é, da natureza e do feminino, enquanto estes “outros” som objetivados. Por esta razom, o “outro” é controlado e colocado sob a tirania. Por exemplo, Descartes exclui, elementos empáticos intuitivos de ciência e filosofia. Isso expressa um entendimento masculinizado da ciência. O Positivismo, também, ilustra a partir do entendimento do conhecimento. As Realidades estam desconectados umhas das outras, os problemas som privados de qualquer definiçom, as razons dos problemas som procurados dentro das atuais fronteiras, as raízes históricas estam desconsideradas. De acordo com este ponto de vista, a história está morta. Ela foi vivida e chegou ao fim. Além disso, o positivismo, que aplica leis universais para a sociedade, apresenta os feitos como única verdade imutável.

Esta ciência sexista e preconceituosa explica a história, política, sociedade, economia, cultura, arte, estética e outros temas de ciências sociais de acordo com a sua compreensom do poder. A atitude das ciências existentes em relaçom às mulheres, a natureza, e todos os oprimidos é tendenciosa.

Mulheres cientistas, movimentos feministas e acadêmicas figerom contribuiçons importantes com as suas pesquisas e análises críticas, o que fortalece o nosso trabalho sobre Jinealogia. Importante trabalhos tenhem exposto a análise masculina da história. Além disso, existem universidades das mulheres, departamentos de estudos da mulher, centros de investigaçom das mulheres em todo o mundo. É um dos principais objectivos da Jinealogia construir umha ponte entre essas importantes conquistas. Do ponto de vista das mulheres, é importante trabalhar em conjunto para construir um campo alternativo de ciências sociais, para estabelecer o sistema de estudos das mulheres, para superar a actual dispersom, para fortalecer o fluxo científico e as intersecçons.

O Movimento de Mulheres Livres do Curdistam considera o século 21 como o século das mulheres e dos povos. A questom da igualdade de gênero e a igualdade para todos os oprimidos nunca pressionou tanto antes. A organizaçom correspondente e o desenvolvimento de sistemas e estruturas alternativas é inevitável. Umha análise do sistema extensivo e a superaçom do sexismo som na nossa opiniom metas importantes. Neste contexto, o movimento das mulheres Livres do Curdistam sugere a Jinealogia tanto como soluçom dos maiores paradoxo do nosso tempo, bem como, um método para o desenvolvimento do mundo espíritual de mulheres.

A Jinealogia apresenta umha proposta de intervençom radical na mentalidade patriarcal e o paradigma patriarcal. Neste sentido, a Jeneologia é um processo epistemológico. O objetivo é o acesso direto às mulheres e a sociedade no domínio do conhecimento e da ciência, que está actualmente controlada polos governantes. O objetivo é preparar o caminho para as raízes e identidade das mulheres e da sociedade, que forom separados da sua verdade. As mulheres devem criar as suas próprias disciplinas, chegar as suas próprias interpretaçons e significados, e compartilhá-los com toda a sociedade.

O movimento de mulheres curdas começou a construçom do campo de Jinealogia em 2011. Construindo um sistema educacional para as mulheres e a sociedade, bem como academias de mulheres. As discussons som realizadas sobre temas como as mulheres e as ciências sociais, mulheres e economia, as mulheres e história, mulheres e política, mulheres e demografia, ética feminina e estética.

É necessário expressar cientificamente a existência de mulheres com todas as suas dimensons, bem como para criticar e interpretar quaisquer estruturas de conhecimento relacionados com a história, a sociedade, a natureza e o universo de forma abrangente e sistemático. Porque a mulher é umha existência social, histórica e integral, que tem a sua origem na natureza, a definiçom de existência feminina exige umha mudança radical e profunda do conhecimento e o espírito. A partir da história da colonizaçom do espírito feminino através da colonizaçom económica, social, política, emocional e física, é necessária situar a mulher. É necessário aprofundar e mesclar os dados e interpretaçons científicas que forom alcançados no domínio das estruturas de conhecimento, psicologia, fisiologia, antropologia, ética, estética, economia, história, política, demografia, etc., e levá-los a um sistema científico. A soluçom do problema da liberdade das mulheres será possível com organizaçons e estruturas com base em um extenso campo tal, integrante do conhecimento e as ciências.

Em toda a história da humanidade, as mulheres e os oprimidos resistirom como atores para a liberdade e a democracia. No entanto, nom foi possível ultrapassar o sistema existente dominante. O principal problema é que as forças da liberdade e da democracia nom conseguirom criar um sistema para os seus valores de liberdade, igualdade e justiça, historicizar e tirá-los da parábola do poder. A necessidade de sistematizaçom e historicizar, sobretudo, a construçom de um paradigma mental alternativo.

Por esta razom, é de grande importância para nós, como movimento de libertaçom das mulheres, criar umha mentalidade, ou seja, um campo das ciências sociais que coloca as mulheres e a sociedade no centro. Precisamos ser capazes de criar o espírito do nosso sistema alternativo. E se isso nom acontecer? Em nome da alternativa, os mesmos padrons mentais, métodos e instrumentos do sistema dominante, o próprio sistema poderia ser repetido e reproduzido novamente, desta vez em nome das mulheres e oprimidos.

Esta é outra razom para a Jinealogia. O seu objetivo é decifrar o paradigma do poder, por um lado, mas por outro lado, fazer avançar a soluçom. Nom é suficiente criticar somente o sistema existente, decifrar as insuficiências deste campo ou dizer que umha alternativa deve ser parecida. É importante libertar-se da doença do liberalismo que di “praticar a crítica. Digam-me, como deve ser. Digam-me, qual é a soluçom, mas nom implementar a soluçom, basta fingir que o fas”. Para umha boa, justa e bela vida, o conhecimento nom é suficiente. É necessário superar o sistema existente e construir o novo além dos limites do antigo.

Como os movimentos de mulheres e os movimentos sociais que luitam contra o sistema capitalista e patriarcal, temos que passar por umha nova fase de mudança e transformaçom. O questionamento da influência do sistema existente no nosso pensamento e nas nossas açons deve ser aprofundado. Sem dúvida, a experiência, a mudança, transformaçom e processos de renovaçom dos movimentos feministas abriram o caminho para esse questionamento. Nesse sentido, a Jinealogia é um resultado e continuaçom das experiências e esforços dos movimentos feministas. Surge como umha realidade, que também inclui o feminismo. Enquanto define o objectivo de ir um passo mais longe, é o seu princípio caminhar na trilha das experiências do movimento de mulheres.

Há umha necessidade de conceitualizar a mulher como umha realidade social, para definir a sua existência de acordo com a sua própria realidade, explicar o que nom pertence a ela, determinar o “como” da sua libertaçom e expressar as especificidades da condiçom de mulher para este propósito.

Além disso, é importante nom separar a ciência e o conhecimento do domínio social, para nom elitize, nom para torná-los a base do poder e manter as conexons da sociedade sempre forte. Nas sociedades naturais antes da civilizaçom patriarcal, conhecimento e ciência eram parte da sociedade ética e política. Enquanto as necessidades vitais da sociedade nom exigem isso, nom foi possível explorar o conhecimento para outros fins. Juntamente com a civilizaçom patriarcal, as mulheres e a sociedade forom roubados fora do conhecimento e da ciência. Detentores do poder e as forças governamentais se tornou mais forte com a ajuda do conhecimento e da ciência. Isto levou à separaçom radical do conhecimento da sociedade, especialmente da mulher. Jinealogia tem por finalidade restabelecer esta ligaçom.

Pesquisando a história da colonizaçom das mulheres exigirá a re-escrita da história da humanidade e terá um caráter esclarecedor desta forma. Juntamente com a avaliaçom ampla e profunda do abismo escravizador das mulheres, a soluçom das cifras da sua escravitude martelada também será possível.

Jinealogia irá torná-lo possível para que possamos restabelecer os laços entre conhecimento e liberdade que forom rasgados e afastados uns dos outros. Pois, existe umha relaçom importante entre o conhecimento e a liberdade. O conhecimento requer a liberdade, a liberdade, a sua vez requer conhecimento e sabedoria. A participaçom da mulher na vida social será julgado polo seu grau de liberdade. O desejo da mulher para o conhecimento e a liberdade é também umha aspiraçom pola verdade.

A verdade é a primeira e verdadeira forma de natureza social. Tudo o que foi substancial antes do sistema patriarcal ter sido distorcido por ela. Os estágios de desenvolvimento normal no sistema da sociedade natural representam o que chamamos de verdade. Por este motivo, Jinealogia também descreve o desejo por estas verdades distorcidas. Este esforço está combinado com a nossa busca polo conhecimento, sabedoria e a liberdade.

Importantes tarefas esperam-nos no século 21: o quadro filosófico-teórico e científico da libertaçom das mulheres, o desenvolvimento histórico da libertaçom e resistência das mulheres, diálogos complementares mútuos dentro dos movimentos feministas, ecológicos e democráticos, a descriçom renovada de todas as instituiçons sociais (por exemplo, família) de acordo com os princípios da libertaçom, as estruturas básicas da uniom livre, a construçom de um entendimento alternativo da ciência social com base na libertaçom das mulheres. O campo de umha nova ciência social para todos aqueles círculos que nom fazem parte do poder e do Estado devem ser construídas. Esta é a tarefa de todos os anti-colonialistas, anti-capitalistas, movimentos anti-poder, indivíduais, mulheres. Referimo-nos a estas ciências sociais alternativas como a sociologia da liberdade. Jenealogia pode construir e desenvolver a base dessas ciências sociais. É umha vanguarda a este respeito. Vai tanto construir a sociologia da liberdade e fazer parte dessa própria sociologia.

O movimento de mulheres curda, que tem trabalhado em Jinealogia desde 2011 e que colocou este tema em discussom atribui grande valor aos resultados obtidos até o momento sobre o tema em todo o mundo. Está muito interessado em discutir, compartilhar os resultados, cooperando e aprendendo com todas aquelas que luitam pola liberdade das mulheres.

Como mulheres curdas, dizemos: “O século 21 será o século da revoluçom das mulheres e dos povos”. Acreditamos que a tecnologia vai desempenhar um dos papéis históricos para o estabelecimento de umha mentalidade da libertaçom, estruturas éticas e políticas e umha sociedade livre que coloque a libertaçom das mulheres no centro. Acreditamos que ao desenvolver a Jinealogia e a sociologia da liberdade como umha nova ciência social, transformando-as na base base das nossas luitas sociais, será possível desfiar nós e pontos cegos da história que ainda aguardam a descoberta desde há 5000 anos.

Gönül Kaya é jornalista e representante do movimento de mulheres curdas. Este artigo é a transcriçom do seu discurso sobre Jinealogia na Conferência de março do 2014 em Colônia, Alemanha.

Publicado em Kurdish Question.

 

Dor de umha YPJ em Kobanê

YPJ Kobane 05Por Sedat Sur

Quando eu cheguei à sede das YPJ (Unidades de Defesa da Mulher) para umha conversa com luitadoras das YPJ que tomarom parte nas operaçons contra as gangues do ISIS que massacrarom a civis o 25 de junho, e que deixarom 233 pessoas martirizadas, a maioria mulheres e crianças, e 273 feridos, na porta, elas dim-me que preciso esperar, para ver se era adequado umha entrevista naquel momento. Nesse meio tempo, umha combatente responsável pola segurança na porta pede-me para sentar.

Quando eu pergunto o seu nome, ela responde que ‘Laleşin’. Em silêncio e com um olhar distante, ela carrega umha profunda tristeza no rosto. Contendo-me, pergunto-lhe porque ela está perdida em pensamentos e olha em cima. Ela começa a dizer, como se continuaramos umha conversa estabelecida anteriormente. “Nós somos combatentes, *Heval. Estamos defendendo a nossa terra e a revoluçom, nós poderiamos cair **mártires.”

Enquanto ela fala, eu tento entender porque está dizendo essas cousas. Ela acrescenta; “No entanto, a morte de civis é muito dura. Deveríamos tê-los protegido.” Agora eu entendo que Laleşin fala muito sinceramente, como se ela tomasse o seu coraçom na sua mao quando ela exprime os seus sentimentos. A dor das mortes que ela sente nom só no seu coraçom, mas também no seu corpo e até mesmo em gestos. Nom é difícil de compreender.

Por primeira vez, sinto a impressom da massacre quanto escuito a Laleşin.

“Espertei com um Rojbaş [bom dia], para ouvir imediatamente tiros, e ao saber que as gangues tinham entrado Kobanê”, di ela. Laleşin participou do primeiro grupo de combatentes das YPG / YPJ que fixo a primeira intervençom contra as gangues assassinas. Os seus comandantes designarom-na para a remoçom dos corpos dos civis e proteçom de outros civis.

“O que aconteceu em Halabja*** foi umha grande massacre que custou a vida de milhares de mulheres e crianças”, di, e di que nom é só que as pessoas morreram em Kobanê, mas também umha dor de testemunhar a morte dos seus amigos e parentes mais próximos.

“Nom é isso muito pesado, Heval?”, pergunta ela, para a qual eu nom podoo dar umha resposta. Em quanto Laleşin fala, eu lembro do escritor francês Jean Genet e do seu livro “Quatro Horas em Shatila” [“Quatre heures à Chatila”] em que fala sobre as massacres que ocorreram nos acampamentos palestinos de Sabra e Shatila em Beirute, no Líbano, em 1982, e di que “todo mundo morre sozinho”.

No entanto, como eu escuto a Laleşin, eu entendo que “Ninguém morre sozinho em Kobanê”, e que “Eles simplesmente nom morrem”. Quem poderia afirmar que umha mae que perdeu a vida com a dor do seu bebê amamentado morreu sozinha, e acabou de morrer?

Os detalhes traumáticos da massacre saem quanto Laleşin continua dizendo, que umha criança de 3 anos, escondeu-se sob a varanda da cozinha durante o ataque, e que os selvagens do ISIS pulverizarom-o a tiros logo após encontrá-lo. Ela fala sobre o assassinato de sua mae e outro irmao cujos corpos foram crivados de buracos. Os seus olhos enchem-se de lágrimas enquanto ela continua dizendo, e pergunta; “Por que as gangues nom nos atacarom? Eles deviam ter entrado em confrontos com nós. Que é o que eles querem da nossa gente e crianças? Ela reage igualmente com o estado turco e di- -É umha parte de esta massacre.

Laleşin é de Kobanê. Ela di que cresceu nas ruas onde ocorreu a massacre, jogando junto com muitos que foram mortos na massacre. “Eu entrei nas YPJ a fim de que nom houvesse massacres a ser perpetradas nestas ruas, mas eu nom conseguiu impedi-la. Isso é muito pesado e difícil de superar.”

Laleşin, que perdeu muitos amigos dela em setembro, quando o grande ataque das gangues do ISIS em Kobanê foi realizado, conta o seguinte: “Estamos prontas de qualquer maneira para ter certeza que o nosso povo nom morra, e que as nossas terras e as pessoas se tornem livres. Eu posso enterder a morte quando um luitador é martirizado. Eu mesmo sofrim feridas também, e eu podo cair mártir. Isso nom é um problema para nós. Mas, as pessoas devem viver e levar umha vida livre, elas nom devem morrer. Esta é a nossa pretensom para a existência, Heval ”

Laleşin pergunta que vai dizer a respeito da massacre o líder do povo curdo, Abdullah Öcalan. “Eu sei que el vai sentir umha profunda tristeza quando oia sobre ela. É el quem nos ensinou a estar profundamente ligadas às pessoas, para protegê-las, e a luitar pola sua liberdade”, di ela.

Laleşin finalmente acrescenta que: “Nunca permitiremos outra massacre de agora em diante. Tomaremos todas as precauçons, nom importa o que poida custar. Este povo nom sofrerá umha nova massacre, mesmo que só fique um único lutador das YPG / YPJ. Ninguém nunca vai ser capaz de colocar as maos sobre este povo. ”
*Heval: Amigo em curdo.
** A todas as pessoas que caem na luita se lhes chama mártir e rendem-se-lhe honras.
*** O ataque com gás venenoso em Halabja ocorreu o 16 de março de 1988, durante o encerramento da Guerra Iram-Iraque, quando foram utilizadas armas químicas polas forças do governo iraquiano na cidade curda de Halabja, no Curdistam iraquiano. O ataque matou entre 3.200 e 5.000 pessoas e feriu cerca de 7.000 e mais 10.000, a maioria civis;milhares morreram de complicaçons e doenças congênitas nos anos depois do ataque.

Publicado em KurdisQuestion.

 

Agora é a hora para Girê Sipi, Comandante Biharin das YPJ

Biharîn KendalA Comandante das YPJ (Unidades de Defesa da Mulher) no Frente Leste de Kobanê, Biharin Kendal falou para ANF News sobre a batalha de Kobanê e a situaçom recente na operaçom para libertar Girê Sipi.

Qual é a situaçom recente em Kobanê, especialmente na Frente Leste?

A nossa operaçom vem acontecendo por um longo tempo e progredindo com base na libertaçom de Kobanê até agora. Nas frentes oeste e sul, atingimos as fronteiras anteriores que detinha antes do início da grande onda de ataques do 15 de setembro.

Nós agora também alcançamos os limites na frente leste. Estamos avançando de umha forma controlada, porque as aldeias de Cirne, Xane, Heri, Kendale e Serzori estam cheias de minas colocadas polo ISIS. As gangues do ISIS nom estam presentes nestas aldeias, mas nom entramos nelas ainda ja que a entrada descontrolada poderia acabar em muitas vítimas. A parte da operaçom de Kobanê foi concluída e começou a fase de libertar Girê Sipi.

Qual é a importância da libertaçom de Girê Sîpi?

Estamos fazendo preparativos para a operaçom de Girê Sîpi com o objetivo de unir os cantons de Kobanê e Cizîrê após libertar as principais regions cara Girê Sîpi além das fronteiras de Kobanê, para limpar essas áreas do ISIS e, finalmente, para libertar Girê Sîpi. Nom estamos a tratar esta operaçom a partir de umha perspectiva militar so. Temos também como objectivo libertar os povos escravizados polas gangues do ISIS. Queremos libertar as áreas, em qualquer lugar na Síria, onde o ISIS levou as pessoas sob o seu control e submetêu-nas a perseguiçom e permitir aos povos governar-se livremente.

Por outro lado, Girê Sîpi constitui uma linha de separaçom entre os cantons de Rojava. A libertaçom de Girê Sîpi, que é um importante reduto do ISIS e a conexom entre os cantons de Kobanê e Cizîrê, e a uniom dos cantons vai impedir que as gangues do ISIS lançar os seus ataques em ambos cantons a partir desta regiom. Além disso, a ocupaçom em curso do ISIS em Girê Sîpi traerá a fim do longo embargo grave e cerco do Canton de Kobanê. Tendo em consideraçom todos estes pontos, a libertaçom de Girê Sîpi é de importância crucial para os povos árabes que vivem nessa regiom e os povos que vivem nos cantoms de Kobanê e Cizîrê.

Para nós, nom há diferença alguma que os povos que estam vivendo nessas regions. Nós só pretendemos libertar esta área, para libertar os povos da perseguiçom do ISIS, e para unir os nossos cantons, removendo essa linha que separa os cantons o um do outro.

Qual é a situaçom recente das operaçons em curso?

Continuamos as nossas operaçons no leste Kobanê em coordenaçom com a Canton Cizîrê. Desde hoje, as nossas forças em Kobanê figerom um avanço até 10-12 km de Girê Sîpi. A nossa operaçom em direçom a Girê Sîpi continuará também nas outras linhas da Frente Leste. A operaçom de Girê Sîpi nom está avançando em umha única linha, estamos a fazer progressos a partir de muitas linhas.

Como parte da nossa operaçom que partiu de Cizîrê, Monte Kizwan e a vila de Siluk (chamamos-lhe vila apesar de ser tam grande quanto um distrito polo menos) forom libertados. De acordo com os relatórios mais recentes as nossas forças tomarom a estrada entre Raqqa e Girê Sîpi sob o seu control. Esta estrada que as gangues do ISIS estavam usando para trazer reforços foi cortado agora.

As gangues do ISIS nom tenhem qualquer outra estrada sob o seu control para levar reforços?

Nom é possível para as quadrilhas do ISIS ter quaisquer reforço ao longo desta linha. Além de várias aldeias, onde eles nom podem levar reforços intensos, o portom da Turquia é o único ponto onde o ISIS pode obter reforços.

Qualquer tipo de apoio e ajuda logística que tenham as gangues do ISIS a partir de agora (em Gire Sipi) será a partir de cruzar a fronteira turca devido ao feito de que as gangues nom tenhem outra maneira de faze-lo. Como temos testemunhado pessoalmente e também através da imprensa desde o início, o Estado turco está fornecendo ao ISIS com todos os tipos de apoio. Se o Estado turco passa a ajudar ao ISIS polo passagem fronteiriço de Akçakale, mais umha vez, imos dar conta disso. O apoio do Estado turco para todos os grupos quando eles atacarom Kobanê, nom tem sido esquecido ainda. E se eles fornecem um apoio semelhante novamente, nós nunca imos aceitá-lo.

Como está a moral dos combatentes da YPG / YPJ?

Tenho testemunhado esta guerra por um longo tempo, mas eu nunca vim o presente entusiasmo e moral entre os luitadores antes. A emoçom e entusiasmo obtidos com a libertaçom de Kobanê tornou-se eterno com o início da operaçom de Girê Sîpi. Cada luitador está muito ansioso para se juntar à batalha na vanguarda para libertar Girê Sîpi. Eu acho que as palavras vam deixar de expressar a motivaçom dos luitadores. Dezenas de camaradas que luitaram juntos sonhavam em tomar parte na operaçom de Girê Sîpi. Muitos deles foram martirizados ou feridos, e nom podem participar nesta operaçom. Podo dizer que esta ânsia é sentida por todos os companheiros que participam da operaçom agora. Temos o prazer de fazer o seu desejo real, mas também profundamente magoados pola sua ausência. Toda a nossa planificaçom, determinaçom e abordagem baseia-se no desejo de ser dignos dos companheiros e mártires que deixamos para trás.

Os Meios de comunicaçom da Turquia, os mas próximos o AKP em particular, estám espalhando informaçons de que os turcomanos e árabes da regiom forom deslocados polas YPG/YPJ. Que tes a dizer ao respeito?

Nom há quase curdos em Girê Sîpi, especialmente após a ocupaçom do ISIS. Som árabes e turcomanos os que vivem nessas áreas. A nossa filosofia nom inclue umha negaçom ou exclusom de qualquer dos povos desta regiom. O nosso objetivo é criar áreas livres onde todos poidam representar-se a eles próprios. Como digem antes, o que pretendemos com a operaçom de Girê Sîpi é ter certeza de que todos os povos vivam em um ambiente democrático.

Nom está Burkan Al Fırat, com quem realizam as operaçons conjuntas para a libertaçom de Girê Sîpi, composto por combatentes árabes?

Certo. Burkan Al Fırat está composta principalmente por árabes. Os seus combatentes som filhos do povo árabe. O objetivo das nossas operaçons nom é conduzir os povos árabes e turcomanos deste território, mas, polo contrário, criar umha vida livre e igual em conjunto com eles.

A constituiçom dos nossos cantons também estará vigente para os povos que vivem aqui, que também ganharam igual representaçom nos cantons, levando umha vida livre com as suas próprias identidades e culturas. Ninguém deveria duvidar. Vários povos e grupos de crenças no cantom de Cizîrê estám vivendo em igualdade e fraternidade agora. O modelo aplicado no Cantom de Cizîrê também será reconhecido em Girê Sîpi e todas as áreas onde as YPG / YPJ estám presentes. Esses povos que forom escravizados sob a perseguiçom do ISIS estám apoiando as nossas operaçons e os árabes e turcomanos que afluem aos à fronteira estám fugindo da crueldade do ISIS.

Finalmente, que che gostaria dizer sobre a vitória do HDP nas eleiçons no Curdistam do Norte?

Parabenizamos a vitória do HDP e imos respondê-la com a libertaçom de Girê Sîpi. A importância da vitória HDP para a liberdade e fraternidade dos povos é tam grande quanto a importância da libertaçom de Girê Sîpi para a liberdade dos povos.

Nós também homenageamos às vítimas do sangrento ataque que tivo como alvo o mitim do HDP antes das eleiçons, e desejo umha rápida recuperaçom aos feridos. Reiteramos a nossa promessa de permanecer fiéis aos nossos mártires e reforçar a luita. O passar o limite do 10% polo HDP foi umha resposta significativa para nossos mártires. Também imos tentar ser dignos das suas memórias, libertando Girê Sîpi. Nesta base, nós saudamos a todos os povos do Norte do Curdistam e da Turquia, de Amed, em primeiro lugar, e felicitamo-los pola sua vitória.

Esta entrevista foi realizada o domingo 14 de Junho pola manham, horas antes de rachar as defesas prévias a Girê Sipi e começar a batalha pola cidade.

Revoluçom de Lapis de Labios

liprevolution3Por Naila Bozo

Um dia, elas som terroristas, ao dia seguinte som femme fatales que luitam ao Estado Islâmico (Daesh). A discussom sobre se as luitadoras curdas som a primeira, a segunda ou umha terceira cousa é dinâmica, e a percepçom pública delas muda facilmente devido à falta de investigaçons a fondo sobre as mulheres reflexadas como seres humanos políticos, as idéias políticas simplesmente nom se retwuiteam tanto quanto umha mulher mata-ISIS. O poder de influenciar a sua imagem está nas maos de quase qualquer pessoa, mas também nas mulheres curdas nas próprias linhas de frente.

Ontem, a estrela de pop curda Helly Luv lançou o seu mais recente vídeo da música chamado “Revolution”. Ele abre com cenas da vida cotidiana em umha aldeia curda, quando de repente acontece umha explosom. Homes, mulheres e crianças caem no chao, mortos ou feridos, enquanto os sobreviventes fogem de um inimigo vestido de preto conducindo um tanque para a aldeia. É em resumo à realidade da vida como tem sido durante meses no Curdistam, no Iraque e na Síria.

Umha única pessoa nom está fugindo dos disparos do tanque: Helly Luv, vestindo tacóns dourados, pulseiras de tornozelo e jóias à cabeça ligada a um keffiyeh vermelho que cobre o rosto com exceção dos fortes olhos. Durante todo o resto do vídeo, ela está dançando em carros abandonados, atirando o inimigo e resgatando umha criança.

O caráter hipersexual de Helly Luv em umha zona de guerra reforça a interpretaçom das luitadoras curdas como umhas femme fatale o que é irônico ja que as suas chamadas na cantiga Revolution é o que as combatentes curdas já estam realizando diariamente e tenhem posto os alicerces há décadas ainda que no vídeo acrescenta às noçons equivocadas das luitadoras curdas.

Um descriçom digerível após o outro tornar umha luita complexa e os seus combatentes igualmente complexos em vários artigos, media metragens e discussons como esta introduçom a “Seven women peacemakers who should be on your radar”: “Quando se trata de mulheres e conflitos, os mídias muitas vezes oferecem duas narrativas. Em um extremo do restritivo espectro, as mulheres som vítimas e sob o cerco – vulneráveis, isoladas, e indefesas. E do outro lado, como evidenciado pola recente cobertura de combatentes curdas na Síria e no Iraque, vemos umha famosa, se nom feticeira, imagem da mulher como guerreira- a sexi, rude empunhando um arma”

É como se as luitadoras curdas deveramm ser entendidas dentro dos limites da seduçom oriental, porque é muito difícil para as pessoas de fora das regions curdas compreendê-las no seu verdadeiro contexto das suas luitas individuais e coletivas. Ao invés de reconhecer um espírito guerreiro inerente às mulheres, som reduzidas a pedaços em umha estratégia mediática e militar construída polo home curdo.

Já houvo acusaçons nos mídias que destacam as combatentes curdas como comunistas bonitas mata-Daesh, um argumento que ignora às mulheres soldados de outras nacionalidades, outro que algumhas dessas combatentes som crianças. Eu concordo com as objecçons, na medida em que a decisom das mulheres curdas para luitar e sua vontade de continuar devem ser interpretadas como específicas a cada mulher e como parte de um longo processo de libertar-se de umha sociedade curda tradicional e dominada polos homes. Elas nom som um instrumento de propaganda e nom devem ser menosprezadas por tais afirmaçons.

Embora o argumento usado por pessoas a milheiros de quilômetros da linha da frente pode ser que as mulheres curdas estam feitizadas e exploradas para efeitos de relaçons públicas, é preciso também considerar que a guerra ofereceu umha maneira para que as mulheres coletivamente e ao mesmo tempo deixaram o rol de dona de casa tradicional, pegar em armas e luitar polas suas crenças; crenças que cobrem tudo, desde o feminismo à proteçom dos direitos humanos à implementaçom da democracia.

É umha preocupaçom legítima que as mulheres curdas sejam retratadas como vítimas, quer terroristas ou sensuais mata-Daesh e, em vez de romper com esta posiçom redutora, Helly Luv e a sua equipe tenhem jogado na fascinaçom bipolar com as luitadoras curdas.

O videoclipe foi concebido para ser um ponto de encontro inofensivo para os curdos para lembrar os caídos e ser inspirador no que já foi um período de pesadelo para nom só o povo curdo, mas o povo sírio e o iraquiano também. No entanto, ele nom provoca essa resposta em mim. Vem transversalmente como umha espécie de revoluçom músical de Lapis de labios devido à sua história simplista amosando umha mulher hipersexual gritando palavras como “unidade” e “revoluçom” e, mais ainda, após um comentário de Helly Luv feito no making of do vídeo e as pessoas que aparecem nos primeiros minutos: “Eu sentim-me tam emocionada filmando esta parte. Todas estas belas pessoas inocentes eram as mesmas pessoas que escaparam do ISIS! Eu nom queria atores. Eu queria que eles contaram a história e a dor que viram e sentiram.”

Eu nom vejo a sua história, nem a sua dor. Eu nom estou  conmovida nem inspirada. Eu vejo o contraste entre umha zona de guerra com crianças mortas e umha mulher em tacons de ouro e, unhas vermelhas longas dançando em um carro. Eu vejo a estrela pop de Los Angeles perpetuando a percepçom das luitadoras curdas como ” sexis, rudes empunhando um arma.” Eu vejo umha revoluçom de lapis de labios.

Publicado em kurdishrights.org